Trauma Longínquo
Capítulo 107: Culminação Tóxica
[Jack Hartseer]
O som de pequenas ondas do mar penetrou meus tímpanos e à medida que meu único olho se abriu um horizonte carmesim foi revelado, os céus cor de sangue e as águas negras abaixo dos meus sapatos.
Eu poderia ser consumido pela confusão e desespero apenas diante desse mero vislumbre, mas me recordei que a algumas semanas atrás estive aqui diversas vezes.
No mesmo instante em que me dei conta de onde estava aquela voz modulada contorceu vibrações pelo espaço vazio. — As coisas estão mudando pra melhor ou pior?
Mantendo a calma eu apenas retruquei em alto tom: — Abyssus, já faz um tempinho desde a última vez. — Um sorriso sarcástico curvou meus lábios, eu não podia demonstrar receio.
Como resposta vi uma névoa negra e espeça se juntar sob o mar negro adiante, a fumaça escura se juntou em um redemoinho antes de se transformar na minha silhueta.
Quando ele abriu aqueles grandes e reluzentes olhos o meu coração palpitou um pouco mais rápido do que o normal, ainda me dava medo de fato, ainda me deixava inseguro afinal Abyssus era o meu Alter Ego e quando se tratava disso eu sabia que as coisas mais inesperadas poderiam vir dele.
Foi então que Abyssus levantou a voz sorrindo.
— Parece um pouco mais confiante do que antes, me pergunto que bicho lhe mordeu.
— Nada demais, quando se trata de lidar com você demonstrar medo é uma das piores escolhas.
— Uau! Você realmente anda amadurecendo pelo jeito, que incrível. — Ele abriu os braços. — Sabe, é muito interessante ter uma conversa minimamente de igual pra igual com você afinal somos ambos a mesma pessoa.
Cortei ele em um tom defensivo. — Diz logo o que diabos você quer de mim.
Um silêncio pairou sob o ambiente por um breve momento antes da minha atenção se fixar nos céus carmesins acima de nós.
“Que diabos?!”, fiz uma face assustada.
Manchas negras começaram a preencher os céus escarlates como pingos de tinta caindo em um quadro em branco e dessas manchas pouco a pouco raízes da mesma cor se expandiram interligando as manchas umas nas outras como um gigantesco fungo se alastrando numa parede em branco.
Minha respiração pesando, a visão se esvaindo, todos os sentidos sendo entorpecidos pela escuridão total. Não tinha cor forma ou som, o completo vazio. Era isso que Abyssus queria me mostrar?
Como se não bastasse uma voz distante me puxou das trevas antes que eu finalmente abrisse meu olho. — Desperta, a hora da provação chegou.
— Exagora, o que houve?
O olho profundo de Exagora me observava deitado na cama de forma modesta. — Tu deitastes por um momento, murmurava sobre algum impasse.
“Eu adormeci... tá mais pra desmaiar.”, pensei quando levantei minhas costas da cama.
Minha cabeça latejou com rápidos fragmentos do que eu vi anteriormente enquanto estava inconsciente, nada de bom viria disso com certeza e apreensivo meu olhar se fixou na saída da nossa sela.
— Não passei muito tempo dormindo, certo? — Apoiei os cotovelos nos joelhos.
— Receio que não, porém residentes da gaiola estão sendo levados para o quarto da culminação.
Outra vez ele usava termos complicados, mas felizmente os meus vários anos como um fã de Novels me livrou de lhe perguntar como um garotinho ingênuo o que ele queria dizer.
“Culminação, um quarto da culminação. É um lugar onde iremos atravessar alguma coisa ou talvez algo mais introspectivo como elevar nossos limites?”, ponderei inquieto.
O significado de culminar não era um bicho de sete cabeças pelo menos pra mim, só que porra isso sequer fazia diferença no momento!
— Merda... — Cocei a cabeça. — esse quarto da culminação tem relação com o Armaggedon então?
Exagora acenou negativamente com a cabeça antes de se recostar na parede e cruzar seus braços repleto de cicatrizes. — Os residentes levados ao quarto da culminação são submetidos a ruína por alguns segundos visando a quebra de seus próprios limites físicos e assim seu respectivos Arbítrios culminam, como espadas mortais que necessitam de passar pelas chamas ardentes pra se tornarem ferramentas de guerra excepcionais.
Meu olho se arregalando levemente: — Levados a ruína você diz. Isso é realmente preocupante.
Ainda um pouco perdido entre as palavras de Exagora fiquei em silêncio tentando ponderar se isso definitivamente era mais pro lado literal da coisa ou simbólico.
Passos. Passos. Passos. Passos. Passos. Passos.
Foi então que passadas pesadas permearam os corredores engolindo quaisquer outras questões que estivessem ocupando as lacunas em minha mente.
Eu e Exagora fomos surpreendidos por quatro guardas se prontificando em frente a nossa sela em uma marcha simultânea, era possível ver até alguns pequenos rastros das luzes Neon em vermelho irradiando de dentro dos elmos metálicos deles.
“Espera, tem algo diferente nesses guardas.”, foi a primeira coisa que disse a mim mesmo quando reparei nos trajes mais sofisticados dos guardas.
Diferentemente dos soldados que me escoltaram quando cheguei esses usavam uniformes mais formais com direito até a gravatas ao invés da combinação de traje militar com carapaças metálicas somadas a circuitos brilhantes de antes.
Um deles levantou sua entonação por trás das barras que nos separavam dizendo: — Somos do instituto Vermiculus Lunae, detento 444 foi nos designada a tarefa de inspecionar a sua energia Vitalis e executar certas medidas de segurança necessárias para a preservação dos trabalhadores em Lacrima.
No que ele guiou suas palavras até mim pude logo compreender que seu olhar estava fixado sob minha presença mesmo que seus olhos estivessem ocultos pelo elmo de metal negro e nesse impasse senti um arrepio leve percorrer minha espinha quando ele disse esse nome, Vermiculus Lunae.
Eu já havia escutado esse nome em algum lugar, entretanto não houve espaço algum para quaisquer questionamentos quando a porta da sela se abriu com o som crepitante de engrenagens e dispositivos tecnológicos chiando como um código Morse.
— Esperem um pouco, o que exatamente querem dizer com tudo isso? — Indaguei inseguro instintivamente levantando-me da cama.
— Peço que permaneça calado durante o processo, Detento 444.
— Exagera, o que eles querem de mim? — Tentei gritar por cima do ombro quando fui imobilizado por um dos guardas enquanto outros dois foram em direção do meu parceiro de sela.
— Pare de se mexer, sua merdinha!
Tentei me debater só que obviamente era inútil e apenas ascendeu mais ódio nos guardas o que por ventura logo gerou uma comoção dentro da sela.
— Me soltem porra! Pelo menos me digam o que exatamente vão fazer comigo! Exagera, você sabe né? Tem algo a ver com a culminação?! — Empurrei um dos soldados e me desequilibrei pra fora da sela antes de tropeçar e cair. — Hugh!
— Já chega! Usem a Skill de imobilização nele!
— Ele está fora de si, não o deixem sair de perto da sela.
[Kyra Zylliun]
Os portões eram extensos e os arames farpados nas beiradas dos muros os faziam ser semelhantes a colossais muralhas de metal, só isso já passavam uma mensagem alta e clara.
“Não se aproxime.”
De qualquer modo não é como se os guardas no topo das torres com seus rifles já não tivessem me avistado caminhando pacificamente para a entrada principal, um movimento em falso e uma bala de energia Vyer perfuraria o ar quebrando as leis da própria velocidade apenas para se afundar em meu crânio.
— Alto, identifique-se senhorita. — Uma ordem firme ressoou pela espaçosa entrada principal quando um homem com um capacete metálico e um traje militar segurou nas grades do portão.
Comprimi os lábios enquanto minhas pupilas carmesins oscilaram por trás do visor negro em meu rosto, como esperado haviam mais e mais guardas em prontidão por trás do portão de grades cinzentas. Se eu fosse observar melhor poderia ter pelo menos mais de 20 ou 30 desses carinhas armados em cada extremidade do local, isso contando com os que estavam nas quatro torres posicionadas minuciosamente nas diagonais dos extensos muros. Lacrima realmente estava contendo um garoto como aqueles? Difícil acreditar.
De qualquer modo respondi o soldado com seus dedos agarrados na grade de metal e um fuzil relaxado em sua outra mão.
— Sou Lyla Zyfra, venho a pedido do diretor principal de Lacrima, Fyliak Klouvi. — Minha voz saiu confiante assim como planejei e assim abri meu Bio Menu modificado sob a visão do guarda.
O painel reluzente crepitou piscando antes de surgir próximo das grades onde o mesmo estava. Ele ficou em silêncio por alguns segundos analisando as minhas informações.
[Bio Menu]
[Nome: Lyla Zyfra]
[Raça: ***]
[Título atual: Afiliado do instituto Vermiculus Lunae]
Confesso que se não fosse pelo meu óculos negro minha expressão de receio estaria sendo almejada pelas miras alongadas dos rifles sob mim das alturas, uma Skill fajuta como essas só poderia passar despercebida pela entrada principal já que se fosse seguir pela lógica a segurança ficaria mais e mais rigorosa quanto mais internamente eu me infiltrasse em Lacrima.
— Entendido. Pode fechar o seu Bio Menu. — A voz imponente do guarda irrompeu. — Creio que o resto de suas informações como raça esteja oculta devido a questões corporativas.
Acenei para ele com a cabeça em confirmação.
Clank! Clink!
O som estridente do metal rangendo, os portões feitos de grades acinzentadas deslizando tanto para a direita quanto para a esquerda ao criar uma divisão no centro.
Um suspiro sutil me escapou.
“Gray, esse é o meu último trabalho no seu nome, a ruína lhe espera.”, fiz um juramento no fundo de minha alma antes de dar um passo adiante do meu destino.
A cada passo meu coração parecia palpitar mais forte, a pressão Aether nas proximidades de Lacrima era cada vez maior e os meus sentidos aguçados provenientes da minha raça com certeza não gostavam muito disso.
Suor escorria por baixo do meu traje negro enquanto pude sentir os olhares desconfiados de vários guardas pairando por cima dos meus ombros quando passei pelo portão me dirigindo até o saguão.
Adentrando o saguão pilares de ferro gigantes eram vistos por quase todos os cantos, as lâmpadas — semelhantes as tochas das Dungeons — eram cristais prateados que flutuavam ao redor desses mesmos pilares.
Alguns bancos brancos e bem acolchoados estavam separados em fileiras enquanto um longo balcão me recebia com uma mulher de cabelo curto e terno elegante.
Parecia extremamente vazio nesse saguão.
“Droga, acho que vou vomitar.”, engoli minha saliva com a força da pressão Aether no local.
Meu olhar incomodo viajou pelos cantos das paredes localizando câmeras de energia Vyer observando todo o perímetro com movimentos repetitivos, da direita para a esquerda, um Looping sem fim que continuaria não importa o que a acontecesse.
A voz da recepcionista de terno caiu sob o ambiente quando me aproximei o suficiente para ouvir sua entonação: — Boa tarde, por favor me mostre o seu cartão de identificação.
— C-Certo. — Me prontifiquei retirando um pequeno item do meu inventário.
Os olhos da recepcionista eram tão vazios quanto as lentes de energia Vyer das câmeras e isso por si só já me levou a uma certa conclusão não muito difícil de se fazer.
“Estão injetando energia Vyer comprimida até mesmo nos funcionários que não são designados ao combate... que lástima.”, mordi o lábio sutilmente antes de entregar o cartão prateado para a mulher de cabelo preto por trás do balcão.
— Afiliada ao projeto V.L heim?
Apesar da voz cética que mais se pareceu com um sussurro fantasmagórico eu fiquei surpresa, mesmo com os sentidos totalmente entorpecidos pelo Vyer condensado ainda podia fazer perguntas.
— Isso mesmo. Venho me encontrar com Detainee Current, em sua agenda ela declarou que estaria disponível hoje exatamente neste horário.
A recepcionista subiu os olhos negros e profundos do cartão até minha face sem expressar nada em sua face e então um painel reluzente flutuou sob meus olhos.
[Analisando ID...]
Minha respiração ficou levemente densa, meus ombros pesando. Outra verificação e essa era mais rigorosas como já me era esperado.
Zuuum. Ziiin. Zuuum.
Minhas orelhas estavam levemente dormentes por baixo do capuz negro. O som suave das câmeras indo da direita para a esquerda era quase inexistente para raças superiores, todavia não era o meu caso.
[Analisando ID...]
Um repetição constante dos mesmos movimentos e tarefas por incontáveis horas, dias, meses e anos, não eram só as câmeras que executavam a mesma tarefa consecutivamente nesta tortura chamada de trabalho, esta recepcionista parecia ter sido criada apenas para cumprir com esse simples papel. Carne e osso, metal e circuito, nesse mundo a diferença entre máquina e vida parecia estar cada vez mais se diluindo.
[Analisando ID...]
Meu corpo ficou um pouco frio no que as pupilas sem vida da recepcionista encaravam o painel do S.I.S em sua frente.
A ressonância da energia Vitalis de Jack estava pulsando firmemente por todo o perímetro em conjunto a vibração perturbante da energia Vyer em abundância.
Os Daemon nunca se dariam bem com máquinas e muito menos com as drogas como as que injetaram nesta recepcionista, as taxas de mortalidade envolvendo Vyer eram extremamente altas e isso com certeza era o suficiente pra me deixar perplexa diante de um ser que provavelmente teria essa mesma energia mortal pulsando por suas veias.
“O império de Zykron realmente é assustador.”, murmurei internamente.
— Verificação completa. Entrada permitida, você pode estar se dirigindo ao elevador 2-B, ele dá acesso direto ao gabinete administrativo da diretoria.
Meus ombros relaxaram com a entonação suave e melancólica da casca vazia chamada de trabalhador por trás do balcão.
— Hm. — Acenei inquieta com a cabeça. — Obrigada, tenha um bom trabalho. — Assim, dando minhas costas para o balcão eu me dirigi até a ala de elevadores que era enfeitada por algumas plantas artificiais em potes que reluziam com linhas em padrões de circuitos.
“No final das contas alguém sem virtude ou honra alguma como Gray tem contato direto com uma figura que reside em um lugar de alta periculosidade como esses, tanto que o cartão ID passou pela verificação sem nenhuma desavença.”, murmurei internamente, meu sobretudo desgastado sussurrando enquanto caminhei até o elevador 2-B.
Eu podia sentir cada fração de energia tóxica viajando pelos fios das câmeras, portas, paredes e ventilações do local.
Esse lugar era o verdadeiro inferno e não tinha nada de nobre na sua aparência minimalista, era como uma máscara e eu sabia disso melhor do que ninguém tanto pelo fato de ser uma meia-Daemon quanto pelo fato de ter experienciado na pele a crueldade do império Zykron.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios