Volume 3

Capítulo 192: Confiança

 

O peso estava frio. A prisão em que se encontrava restringia todos os seus movimentos, até os de sua mente. Calafrios eram dolorosos como agulhas penetrando sua pele. E o calor que havia era fino, mas ainda assim reconfortante. 

Pei Chuyan lentamente abriu os olhos e uma luz de brilho infinito a cegou. Ela rapidamente os fechou, querendo colocar o braço na frente mas não encontrando forças. 

Pei Chuyan sentiu seu corpo ser jogado e puxado.

Depois do que pareceu uma eternidade ela conseguiu se adaptar a luz, apenas para ver o mundo bagunçado — como se apenas fragmentos da realidade fossem percebidos. 

Passados alguns segundos de confusão, percebeu na sua frente um rosto, conhecido, que estava muito feliz por ela ter acordado… era o que parecia. O zumbido em seus ouvidos era irritante.

Ranyu Sheng suspirou aliviado ao ver que ela abriu os olhos, mas aqueles olhos estavam girando de forma estranha, sem conseguirem focar em um único lugar. Que coisa esquisita ver aquela garota controlada tão vulnerável…

— Chuyan! Vamos lá, acorde! — ele bateu levemente no rosto dela, “Pat Pat Pat!” enquanto as janelas de sua alma rolavam de um lado para o outro.

Pei Chuyan ouviu sua voz distante, mas por mais que ela tentasse, não conseguia manter a consciência. Mal conseguia pensar na verdade… era desconfortável… mas o desconforto também vinha fragmentado.

Sentiu tapas na bochecha… sabia que foram poucos, percebeu que talvez fossem centenas. Os segundos se esticaram como um elástico, e os tapas se fragmentaram em leves carícias a sua pele, que logo foram esquecidos por ela desmaiar e retornar tempos depois… 

Após mais alguns tapinhas, Sheng viu que seu olhar recuperava a nitidez. Ela lambeu os lábios. E então os mordeu.

— AAAAAMMMM! — ao tremeluzir as pálpebras por um momento, as trancou numa expressão de agonia terrível que veio junto a um grito abafado por um gemido mordido! Lágrimas brotaram e escorreram pela pele de cor fria. — AAAAAGG!

Sheng suspirou ao ver isso, muito aliviado por Pei Chuyan finalmente gritar. A dor era o maior indicador de que alguém estava vivo, essa era uma certeza que ele não sabia de onde veio, mas estava gravada em seu sangue. 

Ele também estava agonizando de dor agora mesmo, mas acordar ela era mais importante, sua própria dor podia ser tratada depois. Pouco se importava com ela, já que não era ele que estava com as entranhas abertas.

— Se concentre em se recuperar! Eu não sei se estamos seguros agora que aquela coisa morreu. — falou isso enquanto se afastava um pouco dela e se encostava em algo.

Pei Chuyan olhou fracamente para ele e suspirou extremamente feliz, mesmo que estivesse agonizando. "Estamos vivos! Nós estamos realmente vivos! Mas como...?"

Como? Por que? O que aconteceu? Onde estava aquela cobra? Por que Ranyu Sheng ainda estava bem mesmo depois de ser esmagado daquela forma? Eles estavam realmente seguros agora?

Ela tinha muitas perguntas, mas pouco tempo para buscar respostas e quase nenhuma força para perguntar. 

Pei Chuyan rapidamente fechou os olhos e ajustou sua respiração, e então circulou seu Qi pelos meridianos que ainda estavam intactos — por milagre — fazendo com que suas células se reproduzissem loucamente, recuperando seus tecidos e reparando seus ossos.

Mas esse processo não era tão rápido, as feridas dela só foram começar a se fechar mais de 5 horas depois, após ela muito circular seu Qi. E esse foi apenas o começo. 

Mas o processo de circular o Qi não era cansativo, pelo contrário, fazer isso era a mais pura forma de relaxar dos cultivadores. A meditação era essencial na vida de um cultivador, fazer isso limpava sua mente e clareava seus pensamentos.

Ditados diziam que 1 dia meditando profundamente era mais valioso do que viver 1 ano como um sábio.

Entretanto, por mais que os pensamentos se tornassem límpidos, não mudava seu caráter. 

A pureza de caráter e pureza mental eram coisas completamente diferentes.

Uma pessoa boa tinha pensamentos bons, e limpos — enquanto uma pessoa má teria pensamentos ruins, porém, também limpos e sem nenhum peso na consciência.

Ranyu Sheng também estava fazendo o mesmo. Enquanto circulava seu Qi, sentia que cada vez tinha mais controle sobre o mesmo — além disso, aquela energia vermelha estava fornecendo a ele uma quantidade ridícula de autoridade sobre seu Qi.

Ele estava exercendo um controle tão alto e refinado, que nunca imaginou que seria capaz de manipulá-lo diretamente dentro do próprio corpo.

Se antes mover seu Qi era como puxar barro seco com as mãos, depois dessa batalha ele sentiu que aquele barro estava molhado, cercado por água que facilitava umas 1000 vezes a manipulação.

Os dois permaneceram se recuperando por um longo tempo, já que se não foram atacados nas primeiras horas que estavam desacordados, queria dizer no mínimo que esse lugar não era tão perigoso. Pelos menos, no estado deplorável que estavam, era mais fácil acreditar nisso.

Em um dado momento Sheng abriu os olhos e suspirou, pela enésima vez hoje, ao ver que não havia ocorrido nada de ruim enquanto eles se recuperavam.

Chuyan ao seu lado já não estava mais com seu corpo aberto. Porém, da clavícula até o umbigo, passando por seu peito esquerdo, uma cicatriz horrível restou. Não pareceu perceber sua nudez parcial, mas ela já estava sentada e com a respiração regulada.

Sheng se levantou devagar — a quantidade de sangue que perdeu durante a luta foi tanta que nem mesmo ele sabia se poderia continuar vivo depois daquilo.

Suas pernas tremiam visivelmente e ele lutou para se manter de pé, se apoiando contra a coisa negra da qual estava encostado. Os arredores eram silenciosos como um cemitério, nem mesmo os insetos estavam fazendo barulho.

Ranyu Sheng suspirou. De novo.

— Mesmo depois de morto, o poder dele ainda é grande o suficiente para não deixar que outras criaturas se aproximem...

Ranyu Sheng virou a cabeça e olhou para a cobra que estava logo atrás dele. Seu corpo massivamente gigantesco ainda era extremamente intimidante, mesmo quando ela já estava dura e com os olhos brancos.

"Brancos? Por que eles ficaram brancos? Além disso, aquele terceiro olho não ficou branco..." Um brilho amarelo preencheu a visão de Ranyu Sheng fazendo com que lentamente ele engolisse seco, abrindo a boca levemente ao ver a descrição escrita em letras douradas — escrita pelo sistema.

Subiu na cabeça da cobra e um brilho vermelho cobriu seu braço, ele então usou toda a sua força para arrancar aquele terceiro olho que estava na testa da criatura maligna!

— Como uma coisa assim pode existir? Se as pessoas soubessem de uma coisa dessas, o que aconteceria?

Sheng segurou aquela coisa com extremo cuidado, ele mesmo sabia que nem a vida dele valia tanto quanto aquilo. Pelo menos para os outros.

Olhou para Pei Chuyan e olhou para seus próprios status, de repente pensou que não faria mal algum dar isso a ela.

[Nome: Pedra Absorvente da Essência Vital Sanguínea.
Energia interna: Nulo.
Energia Refinada: Nulo.
Atualizações disponíveis: 5.]

[Pedra Absorvente da Essência Vital Sanguínea.

Descrição: Uma pedra de alguma forma considerada especial por absorver a essência sanguínea e vital, e fortuita dos seres, ou seja, o tão aclamado talento! Se alguém absorver essa pedra, essa pessoa poderá aumentar seu próprio talento.

Efeito: Aumentará o talento de alguém para Decente.

Efeito negativo: A pessoa que absorver a essência vital sanguínea da pedra sentirá na própria pele o ódio e ressentimento dos mortos absorvidos, e pode ficar louca por um período indeterminado de tempo.]

Mas assim que prestou atenção ao efeito negativo ele franziu a testa. Isso não era uma coisa boa de verdade. Agora não sabia se dava isso para Pei Chuyan ou não...

O risco de ficar louco caso não pudesse suportar a ira dos mortos não era algo leve de forma alguma, ele realmente não queria que Pei Chuyan passasse por algo assim.

Enquanto estava imerso em seus pensamentos, Ranyu Sheng sentou-se perto de Pei Chuyan e começou a recuperar suas energias. Ele não queria estar em um estado tão fraco por mais tempo do que isso.

Uma ou duas semanas se passaram até que Pei Chuyan finalmente abriu os olhos — sentiu-se tensa, sem forças e faminta.

Ela estava extremamente fraca e mal podia mover seus membros depois de despertar. Mesmo cultivadores ficariam rígidos depois de passarem muito tempo parados.

Ranyu Sheng sentiu o movimento dela e também despertou. — Como você está? — perguntou, assistindo ela tentar ficar de pé.

— Estou bem, obrigado irmão Sheng. Eu só estou muito fraca por perder muito sangue com aquele ferimento. E como você está?

Chuyan sorriu fracamente, enquanto suas asas negras abriam e fechavam. Ranyu Sheng também se levantou. — Eu estou bem, meus ferimentos estão quase recuperados e meu cultivo subiu um pouco.

Chuyan sentiu-se feliz ao ouvir isso, mas foi então que ela percebeu a coisa preta atrás deles e viu a cabeça da cobra virada para eles. Mesmo de pé, a altura da criatura ainda era alguns palmos acima dela!

— O quê…

Suas pernas perderam a força e ela engoliu seco, caindo de bunda na grama molhada pelo orvalho — e folhas mortas.

Apenas a lembrança do que ela passou, a fazia sentir uma sensação extremamente horrível e horripilante de medo e impotência!

— Irmã Pei, não precisa se preocupar, ela já está morta! — Ranyu Sheng entrou em pânico quando viu que Pei Chuyan caiu, sem se mover com os olhos arregalados, o medo era visível em seu rosto como se ela estivesse tendo um pesadelo hostil.

— Morta? Como...? — se recusando a acreditar, Pei Chuyan começou a tremer. 

O medo da morte não era algo que pudesse ser superado tão rápido como duas ou três semanas. Mesmo que fosse em meditação. 

— Sim, ela está morta! Olhe. — Ranyu Sheng rapidamente socou a cabeça da cobra com toda a sua força. “Pan!”

O coração da garota quase saiu pela boca ao ver a ação ridícula e inacreditável que ele acabou de fazer! Queria repreender até seu avô por fazer uma bobagem dessas com essa monstruosidade! 

Mas quando viu que a criatura não se mexia, ficou surpresa. 

Ranyu Sheng a encarou e supos que não importa o quanto ele pensasse, não fazia ideia do que fazer agora nessa situação. Era muito mais simples só erguer seus punhos e enfrentar um inimigo terrível, do que fazer Pei Chuyan sair de seu estado de medo.

Então ele só pôde esperar ela pôr seus pensamentos no lugar.

Após alguns minutos tremendo, ela levantou, caminhou para frente com relutância e tocou a serpente. Sentiu que não havia um pingo de vitalidade nela, e foi como se um balde de alívio fosse jogado na sua cabeça. 

Nunca se sentiu tão aliviada na vida.

— Como? Foi você que a matou? — mesmo tendo perguntado isso, ela rapidamente rejeitou a possibilidade. Não havia como ele ter feito uma coisa dessas, se ele estava sofrendo tanto para se manter de pé antes.

— Sim, foi eu. — mas quebrando toda a mentalidade dela, ele respondeu com seu habitual tom frio.

— Irmão Sheng, não brinque com isso. Como que você poderia matar uma coisa dessas? — se recusou a acreditar nessas palavras. Que tipo de piada era essa? Não tinha graça. 

— Mas eu realmente a matei. Eu tenho um poder capaz de destruir a fundação de alguém e eliminar toda a sua energia… — falou com confiança, recebendo um olhar desacreditado de Pei Chuyan. 

Os dois se encararam por um momento. 

Sheng não estava mentindo, enquanto Pei Chuyan lutava para tentar não dizer: “Se você vai mentir, pelo menos faça isso com alguma coisa que faça algum maldito sentido! Sério, mesmo que sejamos amigos, eu não vou acreditar quando você fala uma baboseira desse tamanho!”

O impasse continuou por alguns breves segundos.

E ele, com um pouco de tato, percebeu que não adiantaria de nada ficar encarando ela e pegou a pedra em forma de olho de dentro das suas roupas.

— Pegue. Essa coisa… — ao explicar para ela o que essa coisa fazia, ele também explicou quais seriam os riscos caso ela usasse.

...

— Como que uma coisa dessas existe no mundo? Já tinha ouvido meu pai falar de materiais capazes de elevar o talento de alguém, mas aquelas coisas eram muito difíceis de se conseguir... Irmão Sheng você não está mentindo, não é?

— Não. Eu realmente estou falando a verdade. 

— Então por que você não usou essa pedra? 

— Eu não fiz isso porque quando eu destruí a fundação dessa cobra, a energia dela foi usada para que eu aprimorasse meu talento para um nível maior do que essa pedra pode fornecer. Ela não serve para mim e eu acho justo dar para você. 

Ranyu Sheng não escondeu nada de Pei Chuyan quando respondeu suas perguntas. Ele lembrou de que Qin Xa lhe disse para não usar o Sistema de Atualização Absoluto de forma inconsequente, e não dizer a ninguém que ele possuía essa coisa também. 

Mas não havia mal em dizer para Pei Chuyan, não é?

Afinal eles já haviam passado bastante tempo juntos e ele realmente não sentia que Pei Chuyan iria fazer alguma coisa ruim sabendo disso.

— Usou para aprimorar seu talento? Uma coisa dessas realmente existe? — Chuyan estava mais do que desconfiada disso. Por um lado ela estava atordoada, por outro lado ela realmente acreditava nas palavras dele. 

Mesmo que essas palavras fossem um absurdo desse tamanho. 

Matar uma Classe Ouro estando na Classe Bronze? Isso já era impossível apenas de pensar em fazer. 

Uma pedra que podia aumentar o talento dela?! Se uma coisa dessas existisse de verdade, não havia mais pessoas sem talento no mundo. Todos seriam gênios supremos que mesmo tendo nascido sem talento, poderiam reinar sobre o mundo usando apenas essas pedras.

Depois de um tempo pensando, ela balançou a cabeça. 

— Eu vou acreditar… por enquanto… — acreditar ou não acreditar? 

Esse foi o dilema que ela enfrentou, e isso foi simples de resolver. 

Havia alguma razão para ela não confiar em Ranyu Sheng? Por mais estranho que fosse, ela realmente não viu razão alguma para não confiar nas palavras dele.

Que motivos havia para desconfiar da pessoa que teve o corpo empalado, esmagado e apertado ao ponto de ter seus ossos esmigalhados — só para protegê-la, quando ele poderia tê-la abandonado?

— Já faz bastante tempo que essa cobra morreu, mas ainda assim nenhuma criatura ousa se aproximar desse lugar. Eu acho que por enquanto devemos ter algum tempo para nos recuperarmos. — ela respondeu, meio que um sorriso tímido se formando em seus lábios. 

Após se esticarem, resolveram cortar a carne da cobra para se alimentarem, já que estavam morrendo de fome e sem 60% do seu sangue. O fogo foi feito com muita dificuldade pelos raios que Ranyu Sheng era capaz de produzir, e fazê-lo queimar madeira não foi fácil. 

Mas eles conseguiram no fim, e assaram a carne! 

Isso era um mero ritual de respeito, afinal, os dois tinham plena capacidade de comer carne crua. 

Mas se estavam devorando o inimigo, pelo menos tinham que deixar sua carne com um gosto mais aceitável. 

Apenas uma mordida naquela carne foi o suficiente para que os dois ficassem sobrecarregados com a pureza da energia. Mesmo que Ranyu Sheng tivesse absorvido mais de 70% do Qi da cobra, isso não queria dizer que ele fez com que a pureza do que dela diminuísse. 

O que diminuiu foi a quantidade, não a qualidade. 

E essa foi precisamente a razão pela qual a cobra morreu.

Uma fundação extremamente fraca não podia conter esse nível de energia, além disso, com sua fundação praticamente destroçada, a cobra não podia nem mesmo controlar seu próprio poder dentro de si.

Então ela não morreu porque o Sistema de Atualização Absoluto a matou… a cobra morreu por um desvio de Qi. E com uma perda massiva na energia, toda a sua resistência se desmanchou.

De outra forma seria impossível para qualquer um dos dois cortarem a carne dela…

— Entendo… — mastigando a carne, Ranyu Sheng assentiu para a hipótese de Pei Chuyan, que fazia o mesmo enquanto mexia as asas, circulando sua técnica. — Quer dizer que se eu não tivesse tirado energia o suficiente dela para melhorar meu talento…

— Nós estaríamos mortos. — a garota não hesitou em reconhecer o fato. 

— Já que você pode ver a quantidade de Qi de todos em forma de números, e só precisa de uma palavra para vencer a batalha... — olhou Sheng nos olhos. — Acho que deveria andar com coisas que precisam de pouca energia, para as "atualizações" que deixam o inimigo com alguma força.

— Faz sentido...

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