Torneio da Corte Brasileira

Autor(a): K. Luz


Volume 1

Prólogo

No alto o sol clareia todo o bairro de casas grandes no auge do seu meio-dia. Ao sair, um homem de terno bate a porta da sua residência e em seguida atravessa o jardim, chegando a um carro negro com uma silhueta robusta. Um suspiro é dado pela alta temperatura, a porta do carro é aberta e fechada; o local é abandonado com o girar das rodas.

Os retrovisores refletem a passagem dos veículos pela rua; ele para ao ficar de frente a um semáforo. Na espera, seus olhos percebem um livro jogado no banco de trás, que logo sua memória relaciona a saída apressada do garoto que deixou mais cedo na escola.

— Esqueceu, é? Pivete desatento… — Ao pegar o objeto ele repara que é um livro de ciências.

A viagem continua, um engarrafamento o força a fazer mais uma parada. Com a pausa, o homem aproveita para dar uma folheada nas páginas. O trânsito melhora, seu carro avança na primeira oportunidade.

“A forma que ensinam hoje em dia sobre a aura é bem didática, huh? Ou devo pensar como ‘otimista’?”, pensa. “Alguns a veem como uma benção divina, outros como algo de origem sombria… Até um consenso na ciência é complicado.”

Ele coça a barba protuberante que cobre todo o seu queixo, caindo mais profundamente em suas divagações — um entretenimento para a viagem.

Força ini, ou, como é mais conhecida, aura, é um poder que a maioria da humanidade possui desde o nascimento. É algo que se manifesta ao desejo do usuário para impulsionar o desempenho físico, mas… é limitada, tão limitada. A aura não faz milagres, não pode fazer um humano destruir uma rocha duas vezes maior que o próprio tamanho; não pode fazer um humano sobreviver a uma queda alta em que bata a cabeça. No geral, seu efeito é mínimo, ajudando no cotidiano como uma ferramenta.

“Aproveitando a deixa da limitação da aura, existe algo superior no mundo, sendo mais raro que um diamante: ‘a yrai, a joia do poder’. Dependendo do tamanho, o seu material consegue gerar energia, ao menos várias vezes mais do que uma aura normal se for de boa qualidade, sendo possível uma combinação de ambas dependendo da aptidão do indivíduo que as manuseia.

“Naturalmente, considerando que ambas são ferramentas que melhoram o desempenho humano…” Um cigarro é levado a boca, acendendo-o enquanto dirige com a mão restante. “...são usadas em competições atléticas, e claro, os cenários violentos não são exceções, são o destaque. Lutadores exímios usam a aura e yrai para ferir; tanto em campos legais quanto ilegais. Algumas dessas estão sobre as luzes ofuscantes dos holofotes, outras mais submersas que uma moeda dentro de um bueiro imundo. (...) ‘Como tudo chegou a esse ponto?’, vai saber, mas essa realidade não me incomoda, chega a ser engraçado imaginar um mundo sem a influência dessas forças.”

Seu carro fica estacionado do lado de fora de um restaurante cinco estrelas. O homem adentra até chegar na mesa em que há um idoso, se curvando em respeito a sua presença, em seguida, se senta no assento que fica de frente para ele.

“Meu chefe se chama Holliver Alstro, um famoso organizador de torneios de artes marciais. Muitos foram até transmitidos pelo país… não, até pelo mundo inteiro. Mesmo recebendo duras críticas sobre a quantidade exorbitante de violência impregnada nas suas competições, ele seguiu firme com o ‘império’, sendo respeitado e odiado por muitos há tempos.”

O garçom coloca vinho nas taças de ambos, um acompanhante para os pratos de carne que usufruem.

“Após tantos anos no ramo, um rumor se espalhou, um sobre Holliver estar entediado, e com alguns ‘parafusos’ a menos na cabeça devido à idade; boatos que desapareceram pelo aumento da sua inatividade, que chegou ao ponto de fazê-lo sumir dos jornais, com raramente surgindo alguma informação sobre suas ações. Não seria exagero dizer que foi esquecido por completo.”

Eles gesticulam ao ficarem muito imersos na conversa, chegando, com o tempo, em um consenso que os fazem apertar as mãos.

 

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Dias se passam.

Agora é noite, uma encoberta em garras cinzas que acobertam a lua por completo, lhe negando qualquer glória.

O barbudo está andando por um beco. Ele usa um casaco largo e chapéu para ocultar sua presença, se movendo em um ritmo lento enquanto é seguido pelos olhos dos mendigos. Ao chegar em uma porta de ferro, dá três batidas, ficando no aguardo por alguma resposta.

A porta se abre, o homem entra de imediato pela brecha.

“Foi me dado o trabalho de espalhar uma notícia, começando pela cidade selecionada para o evento, algo que logo se espalhou de um lado a outro pelo estado, e depois, por todo o país. Eu fiz as pessoas saberem do retorno ‘daquele homem’ à ativa.”

Dentro das sombras daquele lugar, ele desce pelas escadarias. Em uma parte do caminho há alguns homens robustos de guarda, a permissão para continuar lhe é dada. O final do caminho é alcançado, uma grande sala onde está seu contratante.

Após o cumprimentar, seus olhos reparam rápido nos arredores: o lugar está repleto de móveis de cores intensas, diferente do restante do edifício; não há uma parede à frente, por onde adentra os brados do público, e também, sendo por lá que Holliver assiste o confronto abaixo.

Em um ringue de areia, dois homens se aproximam, trocando socos manchados de sangue, soltando laços curvados de vermelho a cada impacto; suas visões são encobertas em estouros de clarões a cada impacto. Eles investem um contra o outro, acontecendo do mais baixo ser pego em uma chave pelo pescoço, algo que eleva a loucura do público atrás das grades.

“Em uma cidade desconhecida, abandonada pela própria pátria, Holliver anunciou a construção de uma arena para a realização de um novo torneio, um chamado ‘da Corte’, o que estremeceu o coração dos seus fãs fiéis de longa data, mas também os enchendo de estranheza pelas peculiaridades da competição.

“Segundo o organizador, o torneio tem como propósito dar uma oportunidade de lutadores jovens receberem prestígio, e, uma yrai de qualidade, que será dada ao vencedor. Um recurso que certamente vai impulsionar suas carreiras para um novo patamar.”

— Meu trabalho está feito, senhor — diz para o velho.

— Ótimo, ótimo. Agora só preciso esperar… Estou ansioso para ver como as crianças desta era irão se sair. — O confronto em baixo acaba. O vencedor levanta os braços, se banhando com o prestígio; o derrotado está estirado pelo chão sem fazer nenhum movimento, afogado no próprio sangue. — Romanto, quero que você tenha a responsabilidade de cuidar dos convidados de honra.

— Como desejar.

 

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“Após a conclusão da construção da arena, as condições para participar foram divulgadas. Sendo elas: 

  1. Ter entre 18-20 anos.
  2. Concordar com a escassez de regras e, consequentemente, com os riscos que irão envolver as lutas.
  3. Passar pelas preliminares que ocorrerão em vilas próximas de Montes da Luz.
  4. Não serão permitidas yrais na competição, apenas aura. Peso e frequência II são irrelevantes para as inscrições.
  5. E se divertir, estou no aguardo! :)

Caridosamente, Holliver.”

“Apesar de ser um evento que visa amadores e novatos do mundo profissional da luta, o evento chamou a atenção de todos pelo reconhecimento do organizador e a qualidade do prêmio — atraente talvez não seja o bastante para o resumir. A yrai que será dada ao vencedor está no Tier 5 de geração de energia, uma posição bastante rara na escala de 1 a 7, considerando que é muito difícil até para profissionais obterem algo próximo do 3 ao 4 mesmo estando há bastante tempo nos ramos que envolvem essas joias. Essa é uma recompensa astronômica, e causou um furdúncio por todas as partes do país e até pelos povos além do mar.

“Os testes de seleção dos lutadores aconteceram há seis meses, não houve por muito tempo qualquer vazamento sobre como funcionavam e seus resultados. Faz apenas um mês que a lista de participantes foi exposta ao mundo, possuindo no total o nome de dezesseis rapazes e também — com grande destaque na divulgação — a data em que acontecerá o torneio… em que acontecerá a ascensão, como estava escrito no anúncio.”



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