Trauma Longínquo
Capítulo 84: Ponto Chave Da Questão
[Zakio]
Eu fiquei imerso na completa escuridão gélida do silêncio. Dor, desespero, confusão, não conseguia sentir mais nem uma faísca disso.
Em algum momento eu fui engolido pelas minhas memórias e pela correnteza de agonia sem fim provida da maldição que meu pai deixou marcada em meu rosto, aquele desgraçado.
Se eu pudesse voltar no tempo e simplesmente matar ele com minhas próprias mãos... eu iria até mesmo salvar a minha mãe.
Ventania!
A escuridão foi dissipada por uma correnteza repentina de ventos violentos, foi como se uma grande lâmina tivesse cortado a minha consciência ao meio.
Meus olhos se abrindo aos poucos.
Uma luz quase se esvaindo pairou sob minha pele sem calor algum, recuperei a consciência só que ainda com as malditas memórias desse passado obscuro.
Foi então que...
— Zakio!
— Capitão Zakio.
Duas vozes exclamaram meu nome e mesmo com a audição abafada eu consegui compreender, assim minha respiração se tornou menos instável e o meu sangue antes frio começou esquentar.
— F-Fique aqui Akira, Zakio... me responda.
A voz familiar se aproximou de mim no que a silhueta duplicada e nebulosa diante das minhas pupilas vermelhas se tornou mais nítida.
Com meu corpo totalmente dolorido e a cabeça prestes a explodir de tanta dor, me encontrei deitado em um chão gélido enquanto aquele garoto irritante se ajoelhou ao meu lado levando suas mãos até o meu peito de forma preocupada.
— Graças a deus, você tá vivo! — Disse ele com um suspiro.
Pisquei meus olhos.
Por um segundo pensei ter visto uma escuridão sem fim rodeando esse garoto, algo como fantasmas, mas essas coisas nunca existiram e eu nunca acreditei nisso.
— J-Jack... é mesmo você? — Murmurei como resposta e ele apenas continuou me observando quando com outro piscar de olhos eu vi suas pupilas brilharem em dourado e milhares de sombras crepitantes permearem ao seu redor.
— Sim, e-eu sou o Jack, aquele que você recrutou pra guilda junto com o senhor Renard.
A voz do moleque fez essa bizarra visão ser dilacerada e sumir como fumaça de novo.
Meu coração acelerou por um segundo, que caralhos?
Rangendo os dentes em incômodo eu o respondi: — Sei que eu tô todo fodido agora, mas não estou gagá ainda, moleque estúpido.
Jack franziu as sobrancelhas se afastando de mim com uma face conformada. — É, ele realmente tá bem no final das contas.
Levantando minhas costas do chão rígido eu respirei fundo tentando conter a dor de cabeça aguda que dava a impressão de que meu crânio pulsava.
Meus olhos bateram logo de cara na pessoa atrás de Jack, uma garota com cabelo negro curto e olhos da mesma cor, estava recostada em um pilar cinzento.
— Essa é a...
Ele rapidamente me respondeu com uma expressão cética: — Akira, e-ela é a Akira, acabamos nos encontrando na Dungeon depois de toda aquela loucura de provação. — Jack deu um suspiro ao bater a poeira das mãos. — Pensei que eu e ela seriamos os únicos a sair vivos, mas pelo visto o tal capitão Zakio também está vivo.
Meus olhos viajando pelos arredores, haviam quatro pilares ao nosso redor que sustentavam um teto escuro e curvado pra cima que criava uma sombra suave por cima de tudo, seria esse o ponto chave da Dungeon?
— Jack, Akira, quero saber onde estavam antes de virem pra cá, também preciso saber como acharam esse lugar. — Levantei dolorosamente antes de me encostar em um dos pilares perto de mim.
Jack deu dois passos inseguros em minha direção. — E-Ei, vai com calma aí, cê acabou de acordar.
Minha espinha parecia estar prestes a se desmontar como um brinquedo quando apoiei meu peso no pilar.
— Hghn. E-eu tô de boa. Mais importante agora é saber se vocês passaram pelas mesmas coisas que eu passei e também se encontraram o resto do pessoal.
Fixei a atenção na garota atrás de Jack, Akira a nova recruta da guilda que nesse momento estava... sem um dos braços?!
— Aquilo ali é grave, ela se feriu desse jeito lutando pra te proteger? — Uma raiva súbita me subiu à cabeça.
— N-Não, claro que não! — Retrucou ele enrijecendo sua face.
— O que garante que não foi culpa sua? — Minha garganta ardeu com o tom grave de voz que usei. — Essa garota apesar de ser nova na guilda é muito mais poderosa que você e agora olha pra isso! Ela perdeu um dos braços!
Minha voz ressoou pela grande sala com paredes cinzentas quando todo o som foi subitamente tomado pelo barulho de um único passo que foi dado por Jack em minha direção.
— Escuta uma coisa capitão Zakio. — O garoto se aproximou com outro passo ao abaixar sua face. — Não sei o que te faz ser tão cuzão comigo, mas saiba de uma coisa...
Tentei pará-lo, porém meu corpo paralisou, os músculos travados quando mais uma vez aquele raro calafrio correu pela minha espinha.
Passos. Passos. Passos.
Os olhos de Jack estavam vazios, não eram apenas dois círculos comumente escuros como os de Akira e eu percebi isso por que ele até mesmo precisou erguer sua face pra me olhar no fundo dos olhos como fez.
Meu coração parou por um segundo enquanto a voz dele imponentemente foi a única coisa que consegui captar.
— Não sou mais um covarde de merda, dentro desse lugar eu senti todo tipo de dor e se eu precisasse perder um braço pra sair vivo eu arrancaria o meu eu mesmo.
Suor descendo da minha testa enquanto nos encaramos.
O olhar de Jack penetrando até o fundo da minha alma. Que diabos Zakio, amarelando diante desse tampinha de merda?
Não, isso de algum modo era diferente. Ele estava diferente.
No fundo dessas duas pupilas negras não havia mais nada.
Algo havia mudado e tudo o que eu podia ver na face frívola desse garoto de cabelo escuro em tal momento era algo incompreensível, assim como as estranhas visões que tive ao acordar.
“Talvez... ele esteja dizendo a verdade.”, concluí internamente enquanto saliva desceu pela minha garganta.
— T-Tá bom, eu já saquei, pode ir abaixando essa tua bola, tampinha.
Dando um passo para trás Jack voltou a sua postura habitual. — Ótimo. Veja, teve sorte que ela acabou adormecendo enquanto discutíamos.
Quando voltei a atenção para Akira a garota estava com seus olhos fechados até mesmo roncava.
Só que isso nem sequer era o foco, de uma hora pra outra minha mão começou a arder em dor, mais especificamente um dos meus dedos.
Pinga. Pinga.
[Incis]
Meu corpo balançou e tremeu com diversos impactos consecutivos sob a superfície rígida da minha pele, parecia uma chuva de adagas.
Os ventos sendo rasgados pela lâmina gélida de novo de novo e de novo enquanto faíscas estouravam por onde o metal tentava rasgar.
[O status de resistência está sendo obstruído drasticamente!]
[O Modo (Viris Sanguinum) está perdendo o poder!]
[Modo (Viris Sanguinum) desceu para 45% de poder!]
Corta! Mastiga.! Corta! Mastiga! Corta!
A gravidade aparentou ser quebrada com a sequência incansável de cortes que eram feitos no meu corpo erguido sob o ar.
“Ele jogou a sua Katana em uma posição específica naquele momento e então me agarrou pra ativar o Autosave.”, afundei-me em minha mente ignorando totalmente a chuva fervorosa de ataques pairando em minha carne, minha mandíbula mastigando.
[O Status de resistência está sendo obstruído drasticamente!]
[O modo (Viris Sanguinum) desceu para 35% de poder!]
Um corte, dois cortes, três cortes, quatro cortes.
“Isso só pode significar uma coisa.”
Corta! Corta!
Joelho, abdômen, pescoço, coxas, juntas do antebraço, bíceps, pescoço.
A lâmina passando por cada ponto aparentemente sensível do meu corpo estava pronta pra ceifar a minha alma se eu não fizesse algo logo, mas as peças se juntaram todas de uma só vez irrompendo a sede de sangue cravada em meu ser.
[O modo (Viris Sanguinum) desceu para 25% de poder!]
“Isso significa que ele não é capaz de salvar um ponto e carregar ele, o nome Autosave é apenas de faixada, o que realmente aconteceu é que ele ativou sua habilidade e o impacto que acertou meu ombro após isso me jogando pra cima foi a sua própria Katana refazendo o movimento anterior, é isso... ele não carrega nenhum ponto salvo, na verdade Grim retorna o objeto em si que é a Katana... no tempo, assim esse se cria um movimento reverso que reproduz seus ataques outra vez tipo como se a espada estivesse sendo puxada por um imã!”
Meus olhos se arregalando.
— Eu entendi. — Minha voz saiu no instante em que o primeiro ferimento realmente se abriu em meu braço esquerdo.
[Sua resistência foi reduzida a 0!]
[Perdeu 340 de HP!]
Um esguicho de sangue banhou os ares quando eu finalmente aterrissei no chão apoiando-me em um dos joelhos.
Os ataques acabaram.
A poeira balançando no ar, meus ombros subindo e descendo com a respiração pesada.
— Acabou, eu venci Incis Katulis.
Grim que estava com uma expressão perplexa da mais pura vitória exclamava para mim em um tom psicótico.
— Será mesmo? — Lambi o sangue em meus lábios. — O dano que eu sofri realmente deveria ter sido só esse corte no braço? — Me ergui engolindo por completo o pedaço de carne fresca em minha boca.
Os olhos verdes de Grim se tornando vazios de uma hora pra outra. — I-Isso...
Quando o espadachim percebeu que esse seu ataque só foi o suficiente pra quebrar a minha resistência já era tarde demais.
Seu trapézio esquerdo escorria o mais puro carmesim, não havia mais nada ali, apenas um buraco rasgado com a carne vermelha exposta envolta com as marcas de uma mordida feroz.
— S-Seu monstrooo! Aaaaaaaargh! — Rugiu ele em agonia antes de cair no chão com o sangue esguichando do seu trapézio rasgado.
— Você poderia ter vencido se não tivesse me agarrado, naquele breve instante fiquei perto o suficiente e resolvi devorar uma parte de você justamente pra recuperar um pouco das energias do modo Viris Sanguinum.
O gosto entorpecente da carne fresca e o sangue quente deixando minha língua salivante.
Delicioso e acima de tudo prazeroso, porém me render a esses impulsos só me traria mais e mais problemas e essa luta só foi um lembrete de que eu não era uma garota normal, nunca mais iria ser, isso por causa daquele experimento de merda que me obrigou a virar meio vampira.
“Mas não importa, contanto que minhas virtudes guiem meu caminho eu ainda sou quem sou.”, murmurei internamente enquanto escutava os grunhidos finais de Grim.
— Agora preciso de respostas claras. Essa sua habilidade nunca foi um Vitalis, não é? Até porque em nenhum momento da batalha eu lhe vi recitando o Trigger da Skill. — Caminhei na direção dele até chegar perto o suficiente para fazê-lo encarar minhas duas botas sujas. — Diga a verdade, você é um Elkan assim como a tenente Ilka era. — Indaguei estreitando o olhar sob seu corpo caído semelhante a um trapo no chão.
— Hmph. Então descobriu. Como esperado da capitã da primeira divisão da guilda. — O cabelo castanho amarrado atrás da cabeça de Grim esparramado pelo chão, os fios aos poucos sendo tingidos pela poça vermelha se expandindo de seu ferimento.
Ele suspirou em desconforto e continuou: — Que lástima, nunca pensei que me encontraria em tal estado, mas sim eu sou um Elkan uma das raças mais antigas de Mythland e também sou o irmão traidor de Ilka, eu nunca me esqueceria desse nome nem por um segundo. Me pergunto se aquela tola ainda está viva, se ainda carrega a cicatriz da desgraça em suas orelhas cortadas assim como eu.
Meus punhos se selando firmemente, as unhas quase se enterrando em conjunto sob minhas palmas.
Ilka morreu, depois da traição de seu irmão Grim Deathkin a 8 anos atrás ela se recusou a participar de missões como aquelas, passou apenas a administrar a chegada de membros novos no QG em Leycrid.
A vida dela foi tomada pela explosão que matou mais de 300 pessoas a 1 semana atrás.
Se eu conseguisse arrancar dele alguma informação sobre a explosão em Leycrid talvez eu...
[Sacrifícios foram feitos para a deusa Afradia no ponto chave da Dungeon!]
[Provação concluída.]
— O que? — Levantei as sobrancelhas com as pupilas tremendo.
Então isso não era uma distorção na Dungeon causada pela maldição de Zakio?
[Um inimigo em potencial para o chefe da Dungeon foi derrotado por Incis Katulis, devido a isso o curso principal será redirecionado ao ponto chave.]
[Eliminou Grim Deathkin.]
[Recebeu 77.777 Ranking Points!]
[Perícia em (Vitalis) aumentou para o nível 26!]
[Modo (Viris Sanguinum) agora pode ser usado por 6,5 minutos!]
“Mas ele ainda nem morreu! Tenho muitas perguntas pra fazer.”, antes que minha mente pudesse se estabilizar cada molécula do meu ser se desintegrou em flocos reluzentes afundando em um mar de brilho azulado fazendo-me cair em uma completa inconsciência.
[Todos os sobreviventes serão redirecionados ao ponto chave da Dungeon.]
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