SESSÃO 8

190 – A Determinação de Ayaka Tōjō ⑦ - Parte 2

   Início da tarde no hospital.

   O leve cheiro de ataduras e adesivos medicinais pairava no ar enquanto caminhava rapidamente pelo corredor.

   Quando chego ao quarto que procuro, paro em frente à porta e respiro fundo para me acalmar.

   Colocando suavemente a mão sobre o peito para conter as batidas aceleradas do coração, entro devagar no quarto.

“Kiyoko-san.”

   Quando me aproximo da cama e falo, Kiyoko me olha com uma expressão levemente surpresa.

“Oh, Ayaka! Você veio me visitar?”

“Ah, sim.”

“Nossa, muito obrigada.”

“Não, imagina. Como você está se sentindo?”

   Ao me aproximar de sua cama, ela responde com um sorriso radiante.

“Estou muito bem. Obrigada por se preocupar comigo.”

   Então faz um gesto gentil para a cadeira ao lado da cama. “Por favor, sente-se.”

   Eu me curvo educadamente e me sento, observando sua expressão.

   A cor do rosto dela está boa, e seu humor é animado.

   Parece que a recuperação está indo bem.

“Você já começou a reabilitação?”

“Só um pouquinho hoje. Tentei andar dois ou três passos esta manhã.”

   Ela diz de forma alegre, depois inclina levemente a cabeça.

“O Haruto…?”

“Ah, o Haruto foi pescar com o meu pai.”

“Entendi, entendi.”

   Kiyoko acena lentamente, irradiando aquela aura suave e gentil de sempre.

“Meu pai estava tão animado por poder ir pescar com o Haruto.”

“Oh nossa, tenho certeza de que o Haruto está feliz também. Acho que ele nunca foi pescar antes.”

“Meu pai disse: ‘Vamos ter um banquete no jantar hoje!’ Só espero que ele não esteja fazendo o Haruto se esforçar demais.”

   O papai realmente adora o Haruto, então às vezes ele se empolga e exagera.

   Kiyoko dá uma risadinha suave. “Tudo bem. Aquele menino gosta desse tipo de coisa. Tenho certeza de que eles estão se divertindo.”

   Como esperado da Kiyoko — ela realmente sabe tudo sobre o Haruto.

   Me pego encarando ela, a mulher que criou o Haruto.

“Há algo errado?”

   Ela percebe meu olhar e sorri gentilmente.

“Um… eu queria perguntar algo.”

“Sim, o que seria?”

“Bem…”

   Sinto meu coração bater ainda mais forte; cerro as mãos com força e falo.

“O que você acha… que significa amar alguém?”

   Minha voz treme um pouco entre o nervosismo e a curiosidade enquanto espero sua resposta.

“Amar, é isso?”

   Ela repete a palavra devagar e, sem demonstrar desconforto com o tema repentino, começa a falar suavemente.

“Eu sou de uma geração mais antiga, sabe. Naquela época, nós não usávamos muito a palavra ‘amar’. Dizer ‘eu te amo’ é algo que as pessoas começaram a fazer mais recentemente.”

“O quê!? Sério?”

“Sim. Claro, a palavra existia, mas não dizíamos diretamente para a pessoa de quem gostávamos.”

     Eu… eu não sabia disso.

     Hoje em dia, a frase “eu te amo” está em todo lugar — mangás, dramas, músicas…

     Então é isso que chamam de diferença de geração, né?

“Então, como as pessoas expressavam seus sentimentos naquela época? Não tornava as confissões meio difíceis?”

“Bem, naquela época, casamentos por romance eram raros. Encontros arranjados eram comuns.”

“Ah, entendi…”

“Mas mesmo assim, as pessoas ainda transmitiam seus sentimentos adequadamente.”

“Como elas faziam isso?”

     Dava mesmo para expressar amor sem dizer ‘eu te amo’?

“Por exemplo,” ela diz pensativa, “um homem podia dizer: ‘Hoje eu volto cedo pra casa’, ou ‘Seu missoshiru é sempre delicioso.’”

“Eh? Isso significa ‘eu te amo’?”

“Sim.”

     O quê!? O amor antes era tão difícil de decifrar!?

     Se fosse comigo, eu ficaria preocupada que a mensagem não tivesse chegado!

   Enquanto tento processar isso, Kiyoko ri suavemente.

“Os homens daquela época deviam ser calados e dignos. Mas mesmo que as palavras e os modos mudem, algumas coisas nunca mudam.”

“Que tipo de coisas?”

“O sentimento de se importar com alguém.”

   Ela diz isso com um sorriso lindo.

“Quando você está sozinha, pensa naquela pessoa. Mesmo quando estão longe, você ainda sente ela perto.”

   Fico encantada com suas palavras.

   Elas carregam o peso de uma vida inteira — palavras de quem realmente viveu e amou.

“Ayaka, para mim, amar alguém significa compartilhar seu coração.”

“Compartilhar… o seu coração?”

“Sim. Quando você ama alguém, você divide o seu único coração e entrega uma parte dele para aquela pessoa. E em troca, você recebe uma parte do coração dela. Você encaixa essa parte no pedaço que entregou.”

     Dar parte do meu coração… e receber parte do dele…

     Isso significa encaixar o coração do Haruto no meu?

   Escuto atentamente para não perder uma palavra sequer.

“A parte que você recebe não era originalmente sua, então no começo parece estranha. Tem espaços, tem saliências — não encaixa perfeitamente. Mas isso vale para ambos. Com o tempo, conforme vocês cuidam e valorizam esse coração compartilhado, os espaços desaparecem. As bordas se suavizam. E eventualmente, torna-se um só, como se sempre tivesse sido assim. Isso, eu acredito, é amar alguém.”

[Almeranto: Depois dizem que essas obras são apenas historinhas. Isso é um baita ensinamento. Mudou meu jeito de pensar até. ]

   Quando termina, Kiyoko sorri serenamente, encontrando meus olhos.

   Nesse instante, prendo a respiração.

   Com o sol entrando pela janela, seu sorriso é claro e amplo — como a superfície calma de um mar tranquilo.

“A pessoa a quem confiei meu coração já não está mais neste mundo. Quando ele faleceu, a parte do meu coração que estava nele deve ter desaparecido também. Foi como se uma parte de mim tivesse morrido. Mas a parte do coração dele que está em mim ainda vive.”

   Kiyoko pousa delicadamente a mão no peito.

“O coração dele vive junto com o meu. É por isso que posso continuar vivendo — observando o Haruto com um coração completo, junto com ele.”

   As palavras dela penetram fundo no meu peito.

     Incrível…

     Então isso é… o que significa amar alguém…

   Os sentimentos de alguém que amou uma única pessoa durante toda a vida.

   Fico quase sufocada — pela presença dela, pelas palavras dela, pelo ar ao redor.

   E ao mesmo tempo, sinto… medo.

   Porque “amar” parece tão mais profundo do que apenas “gostar”.

   É cheio de uma decisão, cheio de coragem.

   Uma garota como eu consegue mesmo fazer isso?

   Só recentemente comecei a entender o que é romance… ainda sou só uma estudante do ensino médio.

   Amor é ardente, mas também quente e gentil — guarda tantos sentimentos dentro de uma única palavra.

     Será que eu realmente amo o Haruto?

     Será que posso chamar o que sinto agora de “amor”?

   Essa pergunta ecoa de novo e de novo em minha mente.

   Kiyoko dá um pequeno sorriso, quase de desculpas.

“Desculpe. Essa foi uma história pesada.”

“N-não! Foi muito significativa! É só que… comecei a me perguntar se consigo realmente amar o Haruto… ah!”

     Eu falei alto demais!

     Eu disse — eu disse que estava preocupada por amar o Haruto!

   Começo a agitar as mãos em desespero.

“Uh, quer dizer! O que eu quis dizer foi… que eu quero amar o Haruto, um…”

     Eu queria organizar meus pensamentos antes de dizer isso! Ugh, que idiota!

     Mas agora que falei tudo isso… tenho que dizer.

     Que quero me casar com o Haruto.

     Mas… depois das palavras da Kiyoko, será que estou realmente pronta?

   Enquanto hesito, ela começa a falar calmamente.

“Ayaka, o Haruto me contou. Quando eu desmaiei, você ficou o tempo todo ao lado dele, apoiando-o.”

“Ah… sim.”

“Ficar ao lado de alguém e apoiá-lo não é fácil. O fato de você ter feito isso mostra grande força.”

“M-muito obrigada…”

   O elogio faz meu corpo esquentar, minhas bochechas arderem de alegria e vergonha.

“Quando acordei e o Haruto veio me visitar, levei um susto — a expressão dele tinha mudado.”

“A expressão dele?”

“Sim. Antes, sempre que algo acontecia comigo, ele parecia perdido, como uma criança sem rumo — tão tenso, como um balão prestes a estourar. Mas desta vez foi diferente. Ele disse: ‘Agora está tudo bem,’ sorrindo tão naturalmente.”

   Kiyoko sorria enquanto recordava.

“Ele ficou mais forte. E essa força veio de você, Ayaka. Seus sentimentos e suas ações o transformaram.”

   Então ela me olha com ternura.

“Vai ficar tudo bem, Ayaka.”

   As palavras dela acalmam completamente meu coração ansioso.

   É verdade… quando ela desmaiou, e o Haruto estava tão aflito que não conseguia dormir, eu tomei uma decisão.

   A dor dele, os medos dele — eu dividiria tudo.

   As dificuldades, nós dividiríamos ao meio.

   A felicidade, multiplicaríamos juntas.

   É esse tipo de vida que quero ter com o Haruto.

   Kiyoko disse que, quando dois corações se juntam, no começo há desconforto.

   E a mamãe me disse também: encare as diferenças e construam o laço ideal.

   Está tudo bem se eu não amar perfeitamente desde o começo.

   Está tudo bem se não for perfeito.

   Vou levar o tempo que for necessário para conhecer o Haruto mais profundamente — e um dia, serei capaz de amá-lo como a mamãe e a Kiyoko amaram.

   É verdade que ainda sinto insegurança — mas não vou hesitar mais.

   Eu amo o Haruto. Quero amá-lo.

   Fecho as mãos, firme, e olho diretamente para ela.

“Kiyoko.”

“Sim?”

“Eu amo o Haruto. Quero amá-lo.”

“Sim.”

“Eu quero caminhar pela vida com ele. Quero me casar com ele!”

     Eu disse!

   Mas não me arrependo. Minha decisão agora é firme.

   Depois de me ouvir, Kiyoko fecha os olhos por um momento em silêncio.

   Então os abre devagar e se senta ereta na cama, dobrando as pernas por baixo.

“Quando você se tornou namorada do Haruto pela primeira vez, eu disse a mim mesma para não dizer isso. Não queria que minhas palavras prendessem sua vida. Mas parece que minhas preocupações eram desnecessárias.”

   Ela se curva profundamente, ainda sentada de forma formal.

“Por favor, cuide bem do Haruto de agora em diante, por muito, muito tempo.”

   Assustada, eu imediatamente me sento ereta na cadeira e me curvo de volta.

“N-não, eu que deveria dizer isso! Apesar de ser inexperiente, por favor cuide de mim também!”

   Por quase um minuto, continuamos nos curvando uma para a outra antes de erguer as cabeças e rirmos juntas.

“Um, Kiyoko.”

“Sim?”

“Eu amo o Haruto, mas também quero amar você como família.”

“Oh nossa, que doce da sua parte.”

“Eu quero que você permaneça saudável e viva muito!”

   Quando digo isso, ela sorri de um jeito adorável.

“Fufu, sabe, o Haruto disse algo parecido uma vez — ele me pediu para me tornar imortal.”

“Eu sinto o mesmo! Ainda quero que você me ensine muitas coisas de culinária, e também quero tricotar juntas de novo!”

   Eu despejo todos os meus sentimentos diretamente para ela.

“Então por favor, fique saudável para sempre, Vovó!”

 

 

– Almeranto: Que capítulo incrível,  aprendi muita coisa com ele.

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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