VOLUME ÚNICO
Capítulo 4
— Você está bem? — perguntei.
Era uma pergunta idiota, mas eu não sabia o que mais perguntar. Ela tinha sorte de estar viva e provavelmente precisava ir para um hospital imediatamente. Ela se sentou em cima do monte de neve, inclinou a cabeça levemente e perguntou:
— Eu te conheço?
Eu não respondi. O japonês dela era perfeito, no entanto, havia algo de estranho na maneira como ela falava. Sua voz soava oca, mas ela não parecia anormal, tirando o fato de que, há um momento, estava quase morta.
Ela segurava as latas de chá com leite nas mãos, esperando minha resposta.
— Quem é você? — perguntei.
Ela não disse nada.
— Por que está aqui?
Silêncio.
— Alguém te machucou?
Essa última pergunta provocou uma reação nela. Ela colocou um dedo nos lábios e pareceu pensar, depois sorriu com tristeza e deu de ombros.
Que tipo de resposta era aquela? Ela não parecia nem um pouco preocupada com a situação.
Por enquanto, eu deveria me concentrar em levá-la para um lugar seguro. Olhei ao redor. Não havia sinal de ninguém vindo em nossa direção. O que significava que era minha responsabilidade levar essa garota para um lugar seguro.
Coloquei meu braço em volta de seus ombros e a ajudei a se levantar.
— Devemos ir ver um médico. Acho que há um na vila.
Ela parecia concordar comigo, mas assim que mencionei a palavra “vila”, resistiu.
— O quê?
Soltei-a. Ela se sentou na pilha de neve, sua expressão tranquila repentinamente perturbada por uma careta. Suspirei.
Que chatice. Mas pelo menos ela tem alguma força.
Sentei-me ao lado dela e tirei uma lata de suas mãos. Abri-a e tomei um gole. Eu disse:
— Meu nome é Yamato Satoshi. Não moro aqui, mas minha tia mora e vim visitá-la nas férias de inverno.
Isso resumia mais ou menos meus 17 anos de vida. O engraçado é que, para a maioria das pessoas, esse resumo inicial de suas vidas permanecerá com aproximadamente o mesmo tamanho até bem adentrado a idade adulta. Talvez acrescentem mais duas linhas: frequentou a universidade XXX com diploma em XXX, trabalhou para a empresa XXX e depois foi sepultado em um caixão feito de madeira XXX. Morreu sozinho. Sem esposa e filhos. Pelo menos não com as atuais taxas de natalidade do Japão.
— E qual é o seu nome? — perguntei.
— Meu nome?
Ela olhou para mim e, em seguida, ergueu os olhos para o céu. Um momento de silêncio absoluto. Sem pássaros, sem veados, sem flocos de neve caindo. Era como se a própria natureza respeitasse seu momento de contemplação. Ela disse:
— Eu não tenho nome.
Ela estava mentindo. No momento em que olhou para cima, ela estava ponderando sua resposta. Se realmente não tivesse um nome, teria tentado se lembrar primeiro e talvez parecesse um pouco confusa. Mas quando olhou para o céu, estava completamente em paz.
— Não acredito em você.
Ela se virou para mim, com uma expressão vaga.
— Yamato-kun? Posso te chamar assim?
— Claro.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou.
Então agora era ela quem fazia as perguntas. Decidi entrar na onda por enquanto. Talvez eu descubra quem ela é.
— Como eu disse, estou aqui para visitar minha tia.
— Mas por que você está na minha floresta?
— Na sua floresta?
Ela não disse nada. Ela esperou.
— Estou aqui só para dar uma volta — eu disse.
Ela tentou abrir a lata de chá com leite (que, tecnicamente, é minha), mas parecia ter dificuldade. Abri a lata para ela, e ela sorriu como uma criança, segurou-a com as duas mãos e bebeu com gosto.
— Esta é a sua floresta? Seu pai é proprietário? Ele é dono desta floresta? — perguntei.
— Meu pai… — ela murmurou e sua expressão ficou triste, e antes que eu pudesse fazer mais perguntas, ela olhou para mim com um sorriso tímido — Yamato-kun, o que você acha que eu sou?
— Como assim? Quer dizer que você não é do Japão? Você é estrangeira? — perguntei.
Ela balançou a cabeça. Ela perguntou novamente:
— O que você acha que eu sou?
Suspirei. Conversar com ela era um saco. Eu estava quase me levantando e indo embora, mas a decência me impediu de deixar uma garota no meio da neve. Eu disse:
— Se você não tem um nome, posso te dar um, se quiser.
Ela piscou, com uma expressão vazia no rosto.
— Tudo bem.
Como devo chamá-la?
Olhei ao redor e depois para ela. Cabelos longos e negros, traços finos no rosto, um quimono branco como a neve.
Eu disse:
— Yuki?
— Yuki... — ela pareceu pensar um pouco e depois assentiu — Yuki serve.
Quase ri. Yuki era provavelmente o nome mais preguiçoso que eu poderia inventar. Yuki me perguntou de novo.
— O que você acha que eu sou?
— Você é uma garota. — eu disse.
— Que tipo de garota?
— Uma estrangeira?
— Talvez.
— Japonesa?
— Talvez.
Essa garota estava só brincando comigo. Se ela tinha energia suficiente para isso, então provavelmente não iria morrer tão facilmente. Não havia necessidade de eu levá-la ao hospital.
Levantei-me, sacudi a neve das calças e virei-me para ela.
— Não tenho tempo para isso. Vou voltar para a vila. Você pode vir comigo, se quiser.
O sol estava se pondo e meu corpo projetava uma sombra longa e estreita na neve. Yuki também se levantou e o sol a atingiu.
Espere!
Isso não podia estar certo. Havia apenas uma sombra no chão: a minha. Olhei para o monte de neve. Estava em perfeitas condições, exceto pela marca que eu deixei ao sentar-me. Não havia nenhum sinal de que Yuki tivesse tocado nele. Yuki inclinou ligeiramente a cabeça e sorriu.
— O que você acha que eu sou?
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