Volume 3
Capítulo 2: Obrigado por esperar, Karen Himemiya
FAZIA UMA SEMANA desde que o Clube de Literatura conseguiu uma orientadora. Ao contrário das minhas preocupações iniciais, a Konuki-sensei é surpreendentemente atenciosa. Ela estava disposta a ouvir qualquer coisa e até se esforçava para pesquisar quando não sabia a resposta. O fato de ela tentar me deixar sozinho na enfermaria com as garotas, ou de insistir em explicar tudo usando estames e pistilos, não excluía nada disso.
(N/SLAG: Estame e pistilo são as estruturas reprodutivas essenciais das flores (angiospermas). O estame é a parte masculina (produz pólen na antera), enquanto o pistilo (ou carpelo) é a parte feminina (contém óvulos no ovário))
Era segunda-feira à tarde. O Festival Tsuwabuki seria neste sábado. No caminho de volta da enfermaria para a sala de aula, passei por um grupo usando máscaras de abóbora no corredor.
— As abóboras florescem com flores masculinas e femininas na mesma planta, né…
Esse comentário aleatório simplesmente escapou. Foi algo que perguntei à Konuki-sensei. Aparentemente, é para evitar a autopolinização. Mesmo assim, por que ela trouxe isso à tona quando eu estava falando sobre a Kaju…?
(N/SLAG: Será por quê, né? kkk)
— Com licença! Deem passagem, por favor!
Afastei-me ao ouvir a voz e, desta vez, um grupo de garotas vestidas de bruxa passou correndo por mim, carregando uma vassoura gigante. Com tantos alunos fantasiados este ano, o festival está se tornando praticamente uma festa de Halloween.
À medida que o fim de semana se aproximava, a escola inteira ficava cada vez mais agitada. Os corredores, normalmente silenciosos depois das aulas, estão tão movimentados quanto durante o dia.
Também tenho uma reunião de projeto da turma daqui a pouco. E depois ainda preciso passar na sala do clube. Hoje vai ser um dia cheio.
Um aroma floral passou por mim justamente quando eu passava pela escada.
…O que foi isso?
Parei instintivamente. A fragrância suave e floral parecia vir do topo da escada. Olhei para cima casualmente e vi uma garota descendo com dificuldade, com os braços completamente cheios de materiais—
— Awawa! Sai da frente!
Espera… essa fala. Isso saiu totalmente de uma light novel. Fui soterrado por uma pilha de coisas caindo antes que pudesse reagir.
…O que acabou de acontecer?
Por um momento, achei que tinha desmaiado. Estou deitado de costas, e tudo à minha frente está completamente escuro. Tentei lembrar da última coisa de que me recordo. Eu estava andando pelo corredor quando um monte de coisas e uma garota despencaram escada abaixo.
Algo macio, mas pesado, me jogou contra o chão—
— Kya!
— Hã!?
De repente, minha visão clareou. Bem à minha frente, há quatro laços empilhados verticalmente. E acima deles, um rosto familiar e bem definido…
— Himemiya-san?
Karen Himemiya. A namorada de Sosuke Hakamada, que é amigo de infância da Yanami. Não é à toa que fiquei completamente desconcertado. Porque a Himemiya-san está, neste exato momento, sentada sobre mim, com as bochechas em chamas e as mãos pressionando o peito.
Então aquela coisa macia e elástica que cobriu meus olhos agora há pouco só pode ter sido…? Meu olhar se voltou instintivamente para os laços dela. Ao perceber isso, o rosto dela ficou ainda mais vermelho, e ela ergueu bem alto a mão direita—
*
— Desculpa! Me desculpa meeesmo! — com uma forte palma das mãos, a Himemiya-san fez uma reverência profunda.
Segurando a bochecha ainda latejante, acabei me curvando de volta por reflexo.
— Ah, não, eu que devia agradecer.
Mas o que é que eu estou dizendo? Ainda assim, trombar com uma garota no corredor e depois levar um tapa… Deixe-me dizer: isso é o auge de uma comédia romântica.
— Nukumizu-kun, você se machucou? Não bateu a cabeça nem nada?
— Ah… não, estou bem…
— Que bom! Você ficou um tempo sem se mexer, fiquei muito preocupada!
No momento em que a Himemiya-san sorriu—Luzes cintilantes começaram a dançar ao redor dela. Provavelmente até havia uma música temática tocando, só que inaudível. Enquanto eu ficava ali, completamente hipnotizado, a Himemiya-san olhou para o céu.
— Nossa, que bagunça isso aqui…
Ela rapidamente começou a juntar o tecido preto espalhado ao nosso redor. Ela deixou cair quando nos chocamos?
— Hum, deixa eu ajudar. Afinal, metade da culpa é minha também.
Estendi a mão para pegar o tecido que havia caído no chão. O grande pano preto parecia uma cortina de palco. Depois de dobrar tudo e empilhar, percebi que era um volume considerável. Ela estava carregando tudo isso sozinha?
— Obrigada! Aqui, leva metade.
A Himemiya-san colocou o monte de tecido sobre mim com um baque. O sorriso dela brilhava como se estivesse cheio de luz.
— Ah… é…
— Porque metade disso é sua culpa, né? Então leve metade até a sala de aula.
Enquanto eu me atrapalhava, Himemiya-san me lançou uma piscadela firme e elegante. Aquilo foi perigoso. Se eu não tivesse semicerrado os olhos diante daquele brilho ofuscante, teria morrido na hora.
…Espera um pouco. Então isso significa que vamos caminhar juntos até a sala? Sinceramente, eu preferia evitar. Estou nervoso demais.
Resmungando coisas como "ah" e "é", comecei a andar de propósito por conta própria.
— Ei, ei! Nukumizu-kun, espera!
— Eh… o quê?
— Ué, estamos indo para a sala mesmo, então vamos juntos. Sempre quis conversar com você.
Conversar, ela diz… mas a única ligação que tenho com a Himemiya-san é através da Yanami. Ou será que a Yanami comentou algo comigo…? Tenso, lancei um olhar de lado e vi Himemiya-san com uma expressão um pouco culpada.
— Hum, Nukumizu-kun… é mesmo uma má ideia eu falar com você?
— Ah, não, não é isso.
…Não é mentira. Eu só estou sem jeito andando ao lado da Karen Himemiya.
A aura gentil e delicada dela está em um nível completamente diferente da Yanami.
Se eu fosse comparar com TVs, é como achar que 4K já é incrível e depois descobrir que existe uma tela OLED 8K. E, bem… não vou dizer exatamente onde, mas alguns "atributos" dela claramente estão na categoria de 100 polegadas.

— Ei, Nukumizu-kun, é a primeira vez que conversamos assim, né?
— Agora que você falou… talvez.
Enquanto eu desviava casualmente de um aluno que vinha na direção contrária, Karen Himemiya se aproximou naturalmente de mim.
— Você é próximo do Sosuke e da Anna, não é? Eu ouço histórias sobre você dos dois o tempo todo, então sinto que já te conheço bem.
— Ah… eu converso com o Hakamada de vez em quando, mas não diria exatamente que somos amigos…
— Hmm, entendi. Então vamos todos virar amigos juntos.
Ela disse isso alegremente, irradiando um brilho cintilante. Espera… é assim que amizade funciona? E é mesmo ok virar amigo do amigo do seu namorado assim, por conta própria…?
— Ah, digo… isso é meio repentino—
— Isso te incomoda?
— Não é isso, mas…
— Então está decidido. Prazer em te conhecer, Nukumizu-kun.
— Ah… sim…
De algum jeito, a Himemiya-san tem uma insistência forte e deslumbrante… É diferente da Yanami, é outra coisa completamente. Nesse momento, Himemiya-san olhou ao redor e inclinou levemente o corpo na minha direção. O cabelo longo dela balançou suavemente, e um leve perfume fez cócegas no meu nariz.
— Então, meu amigo Nukumizu-kun… você não acha que a Anna anda estranha ultimamente?
— Estranha? A Yanami-san?
Ela sempre é estranha, mas aconteceu mais alguma coisa? Com um aceno sério — e adorável —, Himemiya-san continuou.
— Tipo, ultimamente a Anna está comprando takoyaki de 12 unidades na estação… não o de 15.
Ainda é bastante. Sem nem conseguir comentar, fiquei em silêncio enquanto Himemiya-san continuava, com um tom preocupado.
— Outro dia, a gente foi comer fora, e a Anna recusou um aumento grátis da porção, acredita? Não tem como ela estar bem. Tem algo errado, com certeza.
Isso provavelmente é só por causa daquela dieta estilo Yanami que ela começou no verão e fracassou miseravelmente. Mas quando está comigo, ela ainda come normalmente… Enquanto eu pensava sobre os hábitos alimentares da Yanami, Himemiya-san abaixou a cabeça, cabisbaixa.
— É, acho que eu sou a última pessoa que deveria estar dizendo isso.
— Ah… bom… é…
Pelo menos ela tem noção disso. Mas, mais do que isso, algo que ela disse me chamou atenção.
— Você tem saído bastante com a Yanami-san ultimamente?
— Desde que o segundo semestre começou, acho que temos saído mais de novo. Que tal você vir com a gente, Nukumizu-kun?
— Ah, não, tudo bem.
Himemiya-san arregalou os olhos com a minha resposta.
— Hã? Achei que você fosse próximo da Anna, já que vocês estão no mesmo clube.
Não sei se somos próximos exatamente, mas não há motivo para eu me meter no grupo delas. Já decidi não me envolver entre yuri e casais.
— Se eu for, só vai deixar as coisas estranhas…
— Ehh, não precisa se preocupar com isso~ — Himemiya-san riu animadamente. — Na verdade, é o contrário. Eu fico preocupada de estar deixando a Anna desconfortável. Pensei que, se você estivesse lá, Nukumizu-kun, ela ficaria mais feliz.
Ela ficaria mais feliz se eu deixasse um onigiri enrolado em carne no lugar de mim mesmo.
— Ah… bom… a Yanami-san parece estar lidando com as coisas do jeito dela, então talvez seja melhor você continuar tratando ela como sempre.
Falei isso enquanto olhava de lado para a Himemiya-san.
…É, essa pessoa é realmente muito bonita.
Ela é mais alta que a Yanami, mas, de alguma forma, todos os traços dela são delicados e bem definidos. Algumas partes são até maiores que as da Yanami e, acima de tudo, ela simplesmente brilha.
Nesse momento, Himemiya-san me encarou diretamente.
— O-Que foi…?
— Ohoho. Você realmente observa bem a Anna.
— Não é que eu observe… ela só acaba entrando no meu campo de visão.
— Nukumizu-kun, você é mesmo como a Anna disse. Um cara legal.
Ela disse isso com uma risadinha suave. Enquanto conversávamos assim, chegamos à sala de aula. Por algum motivo, senti um certo alívio. Quando tentei entrar, havia uma garota parada bem na porta, bloqueando a passagem.
— Ah, 4K—
Não, não é. É a Yanami. Meu comentário escapou em voz baixa, e ela levantou uma sobrancelha ao se virar.
— 4K?
— Ah, não é nada.
— Você está com a Karen-chan. Uma combinação rara — dizendo isso, Yanami pegou a cortina de palco dos meus braços.
— Hehe, a gente só se encontrou por acaso. Ele me ajudou a carregar — Himemiya-san deu uma piscadinha. Yanami observou o clima entre nós com uma expressão confusa.
— Hm. Tanto faz. Ah, é mesmo, a Nonomura-san estava te procurando, Nukumizu-kun. Você tem reunião com seu grupo, né? (Yanami)
Nonomura-san…? Acho que é a garota da equipe de adereços comigo.
— Nukumizu-kun, a reunião já vai começar. (Nonomura-san)
— Ah, desculpa.
Sem nem esperar minha resposta, Nonomura-san deu meia-volta e foi embora.
Mesmo sendo a mais alta — e a que deveria mais se destacar — entre as garotas da nossa turma, a presença dela é tão discreta… não consigo evitar sentir uma estranha simpatia.
— Obrigada pela ajuda!
— Até mais, Nukumizu-kun.
Depois que a dupla 12K foi embora, segui a Nonomura-san e me sentei em uma das cadeiras reservadas para a equipe de adereços. Incluindo eu, somos quatro membros. Os outros dois são garotos, mas, como esperado, eles também têm aquela presença quase imperceptível.
Nonomura-san começou a falar em voz baixa, sem levantar o olhar.
— Agora que todos chegaram, vou começar a explicação. Para o evento, precisaremos de adereços. Por favor, colem as ilustrações impressas no papelão e recortem com estiletes. A lista do que deve ser feito e os materiais estão aqui. Terminarem até sexta de manhã.
Dizendo tudo de uma vez só, Nonomura-san se levantou com os materiais. Os outros dois pegaram seus itens em silêncio e voltaram para seus lugares.
Que mentalidade extremamente focada em eficiência. Depois de sair do Reino Himemiya, esse lugar parecia tão reconfortante quanto estar em casa. Voltei ao meu lugar e conferi a lista. Cinco morcegos e teias de aranha, e dez abóboras e jack-o’-lanterns.
— Isso é muita abóbora…
Sem dúvida, influência da Yanami. Tentei fazer uma, e, sinceramente, minha abóbora ficou até que bem fofa. Certo, faço o resto em casa. Se eu não passar logo na sala do clube, a Komari vai começar a reclamar.
Coloquei os materiais em uma sacola e me levantei. Ao sair da sala, olhei de relance para a equipe de adereços. Todos estavam trabalhando silenciosamente em seus lugares.
…O clima desse grupo é tão tranquilo.
*
Quando abri a porta da sala do clube, apenas Komari estava lá, rabiscando algo em um caderno. Quando me viu, ela fechou o caderno rapidamente.
— V-Você demorou. O-O que e-estava f-fazendo?
— Reportando o progresso para a Konuki-sensei e participando da reunião do projeto da turma. Komari, tem certeza de que está tudo bem com a sua classe?
Ao me sentar de frente para ela, Komari me lançou um olhar irritado.
— N-Ninguém falou n-nada sobre c-classe…
— A-Ah… certo. Então vamos direto conferir os doces.
Eu já tinha verificado a agenda da Yanami. Tranquei a porta e tirei uma sacola da mochila. Trouxe a versão final dos doces que eu e a Kaju testamos e aperfeiçoamos no fim de semana. Para essa apresentação, preparamos quatro tipos de doces. O primeiro é baseado em um episódio de Natsume Soseki.
— Primeiro, amendoins açucarados, que o Soseki gostava. A gente modernizou um pouco com cacau em pó, então prova aí.
Quando ofereci a sacola, Komari colocou um na boca com hesitação.
— D-Delicioso. V-Você f-fez isso?
— Não, foi minha irmãzinha. Os outros doces também.
— E-E você fez o q-quê, então…?
— Lavei a louça e fiz uma massagem nos ombros. Ah, e cuidei da embalagem.
Ao ver que Komari parecia convencida, peguei o próximo doce. O segundo é baseado no romance de Osamu Dazai.
— Esse é um bolo tipo pound cake de cereja. Em termos de sabor, é o mais recomendado.
Komari estreitou os olhos, encarando o saquinho embalado.
— P-Padrão marmorizado… É t-tão bonito.
— Minha irmã usou cerejas em calda e tingiu com a própria calda.
— S-Sabe, t-talvez você devesse t-trocar de corpo com a sua i-irmã.
Nesse caso, eu acabaria virando uma garota do ensino fundamental. Não seria uma linha do tempo tão ruim. Enquanto eu fantasiava com essa ideia absurda, entreguei os doces restantes para Komari.
— Os dois últimos são de livros infantis. Primeiro, Swimmy.
— B-Biscoitos de peixe?
Swimmy é um livro sobre um pequeno peixe solitário de cor diferente dos outros. Entre os biscoitos da sacola, há um de chocolate misturado. Uma forma de recriar a história e ainda economizar nos ingredientes.
— E-Está com um c-cheiro muito bom. O-O que você c-colocou?
— Ah… não sei. Só vi minha irmã sacudindo um frasquinho por cima.
— V-Você realmente n-não fez n-nada, né…
Que rude. Eu até recolhi a roupa lavada pra ajudar a Kaju. E por fim, um livro infantil sobre dois ratinhos do campo. Lembro de, quando criança, ficar encantado com a cena em que eles usam um ovo encontrado para fazer um castella numa frigideira.
— Esse é um mini bolo tipo castella, mas encontrei copinhos de papel em formato de frigideira. As alças vêm separadas, então podemos colocar depois de assar.
— É i-igualzinho ao l-livro…
Os olhos da Komari brilharam ao pegar o mini castella.
— S-Sua irmã é i-incrível.
— Fui eu que encontrei os recipientes, sabia? Você podia pelo menos me elogiar um pouco.
Esperei uma resposta atravessada, mas, em vez disso, Komari me deu um sorriso meio solto, envergonhado.
— B-Bom trabalho, N-Nukumizu.
— O-Oh. Bem, eu sou o filho mais velho, então isso não é nada quando levo a sério.
O que está acontecendo com a Komari? Não estou nada acostumado a receber elogios… Sentindo-me estranho e inquieto, notei que Komari tentava guardar o mini castella na bolsa.
— Você não vai provar?
— T-Tenho irmãos menores e-em casa, então vou l-levar.
Ah, é mesmo. A Komari tem um irmão e uma irmã mais novos.
— Então leva tudo, ué.
— Ueh? D-Dois já b-bastam.
— Mas você vai precisar de três contando você, não?
Empurrei os doces para a Komari à força. Se eu deixasse aqui, a Yanami acabaria comendo tudo mesmo. De certa forma, estou ajudando na dieta dela.
— Certo, então os doces estão resolvidos. Vamos começar a produção de verdade hoje à noite e trazer tudo no dia anterior.
— E-E também as receitas e a-algumas fotos do preparo.
— Entendido. Eu organizo isso.
Pronto, planejamento concluído. As coisas fluem muito melhor sem a Yanami por perto…
— Vou ficar um pouco aqui na sala do clube para adiantar trabalho. E você, Komari?
— V-Vou devolver livros na b-biblioteca. Já terminei a p-pesquisa.
Devem ser para a exposição de pesquisa. Há pilhas de livros grossos sobre a mesa. Komari tentou enfiá-los numa sacola grande e se levantar, mas perdeu o equilíbrio e caiu de volta na cadeira.
— Você tá bem?
— E-Estou. Só está u-um pouco pesado.
Ela conseguiu se levantar, mas parecia instável.
— Como você trouxe tudo isso até aqui?
— A-A copiadora da escola é m-mais barata, então queria usar. F-Fui trazendo aos poucos até a s-sala do clube. P-Preciso devolver tudo hoje.
Não tem jeito. Levantei e peguei a bolsa da Komari.
— Eu levo metade. Para qual biblioteca você vai devolver?
— P-Para a Biblioteca Central. F-Fica no caminho de casa — nesse momento, Komari me olhou com desconfiança. — Ueh…? N-Nukumizu, você v-vai também?
— Você vai de bicicleta, né? Vai acabar caindo se for sozinha — ainda segurando a bolsa, comecei a sair da sala, mas Komari hesitou como se quisesse dizer algo. — Se estiver preocupada, eu fico um pouco mais afastado.
— N-Não é isso. V-Você não tem b-bicicleta, né?
…Ah, verdade. Mas ir andando até a biblioteca parece cansativo demais.
— Foi mal, Komari. Parece que essa missão era demais pra mim.
Tentei devolver a bolsa, mas Komari me lançou um olhar como se eu fosse lixo.
— V-Você disse isso, então assuma a r-responsabilidade.
É, esse olhar. A Komari de sempre voltou. Mas o problema é… eu não tenho bicicleta. Enquanto pensava nisso, um rosto surgiu de repente na minha mente.
*
Ao sair da sala da turma 1-D, Ayano me entregou uma chave de bicicleta.
— Não se preocupe. Use o quanto precisar. Não me importo se você se atrasar.
Aquele sorriso despreocupado de sempre dele é capaz de fazer até um cara como eu se apaixonar.
(Shisuii: Lá ele men, que papinho torto.)
— Valeu. Vou resolver meu assunto e já volto.
— Se não precisar voltar para a escola, pode ir direto para casa com ela.
— E você vai voltar como?
Enquanto eu hesitava, Ayano me lançou um olhar cheio de segundas intenções.
— Eu normalmente venho de bicicleta, mas a Chihaya pega trem, né? Eu meio que queria voltar de trem com ela, pelo menos uma vez.
…Esse cara realmente arruma qualquer desculpa pra flertar. Resolvi aceitar em silêncio como parte do "custo do aluguel".
— Outro dia, a gente voltou juntos na minha bicicleta, o que tecnicamente é contra as regras, mas a Chihaya insistiu tanto que eu não consegui recusar. Aí, dessa vez, ela disse que queria voltar de trem comigo—
Certo, já ouvi o suficiente para pagar a "taxa". Levantei a chave da bicicleta para interrompê-lo.
— Valeu, agradeço mesmo. Devo levar a bicicleta até sua casa depois?
— Só deixa no bicicletário perto do cursinho, ao lado da estação. Eu tenho uma chave reserva.
Depois de agradecer novamente, fui até o estacionamento de bicicletas. Lá, usando um capacete branco e com cara de sono, Komari estava parada, meio desligada.
— Desculpa a demora. Consegui uma bicicleta.
— D-Demorou b-bastante. V-Vamos logo. A-Andando.
Assim que falei, Komari montou rapidamente na própria bicicleta, claramente louca para sair dali.
Hmm… espera, isso aqui não é—
— Komari, espera um segundo.
— O-O que foi, N-Nukumizu?
Pensando bem… isso não é um evento de "voltar da escola com uma garota"? Em uma light novel, isso seria uma cena importante rumo ao clímax. Minha primeira vez voltando com alguém do sexo oposto. É mesmo certo tratar isso tão casualmente?
— Desculpa, Komari. Também é a sua primeira vez, e mesmo assim você está tratando isso com tanta naturalidade.
— O-O que é isso, falando c-coisa estranha d-de repente…?
Komari fez uma expressão claramente enojada e começou a pedalar.
— N-Nukumizu, f-fica longe de m-mim. V-Você é nojento.
— Me chamar de nojento já é demais…
"nojento" de algum jeito machuca mais que "esquisito". Pensando nisso, comecei a pedalar atrás da Komari.
*
Biblioteca Central da cidade de Toyohashi. A maior biblioteca da cidade. Recentemente, abriu uma biblioteca moderna perto da estação, mas eu frequento esse prédio histórico desde criança, então tenho certo apego a ele.
Depois de devolver os livros, Komari passou pelo balcão e entrou na seção infantil.
— Depois de todo o trabalho de devolver os livros, você vai pegar mais?
— P-Para o r-roteiro da e-exposição, p-preciso pegar a-alguns livros infantis. E-E também p-para os pequenos lá em casa.
Komari se agachou diante da estante de livros infantis. Seus olhos semicerrados analisavam os títulos.
Ela parece um pouco cansada… e provavelmente não é só impressão minha.
— Como está o progresso da exposição?
— V-Vai demorar u-um pouco mais.
Dizendo isso, Komari encolheu os ombros de forma desajeitada. Para a exposição de pesquisa, ela pretende escrever tudo à mão em um painel com mais de um metro de altura. O Festival Tsuwabuki é neste sábado. Na sexta não haverá aula por causa dos preparativos, mas são quatro exposições no total. O ideal seria começar logo.
— Posso assumir pelo menos uma delas.
Segurando um livro infantil, Komari me lançou um olhar sem expressão.
— V-Você nem terminou o s-seu manuscrito da r-revista do clube. V-Vai escrever.
— Tá, eu escrevo.
Um membro que não cumpre prazos não tem direito de reclamar. Desisti de argumentar e olhei o livro que Komari estava folheando. É uma história sobre um fantasma que aparece para uma criança que fica acordada até tarde.
— Lembro desse livro. Como termina mesmo?
— V-Você vira u-um fantasma e é l-levado embora.
Um final surpreendentemente cruel. Com alguns livros debaixo do braço, Komari se levantou com expressão satisfeita.
— Você está pegando vários que nem são para a exposição também.
— O-O menorzinho lá em casa n-não dorme s-sem eu ler um livro antes de dormir.
Komari, que estava indo até o balcão, de repente parou.
— O que foi? Esqueceu algo—
— A-Abaixa a cabeça.
Sem aviso, Komari puxou meu uniforme para baixo.
— Ei, o que deu em você de repente?
— O-Os veteranos estão aqui.
— Veteranos?
Espiando por trás de uma estante, vi o presidente Tamaki e a Tsukinoki-senpai descendo as escadas em frente ao balcão.
— Não precisamos nos esconder—
As palavras morreram na minha boca. Os dois estavam caminhando de mãos dadas, sorrindo um para o outro. Pareciam muito mais maduros do que na escola.
Os ombros pequenos da Komari se encolheram ao meu lado.
…A pessoa que a rejeitou agora está caminhando feliz ao lado da senpai que ela admira.
Aparecer ali provavelmente faria Komari se sentir miserável. Não é como se aqueles dois fossem rejeitá-la. Se fôssemos até eles, talvez até ficassem felizes em vê-la. Justamente por isso, ela provavelmente não queria aparecer ali comigo.
…Mesmo depois que os dois desapareceram de vista, Komari continuou parada atrás da estante. Quando minhas pernas já estavam começando a cansar de ficar agachado, escolhi cuidadosamente as palavras.
— É… talvez eles só tenham ido usar a sala de estudos do terceiro andar. Sabe… pra estudar pra provas.
Uma frase completamente sem sentido. Mas isso fez Komari se levantar lentamente.
— V-Vou p-pegar os livros.
A pequena figura colocou os livros no balcão. Quando a bibliotecária falou com ela, Komari começou a gesticular toda atrapalhada. Aquela cena, tão diferente do normal, transmitia mais uma sensação de impotência do que qualquer charme.
Depois de terminar, ela voltou até mim e murmurou com a cabeça baixa:
— V-Vou pra casa trabalhar no r-roteiro da e-exposição, tá?
— Ei… espera, Komari.
Chamei ela por reflexo quando tentou sair. Espera, por que eu parei ela?
— Ueh? O-O que foi?
Komari se virou, confusa. Resolvi improvisar.
— Tem um restaurante familiar ali na frente, onde a rua encontra a rodovia, né? Quer parar lá um pouco?
Komari me olhou desconfiada.
— M-Mas eu não tenho d-dinheiro…
— Então eu pago.
— P-Por quê?
…É, justo. Qualquer um estranharia se alguém dissesse isso do nada. Ela não é a Yanami.
— É que… eu queria comer uma sobremesa lá. Ir sozinho chama atenção, sabe?
— V-Você não é do t-tipo que se importa com isso, é?
É… exatamente. Fica pior quando é alguém que meio que me conhece.
— Enfim, só vem comigo! Pode pedir o que quiser.
— Eh… b-bom… acho que não tem problema.
Quando Komari assentiu, levada pelo meu ritmo, soltei um suspiro de alívio. Por que eu chamei a Komari? Isso não importa. Eu só não queria deixá-la voltar sozinha. Isso já era motivo suficiente.
*
O restaurante familiar de sempre. Alunos da Tsuwabuki raramente aparecem aqui. Dei um gole no meu chocolate quente e olhei para Komari sentada à minha frente. Ela segurava sua bebida de leite com morango quente, com uma expressão confusa.
…Pensando bem, foi exatamente nessa mesa que conheci a Yanami pela primeira vez.
— Aqui está seu pudim com sorvete soft~.
A garçonete, sempre animada, colocou o prato na frente da Komari.
— E-Eu só queria a bebida…
Sério, a Komari não entende nada.
— Escuta, se você pede comida, ganha desconto no refil de bebidas. Em outras palavras, pedir comida é tipo ganhar dinheiro de volta… dá pra pensar assim.
— P-Por que você está falando igual a Yanami de repente?
Espera… eu soei como a Yanami agora? Sério? Que deprimente… Komari encarou a superfície do pudim, meio vesga, e cuidadosamente afundou a colher.
— N-Nukumizu… você está sendo c-considerado, né?
— Bom… depois de ver aquilo, um pouco, sim.
— E-Eu não me importo. E-Eles estão namorando, então s-segurar as mãos é normal.
Komari franziu a testa e me encarou.
— E-E eles estão sempre j-juntos na escola também.
— Mesmo assim… fora da escola é diferente — tomei um gole grande do meu chocolate já morno. — Na escola, querendo ou não, estamos todos no mesmo espaço, né? Fora dela, parece que eles estão em um mundo que a gente não conhece. Como se tivessem um lugar só deles.
…Falei demais.
Olhei para a xícara para evitar o constrangimento. Komari, em silêncio, pegou um pouco de pudim com a colher.
— Aqui está uma porção caprichada de batatas fritas~.
A voz animada da garçonete ecoou novamente. Ao ver o prato grande na mesa, Komari fez uma cara exasperada.
— V-Você não veio a-aqui pra comer sobremesa?
— A Yanami come hambúrguer como sobremesa. Comparado a isso, batata frita é praticamente doce.
Quando ofereci batatas fritas, Komari hesitou antes de pegar uma pequena entre os dedos.
— N-Não entenda e-errado sobre a biblioteca. N-Não é como se eu tivesse me escondido p-porque eles estavam juntos.
Depois de um momento de hesitação, Komari colocou a batata no próprio prato.
— E-Eu também fazia p-parte do g-grupo deles no primeiro semestre…
Ela abaixou o rosto, a voz baixa, quase como se falasse consigo mesma.
— A-Agora… só é solitário não e-estar mais lá.
Talvez achando que falou demais, Komari tentou disfarçar bebendo de uma vez o leite com morango quente e murmurou um baixinho:
— Q-Quente…
O presidente rejeitou a Komari antes das férias de verão. Não faz sentido tocar nisso agora, e sei que ela já lidou com isso à sua maneira. Ela ainda se dava bem com o presidente e com a Tsukinoki-senpai. Não havia problema algum. O amor da Komari terminou de forma correta, e ela encerrou tudo perfeitamente.
Até perfeitamente demais.
— O-Os dois foram muito gentis comigo q-quando entrei em abril…
Komari colocou o copo d’água na mesa com cuidado.
— E-Eu não tinha n-nenhum amigo na turma, então e-eles sempre ficavam comigo. F-Foi a primeira vez que a escola pareceu d-divertida.
Olhando para o pudim deformado, Komari sorriu de forma autodepreciativa, sem força.
— A-Agora voltou a ser como a-antes…
Um longo silêncio. Esvaziei minha xícara e finalmente falei:
— A Tsukinoki-senpai provavelmente ficaria feliz em sair com você a qualquer momento… como uma pausa dos estudos, sabe?
— S-Sim.
— E o presidente também não está te evitando.
— E-Eu sei.
A franja da Komari caiu, cobrindo seus olhos.
— E-Eu estava pensando… que se eu não tivesse me c-confessado… talvez nós t-três pudéssemos ter ficado juntos por mais t-tempo.
Não consegui dizer nada. Apenas fiquei em silêncio. Antes que o clima ficasse completamente insuportável, Komari falou de novo:
— D-Depois do Festival Tsuwabuki, os s-senpais vão sair. E-Eu preciso conseguir ficar bem sozinha.
…Nós não éramos próximos o suficiente para eu dizer casualmente "eu estarei lá", e eu também não tinha confiança para dizer isso.
— Se tiver algo que eu possa fazer, me fala a qualquer hora.
Foi tudo que consegui dizer. Komari balançou a cabeça.
— E-Eu consigo cuidar das reuniões do p-presidente e do r-relatório de atividades sozinha.
E então, como se tentasse convencer a si mesma, acrescentou em voz baixa:
— E-Eu tenho que fazer isso sozinha.
…Alunos de outra escola passaram rindo ao nosso lado. Como se tivesse esperado o restaurante esvaziar um pouco, Komari se levantou.
— B-Bom… eu vou indo pra casa.
— É… eu também vou.
Depois de pagarmos e sairmos, já estava completamente escuro. O vento tinha ficado mais forte. O vento vindo do oeste trazia um toque de inverno, e instintivamente me posicionei contra ele enquanto Komari destrancava a bicicleta.
— O-Obrigada por pagar p-por mim.
— Eu que agradeço por ter vindo.
Trocamos palavras tentando ser gentis um com o outro. De algum jeito, aquilo pareceu desconfortável, então virei as costas e peguei o celular. Enquanto lia uma mensagem da Kaju, soltei um suspiro.
Com a Yanami, com a Yakishio também… tudo o que eu fiz foi só estar por perto. Não é como se eu realmente tivesse feito algo. Como sempre, tentei me meter sem necessidade.
Como sempre, não consegui fazer nada. Enquanto pensava nisso e respondia a mensagem—
Tum.
Senti algo bater nas minhas costas.
— Komari?
— D-Desculpa. E-Estou só um pouco sem dormir e a-acabei tropeçando.
Apoiando-se em mim por um instante, Komari logo subiu na bicicleta.
— Ei, você está bem?
— E-Estou. M-Minha casa é perto.
Puxando o capacete para baixo, Komari começou a pedalar, ainda meio instável. Enquanto observava sua figura se afastando, lembrei do que ela disse. Ela disse que tropeçou por estar com sono. E pode até ser isso, mas—
Quando a Kaju ficava triste, ela também se apoiava nas minhas costas. E o peso… era exatamente o mesmo.
*
Dois dias depois, quarta-feira. Com o Festival Tsuwabuki no sábado, os preparativos estão a todo vapor. Claro, eu não sou exceção, trabalhando em silêncio em um canto da sala.
— Pronto, terminei as abóboras. Agora, os morcegos.
Depois de empilhar as decorações na mesa, olhei ao redor. O fundo da sala foi dividido com cortinas blackout para criar vestiários separados. No momento, Yanami e o grupo mais popular da turma estão experimentando fantasias.
Enquanto isso, em frente ao quadro, a equipe de adereços trabalhava duro. Parece que o cenário da apresentação será feito com um banner horizontal. Decorando um grande tecido, dá pra transformar qualquer lugar em palco. Os morcegos que estou fazendo devem ser para isso.
A preparação do Clube de Literatura também estava avançando, embora um pouco atrasada. Faltava apenas o manuscrito da Tsukinoki-senpai.
…Na volta da biblioteca com a Komari… aquela voz fraca dela ecoando.
Ela estava sozinha na sala do clube hoje?
Sentindo uma inquietação estranha, apertei o estilete. De repente, ouvi gritos animados atrás de mim. Parei e me virei. Quem apareceu sob os olhares de todos foi Karen Himemiya. A roupa dela é um vestido curto preto e rosa, com tema de diabinha.
…Sério, a Himemiya-san é impressionante.
Deixando de lado o busto desproporcional, tem meia-calça com estampa de coração, uma cauda com ponta em formato de coração—
Mesmo sendo de "diabinha", isso não parece mais um súcubo…? Será que isso pode mesmo…?
Enquanto eu ficava inquieto, quem apareceu em seguida foi Sosuke Hakamada. Ele está com um colete estilo fraque e uma capa preta. Fantasia de vampiro. Hakamada tem boa presença, e ao lado da Himemiya-san, os dois parecem ter saído de um ensaio fotográfico.
— Fico até com pena da Yanami-san, mas esses dois realmente combinam… — murmurei isso, quando uma figura branca surgiu de repente no meu campo de visão.
— Hm? Me chamou?
Com sua voz despreocupada, Anna Yanami apareceu diante de mim. Vestida com roupas brancas tradicionais japonesas, ela girou exibindo as mangas.
— E aí? E aí? Não tá bom?
— Ah… essa roupa é…
Um kimono funerário branco e um triângulo na testa. Ou seja—
— Um cadáver…?
— Um fantasma! Nukumizu-kun, o que você acabou de dizer!? Existe cadáver com cara tão saudável!?
Também não existe fantasma saudável.
— Entendi, mas… por que fantasma?
— Sabe como fantasmas japoneses têm aquela imagem delicada e efêmera? Achei que podia tentar isso também, já que o inverno está chegando.
Efêmera e saudável… bem, talvez seja um conceito próprio. O mundo do moe está sempre evoluindo. Acho que devo torcer pela Yanami. Então, por algum motivo, Yanami começou a me encarar curiosa.
— Eh…? O quê?
— Nukumizu-kun, quando fala comigo na sala, você fica todo travado, sabia? Cadê aquela língua afiada que corta o coração das pessoas?
— Eu sou sempre assim?
— Basicamente.
— Sério…?
— Sério — Yanami deu de ombros, perplexa. — O Nukumizu-kun de hoje tá meio estranho.
Minha vida está estranha desde que te conheci.
— Enfim, tanto faz. Nukumizu-kun, você está cuidando dos adereços, né? Tenho um favor.
Yanami pegou um cartão em forma de abóbora e apoiou no ombro.
— Já que estamos nisso, queria deixar mais "fantasmagórico". Pode fazer umas luzes-fátuas assim?
— Posso, mas de que tamanho?
— Hm… tipo tamanho de um lanche? Mais ou menos isso.
O conceito de "tamanho de lanche" dela… será que do tamanho de uma bola de vôlei serve?
— Ah… entendi. Vou fazer num tamanho apropriado.
— Ei, Yanami, o ensaio vai começar.
Um garoto interrompeu, quase se metendo na conversa. Ele está vestido como membro do Shinsengumi. Acho que o nome dele é Nishikawa.
— Já vou! Até depois, Nukumizu-kun. Tô contando com você!
Acenando de forma relaxada, Yanami foi embora. Por algum motivo, Nishikawa me lançou um olhar afiado antes de ir atrás dela.
O quê? Quer que eu faça luzes-fátuas pra você também?
Ela age assim, mas a Yanami é popular. Fazer o quê. Ela é bonita, claro, mas caras que só vão pela aparência… sei lá. Enquanto eu recortava morcegos, meio irritado sem saber por quê, uma sombra caiu sobre minhas mãos.
— Nukkun, olha. Assustador, né?
Ah, ótimo, agora é a Yakishio. Quando levantei o olhar, um abdômen exposto apareceu bem na minha frente. Yakishio, envolta em bandagens, estendeu as mãos.
— Yakishio, estamos em público. Talvez fosse melhor cobrir a barriga.
— Eu sou uma múmia, então isso é normal. Olha só, ficou bom, né?
Mesmo assim, está mostrando pele demais. Ela só enrolou bandagens no peito e na cintura. É praticamente um biquíni. As linhas do corpo estão visíveis demais… e espera—
— Yakishio… você está mesmo sem nada por baixo dessas bandagens…?
— Tô, mas qual o problema? Eu tô coberta direitinho—
Ela mal terminou de falar quando um grupo de garotas da turma cercou ela.

— Lemon, vem aqui um instante.
— Tá fora~.
— Ei, vocês aí, parem de olhar!
— Hã? O que foi? Ei, pera—
Yakishio, agora cercada por uma muralha de garotas, desapareceu no vestiário.
— É, mesmo sendo Halloween, aquela brincadeira foi longe demais.
Enquanto eu saboreava em silêncio a imagem que ainda estava queimada nas minhas retinas, um vampiro rodopiou a capa e se jogou na cadeira à minha frente.
— Nukumizu, você viu aquilo? Não consegui enxergar quase nada por causa das garotas cercando ela.
Sosuke Hakamada sussurrou, inclinando-se para mais perto.
— Bom, eu estava bem na frente, então vi quase tudo.
— Sério? E como foi?
Caramba, direto ao ponto. Hakamada continua sendo um cara gente boa.
— Sinceramente? Foi incrível.
— Eu sabia! Droga, fui lento por um segundo!
Enquanto Hakamada levava as mãos à cabeça, frustrado, duas sombras surgiram atrás dele.
— So-su-ke!
A dupla 12K, Yanami e Himemiya-san, fez sua entrada.
— Anna, acho que chegou a hora de dar uma bronca nele.
— Isso mesmo. Karen-chan, você pega daquele lado.
Cada uma segurou um dos braços de Hakamada e o arrastou sem dar chance para protestar.
— Espera, eu não vi nada!
Um vampiro sendo levado por um fantasma e um demônio. Como esperado do protagonista, até o visual é chamativo. Já um figurante como eu deveria apenas continuar recortando morcegos em silêncio.
Hm? Parece que a Yanami está me lançando um olhar emburrado.
— Nukumizu-kun, depois eu também vou ter uma conversinha com você.
…Por que comigo?
Encarei os olhinhos redondos do morcego e soltei um suspiro profundo.
*
No dia seguinte, depois da aula. Quinta-feira, faltando apenas dois dias para o Festival Tsuwabuki. Estou na sala de impressão da escola com o presidente Tamaki. Agora que finalmente reunimos todos os manuscritos — sendo o da Tsukinoki-senpai o último — começamos a imprimir a revista do clube.
Enquanto observava as folhas saindo uma após a outra da copiadora, o presidente apertava os botões no painel.
— Quando terminar a impressão, anote a quantidade de cópias no registro e entregue na sala dos professores. Depois eu explico os detalhes.
Depois de explicar como operar a copiadora, o presidente sentou-se com o manuscrito nas mãos.
— Então a Koto acabou escrevendo algo novo mesmo. Ela disse que ia enviar um texto antigo.
— Ah, mas desta vez não tem cenas picantes. Como vai ser distribuído publicamente, até a senpai teve bom senso de se segurar.
— Queria que ela tivesse esse bom senso o tempo todo…
O presidente encarava o manuscrito com um ar cansado. Pelo visto, namorar também tem suas complicações. Com o barulho constante da copiadora como trilha de fundo, abaixei o olhar para a prova do conto da senpai—
*
Relatório do Clube de Literatura — Edição de Outono, por Koto Tsukinoki
Uma cidade portuária em outro mundo. Em um canto pouco iluminado, erguia-se uma grande taverna com a placa: "Estalagem Lua Sombria Ondulante".
Ao empurrar as portas duplas, revelava-se um salão amplo, onde aventureiros erguiam canecas de cerveja e gritavam animadamente. Em uma sala privada ao fundo, separada por uma única porta, um homem com trajes tradicionais japoneses estava sentado sozinho, apoiando os cotovelos na mesa.
O homem deu um pequeno gole relutante de sua caneca de cerveja, depois levou à boca um pedaço de peixe cozido. Fazendo uma careta, bebeu novamente. Após repetir isso algumas vezes, a porta de carvalho da sala se abriu. Com as vozes altas do lado de fora invadindo o ambiente, um homem em uniforme militar entrou.
— Cansei de esperar, Mishima-kun. Olha só, essa cerveja horrível já está na minha segunda caneca.
O homem de roupas tradicionais ergueu a caneca, com o rosto já começando a ficar vermelho pela bebida.
— Eu também tenho meus próprios assuntos para resolver, sabe. Você sempre aparece de repente, Dazai-san.
Enquanto Mishima, o homem de uniforme militar, se sentava à sua frente, sua espada militar fez um ruído ao bater.
— Assuntos, é? Mas parece que você está tramando alguma coisa. Graças a você me apresentar aquele tal de Kawabata outro dia, acabei atravessando o mundo inteiro. E assim, Selinuntius foi traído por Melos, que acabou caindo nas mãos das autoridades. [TL: Ambos são personagens do conto de Dazai.] Corra, Melos!
Dazai esvaziou o restante da caneca e lançou um olhar penetrante para Mishima.
— Anime-se. Não é grande coisa, mas trouxe o que você pediu.
Mishima, forçando um sorriso, entregou um pequeno frasco de vidro a Dazai. Ao pegá-lo, Dazai abriu a tampa e encontrou um pó branco, fino e translúcido. Seu rosto se iluminou com o sorriso mais brilhante do dia enquanto colocava um pouco no dedo e o lambia.
— Isto é incrível. É indistinguível do MSG verdadeiro.
— Não foi fácil conseguir isso, sabia? Mas, sinceramente, vir até outro mundo e pedir algo assim… você é bem excêntrico, Dazai-san.
— Você diz "algo assim", mas escute: os elfos são surpreendentemente atenciosos, porém, quando se trata de comida, são completamente inúteis. Não, neste mundo, nem a comida nem a bebida prestam.
Dazai ergueu o frasco sobre o prato e espalhou o MSG como se fosse neve caindo.
— A única coisa em que posso confiar neste mundo é no MSG.
Satisfeito após espalhar sem cuidado, Dazai fechou o frasco com atenção e o guardou na manga.
— Você deve estar com sede também, Mishima-kun. Vamos beber. Por acaso, tenho um pouco de saquê hoje.
Com uma palma alta de Dazai, da área sombreada próxima à mesa iluminada por velas, uma garota vestida de preto se levantou silenciosamente. Mishima instintivamente levou a mão ao punho da espada.
Sem se incomodar, a garota das sombras retirou uma pequena garrafa de saquê de cerâmica.
— Me fizeram esperar uma eternidade só para esquentar isso. Bem, então, vamos começar.
Quando Dazai ofereceu sua taça, a garota serviu o saquê. Depois, ofereceu a garrafa ao Mishima. Relutante, ele pegou uma taça.
— Mishima-kun, você é surpreendentemente tímido.
— É difícil relaxar quando quem está me servindo parece uma pintura borrada de tinta.
Mishima virou o saquê de uma vez.
— Ser medroso demais é falta de educação, sabia? Você nem consegue distinguir os olhos, o nariz ou os contornos do rosto dela, mas eu imagino que seja bastante bonita.
Dazai, apoiando o queixo na mão, deu um pequeno gole na borda da taça. No começo, Mishima também tinha se assustado, mas depois de alguns copos, deve ter se acostumado. Ele até começou a falar com a garota das sombras que servia as bebidas.
— Ei, você pode mudar de forma livremente? Tipo, poderia virar um homem robusto, como aquelas esculturas gregas?
— Para com isso. Não precisamos de mais gente com esse ar bruto por aqui.
Dazai esvaziou a taça e a estendeu de qualquer jeito. A garota das sombras a encheu novamente em silêncio.
— Falando nisso, consegui outro item raro. Você aí, vá buscar para nós.
A garota assentiu e derreteu no chão, como se estivesse sendo absorvida por ele.
— Você também tem outra coisa, Dazai-san?
— Você está com sorte hoje. Caranguejo. Ouvi dizer que há algo como um caranguejo peludo por aqui, então encomendei.
Diferente do animado Dazai, a expressão do Mishima endureceu.
— O que foi? Não gosta de caranguejo?
— Gosto da carne, mas não consigo lidar com ver o animal. Mesmo com caranguejo enlatado, eu tiro o rótulo antes.
— Que covarde. Tudo bem, eu cuido disso para você.
Dazai se levantou de repente e, com passos vacilantes, deu a volta até ficar atrás de Mishima.
— Lá vem o mau hábito do Dazai-san de novo. Está planejando alguma pegadinha, não é?
— Chega de reclamar. Vou te mostrar magia élfica.
Dazai tirou uma toalha da manga e vendou os olhos de Mishima.
— E aí? Agora você não pode ver o caranguejo, certo?
— Bem, é verdade, mas agora não posso ver nada.
Enquanto Mishima ria e tentava tirar a toalha, Dazai pressionou sua mão.
— Melhor tomar cuidado. É uma toalha mágica. Depois de amarrada, você terá que obedecer ao que o outro disser.
— Tentando me enganar de novo, Dazai-san? Isso não vai funcionar. Sua habilidade se chama Liar, certo? Acreditar na mentira até ela se tornar verdade… isso é bem a sua cara.
— Tsc, então você percebeu. Deve ser aquele intrometido do Kawabata-sensei enchendo sua cabeça com ideias estranhas.
Dazai brincou e soltou a mão de Mishima.
— Mas desta vez estou falando sério. Tire logo a toalha antes que algo perigoso aconteça. A magia élfica já está se agitando.
Rindo da encenação ridícula de Dazai, Mishima levou a mão para desamarrar a toalha. Então, como se tivesse notado algo, sua mão parou.
— Espere. Dazai-san, você disse que a parte da magia era verdade e mandou eu tirar a toalha. Se eu remover a venda agora, não significa que aceitei suas palavras como verdade?
A expressão despreocupada de Dazai desapareceu.
— Como esperado, você é afiado. Não está curioso para saber se minha habilidade pode realmente ser ativada com um truque de palavras?
— Sinceramente, já não sei mais o que é verdade e o que é mentira. Parece que o álcool está batendo mais rápido hoje.
Sem deixá-lo ver, Dazai colocou uma taça na mão estendida de Mishima. Enquanto Mishima a virava de uma vez, Dazai colocou as mãos nos ombros dele por trás.
— Você disse que está ficando bêbado mais rápido, não disse? Talvez tenham colocado algo na bebida.
— Outra mentira, hein. Onde está sua verdadeira intenção afinal?
— O trabalho de um escritor é enganar as pessoas com palavras. Mentimos tão naturalmente quanto respiramos. É isso que somos, não?
Dizendo isso com sarcasmo, Dazai envolveu o corpo de Mishima com os braços.
— Então? Esses braços ao seu redor também são mentira?
— Ah… como eu pensei, realmente não consigo gostar de você.
— Não me importo. Porque, no fundo, você gosta de mim.
Nesse momento, a garota das sombras apareceu silenciosamente do chão, carregando um grande prato cheio de caranguejo. Com um olhar de Dazai, ela colocou o prato e desapareceu novamente nas fendas do chão.
Enquanto desabotoava os botões dourados do uniforme militar de Mishima, Dazai murmurou:
— Caranguejos são bons porque nem quem come nem quem é comido diz nada desnecessário.
*
Depois de terminar de ler o manuscrito, o presidente soltou um suspiro de alívio.
— Parece que desta vez não será necessária nenhuma censura presidencial.
— Você realmente acha isso?
Já no terceiro ano no Clube de Literatura, até o presidente parecia estar sendo lentamente corrompido pela senpai Tsukinoki.
— Então, como está a preparação para o Festival Tsuwabuki? O grande dia é depois de amanhã.
— Vamos terminar os doces hoje à noite, e ainda temos todo o dia de amanhã para montar o estande, então deve dar tudo certo. Depois disso, só falta o manuscrito da exposição.
Respondi de forma leve, mas por dentro estava afundando em ansiedade. Isso mesmo. A parte mais importante, o manuscrito da exposição, ainda não está pronto.
— A Komari-chan parece estar tendo dificuldades, não é?
— Eu disse várias vezes que ajudaria, mas ela só respondeu para não me preocupar, que terminaria até amanhã.
A última tarefa é copiar o manuscrito para o painel de exibição. Teremos que pedir ajuda aos veteranos amanhã. A impressão da revista do clube está pela metade. Estamos dobrando as folhas.
Desta vez, a revista é simples, só folhas grampeadas. Enquanto dobrava papel em silêncio, aguçava meus sentidos ao redor. Só estamos eu e o presidente na sala de impressão. Não há sinal de ninguém lá fora.
— Presidente. Você já assistiu ao Tendochi desta semana, certo?
Tendochi, abreviação de Natural ou Calculada: Qual Você Escolhe? Um anime de comédia romântica escolar onde uma garota naturalmente distraída e uma garota calculista disputam o protagonista.
O episódio mais recente mostrava a popular Miku-chan acordando atrasada e esquecendo de colocar sutiã… um episódio ao mesmo tempo divertido e constrangedor.
— A Miku-chan tem um corpo impressionante. E ainda assim, mesmo com tanta pressa, esqueceu o sutiã. Isso é algo que realmente poderia acontecer?
O presidente parou de dobrar papel.
— Como seu veterano, vou ser direto, Nukumizu.
Após uma pausa carregada, ele falou solenemente:
— Uma garota com tanto para carregar jamais esqueceria o sutiã.
Quase saltei da cadeira.
— Então você está dizendo que a Miku-chan veio propositalmente para a escola sem roupa íntima, não é, presidente?
O presidente assentiu em silêncio. Uma das heroínas principais caiu. Se Miku-chan fosse uma garota calculista, então a surpresa no banho no episódio 2, a confissão através do vidro no episódio 5… tudo foi planejado desde o começo.
— Mas… mas eu… eu vou acreditar na inocência da Miku-chan até o fim… Não, eu acredito nela!
Talvez meus sentimentos tenham chegado até ele. O presidente sorriu com maturidade.
— É isso. Nukumizu, siga o caminho em que acredita. Eu estou no time da Alice, a de peito pequeno.
— Presidente…!
Uma compreensão intensa passou entre nós. Enquanto trocávamos olhares silenciosos, a porta da sala de impressão se abriu com força.
— Aí estão vocês!
Quem entrou foi a Tsukinoki-senpai. O presidente se levantou apressado.
— Não, espera, Koto! Aquela conversa sobre sutiã não era sobre você—
— Do que você está falando!? É a Komari-chan! Ela está em apuros!
Segurando os ombros do presidente, Tsukinoki-senpai o sacudiu.
— Hã, aconteceu alguma coisa com a Komari?
Ela se virou para mim, com expressão desesperada.
— Ouvi dizer que a Komari-chan desmaiou na sala de aula! Vocês sabem de alguma coisa?
…Espera, a Komari desmaiou?
— Senpai, por favor, se acalme. Se ela desmaiou em algum lugar da escola—
Peguei meu celular e, como esperado, havia uma mensagem. Era da nossa professora orientadora, Konuki-sensei.
— Tem uma mensagem da Konuki-sensei. Ela disse que a Komari está na enfermaria.
— Na enfermaria! Estou indo!
Tsukinoki-senpai se virou para sair correndo da sala, mas o presidente segurou sua mão.
— Espera, você não tem aula de reforço hoje? Se faltar, vai acabar sendo reprovada.
— Não me importo! Eu preciso estar ao lado da Komari-chan—
— Koto!
O presidente a virou para encará-lo e segurou firmemente seus ombros.
— Acalme-se. Mesmo que você acabe reprovando por agir assim, a Komari-chan não vai ficar feliz com isso.
— Mas… mas se eu tivesse ficado ao lado dela como deveria…
Com lágrimas prestes a cair, Tsukinoki-senpai abaixou a cabeça. O presidente pousou a mão gentilmente sobre ela.
— Tenha um pouco mais de fé nos seus kouhais.
— Tá bom.
Ela assentiu obedientemente. Então, o presidente olhou para mim com expressão séria.
— Nukumizu, vá ver como a Komari-chan está primeiro. Nós iremos depois.
— Eh, tudo bem eu ir? — Perguntei, inseguro. O presidente assentiu com firmeza.
— Claro. Estou contando com você, vice-presidente.
*
Quando abri a porta da enfermaria, dei de cara com Konuki-sensei, com um telefone no ouvido. Ela guardou o celular no bolso do jaleco e fez um gesto para que eu me aproximasse.
— Bem-vindo. O cavaleiro fofo chegou.
— Sensei, a Komari está bem—
Konuki-sensei levou o dedo aos lábios.
— A princesa está dormindo. Fale baixo.
— Ah… o que aconteceu com a Komari?
Konuki-sensei olhou para a cama cercada por cortinas.
— Excesso de esforço e falta de sono. Ela está bem. Não há ferimentos.
— Entendi.
Aliviado, deixei a tensão escapar e me sentei numa cadeira. Não que seja algo aceitável só por ter sido falta de sono. Mas o fato de não ser nada grave… isso já é um alívio. Enquanto enviava uma mensagem ao presidente, Konuki-sensei apareceu à minha frente sem que eu percebesse. Ela sempre chega perto demais…
— Você sabe por que a Komari-san acabou tão privada de sono, Nukumizu-kun?
— Ela não tem dormido por causa dos preparativos do festival. Acho que o cansaço foi se acumulando.
— Entendo. Tão jovem.
Konuki-sensei puxou uma cadeira bem ao meu lado e se sentou. Perto demais.
— Nessa idade, há tantas coisas acontecendo, não é? Essa vontade de ver até onde você pode se forçar… eu também já passei por isso. Nukumizu-kun, quer ouvir essa história?
— Ah, não, tô bem.
Sério, estou bem. Por favor, não faça essa cara como se esperasse que eu pedisse. Percebendo que eu não demonstraria interesse, Konuki-sensei cruzou as pernas, um pouco desapontada.
— Você é sempre tão frio, Nukumizu-kun. Mas acho maravilhoso quando alguém se dedica de verdade a algo.
— Por essas chamadas memórias da juventude?
Minhas palavras saíram mais duras do que eu pretendia, e me arrependi na hora. Konuki-sensei respondeu com um sorriso gentil.
— Sim, apenas memórias. Nada mais, nada menos. Mas são coisas que você só pode criar agora.
Com um olhar nostálgico, ela encarou o teto. Quando segui seu olhar, vi uma mancha lá em cima.
— Eu também deixei muitas boas lembranças nesta escola.
— Deixou?
— Isso mesmo. Você deixa as memórias em algum lugar e, de vez em quando, se permite sentir saudade delas. Isso já basta.
De repente, ela se levantou com expressão séria. Komari espiava pela abertura da cortina da cama.
— Komari-san, você acordou? Deveria descansar mais um pouco.
— E-Eu preciso b-buscar minha i-irmãzinha na c-creche…
Dando um passo instável, Komari quase caiu. Konuki-sensei correu para segurá-la.
— Você está bem? Nukumizu-kun, traga uma cadeira.
Ao ouvir isso, corri para pegar um banco e levei até elas. Sensei ajudou Komari a se sentar. Até ela falar, minhas pernas nem tinham se movido. Isso me fez sentir inútil.
— Sensei, não podemos chamar os pais da Komari para buscá-la?
— Eles estão trabalhando e não consegui contato. Mas deixei mensagem.
Sensei se inclinou e observou o rosto de Komari de perto.
— Vou ligar para a creche da sua irmã. Você pode me dizer qual é?
— M-Meu irmão m-menor também está s-sozinho em c-casa… e-eu preciso ir p-para casa de qualquer forma…
Komari conseguiu se levantar, mas suas pernas estavam trêmulas. Apoiando-a, Konuki-sensei deu leves tapinhas em suas costas.
— Entendi. Vou te levar para casa no meu carro. E também vou buscar sua irmã para você.
Esse é o melhor plano. Se a enfermeira está cuidando disso, não há com o que se preocupar.
— Nukumizu-kun, você sabe onde fica a casa da Komari-san?
— Eh? Bom, sei sim.
…Será que isso vai dar no que estou pensando? Como se lesse minha mente, Konuki-sensei assentiu.
— Então venha conosco.
*
Levou cerca de 15 minutos de carro desde o colégio Tsuwabuki. A casa da Komari ficava num canto de um bairro residencial antigo. Entre várias casas térreas parecidas, encontramos a placa com o nome "Komari" e tocamos a campainha.
Depois de esperar um tempo sem resposta, usamos a chave da bolsa da Komari para abrir a porta de correr e espiar.
— Com licença…?
Os pais dela não deveriam estar em casa, mas havia claramente alguém lá dentro. Certo, ela disse que tem um irmão mais novo. Com cuidado, entrei. Clique. O som de um interruptor, e a luz da entrada acendeu.
— Quem é você?
Um menino pequeno, provavelmente do início do ensino fundamental, estava ali.
— Ah, eu sou da mesma escola que sua irmã—
— Nee-chan!
O garoto correu pelo corredor de meias, passando direto por mim. Quando olhei, vi Konuki-sensei ajudando Komari a sair do carro, praticamente carregando-a. O menino correu até elas e, do outro lado, também ajudou a sustentar o corpo de Komari.
— Bom garoto. Komari-san, consegue andar sozinha?
Ainda com os olhos fechados, Komari assentiu levemente. Apoiada pelos dois, ela foi levada para dentro de casa. Ah… o que exatamente eu deveria estar fazendo…? Enquanto eu ficava parado, o garoto me lançou um olhar como se eu fosse um idiota.
— Você pode sair da frente um pouco, moço?
Ah, claro. Eu estava bloqueando a entrada. Rapidamente saí do caminho.
*
…Como foi que isso aconteceu?
Um quarto infantil, separado da sala por uma porta de correr. Sentado formalmente no tatame à minha frente, Komari dormia suavemente.
Konuki-sensei e o irmão mais novo, Susumu-kun, foram buscar a irmãzinha na creche, deixando apenas eu e Komari na casa. O pijama que Konuki-sensei colocou nela é rosa, com estampa de estrelas. Aquela aparência levemente infantil me causava um desconforto estranho. No quarto silencioso, só se ouvia o leve tic-tac do relógio.
Antes de sair, sensei sussurrou no meu ouvido:
— Nukumizu-kun. Faça o que fizer, não tire os olhos da Komari-san.
— Eh? Mas ela está dormindo. Não seria melhor deixá-la descansar?
— Como enfermeira, vou confiar nos meus instintos. Fique de olho nela, tudo bem?
Por algum motivo, ela deslizou lentamente o dedo pelo meu peito.
— Ahn, sensei—
— Nem uma respiração, nem um batimento da Komari-san deve passar despercebido, certo…?
…Seu sussurro e sua respiração ainda ecoavam perto do meu ouvido. Tentando afastar a sensação estranha, olhei ao redor do quarto. É um quarto de seis tatames. Duas escrivaninhas e uma estante deixavam o espaço cheio. A mesa com vários dicionários deve ser da Komari. Ao me aproximar, vi pilhas de livros e cópias.
Devem ser materiais de pesquisa para a exposição do Festival Tsuwabuki. Há post-its colados por toda parte. Ao abrir uma das seções marcadas, encontrei anotações escritas à mão ao lado de trechos destacados.
Também há um caderno aberto, com um fluxograma que parece um plano de estrutura. À primeira vista, o esboço geral já está pronto. Mas transformar isso em texto de fato seria um trabalho enorme…
Quando levantei o olhar, notei uma foto ao lado do horário de aulas preso na parede. É do verão, quando o Clube de Literatura foi à praia. Ao lado da Yanami e Yakishio, sorrindo felizes em trajes de banho, Komari aparece usando um moletom, com uma expressão claramente insatisfeita. Em meio ao espaço simples ao redor da mesa, aquela única foto se destacava intensamente.
Para alguém como Komari, que insiste em rejeitar ajuda dos outros, aquela foto deve ser importante—
Nesse momento, ouvi um leve farfalhar do futon atrás de mim.
Está calor demais? Komari esticou os braços para fora do cobertor, e pequenos dedos surgiram pelas mangas do pijama. Ela se mexeu por um tempo, mas logo voltou a respirar de forma tranquila.
…Um corpo pequeno, mais ou menos do tamanho da Kaju. A forma como segura a manga do pijama, como se buscasse conforto, faz com que pareça uma criança. E ainda assim, naquela cabecinha estão cheias de fantasias e histórias mirabolantes.
Mesmo agora, talvez, dentro do sonho dela, uma nobre vilã esteja usando conhecimentos modernos para subir ao poder. Ou talvez—
— Nuku…mizu…
…Hã? Nukumizu? Espera, ela acabou de dizer meu nome dormindo? Enquanto eu entrava em pânico, Komari se virou despreocupadamente.
— S-Seu idiota… Isso é uma couve-flor…
Que tipo de sonho ela está tendo afinal? Parece que me preocupei à toa. Ao ver o rosto dela dormindo, com aquele sorriso bobo, senti toda a tensão desaparecer. Quando olhei para o relógio na parede, percebi que já fazia cerca de 30 minutos desde que a sensei e o irmão mais novo da Komari foram à creche.
Disseram que era perto, então devem voltar a qualquer momento. Na verdade, a essa altura, não seria estranho se já estivessem de volta. De repente, senti um olhar sobre mim e me virei para a porta de correr atrás.
— Sensei, o que está fazendo?
Espiando pela fresta da porta estava o rosto de Konuki-sensei. Logo abaixo, o rostinho do irmão mais novo da Komari, Susumu-kun, aparecia ao lado.
— Não precisa ficar tímido. Vá em frente, pode continuar.
— Não tem nada para continuar. Tem uma criança olhando, sabia?
— Você tem razão. Fui descuidada.
Konuki-sensei cobriu gentilmente os olhos de Susumu-kun com a palma da mão. Mas esse nem é o problema aqui. Saí do quarto das crianças para a sala, fechando a porta de correr atrás de mim.
— Eu só estava vigiando ela porque você pediu, sensei.
— Ara? Mas estava um clima tão bom, não acha? Não é, Susumu-kun?
Sentado no colo da sensei, Susumu-kun olhou para mim com curiosidade.
— Você é o namorado da nee-chan?
— Hã? Não, não sou.
— Então você é amigo dela?
— Ah, quer dizer, somos só do mesmo clube—
Os olhos claros dele me encararam, e eu desviei o olhar por reflexo.
— Sim. Sou amigo dela.
O rosto de Susumu-kun se iluminou na hora.
— Hina! Olha, é um amigo da nee-chan! Ele não é assustador!
…Hina? Quando olhei, vi uma garotinha espiando do corredor ligado à entrada. Ela parece uma versão em miniatura da Komari.
Ela me observou de longe, fez uma pequena reverência e saiu correndo. Nossa. Que criatura adorável é essa?
— Ara, Nukumizu-kun. Parece que a Hina-chan gostou de você.
— Mas ela literalmente fugiu de mim.
Susumu-kun correu atrás da Hina-chan e saiu da sala.
— Ah, é mesmo, a mãe da Komari-san entrou em contato. Ela saiu mais cedo do trabalho e já está a caminho.
Isso é um alívio. A mãe dela estar aqui é muito melhor do que eu ficar por perto. Enquanto a tensão deixava meu corpo, aquela criaturinha fofa apareceu novamente na porta. Tentando não parecer intimidador, dei um sorriso amigável.
— Oi. Eu sou o Nukumizu, amigo da sua irmã mais velha.
…………
Como se tivesse tomado uma decisão, Hina-chan veio caminhando devagar até mim. Então, tocou no próprio cabelo, preso do mesmo jeito que o da Komari.
— Igual da nee-chan.
— Hã? Ah, sim… é fofo.
Abaixando a cabeça timidamente, Hina-chan virou-se e saiu correndo novamente.
…O que foi isso agora? Adorável, mas ainda assim.
— Viu? Ela gostou de você.
Sorrindo para mim, Konuki-sensei saiu da sala para ir atrás dos irmãos mais novos da Komari. Ela gostou de mim, é…?
Agora são 17h30. É um alívio que a Komari esteja bem, mas o trabalho do dia ainda está completamente inacabado. Enquanto eu pensava no que fazer, a porta de correr do quarto se abriu lentamente.
Parada na entrada estava Komari.
Pijama com estampa de estrelas. Cabelo completamente bagunçado. Com os olhos semicerrados, ela encarava o vazio.

— Komari, você acordou?
— B-Banho… banhei… banheiro…
Assentindo com uma expressão sonolenta, Komari de repente abriu bem os olhos.
— U-Una!? P-Por que o N-Nukumizu está aqui!?
— Hã? Você desmaiou na escola, então trouxemos você para casa.
Komari recuou para dentro do quarto e passou a me encarar pela fresta da porta. Então, ao olhar para si mesma—
— P-P-Pijama…!?
— Ah, o pijama? A Konuki-sensei trocou você.
— M-Minha irmãzinha…
— Sua irmã? A sensei foi buscá-la com seu irmão mais novo. Eles estão na outra sala.
…Komari ficou em silêncio.
— E-Então… N-Nukumizu… o-o que você está f-fazendo aqui…?
Isso é o que eu também queria saber. Enquanto me questionava, Komari murmurou:
— E-Eu estou bem, de verdade.
— É? Que bom então.
…É, não. Isso não é "bom" coisa nenhuma. Já faz um tempo que eu sei que a Komari está se forçando demais. Eu percebi os sinais — e tudo o que fiz foi me preocupar. Mesmo com os veteranos confiando ela a mim, eu não fiz nada. Voltei meu olhar para Komari, que ainda espiava pela porta.
— Ei, Komari. Você pode me mandar o rascunho do texto da exposição?
— P-Por quê…?
Havia cautela na voz dela.
— Você desmaiou. Não posso deixar você se esforçar mais. Desculpa por ter deixado tudo nas suas mãos até agora.
— M-Mas, Nukumizu…
— Tire um tempo para descansar. Deixa o resto comigo. Eu peço para os veteranos revisarem também, então só relaxa—
— Nu! Nukumizu!
O grito repentino congelou o ambiente. Da fresta da porta, a voz dela saiu fraca e tensa.
— P-Por favor… d-deixa eu e-escrever até o f-final.
Ela ainda quer continuar? Engoli as palavras de protesto que iam sair.
— Quando você acha que termina?
— A-Até amanhã de m-manhã.
Ou seja, ela vai virar a noite. Conhecendo ela, mesmo que eu tentasse impedir, ela continuaria escrevendo. Dei um sorriso torto, tomando cuidado para que ela não visse.
— Tudo bem. Quando terminar, manda o arquivo para todo o clube.
— D-Desculpa.
— Relaxa. Mas com uma condição.
— U-Uma condição?
— Deixa todo o resto com a gente e tira o dia de amanhã de folga. Não pense em nada. Só descanse. Essa é minha condição para deixar você terminar.
— M-Mas amanhã é a montagem…
— Me deixa ter pelo menos um momento legal também, vai.
Uma frase idiota. Me preparei para alguma resposta atravessada, mas em vez disso ouvi um baixo:
— Tá bom.
A tensão saiu dos meus ombros em um suspiro meio anticlimático. Certo, resolvido isso, preciso avisar o presidente—hm?
Komari ainda não tinha saído de trás da porta. Ela continuou olhando para mim de relance, como se estivesse hesitando.
— Komari, você devia dormir mais um pouco, né? Vai lá, volta pra cama.
— N-Não, mas…
— Seus irmãos estão com a sensei. Até sua mãe chegar, descansa. Não precisa se segurar.
— É p-por isso…!
De repente, Komari abriu a porta com força e arremessou um travesseiro direto no meu rosto.
— É o b-banheiro! F-Foi isso que eu disse!
Enquanto seus passos apressados ecoavam pelo corredor, tirei o travesseiro do rosto. Então ela prefere travesseiro de casca de trigo-sarraceno, é?
*
Quando voltei para a escola, já estava completamente escuro. O corredor externo voltado para o pátio estava cheio de alunos se preparando para o Festival Tsuwabuki. Evitando a multidão, atravessei o pátio escuro e olhei para o prédio da escola. As janelas das salas ao redor brilhavam intensamente.
É aquela empolgação pré-festival.
Em Toyohashi, há um grande festival noturno no início do verão. Eu sempre gostei daquele momento antes do pôr do sol, quando as barracas ainda estavam sendo montadas. Lembro de insistir para meus pais saírem mais cedo quando eu era pequeno.
— Isso não combina nada comigo.
Falei em voz alta, como se quisesse conter a animação crescente. Quem paga o preço por se empolgar demais sou sempre eu. O palco do festival pertence ao protagonista. No final do prédio oeste, abri a porta da sala do clube. O presidente estava sentado em silêncio.
Sobre a mesa, pilhas de revistas do clube já prontas. Ele deve ter terminado enquanto eu estava fora.
— Você voltou. Como está a Komari-chan?
— Ela parece bem melhor depois de dormir um pouco. A Tsukinoki-senpai ainda está na aula de reforço?
— A Koto está ali.
No canto da sala, Tsukinoki-senpai estava encolhida na cadeira, abraçando os joelhos. Essa pessoa tem um botão de ligar/desligar surpreendentemente preciso. Embora 99% do tempo esteja travado no "ligado".
— Senpai… você está bem?
— A Komari-chan não se machucou, né?
Ela me olhou com um olhar fraco por trás dos óculos.
— Não, ela está completamente bem. A Konuki-sensei está com ela, então não tem com o que se preocupar.
— Entendi… Se é a enfermeira, então está tudo bem… — murmurando como se tentasse se convencer, ela enterrou o rosto nos joelhos. — Nós só queríamos que ela continuasse gostando de vir para a escola mesmo depois que formos embora. Queríamos que o Clube de Literatura fosse um lugar onde ela se sentisse pertencente, então decidimos observá-la de longe.
— Você já disse isso antes. Que queria que a Komari ficasse mais forte.
Assim como quem fica, quem vai embora também se preocupa.
— Será que… será que a Komari-chan acha que nós a afastamos? Se eu tivesse conversado direito com ela…
— Fui eu quem sugeri isso. Não é culpa sua, Koto.
Dizendo isso, o presidente se agachou ao lado dela. Ainda com o rosto abaixado, Tsukinoki-senpai estendeu a mão, e o presidente Tamaki a segurou suavemente. Por algum motivo, a imagem da Komari veio à minha mente ao ver aquela cena.
— Eu não sei o que a Komari realmente pensa, mas não acho que ela esteja chateada com vocês.
Nunca dá para saber o que alguém sente de verdade, ainda mais uma garota. Mesmo passando bastante tempo com a Komari, eu não entendo o que se passa na cabeça dela.
Mas—
— Ela é um pouco mais forte do que vocês imaginam.
Aquele monte de materiais. Os post-its por toda parte. As pequenas anotações arredondadas… O esforço da Komari ficou gravado na minha mente. O presidente relaxou a expressão.
— É. Eu também vou acreditar na Komari-chan.
Ele disse isso enquanto colocava a mão suavemente na cabeça de Tsukinoki-senpai, que finalmente levantou o rosto.
— Então… sobre os preparativos do Festival Tsuwabuki…
O festival já é depois de amanhã. Precisamos terminar a exposição da Komari amanhã e montar o espaço também.
— Sobre isso… Nukumizu, me desculpa. De novo.
O presidente se curvou profundamente.
— Hã? Por que está se desculpando? Por favor, levante a cabeça.
— Acabei deixando toda a preparação do festival com vocês. O desmaio da Komari-chan também é culpa minha.
Não é culpa de ninguém. A Komari está fazendo tudo por escolha própria. Enquanto eu pensava em como explicar isso, o presidente levantou a cabeça, decidido.
— Eu vou cuidar do resto do manuscrito da exposição. Não posso deixar a Komari-chan se forçar mais.
— Shintaro, deixa comigo! Apoiar a Komari-chan é minha função! — dizendo isso, Tsukinoki-senpai se levantou de um salto.
…Komari, e meus dois veteranos… todos tentam carregar tudo sozinhos. Os três são mais parecidos do que imaginam. Esse pensamento me fez sorrir levemente enquanto balançava a cabeça.
— Desta vez… podemos deixar a Komari terminar até o fim?
— É isso que a Komari-chan quer?
— Sim. Foi decisão dela.
— Mas ela acabou de desmaiar. Não acha que isso é demais—
— Ela vai descansar amanhã. Então, só por esta noite… finjam que não estão vendo.
O silêncio caiu. Virar a noite depois de desmaiar… é natural que eles não conseguissem responder de imediato.
— Isso é culpa nossa? — Foi Tsukinoki-senpai quem quebrou o silêncio. — É porque estamos nos formando? Ou—
Ela olhou diretamente para o presidente Tamaki.
— É porque o Shintaro está se formando? É por isso que a Komari-chan está se esforçando tanto?
— Talvez. Mas eu não sei o que a Komari sente de verdade.
Os sentimentos dela já acabaram. Nada mudaria agora. Mesmo assim, ela continua se esforçando, espremendo cada emoção restante… para transformar quem ela amava em alguém que "amou".
E transformar aqueles dias insubstituíveis em memórias. Aquela figurante, assim como eu, está dando tudo de si. Talvez seja só uma ilusão egoísta minha. Ainda assim, quero deixar ela fazer do jeito dela.
— Ela é a kouhai de quem vocês tanto se orgulham, não é? Então confiem nela.
O presidente, que escutava em silêncio, deu um pequeno suspiro de rendição.
— Tudo bem. Desta vez, você está no comando.
Tsukinoki-senpai parecia querer dizer algo, mas o presidente colocou a mão em seu ombro e balançou a cabeça.
— Então, Nukumizu. O que devemos fazer agora?
— Hã? Agora…?
Amanhã não há aulas, apenas preparativos para o festival. Finalmente teremos acesso à sala da exposição.
— Depois da reunião da manhã, podemos nos encontrar todos na sala? Eu falo com a Yanami-san e a Yakishio.
— Certo. Até lá, cada um foca no que pode fazer. Você também tem suas tarefas, não é, Nukumizu?
— Tenho.
A esta altura, a Kaju provavelmente está fazendo uma enorme leva de doces sozinha. Ela deve estar emburrada por ter ficado de fora por tanto tempo. Quando o festival acabar, vou ter que mimá-la um pouco…
*
Sexta-feira, véspera do Festival Tsuwabuki. O visor digital do meu relógio marcava exatamente 7h00. Reprimindo um bocejo, olhei em volta para a sala vazia no segundo andar do prédio oeste.
Aquele é o espaço do Clube de Literatura. Embora seja chamada de "sala vazia", ela é usada com frequência para aulas eletivas e reforço, então já estive ali algumas vezes. O motivo de eu ter vindo tão cedo era simples. Queria sair na frente. Só desta vez, eu também queria parecer um pouco legal.
Ao amanhecer, Komari enviou para todos o manuscrito da exposição. Era um texto enorme, com mais de 50 mil palavras. Vou ler depois. Primeiro, preciso preparar o espaço. Depois de arrastar carteiras para o corredor mais de uma dúzia de vezes, finalmente consegui liberar a metade do fundo da sala.
…Isso cansa mais do que eu esperava.
Enquanto esfregava a lombar e me preparava para pegar a próxima carteira, ela de repente ficou mais leve.
— Nukkun, eu já falei. Deixa as coisas pesadas comigo.
Uma voz clara, brilhante como o auge do verão. Yakishio ergueu a carteira até a altura do peito com facilidade, como se estivesse exibindo a força.
— Hã? O que você está fazendo aqui, Yakishio?
— Como assim "o que"? Eu também sou membro do Clube de Literatura, lembra? É pra levar isso pro corredor, né?
Sem perder o ritmo, Yakishio carregou a carteira até o corredor com passos animados.
— Mas eu mandei mensagem dizendo que a preparação começava depois da reunião de classe.
— A Yana-chan me contou que você estava tentando fazer tudo sozinho de novo, Nukkun.
Ela voltou trotando do corredor e empilhou duas carteiras na vertical.
— Só porque a Komari-chan se esforçou demais e desmaiou não significa que você deva fazer o mesmo.
— Eu não estou exagerando. Só pensei em adiantar o máximo que pudesse…
— Pedir ajuda aos outros também é algo que você pode fazer, sabia? — Mostrando os dentes brancos num sorriso, Yakishio levantou as carteiras empilhadas como se não pesassem nada. — Não é exatamente para pagar uma dívida nem nada, mas eu também queria ajudar.
…Essa "dívida" de que ela falou deve ser sobre o que aconteceu no fim do verão. O que consegui fazer ou não consegui fazer quando só fui levado pela situação… até hoje não sei direito.
— Se você está falando das férias de verão, eu não fiz grande coisa. Não precisa pensar nisso como algo que me deve.
Yakishio abaixou com cuidado a carteira que segurava.
— Você pode dizer isso, Nukkun. Mas eu fiquei muito feliz naquela época, sabia? — Com um olhar um pouco mais sério, Yakishio fixou os olhos nos meus e repetiu: — Você me fez muito feliz.
O olhar de Yakishio encontrou o meu. Aqueles olhos de cor profunda quase me puxaram para dentro.
— Obrigado. Então, vai me ajudar?
— Claro! Nukkun, você devia confiar muito mais em mim!
Ela disse isso enquanto me dava um tapa forte nas costas. Doeu. Abrindo um sorriso radiante, Yakishio levou embora as carteiras empilhadas num instante. Tentei imitá-la e empilhar as carteiras também, mas desisti na hora. Eram mais pesadas do que pareciam.
— Agora que eu pensei… você disse que soube de mim pela Yanami-san, não foi?
— Foi. Ontem, a Yana-chan contou para todo mundo—
Assim que voltou do corredor, Yakishio interrompeu a frase. Seguindo o olhar dela, vi Yanami parada na entrada da sala. Abrindo um onigiri de loja de conveniência com um sorriso convencido no rosto.
— Atum com maionese é o auge da engenhosidade humana. Por meio deste, concedo o Prêmio Yanami a quem quer que o tenha inventado.
Uma rajada repentina de vento entrou, e o cabelo de Yanami balançou, brilhando à luz do sol. O plástico do onigiri desceu flutuando como uma pétala.
— Bom dia, Yana-chan! — Yakishio correu até ela e lhe deu um high-five animado.
— Bom dia, Lemon-chan. E você, Nukumizu-kun, ficou tão surpreso que perdeu a fala?
— Não. Só pega o seu lixo, por favor.
— Eu ia pegar depois, tá?
Resmungando, Yanami recolheu a embalagem a contragosto. Então era isso. Foi mesmo Yanami quem contou para Yakishio. Mas ainda assim—
— Yanami-san, como você sabia que eu viria cedo hoje de manhã?
— A imouto-chan me contou. Quer dizer, você não me falou nada sobre ontem. Mesmo quando eu disse que ajudaria, você só respondeu "está tudo bem". Então não tive escolha a não ser perguntar para sua irmã, certo?
Mordendo o onigiri, o estalo da alga ecoou enquanto ela dava uma grande bocada.
— Espera, quando foi que você trocou contato com a Kaju…?
— Não seja mesquinho. Nós também somos membros do clube, sabia? Nos importamos tanto com a Komari-chan quanto você. Não é, Lemon-chan?
Yanami ignorou minha pergunta e abriu seu segundo onigiri. Caramba, ela come rápido.
— Exatamente. Nukkun, você anda distante demais.
— Tá, desculpa por isso, vocês duas. Mas sério, quando foi que você trocou contato com a Kaju—
— Nukumizu-kun, espero que não tenha se esquecido de nós.
Uma voz familiar interrompeu minha pergunta. Quando me virei, Tsukinoki-senpai e o presidente estavam lado a lado.
— Vocês dois também vieram tão cedo?
O presidente acenou levemente para Yanami.
— Foi a Yanami-san quem nos chamou. Não podemos deixar você ficar com todo o destaque sozinho, Nukumizu.
Ao lado dele, os óculos de Tsukinoki-senpai brilharam de forma afiada.
— Quando parei para pensar, isso aqui é praticamente como participar de um evento doujin, não é? De certo modo, dá para dizer que estou no meu habitat natural.
— Senpai, isso é uma exposição do Clube de Literatura, tá? Não vamos vender nenhum livro estranho.
— Não se preocupe. Já tenho dezoito anos, então posso vender esse tipo de livro se eu quiser.
— Por favor, deixe isso para depois de se formar.
Ver ela agindo como sempre fez meus ombros relaxarem um pouco.
— Que foi esse sorrisinho? Está rindo da minha cara?
— Não, é só que… fiquei meio aliviado de ver que você está melhor do que eu imaginava.
Tsukinoki-senpai sorriu com certa maturidade.
— Desculpa por te preocupar. O Shintaro e eu conversamos bastante ontem à noite e resolvemos tudo direitinho. Afinal, eu já tenho dezoito anos.
— Koto. Posso falar com você um instante?
— O que foi, Shintaro? Por que essa cara assustadora?
— Só vem.
Então o presidente puxou Tsukinoki-senpai para o corredor. Seja lá o que aconteceu ontem à noite, eu prefiro não saber.
— Enfim… obrigado, pessoal. Sério.
Quando eu disse isso, Yakishio me lançou uma piscadela significativa.
— Nukkun, tem certeza de que não esqueceu alguém?
Hã? Todo mundo do clube está aqui, menos a Komari.
— Ah, então vocês já estavam aqui. Mitsuki-san, por aqui.
Por que ela está aqui? Asagumo-san entrou na sala com Ayano ao lado. Enquanto eu ficava ali, paralisado, Ayano exibiu o sorriso amigável de sempre.
— Eu avisei. Sempre ajudaria. Parece que afinal há algo em que podemos ser úteis.
Ayano fez um pequeno gesto com a cabeça, e Asagumo-san abriu o caderno para me mostrar.
— Lemon-san compartilhou comigo o rascunho da exposição. Li durante o caminho para a escola e esbocei um plano de diagramação.
— Você está dizendo que leu…? Mas são 50 mil palavras.
Asagumo-san assentiu, com a testa levemente brilhando de suor.
— Sim. Estou profundamente comovida. É um texto maravilhoso, repleto dos sentimentos sinceros da autora. Especialmente a parte que reavalia a relação entre Soseki e seu discípulo sob uma perspectiva singular; foi extremamente envolvente—
O monólogo de Asagumo-san continuou. Ainda assim, aquele manuscrito tem quase metade do tamanho de um romance de bolso. Uma coisa é lê-lo; outra é transformá-lo num plano de diagramação…
Meio desconfiado, peguei o caderno.
— Para facilitar a leitura, fiz uma proposta para resumir tudo em oito cartolinas. Tomei como inspiração o layout de jornais e também incluí uma seção para crianças, com ilustrações dentro de molduras.
— Você se baseou em jornais?
— Sim. Não há como um visitante ler tudo isso. A ideia é que ele tenha uma noção geral pelos títulos e imagens, e depois escolha as partes que mais lhe interessarem.
Ao folhear o caderno, vi esboços de todas as oito cartolinas. Realmente parecia a diagramação de um jornal.
— Espera… você até planejou onde cada artigo vai ficar? No caminho para cá?
— Claro. Já memorizei a maior parte do conteúdo.
Asagumo-san disse isso como se não fosse nada demais. Olhando com mais atenção, percebi que as anotações detalhadas de diagramação incluíam até páginas e linhas do manuscrito. Enquanto eu ficava ali, impressionado com a competência dela, Yanami ergueu um polegar convencido enquanto bebia leite com café de caixinha.
— Viu? Está tudo sob controle, então relaxa.
Por que ela está agindo como se o mérito fosse dela?
Ayano apontou para o caderno.
— O manuscrito original já foi escrito pensando num formato de jornal. Estamos pensando em pegar emprestado um computador da sala de informática e tentar montar tudo numa diagramação de verdade.
Se esses dois dizem que conseguem, então provavelmente conseguem mesmo. Na verdade, confio mais nos alunos de Tsuwabuki que nem são do Clube de Literatura do que seria de se imaginar.
Mas ainda resta um problema.
— Será que temos tempo para copiar tudo isso nas cartolinas? Ainda temos outras tarefas de preparação, então talvez seja demais.
— Tenho uma ideia para isso. Posso ver o caderno?
O presidente voltou do corredor e pegou o caderno nas mãos. Atrás dele, Tsukinoki-senpai olhava para suas costas com uma expressão sonhadora. Os dois não fizeram nada estranho lá fora, fizeram? Por favor, digam que não…
— Se enviarmos os dados até o meio-dia, conheço uma gráfica onde podemos imprimir tudo numa impressora de grande formato. Ayano-kun e eu terminaremos a diagramação antes do prazo e pretendemos buscar o material final pessoalmente.
Ayano assentiu.
…Espera aí, esses dois?
— Presidente e Ayano, vocês se conhecem?
— Na verdade, é a primeira vez que encontro Ayano-kun pessoalmente. Embora ele tenha me sido apresentado ontem à noite.
Ontem à noite? Então Yakishio me mostrou a tela do celular.
— Ontem à noite, a Yana-chan criou um grupo no LINE para a gente se comunicar. Convidei o Mitsuki e a Chiha-chan também.
— Eu não estou nesse grupo.
Emburrado, resmunguei, e Yanami me lançou um olhar como se eu fosse uma criança que não entende nada.
— Olha, você e a Komari-chan tendem a assumir coisa demais, então fizemos o grupo para dar apoio. A Komari-chan também não está nele.
Eu entendo, mas mesmo assim dói um pouco. O presidente olhou para todos com expressão formal.
— Para a exposição, seremos eu, Ayano-kun e Asagumo-san. Nukumizu e Koto vão cuidar da organização do espaço e da preparação. Yanami-san e Yakishio-san, gostaria que vocês apoiassem o Nukumizu quando estiverem livres dos preparativos da turma de vocês. Posso contar com todos?
Yanami estendeu a mão, e Yakishio e Asagumo-san colocaram as delas por cima.
— Vamos, Nukumizu-kun, você também.
Yanami ergueu o olhar para mim, insistente. Quando coloquei minha mão sobre a pilha, ainda hesitante, o presidente ergueu a voz.
— Certo! Na véspera do Festival Tsuwabuki, vamos dar tudo de nós!
— Siiim! — responderam os quatro.
— É…
Eu me atrasei. Tentando esconder o constrangimento, encolhi os ombros, mas Yanami esbarrou de leve no meu.
— Hã? O quê…?
— Então? O que achou do trabalho incrível da consultora Yanami-chan?
Verdade, eu ainda não tinha cancelado aquele contrato.
— Nesse caso, vamos renovar para o próximo semestre?
— Aham. Conto com você de novo.
Sorrindo, Yanami esbarrou em mim outra vez, então limpou a boca, onde um grão de arroz tinha ficado preso.
*
Depois que terminamos de levar as carteiras que não seriam usadas para o corredor, o formato geral da sala começou a tomar forma.
Yanami e Yakishio escreviam explicações no quadro-negro.
— Nukumizu-kun, e agora? — perguntou Tsukinoki-senpai.
Como alguém que já tinha terminado o aquecimento, ela ajustou os óculos com um toque do dedo.
— Deixa eu ver… Depois que colocarmos os painéis, arrumarmos os doces e as revistas do clube, estará praticamente pronto.
— Vocês não vão colocar nenhuma placa nem nada? Se vão vender doces, pelo menos precisam de um cardápio.
— Elas estão escrevendo isso no quadro agora.
— Mas assim ninguém vê a menos que entre na sala. E, sem decoração, o lugar fica vazio demais. Onde você pretende colocar as revistas?
— Ah… eu ia só deixá-las em algumas carteiras espalhadas.
Tsukinoki-senpai foi até a bolsa e tirou um pedaço de tecido. Ela o estendeu sobre uma carteira e organizou as revistas por cima.
— Viu? Só de colocar um pano a apresentação já muda completamente. E isto aqui também é indispensável.
Então, ela colocou uma pequena placa escrita "Novo lançamento disponível".
— O que é isso?
— Tipo aquelas placas de "Temos macarrão gelado" ou aquelas bolas de cedro em frente às fábricas de saquê.
Hã. De repente, isso realmente começou a parecer um evento de verdade.
— Também vamos precisar de um aviso. Algo como: "Estas são histórias escritas pelos membros do clube, e estamos distribuindo gratuitamente para quem se interessar." No mínimo, esse tipo de informação é necessário. Não me diga que você ia simplesmente deixá-las largadas num canto da sala.
…Esse era exatamente o meu plano. Tsukinoki-senpai lançou um olhar afiado ao redor.
— Então, Nukumizu-kun, onde estão as decorações e o papel para as placas?
— Hã? Nós não temos nada disso, não.
A expressão dela escureceu na mesma hora.
— Espera um pouco, Nukumizu-kun. Como exatamente você pretendia montar esta sala?
— Ah… primeiro, a gente colocaria os painéis da pesquisa nos quatro cantos da sala. Depois, ao lado deles, eu colocaria os doces temáticos e uma estação de carimbos.
— Certo, certo… e depois?
E depois…?
— Hum, só isso.
— Tudo bem, todo mundo aqui! Vocês duas aí também. Venham para cá.
Tsukinoki-senpai bateu palmas com força. Sacudindo o pó de giz com tapinhas rápidos, Yanami e Yakishio vieram até nós.
— Está pior do que eu imaginava, então vou assumir a coordenação da montagem do espaço.
Fui substituído.
— Para o evento de amanhã, vamos precisar fazer panfletos e cartazes, além de decorar o ambiente. Vamos começar listando os materiais necessários.
Tsukinoki-senpai tirou a agenda e começou a anotar rapidamente.
— Vamos precisar de uma variedade completa de papéis coloridos e fita dupla-face. Se vamos lidar com dinheiro, também precisamos preparar uma caixa de moedas e um livro-caixa. Eu tenho uma caixa em casa, então trago depois. Para o troco, um rolo de moedas de 100 ienes deve bastar. Também cuido disso. Além disso, parece que não temos cestos para os doces. Nukumizu-kun, você já preparou os carimbos e os cartões?
— Eu estava pensando em comprar quando tivesse um tempinho livre—
— Então vamos providenciar isso agora também. Alguém pode ir às compras?
— Eu vou!
Yakishio levantou a mão com energia. Tsukinoki-senpai arrancou uma folha da agenda e a entregou a ela.
— Quando a loja de 100 ienes ali perto abrir, compre tudo desta lista. Não esqueça o recibo. É bastante coisa, então Yanami-san, pode ir com ela?
— Claro! Mas também temos as preparações da nossa turma, então não podemos ajudar por muito tempo.
— Sem problema. Desde que as compras estejam feitas ainda esta manhã, eu e o Nukumizu-kun damos conta do resto.
…O que aconteceu? Essa não é a Tsukinoki-senpai que eu conheço. Ela não devia economizar o QI fora dos assuntos de BL…?
— Certo, temos muita coisa para fazer. Vamos continuar até tocar o sinal.
Com outra palma, senpai mandou Yanami e Yakishio para o quadro. Certo… acho que eu devo fazer os panfletos e cartazes. Enquanto eu olhava em volta da sala de novo, Tsukinoki-senpai ergueu o relógio diante do meu rosto.
— Você disse que sua antiga escola nos emprestaria alguns tatames, certo? Já arrumei um carro. Vamos antes do meio-dia.
— Antiga escola ou não, a única pessoa que eu conheço lá é a minha irmã.
Faz apenas alguns meses desde que terminei aqueles três anos do ensino fundamental, mas já parece algo tão distante.
Na véspera do Festival Tsuwabuki, um longo dia começou—
*
Parei e olhei para o relógio na parede. Já eram 14h. O manuscrito da exposição foi enviado pouco antes do prazo. O presidente foi buscá-lo depois de receber a confirmação de que estava pronto. Quanto a mim, passei a manhã fazendo panfletos e cartazes, e tinha acabado de terminar de espalhar os tatames que pegamos emprestados pela sala.
Ayano, que tinha ajudado a carregar os tatames, me deu um tapinha nas costas.
— Bom, então agora vamos ajudar na nossa turma.
— Boa sorte, Nukumizu-san.
Asagumo-san disse, com uma reverência educada, enxugando o suor da testa de Ayano com uma toalha.
— Obrigado a vocês dois. Vocês me ajudaram muito.
Depois de me despedir dos dois com uma palavra de agradecimento, fiquei sozinho na sala. Tsukinoki-senpai foi devolver o veículo que usamos para transportar os tatames. Yanami e Yakishio estariam ocupadas a tarde toda com os ensaios das apresentações do Street Halloween.
…Eu me esforcei bastante hoje.
Elogiando a mim mesmo, me joguei no meio dos tatames. Tudo o que eu tinha planejado originalmente era preparar a exposição e os doces, mas, agora que realmente fiz isso, havia muito mais coisa para resolver do que eu imaginava.
Até para o carro tivemos que depender da Tsukinoki-senpai. Sozinho, eu não teria conseguido nada…
— Oh, não está nada mal. O espaço está começando a ficar com cara de evento de verdade.
Tsukinoki-senpai voltou para a sala. De algum jeito, ela parecia mais confiável do que nunca.
— Obrigado. Embora eu não esperasse que você aparecesse num caminhão.
— Minha família tem um negócio. Aquele ainda pode ser dirigido com carteira comum.
Vestida com um agasalho esportivo, Tsukinoki-senpai sentou-se de pernas cruzadas ao meu lado, sorrindo.
— Mesmo assim, me surpreende. Achei que esta escola não permitisse vir de carro.
— Claro que não permite. Se te pegarem, é suspensão na certa.
…Espera. O que foi que ela disse?
— Mas eu estava no banco do passageiro.
— Se te pegarem, é suspensão.
Senpai puxou o tecido do agasalho e mostrou para mim.
— Você acha que estou usando isto por diversão? Até eu sei que seria uma péssima ideia dirigir um caminhão usando uniforme escolar.
…Se ela entende isso, bastava ir só um passo além e parar por aí. Senpai me estendeu uma garrafa de chá.
— Mas eu fiquei surpresa. Sua irmãzinha é adorável e muito popular também. Aqueles meninos que ajudaram a carregar os tatames… não são tipo o fã-clube dela?
— Não, você deve ter ouvido errado. Eles eram só transeuntes bondosos. Além disso, ficar tão agitado com o sexo oposto no ensino fundamental? Cedo demais.
Diante da minha declaração firme, Tsukinoki-senpai me lançou um olhar desconfiado.
— Nukumizu-kun, você por acaso é um siscon? Agora que penso nisso, você não trouxe light novels com tema de irmãzinha para a sala do clube?
Quer dizer, eu também não posso simplesmente deixar essas coisas largadas em casa.
— Fantasia e realidade são coisas diferentes. Você também escreve BL, mas não ia querer que o presidente tivesse um namorado, certo?
— Se ele me mostrasse, eu aceitaria com prazer. Não, melhor dizendo, eu diria que queimaria de paixão.
Ah… isso é mesmo aceitável?
— Bem, mesmo que você não seja um siscon, é natural ficar curioso. Afinal, sua irmã é muito popular.
— Quando eu ainda estudava lá, ela era só uma aluna normal. Na verdade, era mais o contrário de popular.
— Sério? Isso me surpreende.
…Lembrei de como as coisas eram um ano atrás, quando Kaju tinha acabado de entrar no ensino fundamental II.
— Ela saía dizendo por aí: "O onii-sama mais incrível do mundo também estuda nesta escola", e isso espalhou um rumor entre as meninas do primeiro ano. De que havia um aluno do terceiro ano incrivelmente bonito chamado Nukumizu.
— Uau, então você era um galã no fundamental, hein?
— Então veio o rumor seguinte: esse aluno do terceiro ano não existe. Kaju Nukumizu é fofa, mas meio esquisita.
Abri a garrafa de chá.
— Ela acabou se destacando no primeiro ano, mas não de um jeito bom. Por isso, hoje, ver ela se dando bem com todo mundo realmente me deixou aliviado.
…Mas, como irmão mais velho, me recuso a reconhecer qualquer suposto fã-clube. Tsukinoki-senpai ficou me observando sorrindo por um tempo, mas então sua expressão mudou para curiosidade.
— Pensando bem, será que eu já encontrei sua irmã em algum lugar antes? Ela me parece familiar.
— Acho que foi a primeira vez que vocês se viram.
…Espera. Durante o retiro do Clube de Literatura em julho, Kaju estava espionando a gente escondida. Não seria estranho se ela quase tivesse dado de cara com a senpai.
Mas deixar isso vir à tona seria problemático…
— Acho que é só impressão sua. Deve ter sido a primeira vez mesmo.
— Hum, talvez você tenha razão. Deve ter sido só sensação.
Enquanto Tsukinoki-senpai olhava para o teto, tomei um longo gole de chá, mantendo minha expressão impassível.
*
Quando entrei na sala da turma 1-C pouco antes das 16h, a atmosfera estava completamente diferente da manhã. As paredes estavam cobertas com cortinas pretas e enfeites, e o quadro-negro trazia, em letras decorativas enormes: HAPPY HALLOWEEN. O lugar tinha se transformado completamente num espaço de festa de Halloween.
Pelo visto, até o meu lugar tinha sido mudado para algum canto. Sem saber para onde ir, fiquei parado ali, perdido, até ser envolvido por um suave perfume floral. Meu cérebro automaticamente ligou a trilha sonora habitual.
— Gostosuras ou travessuras!
Parada diante de mim numa pose exagerada, com uma perna levantada e apontando direto para mim, estava nada menos que a própria garotinha demônio: Karen Himemiya.
…Espera, será que eu só estou atrapalhando aqui, parado desse jeito?
Tentei sair discretamente do caminho e parecer invisível, mas Himemiya-san veio direto até mim.
— Ei, ei! Nukumizu-kun, reage!
Espera, então aquela fala de antes era para mim?
— Ah, tá… então, gostosuras, por favor. Embora eu não tenha muito doce comigo…
— O-Oh… Nukumizu-kun, você pode ser mais natural, sabia? Eu já estava pronta para fazer toda uma cena tipo "Sem doces? Então vai ser travessura!".
Isso soou meio indecente.
— Ah, eu tenho um Black Thunder. Serve?
— Ora, ora, que cavalheiro. Aceito sua oferenda com gratidão.
Himemiya-san pegou o doce com uma expressão séria, mas acabou caindo na risada logo em seguida.
— Poxa, Nukumizu-kun. Se você ficar todo tenso assim, vai parecer que eu estou te intimidando. Toma, leva este doce para a Anna.
— Para a Yanami-san?
Olhei para onde Himemiya-san apontou e vi Yanami esparramada sobre uma caixa de papelão achatada num canto. Ela estava vestindo um robe branco e usando um pano triangular branco na cabeça, deitada de barriga para cima, com as mãos cruzadas sobre o estômago.
Será que ela finalmente morreu?
— A Anna está cansada e com fome. E também acho que está com muita fome.
Ela repetiu duas vezes. Então a situação deve ser grave. Com o Black Thunder na mão, fui até Yanami.
— Yanami-san, quer isto?
Cochilando, Yanami se ergueu devagar.
— Nukumizu-kun?
Ainda sonolenta, ela pegou o Black Thunder e começou a comer.
— Você me salvou. A loja estava sem pão. E a cantina também está fechada hoje.
— Espera, não me diga que você não almoçou?
Yanami assentiu.
— É. Eu só comi um copo de miojo instantâneo.
Mas então você comeu.
— Ah, é verdade, a sala ficou totalmente diferente, né? A gente também ajudou a decorar.
— Então o evento não acontece do lado de fora?
— Também vai ter coisas como sessões de fotos comemorativas na sala. Nukumizu-kun, você não leu o plano do evento?
Eu só li a parte que tinha sido designada para mim. Fiquei em silêncio, e Yanami me lançou um olhar morto.
— Tenta se interessar um pouco mais pelo evento da sua turma também, tá?
Contra isso eu não tinha argumento. Assenti obedientemente.
— Então, o lado do Clube de Literatura está indo bem? Não consegui ajudar muito.
— Está quase tudo pronto. Assim que o presidente voltar, só faltam os últimos ajustes.
Inacreditavelmente, os preparativos do Clube de Literatura estão indo melhor do que o esperado. O súbito despertar da competência da Tsukinoki-senpai tem sido uma surpresa muito bem-vinda.
— Quando as coisas se acalmarem aqui, eu passo lá—ah, sujei minha fantasia de chocolate!
Deixando Yanami para trás, enquanto ela só piorava a mancha esfregando, virei-me para o mural da turma. Tenho quase certeza de que o plano do evento da classe estava afixado ali. Parado diante do quadro, foquei os olhos no cronograma. A apresentação do Street Halloween é composta por sete atos no total. Nem todo mundo participa de todos eles. Yanami só aparece em três. No restante do tempo, eles vão circular pelo campus, distribuir doces para as crianças e tirar fotos com elas.
— Você não vai se fantasiar, onii-sama? A Kaju acha que uma fantasia de príncipe combinaria muito com você.
— Eu sou da equipe de apoio. E, de qualquer forma, vou ficar com o Clube de Literatura durante o evento—
…Hm? Essa voz agora há pouco…
— Kaju!? O que você está fazendo aqui!?
— Hehe, a Kaju simplesmente apareceu por aqui.
Pois é, apareceu mesmo. Sorrindo radiante para mim, minha irmã Kaju observava enquanto eu tentava entender a situação.
— Você não pode simplesmente vir para a escola sem permissão. Anda, eu vou te levar até a saída—
Quando tentei escoltá-la para fora da sala, ela ergueu a mão com toda naturalidade e arrumou minha gravata.
— Onii-sama, sua gravata estava torta. Você almoçou direito?
— Ah, sim. Mais importante, vamos levar você—
— Nukumizu-kun, isso não é jeito de tratar sua irmãzinha quando ela se deu ao trabalho de trazer guloseimas!
Quem interrompeu a conversa foi Yanami, carregando nos braços um grande embrulho envolto em furoshiki.
— Guloseimas? Foi a Kaju que trouxe isso?
— Sim. A Kaju quis fazer algo para todo mundo aproveitar, então trouxe uma grande quantidade de inarizushi.
Os olhos de Yanami brilharam ao ouvir a palavra inarizushi.
— Pessoal! A irmãzinha do Nukumizu-kun trouxe guloseimas para nós!
Ao anúncio de Yanami, a turma inteira se virou para olhar. Certo. Enquanto todo mundo estiver distraído com o inarizushi, eu tiro a Kaju daqui sem chamar atenção. Mas, ao contrário do que eu esperava, todas as garotas da turma a cercaram imediatamente.
— Quem é essa menina? Que fofinha~.
— Disseram que é a irmãzinha do Nukumizu-kun!
— Nukumizu?
— O uniforme dela é fofo. De que escola é?
Kaju pareceu um pouco surpresa no começo, mas logo voltou a sorrir.
— Eu sou Kaju Nukumizu. Muito obrigada por sempre cuidarem do meu onii-sama!
Ela fez uma reverência profunda, e um coro de gritinhos animados explodiu entre as garotas.
…Bom, agora não tem mais jeito. Pelas light novels, garotas são fracas contra coisas fofas e doces. Vou ter que confiar na capacidade de improviso da Kaju. Enquanto eu observava de longe, Yakishio veio parar ao meu lado.
— Esse é o uniforme do Colégio Momozono, não é? Então sua irmãzinha estuda na mesma escola em que a gente estudou.
— Bom, sim. Ela é minha irmã.
Yakishio estava vestida de múmia, mas a fantasia era comportada, com a maior parte do corpo coberta. As garotas da nossa turma conseguiram defender, com consciência, os sonhos dos garotos. Quando Kaju percebeu que nós dois conversávamos, escapou do grupo e veio parar diante de nós.
— Hum, você deve ser a Yakishio-san, certo? A Kaju já ouviu tudo sobre você pelo onii-sama!
Ao ouvir isso, Yakishio me cutucou com o cotovelo, sorrindo.
— Então o Nukkun anda falando de mim em casa, é? Ahh, vou ficar vermelha!
…Será que eu já mencionei a Yakishio em casa alguma vez?
— Enfim, Kaju, você realmente já devia ir para casa. Não pode simplesmente entrar assim num colégio.
— Ara, mas a Kaju pediu permissão à sua professora da turma. Que pessoa tão gentil e maravilhosa!
Gentil e maravilhosa… hm, não sei quanto a isso. Enquanto eu procurava na memória episódios do passado que contradissessem essa avaliação, a própria pessoa em questão apareceu atrás de Kaju.
— Nukumizu, sua irmã tem um bom olho para julgar as pessoas. Aprenda com ela — Amanatsu-sensei bateu palmas. — Ei, todo mundo aqui? Desculpem o atraso. Vamos começar a reunião da turma.
Mesmo com a Kaju aqui, vamos simplesmente seguir assim, como se nada tivesse acontecido?
— Amanhã, o horário de chegada é o de sempre. O portão da frente fecha às 20h hoje. Quem quiser ficar até mais tarde me avise antes. É isso pela reunião da turma.
Amanatsu-sensei pousou gentilmente a mão na cabeça de Kaju.
— Recebemos uma guloseima de inarizushi da irmãzinha do Nukumizu. É por ordem de chegada, então sem brigas—ei, Yanami! Não começa a comer sozinha!
Enquanto começava o salve-se-quem-puder do inarizushi, Kaju veio ficar ao meu lado.
— Onii-sama, sua turma é tão animada.
É? Eu não sei bem, mas, se a Kaju diz isso, talvez seja verdade…
— Certo, Kaju. Eu ainda tenho preparativos para fazer, então vou te acompanhar até o portão da escola.
— Nesse caso, até o portão sul, por favor. A mamãe está esperando lá no carro.
Quando saímos da sala e começamos a andar juntos pelo corredor, Kaju entrelaçou o braço no meu.
— Ehehe, parece um encontro dentro da escola, até o portão.
— Ei, não fica se agarrando em mim em público.
Quando puxei meu braço de volta, Kaju inflou as bochechas, insatisfeita.
— Então segure minha mão e eu paro. Se não, então empreste seu casaco para a Kaju, por favor.
— Meu casaco? Você está com frio?
Tirei o blazer e entreguei a ela. Kaju o vestiu feliz.
— Aham, está quentinho. Ehehe, é tão aconchegante e larguinho.
Kaju, andando de costas toda animada, quase esbarrou em um aluno que passava.
Segurei seu ombro e a puxei para perto.

— Ei, não fica brincando enquanto anda. Fique do lado do seu irmão mais velho.
— Sim, onii-sama.
Ela deve ter percebido o próprio erro, porque passou a andar quietinha ao meu lado.
Francamente. Até a Kaju, com toda a compostura que tem, ainda é uma criança. É natural que tenha ficado empolgada na primeira vez que visita um colégio.
— Kaju, eu não estou bravo com você, tá?
— Sim, onii-sama. A Kaju fez dois tipos de inarizushi: um com recheio misto e outro com wasabi. Tem bastante, então, por favor, não deixe de comer.
— Nossa, parece ótimo.
Foi o que eu disse, mas, quando eu voltasse, provavelmente já teria acabado. Afinal, existe uma Yanami na turma 1-C…
*
19h30, véspera do dia principal. A exposição do Clube de Literatura no Festival Tsuwabuki, Leituras que Você Pode Comer. Todos os preparativos estavam concluídos. Junto com Tsukinoki-senpai, o presidente, Yakishio e eu, nós quatro contemplávamos o espaço com profunda satisfação.
— Perfeito! Vocês fizeram um trabalho incrível.
Tsukinoki-senpai ergueu o polegar com orgulho. Enquanto eu soltava um suspiro de alívio, Yakishio me deu um tapa sonoro nas costas. Isso dói, sério.
— Tenta parecer um pouco mais animado, Nukkun!
Ugh… até fingir um sorriso me cansa. O presidente olhou para nós com um sorriso torto.
— O verdadeiro desafio ainda está pela frente. Pessoal, descansem bem esta noite para estarmos prontos.
— Entendido! — responderam os três. Exato. O festival nem começou ainda. Melhor eu ir logo para casa e descansar para amanhã…
— Bom, vou levar a Koto para casa agora, então já estamos indo.
— Então eu vou ali ser devorada por um lobo no caminho, até amanhã~.
— Não fala esse tipo de coisa na frente dos seus kouhais…
Depois de ver os dois saírem da sala flertando, Yakishio jogou a bolsa no ombro.
— Nukkun, vamos embora também.
— É, verdade. Ah…
Olhei pelo corredor, mas não havia sinal de ninguém. Yanami ainda estava presa aos preparativos da turma e não tinha conseguido aparecer.
— Vou ficar mais um pouco para tirar fotos do espaço. Preciso enviá-las para o conselho estudantil.
— Entendi. Então eu vou para casa primeiro. Até mais!
— Obrigado por hoje. Até amanhã.
Depois de ver Yakishio sair correndo da sala, olhei em volta para o espaço. Os dois alunos do terceiro ano já tinham ido embora, então eu estava sozinho naquela sala ampla.
Quatro tipos de painéis, doces, decorações e acessórios. Fomos improvisando ao longo do caminho e, ainda assim, de algum jeito conseguimos juntar tudo. Os painéis foram concluídos pelo trio liderado por Asagumo-san. Yanami e Yakishio reuniram pessoas, e as decorações e acessórios ficaram inteiramente sob a direção de Tsukinoki-senpai.
Kaju fez os doces e providenciou os tatames. Quanto a mim… bem, eu dei o meu melhor, sim. Antes que eu fosse engolido pelo vazio existencial, Yanami entrou na sala vestindo o uniforme.
— Bom trabalho, Nukumizu-kun.
— Você demorou bastante, Yanami-san.
— Eu estava limpando o chocolate da fantasia e demorou mais do que imaginei. Ah, os painéis ficaram ótimos!
Yanami se aproximou dos painéis na parede. Discretamente, empurrei a mesa com os doces um pouco mais para longe.
— Esse é o painel sobre o Dazai. Ele é baseado no conto e explora as relações pessoais dele e sua visão sobre a família. Na verdade, é um texto bem interessante.
— Cereja como a fruta, né? Nunca li, mas, pelo título, parece uma história fofa.
— Bem, mais ou menos. Começa com o protagonista largando a família para ir beber num bar com algumas mulheres.
— Não era nada do que eu imaginei.
— Ele fica lá comendo cerejas, se lamentando e dizendo coisas do tipo: "Eu sofro mais do que meus filhos…". É esse tipo de história.
— Por que você escolheria uma coisa dessas para uma exposição de festival escolar?
Boa pergunta.
— É uma história famosa, então existe bastante curiosidade em torno dela. Quer dizer, até o aniversário de morte do Dazai é chamado de Dia Memorial da Cereja.
— Mas você não precisava ligar justamente essa história ao aniversário de morte dele, precisava…?
As perguntas não tinham fim. Melhor ela simplesmente ler o painel. Yanami resmungou sozinha enquanto lia o texto na parede, mas acabou ficando em silêncio.
— Droga, acabei lendo isso sério.
— E qual o problema?
— Bem, quero dizer, eu não sou a tsukkomi oficial do Clube de Literatura? Ficar só absorvendo informação em silêncio vai meio que contra o meu papel, sabe?
— Tsukkomi…?
Eu poderia dizer umas dez coisas sobre isso, mas me contive.
— Ah, é mesmo, tem tatame — dizendo isso do nada, Yanami correu até os tatames e se jogou neles. — Eu adoro o cheiro de tatame. Vocês pegaram isso emprestado do Clube de Cerimônia do Chá ou do Arranjo Floral?
— É, algo assim.
Só errou por um caractere em vez do Clube de Judô. Perto o bastante.
(N/SLAG: 茶道部 (Tea), 華道部 (Flower), 柔道部 (Judo).)
Yanami se sentou e começou a fuçar na bolsa.
— Hoje à noite eu saí escondida e comprei pão. Foi um milagre. Ainda restavam dois pães com chantilly!
Enquanto eu respondia vagamente, Yanami bateu no chão ao lado dela.
— Vai, senta aqui. Eu te dou um. Vamos comer juntos.
Dizendo isso, ela me ofereceu um dos pães.
— Você vai me dar isso? Espera, quer dizer que você vai me dar comida!?
— Ah, sim? Por que você repetiu duas vezes…?
É que eu estava surpreso. Peguei o pão e me sentei ao lado dela. Era o tipo de pão que a Yanami gosta, coberto de chantilly por fora. Quando dei uma mordida na borda, a doçura penetrou no meu corpo cansado. Eu nunca tinha comido um antes, mas isso é muito bom…
— Mas agora que estou olhando de novo, isso aqui ficou meio impressionante, né~.
Yanami lambeu o creme do dedo enquanto olhava ao redor da sala.
— É. Eu não imaginava que acabaríamos com uma exposição tão boa assim.
Falei com naturalidade, mas, para dizer a verdade, eu estava um pouco emocionado. Somos um pequeno e azarão Clube de Literatura. Mesmo depois de conseguirmos permissão para usar uma sala inteira, eu estava preocupado por não sermos capazes de aproveitá-la de verdade.
Mas agora que tudo está pronto, eu sei—
— A Komari-chan vai ficar muito feliz, né?
— É. E ela também se esforçou muito.
Tive a sensação de que Yanami tinha lido meus pensamentos e, por algum motivo, isso me deixou constrangido. Uma exposição de 50 mil palavras. Quem sabe quantas pessoas realmente vão parar para ler, quanto mais ler tudo. Ainda assim, Komari colocou em oito cartolinas tudo o que era capaz de fazer naquele momento.
Depois de levar a última mordida do pão à boca, Yanami murmurou baixinho:
— Parece uma carta de amor, não parece? Da Komari-chan.
Uma sala cheia de cartas de amor enviadas para a pessoa de quem ela gosta e, ao mesmo tempo, feitas para ajudá-la a se despedir dele. Foi assim que aquilo pareceu aos olhos da Yanami.
— Talvez seja uma forma de ver.
Respondi de maneira vaga e dei mais uma mordida no pão.
— Você não vê desse jeito, Nukumizu-kun?
Yanami me olhou, surpresa. É verdade. Não há dúvida de que os sentimentos da Komari pelo presidente estão ali. Mas os dias que ela passou com os veteranos depois de entrar no Clube de Literatura… acho que significaram para ela muito mais do que conseguimos imaginar—
— Esta exposição toda, sabe… eu acho que guarda as lembranças dela, a gratidão dela e a determinação de proteger o Clube de Literatura como presidente… tudo isso, tudo mesmo.
— Entendi. Então é assim que você pensa, Nukumizu-kun.
A resposta dela veio numa voz inesperadamente suave. Aquele tom calmo afrouxou algo dentro de mim, e mais um pedaço do que eu realmente pensava acabou escapando.
— Acho que, se eu não acreditar nisso, fica meio difícil.
Ela abriu mão do sono por dias, colocando tudo de si numa carta que não podia e nem devia chegar ao destinatário. O que surgiu na minha mente foi a imagem das costas da Komari, sentada diante da escrivaninha num quarto escuro.
Yanami permaneceu em silêncio ao meu lado enquanto aqueles sentimentos que eu não conseguia pôr em palavras me apertavam por dentro.
— Acho que entendo um pouco como a Komari-chan se sente — ela murmurou baixinho. — Como você disse, eu sei que a Komari-chan valoriza muito o presidente e o Clube de Literatura.
— É, claro.
— Mas, mesmo sabendo o quanto isso significava para ela, naquela noite da viagem ela ainda se confessou, preparada para abrir mão de tudo.
Mesmo sem ter chance alguma, mesmo podendo perder tudo, ela ainda colocou todos os sentimentos em jogo.
— Talvez ela tenha aceitado, talvez até tenha dito que desistiu… mas sentimentos tão fortes assim não desaparecem de repente.
Yanami abraçou os joelhos, com o olhar perdido em algum ponto distante.
— Quando você não pode dizer "eu te amo", quando sabe que não há nada que possa fazer e mesmo assim quer colocar esses sentimentos para fora, a Komari-chan escreve. A Lemon-chan corre—
Ela não disse mais nada depois disso. A sala de aula, banhada pela luz branca fluorescente, caiu num silêncio completo. Com uma sensação silenciosa de solidão crescendo dentro de mim, olhei ao redor do recinto como Yanami havia feito.
— Quando ouvi que os veteranos iam se formar, também fiquei um pouco inquieto. Então eu entendo por que a Komari quis se esforçar tanto para mostrar tudo o que tem agora.
Coloquei o pão meio comido de volta na embalagem e o deixei sobre o tatame.
— Quando o novo ano começar, os alunos do terceiro ano podem parar de vir à escola. Faltam menos de dois meses para as coisas deixarem de ser como eram.
Mesmo que você não faça nada, a outra pessoa um dia simplesmente desaparece da sua vida. Enquanto eu permanecia calado, sem dizer isso em voz alta, Yanami inclinou a cabeça com um ar sereno.
— E daí se você deixar isso se apagar?
— Quando você está desistindo de alguma coisa, não é normal simplesmente esperar passar?
Pelo menos foi assim que sempre vivi, e eu sei que esse é o jeito mais fácil.
— É. Eu faria o mesmo. Na verdade, estou fazendo isso. Mas, sabe, a Komari-chan… ela é irremediavelmente uma garota.
— Uma garota?
— Aham. Por isso ela se obrigou a dizer em voz alta o que sentia. Mesmo que tenha sido à força, ela quis dar um fim claro para conseguir se preparar para o próximo amor.
Próximo amor. Eu não consegui acreditar no que tinha ouvido e acabei perguntando por instinto:
— A Komari se apaixonou por outro cara, por acaso?
— Quem sabe? A Komari-chan é fofa, afinal. Nukumizu-kun, se você ficar enrolando, alguém pode passar na sua frente.
Yanami se inclinou na minha direção com um brilho provocador nos olhos, como se estivesse me desafiando.
— Passar na minha frente? Não é como se eu estivesse numa corrida para conquistar a Komari.
— Hã… então foi isso que você entendeu? — Yanami soltou um suspiro dramático e deu de ombros. — Ahh, entendi. Você é assim mesmo, Nukumizu-kun. Clássico.
Eu não sei exatamente o que ela quis dizer, mas sei que com certeza fui zoado.
— Falando nisso, e você, Yanami-san? Sabe, aquele cara vestido de membro do Shinsengumi…
— O Nishikawa-kun? O que tem ele?
Ele interrompeu nossa conversa na sala mais cedo. Foi só isso, mas, de algum jeito, tive uma certa impressão.
— Acho que talvez ele, ah…
Deixei a frase morrer sem motivo aparente.
— Ele o quê?
— Hum… talvez vocês dois se deem bem?
— Hum, quem sabe. Nós começamos a conversar um pouco mais ultimamente. E daí?
Yanami respondeu enquanto mastigava pão de novo. Espera aí. Ela não tinha terminado de comer antes?
— Ei, esse é o meu pão…
Ignorando meu protesto fraco, Yanami de repente se iluminou, como se algo tivesse encaixado na cabeça dela.
— Hum? Hm hm hmm?
— O-O quê…?
Com um sorriso malicioso, Yanami se inclinou para perto para olhar meu rosto.
— Espera um pouco… você está com ciúmes do Nishikawa-kun? Sério?
Quê!? Que absurdo é esse que essa garota está dizendo?
— Não é isso—
Yanami balançou de um lado para o outro com um sorriso travesso.
— Entendi, entendi~. Então aquele papo de me mandar arranjar um namorado era só disfarce porque você estava com vergonha, né? Ninguém diz "vai arranjar um namorado" a não ser que esteja tentando esconder alguma coisa~.
Ela ainda está guardando rancor do que eu disse no primeiro dia de aula?
— Se eu arranjasse um namorado, você ficaria sozinho? Ahh, Nukumizu-kun, isso é meio fofo.
— Já falei que não é isso. Eu só estava um pouco curioso.
— Tudo bem, tudo bem. Se eu me apaixonar por alguém, vou apresentá-lo direitinho a você. E nada de você sair na frente escondido também, tá?
— N-Não… não é… não é isso…
Enquanto eu enterrava o rosto nas mãos, Yanami continuava comendo pão alegremente, cantarolando. Então notei a estranha quietude ao nosso redor.

Já passava das 20h. A escola tinha ficado silenciosa. Dava para sentir a ausência de pessoas.
Levantei a cabeça devagar.
— Ei, fala mais baixo.
— Hã? Por quê?
Levei um dedo aos lábios e então me inclinei para perto de Yanami.
— Yanami-san—
— Eh? E-Espera, pera aí…!
Soltando uma vozinha aguda, Yanami se afastou apressada.
— Eu disse para parar de falar alto.
— Nukumizu-kun, ainda é cedo demais para a magia do festival escolar! Amanhã! Vamos conversar de novo amanhã, tá!?
Do que é que ela está falando afinal?
— Não, quero dizer que a Konuki-sensei está filmando a gente, então, por favor, não fala nenhuma coisa estranha.
— Hã?
Yanami se virou devagar e viu Konuki-sensei apontando uma câmera para nós pela janela do corredor. Quando percebeu que tinha sido notada, ela acenou para nós com um sorriso.
— Não liguem para mim. Finjam que eu sou uma mancha no teto. Continuem, continuem.
— Não tem nada para continuar. Se você está aí, pelo menos fala alguma coisa.
Levantei, batendo de leve no blazer para tirar o pó.
— Eu não queria interromper, sabe? Mas, se já terminaram, vou fechar o portão da frente agora.
— A gente nem estava fazendo nada, para começo de conversa. Enfim, Yanami-san, vamos para casa.
Ainda sentada no tatame, Yanami ergueu o olhar para mim com uma expressão atordoada.
— Eh?
— Vamos, vão fechar o portão. Você consegue levantar?
Ela assentiu sem dizer nada e se pôs de pé lentamente. Mesmo no caminho até a entrada, seguindo atrás da professora, Yanami ficou estranhamente quieta.
— Você parece meio fora do ar. Está bem?
— E-Estou… acho que sim.
— A propósito, Yanami-san, por que você entrou em pânico lá atrás?
— Hã!? A culpa é sua, Nukumizu-kun!
— Ai!?
Yanami me deu uma cotovelada forte na lateral e saiu andando a passos pesados. Sério? Por que ela ficou tão brava? Nem é como se heroínas violentas ainda estivessem na moda hoje em dia.
— Ara, ara, vocês dois são mesmo um par bem intenso. É assim que vocês costumam entrar no clima?
Eu não entendi muito bem o que ela quis dizer, mas há coisas neste mundo que é melhor deixar mal compreendidas. Ignorei Konuki-sensei, apressei o passo e fui atrás das costas de Yanami, que continuavam tão impossíveis de decifrar como sempre.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui
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