Ultima Iter Brasileira

Autor(a): Boomer BR


Trauma Longínquo

Capítulo 110: Jogo Sujo

 

 

[Jack Hartseer]

 

16 Dias Até a Execução

 

De forma brusca todas aquelas dúvidas flutuando nos mares de meu profundo consciente foram engolidas por uma tempestade densa de dor e isso foi a única coisa que sobrou em minha mente segundos depois de não conseguir mais distinguir se estava acordado, desmaiado ou até mesmo morto.

O som das ondas colidindo contra minha própria pele, uma imagem agressivamente branca e opaca tomou o meu campo de visão fazendo minha pupila doer, eram os céus.

Sem conseguir nem mesmo dizer uma sequer palavra eu observei o grande céu branco cobrindo os mares negros onde meu corpo flutuava ser tomado por densas manchas negras.

“É como Abyssus tinha me mostrado.”, sibilei internamente com uma face cética.

Onde estive com a cabeça todo esse tempo?

Se eu morresse naquela prisão faria alguma diferença? Incis e os outros precisavam de algum modo vir me salvar?

— Essa era a resposta então, Abyssus. — Murmurei sentindo a água gélida cobrir meu rosto e adentrar minhas narinas por um mero segundo. — Ughn! Ughk! — Uma tosse molhada foi expulsa dos meus pulmões.

O céu antes limpo e pálido como uma gigantesca folha de papel foi assolado pelas manchas negras criando uma escuridão capaz de envolver o mar também tão escuro quanto.

[A síndrome de Tenebris se alastrou em 35%]

Meu único e solitário olho se arregalando no que o texto reluzente tomou minha atenção.

As águas ficaram muito mais agressivas no momento em que o painel flutuante pairou sob meu rosto, quase como se estivesse me avisando que tudo isso ainda não havia acabado e estava muito distante ainda de um desfecho.

O mar negro balançou em colossais ondas enquanto a escuridão consumiu quaisquer coisas que estivessem diante do meu olhar, o meu corpo... bom, ele começou a afundar.

Ughn! Gh! Aaaaaargh! — Minha voz sendo abafada debaixo d’água, tentei levantar minha mão na esperança de me agarrar em algo, mas o que exatamente?

Era óbvio, na verdade era um fato imutável de que só havia eu e os mares negros, nenhum único sinal de vida se encontrava na vastidão sombria e silenciosa em que fui engolido.

O som das profundezas assolou meus tímpanos assim os entupindo com o líquido gélido da morte que preencheu meus pulmões também.

Sem cor, forma, cheiro, apenas puro desespero, não tinha nada pra me salvar nesse lugar.

Foi então que um som crepitante ressoou em vibrações por dentro das águas, como se uma grande fissura fosse feita no solo, sim, isso era de fato o fundo do mar se rachando ao meio e como eu sei disso?

Eu vi.

O som das bolhas e do ondular das profundezas foi quebrado pelo bramido da rachadura gigante que dividiu o chão de pedras e corais em dois e de dentro daquela colossal fenda uma luz carmesim emergia devorando a água consigo.

Como a boca de uma baleia engolindo seu jantar a fenda se abria cada vez levando mais e mais água para dentro do abismo carmesim, entretanto o meu corpo permaneceu estático, minha consciência estava estática diante do brilho cor de sangue que começou a envolver o meu corpo.

Um pensamento suave saiu dos meus lábios: — Abyssus...

Tive certeza quando vi, isso era o meu Alter Ego, era o meu outro eu.

Você sabe o que precisa ser feito, sabe do valor que tem, isso é um fato, Jack.

Aquela entonação modulada percorreu de dentro da fenda ecoando como o rugido assustador emergindo do fundo dos mares, um arrepio sinistro percorreu meu corpo enquanto o chiado das densas águas sendo engolidas pela rachadura continuou em conjunto a voz de Abyssus.

Porém há momentos em que não há ninguém pra se apoiar e você sabe disso melhor que ninguém.

O que ele queria dizer?

Verdade seja dita, você já passou por isso. Pra ser sincero já passou por isso diversas vezes só que de qualquer modo eu devo admitir, essa está sendo a tentativa mais interessante.

A água já havia sido totalmente extinguida dos meus arredores e minha voz ainda engasgada sofreu pra sair de minha garganta.

— Tentativa você diz... não faço a mínima ideia do que está havendo, pra falar a verdade não compreendo nada do que tá acontecendo desde quando acordei pela primeira vez em Mythland. — O brilho escarlate emanou ainda mais forte de dentro da fenda e banhou o meu rosto. — Me diga Abyssus, você é realmente fruto dessa tal síndrome de Tenebris que eu tenho?

Um silêncio avassalador foi o que sobrou, mas eu não iria ficar com o solitário nada como resposta, nem ferrando! Me responda seu maldito!

— Me responda!

O meu grito foi respondido com uma espessa névoa cor de sangue saindo de dentro da fenda gigante e envolvendo os meus arredores abruptamente, um calor repentino tomou minhas entranhas.

Urgh! O-O que?! — Rangi os dentes.

Por baixo de minha própria pele eu pude ver cada uma das veias reluzir em um vermelho vivo, era perturbadoramente lindo, semelhantes a várias raízes.

Eu sou você e você é eu.

O calor ardente que tomou meu corpo eclodiu de dentro de mim com meu grito de agonia quando correntes vermelhas me envolveram.

Foi aí que eu... acordei.

Aquela mesma sala branca estava ao meu redor novamente e minhas costas estavam a bastante tempo contra o chão gélido de cerâmicas opacas.

“Que merda, isso definitivamente não foi uma alucinação.”, foi o que pensei levantando minhas costas do chão apenas pra ver as paredes brancas ao meu redor e aquela solitária porta a alguns metros adiante de minha presença.

— A síndrome se alastrou em 35%? I-Isso com certeza não é legal nem brincando. — Um suor de preocupação descia minha testa quando pensei em voz alta.

Uma memória leviana passou em minha mente ao me levantar por completo sendo perturbado pelo impasse atual.

“A síndrome de Tenebris pode deixar o infectado até mesmo em estado vegetativo.”, alguém havia me dito isso, se bem me recordava foi a senhorita Hordrik.

Meus punhos cerraram sutilmente quando a imagem do rosto daquela mulher ocupou minha mente... a mesma mulher que me ajudou na recuperação depois do incidente em Leycrid foi a mesma que tentou matar eu e meus companheiros.

Tch! Que se dane isso, eu preciso sair daqui. Não é hora pra ficar se culpando por coisas do passado, Jack. — Caminhei de forma desajeitada até a porta apenas pra perceber que a sua superfície era totalmente lisa, sem maçanetas ou painéis de código.

Espera... eu me levantei até que bem facilmente, não é?

O meu corpo paralisou por um momento.

Toda aquela dor que senti antes poderia ter me deixado incapaz de me mover por um bom tempo, mas cá estava eu de pés novamente.

Foi então que em um mero respirar, em um piscar de olhos eu estava outra vez no centro da sala totalmente afastado da porta que verificara.

— M-Mas o que? — Olhei confuso para a distancia entre mim e a porta antes de correr novamente para ela e ser puxado para trás de volta como um Load em algum jogo. — Impossível. — Meu rosto ficando húmido de suor.

Meu olhar assustado desceu para minhas mãos que tremiam sem parar.

Talvez fosse outra alucinação, não! Eu havia acabado de acordar, poderia isso ser os efeitos da síndrome ou da tal quebra de células Vitalis?

 

 

[Incis Katulis]

 

 

Tch! Que tolice, se meus cálculos não estiverem falhos Jack Hartseer chegou hoje em Lacrima. Creio que seja muito equívoco de sua parte exigir algo assim ainda mais considerando a sua posição atual, Incis Katulis. — Eykrill deu um sorriso frio para mim, suas mãos relaxadas preguiçosamente atrás de suas costas.

Minha atenção foi diretamente para a face de Zakio quando novamente um brilho emanou da cicatriz sob o nariz dele, dessa vez não era mais só pra mim perceber.

A capitã dos soldados Zypher deu um passo para trás já preparada para o pior: — S-Senhor Eykrill pode me explicar o que há com este prisioneiro?

Os soldados ao redor de Zakio fizeram a mesma coisa que sua capitã, que irônico, no fim todos já esperavam isso do nosso bom e velho pavio curto do grupo.

Vuuush!

Uma explosão de ventos eclodiu ao redor de Zakio afastando todos ao redor, meus cabelos dançando para trás em conjunto.

— Merda! Os grilhões não estão mais funcionando?!

— D-Devem estar com defeito!

— Capitã, permissão para imobilização!

Os cavaleiros da capitã se alarmando em conjunto, seus corpos revestidos por pesados trajes de combate cederam completamente ao chão quando lancei meu braço para trás em alta velocidade.

Ventania! Passo!

Com um único passo firme no chão que se assemelhou a um chute eu me lancei para frente enquanto a ponta dos meus dedos perfurou o vazio em direção da garganta da capitã.

— Seus bastardos! — Ela rugiu virando seu olhar em minha direção desviando o golpe com as costas do seu punho revestido por aço.

O impacto vibrante percorreu meu braço direito.

“Ela reagiu rápido tendo em vista que este meu golpe é de Lunge-Hei.”, meu olhar se estreitou, os olhos da capitã reluziram em fúria.

Em um efêmero segundo e ainda com sua mão que desviou meu ataque levantada ela usou seu outro punho contra-atacando.

O som dos ventos sendo rasgados vorazmente em direção ao meu abdômen.

Um vulto vermelho se distorceu por trás dos ombros da minha oponente que no mesmo instante recuou seu contra-ataque dando um mortal ágil pra cima.

O golpe sorrateiramente mortal de Zakio perfurou o vazio que ela deixou deixando-nos apenas com o vislumbre de seu corpo girando no ar com o cabelo curto aos ventos, eu poderia jurar que a sombra dela cobriu toda a pista. — Nada mal, como esperado do antigo prodígio da guilda e da filha de Kaylleon. — Exclamou a mulher de cabelo curto finalmente aterrissando no chão enquanto os seus soldados caídos a admiraram com orgulho. — Antes de tudo, quero que saibam do nome daquela que vai trazer a verdadeira justiça ao mundo, meu nome é Gardenia Vollvatya.

Os olhos dela com cores divergentes em um profundo carmesim e um dourado vivo exalavam convicção.

Eu e Zakio relaxamos nossos ombros.

— Não é como se você não pudesse ter feito isso desde a primeira vez que aprendeu sobre o conceito de justiça, no fim você é apenas um peão do império Zykron, Gardenia. — Levantei minhas mãos dobrando meus joelhos em uma leve, porém agressiva postura de batalha. — Justiça? Corta essa, você só tá fazendo isso por que tem um bastardo aqui que já distorceu totalmente esse conceito para o encaixar como engrenagem em um plano maior.

No mesmo instante em que citei ele o mesmo levantou sua voz longe do nosso campo de visão, a entonação de Eykrill ressoou entre as ruas, becos e prédios.

— Assim como o tempo causa uma mudança constante em tudo no mundo, as virtudes também são moldadas em algo novo, Incis Katulis, Zakio Sperr... o tempo da guilda R.O.U.N.D.S e todo o seu nobre objetivo já passou.

Meus olhos foram em direção da voz de Eykrill apenas para ver o maldito em cima de um dos prédios com seus longos cabelos negros ondulando por cima de sua face.

Passos! Passos! Passos! Passos!

— Alerta máximo, a capitã Gardenia está na linha de frente, protejam-na!

— Vão, vão, vão!

As vozes se sobrepondo em conjunto as marchas firmes dos diversos homens trajando armaduras de combate, o exército Zypher de Gardenia saiu de dentro dos becos e esquinas do distrito residencial semelhante a formigas seguindo a rainha.

Em poucos segundos a avenida principal foi tomada pelos soldados que nos cercaram completamente.

Zakio cerrou os dentes. — Merda, nós não temos tempo pra isso.

Os olhos carmesins dele se fixando em mim de canto no que eu apenas o retruquei com um sorriso destemido.

— E mesmo assim você como sempre é o que começa com o burburinho né Zakio? Sabe, essa sua técnica da marca amaldiçoada só pode ser usada 1 vez por dia.

— Traduzindo suas palavras, eu fui muito foda agora.

— Precisamente.

O comando de Gardenia rugiu entre os soldados com um tom poderoso: — DESTRUAM-NOS, ISSO É UMA ORDEM!

Se quiséssemos continuar na jogada precisávamos enfrentar quaisquer obstáculos até mesmo usando movimentos sorrateiros no meio dessa mesa de xadrez agora suja por essa nova revolução de Eykrill.

“Se todos vão jogar sujo então só temos que jogar mais sujo ainda.”, concluí internamente.

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