Volume 3

Capítulo 201: E o Tempo Passa; Uma Excursão. #4

 

Lin Ming tinha 87 anos esse ano, e ele já trabalhava na Casa da Criação dos Registros há 30 anos.

Com um cultivo humilde da Classe Bronze Branco — o máximo que seu talento lhe rendeu após 40 anos de esforço contínuo, árduo e sangrento, ele foi obrigado a reconhecer a realidade: 

Ele não possuía o talento necessário para ir além.

A Classe Bronze Branco não era considerada uma Classe difícil de se alcançar antes dos 20 anos de cultivação, mas se ele não conquistou isso antes da idade mínima, era um decreto de que ele não passaria desse estágio também.

O talento tinha prazo de validade, e quanto mais velho alguém, menos o seu talento pode florescer.

Lin Ming reconheceu seus limites antes de se deparar com uma existência terrível que arrancaria sua vida. E assim, ele se juntou a Casa da Criação dos Registros. Não era um trabalho perigoso, não exigia muito esforço, e rendia o suficiente para que ele pudesse continuar comprando recursos para se cultivar.

Enxergar seus limites era diferente de desistir de seus objetivos, ele acreditava nisso e não parou de cultivar. Mesmo quando não havia mais nenhum resultado.

Naquele dia, Lin Ming estava trabalhando como de costume até que seu chefe recebeu a notícia de que uma das clientes mais antigas da casa havia chegado. Essa cliente em particular tinha uma boa relação com seu chefe, apesar haver de uma diferença gritante de cultivo entre eles.

Com o desenrolar dos eventos, Lin Ming teve que apresentar a Casa da Criação dos Registros para a mais nova discípula daquela especialista cujo nome era acompanhado por contos — sejam eles de glória ou de terror.

O nome da discípula era Qin Xa, uma garota inegavelmente bonita, mas com uma atitude de uma criança de 5 anos. Por que enquanto seus irmãos sempre foram comportados e corteses, ela era como um mosquito que não parava quieta?

Lin Ming sentiu que a admiração que ele sentia pelo Pavilhão das Flores Sorridentes estava começando a ficar menor conforme aquela discípula falava.

— Tio, por que as casas de vocês são feitas com essa mistura de cipós e pedras? Não tinha como escolher apenas um dos materiais?

Que inconveniente. Ela estava criticando a arquitetura da sua terra natal? Como ela tinha coragem de fazer uma coisa dessas? Sorte a dela que tinha uma existência medonha como protetora...

— As Cordas da Rocha Celestial não são apenas um simples material usado na construção. — disse, guiando o caminho escada abaixo, sendo seguido pelos discípulos. Seu destino atual era a área de cópia dos manuais, lugar onde os livros seriam "multiplicados".

— Eles são a deidade que nos protege de algo antigo e muito poderoso que reside abaixo da Grande Rocha. Aceitar ele em nossas moradia é uma forma de nunca esquecermos de que é graças a ele que estamos vivos e bem.

A garota olhou para ele com um semblante muito julgador. Lin Ming sentiu-se desconfortável e uma das discípulas, uma vestida com folhas e flores, pele bela e olhar caloroso pôs as mãos no ombro da insolente.

— Qin Xa, guarde suas perguntas retóricas para si mesma e não faça comentários maldosos. Você não aprendeu a respeitar a origem dos outros?

Lin Ming adorava as obras dessa sua admirável sênior. Sabia bem que o cultivo dela não era alto, mas ainda assim sentia uma grande simpatia por ela.

— Eu sou algum tipo de monstro desrespeitoso? — a insolente bufou. — Só estava me perguntando porquê ficar em um lugar onde tem uma coisa tão perigosa bem debaixo dos seus pés.

— Você está dizendo que nossa deidade é fraca?

— Não. Sim. Não sei. Talvez. — sua insolência continuava a aumentar, fazendo até mesmo seus irmãos demonstrarem preocupação. — Eu achava que era forte até meu Mar de Qi ser explodido. Estou perguntando o motivo da sua raça não ir embora e deixar que as Cordas da Rocha Celestial fazer o trabalho dela sem que... você sabe... A garota apontou para todas as casas e pessoas transitando, pulando e brincando pelos cipós. Lin Ming entendeu.

Fazer seu trabalho sem que tenha um bando de gente aleatória pendurada nas suas pernas.

Por um momento o silêncio dominou a escada, Meng Yu, Nan Yu e Shi Lin quase engoliram seco — e Lin Ming entendia bem que esses 3 não queriam ofender ele ou sua raça. O problema era essa garota...

— Diferente do que você pode estar pensando, as Cordas da Rocha Celestial não gasta seu poder em nos proteger. — falou, voltando a caminhar com uma calma recomposta. Falava como se houvesse encontrado a resposta para não ceder ao incômodo que era a presença da outra parte.

— As histórias contam que antes dela chegar aqui nós já habitavamos essa região, e depois da sua chegada foi ela quem se propôs a nos ajudar a despertar como uma raça de alto nível.

Podia sentir o olhar cético da garota. Mas ignorou.

— Nossa raça estava em um estado deplorável de existência alguns milhares de anos atrás. Mas quando a Grande Rocha subiu, as Cordas da Rocha Celestial surgiram e nos forneceram um lar que nos protege do tempo e da natureza, provêm para nós uma moradia estratégica e fez nossa raça se adaptar para vivermos aqui sem pedir nada em troca. Deixar este lugar seria o mesmo que dizer que somos uma raça ingrata, covarde e sem determinação. E nós não somos nada disso.

— Hmm, esses cipós são muito heroicos então... — não ouve zombaria no tom dela, Lin Ming sentiu-se bem ao ouví-la elogiar sua deidade.

Mas por estar de costas para o grupo, não percebeu Qin Xa lançar um olhar de soslaio para Nan Yu. E o jovem caiu em pensamentos profundos, certamente calculando alguma coisa em sua mente.

O grupo ficou em silêncio, contemplando as afirmações do homem. Até a compreensiva Meng Yu não demonstrou muita firmeza em acreditar que pudesse existir... uma criatura tão boa no mundo.

Após descerem alguns milhares de metros paredão abaixo, passando por lugares largos e apertados, finalmente o grupo chegou num outro palácio.

Nesse havia muito mais cipós do que o comum, mas também havia um silêncio estranho comparado ao restante da cidade. Por se tratar de uma construção suspensa — e enorme — essa era muito semelhante a uma grande bola de cipós, coberta por folhas verdes, cada uma com mais de 5 palmos de tamanho, e flores bonitas e perfumadas.

Lin Ming sentiu sua mente se acalmar apenas por chegar perto. Adentrar no lugar trazia paz de espírito.

O interior da grande bola estava repleto de mesas – mais de 10.000 delas dispostas de forma muito ordenada e cada uma com uma pessoa escrevendo algo. Nas mesas também havia pilhas de papel, livros ou rolos de pergaminhos.

– Aqui é o salão de cópia. — disse Lin Ming. — Já que a senhorita também se tornará uma escritora um dia, saiba que seu manuscrito chegará aqui para que seja manualmente copiado por todas essas pessoas. Pode-se dizer que eles serão seus primeiros leitores.

Ao olhar para o rosto da garota Lin Ming viu pela primeira vez espanto.

— Está dizendo que todos os livros vendidos... são copiados a mão?

— Sim. Vamos manter o silêncio para não atrapalhar a concentração deles.

O homem levou-os para mais fundo naquele salão.

— Cada livro que o Pavilhão das Flores Sorridentes publica passa por aqui e é copiado algumas dezenas de milhões de vezes. Sabia que nosso maior número de cópias é da sênior Han, com 32 bilhões de cópias vendidas? Uma pena que a distribuição da obra foi proibida 3 meses após o lançamento, se não até hoje estaríamos fazendo milhares de cópias por dia.

Tirando Qin Xa, todos os outros discípulos pareciam orgulhosos desse feito de sua mestra. Só Qin Xa que realmente estava olhando para toda a produção de livros como se visse um monstro.

— É um trabalho incrível... Mas máquinas copiadoras já existem faz séculos. Por que ainda escrevem os livros à mão? Eu estou com a sensação de que não quero torturar milhares de pessoas que têm que copiar um livro meu tantas vezes...

Seus irmãos a encararam com estranheza. Até os escritores que ouviram isso a encararam.

Qin Xa não se abalou nem um pouco com os olhares. Não quis ofender, mas a ideia de condenar alguém a passar horas e horas escrevendo e reescrevendo uma obra — mesmo que fosse o trabalho dela — de algum jeito era desagradável.

— Esse é o estilo da Casa da Criação dos Registros. Todos os livros são escritos a mão, e os leitores demonstram um apreço muito maior por obras com o nosso estilo do que por aquelas copiadas por uma máquina.

Lin Ming entregou os novos manuscritos para uma mulher — mulher lagarto de 4 pernas — e ela sorriu, complementando a informação.

— E não tem nada de torturante nisso. Todos os escritores aqui passaram anos treinando artes marciais de escrita veloz, compreensão acelerada, leitura rápida, memorização e mimetismo que tornam eles capazes de copiar com exatidão até a forma como o autor faz seus pontos. Cada 1 deles, com orgulho, consegue copiar 1 livro de mil páginas em meia hora. Não somos tão diferentes de um artista marcial. A divergência é que nosso cultivo é fazer livros.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora