Todas essas Protagonistas Perdedoras! Japonesa

Tradução: NiquelDBM, Okuma

Revisão: DeeRabbit


Volume 1

Capítulo 3: Poxa, Chika Komari, você foi derrotada antes mesmo de começar.

É o primeiro dia de viagem, e o sol está forte. Estamos na época das chuvas, mas, segundo
a TV, hoje não vai chover. Aliás, será que realmente estamos na época das chuvas?

O Clube de Literatura teve que pegar um trem e depois um ônibus para chegar aqui. Agora
estamos na Praia Shiroya, perto do albergue.

Com o pano estendido na areia, fiquei olhando para o mar sob o calor intenso. Começo a perceber que estou ficando meio tonto por causa disso.

— Ei, Nukumizu. Bom trabalho aí, cara.

Quem falou isso foi o Shintaro, enquanto abria o guarda-sol para a gente se proteger do sol.

Tenho que admitir, se não fosse por ele, eu já estaria aqui sozinho com essas malucas.

— Ah, do que cê tá falando?

— Da Yanami e a Yakishio. Nunca esperei que você fosse trazer duas meninas tão lindas assim para o clube.

Ele olhou para o vestiário, inquieto.

— E agora ainda estamos na praia com elas.

— Me desculpe por isso. Isso foi ideia da Yanami-

— Valeu demais! É sério!

Ele agarrou minhas mãos e apertou.

— Ha? Você gosta da praia? É isso?

— Tô falando de biquínis, cara. Biquínis. É raro de ver as meninas do nosso clube usando
biquíni, não acha?

— Ué, essas duas aí são minhas colegas. Já as vejo de maiô nas aulas de natação.

— Presta atenção! Maiôs e biquínis são bem diferentes!

O design deles era realmente diferente, mas, para ser sincero, não fazia muita diferença pra mim.

O Presidente se ajeitou e virou para mim.

— Me escuta. Os maiôs da escola são obrigatórios. Elas são obrigadas a usar aquilo, querendo ou não.

— Tá?

— Porém, os biquínis são usados por vontade própria! Elas usam porquê gostam! Tá
entendendo onde eu quero chegar?

— …Por favor, continue.

O Presidente disse algo que despertou meu interesse.

— Tipo, as meninas ficam com vergonha de mostrar os ombros ou as coxas. As pessoas até chegam a falar coisas horríveis das garotas mesmo que elas tenham só mostrado a barriga. Porém… Estamos na praia, e essa é a desculpa perfeita para elas usarem biquínis, que é a mesma coisa de uma roupa íntima normal.

Tamaki cerrou os punhos e olhou para o céu, esperançoso.

— Seremos perdoados se olharmos para os biquínis delas. Não, pensando bem… é pior. Não seremos perdoados se não olharmos.

Entendo. Não posso argumentar contra isso. Deve ser o que chamam de mágica do verão.

— Entendi. Nunca pensei nisso.

— Tudo bem.

— Mas tem algo que eu quero acrescentar.

— Belê. Fala aí.

— Você disse que os maiôs da escola são obrigatórios, certo?

— Sim, eu disse.

— Então, quer dizer que elas ainda precisam mostrar partes da pele… Mesmo que não queiram isso…?

— Entendi. Então, isso deixa as aulas de natação ainda mais excitantes.

O Presidente apenas concordou com o que eu disse.

— Por exemplo, é como você olhar as garotas meia-humanas nas lojas de escravos. Tu sabe muito, hein, mano.

— Não, eu não entendi esse seu exemplo aí.

Não posso te defender nisso.

— Que merda vocês dois tão falando aí?

Tsukinoki apareceu e beliscou a orelha do Presidente.

— Ai! A propósito, Koto, você não está de biquíni?

Tsukinoki beliscou ainda mais forte após ouvir isso.

Os gritos do Presidente foram tão altos que provavelmente mudaram a escala de decibéis.

Ao olhar para Tsukinoki, percebi que ela estava vestindo um maiô preto com cordões no busto.

— Tudo bem. Vamos para o mar.

O Presidente foi levado embora.

— Oh, você colocou um guarda-sol aqui. Obrigada, Nukumizu.

— Yanami.

A Yanami segurava um copo de raspadinha de gelo. No momento em que eu ia falar, minha atenção foi completamente capturada pela pele dela.

Ela estava vestindo um biquíni bastante comum, mas isso parecia ter um efeito ainda mais
intenso. Como algo tão simples pode parecer tão especial?

Apesar de seu jeito de comer, a cintura dela continuava finíssima. É difícil descrever isso,
mas…

Outra parte do corpo dela realmente se destacou. Ela tinha razão, o “maiô do ano passado”
não teria chance de cobrir tudo.

Não, não posso me deixar levar por esses pensamentos. O melhor é simplesmente agradecer aos deuses pela visão que me foi concedida.

— Ué… Gostou tanto de me ver de biquíni que ficou até sem palavras, foi?

— Eh? Não! Hein? P-Por que eu faria isso?!

Isso definitivamente não vai enganar ninguém.

Yanami se refugiou na sombra do guarda-sol.

— Vou comer um pouco antes de ir para a água.

— Ei, vem também, Yana! O mar está logo ali!

Quem apareceu agora foi a Yakishio, segurando uma bola de vôlei de praia em uma das mãos.

Com um olhar animado, ela observava o mar. Ela também estava de biquíni, um modelo que não possui faixa nos ombros, revelando claramente a marca bronzeada de sua pele na parte do peito. A parte superior do biquíni era aberta no meio, segurada por apenas alguns cordões.

Então, será que no meio dos peitos dá pra ver um pouco dos… Não, por enquanto, tudo que posso fazer é elogiar quem criou esse design de biquíni. Será que ele aceitaria cupons de desconto da Amazon?

— Você também, Nukkun! Vamos lá!

— Vou cuidar das nossas coisas por enquanto. A Yanami disse que vai comer antes. Yakishio, você pode ir na frente-

— Oh-ho, Nukumizu, cê tá me desafiando?

…Desafiando? O quê?

Hein? A Yanami terminou toda a raspadinha antes mesmo que eu pudesse perceber.

— Estava uma delícia!

— Já comeu tudo?

— Raspadinha é praticamente uma bebida, Nukumizu- Ai, ai, ai!

Yanami tropeçou, enquanto pressionava a mão na cabeça.

— Tá vendo, não se pode comer coisas geladas tão rápido.

— Você está bem, Yana?

— Minha cabeça tá doendo…

Yanami estava lacrimejando.

Eu sei que já disse isso antes, mas essa garota é meio burra, né?

— Yanami, você só deve ir depois que a dor passar. Eu fico aqui vendo nossas malas.

— Obrigada, já estou melhor. Vamos, Lemon.

— Nukkun, você deveria vir também!

As duas garotas corriam pela praia, sendo molhadas pelas ondas.

Yakishio lançou a bola de vôlei nas costas do Presidente com toda a força. Espera, essa não é a primeira vez que esses dois se encontram?

Enquanto eu tentava gravar aquelas silhuetas perfeitas na minha mente, uma sensação ruim me atingiu. Parecia que alguém estava planejando algo contra mim.

Alguém chutou minhas costas com o pé descalço enquanto eu pensava isso.

— N-Nukumizu. T-Tá olhando que n-nem um tarado.

Ah, eu havia esquecido completamente da Komari.

Ela estava vestindo uma jaqueta de mangas longas e se sentou um pouco afastada de mim.

— Você não vai com eles?

— E-Eu estou b-bem aqui.

O Presidente estava visivelmente feliz por estar cercado por três garotas de biquíni.

Sim, ele parecia realmente contente. Oh, e parece que trouxeram uma baleia inflável que estão enchendo.

Quanto a Komari… Bom, ela observava todos se divertindo e parecia um pouco irritada.

— Por que você não vai se divertir com eles? É bem raro estarmos todos reunidos assim,
ainda mais na praia.

— C-Cala a boca.

Komari tirou o celular, que estava dentro de um saquinho à prova d'água. E, sem nem levantar o rosto, ela falou:

— A-Aliás, Nukumizu, você gosta da Yanami, né?

— Ah? Por quê eu gostaria dela?

Nunca pensei sobre isso. Bom, ela ainda gosta do Sosuke Hakamada, e eu vi ela levando um fora há pouco tempo.

— É-É porque vocês dois estão s-sempre juntos.

— Não é porque você só vê ela quando ela já está comigo?

As pessoas realmente pensam essas coisas quando veem um garoto e uma garota andando juntos?

Eu e ela nem conversamos na sala. A Yakishio deve ser a única que sabe que a gente se conhece.

— Além disso, a Yanami e eu só nos conhecemos porquê algo aconteceu. Se isso conta como gostar dela, eu seria aqueles esquisitos que acham que a menina gosta deles só porque ela foi legal com eles.

— Eh.

Komari fechou o zíper da jaqueta. Ela se distanciou ainda mais de mim.

— …Bem, o que estou querendo dizer é que eu não vou gostar de alguém só porquê ela fala comigo.

E ela é bem mal-educada.

Naturalmente, olhei para o maiô que Komari estava usando.

— Ah, você tá com o seu maiô da escola.

— É-É. Eu não t-tive tempo de comprar outro.

Komari olhou para mim com indelicadeza.

— Aposto q-que você comprou essa s-sua roupa às pressas, hein?

— Haha… Não, essa roupa aqui é do ano passado. Ela parece nova?

— M-Mas ainda d-dá pra ver a etiqueta.

O quê?! Ela me pegou.

Komari riu igual uma diabinha enquanto eu procurava pela etiqueta na roupa.

— …Tudo bem. Sim, comprei ontem no caminho para casa. Belê, Komari, cê venceu essa.

Cerrei meus punhos.

— Tô vindo para a praia com garotas, não é? Até eu posso me animar um pouco com isso!

Não sei se eu devia ter dito algo assim para a Komari, já que o olhar dela está cada vez mais perfurante.

— M-Mas não fazemos q-quase isso nas aulas de n-natação?

— Não, é diferente. Você não entende?

— B-Bom, então m-me deixe te e-explicar… I-Imagine que você s-saiu com algum amigo
e…

Parei de imaginar quando cê disse a palavra “amigo”.

Komari notou minha expressão.

— B-Bem, d-digamos que você c-contratou um amigo…

Tudo voltou ao que era antes.

— S-Se os seus amigos t-te chamarem para jogar algo, o q-que você escolheria? Jogar bola?

— Não.

Sem dúvida nenhuma.

— C-Corrida?

Acho que não.

— …Komari, já chega. Você ainda não entendeu.

Yanami estava se divertindo muito com os outros, todos montados na baleia inflável.

Yakishio se levantou, tropeçou e espalhou água por toda parte, fazendo com que todos rissem.

— C-Como assim…?

— Se for uma menina de biquíni… Eu jogo. Jogo o que for.

Essa coisa toda de “amigo contratado” não parece muito legal pra mim, não.

— Pode ter certeza que eu jogo o que ela quiser.

Me levantei após tomar essa decisão.

Komari me olhou como se estivesse vendo a coisa mais nojenta do mundo.

— B-Bem, que tal você morrer agora?!

 

 

Fechei os olhos e estendi meus membros na areia escaldante.

…Acho que nunca vou me esquecer desse dia.

Ir à praia com garotas de biquíni enquanto sou jovem… Isso vai sustentar minha vida solitária para sempre.

Senti algo frio encostando no meu rosto. Foi a Yanami. Ela estava distribuindo suco para os membros do clube.

— Lembrem de se hidratarem bem. Querem almoçar?

Yanami abriu os hashis. Ela estava prestes a comer um yakisoba inteiro. Isso aí não era pra ser o almoço?

A Tsukinoki prendeu o cabelo enquanto olhava para todos nós.

— Vamos comprar alguma coisa e comer aqui. O que devemos pegar?

Yanami levantou a mão no momento em que a Tsukinoki pedia sugestões de todos.

— Que tal yakisoba?

O cheiro do molho era irresistível, e sua aparência indicava que estava muito bem feito…

Talvez estivesse começando a dar um pouco de fome.

— …Yanami, você já não está comendo yakisoba agora?

— É que eu tô com fome, mas não tá muito bom. Minha intuição me diz que a loja da esquina vai ser melhor.

Yanami sugou o macarrão logo após dizer isso. Parece até que ela estava prestes a pedir outra porção.

— Bem, eu vou lá.

Yakishio se enxugou com uma toalha e se levantou.

— Beleza. Nukumizu, vá junto com ela.

O Presidente disse isso enquanto olhava ao redor, bem atento com qualquer pessoa que passava por perto.

— As pessoas tentam puxar assunto com as meninas que andam sozinhas, então temos que evitar isso e ficar em alerta.

— Mas isso só acontece nas novels e mangás, certo?

Bem, decidi não comentar mais sobre isso aqui.

Yakishio e eu caminhamos pela praia.

Andar ao lado de uma garota de biquíni pode ser um pouco desconcertante, mas, honestamente, eu estou gostando... Só que, comparado a ela, pareço uma criança do ensino fundamental, não é?

— Fomos para casa um pouco tarde ontem. Você chegou bem?

— Claro. Eu sempre saio essas horas do clube.

A conversa terminou aí. Droga, eu não devia ter falado sobre o que aconteceu ontem. Estou decepcionado com minhas péssimas habilidades de comunicação.

— Eh, Nukkun, não me diga que tá preocupado comigo pelo que aconteceu ontem?

Yakishio olhou para mim. Eu fiquei calado, sem jeito.

— Bem, eu só senti que falei algo desnecessário. Desculpa.

— Hmm… Como eu posso dizer? Sim, eu tô bem triste com isso ainda. Tipo, se eu quiser chorar agora, eu vou. Mas, tipo, eu decido se faço isso ou não. Eu decido se fico triste ou não. No momento, só quero me divertir com todos.

Yakishio forçou um sorriso. Ela chutou a areia com força.

— Não acredito que ele conseguiu uma namorada assim…

— Bem, é que o Ayano é inteligente e bonito, então…

— Né?! E não é só isso. Ele é bem-humorado e gentil com qualquer um.

Depois disso, Yakishio ficou fraca, deprimida.

— …Mesmo que estejamos juntos há anos. Ele nem me vê como uma garota de verdade, não é?

— Bom, pode ser, mas não acho que isso seja tão ruim, né?

— Ei, essa é uma maneira muito estranha de me confortar.

É, eu também acho que seja.

Yakishio se aproximou de mim com uma cara séria.

— Yakishio... Bom… Vamos esquecer isso e nos divertir hoje.

— Sim, você tem razão.

Yakishio parou de repente e abriu um sorriso largo. Os dentes dela eram tão brancos.

— Hehehe.

— …O que?

Ela riu e segurou minha mão de repente.

Oi?! O quê?!

— Tudo bem, vamos lá!

O que foi? Yakishio ignorou minha confusão e começou a correr. Eu segui ela
rapidamente.

— E-Espera!

Uwah, ela é rápida. Parece que ela vai arrancar meu braço a qualquer momento.

Estou prestes a morrer.

Minhas pernas não aguentaram e eu caí na areia. Puxei Yakishio para baixo, e ela também caiu comigo.

— Nukkun, você é muito lento! Lento!

— Não, é você que é rápida demais, Yakishio!

Me levantei, coberto de areia.

Yakishio continuou deitada na praia enquanto ria.

— Você é tão lento! Te ver todo cheio de areia é tão engraçado!

Yakishio caiu na gargalhada.

— Ha?! O que isso tem a ver com ser lento?!

O que ela tá tentando dizer?

Limpei o rosto com o braço, mas não ajudou em nada. Agora, meu rosto estava coberto de areia também.

— Para! Minha barriga tá doendo!

Yakishio mal conseguia conter o riso enquanto rolava no chão. Quanto a mim, eu só aceitei enquanto esperava ela terminar.

— Ah… Tudo bem…

O rosto da Yakishio também estava cheio de areia.

Ela secou as lágrimas que escorriam dos cantos dos olhos.

— …Yakishio, vamos almoçar…

— Você podia ser mais fofo comigo, sabia? Nós temos a mesma idade, também.

Yakishio estendeu a mão para mim. Ela ainda estava no chão.

— Vai.

— Hmm? O que foi? Tem algo na sua mão?

Yakishio piscou.

Então, ela se limpou e levantou sozinha.

— É, você é exatamente como a Yana disse. Eu não gosto disso em você.

— "Disso" o quê?

Yakishio bateu levemente no meu peito

— Sabe, às vezes, as meninas só querem ser mimadas um pouco.

— Ah, tendi.

Parece que aprendi algo hoje.

Yakishio arregalou os olhos enquanto me olhava. Ela murmurou algo.

— Nossa, é por isso que não gosto disso em você.

Do que ela tá falando, afinal?

 

 

— Obrigada por esperarem. Estamos de volta.

— Ei, Yakishio, para de balançar o corpo.

Voltamos da "barraca mais distante" com nossos corpos cobertos de areia e yakisoba nas
mãos.

— Poxa, vocês dois realmente nos fizeram esperar.

Yanami já havia acabado seu primeiro prato de yakisoba e logo pegou o segundo, alegremente. Ela está sempre com fome. É impressionante, Anna Yanami. Talvez seja por isso que as pessoas se sentem tão seguras ao seu lado. E é melhor eu não subestimar a forma sutil com que ela fica com a maior parte do yakisoba enquanto "divide" com os
outros.

— Hm, Komari, você não vai comer?

Komari não está comendo. Ao invés disso, está mexendo na areia com os dedos, preocupada.

— O P-Presidente está lendo meu romance.

Ah, entendi. Agora, finalmente, parece uma viagem do Clube de Literatura.

Parti os hashis com a boca.

O presidente levantou a cabeça do celular enquanto pegava um pouco de yakisoba.

— Terminei. Hmm, a escrita é interessante. Vamos enviar hoje à noite.

— E-Eu entendi.

Komari sorriu, aliviada.

— São cerca de 10 mil palavras no total, certo? Vamos revisar a parte que vai ser enviada e dividi-la em três capítulos.

— D-Dividir…?

— Sim, normalmente os trabalhos são enviados em capítulos de 3 a 4 mil palavras. O gancho precisa ser interessante o suficiente para satisfazer os leitores. Títulos e introduções também são obrigatórios.

Eu escutava a conversa deles enquanto comia o yakisoba. O tempero picante invadiu o meu nariz. Entendo. Isso realmente faz jus à recomendação da Yanami. O molho tem um sabor bem único.

— J-Já coloquei o t-título.

— Hmm, acho que o título está bom. Que tal adicionar um subtítulo que expresse o conteúdo?

O presidente ajustou o título de Komari e até sugeriu um subtítulo, como aqueles que você vê no Vamos Nos Tornar Autores!

…Aliás, esse macarrão é realmente bem firme. Não é o tipo barato que você encontra por aí. Acredito que seja feito em uma fábrica que distribui fresquinho todos os dias.

Olhei para a Yanami, que ergueu o polegar para mim, toda orgulhosa.

— Q-Qual deve s-ser o subtítulo?

— Hmm… por exemplo, digamos que o título seja "O Clube de Literatura Foi à Praia". Nukumizu, o que você adicionaria?

— Eh, é minha vez?

A bola foi passada para mim de repente. Eu estava completamente focado no meu yakisoba, sabia? Mas, com garotas de biquíni ao meu redor, não quero dizer nada idiota.

— Que tal "E Nenhum Deles Voltou"?

Fiz o meu melhor para acompanhar a ideia do presidente. Ele concordou.

— Esse é um bom subtítulo se for uma novel de mistério. Um título de uma obra famosa ajuda a guiar os leitores.

— Q-Qual o presidente usaria?

— Deixa eu pensar... Pela minha experiência, eu gostaria que fosse "Mas Eles Não Sabiam Que Essa Praia Era de Nudismo"! Ou "Quanto Mais Mostrar, Mais Irá Ganhar". Aposto que subtítulos assim atraem muitas visualizações...

Tsukinoki deu um tapa na cabeça do presidente antes que ele pudesse continuar. O presidente se curvou, claramente com dor.

— Certo, Shintaro, já chega.

— K-Koto... ei, não estou pedindo pra você tirar a roupa, tá?

— P-A-R-A!

Tá bom, vocês dois precisam parar. Esse flerte de vocês está me deixando realmente irritado.

— Eh, Yana, acho que o Clube de Literatura está fazendo algo incompreensível.

Yakishio disse isso enquanto procurava os pedaços do seu yakisoba com os hashis.

— Pois é. A propósito, Lemon, o seu tem carne?

— Tem polvo, mas não vi carne.

— Eu quero carne...

— Eu quero...

Yanami e Yakishio comeram o yakisoba com os olhos brilhando. Elas parecem duas idiotas que se dão bem.

— T-Tirar…? N-Nós vamos tirar?

Komari murmurou algo enquanto olhava para o celular.

— Komari, isso foi só um exemplo. Não é necessário que os personagens tirem a roupa.

— E-Em outras palavras, você vai t-tirar a sua roupa também, Nukumizu?

Como isso chegou em mim de novo?

— Não vou. Ninguém precisa fazer isso. Vocês deviam comer.

 

 

Já estávamos no intervalo pós-almoço quando Yakishio de repente se levantou. Talvez estivesse cansada de ficar sentada.

— Tem um evento ali do outro lado da praia? Vamos dar uma olhada.

— ...Acho que tem umas barraquinhas.

Yanami murmurou enquanto mastigava um milho frito. Claro, Yanami se levantou também, como se estivesse cheia de energia. Involuntariamente, levantei os olhos e vi o estômago de Yanami bem na minha frente.

— Ah, espera, Yanami. Seu casaco.

Yanami olhou para o casaco que eu estava segurando e arregalou os olhos, surpresa.

— Casaco? Acho que o protetor solar já resolve, né?

— Não, quero dizer… seu estômago...

Desviei o olhar depois de falar isso.

2 porções de yakisoba + milho frito = barriguinha saliente.

Yanami arrancou o casaco das minhas mãos e o jogou direto na minha cara.

— E-Eu tenho meu próprio casaco! É por isso que eu não gosto desse seu lado, Nukumizu!

Ela vestiu o casaco e saiu rapidamente, ainda segurando o milho frito.

Yakishio sorriu para Komari, que estava olhando para o celular.

— Komari devia ir junto também. Você ficou sentada o dia inteiro?

— Eh!?

Os olhos de Komari se arregalaram enquanto tentava responder a Yakishio, ainda com o celular nas mãos. O Presidente pegou a mão de Komari.

— P-Presidente!?

— Komari devia ir também. Considere isso como inspiração para a sua novel.

— S-Se o presidente diz, então eu…

— Que menina obediente. Koto, você também devia ir com elas.

— Certo, Komari, vamos lá.

Tsukinoki segurou a mão de Komari e correu atrás delas. O presidente e eu ficamos observando em silêncio.

— Será que é seguro deixar as garotas sozinhas? Ninguém vai tentar puxar conversa com elas?

— Está tudo bem se a Koto estiver junto. Ela sempre impede os outros de terem um romance.

Não sei se isso é confiança do Presidente nela. Ele pegou o celular.

— Além disso, quero me preparar para a sessão de escrita hoje à noite.

— É verdade, essa viagem supostamente é uma sessão intensiva.

Eu também preciso escrever alguma coisa.

Enquanto verificava minhas anotações no celular, recebi uma mensagem do Presidente. Acho que tem um anexo também.

— O que é isso?

— Você não quer dar uma olhada na novel da Komari?

A postura do presidente parecia um tanto convencida. Com curiosidade, abri o documento.

 

 

Relatório do Clube de Literatura:

“As Crônicas Calorosas de um Café Youkai”, uma obra de Chika Komari

Yuri Mizuhara, uma estudante do 1º ano do ensino médio.

Um dia, ela esbarrou em um animal no caminho para casa.

— Uma raposa…?

Os olhos de Yuri se fixaram na cor chamativa do pelo do animal. A raposa tinha pelos prateados, algo que chamou sua atenção.

Yuri, então, começou a correr atrás da raposa.

A raposa entrou em uma rua que Yuri nunca tinha passado antes.

Ao entrar na rua, Yuri se deparou com um prédio antigo coberto por hera. Como se o prédio estivesse chamando por ela, a porta se abriu sozinha.

— Olá, tem alguém aí?

Havia um homem alto com roupas de chef lá dentro. Yuri olhou, em choque, para o longo cabelo prateado dele.

— Oi, você me seguiu. Venha, sente aqui. Posso servir uma xícara de chá para você.

— Ah, não precisa…

— Esse lugar é conhecido como a Rua das Pausas. Dê uma pausa das coisas da vida e tome um chá.

Um jovem garçom apareceu, enquanto Yuri parecia confusa.

— Nossa, faz tempo que não vejo clientes aqui. Venha, sente-se.

O jovem se autodenominou Sumire ao cumprimentar Yuri com seu sorriso encantador.

— Bem-vinda ao Lar Perdido da Rua das Pausas.

Depois disso, a garota começou a frequentar o lugar.

 

Como de costume, Yuri estava sentada perto da janela enquanto observa a rua.

O lojista, que era chamado de “jovem mestre”, só aparecia a cada 3 dias. Sumire geralmente era a única pessoa presente. Isso não era um problema tão grande, já que quase não haviam clientes.

Yuri pegou a xícara e respirou o aroma suave do chá de camomila, como de costume.

De repente, um homem entrou pela porta, irradiando uma aura assustadora que os humanos não possuíam.

O rosto de Sumire imediatamente ficou pálido.

— Mestre!

— Hoje é o dia prometido. Traga-me aquele prato.

— D-Desculpe, mas o Jovem Mestre não veio hoje…

— Bom, então, como foi combinado, terei que destruir este lugar.

Sumire agarrou Yuri, trêmula.

— Por favor, faça algo, Yuri! Tudo aqui vai sumir se alguém não fizer o prato que ele quer! Por favor, faça a comida para ele!

— Eh? Eu não sei… Sumire, você não sabe cozinhar?!

Sumire murmurou, triste.

— Não posso usar o fogo...

Yuri não tinha muita experiência cozinhando.

Ela decidiu fazer um omurice, já que é a única coisa que sabe fazer. Enquanto isso, o homem pegou a colher, desconfiado.

Um, dois… o homem degustava o prato de Yuri, uma colherada de cada vez. O rosto dele faz parecer que ele não estava gostando.

Depois disso, ele balançou a cabeça e largou a colher.

— Da próxima vez que eu vier, faça algo que seja comestível, pelo menos.

Sobrou metade do omurice no prato. O homem saiu depois de dizer isso.

— Você é incrível, Yuri! O Mestre sempre vai embora depois de uma colherada! Dessa vez ele comeu quase tudo.

Então, o lojista apareceu atrás de Sumire, que estava super alegre.

— O papai chegou.

— Jovem mestre!

O homem comeu o omurice que sobrou no prato.

— É simples…

Ele colocou a colher no prato.

— …mas até que não é ruim.

— É o quê?! Eu fiz isso pra salvar esse lugar, você tem que me agradecer! E isso é jeito de tratar um cliente?!

— Bem, que tal você parar de ser nossa cliente? Você será nossa chef de cozinha a partir de amanhã.

— Eu não!

Yuri tentou negar, mas o homem a empurrou contra a parede.

— Ei, não foi você quem me perseguiu até aqui primeiro? Sua perseguidora.

— Eu estava perseguindo uma raposa prateada, não você-

O homem levantou o queixo de Yuri com a ponta do dedo.

— Meu nome é Tsukiko, a Raposa-da-Lua. Lembre-se disso.

O homem sussurrou no ouvido de Yuri.

— Vou deixar meu cheiro marcado dentro de você.

 

 

…Entendi. Então é isso.

Olhei para as nuvens no céu depois de terminar de ler a história da Komari.

— …Entendi. Então é isso.

Eu pensei alto dessa vez. Não é o estilo que gosto, mas é uma boa escrita.

Terminei de ler.

— É muito bom, não é?

Tamaki olhou para mim, alegre.

— A escrita da Komari é boa.

— Sim, é. Eu não acho que eu conseguiria escrever algo nesse nível.

Não pretendo desistir tão fácil, mas deve ser verdade para mim também.

— Mas agora nós temos membros novos. Parece que o Clube de Literatura finalmente pode se estabelecer.

— A propósito, o que você escreveu, Presidente?

— Eu? Bem, eu já escrevo algo no “Vamos Nos Tornar um Autor” há uns 3 anos.

— Eh? Que incrível… Posso ver?

— É um pouco constrangedor mostrar para as pessoas…

O Presidente pegou o telefone, envergonhado. O título era um pouco familiar para mim.

“A Escrava Que Escolhi é, na Verdade, Uma Aventureira Classe S, Então Comecei a Viver às Custas Dela”

…Não, espere, eu já li essa.

— Eu conheço essa! Eu já li uma vez.

— Sério? Nossa, é a primeira vez que encontro com um leitor na vida real.

Eu já ouvi falar sobre escritores que são estudantes do ensino médio, mas nunca imaginei que o Presidente fosse um deles. Ele é o autor com mais de 20.000 pontos acumulados, o sensei Tarosuke.

— Você tem uma avaliação incrível no site. Já pode publicar livros de verdade se quiser, né?

— Não. Ainda tem muitas pessoas que são bem melhores que eu.

Isso é sério? Tem milhares de pessoas que leem o seu trabalho, sabia?

— A Yanami disse que ia me enviar um rascunho da história dela quando terminasse. E você, Nukumizu, como está indo?

— Eu fiz um resumo da história. Mas, tipo, o conteúdo ainda está muito “simples”. Como eu devo dizer? Tipo, eu nem sei como deveria escrever…

— Bem, você tem que começar pensando no título e na introdução. Em momentos assim, você tem que se esforçar ainda mais para fazer algo, mesmo que seja só uma linha.

Esse conselho veio de alguém que já escreveu mais de 1 milhão de palavras, então eu apenas concordei.

— Eu enviei o resumo para você ontem. O que achou? Vou fazer o resto hoje à noite…

— Bem… a protagonista feminina não é bem escrita.

— Quer dizer que a protagonista se apaixonar pelo protagonista não é uma ideia boa?

Entendo, acho que vou mudar isso, então…

— Não, não é isso. Você escreveu que ela se apaixonou pelo protagonista depois dele a ajudar com algo, né?

— Bem, sim. Ele ajudou ela, e ela se apaixonou por causa da compaixão e do bom coração dele…

— Isso não existe.

— Eh?

— “Amar” alguém, só porquê essa pessoa foi gentil com você, não é amor de verdade. O amor que não vem naturalmente não é real.

Pensei que o Presidente estava brincando, mas ele parecia bem sério.

— Assim como a água sempre flui para onde tem uma descida, nas novels, o protagonista sempre vai ser amado sem fazer nada. A garota se apaixonar pelo protagonista sem motivos também significa que eles vão se separar um dia. Elas não amam ele de verdade, mas têm que fingir que amam para a história fluir.

Depois de dizer tudo isso de uma vez, o Presidente olhou para o céu.

— Eu quero ir para um isekai e ser amado por todas… Será que isso vai acontecer um dia…?

— Espera até a gente chegar no Festival dos Fantasmas[1]. Acho que vai ser mais fácil durante essa época.

Eu realmente não pensei que o Presidente fosse alguém assim. Ele é bonito, alegre e tem uma linda amiga de infância. Bom, acho que todo mundo tem suas peculiaridades.

As meninas voltaram enquanto conversávamos.

— Ei, estamos de volta! Trouxemos presentes!

Yakishio estava segurando muitos fogos de artifício.

— Isso é muita coisa. Foram vocês quem compraram?

Yakishio me entregou os fogos de artifício com elegância.

— Eu corri e corri, e então, bum, peguei a bandeira e ganhei os fogos de artifício.

Entendi... Entendi foi nada. 

Então, a Tsukinoki me explicou.

— A Yakishio participou de uma corrida de pique bandeira, e os prêmios foram esses.

— S-Sim, ela é r-rápida.

Komari falou, animada.

— Ei, me elogiem também.

Em contraste com Yakishio, que estava comemorando alegre, uma garota parecia bastante deprimida.

— O que houve, Yanami? Você parece tão triste.

— Não tinha… barraquinhas.

Yanami olhou para a loja, com fome. Dava para ver seus lábios dizendo a palavra “takoyaki”.

— Você não pode jantar agora, já que comeu demais.

— Eh… Por quê?

O que você quer dizer com “por quê”?

Ela parecia confusa de verdade. A propósito, “por quê”? Ah, a filosofia é linda.

— Aliás, somos nós que vamos cozinhar o jantar. O que estamos esperando?

— Hmph, hmph, hmph. Nukumizu, você não precisa se preocupar em não ter carne suficiente.

Yanami sorriu, confiante.

— Já reservei um lugar perto do acampamento.

Vamos fazer um churrasco para o jantar.

— Eh...

Espera, essa garota não disse que veio aqui já para escapar de um churrasco? E eu prefiro curry.

Arroz grelhado também seria bom.

— O quê? Nukumizu, você não parece muito interessado.

Yanami não acredita em mim.

— É um churrasco, belê?! Carne, mané! O que mais você quer?!

Yanami de repente estalou o dedo, como se tivesse entendido tudo.

— Ah, entendi. Relaxa, nós vamos comer bastante carne. Afinal, estamos no ensino médio.

Yanami parecia bem confiante. Ela até fez um joinha com a mão para mim.

— Eu não queria, mas vou ter que perguntar… O que tem a ver você comer carne e estar no ensino médio?

— Bom, é toda aquela coisa de estudantes não poderem comer carne em casa, sabe?

— …Não. Eu não sei, não.

— Eh? Mas foi o pai quem me disse.

Espere, por que isso parece um pouco deprimente?

— Huh? Isso não era uma lei? Ou era uma regra da escola?

— B-Bom, aposto que deve ser alguma regra da empresa do seu pai… Sem dúvidas é isso…

Ótimo, vou encerrar o assunto por aqui.

— A empresa, né… Eu me pergunto o que o pai está fazendo agora…

Yanami abaixou a cabeça. Parece que não consegui segurar a situação.

— Ele deve estar trabalhando, n-né?

— S-Sim! O pai está trabalhando muito duro, não é? Mas o pai não fica muito na empresa…

Pare, Yanami. Eu vou chorar se você continuar falando. [2]

 

 

Já está quase na hora de pegar o ônibus.

É hora de irmos, considerando o tempo para tomar banho e se trocar.

Acho que a Yanami também já terminou de comer takoyaki.

Yakishio parece não ter se divertido o suficiente. Enquanto eu guardo as coisas, ela começa a fazer alongamentos de frente para o mar.

— A propósito, Komari. Você ainda não entrou no mar, né?

— Eh, bem...

Komari tenta pegar apressadamente o celular em sua bolsa.

Yakishio aproveita a oportunidade. Ela sorri e pega Komari no colo, como uma princesa.

— Ah!?

— Vamos lá!

— Divirtam-se.

Acenamos para Yakishio enquanto ela corre. Parece que ela não se abala nem um pouco com as tentativas de Komari de se soltar. Essas garotas fortes, eu vou te contar.

— Bom, vou fechar o guarda-sol.

— Você também deveria devolver essa baleia inflável. Ainda tenho que arrumar tudo.

Consigo ouvir o som das ondas do mar. Ao mesmo tempo, alguém está gritando. Ei, o grito da Komari é realmente fofo.

— Shintaro, as meninas vão descer do ônibus no meio do caminho e dar uma passada no supermercado. Vocês dois podem levar as coisas para o hotel antes?

Tsukinoki tira a faixa do cabelo, deixando seus cabelos pretos caírem sobre os ombros molhados. Ela usa a toalha para secá-los enquanto se apoia no Presidente para verificar o horário.

— Pegaremos o próximo ônibus depois que terminarmos as compras.

— Koto, seu cabelo está encostando em mim. Está gelado.

— Cala a boca. Eu vou encostar em você.

Estão flertando de novo, como sempre. Façam o favor, e se explodam de uma vez.

— Ugh... eu tô, toda molhada.

Komari está encharcada, torcendo sua jaqueta. A areia da praia deixa à mostra parte de seu maiô escolar... Ah, agora entendo o que Yanami quis dizer naquela hora. É uma mistura estranha de constrangimento e ousadia. Talvez apenas as pessoas de “nível elevado” consigam apreciar esse visual.

— Komari, como você se sente? A água do mar está boa, não está?

Yakishio joga o cabelo molhado para trás e envolve os ombros de Komari com um abraço.

— S-Salgada...

— Exatamente, é de se ficar admirada.

— E-estou falando que é salgada!

— É o mar, afinal de contas! Do que está falando, Komari?

Yakishio ri animadamente. Komari, você nunca conseguirá ter uma conversa normal com essa garota.

Tsukinoki junta as palmas das mãos e bate uma na outra.

— Certo, a diversão acabou! Hora de trocar de roupa e ir para o hotel!

...Eu me diverti. Mas não seria hora de encerrar?

Coloco o guarda-sol no ombro enquanto penso nisso.

 

 

O sol está se pondo, e o calor intenso do dia está rapidamente se dissipando também.

Insetos que eu nunca tinha ouvido antes começam a fazer barulho. Que medo.

— Vou deixar os vegetais lavados aqui.

— Obrigado. Pode me ajudar a colocar as coisas que já cortei no prato?

Agora, estamos na cozinha ao ar livre no camping. Yanami se ofereceu para fazer o jantar, mas, por algum motivo, ela me pediu ajuda.

Bem, se ela se ofereceu, eu achei que fosse boa com facas... Não, ela não é boa, nem um pouco. Ela está cortando a cenoura de uma forma bem perigosa.

— Yanami, você quer me dizer alguma coisa?

— Eh? Não, só me ajuda a cortar as cenouras que eu já descasquei. Tá bem?

Claro, eu cortei as cenouras de uma forma tão ruim quanto as dela.

— É porque você pediu a minha ajuda em vez da Yakishio.

As mãos dela pararam.

— ...Aulas de culinária. Já ficou no mesmo grupo que a Lemon?

— Hmm, não, nunca fiquei.

Yanami olha de repente para o horizonte.

— Ela ainda não sabe manipular o fogo e nem usar facas.

O que diabos essas garotas têm? A Yakishio tem a aparência de uma garota esportiva e atraente, quase inalcançável. Porém, depois de conhecê-la melhor, percebi que ela era, na verdade, bastante inútil.

— Vou te dizer, aquela garota tem todo o potencial para se tornar uma incendiária.

— Deixa pra lá.

Elas vão resolver os próprios problemas, de qualquer forma. Então, mudo o assunto para algo que me interessa mais.

— Ah, a propósito, Yanami. Eu li o romance que você escreveu.

— Eh, você já deu uma olhada? Isso é meio vergonhoso.

— É divertido. A escrita é bem fluida também.

O romance de Yanami é uma história de vida cotidiana simples, ambientada no caminho para a escola. A conversa natural capturou os sentimentos da garota que tem dificuldade em falar com o garoto de quem está apaixonada.

— Além disso, eu nem imaginava que havia tanto conhecimento sobre teriyaki em lojas de conveniência. Acabei aprendendo algo novo.

— Pois é, por algum motivo, ninguém sabe.

Espera, sobre o que estávamos falando mesmo? Ah, não importa, desde que a Yanami esteja feliz com isso.

Fui para o acampamento assim que terminei de organizar tudo. O Presidente está abanando o fogo feito com carvão, e a Tsukinoki está abanando o presidente.

— Uh, onde está a Yakishio?

Não vejo ela.

— Acho que ela tá ali.

Fora da área iluminada, Yakishio abraça os joelhos e descasca favas. Seu rosto está coberto de fuligem de carvão.

...Acho que algo ruim aconteceu.

— Deixa ela em paz. Não a incomode.

— É, deixa ela.

 

Carne > carne > pimentão verde > carne > carne > salsicha.

Parece que Yanami não se sentia satisfeita com a carne que comeu durante o dia, pois seu apetite não parava. Eu, por outro lado, estou focado em repolho > cebola > milho. E a carne que eu estava assando? Yanami logo a roubou de mim.

— Ei, essa ainda não estava pronta-

— Tá tudo bem. Nukumizu é inesperadamente cuidadoso com essas
coisas.

Yanami se delicia com a carne ainda pingando sangue.

Há uma enorme diferença entre o grupo da carne mal passada e a da bem passada.

Reconheço meu erro imediatamente e dou uma mordida na cenoura queimada, observando os outros membros.

— Gostoso! Isso é do México?

Yakishio mastiga sem parar. O suco vermelho da carne escorre de sua boca.

— Shintaro, terminei aqui. Me dá o seu prato.

— P-Presidente, e-eu também terminei de grelhar.

— Valeu. É, comer ao ar livre tem outro gosto.

Shintaro está formando seu harém. Como sempre, não sei se devo sentir inveja.

— Nukumizu, você está comendo? Essa carne tá muito boa. Come aí.

— Tá bom.

O que está acontecendo? Um mau pressentimento me invade. Depois de observar todos, notei algo.

...Por que só estão comendo carne?

Era tarde demais para eu ficar surpreso. Yanami bateu o garfo e acrescentou mais carne à grelha.

— Lemon, essa aqui tá bem firme. É da Argentina, né? Isso aí, carne bovina tem que vir das Américas.

— Eh, Yanami sabe muito. Argentina é… uh, bem longe daqui, certo? Isso é carne maturada?

Yakishio admira Yanami, que joga mais um pedaço de carne na boca.

Tsukinoki simplesmente dá de ombros, sem saber o que fazer.

— Yakishio, isso não é carne maturada. Você tem que vir na viagem do próximo ano. Assim, vou deixar você experimentar carne maturada de verdade.

Ela não está no terceiro ano? Será que vai continuar no Clube de Literatura no ano que vem também?

— F-Faz muito tempo que eu não como c-carne b-bovina…

Komari hesita antes de enfiar a carne na boca. Tudo que Yanami tinha colocado na grelha já havia sumido no estômago de todos.

…Definitivamente, essas pessoas fazem parte do grupo do “não ligo se está mal passada”.

Jamais imaginei que estaria cercado por inimigos. Contudo, não posso ficar aqui sentado esperando a morte. Então, decido colocar minha atenção a um certo tipo de comida.

Eu também comer essa carne quase crua, sem problemas. Apontei meus hashis para a salsicha que tinha sido colocada na grelha há pouco tempo.

— Nukkun, eu acabei de colocar. Espera um pouco.

— Q-Que pessoa g-gulosa.

Por que vocês precisam me machucar assim? Como conseguem dizer isso enquanto todos estão comendo carne crua? Suas exigências sem sentido estão me esmagando.

Yanami se aproxima de mim com um prato de carne.

— Nukumizu, você deve estar com fome, né? Aqui, esse está pronto.

Com um movimento rápido, afasto o prato da carne de porco malpassada… Acho que já passei por uma situação assim antes.

Tsukinoki me passa outro prato.

— Você deve estar com fome. Aqui.

Havia um bolinho de arroz no prato, e era de feijão vermelho.

— De onde é isso?

— As pessoas do acampamento ao lado nos deram.

Isso é realmente mais gostoso do que os que tem sal de gergelim.

— Uma simpática garota do fundamental nos deu isso. Eu pretendia oferecer carne em troca, mas não a encontrei mais.

Imediatamente olho à minha volta e só encontro desconhecidos.

...Suspiro, isso deveria ser algo impossível, certo?

Afasto os insetos que se aproximam e começo a morder o bolinho de arroz recheado com feijão vermelho.

 

 

O pôr do sol sumiu, e o céu agora era um azul escuro, com a noite finalmente chegando para todos.

Tsukinoki segurava algo em suas mãos, que emitia faíscas em tons de verde e amarelo, brilhando suavemente.

Logo, as faíscas ficaram vermelhas e foram desaparecendo aos poucos.

Tsukinoki abriu um sorriso encantador, direcionado para Tamaki. No entanto, ele estava distraído, pegando mais fogos de artifício, e não percebeu. Por isso, ela lhe deu um chute nas costas.

— Olhe para os fogos de artifício.

— É por isso que eu tô pegando outro.

— Eh, mas… olha, esse aqui é muito grande. Eu não vou conseguir segurar sozinha! Venha segurar comigo!

— Você consegue, sim, entã- Ei, ei! Já entendi! Para de me chutar!

Esses dois… Só se casem logo de uma vez.

Suspirei e coloquei o resto da carne na churrasqueira. Ainda havia brasa suficiente para a minha próxima criação. Beleza, essa aqui eu vou chamar de Setsuko.

O som de explosões de pólvora ecoava por todos os lados.

Yakishio corria atrás de Komari, com os fogos de artifício apontados para ela.

— Essas duas se tornaram amigas bem rápido.

Yanami mastigava devagar os pimentões verdes, que, aliás, estavam crus.

Calma, elas se tornaram amigas?

Ah, sei lá, acho que sim.

— Você não vai brincar com os fogos de artifício, Yanami?

— Quero comer a sobremesa primeiro.

— Sobremesa? Mas a gente tá num churrasco-

— Hmph, hmph, hmph. Isso aqui!

— Não me diga que é marshmallow-

— Um prato de miúdos!

Yanami tirou o pacote com um sorriso enorme. Cê tá falando sério?

— É assim que terminamos um churrasco lá na minha casa.

Decidi que não vou mais falar sobre a família da Yanami.

O outro lado de Setsuko está começando a cheirar bem. Se fosse uma pessoa, ela já estaria na escola primária agora. Hmm, ela está com a mochila vermelha nas costas. Bem, é hora de virá-la e deixar bem passada.

— Ah, vou querer essa aqui.

A carne, que eu coloquei meu coração e alma para assar, foi roubada pela Yanami.

— Setsuko!

Ah, Setsuko… passei tanto tempo criando você… Todas as memórias imaginárias de tudo que vivemos juntos está passando pela minha cabeça.

— Setsuko?

— Não, é só…

Yanami riu maliciosamente enquanto erguia seus hashis.

— Se queria comer, era só ter dito. Aqui, abre a boca.

— Hein!? Hein?!

Abri a boca com cuidado, verificando se não havia ninguém por perto. O sabor da carne suculenta se espalhou pela minha boca.

— E aí, gostou?

— S-Sim…

— Então, quanto vale?

— Huh?! Então era isso que você estava planejando?!

Essa garota ousou brincar com o coração puro de um jovem.

Mas, se eu tiver que dizer quanto isso vale:

— 700...

— Ei, era brincadeira! Hahaha!

Yanami caiu na gargalhada.

— Hehe, o que você ia falar, hein? 700 ienes?

— Eu não…

Abaixei a cabeça e evitei olhar para ela. Yanami riu e se aproximou de mim.

— Ei, eu não sabia que era tão valiosa. Ehehe.

— Não, uh. Não foi pela carne… É que algo assim… é… raro de acontecer.

— Hehe, você está certo. Quer mais um pedaço? Vou pegar leve com você agora.

Ela só tá brincando comigo. Eu quero revidar, mas acho que não vou vencer.

Olhei, em silêncio, para todos brincando com os fogos de artifício.

Yakishio girava os braços enquanto segura os fogos de artifício, fazendo círculos.

As faíscas voam ao redor dela, desaparecendo na escuridão da noite. Como sempre, ela estava cheia de energia, mas agora não de um jeito fofo.

Quanto a Komari… Bem, ela estava totalmente focada em queimar o chão com as faíscas… O que o chão fez para você, garota?

Todo mundo se diverte do seu próprio jeito. A Yanami, por exemplo, prefere ficar aqui, comendo, do que ir brincar com os fogos.

Tudo bem, agora que a vida de Setsuko foi ceifada e a Yanami ainda vai continuar comendo, acho que tá na minha vez de ir me divertir um pouco.

Me levantei e peguei alguns fogos de dentro da caixa. Eram uns bem baratos em formato de arma.

Mas eu lembro que, quando eu era pequeno, esses eram os meus preferidos.

Eu queimei as pedras no chão com as faíscas, como se estivesse executando elas… Espera aí, eu virei a Komari?!

Acendi mais fogos enquanto olhava para a Komari.

Ela deixou de lado um que já estava apagando e pegou um mais grande.

Ela tentou acender ele várias vezes, mas não funcionava. Só saía umas faíscas, mas não acendia.

Deve ter pegado umidade, então acho que não vão acender. Komari virou o tubo e olhou para dentro, enquanto eu ainda só olhava de longe.

— Ei, não!

Bumm. Os fogos de artifício acenderam e explodiram antes que eu pudesse fazer algo.

A luz forte iluminou o local por um momento.

Quando olhei novamente, o Presidente estava lá. Ele estava segurando o tubo com a mão. Ele franziu a testa e jogou fora os fogos de artifício esmagados.

— Komari, você se machucou?

— N-Não, eu…

— Você tá bem?

O Presidente olhou a mão da Komari e depois segurou o rosto dela. Ele olhou em seus olhos.

— Tá conseguindo me ver? Tá doendo?

— N-Não tá doendo… Eu estou b-bem.

— Que bom… Não sei o que eu faria se você machucasse seu rosto…

O Presidente fez uma expressão de alívio.

— M-Mesmo que eu me machucasse, t-tá tudo bem… Presidente, e a s-sua mão?

— Você é idiota? Como pode dizer algo assim?

O Presidente colocou as mãos nos bolsos.

— N-Ninguém quer o-olhar para o meu rosto, d-de qualquer forma…

— Mas você quer, né?

— Eh… T-Talvez…

— Você iria ficar triste sempre que visse uma cicatriz no rosto… Eu não quero isso.

— P-Presidente…

— Então, não fale mais essas coisas. Seja mais confian-

— T-Tamaki!

A voz dela ecoou pelo céu escuro.

De longe, dava pra ouvir sua respiração pesada.

E então...

— Eu te amo!

A confissão inesperada fez o tempo parar.

Yanami continuava virando a carne, enquanto as faíscas dos fogos caíam no cabelo da Yakishio, que congelou ao ouvir aquilo.

O Presidente abriu a boca depois de se recuperar do choque. Ainda estava com o corpo
paralisado.

— Komari? Uh, o que isso significa?

Depois de respirar fundo outra vez, Komari decidiu soltar tudo de uma vez só:

— I-Isso significa que eu te amo! E-Eu te amo, Presidente! Eu s-sempre te amei, Presidente!

Komari estava apenas falando tudo que sempre quis falar.

— V-Você sempre cuidou d-de mim e foi l-legal comigo, Presidente! Eu t-te amo! P-Por favor, saia comigo!

A voz dela já estava rouca. Depois de tudo que disse, Komari parece ter se cansado e baixou a cabeça, tentando conter as lágrimas.

Tsukinoki estava parada, apenas olhando de longe.

Yanami continuou comendo, enquanto Yakishio tentava apagar o cabelo queimado batendo nele com as mãos. Qual o problema dessas duas?

— …Não, bem, isso é um pouco repentino.

O Presidente quebrou o silêncio. Ele abria a boca para falar, mas logo fechava de novo. Ele devia estar pensando cuidadosamente no que falar.

Finalmente, ele falou algo. O tempo parecia ter voltado a correr.

— Me dê um tempo. Preciso pensar nisso.

Komari assentiu. Logo após isso, ela olhou para Tsukinoki, com medo, e fugiu.

Ah, não me diga que…

Tsukinoki caminhou lentamente em direção ao Presidente enquanto as outras três pessoas apenas observavam em silêncio.

— …Shintaro. O que foi isso?

— Koto. Você também não entendeu nada, né? Ela falou isso do nada, e…

Tsukinoki tirou a mão do Presidente do bolso e derramou água nela.

— Desculpa, não foi nada tão grave.

— … E então, você até falou pra ela que ia pensar. Por que tá dando esperanças para a Komari?

Tsukinoki enrolou a mão do Presidente com um lenço.

— Ei, Koto.

— A coisa mais gentil que você podia ter feito era rejeitar ela adequadamente!

Tsukinoki segurou a mão do Presidente.

— Espere, Koto-

— Então por quê?! Por que você não a rejeitou?!

Diante de Tsukinoki, o Presidente desviou o olhar, sem jeito.

— Isso é entre a Komari e eu… Se eu a aceitar ou rejeitar, isso não tem nada a ver com você, não é?

O silêncio daquela hora voltou. Só dava para ouvir os insetos e a carne na churrasqueira.

— … Certo… Você e eu somos apenas amigos de infância…

Tsukinoki disse isso calmamente.

Depois de um momento de silêncio, ela deu um tapa no rosto do Presidente, o mais forte que pôde.

— Somos apenas amigos de infância!

Ela também fugiu depois de repetir isso. O Presidente Tamaki permaneceu imóvel.

Tinha um bastão de fogos de artifícios em formato de cobra ao lado da Yakishio. Esse aí deve ser legal... Quero esquecer tudo isso e brincar com fogos de artifício em formato de cobra também.

Assim que tentei ir brincar para escapar da realidade, Yanami e Yakishio fizeram sinal para mim, piscando e franzindo a testa constantemente. Elas querem que eu diga algo a ele?

Estou assustado. Yanami e Yakishio estão me incitando. Consigo ouvir elas dizendo:

— Vai, vai!

— Uh, Presidente…

Ele olhou para mim, com os olhos vazios.

— Nukumizu… Desculpa por estragar nossa viagem.

— T-Tá tudo bem. A gente cuida das coisas aqui. Bem, vá atrás dela.

— Qual delas?

É você quem devia saber, cara!” Me segurei para não dizer algo assim.

— Você decide.

Mas isso é quase a mesma coisa.

— Entendi. Desculpe, vou deixar o resto com você.

O Presidente andou, desorientado, enquanto entrava na floresta.

As pessoas restantes suspiraram ao mesmo tempo. Isso sim é surpreendente.

— Uh, licença… Será que vocês poderiam apagar o fogo e fazer as malas?

O funcionário do acampamento falou, tremendo. Ele parece genuinamente assustado. Aposto que ele estava ali há tempos. Acho que ele estava só observando de longe.

— Certo, vamos limpar agora.

— Desculpe por isso. Parecia que vocês estavam ocupados.

Ei, que pessoa legal.

Rapidamente comecei a guardar os pratos.

— Entendi…

Yanami assentiu.

— Vou comer tudo que sobrou.

 

 

— Eu não sabia que a Komari gosta do presidente. Uau, que ousada!

Diante da pia, Yakishio apertava a esponja cheia de bolhas, olhando para o céu como uma jovem apaixonada.

— Ela tomou a iniciativa e se confessou para a pessoa que ama, sob o céu estrelado! Que romântico! A era das garotas que tomam a iniciativa chegou...

Logo depois, sua empolgação morreu de repente, e a esponja escorregou do prato.

— ...É, acho que não posso ficar só esperando. Finalmente entendi isso.

Essas duas protagonistas perdedoras realmente adoram tocar nas suas próprias feridas... Pensei enquanto amarrava o saco de lixo: "Não tem como eu lidar com isso."

— Mas, Nukkun, o presidente não está saindo com a Tsukinoki?

— Parece que sim, mas eles não assumiram ainda. Acho que é só questão de tempo.

Ainda assim, pelo que o presidente disse, talvez a Komari ainda tenha uma chance, certo? Quem diria que a Tsukinoki poderia acabar virando outra protagonista perdedora.

— Sim. Esses dois, eles- nom nom nom...

As bochechas dela estavam cheias de comida enquanto mastigava, parecendo
saber de tudo.

— O Presidente e a Vice realmente combinam.

— Sim, o Presidente... nom nom nom nom...

— De fato, concordo.

De algum jeito, elas estavam tendo uma conversa que parecia profunda.

Yakishio tem uma forma única de encarar as coisas.

Eu me retirei discretamente, estava me sentindo um pouco fora do lugar. Tenho uma boa confiança na minha habilidade de desaparecer sem que notem, e, como esperado, as duas nem perceberam minha ausência.

Depois de caminhar por um tempo, avistei o banheiro do acampamento.

Estava fracamente iluminado no escuro. De qualquer forma, era melhor resolver meus assuntos antes de voltar.

Os mictórios desse banheiro têm uma parede que vai até o nível dos olhos.

As árvores à minha frente balançavam, e as sombras oscilavam.

Embora o silêncio solitário seja certamente assustador, é igualmente aterrorizante quando há alguém por perto.

— Nukumizu...

— Uwah!

Uma voz vinda de trás me fez quase perder o controle. Graças a Deus eu estava de frente para o mictório.

— Ei, Presidente, não me assusta assim!

— Nukumizu, por favor, me escute...

— Espere até eu terminar, por favor! Uwah, não segura meus ombros!

Depois de fechar o zíper, levei meu tempo lavando as mãos. Certo, vamos ver o que ele quer.

— Presidente, você ficou aqui no banheiro o tempo todo?

— Bom, eu nem sei o que devo fazer...

Não devia ir atrás das duas primeiro? Tá perdendo tempo conversando com um calouro no banheiro.

— Nukumizu, podemos conversar sobre isso?

Sério? Tá mesmo me pedindo conselhos sobre relacionamentos? Olhei pra ele, sem acreditar.

E ainda por cima, isso é um triângulo amoroso.

Perguntar algo assim pra mim é a mesma coisa que perguntar para uma minhoca como se derrota um peixe.

— Como eu posso dizer isso? Presidente, você é popular, não importa como olhe para isso. Não é hora de estar conversando comigo.

— Espera, eu sempre fui solteiro a vida toda. Nunca recebi chocolates de Dia dos Namorados além dos da Koto, e nunca se confessaram para mim antes.

— Mas ela te dá chocolates, certo?

— Ela me dá aqueles chocolates "obrigatórios" todos os anos desde que éramos pequenos. Na verdade, estou mais impressionado com a persistência dela.

Por que diabos dois caras estão conversando sobre isso num banheiro? Isso parece algum jogo estrangeiro esquisito.

— Além disso, as meninas nunca me chamam quando saem para se divertir. Talvez o termo "fracassado no amor" se refira a mim.

Levanta a cabeça e olha pra cá. Eu vou te mostrar o que é realmente um fracassado no amor.

— Deixando tudo isso de lado, você não consegue esquecer a confissão da Komari, certo? Isso não significa que sente algo por ela?

— Komari é muito fofa como caloura, mas eu não a vejo como uma garota.

— Então por que disse que ia pensar sobre?

— É difícil para um cara impopular não se impressionar com a confissão de uma caloura Tenho que pensar nisso, né?

Sério? Mas você tá esquecendo um detalhe importante.

— Mas, olha, você já não tem a Tsukinoki?

Aliás, não é por causa dela que você não recebe chocolates ou confissões de outras pessoas?

O Presidente baixou os ombros, todo desanimado.

— Haa... vou ser honesto quando se trata dela.

— Ah.

— ...Ela rejeitou minha confissão.

— O quê!?

Isso é impossível. Vocês dois vivem grudados e ninguém aguenta ficar vendo essa melosidade toda hora.

— Ah, isso aconteceu quando vocês tinham uns 4 ou 5 anos, não foi?

— Não, foi no Natal do ano passado.

Isso é bem recente. Agora faz mais sentido a reação do Presidente. Uma caloura fofa se declarou pra ele enquanto ele ainda tentava superar uma rejeição de alguns meses atrás.

É claro que ele tá confuso, mesmo que quem tenha se confessado seja a Komari.

— Então, recentemente, estou tentando me afastar um pouco do clube. Mas, mesmo assim, a Koto continua muito próxima de mim.

O Presidente se agachou e abraçou os joelhos. Cê sabe que ainda estamos no banheiro, né?

— Pensa comigo. Por que eu levei um tapa na cara de alguém que me rejeitou? Já nem sei mais o que pensar.

Realmente, eu também não consigo entender a reação violenta da Tsukinoki.

— Enfim, o mínimo que você pode fazer é voltar lá e conversar direito.

Dei um tapinha no ombro do presidente.

— Pela cara dela, aposto que tem uma série de mal-entendidos.

— Você é... um especialista em amor?

É isso que você acha?

No fim, desisti e sorri.

— Apesar da minha aparência, eu sou um verdadeiro mestre no amor.

 

 

Quando voltei para o acampamento, Yanami e Yakishio ainda estavam limpando as coisas nas pias.

Acho que já está tudo resolvido. Agora depende do Presidente. Eu ia levantar as mangas para continuar ajudando, quando Yanami se aproximou de mim.

— Ei, Nukumizu, onde você estava?!

Parece que ela não está de bom humor. Será que é porque saí enquanto elas limpavam?

— Er... fui no banheiro...

— Isso não importa!

Mas foi você quem perguntou, não? Não tá sendo um pouco injusta?

— A Tsukinoki acabou de arrumar as coisas e saiu andando da pousada!

Sério? Tá muito escuro para sair sozinha por aí.

Olhei para a direção que Yanami apontava, ainda atordoado. Depois, percebi que ela estava me olhando com uma expressão de descrença.

— Você está ouvindo, Nukumizu?

— Hein? O quê?

— É perigoso para uma garota andar sozinha à noite!

Então você quer que eu vá atrás dela? Mas eu tenho medo do escuro.

Continuei lavando a louça tranquilamente, mas Yanami logo deu um soco nas minhas costas.

— A Lemon foi atrás da Komari. Eu vou procurar o Presidente. Você corre atrás da Tsukinoki!

— Eu? Mas está escuro... ah, tá bom, já vou.

...A Yanami é mais assustadora que a noite.

Eu corri na direção que a Tsukinoki tinha ido, usando a lanterna do celular para me guiar.

Depois de um tempo, vi uma garota abraçando a bagagem debaixo da luz do ponto de ônibus. Eu chamei o nome dela enquanto me aproximava correndo.

— Ah... é você, Nukumizu.

Ela parecia visivelmente decepcionada ao perceber que era eu. Me desculpe por não ser o Presidente.

— Pra onde você tá indo? Isso é na direção oposta da pousada.

— Pra casa. Não quero ficar perto de um cara assim.

Ela ajeitou a bagagem nos ombros e acelerou o passo.

— Espera aí. O último ônibus já foi.

— Eu vou dar um jeito quando chegar na estação.

Ainda vai demorar bastante pra chegar lá, e não tem iluminação no caminho.

— Enfim, vamos sentar e conversar. Tem um banco aqui.

— Ei, espera, Nukumizu!

Eu tomei as bolsas dela à força.

— Eu estou com pressa. Me devolve minhas coisas.

— Vamos fazer uma pausa.

Ofereci a ela algumas bebidas que comprei enquanto me sentava no banco.

— Quer chá ou suco? Tem os dois aqui...

— ... Chá.

Tsukinoki finalmente desistiu e suspirou antes de se sentar. Certo, pelo menos consegui pará-la.

Mas o que eu deveria dizer? Devia ter perguntado para a Yanami antes. Nós dois ficamos olhando para a estrada escura da montanha.

— O que o Shintaro disse para te fazer vir até aqui?

—Hein? Não, como eu posso explicar?

Tsukinoki franziu a testa enquanto eu tentava responder.

— ...Nada?

— Bom, o presidente foi para o lado da pousada procurar você. Por isso ele não te viu.

Acho que é isso. Por favor, não faça besteira, Presidente.

Tsukinoki tomou um gole do chá preto e depois se encostou no banco.

— Desculpa, mesmo que isso devesse ser uma viagem única na nossa vida.

Ela disse a mesma coisa que o presidente.

Eu abri minha garrafa.

As coisas seriam mais simples se fosse só entre o Presidente e ela. Mas agora a Komari está no meio disso tudo. Eu não consigo lidar com triângulos amorosos.

— E como está a Komari?

— Não sei. A Yakishio foi até ela, então tá tudo bem.

Tsukinoki ficou em silêncio, claramente abatida.

Depois de um tempo, ela finalmente falou.

— ...Garotos só gostam mais de garotas que podem ser protegidas, não é?

Ainda estamos falando de amor? Todo mundo adora jogar esses tópicos em cima de mim. Parece que estão desesperados.

— De fato, é um clichê bem clássico.

— Garotas como a Komari são mais populares…

Não, não acho que seja assim.

— Comparado ao normal, acho que o que importa é como o casal se sente. Você e o Presidente, bem, vocês parecem bem próximos.

— Também achava isso, até agora pouco.

De onde vem essa confiança? Além disso, o Presidente disse que você o rejeitou. O que aconteceu?

— Sinto que vocês dois deviam explicar as coisas direito. Como espectador, dá pra sentir que há mal-entendidos entre vocês.

— Que mal-entendidos? Aquele cara disse que ia pensar sobre a confissão da Komari. Isso não quer dizer que ele está hesitando em sair com ela?

Até que ponto eu deveria falar? Eu escolhi as minhas palavras com cuidado.

— Bom, o Presidente, uh, ele acha que você deu um fora nele...

— Hã!? Por quê!?

Eu sabia que havia um mal-entendido sobre ela ter rejeitado a confissão do Presidente. Se eu me intrometer diretamente, as coisas vão se complicar ainda mais. Melhor dar a volta e procurar a resposta.

— Você estava com o Presidente no Natal do ano passado, certo?

— Ele te contou até sobre isso?

— Mais ou menos. Então, o Presidente, ele, uh… disse algo para você?

— O quê?

— Tente se lembrar. Ele disse o que estava pensando?

— …Acho que aquele cara só expressou seu amor fervoroso por hambúrgueres de fast food.

É sério que vocês fizeram isso no Natal? Nem o Presidente se confessaria enquanto come um hambúrguer, certo?

— Tem certeza que não teve mais nada? Tipo, ele te levou para ver o céu estrelado ou as luzes da cidade? Teve algum momento especialmente romântico?

— Como um idiota como ele iria me levar para esses lugares?

— Não precisa ser um lugar específico. Tipo, segurar sua mão porque estava frio, dividir o mesmo cachecol, tirar um anel de dentro de um bolo? Ou aparecerem luzes de neon do nada, e tocar uma música romântica do Kazumasa Oda quando vocês se olhassem nos olhos.

— Essa última aí é muito brega, não acha?

Então como foi que ele se confessou? Não consigo imaginar a Tsukinoki ignorando uma confissão sob o encanto do Natal.

— Ah, mas ele disse algo para mim ao lado da árvore de Natal na estação.

Isso mesmo! Bom trabalho, Presidente. Os hambúrgueres nem são relevantes, então.

— E então, o que o Presidente disse!?

— Eu acho… ele disse: "Eu vou ficar com você se ninguém mais quiser, então não se preocupe" depois de me atormentar um pouco.

Não me diga que essa é a confissão de que o Presidente estava falando. É ainda mais absurdo do que eu imaginava.

— E o que você respondeu?

— Eu disse para ele nunca mais aparecer na minha frente. Acho que essa foi minha resposta.

Parece que a ela não entendeu o rumo daquela conversa. Ela me olhou
chocada.

— O que foi, Nukumizu?

— Ah, acho que essa resposta faz sentido. Estou tentando entender como isso conta como uma confissão.

O Tamaki é o completo oposto do que aparenta. Deveria recomendar algumas novels de comédia romântica para ele depois.

— …Confissão?

Tsukinoki murmurou baixinho.

— O quê!? Isso era a confissão!? Aquele cara achou que isso era uma confissão!?

Ela gritou para o vazio da noite.

— Bem, é tipo aquela do "Quero tomar sua sopa de missô todos os dias", eu acho.

Pois é, a ela não percebeu nada. Mas sério, eu devo ser o único a explicar isso?

— Estamos falando de Natal, entendeu!? Isso não é o que uma confissão de um estudante do segundo ano deve ser no Natal!? Ele é um idiota!? Ele quer morrer, é isso!?

Droga, falei demais. É minha culpa que isso tenha piorado.

— Ei, isso é só uma explicação ou possibilidade...

— Eu ainda preciso erradicá-lo desse mundo.

Eu consigo ouvir alguém pisando na areia enquanto a Tsukinoki grita.

— Não. Por favor, não...

Me virei. O Presidente estava correndo, sem fôlego, em nossa direção.

— Presidente!

Ótimo, vou deixar o resto para eles.

Desapareci silenciosamente, voltando para o hotel. Não tenho mais nada a ver com o que vem a seguir. Sim, estou salvo.

De repente, alguém cobriu minha boca e me arrastou para os arbustos.

— Ei!

— Shh! Fica quieto!

Era a voz da Yanami. Acenei com a cabeça.

— Como membro do clube, eu preciso testemunhar este momento. Abaixa a cabeça.

Meu coração começou a acelerar um pouco com Yanami sussurrando no meu
ouvido.

— Ei, isso não é meio que espiar...?

Yanami me deu um beliscão silencioso na cintura. Parece que eu não tenho como recusar isso.

Ficamos escondidos nos arbustos, atentos à conversa do presidente. Nossos pulsos se tocavam de vez em quando, e o ar estava cheio de cheiros de carne, suor e desodorante.

O presidente se aproximou da Tsukinoki, que mantinha a cabeça baixa.

— Me desculpa.

— O Nukumizu me contou. É verdade?

— Você quer dizer o que aconteceu no Natal?

Tsukinoki continuou, em vez de responder.

— Estamos juntos há mais de 10 anos, certo?

— Bem, sim. Desde a primeira série, até estudamos na mesma sala.

— …As meninas da sala costumavam me odiar por eu não ser nada fofa.

Talvez Tsukinoki estivesse lembrando de algo. Ela fechou os olhos e mordeu os lábios.

— Você não precisa falar se não quiser.

— Mas você me protegeu, não é? Você me salvou, mesmo com todos ao redor zombando de nós.

— É que eu odiava ver você sendo intimidada, mais do que as pessoas rindo da gente.

O presidente não parecia estar forçando nada, apenas respondia com calma.

— É por isso que eu não gosto dessa parte de você…

O rosto da Tsukinoki estava tão vermelho que até eu conseguia ver. Ela cobriu a boca.

— Você cresceu muito desde o ensino fundamental. Passei muito tempo tentando afastar aqueles “insetos” ruins.

— O quê? Está dizendo que essa é a razão de eu não ser popular?

Bem, essa é exatamente a razão. Reclamava mentalmente.

— Esperei por você por muito, muito tempo. Tem sido tempo demais. Mesmo que eu tenha esperado tanto por você...

Tsukinoki respirou fundo e então desabafou com o presidente:

— Depois de esperar por você tanto tempo, essa foi a confissão que você me deu?! Isso não vai funcionar! Até mesmo um amor de 100 anos tem um limite!

Tsukinoki ficou sem fôlego após dizer isso. Ela olhou para o Presidente.

— …Haha, você está certa.

O presidente sorriu e acariciou a cabeça de Tsukinoki, que estremeceu de surpresa.

— Bem, eu vou fazer você se apaixonar por mim por mais 100 anos.

— …Eu adoraria ver você tentar.

Tsukinoki apoiou a cabeça no peito do Presidente.

O Presidente hesitou por um momento antes de abraçá-la com cuidado, como se ela fosse uma peça de arte em vidro.

 

 

— Que romântico…

Yanami estava apenas observando os dois. Não, eu não consigo ficar aqui vendo isso.

— Vamos, Yanami.

— Eh? Mas agora que começa a ficar bom-

— Não podemos ficar escutando a conversa dos outros.

Mesmo que já estejamos fazendo isso.

Eu agarrei a mão da Yanami e fui embora.

— Espera, Nukumizu.

— Eles conseguem terminar isso a sós.

— Mas e aí, por quanto tempo vai continuar segurando a minha mão, hein?

Eu soltei a mão dela no mesmo instante.

Merda, foi tudo culpa daquele clima romântico no ar. Nem percebi que ainda estava
segurando a mão dela.

— Uh, d-desculpa! E-Eu não queria-!

— Ei, não precisa se desculpar tanto assim.

Yanami percebeu que meu rosto estava completamente vermelho. Ela começou a soltar um sorriso travesso.

— Eita, será que você pretende se confessar pra mim?

— Não.

— Tá tudo bem. Pode se confessar, mas eu vou te dar um fora.

— Eu já disse que não vou.

Eu acelerei os passos e andei na frente.

Yanami riu enquanto me seguia.

— Ei, o que aconteceu agora há pouco não foi romântico?! Deu vontade de se apaixonar, né?

Ela olhou para mim com um sorrisinho diabólico depois de dizer isso.

— Eu poderia tentar, mas aí você iria me dar um fora, não é?

— Bem, sim, mas...

De repente, ela ficou séria, e continuou dizendo:

— Mas talvez eu ainda possa te dar um beijo, sabe?

Foi isso que ela disse.

— Mas você vai me rejeitar, certo?

— … Nossa, você é estúpido, Nukumizu.

Yanami encolheu os ombros e colocou as mãos para trás.

— Esquece.

— Eh, como assim “esquecer”?

Yanami levantou as sobrancelhas em descrença. Que tipo de reação é essa?

— Estou preocupada com a Komari. Vamos voltar.

— É, acho que sim. Mas, mas…

Yanami inclinou a cabeça, enquanto murmurava baixinho.

— …”Esquecer”, é?


 

Quando fui abrir a porta do quarto, percebi que estava trancada. A pior parte é que só o Presidente tem a chave.

Bem, acho que posso usar o banheiro das meninas, já que não tem ninguém... Será que eu vou conseguir relaxar se fizer isso? Não, eu nunca teria coragem de fazer algo assim.

A forma como a Yanami me tratou agora há pouco me deixou meio assustado, também. A gente estava só brincando, e, de repente, ela ficou super séria e começou a falar aquelas coisas. Não consigo entender as garotas.

Suspirei e continuei andando pelo albergue. Esses besouros que fazem barulho não vão cair das árvores, né? Consigo ouvir mais pessoas nos outros quartos... Será que também são de algum clube escolar?

Me afastei um pouco dos quartos e vi uma pessoa agachada perto do mato. Ela estava segurando algo que soltava pequenas faíscas.

É a Komari. Pera aí, a Yakishio não deveria estar com ela?

Me aproximei, enquanto pensava se devia ou não falar com ela.

— Ei, Komari. Eu não sabia que você estava por aqui.

— …P-Puxa, é só você, Nukumizu.

Ei, você levou um fora há pouco tempo.

O Presidente e a Tsukinoki estavam se abraçando antes de eu vir para cá. Não posso contar isso para a Komari, meu coração não aguenta. Quem tem que falar sobre isso é o Presidente.

Komari ignorou o meu jeito desconfiado.

Ela colocou a mão no bolso e pegou algo.

— F-Fogos de artifício… São m-muitos para brincar s-sozinha…

Aceitei o convite, me abaixei e acendi os fogos de artifício que ela me deu.

As faíscas começaram a voar e desaparecer no ar… Queria que isso acontecesse com minhas memórias de hoje, também. Olhei para os fogos de artifício, os admirando. A ponta deles, lentamente, virou uma bolinha.

No momento seguinte, faíscas familiares explodiram ao redor da bolinha que se formou.

— Entendi… É assim que parece quando eles chegam no final…

Já fazia muito, muito tempo que não brincava com fogos de artifício. Acho que vou levar uns para brincar com a Kaju quando voltar para casa.

Depois de acender mais alguns, sem dizer uma palavra, olhei cuidadosamente para a Komari.

Nossos olhos se encontraram.

— …O-O que foi?

— Não é nada. Aliás, a Yakishio não deveria estar com você?

— N-Nós estávamos aqui, mas e-ela ficou entediada depois de acender os fogos de artifício e voltou para o quarto.

Afinal, esses aqui não são os que explodem no céu.

— Mesmo assim, que bom que você ficou mais próxima da Yakishio.

Eu disse isso sem pensar muito.

Komari arregalou os olhos, sem acreditar no que falei.

— É-É isso que você chama d-de estar “próximas”? V-Você realmente nunca teve amigos…

Ei, eu deveria mesmo estar aqui fazendo companhia a essa garota?

...Mas tudo bem, parece que a Komari está se recuperando... Aposto que ela ainda está pensando naquilo, mas deve ficar tudo bem.

Eu deveria dar um jeito de fazê-la tomar um banho antes que descubra sobre aquilo... O resto eu deixo com as meninas...

— O P-Presidente veio aqui…

Os fogos de artificio se apagaram e caíram no chão.

— Entendo. E o que aconteceu?

— …Fui rejeitada.

Ela respondeu com calma e me entregou mais fogos de artifício em formato de estrela.

— Ele m-me deu um fora.

Ela disse isso sem emoção alguma e acendeu os fogos de artifício que estavam na minha mão.

— Entendi. Bom, pelo menos ele respondeu sua confissão adequadamente…

Se eu fosse ele, responderia só depois de me declarar para a pessoa de quem realmente gosto.

— Aposto q-que você não faria isso, N-Nukumizu.

— Como você sabe?

— …V-Você é horrível.

Não posso dizer nada a respeito disso.

A parte da frente da estrela já tinha queimado completamente, restando apenas faíscas alaranjadas.

Os fogos de artifício que segurava começaram a brilhar ainda mais intensamente, iluminando o rosto da Komari.

— O Presidente c-considerou... E-Ele considerou s-sair comigo, de verdade.

Komari estava prestes chorar enquanto forçava um sorriso.

— Ehehe… M-Mesmo que por pouco tempo… e-eu derrotei a Tsukinoki…

Ela tremia. O fogo de artifício em suas mãos se apagou e caiu no chão.

Komari olhou para o chão e murmurou com a voz rouca:

— E-eu vou chorar, então v-vá embora.

Ela segurou os fogos de artifício apagados e sussurrou, baixinho:

— Por favor…

Voltei para o albergue silenciosamente e me sentei no banco do saguão.

Abri uma lata de café, mas não tinha nenhuma vontade de beber.

Tudo o que aconteceu hoje foi rápido demais para meu cérebro e minhas emoções processarem.

As luzes do saguão piscavam de vez em quando.

Olhei para o teto, pensando no pessoal.

Nós cinco nunca tínhamos interagido antes. Ainda assim, agora estamos aqui, juntos, em uma viagem.

O que acontecerá depois disso?

Yanami e Yakishio não parecem realmente interessadas no Clube de Literatura.

Elas são como pássaros procurando abrigo na chuva. Elas voarão para longe
assim que o céu abrir.

Komari provavelmente vai parar de aparecer no clube por causa do que aconteceu.

E o Presidente e Tsukinoki? Eles também podem pensar em desistir.

A cerimônia de encerramento das aulas é na semana que vem. E quanto ao trato
que tenho com Yanami?

Tomei um gole do café e me perguntei: que tipo de história eu deveria escrever?


 

Na manhã do segundo dia, nos reunimos na sala de reuniões.

— Bem, vou enviar o primeiro capítulo

Disse o Presidente, digitando no notebook. O som das teclas ecoou pela sala.

O capítulo 1 da minha história, “Perdidos no Distrito do Amor”, foi publicado.

— Parece diferente da versão que você me enviou antes.

Realmente, é bem diferente. Afinal, até ontem, era uma história sobre um cara que foi para outro mundo. Agora, é uma comédia romântica que se passa em um distrito comercial numa cidade pequena. Na verdade, sou eu quem está mais surpreso.

— De repente, fiquei com vontade de escrever algo assim.

Eu só fiz o começo. Pretendo fazer o resto depois.

— Quero escrever aos poucos, no meu próprio ritmo.

— Tudo bem. Olha, alguém já comentou na da Yanami.

— Eh? Sério?

Yanami olhou para a tela, mordendo o pão de melão enquanto lia animadamente. Depois disso, ela soltou uma risada e, com um sorriso, olhou diretamente para mim.

— Foi você quem comentou, né, Nukumizu?

— Eh, bem, sim.

É meio constrangedor. E ela é a autora, não deveria estar com vergonha também?

— Hmph, fiquei bem feliz. E o que é essa coisa de pontuação?

— A pontuação aumenta quando alguém interage com sua história, seja salvando, comentando ou reagindo… A sua já tem um comentário.

O Presidente moveu o mouse enquanto mastigava a geleia que pediu.

— A-Agora é minha vez.

Komari entrou na sala usando o agasalho esportivo. O local ficou em silêncio total.

Komari ignorou o clima e foi direto até o presidente.

— …Bom dia, Komari.

— B-Bom dia. E-Eu já enviei a m-minha história… P-Por favor, me ajude a publicar…

Komari abaixou a cabeça. O Presidente parecia tenso, mas ele concordou e pegou o notebook.

— A sinopse… o título e a capa… Agora vou adicionar o capítulo… Aê, tudo pronto, vou publicar.

A mão do presidente parou no mesmo instante.

— Komari, tem certeza de que está tudo bem assim?

— Sim, esse título está bom.

Komari engoliu em seco e continuou.

— P-Por favor, não divida o capítulo também. Eu quero que ele seja inteiro assim.

Ela disse isso de uma só vez.

Diante dos olhos sérios de Komari, a expressão tensa do Presidente finalmente se acalmou.

— Entendi. Acho que tem razão. As pessoas vão achar melhor se for assim, também.

Ele virou para o notebook novamente, sorrindo gentilmente para Komari.

— Beleza, já publiquei. Ele já está nas páginas de novos lançamentos.

Komari olhou para a tela e sorriu. Com o mesmo sorriso, ela olhou para o Presidente.

— O-Obrigada. E-Eu ainda não s-sei usar muito bem esse s-site, então p-por favor continue m-me ajudando.

— Deixa comigo.

Essa é a primeira vez que vejo esse lado da Komari, mesmo que ela sempre me olhe como se eu fosse um pedaço de lixo.

E ainda tem alguém que não publicou nada.

Tsukinoki tem estado muito quieta desde manhã. Ela até se sentou em uma mesa bem longe da nossa, hoje de manhã.

Komari fechou e abriu o punho repetidamente antes de se sentar na frente da Vice-Presidente Tsukinoki. Ela parecia um pouco tensa.

— B-Bom dia, V-Vice.

— B-Bom dia, Komari.

Depois disso, elas ficaram em silêncio. Assim que o silêncio delas envolveu toda a sala, Komari falou:

— E-Eu já publiquei minha história. Por favor, leia.

— Uh… Vou deixar um comentário…

— O-Obrigada.

…Elas ficaram em silêncio novamente.

O suspense continuou por um tempo. Komari falou de novo:

— U-Uh, p-por favor, vá ao clube amanhã, também. E-Eu vou me s-sentir só se você n-não estiver lá.

Komari abaixou a cabeça, envergonhada, e continuou:

— A-Além disso, aquela garota assustadora do Conselho Estudantil vai aparecer.

— S-Sim! Deixa comigo, eu te ajudo a expulsar ela!

A Tsukinoki finalmente sorriu. No entanto, enquanto eu refletia sobre isso, lágrimas começaram a escorrer por seus olhos.

— Ugh…ah? Desculpe, não consigo me segurar. Eh?

Komari rapidamente se sentou ao lado da Tsukinoki.

— E-Ei, eu vou ficar c-com você, então…

— Komari… Eu pensei que você iria sair do clube… Obrigada… Obrigada…

Komari abraçou a Tsukinoki enquanto ela desabava em lágrimas.

Tsukinoki se acalmou depois de um tempo. Ela enxugou os olhos e levantou a cabeça.

— …Suas histórias sempre foram interessantes, Komari. Estou ansiosa para ler essa, também.

— O-Obrigada. E v-você, não escreveu nada?

— Bem, eu teria que suavizar bastante a história e tirar todas as cenas adultas… Então ela acabaria tendo umas 20 linhas no final…

Tsukinoki disse isso enquanto olhava para o telefone, confusa.

— Por que isso? Parece até que minha história não tem nada além de safadeza.

É porquê não tem nada além de safadeza.

— E-Então, vamos lá.

— Ah, claro.

…As duas seguraram as mãos uma da outra enquanto caminhavam até a mesa onde estávamos. O Presidente as cumprimentou com um sorriso.

Claro, isso não significa que seja um final feliz. O Tamaki e a Tsukinoki começaram a namorar, enquanto a Komari levou um fora. Esse fato não vai mudar.

As coisas nunca mais serão as mesmas. Só podemos construir novos relacionamentos, um passo de cada vez. Eu simplesmente decidi me distanciar dessas questões, mas tem pessoas que vivem dessa maneira. Não há escapatória enquanto estivermos vivos. Um dia, vou ter que tomar decisões como essa. Afinal, já estou envolvido nos relacionamentos de todos.

Minha mente ficou estranha depois de olhar para o Presidente. Senti como se estivesse me afastando de todos. Eles estavam se distanciando de mim.

De repente, alguém me entregou um pedaço de papel.

— Aqui, Nukumizu. Você pode publicar isso naquele site?

O bronzeado dela ficou ainda mais escuro, mesmo que tenha sido só por um dia.

— É uma tirinha?

— Sim, tinha uns lápis de cor aqui no saguão. Desenhei uma tirinha com eles.

Ela desenhou a cena da praia de ontem. Eh, quem é aquele cara caído no chão? Yakishio estava ao lado dele, tentando puxá-lo...

— Espera, esse sou eu?

— Hehe, você acertou. Esse é o Nukkun.

Parece até que ela estava puxando um cadáver.

— Oh, isso não é legal? É engraçado.

O Presidente falou baixinho depois de dar uma olhada.

— Mas isso não pode ser publicado no site. Eles só aceitam histórias escritas.

— Bem, por que não criamos uma conta no Twitter para o Clube de Literatura?

O presidente aplaudiu depois de ouvir minha sugestão.

— Isso é legal. A gente já tem uma conta, mas faz muito tempo que não usamos. Vamos publicar nela.

Tsukinoki fungou e pegou o telefone.

— Acho que tem um scanner no escritório. Vamos pedir para usar no seu desenho, Yakishio.

Tsukinoki levou Yakishio para fora da sala.

Então peguei meu telefone e fui olhar minha história no site. Já estava publicada… Parece algo bem irreal se parar pra pensar.

— Eita, alguém já deixou um comentário.

Cliquei para ler o comentário. Eu estou bastante nervoso…

Ué, o comentário deixou uma avaliação negativa... Estava escrito: “Dá pra ver que foi um virgem quem escreveu isso.”

Hein?! Que pessoa mal educada... Como que bloqueia essa pessoa?! Não, antes disso… Como ela sabe que sou virgem?!

— Komari… Foi você quem escreveu isso?

Komari sorriu de forma maliciosa.

— E-Eu vou mudar a avaliação s-se você publicar m-mais capítulos.

— Apenas observe. Vou fazer você me dar uma nota dez.

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