SESSÃO 1

2 - Nossa Primeira Cliente

 

   O calor do verão não mostrava sinais de ceder, mesmo à noite. Em meio ao barulho ensurdecedor das cigarras, Otsuki Haruto segurava a camisa suada e grudenta do uniforme e abriu a porta da frente de casa, abanando as mãos para se refrescar.

"Cheguei."

   Ao tirar os sapatos, uma pessoa veio lentamente do fundo do corredor.

"Bem-vindo de volta, Haruto."

"Cheguei, vovó. Aqui, ó — estavam em promoção no supermercado no caminho pra casa."

   Haruto levantou um pouco a sacola que segurava em uma das mãos e fez uma expressão orgulhosa.

   Dentro da sacola estavam os tesouros do dia: carne moída e cebolas.

"A carne moída estava 118 ienes por 100g, e o pacote com cinco cebolas estava 298 ienes."

"Meu Deus. Devia estar lotado, não é?"

   A avó disse, preocupada, enquanto recebia a sacola.

"Foi aí que percebi o quão fortes as donas de casa são."

   As donas de casa, movidas por sua missão de garantir ingredientes baratos, têm um potencial que não perde em nada para o de garotos do ensino médio, cheios de juventude e vigor físico.

   O rosto de Haruto ficou sério ao se lembrar de ter sido empurrado por um grupo dessas donas de casa — a espécie mais poderosa — a caminho de casa numa tarde de verão.

"Deve ter sido difícil. Vamos jantar hambúrguer hoje à noite."

   O rosto de Haruto se iluminou na hora ao ouvir a sugestão de jantar da avó, que também era um elogio por seu esforço.

"Se for pra comer o hambúrguer da vovó, eu enfrento donas de casa todo dia!"

"É mesmo? Então vá lavar as mãos e fazer gargarejo."

"Sim!"

   Haruto respondeu e foi até a pia. Depois de lavar bem as mãos e fazer gargarejo, seguiu para o quarto de estilo japonês.

   Havia um altar budista encostado na parede do quarto, e sobre ele estavam três retratos de familiares falecidos.

"Voltei, mãe, pai... e vovô também. Hoje começam minhas férias de verão."

   Disse Haruto em voz baixa, juntando as mãos diante dos retratos.

"Nestas férias, eu vou trabalhar meio período."

   Com as mãos ainda em prece, ele continuou a falar com as fotos.

"Mas vou estudar bastante também, então não se preocupem. Ah, e vou continuar indo ao dojô, pode deixar, vovô."

   Atualmente, apenas Haruto e sua avó restavam na família Otsuki.

   Seus pais haviam morrido em um acidente de carro quando ele era criança.

   Por sorte, Haruto sobreviveu e foi acolhido pelos avós maternos.

   Para garantir que o neto, que perdera os pais tão cedo, não tivesse dificuldades no futuro, eles o criaram com disciplina rigorosa, sem mimos.

   Seu avô o colocou em um dojô de caratê para fortalecer corpo e mente.

   Sua avó o ensinou com firmeza sobre limpeza, lavanderia, culinária e outras tarefas domésticas, para que ele não dependesse de ninguém.

   Graças a isso, Haruto agora conseguia se virar sozinho e adquirira habilidades domésticas suficientes para trabalhar meio período em um serviço de limpeza residencial.

"Bem, acho que vou ajudar a vovó."

   O avô de Haruto havia falecido pouco antes de ele entrar no ensino fundamental II.

   Ele juntou as mãos novamente e foi para a cozinha.

   Haruto se orgulhava de quanto suas habilidades culinárias haviam melhorado graças ao treinamento da avó, mas ainda não conseguia reproduzir o sabor dela — sua mestra.

   Para se aproximar de seu nível, Haruto ficava todos os dias ao lado da avó na cozinha, tentando aprender seus segredos e intuição culinária.

"Os hambúrgueres da vovó são os melhores..."

   Haruto imaginou o suco da carne escorrendo ao morder o hambúrguer e engoliu em seco a saliva que ameaçava sair enquanto ia para a cozinha.

 

****

 

   Depois do jantar, Haruto estava sentado à escrivaninha do quarto, com livros de referência abertos.

"Ahh... os hambúrgueres da vovó são os melhores..."

   Ele estava na postura de quem estuda, mas ainda saboreava mentalmente o jantar — a caneta nem se mexia.

   Haruto ficou um tempo sonhando acordado, mas logo se recompôs, balançou a cabeça e murmurou "não, não", voltando a encarar os livros com seriedade.

   Após cerca de uma hora de estudos concentrados, Haruto largou a caneta e se espreguiçou.

"Hmm, acho que vou tomar banho agora."

   Como as costas de sua avó vinham piorando, era ele quem limpava o banheiro.

"É melhor não demorar, senão fica chato."

   Quando interrompeu os estudos e foi em direção ao banheiro, o celular sobre a mesa vibrou.

"Hmm? É do Tomoya?"

   Ao ver o nome Akagi Tomoya na tela, Haruto pegou o celular e tocou no ícone vermelho do telefone.

"Alô, o que foi?"

"Ei. Eu só queria ouvir a voz do Haru de repente."

"Entendi. Que sinistro. Tô desligando."

   Haruto tentou encerrar a ligação na hora, mas ouviu uma voz apressada do outro lado.

"E-e-e-espera! Era brincadeira, brincadeira! Tenho um assunto pra falar!"

"Então fala isso desde o começo. Pensei que minhas orelhas iam cair com essa entrada bizarra."

"Caramba, pesado isso."

"Metade foi brincadeira, metade não."

"Tá bom, tá bom. Vamos nos ver na volta às aulas."

"Desculpa! Prometo que não brinco mais!"

   Ouvindo o desespero do amigo, Haruto apoiou os cotovelos na mesa e sorriu.

"Você quer contar alguma fofoca interessante da escola, né?"

"Fofoca interessante? Aconteceu sim."

   Seu melhor amigo, Tomoya, era do tipo popular e sempre sabia de tudo que acontecia na escola. Ele adorava repassar essas histórias — como agora.

"É o seguinte. Você conhece o Minato-senpai, do terceiro ano?"

"Ah... o do clube de tênis?"

   Haruto demorou um pouco para lembrar de quem Tomoya falava. Pelo que recordava, Minato-senpai era o ás do clube de tênis, com nível quase profissional.

   Diziam que ele planejava assinar contrato com uma grande marca após a formatura, e as garotas da escola comentavam animadas que, se namorassem ele agora, poderiam se casar com um homem rico no futuro.

"Esse mesmo. Parece que o Minato-senpai se declarou pra Tojo-san."

"Ah, é?"

   Haruto já começava a perder o interesse, mas pediu que o amigo continuasse.

   Uma confissão para Tojo Ayaka.

   Isso era um evento recorrente na escola deles, e o desfecho também era sempre o mesmo.

"Ela recusou na hora, né?"

"Pois é."

   Como esperado, Haruto respondeu sem entusiasmo.

   Tojo Ayaka jamais dizia “sim”, não importava quem se declarasse.

   Era assim que ele a via.

"Mas parece que dessa vez foi diferente."

"Como assim? Um cenário elaborado?"

   Todos que já haviam se declarado para Tojo Ayaka tentaram as mais diversas estratégias para conquistá-la.

   Algumas confissões eram tão extravagantes que viravam assunto entre os alunos.

"Mais do que elaborado — essa foi ousada."

"Tipo uma confissão pública na frente da escola toda?"

"Esse seria o estágio final. Mas primeiro, o Minato-senpai chamou a Tojo-san pelo alto-falante da escola."

"Uau..."

   Haruto soltou uma voz de surpresa, sentindo pena de Tojo por ser chamada assim.

"E o pior: a confissão dele não foi pra pedir namoro, mas noivado."

"Noivado... O Minato-senpai enlouqueceu?"

"Pois é. E parece que ele até levou um anel de noivado."

"Uau..."

   Haruto ficou chocado pela segunda vez no dia.

   Falar em noivado ainda no ensino médio já era absurdo — levar um anel, então, beirava a insanidade.

   Seria que o Minato-senpai tinha perdido a noção? Ou Tojo Ayaka era tão encantadora que fazia até alguém sensato como ele perder o juízo?

   Haruto não soube decidir.

"Depois de levar o fora, o Minato-senpai ficou parado por 30 minutos."

"É justo. Se fosse eu, colocava roupa branca e cometia seppuku na hora."

[Almeranto: Acho que não é pra tanto, mas deve ser uma humilhação.]

   Só de imaginar ser rejeitado após uma confissão assim fazia Haruto estremecer.

"Você é o único que pode conquistar o coração da Tojo-san!"

"Nem vem. Depois de ouvir isso, nem coragem eu tenho de falar com ela."

"Qual é, seu covarde? Enfim, nem vou ver a Tojo-san até as aulas voltarem. Tô ansioso pra te ver depois das férias."

"Nem cria expectativa."

"Você é o único que pode se tornar o próximo Minato-senpai!"

"Isso não é elogio!"

   Haruto encerrou a ligação após essa resposta.

   Logo em seguida, recebeu um sticker de um gato com expressão séria fazendo continência.

   Ele respondeu com um sticker de um coelho musculoso dando um uppercut e se levantou para esquentar o banho.

   Para Haruto, a colega Tojo Ayaka era apenas um nome que aparecia de vez em quando nas conversas com os amigos — nada mais.

   Ou pelo menos era o que ele pensava... no começo das férias de verão.

   Até começar a trabalhar meio período num serviço de limpeza residencial.

 

****

 

Terceiro dia das férias de verão.

   Haruto estava em pé diante de uma mansão.

"Uau... meu primeiro trabalho é na casa de uma celebridade..."

   Murmurou, meio abatido.

   Era seu primeiro dia de trabalho no serviço de limpeza.

   Ele conferiu o uniforme para garantir que estava tudo em ordem, então apertou o botão do interfone com os dedos um pouco trêmulos.

"... Sim?"

"Ah, aqui é do serviço de limpeza."

   Uma voz feminina, surpreendentemente jovem, respondeu pelo interfone.

   Haruto ajeitou a postura e tentou falar de forma polida, controlando o tom para não soar alto por nervosismo.

"Certo, vou abrir a porta agora. Por favor, aguarde um momento."

   Logo após a voz dizer isso, ele ouviu passos vindos do outro lado.

   Haruto soltou um leve suspiro para acalmar o coração acelerado e olhou para a placa ao lado da porta.

"...Não pode ser..."

   O sobrenome gravado ali parecia suspeito, mas Haruto balançou a cabeça, afastando o pensamento — achando que não podia ser aquilo.

   Logo a porta se abriu, e a cliente apareceu diante dele.

"Prazer em conhecê-la. Eu sou Otsuki, estarei responsável pelo serviço de limpeza hoje..."

   Haruto fez uma reverência educada ao cumprimentar o cliente.

   Mas, ao erguer o rosto, ficou sem palavras — e o fim de sua saudação saiu torto.

"Eh... Tojo-san?"

   Ele havia começado a trabalhar meio período num serviço de limpeza durante as férias de verão.

   E sua primeira cliente... era ninguém menos que Tojo Ayaka, a idol da escola onde estudava.

 

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