Tsunagari Brasileira

Autor(a): Lich


YUMETSUNAGARI

Eu quero você

YUMETSUNAGARI

Eu quero você 

— Um sonho. Sempre o mesmo sonho todos os dias.

— É mesmo? Que curioso. Como é o sonho, Takahashi?

— Eu caminhava num gramado plano, sem árvores, sem nada diferente. O sol era leve, o vento refrescante.

— Não parece um sonho ruim. Acontece alguma coisa além disso?

— Sim. Eu encontro o Akihiro, mas ele está… estranho. Depois ele fala coisas que eu não entendo e me deixa assustada.

— Que tipo de coisas? Pode me contar?

— Ele pergunta por que eu o deixei naquele estado. Diz que tudo que aconteceu com ele é culpa minha.

— “Naquele estado”? O que você quer dizer?

— Eu não sei. Ele não explica. Só me culpa por coisas que eu nem entendo.

— Compreensível.

O silêncio toma a sala. A psicóloga não diz mais nada.

— Kimiko, seja sincera comigo.

Sinto seu olhar penetrante em meu rosto.

— Você nunca foi psicóloga, né? Ou parou pra ajudar alguém emocionalmente de verdade.

Kimiko sorri, um sorriso meio sem graça.

— Você está certa. Eu não deveria ter tentado te ajudar sem nem saber ouvir direito. Pode abrir os olhos e levantar da cama agora.

Abro os olhos devagar, encarando o teto do meu quarto por alguns segundos. Depois me sento na beirada da cama.

— Obrigada pela sessão, Kimiko.

— Não precisa agradecer. Eu tentei, pelo menos.

— Não ajudou muito, pra ser sincera. Mas obrigada mesmo assim.

Ela sorri daquele jeito fofo dela.

— Bom, fico feliz que você superou tanta coisa. Vou indo agora, tá?

— Pode ir. Obrigada por tudo.

Kimiko se vira, sai do quarto, desce as escadas. Ouço ela falando com minha mãe na sala.

— Então, doutora, como minha filha está?

— Ela está mais calma em relação a você, mas ainda carrega algumas coisas pesadas.

— Então seria um problema se você me contasse? 

— Sim, seria um problema. Por enquanto, não libero que você converse com ela sobre isso. Tudo bem?

— O que eu posso fazer?

— Mantenha contato, conquiste a confiança dela aos poucos. Mas seja natural, Haruta Takahashi.

Kimiko desvia o olhar para o chão de madeira.

— Enfim, vou indo. Bom dia.

Ouço a porta da frente bater segundos depois.

Hoje eu e o Akihiro combinamos de sair…

Penso em voz alta enquanto encaro o guarda-roupa aberto. Passo os olhos pelos cabides.

Será que ele vai estar muito arrumado hoje?

Levanto da cama e começo a me arrumar. Minha mãe, sentada no sofá lá embaixo, parece perdida em pensamentos. De repente ouço passos na escada. A porta do quarto se abre de supetão.

— Misaki!

Eu travo no meio do movimento, com o short já na cintura e a camisa ainda desajeitada. Ela também se assusta.

— Desculpa, Misaki… Eu devia ter batido.

— Tudo bem. Na próxima, bate, por favor.

Continuo vestindo o short jeans.

— Vou sair com o Akihiro. Vamos comer fora.

Ela acena, sem dizer nada.

— Você… queria falar alguma coisa comigo, mãe?

— Ah, eu… — A voz dela falha. Dá pra ver a culpa e a paranoia nos olhos dela.

— Não. Só queria ver se você estava bem.

Silêncio desconfortável no quarto.

— Como eu estou?

Ela me olha surpresa. Eu já estou com a camisa social bege clara, meia-calça preta, short jeans curto e sandália preta. Meu cabelo está um pouco mais comprido agora, batendo abaixo do ombro.

— Você está linda como sempre. — Ela sorri, mais relaxada.

Isso me deixa mais à vontade.

— Mãe, já são quantas horas?

Ela olha o relógio na cômoda.

— Cinco horas.

— Ok, vou indo então.

Ajeito a roupa uma última vez e saio do quarto.

— Ei, Misaki.

Paro no meio da escada e viro.

— Eu te amo. Aproveite o encontro.

Fico surpresa, mas sorrio de verdade.

— Obrigada, mãe. Eu também te amo.

Desço, abro a porta da frente. O sol da tarde ainda está forte. E lá está ele, Akihiro Nishida, esperando na calçada.

— Nossa, você é rápido! Bom te ver, Akihiro. Demorei muito?

— Bom te ver também, Misaki. Confesso que estava com saudades. Você está linda inclusive. — Ele dá um sorriso meio sem jeito.

— Ah, eu… — Minha voz trava. Sinto meu rosto esquentar, meus olhos arregalados, sobrancelha torta, boca semiaberta. Devo estar fazendo a cara mais estranha do mundo.

Ele coça a garganta, tentando não rir.

— Acho que você ainda não está tão acostumada com carinho.

— Um pouco… Você sabe como eu sou.

Olho melhor pra ele. Camisa larga verde-escura, calça larga escura, o colar de prata com pingente retangular. Combina perfeitamente com os olhos amarelos brilhando no fim da tarde e o cabelo castanho até o começo dos ombros.

— Você está bem bonito também, Akihiro.

Baixo o olhar pros meus pés. Minha voz sai trêmula.

— Hm? Achou?

Confirmo com a cabeça, ainda sem encarar.

— Bom… Não era a intenção impressionar, mas fico feliz que você gostou.

Ele se vira na direção do restaurante.

— Vamos?

Um sorriso bobo toma meu rosto.

— Claro!

Fico ao lado dele, bem pertinho. Sinto os dedos dele roçarem nos meus, depois ele segura minha mão com firmeza.

— Então… pra onde você vai me levar hoje?

— Primeiro, um restaurante bem famoso por aqui. Depois tenho uma surpresinha interessante pra você, Misaki.

— Surpresa? Que curioso. Você sabe que eu vou gostar de qualquer coisa que você mostrar, né?

— Imagino. Mas não gosto de entregar o final antes da hora. E as suas férias de primavera, como estão?

— Bem… Estão indo. A Kimiko tem me ajudado psicologicamente.

— Ainda fico surpreso que ela se ofereceu. Não é muito o estilo dela.

— Verdade. Parece que ela prefere ajudar você.

Vejo o rosto dele ficar sério.

— Apesar de ela ter me ajudado bastante, eu ainda não confio nela.

Meus olhos se arregalam por um segundo.

— Sério? Por quê?

— Ela não passa confiança. É uma vampira… e tem habilidades bem além do normal.

— Se eu fosse você, nem tentaria confrontá-la. Tenho medo que ela te machuque.

Ele abre um sorriso pequeno.

— Não vou fazer isso. Não agora, pelo menos.

— Sério? O que você está pretendendo?

Ele suspira, pensa um pouco.

— Quero descobrir quem ela é de verdade. Ou o que ela é.

O olhar dele aperta meu peito de um jeito que eu nunca vi.

— Desculpa parecer tão sério. Não estou bem pra falar disso agora.

— Sem problema, Akihiro. Desculpa por puxar o assunto.

— Não tem problema. Eu ainda gosto dela… Só fico pensando muito nisso.

Abro um sorriso inocente e encosto meu ombro no dele.

— Vou tentar te distrair mais, tá? Não quero te ver assim tão sério e misterioso.

Vejo um brilho nos olhos dele, o rosto ficando levemente vermelho. Ele sorri de verdade.

— Eu te amo, Misaki.

Aperto a mão dele com força.

— Eu também te amo, Akihiro.

Conversamos o caminho todo até o restaurante. A região é mais nobre, o lugar é uma casa grande de dois andares. Luzes já acesas, não muito cheio. Parece chique.

— É bem grande… Você não gastou uma fortuna pra reservar mesa aqui, né?

— Digamos que o valor não importa tanto agora.

Ele me guia pra entrada. A recepcionista sorri gentil.

— Boa tarde! Estão agendados?

— Sim, Akihiro Nishida, mesa reservada pras cinco e meia.

Ela confirma no computador.

— Pode entrar e se divirtam!

O interior é lindo, parece inspirado em aquário. Mesas nos cantos, pratos com tema marítimo, sushis, crustáceos.

— Os pratos são bonitos…

— Você tinha dito que gostava de comida assim.

Subimos pro segundo andar, sentamos ao lado de um aquário enorme. Encosto minha perna na dele de leve.

— Sabe, Akihiro, você é o melhor namorado do mundo.

— Não fala bobagem. Só estou fazendo o básico pra te agradar.

Ele se aproxima mais pra eu encostar melhor, sorrindo.

— Mesmo assim! Como diz o trava-língua: Kimi ga suki suki suki sugite, suki sugite komaru suki.

— Quantos dias você treinou pra falar isso tão rápido?

— Sempre pratiquei trava-línguas quando era menor.

— Não sabia. Meu pai dizia que eu era bom com piadas.

— Sério? Conta uma!

Ele coça a garganta, confiante.

— Era uma vez um samurai que treinava todo dia com a katana. Acordava cedo, meditava, afiava a lâmina, praticava iaijutsu, cortava tatames, bambus, melancias… Um dia ouviu falar de um mestre lendário no topo de uma montanha. O segredo do “corte supremo”.

Ele viajou semanas, enfrentou tempestades, rios, ursos… Chegou exausto.

O mestre perguntou: “Por que veio aqui?”

“Quero aprender o corte supremo!”

O mestre dobrou uma folha de papel e entregou. “Corte isso ao meio.”

O samurai concentrou tudo… e cortou perfeito.

Orgulhoso: “Funcionou! Qual o segredo?”

O mestre: “Dobrar o papel antes.”

Fim.

Meu olhar animado vira anticlímax puro.

— Que piada…

— Não é tão ruim assim!

— Não é meu estilo. Meu irmão gosta mais desse tipo.

— O Rem é meio sem graça com piadas…

Ele pega o cardápio, mudando de assunto.

— O que você quer comer, Misaki?

Pego o meu e olho os preços.

— Não sei ainda…

— Pede qualquer coisa. Eu pago.

Passo os olhos até achar.

— Quero isso aqui!

Aponto pra um caranguejo grande, com sopa de legumes e casca.

— Não esperava que você gostasse de caranguejo.

— Nunca te falei? Caranguejo é meu animal favorito. Gosto de tudo que vem dele.

Ele levanta a mão pro garçom e faz o pedido. Fico olhando os peixes no aquário.

— Bonito, né?

— É… Pena que não vão durar muito.

— Por quê?

— São Tōgyo, dois machos. Essa espécie é agressiva entre si.

Ele olha pro aquário, vê os peixes se rodeando.

— Erro do restaurante. Não fica triste.

— Não estou triste. Só preocupada com eles.

Seguro a mão dele de volta.

— E você e o Rem? Estão melhor?

Ele desvia o olhar.

— Se não quiser falar, tudo bem. Nada de assuntos tristes hoje, ok?

Ele suspira e me encara.

— Estamos melhor. Ele começou a entender o lance da nossa mãe. Mas discutimos hoje cedo.

Meus olhos se arregalam.

— Por quê?

— Ele estava estressado. Tentei ajudar, ele recusou. Insisti… e ele descarregou em mim. Sou um pouco patético, admito.

— Claro que não! Por que você pensa assim?

Ele sorri, vulnerável.

— Fiquei mais sentimental depois de tudo. Não superei meu pai, mas… não fico tão triste. Só me sinto mais fraco, ligando pro que o Rem fala de mim.

 seu rosto se vira para o aquário, vendo os peixes tōgyo e seu próprio reflexo no vidro.

— Às vezes eu e o Rem somos iguais a esses peixes que você falou.

— Akihiro, para com isso.

Solto a mão dele só pra colocar as minhas no rosto dele, obrigando ele a me olhar.

— Não importa se você ainda não superou. Eu também não superei tudo que minha mãe fez, mas tento me manter firme.

— O que eu faço pra ficar firme?

Penso um segundo, subo os dedos pela orelha dele.

— Você chora.

Os olhos dele enchem na hora. Lágrimas escorrem. Ele tenta disfarçar fungando.

— Parece que você ficou mais durona que eu…

Ainda sorrindo, pego a toalhinha na bolsa e passo no rosto dele.

— Desculpa por te fazer chorar.

— Eu que desabafei antes da hora.

Faço biquinho.

— Já disse que tá tudo bem. Mas conversa com o Rem depois, tá?

Ele acena, pega a toalhinha.

O garçom chega com as patas de camarão.

— Mesa 36? Aqui está. A sopa e o corpo vêm depois.

— Obrigada.

Olho pro Akihiro, que está impressionado com o tamanho.

— Vamos comer?

— Claro.

Depois do jantar, saímos de mãos dadas pelas ruas já escuras.

— Que horas são, Aki?

Ele olha o celular.

— Sete e quinze. Achei que ia demorar mais.

— O encontro foi perfeito. Muito obrigada.

— Eu faria qualquer coisa por você. Ainda quer a surpresa?

Abro um sorriso enorme.

— Claro que quero!

— Então é na minha casa.

Meu sorriso congela. Meu rosto fica bem quente e avermelhado.

— Não é o que você está pensando! Juro!

— Eu… sei.

Chegamos na casa dele. Rem está vendo TV. Sinto o tom de voz do Akihiro mudar de forma bem drástica, parecendo um pouco nervoso.

— Rem, a Misaki vai dormir aqui hoje.

Rem vira, expressão neutra.

— Ok. Olá, Misaki. Fica à vontade.

Ele volta pra TV.

— Vamos, Misaki.

Subo atrás dele, coração disparado. Ele abre a porta do quarto.

Tudo reformado. Guarda-roupa no canto esquerdo, cama à direita. E na janela… um telescópio apontado pro céu.

— Você comprou um telescópio? Que incrível!

— Comprei há um tempo. Dá pra ver bem de longe. Faço desenhos do que vejo no espaço.

Me aproximo. Tem um caderno com desenhos e anotações de estrelas.

— Dá pra ver Saturno com ele?

— Claro. Um segundo…

Ele ajusta, acha.

— Achei!

Me dá espaço. Coloco o olho no visor. Lá está Saturno e seus anéis, lindo mesmo de longe.

— Isso é incrível! Obrigada, Akihiro. Quero desenhar tudo que você observar no espaço.

— Quis mostrar agora porque você fala tanto de astronomia. Queria deixar especial.

Viro pra ele. O rosto dele brilha com a luz da lua.

— Eu te amo, Akihiro.

— Eu também te amo, Misaki.

Levanto na ponta dos pés e encaixo meus lábios nos dele. O gosto, o cheiro, o jeito… Tudo nele me encanta. Queria que esse beijo durasse pra sempre.

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