Trauma Longínquo
Capítulo 106: O Ninho do Impostor
Depois que o som excruciante de sirene cessou apenas urros monstruosos eram vindos das celas, os detentos estavam eufóricos e isso certamente significava que o tal do Armaggedon já estava próximo de acontecer.
Se eu ainda estivesse como quando cheguei nesse mundo provavelmente estaria com minhas pernas tremendo de tanto medo, porém dessa vez era diferente.
“É com certeza uma situação complicada, mas talvez eu realmente tenha o que é preciso pra libertar o meu arbítrio dessa gaiola chamada Lacrima.”, murmurei no fundo do meu coração.
Exagora continuou em silêncio observando o imenso vão depois do parapeito do corredor onde nossa cela se encontrava, os feixes quentes de sol passando pela única janela bateram na careca e na superfície metálica do capacete cobrindo metade de sua cabeça.
Ele levantou a voz ainda de costas para mim: — Presumo que já saiba o significado de tal burburinho.
— Sim. O Armaggedon está próximo.
Minha resposta com um tom dessa vez confiante aparentemente fez Exagora abaixar mais sua guarda diante de minha presença e de algum modo a energia misteriosa até meio intimidadora da sua aparência se esvaiu nem que fosse um pouco.
Um pouco mais confortável eu me sentei na cama fria do beliche em que ele estava quando cheguei.
— Detainee Current disse que o Armaggedon era feito de forma clandestina e agora é gerido pela própria diretoria de Lacrima. Exagora, — Juntei minhas mãos com os cotovelos sob os joelhos. — diga-me exatamente como as coisas estão funcionando envolvendo esse evento.
Ele se virou para mim, um olhar destemido e profundo.
— Uma série de desentendimentos que levam até mesmo os mais hostis a se tornarem aliados, de certo posso afirmar que a provação para a nossa liberdade dentro desta gaiola pode ser manipulada pela senhoria, somos como camponeses que habitam território dominado por nobres.
Ele certamente tinha um dialeto bem rico pra alguém preso em Lacrima, me perguntei por um segundo qual seria a história por trás desse homem, entretanto acho que não tínhamos tanto tempo pra historinhas.
— D-Desentendimentos você diz. — Levei a mão ao queixo. — O Armaggedon provavelmente afetou alguém relacionado as autoridades da prisão então?
Era um bom palpite.
— De fato. Sua perspicácia me impressiona.
Passos. Passos. Passos.
Em conjunto a sua resposta rápida Exagora caminhou até o centro da cela e ergueu sua face em direção a janela na parede. — Aquela que se denomina detentora de uma alta posição dentro da gaiola, ela traiu seu próprio arbítrio abandonando as almas atormentadas que tinham esperanças depositadas em suas virtudes.
Franzindo as sobrancelhas com essas palavras complicadas até demais eu me senti um pouco confuso.
“Essa expressão, o que exatamente você quer dizer Exagora?”
A detentora de uma alta posição dentro da gaiola... É claro! A própria Detainee.
Minha face se tornou menos cética quando levantei a voz para Exagora: — Detainee Current, e-ela traiu pessoas aqui dentro? Seja mais claro Exagora.
— Não é algo simples, mas também pode ser ilusório para muitos e mesmo assim a cobiça pelo topo continua fervorosa no coração de Detainee Current que uma vez esteve na sarjeta só que agora aprecia o conforto proveniente da coroa.
“Merda, eu não lembro de ver diálogos tão complicados assim vindos de personagens com um Design tão esquisito como o dele em mangás ou até Novels.”, praguejei internamente.
Meu punho se fechando firmemente no que meu olhar se perdeu em meio a pensamentos.
“A vice-diretora de Lacrima na sarjeta, ela realmente passou por algo complicado então. Mas por que isso é algo ilusório?”, meu raciocínio tentando preencher as lacunas que faltavam.
Seria muito melhor se ele só falasse normalmente, quem diria que eu estava indo na onda desse cara que mais se parecia com um maluco qualquer. O poder de suas palavras complexas tinha algum sentido pra mim, eu sei que não estava ficando maluco!
Foi então que com um suspiro pesado eu tirei minha conclusão em voz alta.
— A vice-diretora está de alguma forma traindo a confiança do diretor principal que não está presente no momento.
No mesmo momento vi o olhar de Exagora se tornar um pouco mais aceitável só que ainda duvidoso.
— Não é algo simples, pode ser ilusório.
— Ilusório... — Comprimi meus lábios um pouco frustrado. — o-olha só Exagora, não sou muito bom com metáforas como as suas então se puder cooperar com as palavras eu vou agradecer.
Pelo jeito realmente não seria nada simples lidar com essa nova figura me fazendo companhia nessa cela.
[Detainee Current]
Uma quantidade massiva de informações foi mandada para mim via S.I.S e ela estava endereçada no nome do diretor principal, que exibido, quem iria ler isso além de mim?
“De qualquer modo o que li naquele painel reluzente realmente me cativou.”
Passos. Passos. Passos.
Passando na frente das selas eu podia ouvir os detentos sujos e agoniados gritando em uma demonstração de pura selvageria com relação a sirene que havia acabado de tocar, assim como animais eufóricos por um pedaço de carne.
Mesmo assim não consegui fugir de ponderar sobre esses dados que o diretor principal me mandou.
Jack Hartseer, um Lost com origem obviamente desconhecida foi trazido pela guilda R.O.U.N.D.S até suas instalações em Leycrid e logo após isso uma grande quantidade de energia Aether e Vitalis causou uma explosão gigante no perímetro deixando mais de 300 vítimas como resultado.
— Depois disso ele foi transferido para as instalações Blazeworth em Gilly e lá uma suposta anomalia envolvendo o Aether aconteceu causando o despertar de uma reencarnação de Dungeon no local. — Sibilei em alto tom deixando os guarda-costas me escoltando confusos.
Os gritos desordenados dos prisioneiros permeavam as paredes metálicas e o pátio principal, pareciam se intensificar mais e mais a cada segundo.
Uma euforia somada a ansiedade se aflorava em mim pouco a pouco, no fim mesmo após chegar em minha posição não dava pra ignorar por completo a sensação que o Armaggedon trazia.
“Felizmente é desse tipo caos que se nasce algo novo e esse garoto parece ser perseguido pelo caos. Não me impressiona que os membros da guilda R.O.U.N.D.S sobreviventes da reencarnação de Dungeon em Gilly relataram que ele foi o responsável por saírem vivos dali.”
— Vice-diretora por que não duelamos até a morte mais tarde?
— A vice-diretora está linda hoje hehehe!
— Essa vadia tem que ser esmagada de uma vez por todas hoje.
De cada uma das celas melodias de desordem enraizadas em palavras de raiva vazia ecoavam.
Uma emoção sem nenhum valor como essa raiva..., já fazia um bom tempo desde que Lacrima realmente tinha alguém digno de passar pelo Armaggedon. Alguém que sentira na pele o verdadeiro ódio, dor e desespero.
“Eu quero assistir o que pode nascer de novo do caos que persegue esse garoto chamado Jack Hartseer.”, murmurei internamente no que um sorriso curvou meus lábios.
No instante efêmero em que meus passos cessaram os dois guardas me escoltando também pararam e entraram em uma formação específica alinhando-se dos dois lados de uma porta metálica a minha direita.
A placa reluzente acima dessa porta poderia fazer qualquer um daqueles vermes trancafiados urinarem nas próprias calças.
O texto escrito “Diretoria” era destacado na placa metálica com uma luz forte em um tom ameaçador de sangue.
Os dois guarda-costas prestaram continência no que a porta se abriu com uma fenda horizontal fazendo-a se dividir ao meio, assim ambas as superfícies descendo e subindo simultaneamente.
O som robótico em conjunto a cacofonia rústica de engrenagens ressoou pelo corredor solitário quando entrei na diretoria.
Quando a entrada se selou novamente não havia mais nada além do silêncio no ar e as luzes se ascenderam de forma automática no mesmo instante em que pisei na primeira cerâmica do piso pintado em padrões de cores no estilo Xadrez.
Alguns armários com arquivos em papel somados a estantes com livros e instrumentos energizados com Vyer preenchiam a espaçosa diretoria enquanto uma grande quantidade de monitores reluzia no canto da sala onde havia uma longa mesa acompanhada de uma cadeira confortável.
“O computador central está como sempre bem ativo.”, foi o que pensei me aproximando dos monitores que exibiam imagens das celas e áreas de serviço.
Era como ter olhos até atrás do pescoço só que isso não era nem a melhor parte pra falar a verdade.
— Hm. Vamos continuar com o trabalho agora. — Suspirei sentando-me na cadeira acolchoada de couro macio enquanto a luz das diversas telas refletia em meus olhos púrpuros. — Afinal eu ainda tenho um pouco de tempo pra atuar como se fosse a diretora principal ao invés de vice. — Sorri para mim mesma antes de abrir o Bio Menu.
[Bio Menu]
[Nome: Detainee Current]
[Raça: ***]
[Título atual: Detentor da Coroa de Espinhos]
[Perícia em Vitalis: LV27]
[Ranking: C+]
“São tantas informações... me pergunto como elas surgiram e se existe algo ou alguém que as administre.”, sussurrei no meu inconsciente à medida que fui mais a fundo no Bio Menu.
[Transferência de Dados]
[Prisioneiro 444 (Informações confidenciais)]
[Anexado por: Fyliak Klouvi]
[Deseja transferir o arquivo para o dispositivo sincronizado?]
[Sim] [Não]
O computador central não era esse, mas se esses arquivos fossem salvos nele os mesmos iriam de forma automática viajar pela Vyernet e assim seriam mandados para o servidor central de Lacrima onde arquivávamos tudo sobre os prisioneiros que por ventura era onde estavam os meus dados.
Meus olhos ficando frios. — É questão de tempo até eu conseguir difundir minha energia na Vyernet.
Assim como levou tempo pra chegar onde eu estava sentada e apenas transferindo alguns dados pra um servidor, também demoraria um tempo pra conseguir invadir esse mesmo sistema sem ser rastreada ou registrada no Log.
“A impaciência é pros ignorantes. No fim as dificuldades foram se diluindo sobrando apenas esses dois obstáculos à minha frente. Quando se está diante de uma provação é aí onde seu verdadeiro potencial é posto à prova.”, ponderei subindo o olhar para um dos monitores onde era exibida a cela de Jack Hartseer, ele estava sentado na cama com uma postura relaxada assim como eu.
— Detento 444, espero que você não decepcione em meu Gran Finalle.
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