Ultima Iter Brasileira

Autor(a): Boomer BR


Trauma Longínquo

Capítulo 89: Proteger Significa Se Ferir

 

[Jack Hartseer]

 

Em um mero piscar de olhos o embate final havia se iniciado.

Mesmo estando distante do combate eu, Incis e Akira fixamos nossa atenção total na luta.

Corta! Impacto! Ventania!

Zakio desferiu um ataque perfurando o vazio com a sua espada gigante nomeada por ele com Vi’Zihao.

O ar dentro dessa sala estava estranhamente pesado apesar de ser bem espaçosa. As paredes cinzentas com um tom metálico e os pilares brancos que pareciam de quartzo ou coisa assim.

— Droga, precisamos fazer alguma coisa também.

Quem se manifestou inquietamente foi Incis que ao lado de Akira deu um passo adiante enquanto seus ombros tremiam apenas para respirar.

Meus olhos se voltaram para o centro da sala pra no fim ver um amontoado de vultos se golpeando entre faíscas enquanto a besta colossal sobrevoava o local lançando raios de energia carmesim.

“Espera, eu consigo acompanhar alguns movimentos.”, concluí internamente no que meus olhos se arregalaram levemente.

Apesar da troca de golpes ser veloz e precisa meus olhos ainda conseguiam claramente ver a silhueta da assassina de cabelos negros, Melize.

Isso me fez murmurar abismado. — Ela se move na mesma velocidade que os Goblins que eu enfrentei?!

— Ca-Capitã Incis, eu posso ir também.

Akira acompanhou Incis, porém levantei minha voz.

— Pessoal, parem agora mesmo.

Incis foi quem se virou pra mim, seu cabelo negro ondulando sob seus ombros no movimento.

Akira em contrapartida me olhou de canto serrando os dentes como se quisesse retrucar.

— Vocês duas não estão nem um pouco em condições de lutar, e-eu sei que também não sou tão forte se comparado, é só que... foi o que o Zakio me ordenou, eu tenho que proteger vocês então por favor me deixem fazer pelo menos isso depois de tudo.

Não soube que tipo de expressão fazer proferindo essas palavras, entretanto Incis sorriu suavemente como resposta, gentil e compreensível como sempre.

— Eu compreendo. — Ela aceno com a cabeça, seus olhos dourados indo para Akira. — É tolice nos forçarmos a algo tão perigoso quando nós mesmos dissemos ao Jack pra não se arriscar, Akira eu sei que você também não consegue suportar ver nossos companheiros lutando assim sem fazer nada, mas pelo menos dessa vez acho que não temos muita escolha.

“Ela realmente pretende convencer a Akira? Essa garota perdeu um dos braços e mesmo assim continua de pés... se bem que ela só realmente ficou de pés depois que viu a Incis, eu não tinha reparado muito nisso, mas a Akira tem algum tipo obsessão estranha por essa mulher.”

E pensar que diante de tudo isso eu ainda consegui raciocinar e de alguma forma falar com a Incis calmamente.

— Então o que vamos fazer, capitão Jack?

Akira indagou em minha direção com um tom de “então resolva as coisas, seu estúpido” somado a uma face hostil.

Puxando o ar pra dentro dos meus pulmões e soltando-os suavemente, assim eu tentei me acalmar um pouco e voltei a atenção para o combate entre Zakio, Melize e Renard.

Primeiro de tudo, esse mostrengo gigante que mais se parece uma almôndega me deu calafrios não por causa da sua aparência grotesca, mas pelo fato dele ter um tamanho absurdo tanto em largura como em altura, realmente uma esfera de cadáveres.

Além disso ele não parecia estar seguindo um padrão aleatório de movimentos e os seus ataques consistem num tipo de energia carmesim que se transforma em um raio?

“Que porra mais aleatória pra ser o Boss da Dungeon.”, foi a única coisa que consegui concluir antes de uma aura carmesim envolver a besta.

Num piscar de olhos eu vi uma distorção bater contra um dos poucos pilares ainda inteiros da sala.

Vush!

O pilar não quebrou e na verdade alguém havia pousado nele.

“É o Renard.”, estreitei meus olhos diante do homem de cabelo negro e olhos prateados que dobrou seus joelhos durantes a fração de segundos que tocou sob o pilar e então pegou impulso com um chute que o disparou como uma bala aos ares.

No fim um rastro de rachaduras foi deixado por Renard no pilar e ele girou nas alturas com sua silhueta se destorcendo com tal velocidade.

No fim caiu em cima da bola de cadáveres voadora e logo em seguida um tremor engoliu a sala.

Suor, o coração acelerado e uma pressão estranha que fazia meu sangue esfriar e esquentar consecutivamente.

Somado a tudo isso eu vi um golpe, não, uma mão envolta por fios brancos cortando as partículas de ar.

Zink! Tink!

Faíscas eclodindo quando Zakio puxou a lâmina prateada Vi’Zihao contra a ponta dos dedos de Melize Hozarik.

Uma sequência caótica de acontecimentos difícil de se acompanhar enquanto os impactos dos golpes se espalhavam pelo em tremores fazendo todos sentirem a mesma coisa que eu, a intenção assassina por trás da mulher de cabelos negros e olhos azuis lutando contra Zakio.

— Que força, devo lhe dar minhas sinceras condolências ao subestimar tais habilidades.

A voz fria e elegante de Melize foi abafada pelo contra-ataque de Zakio.

A espada se transformou num mero borrão branco quando foi puxada para trás fazendo Melize avançar com seus cabelos negros dançando entre o movimento e com essa pequena abertura os fios prateados dela se estenderem em espiral sob seus braços formando brocas.

A poeira levantando no que o espadachim ruivo com uma cicatriz no rosto aterrissou todo o peso dessa lâmina gigante de cima para baixo sob a oponente.

“Ele realmente tem uma força bizarra!”

Isso definitivamente iria esmagar Melize Hozarik!

Meus pensamentos foram tomados com um bramido destorcido tomando conta local.

Guaaaaaaaaaargh!

Prendi minha respiração.

No alto, acima de Zakio e Melize uma sombra circular os cobria.

O monstro voador de antes era dilacerado por cortes que se estendiam sob sua superfície e se enrolavam ao seu redor semelhante a cobras famintas.

Akira foi a primeira a esboçar uma reação.

— A-Aquilo é o capitão Renard? Ele está fatiando o monstro completamente. Simplesmente maneiro demais.

Minhas pupilas escuras mal podiam acompanhar o quão rápido esse cara passou suas lâminas sob a esfera de cadáveres, mas espera, lâminas?

Meus olhos se arregalando.

— Não lembro de vê-lo usando espadas, nem mesmo duas.

A entonação de Incis me retrucou: — Renard tem um Vitalis capaz de criar qualquer tipo de arma e armadura com algum material específico ou até juntar sua arma atual com a de um companheiro também, mas aquilo... e-ele parece ter imbuído os dois braços com lâminas.

Com um tom desacreditado Akira foi quem completou.

— Não é isso capitã Incis, eu nunca descordaria da senhorita, mas parece que os próprios braços dele é que são as lâminas.

“É verdade, parece estúpido só que é realmente isso.”, dei um passo pra trás um pouco em choque.

Eu já tinha visto um pouco dessa habilidade do Renard antes quando demos de cara com a Melize no corredor da mansão, só que eu não sabia que ele podia ser tão fodão assim!

Esse mundo realmente era imprevisível, à primeira vista os poderes chamados de Vitalis podiam parecer coisas simples como manipular fogo ou água, porém tudo isso era só a ponta do Iceberg quando se trata de possibilidades e até mesmo o meu Vitalis era assim pelo jeito. No fim o Vitalis sempre é despertado através de um trauma.

Meus lábios se comprimindo no que memórias percorreram minha mente.

Os momentos em que eu usei aquela Skill chamada Manipu Laminae.

Esse poder realmente me salvou muito em diversos momentos inclusive lembro de tê-lo usado para ferir Melize antes da mansão virar uma Dungeon.

“Use a dor como impulso.”, essa frase se cravou em minha alma, o meu Alter Ego.

— PESSOAL, CORRAM! SAIAM DAÍ!

Um grito desesperado me arrancou subitamente desse transe de memórias.

Passos! Passos!

— Jack!

— Capitão Jack!

As vozes de Akira e Incis se misturando no que eu fui puxado pelo braço esquerdo bruscamente.

Antes que eu pudesse entender o que houve os arredores vibraram e uma cortina de poeira cobriu tudo.

Nhgh! — Rangi os dentes batendo minhas costas contra algo rígido.

A respiração pesada e o coração acelerado.

— Você mesmo disse que não podemos agir de forma precipitada Jack, não fique aí preso em sua cabeça em momentos como esse. Você quase morreu!

Eu me vi esgueirado atrás de um pedaço do que seria um dos pilares destruídos da sala enquanto Incis me deu um belo esporro.

— É verdade. — Rangi os dentes olhando pra palma de minha mão que tremia sem parar. — A Akira está bem?

O cabelo curto de Akira balançou expondo sua orelha suja de sangue quando ela se inclinou para mim com uma face emburrada.

— É claro que estou. Foi você que quase nos matou capitão Jack, só estamos vivos por causa da capitã Incis.

— Akira, deixe o Jack em paz. Mais importante é aquela coisa voadora que não morre e Renard foi capaz de fazer os cadáveres ao seu redor caírem, mas ela ficou mais agressiva do que antes, seus ataques estão indo pra todos os lados agora. Isso foi o ataque que quase nos transformou em pó agora pouco. Acho que posso pelo menos analisar esse monstro com a Skill Sensus Dei pra tentar entender como funciona.

Como esperado de Incis, apesar de não estar com a disposição necessária pra lutar pode analisar a situação atual com mais cautela.

— Eles vão realmente dar conta disso tudo só os dois?

Minha voz foi abafada pelo som dos tremores, a luz dos raios carmesins do monstro irradiando e batendo nas paredes da sala.

Incis mordeu o lábio relutante, seus olhos dourados desamparados e sem saber pra onde olhar.

“Droga, isso é como o fim de alguma série de tensão!”, praguejei internamente.

A situação não era das melhores e eles precisavam de ajuda, mas me foi dito que eu tinha que ficar com Incis e Akira já que as duas acabaram debilitadas devido as batalhas anteriores.

Porra, pense em algo Jack!

Os meus punhos se fechando em insegurança.

Foi então que um som crepitante tomou nossa atenção, assim fazendo-nos olhar para o lado.

Derrapa! Ventania! Arranha!

Zakio derrapou para trás com sua espada rasgando o solo numa tentativa de não cair de costas no chão. O espadachim de cabelo vermelho estava suando e respirando de forma ríspida quando antes mesmo de reagirmos um grito veio de cima.

— Cuidado! — Foi o que exclamou a garota de jaleco branco pendurada por milhares de fios no teto da sala.

Em um piscar de olhos...

Duas luzes prateadas deixaram um rastro abrupto sob o ar antes de pararem na frente de Zakio, eram os olhos de Renard emanando um fulgor inexplicável.

Ele pulou na frente de seu companheiro de forma ágil deixado até mesmo uma pós-imagem transparente de sua silhueta por alguns segundos.

O som agudo do metal colidindo contra o metal somado as faíscas amareladas estourando.

Milhares de fios brancos foram rebatidos pelas verdadeiras espadas que eram os braços de Renard, Melize ainda estava usando os malditos fios de antes só que esse não era o real problema aqui.

Mesmo que tenha sido um movimento rápido o suficiente pra salvar a vida de Zakio, Renard foi... impiedosamente perfurado pelos finos e afiados fios.

Nhgh! — Sangue respingou entre os dentes dele enquanto o mesmo se manteve de pés rebatendo cada uma das cordas que se assemelharam mais com tentáculos famintos. — Ninguém vai tirar mais nada de mim!

O ombro, antebraço e até uma das coxas foram algumas das regiões perfuradas pela chuva fervorosa de ataques.

Minhas sobrancelhas levantando, as pupilas tremendo.

Tudo isso só pra proteger alguém, Zakio devia significar muito pra ele e diante dessa cena eu me recordei da pequena conversa que tive com Renard quando começamos a explorar a Dungeon.

Minha irmã mais nova, era a única pessoa da minha família que ainda estava viva.”, foi o que ele tinha me dito com seus olhos prateados vazios refletindo a luz daquela fogueira que fizemos.

Ele já havia perdido alguém valioso antes.

 “No fim ela já estava no seu leito de morte, sabe? Era uma garotinha ainda, foi melhor que seu sofrimento terminasse, a síndrome de Tenebris iria consumi-la por completo.

Por esse motivo ele se feriu e derramou seu próprio sangue por um companheiro como Zakio... porque ele já havia perdido praticamente tudo em relação aos seus laços e não queria mais perder nada além disso.

Perder alguém valioso, eu já havia passado por isso?

De algum modo eu consegui compreender bem como Renard se sentia nesse momento e por causa disso resolvi finalmente dar uma resposta.

Algo em mim parecia mais fácil de entender dessa vez.

— Eu preciso... — Minha voz quase se enroscou na garganta só que mesmo assim meus joelhos se dobraram enquanto eu me erguia até finalmente terminar o que eu precisava dizer. — Fazer alguma coisa.

Tudo ao redor ficou mortalmente silencioso como se esse pequeno momento fosse reservado apenas pra mim.

Passo.

Dando um único passo adiante eu senti uma inconformidade preencher meu coração.

Perder algo que era valioso pra você, arrancarem o que você ama sem mais nem menos. Isso era injusto, injusto demais!

Eu também não vou mais permitir que tirem nada de mim. Foi o que saiu dos meus lábios manchados por sangue.

Eu havia finalmente me recordado.

Naquela noite quando tentei me suicidar foi porque eu fugi, fugi dos problemas e fugi daqueles que arrancaram minha irmã de mim, daqueles que fizeram ela morrer em meus braços.

A única pessoa que um dia se importou de verdade comigo foi morta e mesmo assim eu fui fraco e tentei achar o caminho mais fácil pra adormecer essa dor.

Antes que eu pudesse sequer perceber já estava empunhando minhas duas adagas enquanto toda essa junção negativa de sentimentos se transformou em um vapor azulado e frio emanando dos meus olhos.

Isso mesmo Jack, se você quer proteger algo a dor é a resposta, proteger é ferir e a dor é o seu impulso principal. Transforme a dor nas suas forças.”

A entonação destorcida e modulada ecoou em minha consciência novamente, Abyssus estava me dizendo isso desde sempre.

De repente tudo ao meu redor pareceu se reduzir ao nada, sem som, sem cor, sem forma. Apenas eu comigo mesmo.

Só que mesmo que isso fosse contraditório no âmago da minha alma eu pude sentir o peso dos olhares de todos caindo sob mim, perante essa figura covarde de cabelos escuros e olhos negros chamada Jack Hartseer.

Se o que me restou foi Incis, Zakio e os outros então eu vou até o fim dessa vez, vou proteger quem me valoriza mesmo que eu tenha que me ferir como o capitão Renard está fazendo.

Meus pensamentos fluíram pela minha voz angustiada.

[Sua sanidade sofreu 20% de corrupção!]

[Seu coração atormentado pelas correntes do abismo arde por justiça, memórias foram parcialmente recuperadas.]

Era chegada a hora de me redimir pelos meus próprios erros.

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