SESSÃO 8

177 – Serenidade ao Entardecer

 

   O fim de semana havia terminado, e na sala de aula tomada por uma atmosfera sonolenta, uma voz particularmente preguiçosa se levantou.

"Daaahh… por que eu tive que voltar do Reino dos Sonhos para a realidade?"

   Tomoya estava deitado sobre a mesa de Haruto, arqueando o corpo dramaticamente e olhando para o céu com um suspiro de desespero.

"Eu quero voltar para o mundo dos sonhos~~ A realidade é ruim demais~~ Estudos, desapareçam deste mundo~~"

"Se você continuar dizendo ‘ruim ruim’, só vai se sentir ainda pior."

   Haruto falou com uma expressão cansada, e Tomoya olhou para ele com um grande suspiro.

"Você tem muita sorte, Haru. Mesmo quando volta pra realidade, você tem a namorada mais fofa do mundo."

"É."

"Não concorda tão naturalmente assim, isso me irrita."

"Não posso fazer nada. A Ayaka é a melhor namorada."

"A Tojo-san é a melhor. Mas me irrita você admitir isso."

"Com inveja?"

"Com inveja."

   Os dois trocaram sua típica conversa descontraída.

   Desse jeito, Tomoya parecia que ia derreter como um slime de tanto cansaço.

   Haruto lançou um olhar discreto para Ayaka, que estava cercada pelas garotas no centro da sala. Seus olhos se encontraram e ela sorriu suavemente. No mesmo instante, as garotas ao redor deixaram escapar pequenos gritinhos.

   Haruto devolveu o sorriso e, em seguida, desviou o olhar dela de propósito. Imediatamente, o quase-derretido Tomoya reclamou: "Para de flertar."

"Por que você não arruma uma namorada também?"

   Haruto falou, só para receber um olhar afiado de volta.

"Que diabos é isso!? A postura confiante de um cara feliz!? Droga, nesse ponto só posso contar com a bênção do arcanjo Ryota!"

   Tomoya tirou um chaveiro em forma de coração que Ryota havia lhe dado no parque de diversões, segurou firme e começou a rezar.

"Você realmente carrega isso com você?"

"Claro! Esse chaveiro tem poderes de verdade!"

"…Você sabe que tipo de poder esse chaveiro supostamente tem?"

"Sorte no amor, né? Não me subestima."

"…Tá bom."

   Tomoya fez uma cara de “isso é óbvio”, e Haruto apenas assentiu de forma constrangida.

   Nesse momento, Saki se aproximou dos dois.

"Ei, vocês dois… o que o Akagi-kun está fazendo?"

"Aproveitando o poder total do arcanjo."

   Com um olhar desconfiado, Saki observou Tomoya de braços abertos, encarando solenemente o teto.

"De novo isso…"

   Saki mostrou uma expressão exasperada, e então percebeu o chaveiro na mão direita de Tomoya. Rapidamente, ela pegou um chaveiro igual de sua bolsa e guardou no bolso.

   Tomoya, concentrado em sua oração, não percebeu, mas Haruto viu tudo claramente.

   Talvez a bênção do Ryota seja real.

   Haruto se esforçou para não deixar os lábios se curvarem ao sentir profundamente o poder impressionante de Ryota.

"Eu posso sentir… eu posso realmente sentir o poder incrível do Ryota!"

   Haruto apenas assentiu em resposta ao amigo idiota.

"A propósito, eu queria avisar vocês: podemos pular o treino do revezamento hoje? Todo mundo ainda está cansado de ontem, certo?"

"Sim, faz sentido. Entendi."

"Akagi-kun, tudo bem pra você?"

"Tudo bem, tudo bem!"

"Então tá resolvido."

   Depois de passar o recado, Saki acenou de leve e se afastou.

   Haruto olhou para as costas de Saki, depois voltou o olhar para Tomoya, que murmurava de forma suspeita: "Tá funcionando… tá funcionando!"

"Tomoya, você devia colocar mais sentimento nas suas orações. Assim talvez você receba mesmo a bênção."

"Eu tô falando sério! Nanmaidā~~ Nanmaidā~~!"

   Como um xamã, Tomoya segurou o chaveiro com as duas mãos e começou a balançá-lo de um lado para o outro.

"Com mais seriedade, com mais sentimento no coração."

"Arcanjo Ryota! Tenha misericórdia deste cordeiro perdido~~!"

"Mais, mais."

"Quero uma namorada~~! Quero sair em encontros~~! Odeio estudar~~! Transforme todos os dias em feriado~~! Feriado infinito~~!"

"Isso não tem nada a ver com amor."

   Haruto comentou calmamente, provocando seu amigo preguiçoso cheio de desejos.

   Aquele dia escolar passou sem incidentes — exceto pelo Tomoya dizendo “Daaahh” o dia todo.

 

****

 

   Depois da escola.

   Haruto e Ayaka caminhavam lado a lado no caminho para casa.

"O Akagi-kun ficou falando ‘Daaahh’ o dia todo hoje."

"Parece abstinência do mundo dos sonhos."

"Bom, não dá pra evitar."

"No caso do Tomoya, é um choque bem grande."

   Haruto riu e Ayaka sorriu em concordância.

"A Saki deu uma bronca pra ele se recompor."

   Ayaka lembrou de Saki balançando Tomoya pelas costas para acordá-lo e riu suavemente.

"Se continuar assim, Tomoya vai acabar irritando tanto que a Aizawa-san vai perder a paciência."

"Hmm, mas a Saki parece estar se divertindo também."

"Sério?"

   A pergunta de Ayaka fez Haruto inclinar a cabeça.

"Sabe, a Saki é boa em cuidar das pessoas, né? Então acho que ela realmente gosta de conviver com alguém como o Akagi-kun."

"Então isso quer dizer que os dois combinam mesmo?"

"Acho que sim."

   Como Ayaka conhecia Saki desde a infância, Haruto levou aquilo como um sinal de que Tomoya e Saki realmente eram compatíveis.

   Enquanto pensava nisso, Ayaka, caminhando ao lado dele, falou com um tom um pouco animado.

"Se a Saki e o Akagi-kun ficassem juntos, seria tão divertido."

"Em que sentido?"

"Ah, poderíamos sair em encontros em grupo como ontem. Talvez até viagens juntos."

"Sim, isso seria divertido."

   Um encontro só com Ayaka era maravilhoso, mas um encontro animado em grupo também parecia interessante.

   Enquanto pensava nisso, Haruto sentiu a mão esquerda de Ayaka deslizar na sua.

   Ele olhou para a mão dela, depois para o seu rosto.

   Ela sorriu suavemente e olhou para o céu distante.

"Tempo bonito, né."

"Sim. O pôr do sol de hoje provavelmente vai ser bonito também."

"Quer ver o pôr do sol comigo depois?"

"Claro."

"Yay."

   Ayaka sorriu feliz.

   Haruto sentiu uma felicidade quente enquanto caminhava devagar ao lado dela.

 

****

 

"Kiyoko-san, como eu faço essa parte do tricô?"

"Aqui, você começa fazendo uma correntinha, aí faz ponto baixo até 26 pontos, isso mesmo."

"Entendi. Então, eu insiro a agulha pelo lado de trás…"

"Isso, assim mesmo. Você está indo muito bem."

   Após o jantar, Ayaka estava aprendendo tricô com Kiyoko.

   Ultimamente, passar o tempo tricotando com Kiyoko depois do jantar havia virado sua rotina.

   Ayaka focava nos pontos, enquanto Kiyoko sorria calorosamente observando.

   A expressão de Haruto suavizou ao ver as duas se dando tão bem, quando a voz impaciente de Ryota chegou aos seus ouvidos.

"Agora é a vez do Mano!"

"Ops, desculpa."

   Haruto desviou o olhar de Ayaka e Kiyoko e olhou para o tabuleiro de Othello.

   Por se distrair com as duas, havia levado uma jogada difícil de Ryota e resmungou: "Hmm."

"O Ryota-kun é realmente forte."

"Hehe. Eu vou ganhar do Mano!"

"Você não vai ganhar tão fácil."

   Haruto respondeu enquanto fazia um contra-ataque.

   A semi-coabitação de Ayaka e Kiyoko começou quando Kiyoko virou empregada da família Tojo.

   Normalmente, Kiyoko tem folga aos domingos e segundas, então Haruto deveria passar esses dias na casa dos Otsuki. Mas recentemente, Kiyoko passou a ir para a casa dos Tojo no início da tarde de segunda, então Haruto acaba indo naturalmente para a casa de Ayaka.

   De alguma forma, parece que sua avó se sente mais confortável ali, com a atmosfera animada.

   Haruto pensava nisso enquanto Ryota analisava sua próxima jogada adoravelmente, murmurando: "Hmm, se eu colocar aqui, então isso acontece…"

   Ayaka conversava feliz enquanto tricotava com Kiyoko.

   Shuichi estava sentado do outro lado da mesa de jantar, desesperadamente tentando convencer Ikue a deixá-lo comprar um novo equipamento de pesca, segurando um folheto de varas.

   Ikue sorria gentilmente enquanto rebatia calmamente seus argumentos.

   A atmosfera animada e calorosa da casa dos Tojo estava se tornando o cotidiano de Haruto.

"Essa vara de pescar consegue sentir até a mordidinha mais leve! O que significa que minha taxa de captura vai aumentar! O que significa que posso pegar muito peixe fresco e a gente vai ter banquetes luxuosos de frutos do mar em casa!"

"Hehe, isso parece maravilhoso. Tudo bem, você pode comprar. Pegue bastante peixe com essa vara, viu?"

"Com certeza!"

   Shuichi fez uma pose vitoriosa com um grande sorriso ao conseguir permissão.

   Ikue sorriu com a felicidade do marido e então chamou Ayaka, que estava ocupada tricotando.

"Você devia tomar banho logo."

"Oh? Já está nessa hora? Kiyoko-san, por favor me ensine mais amanhã."

"Claro, vai ser um prazer."

   Ayaka pegou seu tricô e se preparou para ir ao banho.

"Ah, a propósito, existem muitos tipos de fios para tricô, né?"

"Sim. Hoje em dia tem muitas variedades nas lojas."

"Quero ver algum dia. Hm… se não for incômodo, você gostaria de ir ver fios de tricô comigo algum dia?"

   Ayaka perguntou de forma tímida.

   Kiyoko sorriu calorosamente, aprofundando as rugas do rosto com alegria.

"Sim, vamos com certeza."

"Obrigada! Estou ansiosa por isso!"

   Ryota, que estava concentrado no Othello, reagiu.

"Mana, você vai fazer compras com a vovó?"

"Sim."

"Eu quero ir também!"

"Claro."

"Yay! Então vamos todos juntos, Mano!"

   Ryota sorriu com pura felicidade.

   Haruto sorriu suavemente também.

   A vida cotidiana é calorosa e gentil na casa Tojo.

   Haruto, observando Kiyoko levantar lentamente do sofá atrás de Ayaka, pensou:

     Quão sortudo eu sou por ter esse tipo de vida cotidiana?

   Antes das férias de verão começarem, eram só os dois — Haruto e Kiyoko — a única família restante.

   Era uma vida muito silenciosa.

   Mas agora, havia se tornado uma vida animada, cheia de sorrisos sem fim.

   Haruto sentia gratidão por Ayaka, que se tornou sua namorada, e pela família Tojo, que acolheu os dois, e um sorriso gentil se espalhou em seus lábios ao aproveitar aqueles dias felizes.

   Nesse momento, seus olhos captaram sua avó.

   Para Haruto, ela era sua única família, uma presença preciosa e insubstituível.

   De repente, sua silhueta vacilou por um instante.

   E, no momento seguinte, ela cambaleou fortemente e perdeu o equilíbrio.

   Para Haruto, pareceu acontecer em câmera lenta.

   Mas a câmera lenta foi quebrada pelo som alto do corpo de Kiyoko caindo no chão.

"...Vovó?"

   O acontecimento foi tão repentino que Haruto ficou atônito, com a expressão vazia.

   Ayaka, que estava prestes a ir ao banho, virou ao ouvir o barulho alto da queda de Kiyoko e parou no lugar.

   Os olhos de Ryota se arregalaram de surpresa.

   Shuichi e Ikue se levantaram das cadeiras, tentando entender o que estava acontecendo.

   Por um instante, parecia que o próprio tempo havia parado.

   Um momento que, para Haruto, pareceu eterno.

   Depois de um instante muito longo e ao mesmo tempo muito curto, o corpo de Haruto se moveu sozinho.

"Vovó!!"

   Haruto gritou enquanto corria até sua avó.

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