Um Alquimista Preguiçoso Brasileira

Autor(a): Guilherme F. C.

Revisão: Dante


Volume 1

Capítulo 58: O conto do Rato-de-bambu

O 1° Ancião Dong fez sua própria reunião. Contudo, esta foi reservada apenas para alguns membros.

Com o peito estufado e a cabeça erguida, sentado em seu suntuoso trono dourado, Xiao Dong encarava as doze figuras abaixo. Entre elas, estavam o 3° e 4° Ancião.

Xiao Zi, embora em seu cotidiano possuísse um semblante fechado e pouco amigável, no dia de hoje, as olheiras e rugas que se acumularam ao longo da noite mal dormida demostravam sua preocupação. Com sua própria inteligência, passou a noite remoendo, procurando uma saída para a situação desastrosa que aos poucos se aproximava dele e de seus companheiros.

Sabia que com a nova aquisição do Patriarca, a posição dele como o 3° Ancião estaria comprometida, pois havia se oposto a sua liderança sem esconder o descontentamento e se ele conseguisse restabelecer o comando estável sobre a Família, então, seu cargo, talvez até mesmo sua vida, estaria correndo grande perigo.

Era evidente que se desejasse poderia pedir desculpas. Ainda não era tarde para assumir tal postura. Talvez pudesse amenizar os danos que sofreria e quem sabe conseguir se manter na atual posição. Porém, era orgulhoso. Não se desculparia, nem imploraria por misericórdia. Essa ideia absurda sequer passou pela sua cabeça.

Xiao Zi, ao longo de sua vida, conquistou títulos e vitórias importantes. Massacrou numerosos inimigos. Tomou o que queria para si, pois era o mais forte. Ele era um excepcional cultivador na 4° Camada do Reino Espiritual. Não se submeteria a um homem feito aquele, a um membro inferior vindo de uma Família Secundária.

Entretanto, por mais que tenha passado a noite pensando, buscando uma saída, tentando encontrar uma solução para a crise que se aproximava, não conseguiu obter resposta alguma. Foi por esse motivo que aguardou ansioso o chamado do 1° Ancião. Ele saberia o que fazer, com toda a certeza teria um plano.

E ao que parece, não havia se decepcionado. Hoje pela manhã, enquanto rumava em direção a residência de Xiao Dong, pensou que a reunião seria apenas entre os Anciões, mas se surpreendeu ao chegar no saguão. Além dele, somente o 4° Ancião Kun se fazia presente. Os outros dez homens, desconhecia, embora soubesse até certo ponto de suas origens.

Há cerca de quinze anos atrás, a disputa entre o Patriarca e o 1° Ancião estava equilibrada. Apesar de Xiao Dong ter reclamado a posse de quatro Minas Elementais para si, limitando os recursos da Família, o Patriarca possuía contatos importantes que o ajudaram a se manter firme enquanto os outros negócios continuavam prósperos como de costume.

Até que um dia, as coisas mudaram quando o Ancião Dong obteve o apoio de uma respeitável Seita. Essa entidade gigantesca o auxiliou das sombras, desfazendo negócios essenciais obtidos pelo Patriarca e sabotando transações menores. Mesmo as Famílias Secundárias não foram poupadas ao terem atividades obstruídas e comércios desfeitos, deixando-os sem recursos para sanar os impostos que só cresciam.

Atuando através de intermédios, essa Seita desfez e forçou à falência diversos comércios e transações nas quais o Patriarca estava diretamente ligado, levando a Família Xiao a acumular uma dívida crescente.

Olhando para aqueles dez homens desconhecidos, o 3° Ancião Zi sabia que eles eram membros de uma das muitas Seitas medianas que atuavam sob as ordens daquela entidade assombrosa. Suas origens eram denunciadas pelo emblema desenhado na capa, presa na altura do ombro, que cada um usava.

Estampado na parte de trás da capa existia a imagem de um penjing muito bem elaborado. Desenhado dentro de uma área retangular, ficava a figura de um agrupamento de rochedos, alguns pontiagudos, outros baixos e irregulares e, o mais elevado de todos, corcovado. Presas juntas as rochas, viam-se árvores cujas copas se abriam em um espaçoso leque, enquanto a grama se rastejava mais abaixo, formando uma crosta verde em pontos específicos da superfície pedregosa e no sopé do monte mais alto, uma floresta de bambu se fazia presente, contornando o penhasco.

A Seita Jiã ― localizada a sudoeste do Império Dourado, acima do pico Gāo ― gostava tanto de sua casa, do lugar onde seus ancestrais viveram, que fizeram dela seu brasão. Mesmo as árvores ou reentrâncias escondidas atrás dos rochedos possuíam suas próprias fábulas internas, tipo a lenda do Carniceiro Verde e o Rato-de-bambu.

Dizem que há mais de dez mil anos atrás, o Carniceiro Verde era considerado o cultivador mais poderoso da Seita Jiã, bem como um dos mais cruéis já existentes. Durante sua infame vida, assassinou cultivadores, famílias e Mortais. Mas, certo dia, ele desafiou um inimigo muito poderoso que o condenou a uma maldição: passaria o resto de sua vida preso em uma caverna e por lá morreria, sozinho. Incapaz de se libertar do destino imposto, definhou por meses sem ter o que comer, a água que bebia era a que escorria pelas paredes durante as tempestades.

No terceiro mês, quando achou que morreria de fome, um pequeno Rato-de-bambu apareceu carregando um broto de bambu. O Carniceiro, faminto, roubou o broto e o pequeno animal, fugiu. No dia seguinte, o roedor voltou, desta vez, trazia consigo um pedaço de nabo e de novo o Carniceiro Verde roubou o alimento. Contudo, dia após dia, o rato voltava, sempre trazendo algo: raízes, frutas e folhas.

A relação dos dois durou por anos. Naquele lugar isolado, o pequeno roedor era o único companheiro do tirano infame. O animal levava comida para ele todos os dias pela manhã e assim sobreviveu por incontáveis anos. Foi quando, durante certo ano, um rigoroso inverno caiu sobre parte do Império Dourado, mergulhando muitas regiões em um mar branco e gelado. O solstício perdurou por meses, até que um dia o Rato-de-bambu parou de trazer comida e procurou abrigo do frio na caverna.

No quinto mês, quando já não se aguentava de tanta fome, o Carniceiro matou o roedor ― que vinha se alimentando das raízes que brotavam no interior da caverna; intragáveis para um humano ― e comeu sua carne. Poucos dias depois, a nevasca parou e mais uma vez o sol voltou a brilhar. Porém, sem ninguém para lhe trazer comida, o Carniceiro Verde definhou até a morte.

Assim dizia a fábula.

O Ancião Xiao Zi conhecia a Seita Jiã bem o suficiente para saber que, desses dez homens, apenas dois ou três eram membros legítimos. O restante, muito provável, faziam parte da monstruosa entidade que atuava pelas sombras e apoiava Xiao Dong.

O motivo para essa certeza convicta era muito simples: A Seita Jiã se provava uma organização de porte mediano, assim como a Família Xiao e as outras ocupantes da Cidade da Fronteira do Caos. Contudo, ela poderia ser considerada um pouco superior no quesito “força”, pois possuía um número maior de membros e uma quantidade abundante de cultivadores no Reino Virtuoso e até Espirituoso. Porém, mesmo possuindo mais integrantes, não existia modos de um grupo mediano “emprestar” um homem feito aquele, tomando a frente da equipe.

Liderando o bando estava um sujeito alto e esguio, cujo cabelo se encontrava preso nas costas por um rabo de cavalo fino. Sua postura era resoluta e absoluta. Não se via sequer um traço de hesitação em seu rosto.

Além do mais, outro mistério merecido de destaque era a rapidez com que aquelas pessoas se reuniram, dado que a Cidade da Fronteira do Caos se localizava distante de qualquer região vizinha, exigindo uma viagem de alguns dias, independente do caminho escolhido. Mas os dez homens se apresentaram um dia após a declaração do Patriarca, o que levava Xiao Zi a pensar na possibilidade de todos eles já estarem nas redondezas antes mesmo da notícia ser espalhada.

Seja como for, vendo aquele grupo, aquele homem, Xiao Zi se sentia confiante, sentia-se pleno em sua inclinação. Seguir o 1° Ancião Dong foi a escolha certa a se fazer.

Embora o saguão não estivesse vazio, ninguém parecia disposto a falar. O 1° Ancião Dong permanecia sentado em seu trono, com uma expressão fechada, pouco convidativo a iniciar uma conversa, enquanto os representantes da Seita Jiã mantinham-se isolados em seu canto. O 3° e 4° Ancião queriam iniciar logo esta reunião. Havia muito o que ser dito. Mas eles também não falaram nada. Estavam aguardando.

Foi então que, o barulho de passos se aproximando ecoaram do lado de fora do corredor, que dava acesso a entrada do saguão.  Quando a porta se abriu, Xiao Bai, que seguia na frente, anunciou:

― O segundo Supremo-Ancião, Xiao Dewei, Dominador dos Juncos do Sul, Guardião da Fronteira do Caos e especialista do Reino Espirituoso. ― proclamou Xiao Bai, recitando cada palavra de modo que sua voz reboou pelo saguão, despertando todos do transe causado pelo silêncio prolongado. Não queria fazer isso, mas o Supremo-Ancião era um homem que exigia ser anunciado antes de fazer sua grande entrada.

E seguindo a deixa do pronunciamento, Xiao Dewei se manifestou.

Xiao Dewei era um nome temido e respeitado dentro da Família Xiao. Como o Supremo-Ancião mais antigo, possuía diversos títulos e conquistas atribuídas aos seus feitos adquiridos com o passar dos anos e se orgulhava de cada um deles. Entre os mais notáveis estava sua batalha contra os juncos do sul.

Em torno de oitenta e sete anos atrás, uma das Famílias Secundárias passou a ter problemas com saqueadores marítimos na região em que habitavam. Por ocuparem uma área costeira, seus negócios giravam principalmente ao redor da pesca e contratos envolvendo transporte de mercadorias através de longas distâncias pelo mar.

No entanto, em dado momento, um grupo de cultivadores desgarrados tomou conta de uma ilhota que ficava na rota usada pela Família Secundária durante suas navegações e não demorou muito para os saques começarem. Mudar a rota não resolveu o problema por muito tempo, pois o grupo, de alguma forma, pôs as mãos em uma frota de navios e levou seus saques ao mar, alcançando uma nova escala de roubos e sequestros.

A pilhagem acompanhada de atos desumanos durou por anos. Na época, a Família Secundária resistiu o melhor que pôde pelo tempo que conseguiu aguentar. Mas no final, foi preciso solicitar ajuda do ramo principal. E a Família Xiao, na ocasião liderada por outro Patriarca, enviou um único cultivador ao socorro de um de seus ramos inferiores.

Naquele tempo, Xiao Dewei havia acendido a um Espirituoso há poucos meses e ainda estava sendo considerado para ocupar o cargo de Ancião. Liquidar os saqueadores e auxiliar na reestruturação do ramo fazia parte de sua provação para assumir tal cargo.

A primeira frente de batalha aconteceu no mar. Uma dúzia de juncos foram enviados para pilhar uma pequena frota liderada pelo ramo inferior que transportava tonéis de vinho, caixotes de suprimento e sementes para plantio. O combate foi sangrento, brutal e unilateral. O Supremo-Ancião, apenas um Líder setorial na época, sozinho afundou os doze juncos e massacrou cinquenta e sete homens e mulheres. Não deixou um único sobrevivente sequer.

Após a vitória marítima, seguiu para a ilhota onde exterminou o restante dos saqueadores. No final, mais de cem pessoas foram mortas, entre elas, dois cultivadores do Reino Espirituoso com a força similar na 1° Camada. Posteriormente, o 2° Supremo-Ancião ficou conhecido como Dominador dos Juncos do Sul, um título que se gabava até nos dias de hoje.

Xiao Bai abriu espaço para o Supremo-Ancião passar e ele entrou na sala pomposo, o nariz tão alto que parecia querer cheirar alguma coisa vinda do teto. Com os braços cruzados atrás das costas, atravessou o saguão sem muita pressa, um passo firme e convicto da própria grandeza, de cada vez. Rumou em direção ao trono dourado e parou em frente; o punho e a palma da mão estendida, curvando o tronco num gesto sutil, fazendo um sinal de cumprimento a XiaoDong.

― Meus cumprimentos ao 1° Ancião. ― disse ele, com uma voz grossa e pesada, cada palavra sendo sibilada em um tom áspero e cortante.

Apesar de ser uma figura importante, valoroso até mesmo para as empreitadas do 1° Ancião, o Supremo-Ancião Dewei teve de permanecer de pé igual aos outros. Ali, naquele saguão branco, existia apenas um assento, um trono.

Xiao Bai, que seguia logo atrás do Supremo-Ancião, ficou espantado ao se deparar com aquelas dez figuras trajando um manto com o desenho de uma paisagem desconhecida por ele. Mais cedo, quando esteve aqui, na companhia de seu avô, antes de partir para recepcionar os convidados, aquelas figuras não estavam presentes.

E ele sabia, tinha plena certeza, que aquelas pessoas não eram integrantes da Família Xiao. E poderia afirmar isso com tanta convicção não por conhecer o rosto de cada membro, não. Xiao Bai sabia disso por causa do poder que sentia vindo deles. Eram todas existências assustadoras aos seus olhos novatos.

Por ser meramente um cultivador da 1° Camada do Reino do Despertar, não possuía um Sentido Espiritual aguçado a ponto de ser capaz de julgar com precisão o nível de cada um daqueles homens. O máximo que conseguia fazer era dizer a qual “Reino” eles pertenciam.

Dos dez, os dois mais fracos eram os que tinham os cultivos mais próximos do seu. No entanto, ainda assim, a disparidade entre suas forças era enorme. Xiao Bai acreditava que um deles estava pelo menos na 7° Camada do Reino do Despertar, provavelmente, perto de avançar para o estágio seguinte. O outro, sem sombra de dúvida, já havia alcançado o Reino Virtuoso, qual camada exata, não sabia.

Entretanto, apesar de apenas esses dois já possuírem um poder considerável, a diferença entre eles e os outros oito era assombrosa. Aqueles homens possuíam uma Energia Espiritual que Xiao Bai já estava muito familiarizado por conviver ao lado de seu avô, era uma Energia avassaladora de alguém que já tinha alcançado o Reino Espirituoso. De fato, todos eles eram ainda mais fortes do que o 1° Ancião.

Porém, entre as dez figuras, havia um ser assustador, que fez Xiao Bai sentir um frio na espinha e desviar o olhar apenas por medo de encará-lo nos olhos.

A pessoa em questão detinha um corpo alto e esguio, além de um rabo de cavalo fino preso nas costas. Seus olhos eram afiados e resolutos e seu peito, embora permanecesse sempre estufado, não inchava e murchava, denunciando a presença de vida por meio dos movimentos extravagantes exercidos pelos pulmões no momento de tragar e soltar o ar. Ele era nobre e elevado, como se aquela movimentação rudimentar não fizesse parte de seu ser.

Xiao Bai não poderia afirmar em qual camada estava, mas de uma coisa tinha plena certeza, aquele homem, parecendo tão seguro de si, era uma existência que já havia alcançado o Reino Soberano do Despertar. Ele, essencialmente, encontrava-se acima de toda a Família Xiao.

― Pois bem, agora que todos chegaram, vamos começar esta reunião. ― proclamou o Ancião Dong, com uma voz grave, passando os olhos pelos presentes.

― Espere, 1° Ancião. ― pediu Xiao Zi. ― O 10° Ancião ainda não chegou. ― Dado a importância do que estava para ser discutido, não estranhou a presença do 2° Supremo-Ancião. A despeito da crença de todos, de que ele tinha se retirado para um cultivo isolado, a verdade era que Xiao Dewei permanecera nos arredores da Floresta das Mil Perdições, treinando. Entretanto, a ausência do 10° Ancião era um tanto anormal.

― Xiao Fu me enviou uma carta ontem à noite. Ele irá se juntar ao Patriarca. ― anunciou o 1° Ancião Dong, exprimindo uma voz amarga e uma careta ominosa.

hunf! Aquele traidor. ― bufou Xiao Dewei.

― Renunciar apenas por causa de um boato... patético! ― praguejou Xiao Zi, amaldiçoando seu antigo companheiro.

― Bem, isso se for de fato um boato. ― Do outro lado do saguão, o homem liderando o grupo da Seita Jiã resolveu expressar seus pensamentos.

Todos os olhares se voltaram para ele. Queriam saber qual era sua exata identidade, mas estavam mais interessados no que tinha a dizer.

E ele continuou a falar, com uma voz calma e soberba:

― Fiquei sabendo que Pílulas Espirituais foram distribuídas durante a reunião que sucedeu no dia anterior. ― falou. E os Anciões presentes amarraram suas expressões. Esse acontecimento também estava os incomodando, por isso não conseguiam afirmar com plena convicção ser apenas um boato. ― Obviamente, as pílulas poderiam ter sido compradas e usadas para prolongar a queda inevitável do atual Patriarca. Um último ato de desespero. ― acrescentou. ― Mas preciso perguntar, o Ancião Dong possui a certeza absoluta de que a existência de tal Alquimista não passa de um boato? Afinal, é um assunto bem delicado.

Xiao Dong se revirou em seu trono, parecendo incomodado, como se os braços feitos de ouro do assento estivessem pinicando sua pele e o estofado tecido por fios da mais alta qualidade já não fossem assim tão confortáveis. Permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de anunciar com um tom soturno:

― Se fosse apenas um boato eu não teria reunido todos aqui, em tamanha urgência. ― declarou. E os Anciões o olharam estupefatos. A pior hipótese confabulada em suas mentes insônias parecia se concretizar. Mesmo o orgulhoso e austero Supremo-Ancião deixou escapar um arquejo involuntário, quando percebeu a gravidade da situação. Porém, o homem liderando a Seita Jiã segurou um sorriso ambicioso, conforme ergueu a cabeça e estufou o peito um pouco mais. Xiao Dong continuou. ― É por isso que precisamos cortar este mal de uma vez por todas. Tentei ser civilizado, mas as circunstâncias não me deixam escolhas. O momento de pôr fim de uma vez por todas nesse reinado tirânico de Xiao Enlai chegou.

 


Niveis do Cultivo: Mundano; Despertar; Virtuoso; Espirituoso; Soberano do Despertar; Monarca Místico; Santo Místico; Sábio Místico; Erudito Místico.



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