Volume 3

Capítulo 197: E o Tempo Passa; Um Dia Como Mestra do Pavilhão das Flores Sorridentes

 

Amanheceu poucas horas atrás.

Han Lining caminhou calmamente pelo corredor central do pavilhão, sentindo a fragrância sempre gostosa do ótimo trabalho na limpeza que seus discípulos faziam. O cheiro floral vindo do chão, a ausência de qualquer sujeira e a presença constante de calma no ambiente lhe trouxe orgulho.

O sorriso em sua face entregava isso.

Chegando na mesa de refeições, viu seus discípulos já preparados para o ótimo dia que prometia ser... menos Qin Xa.

— Saudamos à Mestra! — disseram, dando um curto comprimento ao verem ela sentar-se à cabeceira da mesa. O cheiro da comida de Shi Lin e Meng Yu estava delicioso como sempre.

— Saudações. Onde está Qin Xa? — poderia usar o Sentido Astral para varrer o Pavilhão inteiro, do topo ao subsolo. Mas a menos que fosse necessário, evitava fazer o uso do mesmo.

As lembranças eram dolorosas.

– Bem, — começou o moço de asas negras, largas e grandes. — depois da aula de canto de ontem ela foi para o quarto exausta. Não vi ela mais. Deve estar dormindo, mais do que o normal. E ela já dorme muito.

— Se chama preguiça, não exaustão. — Xue Song mordeu um pão.

— Bem, eu queria que ela focasse um pouco mais na dança. Será que ela não gosta? — o esguio Tian Fang completou ao despejar suco em um copo, recolhendo também dois grandes peixes assados na brasa, ainda com partes queimadas, mas muito bem recheados e exalando um salgado aroma que fazia quem sentisse-o ficar com a boca cheia de água.

— Qin Xa é mesmo bastante preguiçosa... — Ye Ti brigou com Hong Qing por uma fruta roxa e cumprida, mordendo os dentes com raiva enquanto o jovem sorria. — ... mas ela só não gosta de passar 10 horas seguidas dançando. Solta, Hong Qing!

— Não, essa é a última e você já comeu duas!

— E você comeu 3!

— Eu sou maior!

— De maior você só tem a cabeça!

— Ti, se você comer tanto vai ficar gorda.

— E o que isso tem a ver com você? Solta!

...

Estava tudo em harmonia por aqui e Han Lining assentiu satisfeita, conversando com todos os 18 adultos. Era assim que as coisas haviam acontecido nos últimos anos.

Ela antes que Xu Lang começasse a desfrutar da refeição, Han Lining mandou ele ir acordar Qin Xa. Já havia passado bastante da hora dela tomar a primeira refeição do dia, e conhecendo Qin Xa, ela iria passar o dia reclamando que ninguém a chamou.

Xu Lang suspirou e saiu, suas asas negras causando vento nos cabelos de todos ao sair da sala.

Quando chegou frente ao quarto de Qin Xa, teve que se preparar mentalmente para o que estava por vir.

— É de manhã... ou muita energia como nunca vi antes, ou uma pegadinha ridícula... não tem como acordar ela do jeito normal...

Respirou fundo, com seus olhos amarelos assumindo um tom confiante, e ele bateu na porta 3 vezes. Não houve resposta.

Abriu as portas com cautela, esperando que alguma coisa voasse na sua cara, mas tudo o que viu foi a parede do outro lado...

estranhou. Realmente não havia nada?

"Impossível. Qin Xa é sempre esquisita. O que vem? Ovos, penas, travesseiros, um balde de alguma coisa? Quem sabe o chão tenha alguma coisa errada..." 

Apesar da cautela, sabia bem que a garota não fazia nada remotamente perigoso. Estava até mesmo no nível de ser mais bobo do que as ações de uma criança pequena. De certa forma, era com se a garota realmente fosse criança.

Xu Lang não sabia a idade de Qin Xa, apenas Xue Song e Xue Ran, junto com Han Lining. Nenhum dos outros imaginaria que Qin Xa tinha só treze anos... tirando Shi Deng.

Xu Lang adentrou no quarto, queimando de expectativas pela surpresa da vez. No entanto, mesmo quando cruzou o batente nada aconteceu. Estranhou. Estava um decepcionado, talvez.

Foi até a área da cama... ainda esperando por algo. Seu coração batendo com ansiedade.

E viu Qin Xa, cujo braço esquerdo estava dobrado por trás cabeça, como se tivesse deslocado, e a cabeça — essa foi virada para a direita, quase o suficiente para virar para trás — o braço direito ficou por baixo das costas, e as pernas... bem...

— O que exatamente eu estou vendo? — Qin Xa gostava da cama ao lado da parede, grudada, e com isso, ela simplesmente abriu tanto as pernas, numa demonstração extrema de flexibilidade, que praticamente colou as coxas na parede... e estava deitada bem no meio da cama.

Caso a cama fosse mais curta sua cabeça estaria pendurada.

Mas Qin Xa estava realmente dormindo... só restava saber como foi que ela acabou naquela posição deveras curiosa.

Quem era que dormia de um jeito tão esquisito? Os céus não deveriam deixar uma coisa assustadora dessas acontecer. Qin Xa parecia alguém que acabou de ser atropelado e havia quebrado todos os ossos.

Xu Lang se aproximou, encarou o rosto da garota, cuja respiração calma era a maior estranheza nessa cena aterrorizante.

— Qin Xa?

Não houve respostas.

— Sério, ela realmente está dormindo? Eu esperava muita coisa... mas não achei que te encontraria dormindo de verdade...

Foi então que viu, ao lado dos travesseiros na cabeceira da cama, uma pilha de folhas de papel. Subiu na cama e os pegou, vendo que eram... milhares de notas sobre como o tom de sua voz deveria soar.

Também havia muitas letras de músicas, com mais anotações de como Qin Xa cantaria, e algumas até mesmo descreviam a intensidade dos instrumentos para combinar com seu tom de voz.

Era uma ótima revisão, por mais que houvesse vários erros.

Ele folheou tudo, surpreso por ver que a tinta não estava seca o suficiente... talvez a última tenha sido escrita há umas 3 ou 4 horas. E havia pelo menos 50 folhas. Qin Xa passou a noite inteira revisando a aula de canto.

Mas ele claramente a viu sair exausta ontem.

Xu Lang colocou as folhas de volta no lugar e pensou em ajeitar a garota... mas só balançou a cabeça e saiu do quarto. Ela parecia confortável naquela posição que se assemelhava a um cenário de tortura.

Ao retornar a sala de refeições, recebeu um olhar questionador de todos.

— Qin Xa estava no seu primeiro sono ainda. Ela passou a noite inteira revisando a última aula de cantoria e só dormiu agora há pouco.

Duvido que seja uma boa ideia acordá-la.

— Olha só irmã Song, isso não parece um sinal de preguiça. — Hong Qing comentou sorrindo, apenas para receber um olhar mortífero de Xue Song.

— Calado! Só porque ela trabalhou hoje não quer dizer que ela vá fazer o mesmo amanhã. O tempo já provou que Qin Xa é mais preguiçosa do que qualquer coisa.

...

Após a refeição matinal, todos foram assumir seus afazeres, e Han Lining como de costume chegou ao seu escritório, dessa vez encontrando 5 belas pilhas de papel.

Eram os manuscritos dos livros de Xue Song que seriam publicados em breve.

Como entretenimento, é claro que os livros também eram uma parte fundamental do estudo do Dao.

Han Lining começou a ler o conteúdo, sem esperar encontrar erro algum, afinal a mulher tinha mais de 60 anos de experiência escrevendo livros, e já tinha sua própria reputação graças a isso. Na verdade, seria estranho encontrar algum erro agravante no conteúdo. E como se para zelar por sua imagem, os 5 livros não tinham nem mesmo uma única incoerência. Xue Song fazia realmente um ótimo trabalho.

Só restava mandar para a gráfica.

Wit! Wit!

Foi então que passando pela janela, um pássaro verde e azul voou até pousar na sua mesa, encarando Han Lining diretamente.

— O que foi?

— Eu quero comida.

— Na cozinha tem muita, Xue Ran nunca iria deixar de te alimentar.

— Eu não quero aquela comida.

— E qual você quer?

— Sementes de Palha Ensolarada! — o pássaro bateu asas, se sacudindo. Han Lining assentiu.

— Alguns meses atrás Xue Ran comprou umas 10 sacas disso...

— Eu já comi tudo!

— Então isso é um sinal de que você deveria sair da sua gaiola e voar até o sul.

— Nunca, voar cansa.

— Voar é a sua natureza.

— E mesmo assim ela me cansa. Eu quero comida. E se eu morrer no meio do caminho?

— Lenbraremos de você como o pássaro preguiçoso que sempre foi. Tem muita comida na cozinha esperando por você. Vá se divertir por lá.

— Mas eu quero Sementes de Palha Ensolarada!

— Eu não tenho isso.

Os dois se encararam, com o pássaro parecendo ficar mais e mais irritado quanto mais via o rosto esbelto e sereno de Han Lining.

— Este grande demônio irá se lembrar da sua insolência! Não espere que eu te ajude mais nessa vida!

VRURURURURUR!

Batendo asas, ele desapareceu janela a fora.

— Que tipo de ajuda eu iria querer, principalmente vinda de um passarinho?

Eram muitas dúvidas.

Certo que esse pássaro não era comum, mas no fim ele era tão útil para sua vida quanto um pássaro normal.

Tunk!

Nesse momento Han Lining ouviu uma batida forte vindo do quarto de Qin Xa e foi obrigada a olhar através das paredes para saber o que estava acontecendo lá. Essa garota ainda era uma incógnita para que qualquer ação incomum dela fosse ignorada.

Escorar os cotovelos na mesa e cruzar as mãos, encostando a cabeça nas mesmas — estava observando e tentando compreender porquê Qin Xa caiu da cama e estava se arrastando até o criado mudo.

O chão era liso, então Qin Xa só usu a força das pernas para se empurrar para frente. Chegando até o móvel, bocejou. Olhou para cima — estalando a boca. Estava com sede e queria a água do jarro.

Mas não parecia ter vontade de levantar. Assim, ela ficou lá, esparramada no chão pelos próximos 10 minutos. Não falou nada e a única coisa que fez foi bocejar a cada poucos minutos. Ademais, Han Lining observou ela tomar coragem para se escorar e erguer seu corpo — que nem era pesado — com o mesmo esforço de quem puxa uma carroça cheia de pedras.

— Como que alguém consegue ser tão preguiçoso a esse ponto? — estava realmente confusa com a apresentação ridícula.

Observou Qin Xa se pôr de pé, e despejar água no copo. Bebeu um copo em questão de segundos, depois outro, e mais 5, até a água da jarra acabou. — A Mestra deveria colocar mais água nos jarros...

Han Lining não iria fazer isso. Quem quisesse água que tivesse a decência de fazer seus próprios arranjos fosse buscar uma jarra maior para deixar no quarto.

Na cozinha havia muitas, e bem maiores. E se não fossem o suficiente, bastava ir a cidade comprar um pote de 200 litros.

Qin Xa cambaleou até seu banheiro, sem fazer questão de fechar a porta quando entrou.

Nesse ponto Han Lining se perguntou se deveria mesmo observar o restante do ato abominável de Qin Xa... mas jogou seus pensamentos de lado quando a garota sentou-se no vaso, se acomodou.

Fez o que precisava fazer, mas continuou sentada, encarando o teto... e fechou os olhos. Definitivamente ela não tinha vontade alguma de levantar mais daquele lugar... e assim, passou-se mais 10 minutos — Qin Xa pegou no sono sentada na privada.

Han Lining parou de observar, fez concha com as mãos em frente ao rosto e respirou fundo. Exalou, exasperada.

— Haaaas... o que foi que eu acabei de ver?

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