Volume 3
Capítulo 1: Yumeko Shikiya Vai Cuidar de Você
MEADOS DE OUTUBRO, depois da aula. Eu estava parado na entrada do refeitório do pátio, esperando o momento certo. Enquanto observava as costas de um empreiteiro removendo a fita crepe, tirei um pedaço de papel do bolso.
A edição de outono de Faint Echoes do Colégio Tsuwabuki. É o jornal da escola, produzido pelo Clube de Jornalismo. Mas eu não estava ali pelos resultados das competições entre clubes nem pela prévia do festival cultural. O que me interessava estava escondido em um canto da página "Avisos da Administração".
— Devido a reformas, o lavatório do refeitório ficará fora de serviço até a tarde do dia 14 de outubro.
…Exatamente. A pia na entrada do refeitório estava passando por uma reforma completa por causa do desgaste da infraestrutura. E hoje, finalmente, a obra está sendo concluída.
Assim que os empreiteiros terminaram e foram embora, enfiei o jornal no bolso do meu blazer.
— Certo, vamos ver do que essa nova torneira é capaz.
No momento em que eu estava prestes a dar um passo à frente, ouvi o som de alguém correndo atrás de mim. Eu conheço bem aquele ritmo leve e desajeitado.
Virei-me — e, como esperado, era Chika Komari.
Uma colega do primeiro ano e membro do Clube de Literatura, alguém por quem passei a ter respeito devido ao seu conhecimento sobre os sistemas de encanamento da escola.
Komari se curvou, com as mãos nos joelhos, ofegante, enquanto erguia o olhar para mim.
— A-Aí está v-você, N-Nukumizu.
— É, você também sentiu o cheiro, né?
Não posso culpá-la por isso.
Numa escola grande como esta, a água geralmente é fornecida por caixas d’água no telhado. Mas desta vez, optaram por um sistema de abastecimento direto, conectado à rede principal. Não havia como Komari perder a chance de testar o desempenho da água encanada recém-atualizada do Colégio Tsuwabuki.
— Tem mais de uma torneira. Certo, vamos testar juntos—
— E-Esquece a água. V-Vem comigo.
Komari agarrou a manga do meu blazer e começou a me puxar em direção ao prédio da escola.
— Ei, espera. Você não tinha vindo aqui pra experimentar a água também?
— E-Eu já bebi um p-pouco escondida no i-intervalo.
Isso é trapaça.
— V-Vamos logo, estamos i-indo pra s-sala do c-clube.
— Tá bom, só para de puxar a minha roupa.
Francamente, se eu resistir, ela vai amassar o tecido. Suspirei e me deixei ser arrastado pela Komari—
*
Prédio oeste, em frente à sala do Clube de Literatura. Ao segurar a maçaneta da porta, um pressentimento sinistro passou pela minha mente.
— Ei, Komari. O que exatamente tem dentro da sala do clube?
No momento em que comecei a perguntar, Komari me empurrou por trás.
— A-Abre logo a p-porta.
— Tá, tá, para de me empurrar.
Não havia mais motivo para discutir. Cedi e abri a porta da sala do clube. Por algum motivo, estava estranhamente escuro lá dentro. À medida que meus olhos se acostumavam com a escuridão, percebi a silhueta de uma garota de cabelos longos sentada em uma das cadeiras.
— Quem é? Espera, é a Yanami-san?
— Você é… o garoto do Clube de Literatura…
— Eek!?
Quem se levantou lentamente foi uma garota usando uniforme de enfermeira. Era a Shikiya-san, a "gal zumbi" do conselho estudantil. Saí disparado da sala do clube por instinto, batendo a porta atrás de mim.
…Por que ela está aí dentro? E, mais importante, que caralhos é aquela roupa?
Enquanto me apoiava na porta, tentando recuperar o fôlego, uma forte batida ecoou do outro lado. Droga, a enfermeira zumbi Shikiya-senpai está tentando sair. Ouvi a maçaneta tremer violentamente.
— A-Abre! E-Eu ainda tô a-aqui!
…Esqueci da Komari. Afastei-me da porta, e Komari saiu cambaleando da sala.
— V-Você! V-Você me deixou lá d-dentro!
— Não deixei. Eu só… esqueci.
Totalmente diferente de abandoná-la. Mundos de diferença, na verdade. Em outras palavras, eu não sou o vilão aqui. Enquanto tentava acalmar a Komari indignada, um arrepio frio percorreu minha espinha. Dois braços finos se enroscaram de repente em nossos pescoços por trás.
Shikiya-san nos pegou em um golpe duplo. Suas lentes de contato de cor pálida pairavam bem diante do meu rosto.
— Vocês dois… por que estão fugindo…?
— Ah, porque…
Você é meio assustadora? Ainda tremendo, Komari agarrou minha gravata com as duas mãos.
— Komari, para de puxar minha gravata. E senpai, suas mãos estão frias, então poderia soltar por um—hã, o que houve?
— Minha força… acabou…
Shikiya-san, ainda segurando a gola de nós dois, desabou no chão lentamente.
— Espera, sério? Komari, segura ela! Rápido!
— E-Eu não quero… Nukumizu, v-você segura.
Segurar? Quer dizer, o corpo de uma garota? Eu?
O corpo de Shikiya-san estava prestes a cair completamente no chão. Não havia tempo para hesitar. Preparei-me e envolvi o corpo frio de Shikiya-san com meus braços.
*
— Certo, por favor, sente-se direito agora. Vou preparar um chá.
Finalmente consegui colocar Shikiya-san sentada em uma cadeira. Enquanto preparava o chá, relembrei a sensação de segurá-la.
…Ela era meio macia. Havia uma espécie de textura frouxa, como um filé de peixe, mas acho que é assim que o corpo de uma mulher adulta se sente. Definitivamente diferente do da Kaju…
(N/SLAG: Mano????????? QUE PORRA É ESSA)
Afastei esse pensamento e olhei ao redor. Komari estava no canto da sala do clube, pálida, mexendo no celular. A cena de sempre. Aliviado, coloquei as xícaras de chá fumegantes sobre a mesa.
— Senpai, o que a trouxe aqui hoje?
Dizendo isso, sentei-me em frente à Shikiya-san. Tentei manter a calma, mas a roupa dela continuava me incomodando. Um traje de enfermeira com minissaia e um decote desnecessariamente profundo. Fiz um esforço consciente para não olhar quando Shikiya-san tirou uma folha de papel de dentro do decote.
— Festival Tsuwabuki… reserva de sala de aula… formulário de inscrição…
O Festival Tsuwabuki. É basicamente o festival da nossa escola. Normalmente, o festival cultural e o dia esportivo acontecem em sequência, mas este ano, por questões de agenda, apenas o festival cultural será realizado no fim do mês.
O Clube de Literatura também planeja fazer uma exposição liderada pelos alunos do primeiro ano, mas o tema ainda não foi definido.
Mesmo com o evento a apenas meio mês de distância, tudo o que decidimos até agora foi que faríamos uma revista do clube e "algum tipo de exibição relacionada ao clube". Komari reescreveu este formulário de inscrição várias vezes e mal conseguiu enviá-lo antes do prazo.
— Houve algum problema com ele?
— Os detalhes da exposição… e… o mapa do layout… estão faltando…
Nesse momento, Shikiya-san virou a cabeça de repente em direção à Komari. Komari se encolheu.

— Eu tentei… ensinar ela… a preencher… mas aquela garota ali… fugiu.
Não posso culpá-la por querer escapar.
— Tem… muitos candidatos… se não fizer direito… não vai ser aprovado…
— Então você veio até aqui só por isso? Ah, eram os detalhes e o mapa de layout, certo?
Estendi a mão para pegar o formulário, mas parei no meio do caminho. Pensando bem, esse papel estava guardado no decote da Shikiya-san. Será que é mesmo uma boa ideia tocar nele com as mãos nuas…?
— Komari, pega você. Anda, vem aqui.
— Ueh? U-Um…
Komari encolheu ainda mais seu pequeno corpo. Fiz um gesto para que ela se aproximasse com um sorriso.
— Tudo bem. A Shikiya-senpai é uma boa pessoa. Ela não morde.
— E-Ela não é a-assustadora?
— Não, ela é gentil. Tipo, do tipo que pegaria um gatinho de rua sem pensar duas vezes.
— G-Gatinho?
Komari começou a se aproximar lentamente. Certo, isso está indo bem. Foi então que Shikiya-san murmurou baixinho:
— Eu… prefiro cachorros…
Komari recuou novamente para o canto da sala. Voltamos à estaca zero. Olhei para o teto, tentando pensar no que fazer em seguida.
*
Começou o seminário de "Como Preencher um Formulário". Shikiya-san começou a marcar correções no formulário com um lápis vermelho. Komari ficou de pé, espiando por cima do meu ombro.
— E-Então, hum, eu devo colocar n-números dentro do diagrama. E o f-fluxo de m-movimento, eu t-tenho que desenhar também?
— Sim… a avaliação… a forma como você escreve… é importante…
Komari apoiou as duas mãos no meu ombro direito e se inclinou ainda mais.
— N-Nukumizu. N-Não se mexe. Eu não c-consigo ver.
— Então, para de se apoiar em mim. Você não é pesada, mas ainda assim é meio pesada.
Mesmo resmungando para mim, Komari estava ouvindo atentamente a explicação da Shikiya-senpai e, sinceramente, isso me deixou um pouco emocionado. Chegar até aqui tinha dado muito trabalho. Vinte minutos convencendo uma Komari apavorada com doces e vídeos no celular. Só então ela finalmente saiu do canto.
— E-E tem mais alguma coisa que p-precisamos corrigir?
— A explicação… tem muitos espaços em branco… passa uma má impressão… preencha… tudo.
Depois de finalmente desenhar uma pequena ilustração de cemitério no espaço vazio, Shikiya-san guardou o lápis vermelho de volta no decote.
— Assim… deve estar bom… entregue… até a hora do almoço… depois do fim de semana…
Ainda com a mesma expressão inalterada de sempre, Shikiya-san tomou um gole do chá, agora completamente frio. Komari pegou o formulário corrigido e ficou encarando-o como se quisesse fazer um buraco com o olhar.
Tomei um gole de chá enquanto observava Shikiya-san com cuidado.
— Por que você está se esforçando tanto pelo Clube de Literatura? Eu achei que o conselho estudantil estava…
Tentando nos encerrar. Parecia que ela não tinha entendido a pergunta, pois inclinou a cabeça levemente.
— Porque… a Tsukinoki-senpai… gosta… de vocês… eu acho?
Koto Tsukinoki. Aluna do terceiro ano e vice-presidente do Clube de Literatura. Certo, ela costumava fazer parte do conselho estudantil. Parece que ela e a Shikiya-san se conhecem, mas que tipo de relação elas têm…? Balancei levemente a cabeça. Não é bom bisbilhotar só por curiosidade. Não é bom, mas—
— Então, o que é essa roupa, senpai?
Eu não conseguia ignorar completamente o traje de enfermeira.
— Teste de fantasia… para o Festival Tsuwabuki… queremos ser… um conselho estudantil… mais acessível…
Dizendo isso, ela se levantou num único movimento suave. Pelo visto, Komari ainda achava a Shikiya-san em movimento assustadora, pois se escondeu atrás de mim novamente. Depois que Shikiya-san saiu da sala, Komari finalmente relaxou e se sentou em uma cadeira.
— E-Então, eu v-vou pra casa e r-reescrever. E-Eu realmente preciso d-dar o meu m-melhor nesse F-Festival Tsuwabuki—eek!?
Sua expressão congelou no meio da frase. Seguindo seu olhar, vi um par de olhos pálidos espiando pela porta entreaberta.
— Ué, o que foi, senpai?
— Eu esqueci… sem um professor orientador… vocês não podem participar…
Orientador? Antes que eu pudesse perguntar, a porta se fechou novamente. Parece que desta vez ela realmente foi embora.
— Ah… ei, Komari, nós não temos um professor orientador? Ei, Komari?
Komari continuou paralisada, ainda encarando a porta, e levou mais dez minutos para que ela voltasse ao normal.
*
Não muito tempo depois da visita surpresa da Shikiya-san… Eu estava sentado em um banco no pátio onde haviam me chamado, olhando distraidamente para o céu ao entardecer. O Festival Tsuwabuki deste ano será no dia 31 de outubro. Bem no Halloween. Por causa disso, muitas turmas estão planejando eventos temáticos de Halloween. Segundo a Shikiya-san, até mesmo o conselho estudantil vai usar fantasias para combinar com a ocasião.
…Uma rajada repentina de vento me fez estremecer. Em meados de outubro, as noites ficam bem frias. Antes que eu percebesse, o verão havia sido completamente substituído pelo outono, e o céu escurecendo rapidamente acima de mim trouxe uma leve sensação de solidão.
Foi então que me ofereceram uma lata de café.
— Nukumizu, você sempre prefere o levemente adocicado, né? Pode ser quente?
— Ah, sim. Muito obrigado.
Quem se sentou ao meu lado foi Shintaro Tamaki, aluno do terceiro ano e presidente do Clube de Literatura. O café enlatado que recebi estava um pouco quente demais, e eu o passei suavemente de uma mão para a outra.
— Desculpa por te chamar tão de repente. Você provavelmente tinha algo para fazer, não é?
— Não, já terminei tudo. A Shikiya-senpai do conselho estudantil apareceu na sala do clube mais cedo.
— Ahh, ela. Ainda bem que não passei por lá então…
Murmurando em tom compreensivo, o presidente abriu sua lata de café preto. Ver o normalmente tranquilo presidente com essa expressão incomumente preocupada despertou minha curiosidade.
— Aconteceu alguma coisa entre você e a Shikiya-senpai?
— Bem, mais ou menos. Enfim, desculpa por jogar os preparativos do Festival Tsuwabuki para vocês.
— Sem problema. Se for comparar, a Komari está muito mais animada do que eu.
Isso mesmo. Komari tem estado estranhamente entusiasmada com a exposição do Clube de Literatura neste Festival Tsuwabuki. E ainda assim, não decidimos um tema, e nos últimos dias ela tem ficado murmurando sozinha com uma intensidade um pouco inquietante.
— É, a Komari-chan está realmente dando o melhor de si… Então, sobre o que eu queria falar com você—
O presidente fez uma pausa, tomando um gole do café.
— Você sabe que os alunos do terceiro ano se aposentam das atividades de clube no fim de outubro, certo?
— Sim, mais ou menos.
Eu já tinha ouvido isso. O Colégio Tsuwabuki é uma escola preparatória para a faculdade, e faz sentido que eles se afastem para focar nos exames de admissão. Se for pensar bem, até que se aposentam tarde.
— O Clube de Literatura não é tão rígido com isso, mas ainda precisamos traçar uma linha em algum momento. Tanto a Koto quanto eu estamos entrando na temporada de exames, então estou planejando deixar o cargo depois do Festival Tsuwabuki.
Quando o presidente nos disse, no início do segundo semestre, que os alunos do primeiro ano liderariam os preparativos do Festival Tsuwabuki, eu já havia me preparado mentalmente.
Faz apenas seis meses desde que comecei o ensino médio. Mas, para os alunos do terceiro ano, a vida no colégio já está chegando ao fim.
O presidente continuou, em tom sério.
— Naturalmente, também vamos escolher um novo presidente do clube. Na verdade, era sobre isso que eu queria falar com você.
…Entendo, então era disso que se tratava essa conversa. Endireitei minha postura. Ser presidente realmente não faz meu estilo. Nem um pouco. Mas, se ele insiste—
— Estou planejando pedir à Komari-chan para ser a próxima presidente.
— Hã?
Levantei-me pela metade, e o presidente me lançou um olhar confuso.
— O que foi?
— Ah, não, acho que é uma boa ideia.
De certa forma, é uma escolha óbvia. A Komari é a mais experiente entre os alunos do primeiro ano e tem um forte apego ao clube. Se há um problema, é o fato de que se trata da Komari.
— Então eu gostaria que você, Nukumizu, a apoiasse como vice-presidente. Você aceita o cargo?
— Não me importo. Mas, já que é entre garotas, alguém como a Yanami-san não seria mais adequado?
O presidente pareceu dividido.
— Eu considerei isso. Mas se aquela garota arrumar um namorado ou algo assim, não vai virar membro fantasma?
— É, sem dúvida.
Nesse aspecto, a Komari e eu estamos seguros. Que sensação de estabilidade confiável.
— Estou preocupado com a Komari-chan depois que nos formarmos. Quero que ela ganhe confiança se tornando presidente enquanto ainda estamos por aqui para apoiá-la.
Faz sentido. A Komari vira presidente, e nós a ajudamos. Começando pelo Festival Tsuwabuki, ela acumula experiência até que os alunos do terceiro ano se formem.
— Você já contou à Komari sobre essa futura presidência?
— Sim, perguntei a ela na semana passada. Ontem à noite, ela me deu a resposta e disse que aceitaria, mas…
Ao ver a expressão incerta do presidente, não pude deixar de sorrir.
— Você está realmente preocupado com a Komari, hein?
— Sim! Muito preocupado!
— Eek!
Uma voz feminina caiu sobre nós vinda de trás do banco. A Tsukinoki-senpai apareceu de repente atrás de nós e agarrou meus ombros, me sacudindo com toda a força.
— Ei, o que foi isso?
— Porque estou morta de preocupação em deixar a Komari-chan para trás depois da formatura! Talvez eu devesse ficar mais um ano na escola!
— Koto, isso nem é mais piada, tá?
O tom do presidente era mortalmente sério. Deve ser difícil para ele. A Tsukinoki-senpai ignorou o comentário e se sentou do outro lado do banco, comigo no meio.
— Eu também sou a favor de deixar a Komari-chan ser a próxima presidente. Mas, do jeito que ela está agora, ainda é um pouco preocupante. Espero que o Festival Tsuwabuki a ajude a ganhar confiança.
Dar confiança à Komari. Então foi por isso que os alunos do primeiro ano ficaram responsáveis pelos preparativos. Consigo entender perfeitamente a preocupação com a Komari, que nem consegue conversar direito com pessoas de fora do clube.
— Nukumizu-kun. Nós vamos ficar nos bastidores neste Festival Tsuwabuki, então conto com você para cuidar da Komari-chan. Seja gentil com ela, ok?
— Ah, claro, dentro do possível.
— Ela gosta mais de pudim do que de sorvete. Não pode beber café, então cuidado com isso. E a parte verde da cebolinha, ela não gosta, então pique bem pequeno para ela, ok?
— Cebolinha… vou lembrar disso se algum dia eu fizer sopa de missô com porco.
Não que eu saiba quando isso vai acontecer. A Tsukinoki-senpai entrelaçou os dedos e olhou para o céu, com lágrimas se formando em seus olhos.
— Shintaro. Talvez eu não devesse me aposentar do clube afinal. Se eu me esforçar mais, acho que consigo conciliar com os estudos para os exames.
— Você nem começou a estudar ainda, quanto mais conciliar…
Isso é ruim. Se continuar assim, o estômago do presidente pode acabar explodindo. Decidi mudar de assunto à força.
— Por enquanto, vamos nos concentrar em garantir que o festival corra bem.
— Certo. Na semana seguinte ao festival, acontecerá a primeira reunião de presidentes de clube sob a nova gestão. Também teremos que relatar nossas atividades do primeiro semestre, então posso contar com você para ajudá-la?
— Entendido. Desde que seja algo que eu consiga fazer.
A reunião dos presidentes de clube. Ela acontece uma vez por mês com representantes de todos os clubes. Só de imaginar a Komari sentada ali no meio de alunos do segundo ano já me deixava nervoso.
— Então deixo isso com você. Claro, se acontecer alguma coisa, não hesite em me contatar.
— Ah, espera um segundo.
Detive o presidente quando ele tentou se levantar.
— O Clube de Literatura não tem um orientador, certo? Ouvi dizer que, sem um, não poderemos participar do festival.
— Ah, sobre isso. Sim, houve um pequeno drama há algum tempo.
…Então não é só a Shikiya-san. Algo também aconteceu com o orientador? A Tsukinoki-senpai trocou um olhar com o presidente antes de falar.
— Vamos deixar o passado no passado. A partir de agora, serão os alunos do primeiro ano que continuarão aqui, então que tal pedir a algum professor com quem você tenha proximidade para se tornar o orientador?
— Um professor com quem eu tenha proximidade.
Nem mesmo o meu professor responsável lembra do meu rosto. Não tenho alguém assim. Ainda assim, pedir para um professor com quem nunca nem falei para se tornar nosso orientador seria meio estranho…
— Sim. Vou pensar nisso.
Dei essa resposta e bebi o resto do meu café enlatado já frio. Por enquanto, decidi deixar essa questão de lado.
*
Naquela noite, eu estava sentado à mesa do meu quarto. Desde que o segundo semestre começou, os professores do Colégio Tsuwabuki parecem ter acelerado o ritmo. A quantidade de dever de casa vem aumentando constantemente.
Enquanto resolvia meu caderno de exercícios de inglês depois de terminar uma tarefa de Matemática I, minha mente voltou à conversa que tive com o presidente e a Tsukinoki-senpai.
Komari como a próxima presidente. Sem dúvida, o Clube de Literatura significa muito para ela. Se ela está determinada a dar o seu melhor, então eu também preciso fazer o que puder para apoiá-la—
Meus pensamentos foram interrompidos quando minha irmã mais nova, Kaju, arqueou as costas e olhou para mim do meu colo.
— A propósito, onii-sama, como têm estado as coisas ultimamente?
— Ultimamente?
Não faço ideia de por que minha irmã está sentada no meu colo, nem por que está lendo um livro ali. Duvido que nem a própria Kaju saiba.
— Vejamos. As pias do refeitório foram reformadas, e o encanamento foi trocado.
— As pias, é?
Kaju fez uma expressão um tanto delicada.
— Sim. Então eu fui verificar como o sabor da água mudou.
— E como estava?
— Tinha gosto de água de torneira.
Percebendo a reação morna da Kaju, acrescentei uma explicação.
— Ainda assim, isso não quer dizer que foi uma viagem perdida. A água da torneira do Colégio Tsuwabuki vem de uma fonte diferente da nossa em casa. O sabor também depende da chuva. Em breve, vou começar a notar diferenças mais sutis no sabor.
— Entendo. Parece maravilhoso. Enfim, mudando de assunto—
Kaju mudou de posição para sentar-se de lado e olhou para mim com uma expressão séria.
— A Yanami-san, aquela que veio durante as férias de verão. Como ela tem estado ultimamente?
…Anna Yanami. Depois de ter sido rejeitada por seu amigo de infância, Sosuke Hakamada, ela acabou entrando naturalmente no Clube de Literatura. Mesmo tendo sido rejeitada, era alegre em sala de aula, sempre rindo e saindo com os amigos. Ultimamente, ela até vinha conversando mais com Hakamada e com a heroína reinante, Karen Himemiya.
— Como assim… eu vivo dizendo para ela arrumar um namorado ou algo assim, mas não há sinal disso acontecer. Ela ainda aparece no Clube de Literatura de vez em quando. Praticamente a mesma de sempre.
A Yanami vai ao Clube de Literatura talvez uma ou duas vezes por semana. Na maioria das vezes, ela só está matando tempo com um combo de reclamações, lanches e dever de casa.
— Você disse para ela arrumar um namorado…? Onii-sama, isso não é nada bom.
Kaju, sem nem tentar esconder sua exasperação, beliscou o lóbulo da minha orelha.
— Onii-sama, Kaju está muito preocupada com o seu progresso com a Yanami-san. De acordo com a avaliação da Kaju, já está na hora de ela começar a ficar um pouco obcecada pelo seu charme.
Não posso negar que a Yanami já é um pouco maluca.
— Já disse várias vezes, mas não há nada acontecendo entre mim e a Yanami-san. Enfim, talvez esteja na hora de você sair do meu colo?
— Por quê?
Kaju parecia genuinamente confusa.
— Deve ser difícil ler sentada assim.
— De forma alguma. Na verdade, é bem relaxante. Onii-sama, aliás, você escreveu errado a palavra "immoral" aqui.
Espera, escrevi?
Enquanto eu reescrevia a palavra, Kaju me entregou meu smartphone.
— Ah, e a Yanami-san te enviou uma mensagem no LINE mais cedo. Parece ser um convite para o almoço.
— Um convite?
Mas não havia nenhuma notificação na tela. Quando abri o aplicativo, encontrei uma mensagem desconhecida no histórico de conversa com a Yanami.
Yanami: Escada de emergência durante o almoço amanhã.
…Soltei um longo suspiro e virei o celular de barriga para baixo. Esta é a terceira vez neste semestre que a Yanami me convoca. Claro, não é nenhum encontro romântico secreto entre um garoto e uma garota. É só a Yanami me chamando sempre que dá vontade de despejar as frustrações dela.
É um saco e, se eu tivesse uma desculpa decente para faltar—
— Hm? Por que não apareceu como "lido" agora?
— Porque a Kaju viu primeiro.
Certo, se a Kaju abriu antes de mim, a mensagem teria sido marcada como lida. Faz sentido.
— Kaju, por que você está lendo minhas mensagens sem a minha permissão?
— Porque, onii-sama, você sempre é tão frio com a Yanami-san. Como sua irmãzinha, é dever da Kaju administrar o seu progresso.
Administrar meu progresso…? Com um mau pressentimento, olhei de novo para o celular. Uma resposta já tinha sido enviada para a Yanami.
Nukumizu: Com prazer. Estou ansioso.
Não pude evitar de segurar a cabeça. Não, antes de me preocupar com o deprimente almoço de amanhã, eu preciso dizer uma coisa para a Kaju como irmão mais velho.
— Kaju, escuta. Você não deve mexer no celular dos outros sem permissão.
— M-Mas, onii-sama, o seu relacionamento com a Yanami-san—
— Sem "mas". Você não gostaria que eu fuçasse o seu celular sem pedir, gostaria?
— A Kaju não se importa nem um pouco, tá? Na verdade, pode fuçar à vontade. A senha é o seu aniversário, onii-sama, e o armazenamento na nuvem já está sincronizado com o seu, então é super conveniente.
Pera. Calma aí. O que ela fez? Se o nosso armazenamento está sincronizado, isso quer dizer…
— Kaju, até onde você viu? Você não mexeu na pasta "Materiais da Aula", né?
Um suor frio começou a escorrer pela minha testa. Kaju enxugou com um lenço e ergueu o rosto para mim com um sorriso radiante.
— Parece que o progresso está indo muito bem.
(Shisuii: São dessas malucas que é boa pra ter na vida.)
*
No dia seguinte, na hora do almoço, eu já estava sentado na escada de emergência antes do horário combinado. Enquanto a brisa de outono passava, abri minha marmita. Normalmente, eu só como pão no almoço, mas hoje a Kaju insistiu em preparar uma refeição para mim.
Lá dentro havia onigiris de três cores, ovos de codorna empanados ao estilo scotch egg, kinpira de raiz de lótus com edamame e brócolis com milho ao molho de mostarda. E, de sobremesa: gelatina caseira, congelada e usada no lugar de bolsa de gelo para ficar no ponto perfeito até a hora do almoço.
Certo… por onde eu começo? Enquanto eu pensava, ouvi uma voz familiar vindo de cima.
— Uau, que almoço bonito. Foi você que fez, Nukumizu-kun? — Yanami desceu as escadas e se sentou um degrau acima de mim.
— Quem fez foi minha irmã mais nova. Eu não sou tão bom cozinhando.
— Sua irmã cozinha muito bem. Fico curiosa pra saber como é o sabor de tudo…
Os olhos dela estavam fixos na minha marmita com intensidade demais, mas eu decidi ignorar. Yanami abriu a própria marmita e levantou, exibindo um pote cheio de macarrão branco.
— Olha, eu fiz somen champuru. Ficou bem bom, na verdade.
Yanami espetou os hashis no almoço sem cerimônia. Levantou um emaranhado de champuru, hesitou um instante e deu uma mordida enorme. Vendo ela comer com tanta vontade, decidi entrar no assunto principal.
— Enfim, Yanami-san, o que aconteceu hoje?
— Precisa acontecer alguma coisa? Eu não posso só comer e conversar um pouco?
Ela resmungou com a boca cheia de champuru. Ainda assim, provavelmente é sobre o Hakamada e a Himemiya-san. Talvez tenha percebido meu silêncio; a expressão da Yanami azedou um pouco.
— Nukumizu-kun, só pra constar, dessa vez não é sobre rancor pessoal. Eu estou falando como amiga… não, como representante da humanidade.
Se ela é a representante da humanidade, então a Yanami é minha porta-voz. Que deprimente.
— Então, do que a humanidade veio reclamar?
— Sabe o projeto da nossa turma pro Festival Tsuwabuki? As preparações começaram esses dias, né?
— Sim. Era o tal de "Halloween de Rua", não era?
Apesar do nome soar como "ataque na rua", não é nada perigoso. Os alunos fantasiados andam pelo campus fazendo esquetes, distribuindo doces para as crianças e, no geral, entretendo o público. Falando nisso—
— Você não disse que ontem teve prova de figurino?
Esse "Halloween de Rua" só usa os alunos mais bonitos da turma para os papéis com fantasia. Naturalmente, isso inclui Yanami, Yakishio, Sosuke Hakamada e Karen Himemiya.
— Sim, a gente tirou as medidas na enfermaria.
— Na enfermaria?
— Sabe aquelas cortinas em volta das camas? A gente mediu lá dentro. O pessoal do figurino estava ajudando.
Yanami começou a desfazer meio grosseiramente um bolo de champuru com os hashis.
— Vamos deixar de lado a parte em que tiveram que ajustar a roupa porque nada "pronto" servia no peito da Karen-chan.
— Nada pronto serve nela…?
Sinceramente, essa era a parte que eu queria ouvir mais.
— Então, o Sosuke tirou as medidas primeiro. E, nessa hora, a Karen-chan ficou conversando com ele lá dentro, atrás da cortina.
Ela estava presente enquanto tiravam as medidas dele? Isso já é quase dois strikes.
— Mas o pessoal do figurino também estava lá, né? Não é como se garotos não trocassem de roupa em qualquer lugar… E depois disso, começaram a medir a Karen-chan.
— Espera. Não me diga.
Yanami assentiu, sombria.
— A Karen-chan simplesmente começou a se despir como se não fosse nada. A garota do figurino percebeu e conseguiu tirar o Sosuke de lá, mas aí ele disse isso.
Tlec. O som dos hashis batendo na borda da marmita.
— Desculpa. Força do hábito…
…Um silêncio pesado caiu sobre a escada de emergência, preenchido apenas pelos gritos distantes dos garotos brincando no campo.
Depois de um tempo, empurrei minha marmita na direção da Yanami com cuidado.
— Yanami-san, quer um pouco? Pode pegar.
— Sério? Qualquer coisa?
— Sim, sem cerimônia. Aqui. O ovo empanado é uma obra-prima, se eu puder dizer.
Yanami estendeu a mão.
— Então eu vou pegar este aqui.
— Não esperava que alguém fosse escolher um onigiri numa hora dessas.
— Você disse que eu podia pegar qualquer coisa.
Yanami me lançou um olhar de lado, emburrada, enquanto mordia o onigiri. Certo. Eu disse mesmo. Essa foi minha. Vou refletir.
— Enfim… você tem alguma ideia para o evento do Clube de Literatura?
— Ano passado, o clube fez uma exposição de pesquisa no corredor, né? Algo sobre tendências num campo específico de subcultura da era Showa até a Heisei? Era sobre o quê mesmo?
Enquanto falava, os hashis da Yanami se esticaram na direção do meu ovo empanado. Ué? Eu achei que a oferta de comida já tinha expirado…
— Foi… um estudo de um gênero bem específico de obras criativas sobre afeição romântica entre pessoas do mesmo sexo, eu acho.
Como era um projeto da Tsukinoki-senpai, o tema era exatamente o que você imaginaria. Deu problema e tiraram a exposição no mesmo dia.
— Hm. Então este ano vai ser outra apresentação de pesquisa?
Os olhos da Yanami estavam travados num segundo onigiri. No instante em que eu assenti, resignado, ele desapareceu.
— Mas a Komari diz que, já que vamos fazer, ela quer que as pessoas venham de verdade. Ela quer que o evento do Clube de Literatura seja um sucesso de verdade. Ela até enviou um pedido de reserva de sala.
— Hm… a Komari-chan é bem "menina", né.
— Menina?
Yanami ficou batucando os hashis, ritmicamente.
— Porque os terceiranistas vão se aposentar depois disso, né? Mesmo que os sentimentos dela não cheguem até a pessoa, ela só quer se despedir direito de quem ela gosta… A Komari-chan é tão sincera. Uma donzela de verdade.
— É assim mesmo?
— É exatamente assim, Nukumizu-kun. Eu estou torcendo muito por ela.
Dizendo isso, ela mordeu o onigiri de wakame.
— E, ei, a Komari-chan vai ser a próxima presidente, né?
— Ah, então você já sabe.
Agarrei o último onigiri antes que ele fosse sequestrado também.
— A Tsukinoki-senpai me mandou mensagem, pediu pra eu ficar de olho na Komari-chan. Então eu também tenho pensado bastante nisso. Quer ouvir?
Uma ideia da Yanami, é? Eu até consigo imaginar, mas vou ouvir — vai que.
— Comida. É assim que você atrai gente. Eu pensei por todos os ângulos e cheguei a essa conclusão.
Ela falou com uma cara séria, com um grão de arroz grudado na bochecha.
— Certo, comida atrai mesmo, mas isso não tem nada a ver com o Clube de Literatura. E a gente nem tem gente suficiente.
— Então amarra o tema da exposição com comida. Faz algo literário, mas com base em comida.
— Então ainda fica dentro das atividades do clube, né?
Yanami assentiu enquanto lambia os dedos sem a menor cerimônia.
— Você não pode só expor o que quiser e esperar que as pessoas se importem. Primeiro, precisa de uma isca. Só depois disso elas vão ter vontade de olhar o conteúdo.
…Yanami, o que aconteceu com você? O nível de açúcar no sangue dela é ligado diretamente ao QI, por acaso?
— Se eu chamar minhas amigas, dá pra juntar uma galera boa. Mas não é isso que a Komari-chan quer, né?
Verdade. O objetivo é fazer a exposição do Clube de Literatura dar certo. Só encher o lugar com as amigas da Yanami não significaria nada.
— Ainda assim, um tema ligado a comida pode ir para vários lados.
— Então vamos chamar a Komari-chan também e fazer uma pesquisa pra ter ideias. Você está livre depois da aula, né?
— Eu não estou sempre livre, sabia. Tipo, ah…
— Tipo o quê?
— Tipo quando é dia de lançamento de light novel ou tem um evento grande em jogo de celular, aí eu fico ocupado — respondi.
Yanami fechou a marmita, agora vazia.
— Então você está livre hoje, né?
— Tô.
Mastiguei os restos tristes do meu almoço e assenti, derrotado.
*
Depois da aula, fui caminhando desde a Estação Toyohashi, procurando Yanami e Komari. Como as duas vão e voltam de bicicleta, combinamos de nos encontrar no local.
— Eu não venho muito por aqui…
O Prédio Mizukami. Esse complexo retrô perto da estação aparentemente tem esse nome porque foi construído sobre um canal coberto.
O térreo forma uma galeria com pequenas lojas alinhadas. Muitas estão com as portas de metal fechadas, mas entre quitandas à moda antiga e lanchonetes, também há cafés modernos e elegantes. Dá um charme estranho ao lugar.
Foi então que, diante de uma loja fechada, uma garota baixinha encarava de perto a porta de metal.
— Komari, o que você está fazendo?
— E-Estou olhando esse p-pôster antigo…
Por quê, justo isso? Fui até o lado dela e olhei para o pôster desbotado.
— Então o Parque Nonhoi fez um evento de anime, é? Espera, isso é de três anos atrás.
Ao me ouvir resmungar, Komari me lançou um olhar de reprovação.
— I-Isso é 2,5 d-dimensões. N-Não é a mesma coisa que anime.
Não é? Agora que penso nisso, uma vez chamei coisas em 2.5D de cosplay e recebi um olhar mortal da Tsukinoki-senpai.
— Uoooh… a p-pessoa que faz o Y-Yakuoji Sukeji… a-agora é outra…
Ainda murmurando, Komari tirou o celular e tirou uma foto.
— Ah, e a apresentadora era a dubladora da Chikapyon. Poxa, eu queria ter ido nisso.
— S-Sim. Eu também.
Enquanto ficávamos ali, presos numa nostalgia meio triste, uma voz chamou atrás de nós.
— O que vocês dois estão fazendo encarando uma porta fechada?
Ao nos virarmos, vimos Yanami com as mãos na cintura, com uma expressão exasperada.
— Ah, Yanami-san. A gente só estava relembrando um evento de anime de três anos atrás.
— Nukumizu-kun, você se dá conta de que ainda é adolescente, né?
— Três anos passam num piscar de olhos. Segundo meu pai, o jogo de verdade começa quando você começa a errar as contas por décadas.
— Que tipo de jogo é esse? Anda, vamos logo.
Yanami deu uma cutucada sem vontade e começou a caminhar, fazendo sinal para a gente seguir.
— A gente não veio aqui pra brincar, tá? Vocês dois tratem essa pesquisa com seriedade.
Enquanto eu seguia atrás da Yanami, olhei em volta para os arredores.
— Eu entendo que é pesquisa, mas por que aqui? Não seria melhor consultar materiais na biblioteca ou ir ao shopping da estação se a gente está procurando algo na cidade?
— Você não entende mesmo, né. Este lugar é uma fusão do antigo com o novo. E ainda é ativo como polo de arte também.
Yanami jogou o cabelo para trás, toda orgulhosa.
— E o que exatamente isso quer dizer?
— Quer dizer que essa paisagem vai inspirar a gente e vai sair alguma coisa boa, ou… sei lá. Esse tipo de coisa.
Então não tinha nenhum raciocínio profundo por trás. Ainda assim, cenários desconhecidos realmente refrescam a cabeça. Mesmo sem ir longe, só andar por uma rua que você não costuma usar pode render descobertas.
— Tem muitas lojas novas de doces por aqui. Ah!
Yanami disparou em direção a uma vitrine.
— Esse lugar é famoso pelos parfaits de fruta. Dizem que são incríveis. Querem provar?
— A gente não veio aqui para pesquisar sobremesas, lembra?
— Vivenciar as coisas também é importante. Né, Komari-chan?
Komari, espiando o cardápio na entrada com nervosismo, fez uma careta.
— E-Eu não tenho dinheiro.
A foto do parfait de pêssego realmente parece deliciosa… mas o preço é salgado. Talvez eu traga a Kaju aqui algum dia.
— É caro demais para alunos do ensino médio só passando por aqui. E você não tem emprego de meio período, Yanami-san. Você também não deve ter tanto dinheiro sobrando, né?
Encarando a placa, Yanami murmurou:
— Se eu não pensar nas consequências… eu consigo…
Pensa nelas.
— Yanami-san, era pra ser pesquisa, lembra? Vamos andando. Olha, tem um lugar de ramen de missô ali.
— Por que ramen—espera, missô também é bom. Mas eu geralmente peço tonkotsu.
Enquanto eu era alimentado com mais uma informação inútil da Yanami, segui o passo apressado dela. Então a Komari se aproximou de mim, meio passo atrás.
— N-Nukumizu. P-Por que você me c-chamou?
Ela olhou para mim por baixo da franja, com um olhar desconfiado.
— Você estava com dificuldade para decidir o tema do Festival Tsuwabuki, né? Eu achei que isso podia ajudar a surgir alguma ideia.
— I-Isso é verdade, m-mas eu…
— Falta só meio mês pro evento. Já passou da hora de decidir alguma coisa.
— A r-reunião dos presidentes de clube… e-eu também tenho que preparar o r-relatório de a-atividades do p-primeiro s-semestre—
Komari foi diminuindo a voz até travar, toda atrapalhada.
— Sobre você virar presidente, tanto a Yanami-san quanto eu já ouvimos isso dos veteranos. Quer que eu fale com a Yakishio sobre isso também?
— S-Sim…
— A gente se preocupa com a reunião depois do Festival Tsuwabuki. Você conversa com o presidente Tamaki sobre isso depois. Por agora, vamos focar no que está na nossa frente.
A gente também tem que fazer uma revista do clube baseada no tema da exposição. Eu vou assumir do presidente como editor-chefe, mas sem tema não dá nem para começar a escrever.
Agora, o que a gente precisa é alguém como a Yanami — alguém que não pensa demais— ou melhor, alguém com a mente flexível.
— Ainda assim, eu acho que um tema ligado a comida não é uma má ideia. A gente não precisa resolver tudo hoje. Só dar uma volta por aí pode fazer alguma coisa surgir.
— M-Mas eu não vou a-atrapalhar?
…Atrapalhar? É literalmente uma atividade do Clube de Literatura. Como isso faria sentido? Komari franziu a testa, observando minha expressão com atenção.
— É porque você v-vai sair com a Y-Yanami, né?
— Não, não vou. Por que você acha isso?
Komari, sério, continua grosseira como sempre.
— V-Vocês dois estão s-sempre juntos.
Ela já disse isso antes, mas eu e a Yanami estamos mesmo juntos com tanta frequência?
Na sala, eu quase não falo com ela. No clube, a Komari também está lá. E, ultimamente, quem tem passado mais tempo na escada de emergência no almoço é ela—
— Se for comparar, eu passo mais tempo com você do que com a Yanami.
— Nua!?
Komari soltou um gritinho e deu um pulo para trás. Que reação foi essa?
— Certo, Komari, escuta. Lontras são fofas, né?
— L-Lontras…? A-As do m-mar?
— Sim, essas lontras. Elas são super fofas, mas você sabia que elas comem mais de 20% do próprio peso em comida por dia?
Se fosse certa garota, isso daria mais de dez quilos por dia.
— Fofas e comilonas. Mas só porque são fofas não quer dizer que você se apaixona por uma lontra, certo? É isso que eu quero dizer.
— E-Entendi…?
Parece que ela entendeu. Komari cruzou os braços e inclinou a cabeça, mas acho que meu ponto ficou claro.
Yanami, que tinha ido na frente sozinha, voltou correndo na nossa direção.
— Ei, venham rápido! Eu encontrei uma coisa ótima.
Ela estava sorrindo de orelha a orelha. Eu segui, já certo de que seria algo relacionado a comida, e, como esperado, o que nos aguardava era um café.
— Aqui faz pra viagem. Que sabores vocês dois querem?
Yanami se inclinou sobre o balcão. Então comer já virou regra, é?
— O que tem?
— Eles estão vendendo dorayaki "ocidental". Pensei que todo mundo deveria estar com um pouquinho de fome, então é perfeito.
Eu não estou com fome nenhuma, mas acho que isso conta como socializar. Espreitando por cima do ombro da Yanami, dei uma olhada no cardápio.
— Com licença! Eu quero o de blueberry com cream cheese!
— Eu vou pegar o tradicional, já que é a primeira vez. E você, Komari?
— U-Um, espera u-um segundinho…
Komari, contando moedas da carteira, fechou-a num estalo.
— E-Eu vou p-pass…ar…
…Pelo visto, não tinha o suficiente. Yanami pegou o dorayaki com a atendente e mordeu com os olhos brilhando.
— Uau, isso é muito bom! Komari-chan, quer uma mordida?
— N-Não, estou bem…
Komari balançou a cabeça, olhando para baixo. Sim, eu entendo. Ser oferecida uma mordida de algo é um obstáculo enorme para alguém com ansiedade social. Eu sei como é.
Rasguei meu dorayaki ao meio e ofereci um pedaço a ela.
— Ueh? O-O quê?
— Não parece lá essas coisas, mas eu não mordi nem nada.
Coloquei o pedaço com cuidado na mão paralisada da Komari.
— T-Tem certeza?
— Estamos pesquisando, né? Melhor comer juntos.
— U-Um… ah…
Ah. Talvez ela realmente não quisesse um pedaço meu. Espera, isso tecnicamente conta como assédio…? Enquanto eu entrava em pânico, Komari assentiu de leve.
— T-Tá bom… eu v-vou pegar.
Ainda de cabeça baixa, ela começou a mastigar em silêncio.
— É b-bom…
Komari mastigava com um sorrisinho. Por algum motivo, Yanami estava me encarando com um olhar morto, nada impressionado.
— O que foi, Yanami-san?
— Quer dizer, você trata alguém que não tinha dinheiro de um jeito bem diferente de quando era comigo, não acha?
— Se for verdade, você quer que eu explique por quê?
Yanami chutou meu sapato em silêncio. Que foi isso? Se você tem algo a dizer, que diga logo.
Mordi o dorayaki "ocidental".
…Nossa, isso é delicioso.
*
Depois de me despedir das duas. Segui para o norte ao longo dos trilhos do bonde até meu lugar de sempre: a filial principal da Livraria Seibunkan. Mesmo que eu não compre nada, só olhar as lombadas dos livros parece ajudar a organizar meus pensamentos.
De repente, um título específico chamou minha atenção: Uma Vida Simples Através de Refeições Modestas. Aparentemente, o aniversário da Yanami está chegando. Isso seria um bom presente…?
— Com licença, você está sozinho?
— Hã…?
A pessoa que de repente falou comigo é uma garota pequena, com feições de boneca.
Chihaya Asagumo. Ela é a namorada de Mitsuki Ayano — o mesmo Ayano por quem Yakishio costumava ter uma queda. Seu cabelo repartido ao meio revelava uma testa lisa e brilhante.
Desde que acabei me envolvendo no drama de verão entre ela e Yakishio, ela tem aparecido cada vez mais.
— Sim, estou sozinho. Você também está sozinha, Asagumo-san?
— Mitsuki-san está comigo. Quando ele vem aqui, fica plantado na frente das estantes e não se mexe. É um grande problema.
Ela sorriu com vivacidade, embora não houvesse o menor sinal de incômodo em sua expressão. Só aquele sorriso já me dizia que os dois estavam indo muito bem. Asagumo-san espiou a estante à minha frente.
— Está procurando algo específico, Nukumizu-san?
— Na verdade, não. Estamos pensando em fazer uma exposição para o Festival Tsuwabuki com o tema comida e literatura. Só estou vendo se encontro algo que possa ajudar.
— Ara, parece fascinante.
Asagumo-san pressionou o dedo indicador no queixo e inclinou a cabeça de maneira adorável.
— Comida e literatura, hum? Existem livros que tratam diretamente desse tema, mas talvez seja melhor delimitar primeiro o seu foco.
— Delimitar?
— Sim. Se vocês pretendem uma abordagem mais geral, pode ser eficaz escolher uma época ou um país específico e então analisar a forma como a comida é retratada na literatura daquele período, relacionando isso à história e aos costumes da época. Acho que pode se tornar uma pesquisa bem sólida.
— Entendi. Uma abordagem geral… Hum, isso talvez seja um pouco demais para mim.
Asagumo-san juntou as duas mãos diante do peito e olhou para mim com olhos arregalados, como os de um esquilo.
— Não se preocupe. Vou separar uns trinta livros de referência para você folhear por alto, e então você pode se aprofundar no que chamar sua atenção. Se me avisar, eu ajudo a encontrar quantas fontes precisar.
— Uh, espere, calma. Eu não tenho esse tipo de tempo. Estamos pensando em fazer uma exposição mais leve, mais casual…
Algo que eu disse deve ter acionado algum gatilho nela. Com os olhos brilhando, ela se aproximou de mim. Instintivamente, recuei, esbarrando na estante atrás.
— É justamente por ter uma base sólida que se pode criar algo leve e acessível. Vamos comprar o que pudermos aqui e depois ir à biblioteca próxima. Agora, por favor, tire sua carteira.
— Uh… sim, senhora…
Asagumo-san definitivamente entrou em algum tipo de modo hiper misterioso. Dominado pela pressão, levei timidamente a mão à carteira—
— Então, que tal focar em autores famosos ou obras literárias e destacar anedotas interessantes ou episódios relacionados à comida? Para um festival escolar, talvez seja mais agradável para o público em geral.
Uma voz calma veio de trás. Ao me virar, vi Mitsuki Ayano sorrindo para nós por trás dos óculos.
— Ei, Nukumizu. Quanto tempo.
— Ara, Mitsuki-san. Já terminou?
Asagumo-san foi apressadamente até ele e colocou suavemente a mão em seu braço.
— Já está quase na hora do cursinho. Então, Nukumizu, está pesquisando para o festival?
— Mais ou menos. Estamos tendo dificuldade para decidir um tema.
— Não pense demais nisso. Tirar um tempo para não pensar também é importante.
Talvez ele tenha razão. Enquanto eu ficava ali refletindo, Ayano me deu um sorriso maduro e descontraído e colocou a mão em meu ombro.
— E se ainda estiver travado, é só me avisar. Eu ajudo a qualquer hora.
— Ah, sim. Se chegar a esse ponto, conto com você.
Respondi com um sorriso ambíguo. Como se enxergasse através da parede do meu coração, Asagumo-san me olhou com olhos límpidos.
— Nukumizu-san, você acha que as palavras de Mitsuki-san foram apenas da boca para fora?
— É assim que parece? Isso é meio triste.
Ayano deu de ombros com um sorriso torto.
— Não é isso, mas se você está pensando no que aconteceu nas férias de verão como uma dívida, fica meio estranho, sabe?
Quando se começa a pensar em termos de dívidas e favores, até abrir a boca se torna difícil.
— Certamente nos sentimos em dívida com você, Nukumizu-san. Mas isso é outra questão.
Asagumo-san se aproximou com uma intensidade silenciosa.
— Neste verão, por que você se importou tanto com Lemon-san? Você não tinha nada a ganhar com isso, Nukumizu-san.
— É que… eu simplesmente não podia deixá-la sozinha. Bem, ela é minha amiga, afinal.
Ao dizer isso, um pouco envergonhado, Asagumo-san sorriu suavemente.
— É o mesmo para nós. Somos amigos, então não se trata de ganho ou perda. Se eu tivesse que dizer, é egoísmo, porque fico feliz se puder ajudar você, Nukumizu-san.
— Entendi. Se algum dia eu precisar de ajuda, não vou hesitar em pedir. Obrigado.
— Sim, deixe comigo.
Em silêncio atrás dela, Ayano me lançou uma piscadela, como quem diz: Viu? Minha namorada é incrível, não é? Percebendo isso, Asagumo-san se recostou nele com um sorriso radiante.
…Entendi. É, isso definitivamente é egoísmo. Fiquem à vontade para flertar usando-me como desculpa.
*
No dia seguinte, depois da aula. Yanami, Komari e eu estávamos sentados frente a frente na sala do clube.
— Ontem à noite, Komari e eu discutimos e chegamos a um resumo simples. Quero ouvir sua opinião novamente.
Quando entreguei a elas uma folha impressa, Yanami me lançou um olhar confuso.
— Aprendemos sobre a função de documento compartilhado na aula de informática, lembra? Usamos aquilo e conversamos por lá. Funcionou surpreendentemente bem.
— Hã? Mas eu não fui incluída nessa discussão.
…Então ela percebeu, hein. Foi trabalhoso, então segui em frente sem incluir a Yanami. Após trocar um rápido aceno com Komari, voltei-me para Yanami com um tom mais formal.
— Na verdade, eu queria pedir que você cuidasse de um tipo diferente de tarefa. Ou melhor, há um papel que só você pode desempenhar, Yanami-san.
— Só eu? Que tipo de papel?
— Resumindo… algo como uma consultora. Precisamos de uma perspectiva de uma terceira pessoa, uma visão de conjunto, certo? Achei que isso combinaria perfeitamente com você, Yanami-san.
— Uma consultora… tipo um cônsul?
— Não sei por que você encurtou, mas é, basicamente isso.
Parecendo satisfeita, Yanami afastou o cabelo do rosto.
— Entendi. Se é isso, então faz sentido. Acho que eu seria boa nesse tipo de coisa.
Então ela acha que seria, é…
— Enfim, voltando ao assunto. Com a ideia da Yanami-san em mente, pensei que poderíamos usar o tema comida e literatura. Tipo apresentar comidas que autores famosos gostam ou que aparecem em livros.
— Entendi! Então vamos ter comida de verdade lá!
Os olhos de Yanami brilharam.
— Certo. Pensei em incluir receitas antigas ou fotos de recriações.
— Fotos de recriações…? Não vamos realmente servir comida?
O rosto de Yanami escureceu imediatamente.
— Hã? Mas não vamos abrir um restaurante.
— Atenção. Vocês dois, escutem o que estou dizendo.
Ela pigarreou de propósito.
— Quando eu disse que deveríamos usar um tema de comida, não quis dizer desse jeito.
Então não era isso que ela queria dizer. O idioma Yanami é difícil.
— Então o que você quis dizer?
— Sabe como os autores da era Showa sempre passam aquela imagem de comer coisas como sukiyaki ou enguia? Como somos do Clube de Literatura, achei que deveríamos nos tornar mais parecidos com figuras literárias.
Essa garota está mesmo pensando em abrir uma barraca de sukiyaki no festival…?
— Primeiro: cozinhar em ambientes internos é proibido. E o prazo de inscrição para barracas de comida já passou.
— Eu só dei a ideia, então resolver a logística é seu trabalho, Nukumizu-kun. Vamos lá, dê o seu melhor.
Argh… essa consultora é defeituosa. Vou cancelar o contrato na próxima temporada. Tentando evitar o caos, Komari, que vinha lendo algo em silêncio, levantou lentamente a cabeça.
— D-Doces a-assados d-devem ser p-permitidos.
Komari me entregou o manual da exposição do festival cultural. De fato, onde ela apontou, está escrito exatamente isso. Porém, não faço ideia de como vamos conectar doces a uma exposição literária.
— O primeiro passo é começar. Vamos tentar fazer alguma coisa por enquanto.
Disse Yanami, mal conseguindo conter a empolgação.
— Mesmo que você diga "fazer", não temos lugar nem ingredientes. Além disso, deveríamos primeiro pensar em como isso se conecta ao tema—
— Nukumizu-kun, pensar demais é o inimigo. Deixe tudo com sua carismática consultora, Yanami-chan.
Com um gesto exagerado, Yanami cruzou as pernas e começou a fazer uma ligação.
— Ah, alô, Kana-chan? Você não tem clube hoje?
Enquanto Komari e eu ficávamos em silêncio sem motivo algum, Yanami, após terminar a ligação com Kana-chan, guardou o celular.
— Yanami-san, você tem planos com uma amiga? Não precisa se forçar a ficar, sabe.
— Nukumizu-kun, você está tentando se livrar de mim por acaso? Ou é só impressão minha?
— É só impressão sua. O Clube de Literatura valoriza o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.
Yanami me lançou um olhar vazio quando disse isso com a maior cara séria.
— Enfim, vamos, vocês dois.
— Vamos para onde?
— Se tivermos um lugar e ingredientes, podemos fazer alguma coisa, certo? Apenas me sigam.
Fazendo uma pose convencida, Yanami se levantou com confiança. Tudo bem. Até o contrato acabar, vou continuar com essa consultora.
*
O lugar para onde ela nos levou foi a sala de Economia Doméstica, no primeiro andar do prédio novo.
— Uma amiga do Clube de Culinária disse que podemos usar livremente, desde que limpemos depois. Ah, e ela também nos deu alguns ingredientes.
Yanami largou um saco de farinha e açúcar sobre a bancada.
— É só isso que temos?
Ela assentiu com absoluta confiança.
— Isso mesmo. Então, Nukumizu-kun, o que fazemos agora?
Inacreditável. Ela simplesmente jogou tudo para mim. Nunca fiz doces na vida.
— Uh… talvez possamos simplesmente alternar entre lamber farinha e açúcar?
— Você vai passar mal com farinha crua, então não. E nem é tão gostoso assim.
Faz sentido. A experiência traz sabedoria.
— Então vamos cozinhar de algum jeito. Yanami-san, você conhece alguma receita?
— Hum, bem, acho que sei fazer panqueca de farinha.
— O que é isso?
Yanami pegou uma frigideira e a ergueu diante do rosto.
— Você só mistura farinha com água e frita. O segredo é esvaziar a mente enquanto come.
Não quero comer algo que soa tão deprimente. Quando a conversa começou a empacar, Komari, que até então permanecera em silêncio, levantou a mão timidamente.
— E-Eu p-posso f-fazer b-biscoitos.
— Esses ingredientes são suficientes?
— E-Eu p-precisaria de m-manteiga ou m-margarina.
Ao ouvir isso, Yanami correu até a despensa e voltou segurando algo.
— Óleo de salada serve?
Komari encarou a garrafa de óleo por um momento, então soltou um pequeno suspiro.
— S-Serve. V-Vocês têm f-filme plástico e u-uma tigela?
— Sim. Tem um monte sobrando das aulas práticas. Podemos usar à vontade.
Komari começou a misturar os ingredientes numa tigela com mãos experientes.
— P-Por f-fim, adicione a f-farinha. F-Faça a m-massa e a-asse.
Enquanto eu observava com admiração, o pó se transformava em massa diante dos meus olhos. Komari parou de misturar e tirou um sachê de chá do estoque da sala do clube.
— Komari-chan, o que você está fazendo? — Yanami se inclinou para perto, espiando por cima.
— Ueh? Ah, i-isso é chá.
Não é bom. Komari ainda não está acostumada à energia agressiva da Yanami. Tirei alguns doces e os balancei na frente dela para desviar sua atenção.
— Está fazendo biscoitos de chá? Só as folhas normais do sachê já servem?
Komari assentiu firmemente enquanto incorporava as folhas de chá à massa. Por fim, ela envolveu a massa pronta em filme plástico.
— D-Depois disso, p-precisa d-descansar n-na geladeira p-por c-cerca de u-uma hora.
— Uma hora…?
Yanami murmurou enquanto mastigava o doce ruidosamente. Komari se encolheu de susto.
— E-Então podemos a-assar d-depois que o f-forno estiver p-pré-aquecido.
— Certo!
Yanami foi saltitando alegremente para ligar o forno. Enquanto eu lavava as tigelas usadas, Komari voltou depois de colocar a massa na geladeira.
— Você já está bem acostumada com isso, hein, Komari?
— B-Bem, eu s-sempre f-faço lanches p-para os p-pequenos lá em c-casa.
— E como você consegue fazer isso, mas mesmo assim sempre come pão no almoço?
— P-Porque é b-barato. E fácil. O-Obviamente.
Komari disse sem rodeios, então colocou o batedor lavado no escorredor.
*
Através do vapor que subia de nossas xícaras, biscoitos recém-assados estavam alinhados diante de nós. Sentados ao redor do prato, dissemos "vamos comer" e pegamos um.
— A-Ainda estão u-um p-pouco macios, m-mas e-estão a-assados.
Komari mordeu a borda de um biscoito, visivelmente aliviada.
— Eu também gosto de biscoitos macios. Ah, eles até cheiram a chá!
Yanami, claramente de ótimo humor, devorou seu segundo biscoito e tomou um gole de chá. Os biscoitos têm uma boa textura e sabor. Se fizermos direito, seriam perfeitamente apresentáveis até para venda. Agora, o problema é como conectá-los ao tema da exposição. Será que haveria demanda por, tipo, biscoitos com o rosto do Dazai Osamu…?
— Vamos fazer a exposição, vender doces e ainda preparar a revista do clube, certo? Acha que conseguimos dar conta de tudo isso sozinhos?
Enquanto servia mais chá para si mesma, Yanami balançou o dedo.
— Ninguém disse que precisamos fazer tudo perfeitamente. É só fazer quantos biscoitos conseguirmos de forma razoável e, para a revista, podemos colocar algumas coisas antigas que escrevemos. Não é como se alguém que venha ao Festival Tsuwabuki já tivesse lido nossos romances antes.
— Bom, é verdade.
Até onde vamos levar isso depende de nós e, nesse sentido, entendo o que Yanami quer dizer. Assim que Komari abriu a boca para falar, levantou-se em silêncio e trouxe outra xícara do armário.
— Komari? Alguém está vindo?
— E-Eu s-sinto a Yakishio.
O que isso quer dizer? A Komari despertou algum poder chunni ou algo assim? Nesse momento, um bando de pardais do lado de fora da janela voou de uma vez. Assustados, olhamos — bem na hora em que uma garota bronzeada escancarou a janela da sala de economia doméstica.
Lemon Yakishio. Membro do Clube de Literatura que também faz parte do Clube de Atletismo.
— Bom trabalho. Ouvi dizer que vocês fizeram doces?
— Lemon-chan, os biscoitos acabaram de sair do forno.
— Demais! Valeu por avisar, Yana-chan!
Antes mesmo de terminar de falar, Yakishio pulou agilmente pelo parapeito da janela.
— Não entre de sapatos. Troque para—
Com um sorriso, Yakishio colocou os tênis, presos pelos dedos, sobre o ombro.
— Eu disse que já tirei. Nukkun, você se preocupa demais.
…Quando foi que ela tirou? Ela está ficando cada vez menos humana. Ainda assim, trazer os sapatos para a sala não é nada admirável. Tirei um saco plástico do bolso.
— Aqui, vai cair areia por todo lado, então coloque isso direito. E lave as mãos antes de comer.
— Nukkun, você é como uma mãe. Quer que eu te chame de mamãe?
Isso pode abrir uma porta estranha, então melhor não. Yakishio deve ter acabado de sair do treino. Sua regata está enrolada até abaixo do peito, e seu umbigo está completamente à mostra.
Depois de lavar as mãos, Yakishio pegou um prato ainda de pé.
— Yakishio, você vai pegar um resfriado. Cubra-se.
— Está tudo bem. Fiquei assim o treino inteiro mesmo.
Yakishio deu uma mordida no biscoito e arregalou os olhos.
— Uau, esse é dos bons. Tem folhas nele.
— Bem, é… se eu tentar, até que consigo.
Por que a Yanami está agindo toda convencida?
— Foi a Komari que fez. E são biscoitos de chá, aliás.
— Heh, a Komari-chan tem mesmo um lado feminino.
Yakishio sentou-se ao lado de Komari e afagou sua cabeça gentilmente.
…Foi perto do fim das férias de verão. O primeiro amor de longa data de Yakishio chegou ao fim. Não é algo sobre o qual nós dois jamais falaremos. Mas, de vez em quando, eu a vejo indo para a escola com a Asagumo-san. Não há motivo para eu me meter mais nisso.
Talvez tenha percebido que eu a observava, porque Yakishio me lançou um sorriso radiante.
— Desculpa, não consegui ajudar em nada com o festival.
— Não se preocupe com isso. Sei que você está cheia de coisas para fazer.
— C-Clube de A-Atletismo. N-Não tem j-jeito.
Enquanto Yakishio se desculpava, Komari lhe entregou um pouco de chá. Para o Festival Tsuwabuki, Yakishio não só participa do evento da equipe de atletismo como também tem um papel importante no evento de fantasias da nossa turma. Alunos populares são ocupados à sua maneira.
— Lemon-chan, você ouviu o cronograma do evento da turma? Parece meio puxado.
A outra estrela da turma, Yanami, contou os biscoitos com a ponta dos dedos e enfiou todos, exceto três, na boca.
— Foh feh fih fo fon's fevenf feh's fo fo foh feh.
— É. Ainda precisamos encontrar um professor orientador também, né.
Yakishio assentiu com entusiasmo. Espera, ela entendeu isso agora?
— Devo tentar pedir para a treinadora do atletismo feminino ser nossa orientadora? Ou melhor, por que vocês não entram logo para o Clube de Atletismo?
— Isso seria o Clube de Literatura sendo absorvido. Você conhece algum professor que não esteja supervisionando um clube?
Pegando outro biscoito, Yakishio piscou seus olhos grandes.
— A maioria dos professores que conheço está ligada a clubes. Talvez a Amanatsu-chan.
— Ela, hein…
Amanatsu-chan, também conhecida como Konami Amanatsu. Ela é a professora regente da turma 1-C.
Ela é tão pequena e fofa que poderia ser confundida com uma aluna, mas não se lembra do meu rosto nem do meu nome. Já estamos no segundo semestre. Enquanto eu hesitava, Yakishio bateu palmas e se levantou.
— Não adianta pensar demais. Nukkun, vamos falar com ela.
— Agora? Não seria melhor a Yanami-san ir—
Olhei de lado, apenas para ver Yanami engasgando feio com um biscoito.
— Tudo bem. Vamos juntos.
Deixando Komari, que dava tapinhas preocupados nas costas de Yanami, saí da sala com Yakishio.
*
Aparentemente, a Amanatsu-sensei está na sala de materiais de Estudos Sociais a essa hora. Estamos indo até lá depois de perguntar na sala dos professores. Yakishio então cutucou meu ombro.
— Ei, quando o Festival Tsuwabuki acabar, os alunos do terceiro ano também se aposentam do Clube de Literatura?
— Sim, é quando eles se afastam. É o mesmo com a equipe de atletismo?
Yakishio assentiu, com o rosto um pouco menos bronzeado do que o normal.
— Uhum. Já decidiram a próxima capitã. É uma veterana com quem me dou bem, mas ela é rígida, então provavelmente não vou mais poder relaxar.
Ela entrelaçou as mãos atrás da cabeça e soltou um suspiro exagerado.
— Você gosta de correr, Yakishio. Por que iria relaxar?
— Eu sou velocista, sabe. Tenho até um menu de treino especial, mas às vezes você só quer ignorar isso e correr do jeito que quiser.
…? Isso quer dizer—
— Espera, você está faltando ao treino só para correr sozinha?
— Às vezes você só quer correr para sempre, sabe?
Yakishio exibiu um sorriso significativo e bateu o ombro no meu. Ai.
— Então você poderia fazer meio-fundo ou longa distância no clube.
— Nah, meio que me dei mal com isso no fundamental. Aprendi a lição.
Ela disse isso alegremente e parou. Chegamos à sala de materiais. Agora, será que a Amanatsu-sensei está lá dentro? No momento em que estendi a mão para a porta, ouvi um barulho alto de algo pesado caindo, junto com o grito de uma mulher.
…Sim, ela definitivamente está lá. Quando abri a porta, encontramos a Amanatsu-sensei soterrada sob uma pilha de livros e materiais didáticos. Yakishio correu até ela em pânico.
— Amanatsu-chan, você está bem?
— Ai…
Enquanto eu olhava de lado para Yakishio puxando a sensei, fui abrir uma janela. Está empoeirado demais aqui.
— Yakishio, hein. Você me salvou… espera, o que você está vestindo? Seu umbigo está aparecendo!
— Acabei de sair do treino.
Yakishio fez um biquinho ao dizer isso. Amanatsu-sensei ajeitou a saia com movimentos rápidos e nos lançou um olhar confuso.
— Então, o que vocês dois estão fazendo aqui?
Aos poucos, a expressão de Amanatsu-sensei ficou mais séria. Yakishio e eu aparecendo juntos. É a primeira vez diante dela desde aquele incidente no depósito de educação física no semestre passado.
De repente, Amanatsu-sensei bateu o lenço no chão.
— Ah, qual é! Façam esse tipo de coisa em casa! Pelo menos vão para a enfermaria! A Konuki-chan está lá!
E isso resolveria exatamente o quê?
— Espere, não, calma. Não é isso. Viemos pedir um conselho.
— Vocês dois… pedir conselho a mim?
Inclinando a cabeça, Amanatsu-sensei encarou o estômago exposto de Yakishio. Então seu rosto empalideceu rapidamente.
— Ei! Não, falando sério, vão para a enfermaria! A Konuki-chan está lá!
— Não é isso, e provavelmente também não é o que a senhora está pensando agora, sensei.
Que professora inquieta. Yakishio me lançou um olhar inseguro enquanto eu pensava no que fazer.
— Nukkun, do que é que ela está falando, afinal?
— Ah… que adultos sempre imaginam o pior cenário possível, eu acho.
— Hm…? Não entendi direito, mas eu vou perguntar.
Yakishio limpou a garganta com um "ahem" bem exagerado.
— Ei, Amanatsu-chan, vira a professora orientadora do Clube de Literatura!
— Uau, assim do nada?
É, foi repentino mesmo. Eu assumi e comecei a explicar.
— Com licença. Nosso Clube de Literatura está sem orientador no momento. A gente está procurando um professor que possa assumir esse papel antes do Festival Tsuwabuki.
Amanatsu-sensei soltou um "hmm" pensativo e cruzou os braços.
— Eu adoraria ajudar, mas eu já sou a orientadora do Clube de Tênis de Mesa, sabe~?
Ela ficou em silêncio por um instante, claramente ponderando, e então abriu os olhos bem grandes.
— Certo, deixem comigo! Eu vou dar um jeito!
— Sério, Amanatsu-chan?
— Em cinco anos dando aula, é a primeira vez que um aluno vem até mim pedir conselho. Vou mostrar do que sou capaz.
— Pera… nunca tinham te pedido antes…?
As palavras escaparam sem eu pensar, e Amanatsu-sensei inflou as bochechas.
— Eu sou… sabe. Uma adulta severa, que valoriza a distância correta entre professor e aluno. Claro que fica difícil se aproximar de mim.
— Mas Amanatsu-chan, você foi numa cabine de fotos com a gente outro dia.
— Aquilo era orientação estudantil. Não é como se eu tivesse achado divertido e ficado com inveja nem nada.
Ela disse isso virando o rosto, emburrada. Ela é uma criança?
— Ah, enfim, muito obrigada. Então podemos deixar a busca por um orientador nas suas mãos, certo?
— Sim, deixem comigo. Yakishio e… ah, você é—
…Meu Deus, ela realmente não lembra meu nome mesmo.
Quando eu estava prestes a falar, ela empurrou a palma da mão na frente do meu rosto.
— Não precisa dizer. Você é da minha turma… Nukumizu, né?
— Hã!? Você finalmente lembrou meu nome?
Enquanto eu encarava, pasmo, Amanatsu-sensei estufou o peito, toda orgulhosa.
— Ué, sim. Eu usei o processo de eliminação. Se eu ligar os rostos que ainda não memorizei aos nomes—
— Sensei, não precisa terminar essa frase.
…Uma parte de mim se arrependeu de ter ficado feliz.
*
Sábado, no dia seguinte. Vim com minha família até o Michi-no-Eki de Toyohashi.
— O Primeiro Amor de um Adulto com Sabor de Limão… hein.
Murmurei, segurando uma garrafa de limonada. O sorriso levemente mais maduro de Yakishio e o amargor da casca de limão — imagens que eu não conseguia colocar em palavras passaram pela minha cabeça, e eu devolvi a garrafa à prateleira.
Aqui vendem doces e ingredientes locais. Para pensar em ideias para os doces que vamos vender no Festival Tsuwabuki, pedi aos meus pais que me trouxessem até aqui.
— Aqui, onii-sama. Abre a boquinha… aaah~!
De repente, uma colher apareceu do meu lado. Por reflexo, abri a boca, e uma doçura límpida e gelada se espalhou pela língua. Quando olhei, vi Kaju ao meu lado, segurando um sorvete.
— Ah, isso aqui é bem bom.
— A mamãe comprou um gelato para a Kaju. Dizem que é feito com ovos de codorna criadas aqui na região.
Kaju disse, colocando a colher de volta na boca. Pensando bem, codornas são aves migratórias. Enquanto eu imaginava aqueles corpinhos redondos voando pelo céu, meu olhar foi parar numa prateleira de biscoitos amanteigados em forma de codorna.
— Onii-sama, por que quis vir aqui hoje? Você do nada disse que queria ir ao posto.
— A gente está planejando vender doces ligados à exposição do Clube de Literatura no Festival Tsuwabuki. E eu também queria montar um espacinho de descanso para as pessoas relaxarem. Achei que este lugar podia nos dar ideias.
— De certa forma, é como uma versão de festival escolar de um michi-no-eki, não é? Que tipo de doce você está pensando em oferecer?
(N/SLAG: Michi-no-Eki (道の駅) são estações de descanso únicas nas estradas do Japão, operando como centros de turismo e comércio local.)
De novo, ela me estendeu uma colher, e eu obedientemente coloquei na boca.
— Tem uma história bem conhecida, ao que parece: Natsume Soseki gostava de nankinmame.
— Nankinmame… então é amendoim, né?
— É. Eu pensei em colocar amendoim em saquinhos pequenos, com uma explicação curtinha, e vender barato.
— Só amendoim puro?
Kaju inclinou a cabeça, ainda com a colher na boca.
— Acho que o Natsume Soseki gostava de doces. Ouvi dizer que ele gostava de amendoim caramelizado e que comia escondido da esposa. Mas você não precisa esconder. A Kaju dá na sua boca. Aqui, aaah~.
É mesmo? Sem pensar, deixei ela me alimentar com a colher.
— Mas a gente não tem orçamento para comprar doces, e fazer coisas elaboradas também seria difícil.
— E o plano geral?
— Vamos ver…
Vamos montar uma exposição sobre escritores e comida, e distribuir ou vender lanchinhos relacionados às obras expostas.
Não é o ideal atrair as pessoas com comida, mas se isso fizer elas darem uma olhada, tudo bem. Foi esse o plano a que nós, do primeiro ano, chegamos ontem depois da aula.
Depois de ouvir minha explicação, Kaju endireitou as costas e fez uma expressão séria.
— Nesse caso, onii-sama, você tem a Kaju.
— Hm?
O que isso quer dizer? Quando olhei, vi Kaju me encarando de baixo para cima, com os olhos úmidos.
— Finalmente chegou a hora de a Kaju ser útil para você, onii-sama. Deixe a parte de fazer doces comigo.
— Tem certeza?
— Absoluta! E sobre o espaço de descanso, que tal a gente colocar tatames? Talvez a Kaju saiba um lugar.
— Tatame, hein…? Isso pode ajudar bastante, na verdade.
— Então a Kaju vai pedir ao Clube de Judô.
A nossa antiga escola, o Ginásio Momozono, não tem um dojô de verdade, então o Clube de Judô estende tatames no ginásio para treinar.
— Eu agradeço, mas isso não vai atrapalhar o treino deles?
— A Kaju só vai ajustar um pouquinho o rodízio do ginásio usando os privilégios do conselho estudantil.
Espera, isso pode? Enquanto eu encarava, incrédulo, Kaju me deu um sorriso travesso.
— Pelo onii-sama, a Kaju faz qualquer coisa.
…Minha irmãzinha, por favor, tenha um pouco de moderação.
*
Segunda-feira. Começa a nova semana. É o intervalo depois da primeira aula. O prazo para entregar o pedido de reserva de sala é ao meio-dia de hoje. Eu imprimi o formulário digital que recebemos, mas ainda preciso da assinatura da nossa representante, Komari.
Fui até a turma 1-A para pegar, mas ela não estava lá. Agora… onde será que ela foi?
A essa hora, a Komari geralmente está ou no banheiro feminino ou na pia do prédio oeste.
Como é só o primeiro intervalo, em geral ninguém está com tanta sede. Isso significa que ela quer minimizar o tempo parada na pia, o que aumenta a chance de ela ter ido para o prédio oeste, onde é mais perto, mas—
Desde cedo está frio. Então, em vez disso, subi até o quarto andar do prédio novo, na pia central.
No fim do corredor depois da escada, uma garota pequena estava parada, imóvel, diante das torneiras.
Bingo.
No último andar do prédio novo, com sol batendo, ela provavelmente achou que a água estaria pelo menos um pouco mais morna ali. Komari estava diante da torneira aberta, encarando fixamente o fio d’água. Tem algo na atmosfera que a deixa meio difícil de abordar, mas mesmo assim eu me aproximei. Ao notar minha presença, Komari se assustou e fechou a torneira depressa.
— O que você está fazendo, paralisada num lugar desses?
— O-O quê…?
— Ah, eu estava te procurando, Komari. Eu precisava falar com você.
— V-Você… p-precisava de mim…?
Komari ergueu os olhos por baixo da franja, com um ar levemente assustado. Estendi uma folha de papel.
— É o formulário de reserva da sala. A gente precisa da assinatura da representante. Vou entregar no almoço, então queria a sua.
Komari pegou o formulário e piscou, surpresa.
— R-Representante? Eu?
— Sim. Você que tem organizado tudo desde o começo, né? Achei que fazia sentido sair no seu nome.
Komari encarou o papel por um tempo e então fez um leve aceno. Assinou com a lapiseira que eu lhe entreguei e devolveu o formulário em silêncio.
…A Komari está estranha hoje. Não que ela já não seja estranha por natureza, mas há algo deslocado — como se estivesse fora do próprio eixo.
— Você está bem? Você não parece muito bem.
— Ueh…? E-Eu estou bem.
— É por causa dos preparativos do festival?
Komari abaixou a cabeça e apertou as mãozinhas. O plano da exposição do Clube de Literatura finalmente tomou forma no fim da semana passada. Komari ficou à frente de uma mostra de pesquisa e, só de ouvir o esboço, já parecia um trabalho sério.
— Não se force. A gente também tem os veteranos. Faça só o que der.
— M-Mas!
Talvez assustada com a própria voz, Komari desviou o olhar, envergonhada.
— E-Eu p-preciso ser a ú-única a fazer.
E então ela se calou.
Eu disse algo errado?
— Desculpa se eu atrapalhei. Enfim, te vejo depois da aula.
— Eh? A-Ah—
Komari soltou um gemidinho sem palavras. Eu parei. Nesse momento, um grupo de alunos do segundo ano saiu de uma sala e começou a descer pelo corredor.
Eu me encostei na parede para deixá-los passar, e Komari se colocou atrás de mim, como se quisesse se esconder nas minhas costas.
…Parece que esse fluxo de gente não vai diminuir tão cedo. Talvez tenha algum tipo de reunião por série.
Sem alternativa, comecei a andar devagar, colado à parede, mas algo puxou meu paletó. Quando me virei, vi Komari segurando a barra do meu blazer com a ponta dos dedos.
— Komari, aconteceu alguma coisa?
— A-Ah, é que… e-eu terminei de e-escrever. O m-manuscrito da r-revista do clube. Aquele da v-vilã… a c-continuação.
…Hã? Por que me parar só para dizer isso?
— Entendi. Desta vez eu que estou encarregado da revista do clube, então é só me mandar o arquivo.
— S-Sim…
Era para ter acabado aí. Mas Komari não soltou minha roupa.
— O intervalo está quase acabando. Eu vou voltar pra sala.
— E-Eu t-também. A gente v-vai pelo m-mesmo caminho m-mesmo.
Ao contrário do que disse, Komari não se mexeu. Será que ela tem medo daquela multidão de alunos do segundo ano? Não tem jeito. Olhei o fluxo ininterrupto de estudantes e ergui meu relógio digital.
— Komari, olha este relógio.
— É t-tão cafona…
Ei, qual foi. Ele é solar e sincroniza por rádio. Bem legal, se você me perguntar.
— Pelos meus cálculos, leva 85 segundos para chegar na sala a partir daqui. Mesmo que a gente saia daqui a um minuto, ainda dá tempo antes do sinal.
— Ueh…? Q-Que tipo de c-cálculo é esse…?
— Quer dizer que vamos esperar mais um pouco, até a multidão diminuir.
Komari puxou de novo a barra do meu blazer, emburrada.
— A-A minha sala é d-diferente… e-então é u-um pouco mais longe.
— Então a gente anda um pouco mais rápido.
Alunos da Tsuwabuki que eu não conheço de rosto nem de nome passaram na nossa frente. No meio daquele fluxo, os dois solitários do intervalo estavam, de algum jeito, lado a lado.
Talvez isso seja o que chamam de coincidência — ou só uma coisa que acontece.
E quando vier a próxima coincidência com Komari, será que ela vai se esconder atrás das minhas costas do mesmo jeito que agora?
Enquanto Komari mantinha a cabeça baixa, ainda segurando a barra do meu blazer, eu observei o fluxo de estudantes passando.
*
Relatório do Clube de Literatura — Edição de Outono
Um Anulamento Altivo e Orgulhoso! — Cap. 4, por Chika Komari
Meu nome é Sylvia Luxeed, anteriormente filha de um duque. E, se voltarmos ainda mais, eu era uma estudante do ensino médio do mundo real. Depois de renascer no mundo do meu otome game favorito e me esforçar ao máximo, finalmente entrei na rota extra em que a vilã — isto é, eu mesma — encontra a felicidade.
Minha doce vida sendo amada até não poder mais deveria começar… mas parece que não vai ser tão fácil assim—
— Philip! Ouvi dizer que você nem tem se alimentado direito!
Empurrei a pesada porta do seu escritório, levantei levemente a saia e entrei.
— Sylvia, é? Não levante tanto a voz.
Suspirando, o príncipe Philip afastou a mão da régua de cálculo. Fazia um mês desde a última vez que nos vimos. Ele me levou quase à força para o país vizinho depois que meu noivado foi desfeito naquela festa. Meu olhar caiu sobre a refeição ao lado da mesa dele. Apenas carne salgada, sopa de batatas e pão. Nada além da comida de um criado.
— Você não precisa comer a mesma coisa que os criados, sabia?
— Comer não vale o desperdício do meu tempo precioso. Desde que me encha o estômago, já basta.
Ele zombou, desenhando um sorriso de escárnio no canto dos lábios. Neste ano, uma seca vem se prolongando desde o verão e, apesar de ser época de colheita, há uma grave escassez de alimentos. Se nada for feito, não há dúvida de que muitos vão passar fome.
— Mesmo assim, não há motivo para você administrar pessoalmente o plano de racionamento. Se não há ninguém adequado, por que não convocar um administrador da capital?
Philip franziu a testa.
— Os burocratas centrais estão todos sob a influência do duque Gold. Se eles assumirem o controle de verbas e suprimentos dentro do ducado, perderemos qualquer margem de manobra.
— Mas você quase não tem dormido ultimamente, não é?
— Antes de príncipe herdeiro, eu sou um senhor feudal. É meu dever proteger a vida do meu povo—
Talvez percebendo meu olhar, o príncipe Philip deu de ombros.
— Foi só algo que ouvi de outra pessoa. Manter a pose de "bom moço" para não dar brecha ao duque é cansativo.
— Que coisa terrível. Mas, ainda assim, Philip, eu não vou permitir que você pule refeições.
Sinceramente, com esse homem teimoso e inflexível, não há escolha senão tomar as rédeas com minhas próprias mãos. Estalei os dedos, e uma criada trouxe uma nova refeição.
— Sylvia, este prato é…?
— Vamos ver. É algo como repolho recheado. Sobras de carne e legumes bem picadinhos, embrulhadas em folhas de selri do norte, cozidas até ficarem macias num caldo leve.
— Repolho…? Não aprovo. A seca deste ano arruinou as plantações de verduras. Importar comida do norte desperdiça magia preciosa.
— Eu sei. Ouvi dizer que o duque Gold tem usado magia de congelamento em excesso para trazer ingredientes raros.
De fato, neste mundo em que a magia faz parte da própria estrutura da sociedade, mana é tão valiosa quanto moeda ou recursos. Com a mana gasta em comidas de luxo, daria para produzir muitas vezes mais alimento básico.
— Caix… a refrigeradora?
O príncipe Philip inclinou a cabeça diante do termo desconhecido.
— Sim. Eu fiz uma caixa de dupla camada e preenchi o espaço entre elas com algodão-de-vento da região de Torso.
— Algodão-de-vento…? Já ouvi dizer que isso é uma praga que se acumula nos campos durante o inverno.
— Na verdade, funciona bem como isolante. Os homens deste país têm o péssimo hábito de tentar resolver tudo despejando uma tonelada de magia. Se conseguirmos controlar o consumo de mana de forma eficiente, importar comida passa a ser uma opção viável.
— Entendo. Nesse caso, vou aceitar a sua "festinha do chá". Você chamou isso de repolho recheado, foi?
— Sim. E seria melhor você parar de falar e começar a comer.
A expressão do príncipe Philip mudou no instante em que ele deu a primeira mordida.
— Você fez isso…?
— Fiz. Vou preparar suas refeições por um tempo. Você precisa cuidar da sua saúde.
— E você… olhe essas olheiras. Você não tem dormido?
…Hã!? Aflita, cobri os olhos com a mão.
— B-Bem… eu achei que talvez pudesse ajudar no seu trabalho também. Eu estava me preparando para isso.
— Agradeço a intenção, mas este é o meu trabalho. Não pretendo passá-lo para outra pessoa.
— Claro. Você continuará fazendo o trabalho de fato. Eu só vou ajudar.
Ativei minha especialidade: magia de ilusão. Embora seja chamada de afinidade inútil, eu lapidei essa habilidade com o tempo. Linhas mágicas de luz formaram uma grade por uma parede inteira.
— Essa magia é…?
— Isto é o Excel — quer dizer, o feitiço de ilusão! Se você escrever números nessas colunas com magia de luz, ele calcula na hora os totais e os resumos.
É o fruto das minhas aulas de informática na época do ensino médio. Peguei um dos documentos e inseri um número — e um total instantâneo apareceu.
— Está correto. Como isso funciona?
O príncipe Philip se aproximou do quadro projetado na parede e, hesitante, estendeu a mão para tocá-lo.
— Cada célula… quer dizer, cada quadradinho tem uma regra mágica de cálculo embutida. Foi bem trabalhoso. As funções de soma foram tranquilas, mas PROCV e SOMASE me deram um pouco de dor de cabeça.
(N/SLAG: KKKKKKKKKKKKK eu não acredito nisso! Magia de excel. CINEMA DEMAIS!!!!!!)
— Inacreditável. Com isso, eu poderia planejar a distribuição de alimentos por todo o domínio em pouquíssimo tempo. Não… isso permitiria monitorar com precisão até as finanças do reino. Mas quanto mana um feitiço desses exige?
— Ara, é só Excel. Quase não usa memória… quer dizer, mana.
— Entendo. Magia de ilusão realmente é algo. Nunca vi uma fórmula assim antes—
De repente, o príncipe Philip cambaleou, totalmente absorvido em decifrar a estrutura do feitiço. Corri para segurá-lo, e caímos juntos no sofá.
— Philip! Você está bem!?
— Estou. Só fiquei um pouco tonto por falta de sono. Deixe-me descansar assim por um instante.
— Eu não me importo. Apoie-se em mim o quanto quiser.
O príncipe Philip, a quem alguns chamam de sangue-frio. Na verdade, ele é um senhor tsundere que se importa profundamente com o povo. E diante de mim, ele fica até um pouco carente—
— No fim, meus instintos não estavam errados.
— Ara? Então você admite que eu sou uma mulher capaz agora?
— Eu nunca medi o seu valor em termos de ganho ou perda.
Philip brincou com uma mecha do meu cabelo entre os dedos.
— Você realmente é uma mulher interessante.
— Eu sou só "interessante" para você?
Como se quisesse esconder minhas bochechas coradas, fiz pose de coragem. Ele me olhou com olhos muito mais gentis do que os boatos faziam parecer.
— Espere só. Eu vou fazer meu pai reconhecer você como minha noiva, aconteça o que acontecer—
Na próxima: Capítulo 5 — Philip tem um filho secreto!?
*
Hora do almoço. Eu estava indo para a sala do conselho com o formulário de reserva na mão.
Komari estava estranha…
Não consigo tirar da cabeça a imagem da Komari, congelada como se fosse parte do cenário. Ela tem os preparativos do Festival Tsuwabuki, a escolha do próximo presidente do clube e, depois disso, o relatório de atividades do clube para o conselho do presidente.
Talvez esteja assumindo coisa demais e começando a travar sob o peso. É melhor eu ficar de olho nela por um tempo. Pensando nisso, percebi que já estava diante da porta. Tirando a placa escrita "Sala do Conselho Estudantil", ela parece uma sala comum.
Limpei a garganta de leve para testar a voz e bati.
— Ah, com licença.
Ao abrir a porta, encontrei uma única garota mastigando uma barra de cereal à mesa. Ao me notar, ela cobriu a boca depressa e ergueu o olhar.
— Sim, que assunto você tem com o conselho?
O cabelo dela estava preso com cuidado e ela passava uma impressão séria. Sem sequer sorrir, ela se levantou e veio até mim com passos rápidos.
— Desculpe incomodar durante o almoço. Eu só queria entregar um formulário.
Ela lançou um olhar ao pedido que eu estendi e, sem pegá-lo, balançou a cabeça.
— Desculpe, mas o prazo para entregas relacionadas ao Festival Tsuwabuki já passou.
— Ah, não, é que… a Shikiya-senpai me disse para corrigir e trazer de volta…
— Shikiya-senpai… Espera, você é do Clube de Literatura?
Ah, ótimo. Ela sacou. Soltei um suspiro de alívio — só para ver a expressão dela ficar imediatamente afiada.
— Hã, tem algum problema?
— Eu ouvi os rumores sobre o Clube de Literatura pelos veteranos. Que vocês são um grupo que passa o dia escondido num canto da escola escrevendo material obsceno.
— Hã!? N-Não, não, não! O Clube de Literatura é um clube sério! A gente não escreve romances indecentes—
…Tá, uma pessoa escreve. Minha voz murchou no fim, e a garota estreitou os olhos para mim.
— Então existe algo que você está tentando esconder?
— É só um mal-entendido. Ah… com licença, você é…?
Qual é o nome dela mesmo? Olhei para baixo. Tem um crachá no peito dela. Certo, aquilo foi entregue na cerimônia de entrada. Mas ninguém usa de verdade.
Pelo crachá, essa pessoa é… Basori-san? Mas como lê o primeiro nome? E, nesse instante, ela cobriu o peito com as duas mãos.
— P-Por que você está olhando para o meu peito!? S-Só porque estamos sozinhos, não tenha ideias estranhas!
— N-Não, não, não! Não é isso! Eu só estava lendo seu crachá! Eu estava tentando ver como pronuncia o seu nome!
— É Ba-so-ri… Eu sou a vice-presidente do conselho estudantil, Basori.
Pelo distintivo do uniforme, ela é do primeiro ano. E ainda assim é vice-presidente? Mas, mais importante—
— E o seu primeiro nome?
— T-Tiara.
Ela murmurou, quase inaudível.
— Hã? O que foi?
— Ti-a-ra! Meu nome é Tiara! Qual é o problema!? O meu nome te ofendeu pessoalmente, por acaso!?
E assim, Tiara-san acionou outro "modo" e avançou na minha direção.

— N-Não, quer dizer… não é que o seu nome seja um problema nem nada. É só que é raro ver alguém realmente usando crachá, então—
— Está no regulamento da escola! Claro que eu uso! Sinceramente! No instante em que eu vi você tentando dar um jeitinho para fazer revisarem esse formulário, eu soube que não ia com a sua cara! Enquanto eu estiver viva e bem, eu não vou permitir esse tipo de coisa!
— Então… isso quer dizer que você não vai aceitar o pedido?
— Vou aceitar!
…Então vai aceitar, né.
— Então, você pode pegar o formulário agora—
— Ah! Já está tão tarde!? Espera! A presidente já vai chegar!
Tiara-san correu até o espelho na parede e começou a ajustar com cuidado o ângulo do laço.
— Uh, sobre o formulário—
— Eu disse que vou aceitar depois! Como vice-presidente, eu não posso estar com o uniforme desalinhado diante da presidente—
— Aff, por que esse uniforme tem quatro laços!? Sério!
Não reclame comigo.
Tiara-san está emanando uma energia caótica muito familiar. Me lembra um pouco as meninas do Clube de Literatura. Ou… espera. E se for assim com todas as garotas e eu só não sabia…?
Enquanto eu travava diante desse pensamento aterrorizante, a porta da sala do conselho estudantil se abriu.
— Oh? Está bem animado aqui hoje.
Tiara-san se endireitou como se tivesse levado um tranco. Uma garota alta acabara de entrar. A presidente do conselho estudantil, Hibari Hokobaru. Até eu, pelo menos, sei o rosto e o nome dela.
A presidente entrou, o cabelo comprido balançando, e me deu um sorriso gentil.
— Bem-vindo à sala do conselho estudantil. O que o traz aqui hoje?
— É… eu vim entregar os documentos do festival…
Ao ouvir isso, a presidente pegou o formulário das minhas mãos.
— Ah, então você é do Clube de Literatura. A Koto-senpai está bem?
— Ela… está. Como sempre.
— Como sempre, hein? Tem a cara dela.
A presidente soltou uma risadinha, passou os olhos pelo formulário e o colocou na caixa de documentos sobre a mesa.
— Está bem preenchido. Não se preocupe, sua solicitação foi aceita.
Hm, ela é bem mais gentil do que eu esperava. Eu tinha ouvido dizer que o conselho estudantil implicava com o Clube de Literatura, mas talvez fosse só preocupação desnecessária.
— Muito obrigado. Então eu já vou—
— Você pediu para a Shikiya ajudar a revisar, não foi?
O tom dela caiu só um pouquinho. A sala pareceu ficar um pouco mais fria.
— Ah, bem… ela apontou algumas coisas, mas quem escreveu de verdade foi um dos membros do clube…
— Eu não estou te repreendendo. Pedir orientação também é importante.
A presidente deu um passo à frente, com um "clique" seco dos sapatos, e parou bem diante de mim. No azul pálido dos olhos dela, por trás daquele sorriso, meu reflexo tremulou.
— Os alunos do terceiro ano vão se aposentar em breve. Por causa da Shikiya, eu fechei os olhos para certas coisas… mas daqui para frente não vai ser assim.
Ela deu um peteleco na minha franja com um dedo e virou de lado, como quem encerra a conversa.
— Comporte-se de um jeito que não envergonhe um aluno da Tsuwabuki.
— S-Sim, senhora!
Eu me curvei e fugi da sala do conselho estudantil o mais rápido que pude. Hibari Hokobaru, presidente do conselho estudantil do Colégio Tsuwabuki. Não sei o que é, mas ela tem uma presença absurda. Os olhos frios dela cortam como lâminas… e o dedo com que ela cutucou meu cabelo tinha vários curativos pequenos grudados.
E não eram curativos qualquer. Eram estranhamente fofos, com ursinhos desenhados. Pensando bem, eu ouvi passos ecoando pelo corredor, mesmo estando dentro do prédio. Por que ela não estava usando os sapatos internos…?
Curioso, parei. As vozes de dentro da sala do conselho estudantil vazaram para o corredor.
— Presidente, por que a senhora está usando sapatos de rua?
— Eu tinha um assunto perto do campo… oh? Onde foram parar meus sapatos internos? Tiara-kun, você viu?
— N-Não! Então eu vou procurar!
…Do que é que elas estão falando?
Eu não sei, mas se ela está de sapato de rua, não era para o sapato interno estar no armário…? Bom, provavelmente eu não vou ter muito a ver com o conselho estudantil daqui em diante. Melhor evitar ao máximo.
Acelerei o passo e deixei a sala do conselho estudantil para trás.
*
Naquela tarde, depois da aula. Yanami, Yakishio, Komari e eu. Os quatro calouros reunidos na sala do clube estávamos sentados ao redor da mesa com expressões sérias. Distribuí os materiais para todo mundo e olhei ao redor mais uma vez.
— Certo, a exposição do Clube de Literatura para o Festival Tsuwabuki está definida. Por favor, deem uma olhada no documento à frente de vocês.
Com minhas palavras, todas voltaram a atenção para a folha.
— O tema oficial é "Leitura que Dá para Comer". Vamos apresentar autores famosos e obras literárias com foco em comida. Paralelamente, vamos vender ou distribuir lanchinhos relacionados às exibições, cada um com uma explicação curta.
Yanami inclinou a cabeça, confusa.
— Então a gente vai tanto distribuir quanto vender?
— P-Para c-crianças p-pequenas… a gente v-vai dar.
Komari respondeu por mim. Eu assenti e continuei.
— Se vocês olharem as fotos do Festival Tsuwabuki do ano passado, dá para ver que muitos visitantes vieram com crianças pequenas. Eu achei que seria legal se famílias pudessem passar aqui e descansar um pouco. A gente também está pensando em estender alguns tatames para criar uma área de descanso.
Yakishio, que desistira de ler bem cedo, se recostou na cadeira de tubo.
— Então por que não distribuir lanchinhos para todo mundo? A gente tem orçamento do clube para comprar ingredientes, não tem?
— Se dermos para todo mundo, vai acabar rápido com gente que só vem pela comida de graça. Então, para crianças do fundamental e menores, vamos dar cartões de carimbo, e elas recebem o lanche depois de verem todas as exibições.
No total, serão quatro painéis de pesquisa. Cada um vai ter uma folha grande de cartolina — mais ou menos um metro — pendurada, com um ponto de carimbo ao lado. As crianças vão circular com o cartão de carimbos, pegando um em cada painel.
Yanami mexeu no cabelo enquanto examinava os papéis, com o rosto pensativo.
— Mas você não acha que algumas crianças vão só pegar os carimbos e correr direto para os doces? Se eu estivesse no fundamental, eu faria isso com certeza.
É, você faria mesmo.
— Tudo bem. É um festival. O importante é elas se divertirem. Crianças bem pequenas nem conseguem ler os painéis. Se o clima da exposição passar, já é o suficiente.
— Se a gente vai até esse ponto, por que vender também?
— Se a gente só distribuir doce e atrair gente, não vira muito "resultado" oficial, certo? Oficialmente, isto é um projeto do Clube de Literatura centrado em exposição literária e venda de lanchinhos temáticos. Mesmo que não venda, a gente ainda pode dizer que as pessoas vieram ver os painéis, não só pela comida. Além disso, dar lanches só para crianças pequenas significa que quase sempre elas vêm com um responsável, o que ajuda a aumentar nosso número de visitantes.
Todo mundo levantou a cabeça para me encarar.
— Uau… Nukumizu-kun, você é meio maligno.
— O Nukkun tem um lado sombrio~.
— A-Arrependa-se…
As meninas do Clube de Literatura me cobriram do que eu acho que é elogio. E Komari, por que você está me repreendendo?
— Enfim, a gente resolve os detalhes depois. A Komari fica responsável pelos painéis de pesquisa. Eu cuido dos lanches e da montagem do espaço. Quanto à revista do clube, os veteranos vão ajudar, então eu coordeno isso com eles.
Yakishio levantou a mão com um "sim" bem casual.
— E eu faço o quê? Se for trabalho braçal, deixa comigo!
— Você tem os eventos da sua turma e do Clube de Atletismo, né? Se você puder ajudar na montagem no dia anterior, já vai ser uma mão na roda. A gente tem que passar o conteúdo dos painéis para cartolinas grandes.
— Fechado. Vou ver se consigo ser dispensada. E você, Yana-chan?
— A minha turma só tem um projeto. Mas e você, Nukumizu-kun? Você não tem nada na sua turma também?
— Tenho?
Agora que ela falou, acho que me colocaram responsável pelos adereços da nossa apresentação. Eu tinha esquecido completamente.
— Komari, e a sua turma? Está tudo bem?
— E-Eu? E-Eu não me d-disseram n-nada, então a-acho que e-está tudo bem.
O jeito como ela disse isso é levemente preocupante, mas vou acreditar.
— E também: eu trouxe alguns lanches-protótipo. Eu queria ouvir a opinião de vocês.
Fui até a prateleira pegar o saco de papel—
— Ué? Eu deixei o saco bem aqui. Alguém viu?
Yakishio e Komari viraram os olhos ao mesmo tempo para Yanami. Yanami desviou o olhar, rápida.
— Yanami-san… não me diga…
— Eram as amostras?
Eu assenti, e ela me mostrou um sorriso sem vergonha nenhuma.
— Tudo bem. Estavam muito bons.
Bom… que bom. Então por hoje, está resolvido. Joguei a alça da mochila no ombro e me levantei, mas nenhuma das garotas se mexeu.
— Yakishio, você não tem treino? Tem certeza de que dá para não ir?
— Então. A Amanatsu-chan mandou eu ficar na sala do clube depois da aula. Aí eu só fiquei esperando.
Amanatsu-sensei mandou a Yakishio? Yanami também assentiu, revirando os olhos de um jeito brincalhão.
— Ela me disse também. Ela não falou nada para você, Nukumizu-kun?
Não falou. Bem, não é como se ela precisasse ter assunto comigo. Mas se a Amanatsu-sensei reuniu Yanami e as outras na sala do Clube de Literatura, então… Nesse momento, ouvi vozes no corredor. A conversa se aproximando parou bem diante da porta e, em seguida, a porta se abriu com força.
— Ohh, todo mundo aqui.
A entrada animada era da nossa professora, Konami Amanatsu. Ela estava mais energética do que o normal.
— Sensei, o que traz a senhora até a sala do clube?
— Ah, qual é. Foram vocês que vieram me pedir ajuda, lembram?
Ajuda…? Ah, ela quer dizer o lance de achar orientador. Enquanto a gente ainda tentava acompanhar o ritmo, Amanatsu-sensei gesticulou para o corredor.
— Certo, pode entrar~.
— Desculpe pela intromissão.
Quando a dona da voz entrou na sala do clube, o ar mudou por completo. Uma figura elegante, com as pernas envoltas em meias que subiam sob a saia. O perfume suave e o cheiro de maquiagem fizeram meu nariz coçar e, por um instante, minha cabeça ficou meio tonta.
— Prazer em conhecê-los. Embora eu provavelmente já tenha visto alguns de vocês na enfermaria.
A mulher se sentou numa cadeira vaga, cruzando as pernas com confiança enquanto nos encarava.
— Eu sou Sayo Konuki, a nova professora orientadora do Clube de Literatura. Vamos aproveitar bons momentos juntos a partir de agora, certo?
Yanami e Yakishio soltaram um "oooh" alto, enquanto Komari se encolheu no canto da sala, claramente apavorada. É, faz sentido. Se ela é a enfermeira, não é estranho que não tenha um clube para orientar.
E já que pedimos para a Amanatsu-sensei arrumar alguém, esse resultado era inevitável.
— E-Então… igualmente, muito obrigado por vir.
Eu me curvei sem jeito, já sentindo um fiapo de arrependimento. Talvez eu não devesse ter pedido à Amanatsu-sensei afinal…
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