Volume 1

Capítulo 3: Derrotada Antes Mesmo da Luta — A Retirada de Chika Komari

PRIMEIRO DIA DO acampamento de treinamento. O céu é de um azul brilhante e infinito.

A TV havia mencionado que a estação das chuvas deste ano tinha sido excepcionalmente seca. Pensando bem… será que ela já tinha acabado?

O pessoal do Clube de Literatura pegou uma combinação de trens e ônibus para chegar à Praia Shiroya, que fica convenientemente perto da nossa hospedagem para esta noite.

Enquanto me atrapalhava com o calor, estendi uma toalha de praia. Toda a situação parece tão absurda que minha cabeça está girando.

— Ei, Nukumizu. Tenho que admitir, isso aqui foi um trabalho incrível da sua parte.

Animado, o presidente Tamaki — nosso ausente líder do clube por tanto tempo — fincava um guarda-sol na areia com entusiasmo. Ele também foi quem me salvou de ser o único cara jogado em um grupo de garotas durante o acampamento. Verdadeiramente, meu salvador.

— Hã? Do que você está falando?

— Yanami e Yakishio, é claro! Trazer duas garotas bonitas!

Enquanto falava, ele lançava olhares nervosos na direção dos vestiários.

— E ainda por cima, elas de repente quiseram ir à praia…

— Desculpa, mas isso foi tudo ideia da Yanami-san.

— Não precisa se desculpar! Sério, obrigado! Fico te devendo essa!

Ele agarrou minha mão e a sacudiu com entusiasmo.

— Hã? Você gosta tanto assim de nadar?

— Não é sobre nadar. É sobre os trajes de banho! Trajes de banho! Quatro membros femininos do clube de traje de banho — isso é um evento que só acontece uma vez na vida!

— Mas duas delas são da minha turma. Já vi as duas de traje de banho nas aulas de educação física na piscina.

— Do que você está falando? O traje de banho escolar e o traje de banho particular são coisas completamente diferentes!

Bom, o design ou o nível de exposição podem variar um pouco, mas… Percebendo que eu não tinha entendido bem o ponto, o presidente suspirou dramaticamente e deu de ombros.

— Escuta, os trajes de banho usados nas aulas são padronizados e algo que elas são obrigadas a usar por necessidade.

Justo.

— Em contraste, os trajes de banho particulares são algo que elas escolhem usar. Entende a diferença?

— Pode elaborar um pouco mais?

Isso está começando a ficar interessante.

— No dia a dia, garotas ficam envergonhadas de mostrar os ombros ou as coxas, quanto mais o umbigo — o que poderia até fazê-las serem vistas como… você sabe, "fáceis". Mas, assim que têm a desculpa de ir à praia, elas voluntariamente vestem roupas que são praticamente equivalentes a roupa íntima.

O presidente cerrou o punho e olhou para o céu, como se estivesse tomado pela emoção.

— É socialmente aceitável olhar… não, eu diria até que pode ser considerado rude não olhar.

Entendo. Ele tem um ponto. É isso que chamam de magia do verão?

— Agora eu entendi. Meu raciocínio era superficial demais.

— Então você entendeu, né?

— No entanto, tem só uma coisa no que você disse que me chamou atenção.

— Pode falar. O que foi?

— Presidente, você mencionou que os trajes escolares são usados "por necessidade", certo?

— Sim, eu disse.

— Isso não significa que elas estão sendo meio que forçadas a expor a pele contra a própria vontade? Não poderia ser interpretado assim?

— Ah, entendi. Esse tipo de perspectiva realmente torna as aulas de educação física ainda mais agradáveis.

O presidente Tamaki assentiu profundamente diante da minha observação.

— É como olhar para garotas-fera escravizadas alinhadas em um mercado. Você está no caminho certo.

— É… eu não estou acompanhando essa metáfora.

Por favor, não me coloque no mesmo grupo que você.

— Ei, sobre o que vocês dois estão falando?

Surgindo do nada, Tsukinoki-senpai agarrou a orelha do presidente e a puxou com força.

— Ai! Ei, Koto— espera, cadê o biquíni?

Tsukinoki-senpai apertou ainda mais, arrancando um grito mais alto dele. O traje de banho dela é um maiô preto, com renda cobrindo o peito.

— Certo, já chega de bobagem. Vamos logo para a água.

Dito isso, ela arrastou o presidente embora.

— Ah, um guarda-sol! Obrigada, Nukumizu-kun!

— Yanami-san—

Antes que eu pudesse terminar, Yanami apareceu, já segurando uma raspadinha na mão. Meu cérebro nem teve tempo de questionar a raspadinha antes que minha atenção fosse dominada por outra coisa — sua pele pálida.

O traje de banho dela é um biquíni simples, mas… não é simples demais? A quantidade de pele exposta parece quase excessiva. Apesar do apetite voraz dos últimos dias, sua cintura é surpreendentemente fina. Por outro lado, certas partes que cresceram proporcionalmente ao seu apetite parecem prestes a escapar de seu "traje de banho do ano passado", que não parece muito à altura da tarefa de contê-las.

Isso não é uma questão de combinar ou não com ela — é simplesmente algo que me faz querer agradecer aos céus.

— O que foi? Meu traje de banho te matou?

— Ah, não, nada disso. Eu nem estava olhando.

Que mentira terrível, até mesmo para os meus padrões. Yanami, parecendo satisfeita, acomodou-se sob o guarda-sol.

— Vou ficar aqui beliscando por um tempo, então vão lá aproveitar a água.

— Vamos, Yana-chan! A água está tão bonita!

A próxima a chegar é Yakishio, segurando uma bola de praia em uma mão e mal conseguindo conter a empolgação enquanto olha para o oceano.

O traje de banho dela também é um biquíni, mas no estilo tomara que caia. O contraste entre sua pele bronzeada e o branco intocado por baixo já chama atenção por si só, mas o design do traje é ainda mais distrativo. A parte de cima é amarrada na frente por um cordão. E o que podia ser visto entre as frestas desse cordão era—

Digamos apenas que devo muita gratidão aos designers de trajes de banho. Talvez eu devesse mandar um vale-presente da Amazon ou algo assim.

— Certo, Nukkun, você vem também!

— Eu vou ficar aqui cuidando das nossas coisas por enquanto. A Yanami-san vai demorar para comer, então Yakishio-san, pode ir na frente—

— Oh? Nukumizu-kun, você está me desafiando agora?

…Desafiando? O que isso quer dizer? Antes que eu pudesse perguntar, Yanami de repente começou a enfiar a raspadinha na boca em velocidade máxima.

— Terminei!

— Espera, já?

— Raspadinha é praticamente uma bebida, Nukumizu-kun— gahhh!

Yanami imediatamente segurou a parte de trás da cabeça, encolhendo-se em posição fetal por causa do congelamento cerebral.

— Viu? É isso que acontece quando você come algo gelado rápido demais.

— Você está bem, Yana-chan?

— Minha cabeça está doendo muito…

Com lágrimas se acumulando nos olhos, Yanami olhou para nós como se estivesse pedindo ajuda. Eu já suspeitava, mas agora tenho certeza. Essa garota é meio cabeça-de-vento.

— Quando estiver se sentindo melhor, você deve ir também, Yanami-san. Eu fico aqui.

— Obrigada! Já estou bem, então vou indo!

— Nukkun, anda logo e vem com a gente!

Levantando areia, Yanami e Yakishio correram em direção à beira da água. Yakishio imediatamente lançou a bola de praia nas costas do presidente com uma força surpreendente. Não é a primeira vez que ela encontra ele?

Enquanto observava as duas se afastando, uma sensação incômoda me atingiu. Eu não conseguia me livrar da impressão de que estava esquecendo alguma coisa… Enquanto pensava nisso, alguém cutucou minhas costas com o pé descalço.

— N-Nukumizu… o s-seu olhar está… meio… p-pervertido.

Ah… eu tinha me esquecido completamente dessa garota. Komari estava sentada um pouco afastada da lona, enrolada em um moletom de mangas compridas.

— Você não vai se juntar aos outros?

— E-Eu estou bem aqui.

O presidente está cercado por três garotas, exibindo um sorriso que eu nunca vi antes. Parece que está se divertindo mais do que nunca. Ele até trouxe uma boia gigante de orca. Komari, por outro lado, observava o grupo animado com uma expressão amarga.

— Você devia ir ficar com o presidente. É uma oportunidade rara.

— C-Cuide da sua vida.

Komari começou a mexer no celular, que estava dentro de um saco ziplock. Então, sem levantar o olhar, falou de repente:

— E-Então… Nukumizu… v-você, tipo… gosta da Yanami?

— Hã? Por que você perguntaria isso?

Esse pensamento nunca passou pela minha cabeça. Afinal, ela ainda gosta do Sosuke Hakamada, e foi rejeitada recentemente.

— P-Porque vocês estão s-sempre juntos.

— Bem, isso é porque a única vez que você viu a Yanami-san foi quando eu estava com ela.

Hmm… quando um garoto e uma garota são vistos juntos, realmente dá essa impressão de fora. Na realidade, nem conversamos ou nos cumprimentamos na sala de aula. A única pessoa da nossa turma que provavelmente sabe que nos conhecemos é a Yakishio.

— Além disso, minha ligação com a Yanami-san só começou recentemente por circunstâncias específicas. Se eu gostasse dela, não seria melhor do que aqueles caras que se apaixonam por uma garota só porque ela falou com eles.

— Eh?

Komari puxou o moletom mais para perto do corpo e começou a se afastar de mim.

— Não, quer dizer, "eu não me apaixonaria só porque conversamos". Foi isso que eu quis dizer.

Que pessoa incrivelmente rude. Foi quando percebi o traje de banho aparecendo por baixo do moletom da Komari.

— Ah, esse é o traje de banho da escola.

— F-Foi tudo muito de repente. E-Eu não tinha um.

Komari me encarou com desconfiança.

— Nukumizu, v-você saiu para comprar um t-traje de banho em p-pânico, não foi?

— Haha, não seja ridícula. Estou só usando o do ano passado. É meio cafona, mas…

— M-Mas a etiqueta ainda está p-presa.

Droga. Quando instintivamente apalpei o traje de banho, Komari abriu um sorriso malicioso.

— Tá bom. Eu comprei ontem depois da aula.

Maldita, Komari. Cerrei os punhos, frustrado.

— Vamos lá, é um passeio na praia com garotas. Posso ficar um pouco animado, não posso?

Não sei se isso foi a coisa certa a dizer para Komari, que mal se encaixa na categoria "garotas" nesse contexto. O olhar de desprezo dela me atravessou.

— N-Nadar não é diferente do q-que fazemos na a-aula.

— Não é a mesma coisa. É por diversão. Não é normal ficar um pouco animado?

— P-Pensa por um segundo. V-Vamos dizer, por exemplo, que você está b-brincando com amigos.

Hmm… é, não consigo nem imaginar esse cenário. Julgando pela minha expressão, Komari rapidamente reformulou.

— O-Okay, vamos dizer que você pagou uma t-taxa de amizade para trazer alguém.

De repente, o cenário ficou dolorosamente real.

— Q-Quando vocês estiverem decidindo o que fazer, v-você jogaria bola…?

— Não.

Respondi imediatamente.

— F-Faria uma guerra de água?

Definitivamente não. Mas ainda assim—

— Komari, você está esquecendo um detalhe crítico.

Olhei para Yanami e os outros, que estavam rindo e brincando em cima da boia de orca. Yakishio tentou ficar de pé, mas escorregou, caindo na água sob os aplausos de todos.

— D-Detalhe… crítico?

— Minha amiga nesse cenário é uma garota. E ela está usando biquíni.

De repente, o conceito de "taxa de amizade" se torna muito mais preocupante.

— Nesse caso, sim. Eu jogaria bola ou faria uma guerra de água.

Determinado, levantei-me. Komari me encarou com um olhar reservado para observar as formas de vida mais baixas.

— T-Tanto faz, só a-anda logo e vai!

 

Me joguei de costas na areia quente, abrindo os braços como uma estrela-do-mar e fechando os olhos.

…Provavelmente nunca vou esquecer este dia pelo resto da minha vida. O fato de que brinquei alegremente com garotas de biquini certamente será uma memória que me sustentará durante a solidão da minha vida futura.

Uma sensação fria pressionou minha testa. Yanami estava distribuindo copos de suco para todo mundo.

— Temos que nos manter hidratados, né? Então, o que vamos fazer para o almoço?

Yanami perguntou enquanto separava um par de hashis descartáveis. Meu olhar caiu involuntariamente no yakisoba em seu colo. Espera, isso não é o almoço dela?

Tsukinoki-senpai, prendendo o cabelo novamente, olhou ao redor.

— Vamos pegar alguma coisa e comer aqui? O que todo mundo quer?

Enquanto todos trocavam olhares, tentando medir as preferências uns dos outros, Yanami levantou a mão.

— Que tal yakisoba?

O cheiro do molho se espalhava pelo ar, tentando qualquer um por perto. Só pelo aroma já dava para entender por que alguém sentiria vontade.

— Yanami-san, esse yakisoba que você está comendo agora não conta?

— Esse aqui? Peguei em uma barraca aleatória que estava aberta, mas foi um erro total. Meu instinto está dizendo que a barraca lá do final é a premiada.

Yanami sugou o macarrão com confiança. Claramente, ela está planejando comer outra porção.

— Eu vou buscar!

Jogando de lado a toalha que usava para se secar, Yakishio se levantou com entusiasmo.

— Certo, estou contando com você. Nukumizu, vá com ela.

Disse o presidente Tamaki enquanto examinava os arredores com cautela.

— Quando garotas vão fazer compras sozinhas, há uma grande chance de acionarem um evento de "levar cantada". É melhor evitar isso desde cedo.

— Isso… só acontece em 2D, não?

Bom, é melhor prevenir do que remediar. Segui Yakishio pela praia. Caminhar ao lado de uma garota bonita de biquini é o suficiente para me deixar nervoso, mas também é… meio agradável. …O que eu sou, uma criança do ensino fundamental?

— Você conseguiu chegar em casa ontem, mesmo tendo ficado tarde?

— Claro. Sempre chego por esse horário quando dou uma volta depois das atividades do clube.

Nossa conversa caiu no silêncio. Agora que penso nisso, o assunto de ontem provavelmente é proibido. Momentos assim me fazem desesperar com a minha falta de habilidade de conversa.

— Espera, você está sendo cuidadoso por causa de ontem?

Yakishio espiou meu rosto enquanto eu ficava em silêncio de forma constrangedora.

— Bem, é que… pensei que talvez eu tivesse dito ou feito algo desnecessário e piorado as coisas para você.

— Bom, sim. Estou para baixo e, sinceramente, não seria difícil eu começar a chorar agora. Mas esse não é o ponto. Se eu choro ou não, é problema meu. E agora estamos todos aqui nos divertindo juntos.

Yakishio sorriu levemente e então levantou uma grande quantidade de areia com o pé.

— Aquele cara… é tão desligado, mas mesmo assim conseguiu uma namorada.

— Bom, o Ayano é bonito e inteligente, afinal.

— Pois é! E não só isso, ele é engraçado, gentil com todo mundo e—

Ela parou e deixou os ombros caírem.

— Eu estive ao lado dele por anos, e ele nunca me viu como uma garota, né?

— Bem… provavelmente. Mas talvez de um jeito bom?

— Essa foi uma péssima tentativa de animar alguém.

Yakishio me lançou um olhar sério. É, eu também não achei.

— Yakishio-san… bem… vamos só esquecer tudo isso hoje e nos divertir, ok?

— É, você está certo.

Ela parou de repente, virou-se para mim e abriu um grande sorriso.

— Hehehe.

— Hã?

Ainda sorrindo, ela de repente segurou minha mão. Espera, o quê!? O que está acontecendo!?

— Certo, vamos correr!

O quê? Ela começou a correr, me puxando antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo. Em pânico, tropecei atrás dela.

— E-Espera!

Que velocidade é essa!? Ela está puxando tão forte que meu ombro pode sair do lugar. Não deu. Eu não consegui acompanhar. Tropecei e caí de cara na areia, puxando Yakishio comigo, já que ela ainda segurava minha mão.

— Nukkun, você é muito lento! Tipo, absurdamente lento!

— Não, não, você que é rápida demais, Yakishio-san!

Enquanto eu tentava me levantar, coberto de areia, Yakishio caiu na gargalhada, ainda deitada.

— Você é tão lento, e ainda cai assim! Está completamente coberto de areia—isso é hilário!

Ela segurou a barriga, rindo sem parar.

— O quê!? Isso não tem nada a ver com eu ser lento!

O que deu nela para rir tanto? Tentei limpar o rosto com o braço, mas só consegui espalhar ainda mais areia.

— Para! Minha barriga está doendo—eu não consigo!

Yakishio arfava, ainda rindo enquanto rolava na areia. Enquanto isso, eu me sacudia em silêncio.

— Ah, isso foi muito engraçado.

Ainda rindo, ela limpou as lágrimas do canto dos olhos cheios de areia.

— Yakishio-san, vamos logo buscar o almoço.

— Pode largar o honorífico, tá? Temos a mesma idade.

Ainda deitada, Yakishio estendeu as duas mãos para mim.

— Aqui.

— Hã? O que foi? Tinha algum inseto ou algo assim?

Piscando, confusa, ela tirou a areia do corpo e se levantou.

— Sério, Nukkun. Como a Yana-chan diz, é por isso que eu não gosto dessa parte de você.

— Que parte?

Ela tocou levemente meu peito com a mão.

— Garotas, sabe… às vezes só queremos ser mimadas.

— Hã, é assim que funciona?

Uau, isso é meio educativo. Assenti sinceramente, aceitando suas palavras ao pé da letra. Com os olhos arregalados, Yakishio me encarou por um momento antes de murmurar novamente.

— É… essa parte.

Então por que você não me diz?

 

— Desculpem a demora! Trouxemos a mercadoria!

— Ei, Yakishio, para de balançar isso.

Cobertos de areia, mas triunfantes, trouxemos o yakisoba da "barraca do final".

— Vocês demoraram tanto que achei que ia morrer de fome!

Yanami pegou sua porção feliz, já tendo derrotado seu primeiro yakisoba. Mesmo assim, ela não dá nenhum sinal de estar cheia, o que realmente comprova a consistência e confiabilidade de Anna Yanami. Sua habilidade de manter a maior porção para si enquanto distribui o resto também não deve ser subestimada.

— Ei, Komari. Você não está com fome?

Komari não tocava na comida, em vez disso cutucava nervosamente a areia com os dedos.

— O-O presidente está lendo m-meu romance.

Ah, é mesmo? Finalmente algo que realmente parece um acampamento de treinamento do Clube de Literatura. Separei os hashis descartáveis que estava segurando na boca.

O presidente aceitou seu yakisoba enquanto levantava o olhar do celular.

— Eu li. Sim, está bem escrito e acho interessante. Vamos começar a preparar para postar online hoje à noite.

— S-Sério?

Komari deixou escapar um pequeno sorriso de alívio.

— Tem cerca de 10.000 palavras no total, certo? Durante a edição, podemos dividir em três capítulos para a postagem.

— D-Dividir…?

— Sim. Para uma história serializada, o padrão é separar em partes de cerca de 3.000 a 4.000 palavras. É uma quantidade que os leitores podem terminar de uma vez, mas ainda assim parece substancial. Além disso, você vai precisar de um título e um resumo.

Ouvi a conversa enquanto enfiava yakisoba na boca.

O aroma picante fazia cócegas no meu nariz. Dá para entender por que a Yanami tinha colocado os olhos nesse lugar. Não é como as outras barracas. O molho tem uma qualidade distinta, de algo feito à mão.

— E-Eu já… tenho um título…

— Sim, acho que é um bom. Mas que tal adicionar um subtítulo no final para deixá-lo mais descritivo?

Parece que o presidente está sugerindo um título no estilo de web novel, mantendo o original da Komari enquanto o deixa mais chamativo.

…Aliás, esse macarrão não está nada mal. Não parece daqueles comprados em atacado; provavelmente é de um fabricante local. Quando olhei para Yanami, ela me deu um joinha triunfante.

— C-Como se adiciona um… s-subtítulo?

— Hmm. Por exemplo, se o título fosse "O Clube de Literatura Vai à Praia", o que você adicionaria, Nukumizu?

— Espera. Eu?

Que pergunta mais sem noção é essa? Eu só estava pensando em yakisoba. E, com membros do clube de traje de banho ao meu redor, eu tinha que tomar cuidado.

— Ah… que tal "E Não Sobrou Nenhum" ou algo assim?

Fui o mais seguro possível. O presidente assentiu, animado.

— Se for com tema de mistério, funciona. Usar um título famoso desses ajuda a guiar as expectativas do leitor.

— E você colocaria o quê, presidente?

— Bom, deixa eu ver… pela minha experiência, algo tipo "A Gente Não Fazia Ideia de que Era uma Praia de Nudismo Obrigatória!" ou "É Verdade que Você Ganha Pontos Quanto Mais Tira a Roupa?" faria as visualizações dispararem—

Antes que ele terminasse, a mão de Tsukinoki-senpai desceu certeira na parte de trás da cabeça dele. O presidente se curvou, gemendo.

— Certo, Shintaro, já chega.

— K-Koto… eu não estava dizendo que você precisava tirar a roupa—

— Eu. Disse. Chega!

Tá bom, vocês dois. Parem de flertar. Já está ficando irritante.

— Uau, Yana-chan, então o Clube de Literatura faz umas coisas bem complicadas, né?

Enquanto dizia isso, Yakishio cutucava o yakisoba com os hashis, procurando alguma coisa.

— Né? Aliás, Lemon-chan, o seu tem carne?

— O meu tem lula, mas carne não tem nada.

— Aff, eu queria tanto carne~.

— Eu também~.

Com aqueles olhos brilhantes e "vidrados", elas sugavam o macarrão. Quando Yanami e Yakishio ficam lado a lado assim, definitivamente não passam uma impressão de maior inteligência.

— A-Alguém tem que t-tirar a roupa…? O-Ou estão f-fazendo a pessoa tirar…?

Komari murmurou, encarando o celular.

— Komari, foi só um exemplo. Você não precisa fazer os personagens do seu romance tirarem a roupa, tá?

— E-Então isso quer dizer que v-você vai… tirar?

Como chegamos a esse ponto?

— Eu não vou tirar. Ninguém vai tirar. Agora anda e come seu yakisoba.

 

Hora do descanso depois do almoço. Talvez entediada de ficar só sentada, Yakishio se levantou de repente.

— Não tem algum tipo de evento acontecendo ali, do outro lado da praia? Vamos dar uma olhada.

— Será que tem barracas de comida?

Yanami murmurou, roendo uma espiga de milho recém-assada. Claro que ela se levantou e foi junto. Como é que ela ainda consegue comer mais coisas depois de comer tanto? Quando ergui o olhar sem pensar, meus olhos caíram direto na barriga da Yanami.

— Ah, espera, Yanami-san. Você ainda não colocou isso.

Estendi a jaqueta dela, mas Yanami piscou para mim, confusa.

— Jaqueta? Eu passei protetor solar, então estou bem.

— N-Não, é que… a sua barriga…

Minha voz morreu, e eu desviei o olhar na hora. Yakisoba × 2 + milho assado = barriguinha estufada.

Yanami arrancou a jaqueta da minha mão e jogou bem na minha cara.

— E-Eu tenho a minha própria jaqueta, tá!? É por isso que eu não gosto dessa parte de você, Nukumizu-kun!

Pegando o próprio moletom, ela vestiu e saiu marchando, ainda segurando o milho assado. Quando Yakishio foi atrás dela, virou e exibiu um sorriso despreocupado para Komari, que ainda estava grudada no celular.

— Komari-chan, vem! Você ficou sentada aqui o dia inteiro, não ficou?

— Fueh!?

Os olhos de Komari correram de um lado para o outro, nervosos, enquanto ela tentava digitar alguma resposta no celular — só para o presidente pressionar a mão sobre ele com firmeza.

— P-Presidente!?

— Komari-chan, por que você não vai com elas? Pensa nisso como pesquisa para o seu romance.

— S-Se o presidente insiste…

— Boa menina. Koto, você vai com elas também.

— Entendido. Komari-chan, vamos juntas.

De mãos dadas, Tsukinoki-senpai e Komari foram atrás das outras. Eu fiquei ao lado do presidente, observando-as sair sem pensar em nada.

— Tudo bem só as garotas irem? E se alguém der em cima delas?

— Com a Koto lá, vai ficar tudo bem. Ela quebra flags.

Isso é confiança ou é um elogio torto? De qualquer forma, o presidente puxou o celular.

— Além disso, eu pensei em começar a preparar a postagem de hoje à noite.

— Ah, certo. Esse acampamento era para ser um retiro de escrita.

Eu também devia escrever alguma coisa… Sentindo a pressão, abri o app de notas do celular. Nesse instante, chegou uma mensagem do presidente. Tinha um arquivo de documento anexado.

— O que é isso?

— Não está curioso para ver que tipo de história a Komari-chan escreveu?

Ele parecia estranhamente satisfeito. Intrigado, abri o arquivo.

*

 

Relatório do Clube de Literatura

"Os Arquivos do Caso Aconchegante do Café dos Espíritos" — por Chika Komari

Yuri Mizuhara, uma estudante do primeiro ano do ensino médio. Um dia, no caminho de volta para casa, ela viu uma criatura estranha.

— Uma raposa?

O que chamou sua atenção foi o pelo — um prateado deslumbrante, que parecia brilhar. Hipnotizada, Yuri se viu seguindo-a.

Quando percebeu, tinha se perdido em uma rua desconhecida, onde um café, com as paredes cobertas de hera, erguia-se à sua frente. Como se puxada por uma força invisível, empurrou a porta e entrou.

— Com licença, eu me perdi. Você poderia me dizer como eu faço para voltar?

Lá dentro havia um homem alto, vestindo um dólmã de chef. Seus longos cabelos prateados estavam presos, e ele olhou para Yuri, surpreso.

— Então… você me seguiu até aqui. Sente-se. Vou trazer uma xícara de chá.

— Ah… eu só preciso de direções—

— Aqui é a "Cidade Entre Mundos". Agora que chegou, você terá que comer ou beber alguma coisa antes de poder ir embora.

Enquanto Yuri hesitava, um jovem com uniforme de garçom apareceu dos fundos do café.

— Faz tempo que não temos um cliente. Vá, sente-se.

O jovem, que se apresentou como Sumire, recebeu Yuri com um sorriso sem graça.

— Bem-vinda à Casa Perdida da Cidade Entre Mundos.

Quantas vezes Yuri visitou aquele café desde o primeiro encontro? Sentada perto da janela, no assento de sempre, ela deixou o olhar passear pela atmosfera tranquila do lugar.

Parece que o dono do estabelecimento, muitas vezes chamado de Jovem Mestre, só aparece uma vez a cada três dias. Na maior parte do tempo, é apenas Sumire-san cuidando de tudo — mas, considerando o quão raros são os clientes, isso não parece ser um problema.

Enquanto se deixava envolver pelo aroma familiar do chá de camomila, um homem entrou no café. A aura ao redor dele era inconfundivelmente não humana.

Ao vê-lo, o rosto de Sumire-san empalideceu.

— Grande Mestre!

— Hoje é o dia marcado. Vim buscar o prato prometido.

— E-Eu peço mil desculpas. O Jovem Mestre não apareceu hoje…

— Então, como combinado, tudo desaparecerá no vazio.

Sumire-san tremia, agarrado a Yuri em desespero.

— Por favor, Yuri! Se eu não cumprir a promessa, eu também serei apagado no vazio. Por favor, cozinhe algo para ele!

— Espera, o quê?! Eu não consigo fazer isso! Você não sabe cozinhar, Sumire-san?

Com um ar aflito, Sumire-san murmurou baixinho:

— Eu… eu não posso usar fogo.

Yuri também mal tinha experiência cozinhando. Mesmo assim, hesitante, decidiu recriar um omurice que havia feito com a mãe quando era pequena. Nervosa, serviu o prato ao homem.

O homem pegou a colher, encarando a comida com desconfiança. Uma colherada. Duas…

Ele comeu sem grande entusiasmo, como se estivesse apenas "aceitável", e então largou a colher, balançando a cabeça.

— Da próxima vez que eu vier, faça algo melhor.

Deixando metade do omurice no prato, ele jogou essas palavras no ar e saiu.

— Isso foi incrível, Yuri! Normalmente, ele só dá uma colherada e vai embora!

Sumire-san exclamou, feliz — bem na hora em que o mestre do café apareceu dos fundos.

— Nossa… aquele velho finalmente foi embora, hein?

— Jovem Mestre!

O mestre provou uma única colherada do omurice que restou e franziu o cenho.

— Isso tem gosto de… barato.

Com um clac, largou a colher de volta no prato.

— Mas… dá para comer.

— Que diabos!? Eu cozinhei no seu lugar! E é assim que você trata um cliente!?

— Bom, o problema se resolve se você não for mais cliente. Seu turno começa amanhã.

— Quê!? Quem disse que eu vou trabalhar no seu café?!

O homem encurralou Yuri contra a parede enquanto ela resistia.

— Não foi você que me perseguiu em primeiro lugar? Para mim isso parece stalking.

— Eu estava seguindo uma raposa prateada, não você!

O homem estendeu a mão e ergueu suavemente o queixo de Yuri com a ponta do dedo.

— Meu nome é Gekko. Guarde bem. (O nome significa "raposa da lua".)

Então, inclinando-se até o ouvido dela, sussurrou:

— Vou fazer meu sabor penetrar até os seus ossos.

 

…Ah, entendi. Então é assim.

Depois de terminar o romance da Komari, ergui o olhar para as nuvens inchadas no céu de verão.

— Entendi… então é assim.

Dessa vez eu falei em voz alta. Isso definitivamente está fora da minha área. Ainda assim, foi uma leitura fácil — quando vi, já tinha terminado tudo de uma vez.

— Não é ruim, né?

O presidente Tamaki sorriu, orgulhoso.

— A Komari-chan escreve bem, né?

— Sim… eu diria que sim. Pelo menos, eu não conseguiria escrever uma coisa dessas.

Me sentindo um pouco invejoso, fiz questão de soar meio convencido.

— Com tantos membros novos entrando, o Clube de Literatura fica praticamente garantido por um tempo, né?

Lá do local do evento, ao longe, explodiu uma grande torcida. O presidente Tamaki olhou para a direção, curioso.

— Aliás, presidente… você escreve o quê?

— Eu? Bom, eu escrevo uma serial na web há uns três anos.

— Sério? Isso é incrível. Posso ver?

— Cara, mostrar assim para alguém dá um nervoso…

Corando um pouco, ele me entregou o celular. O título na tela parecia estranhamente familiar.

"Descobri que a Garota-Escrava que Eu Resgatei Era uma Aventureira Rank S, Então Decidi Virar o Marido do Lar Dela"

…Espera. Eu já vi isso antes.

— Eu conheço esse. Na verdade, eu li.

— Não acredito. É a primeira vez que eu encontro um leitor meu na vida real.

Eu já tinha ouvido dizer que existem muitos autores estudantes na internet, mas nunca imaginei que o presidente Tamaki fosse o Tarosuke-sensei por trás de uma obra com mais de 20.000 pontos acumulados.

— Essa pontuação é impressionante. Você acha que vira livro?

— Nem perto. Tem gente muito acima do meu nível.

Então é esse tipo de mundo, hein? Mesmo com milhares de leitores, ainda não basta para se destacar.

— Depois eu te mando o que a Yanami-san escreveu. E você, como está indo, Nukumizu?

— Eu só consegui montar um esboço bem por cima. Ainda não escrevi o texto de verdade. Sinceramente, quando chega na hora de escrever, eu não faço ideia de por onde começar.

— Então, pelo menos, vamos trabalhar no seu título e no seu resumo hoje. Nessas horas, o importante é pôr alguma coisa no papel — nem que seja uma linha.

Vindo de alguém que já escreveu mais de um milhão de palavras, aquilo tinha peso. Eu assenti com seriedade.

— Certo. Então, sobre o enredo que eu te mandei ontem à noite… o que você achou? É a parte de abertura da história, e eu estava pensando em transformar em uma cena completa hoje à noite.

— Ah, aquele… hmm. O jeito como você desenvolve a heroína ainda precisa melhorar.

— Você está dizendo que não é o bastante para justificar ela se apaixonar pelo protagonista?

Hmm… então eu preciso escrever mais sobre a ligação emocional entre o protagonista e a heroína?

— Não, é o contrário. O protagonista salva a heroína, e ela se apaixona por ele por causa disso, certo?

— Sim, exatamente. No começo, ela é hostil, mas conforme vivencia a bondade do protagonista, vai sendo atraída por ele.

— Isso soa… calculado.

— Hã?

— Se apaixonar por alguém só porque te salvou ou foi gentil com você não passa de uma transação. É amor condicional—algo raso, impuro.

Eu achei que ele estivesse brincando, mas a expressão do presidente era totalmente séria.

— Assim como a água naturalmente corre para o ponto mais baixo, a lógica do mundo deve ditar que o protagonista simplesmente é amado. Ser cativado por alguém é, por outro lado, correr o risco de ser afastado. As heroínas não podem "se apaixonar" pelo protagonista. Elas devem adorá-lo como algo natural — elogiando-o incondicionalmente, como mandam as leis do universo.

Depois de declarar aquilo com paixão, o presidente desabou e ficou olhando para o céu.

— Queria reencarnar em outro mundo, cercado de gente me bajulando… Se eu bebesse uma e fosse nadar, você acha que daria certo?

— Vamos esperar até o Obon. Parece uma época melhor para isso.

Mesmo assim, é surpreendente o presidente sonhar com reencarnação. Ele é bonito, animado e ainda tem uma amiga de infância linda e próxima. Acho que todo mundo tem suas próprias dores.

Enquanto conversávamos à toa, as garotas voltaram carregando um monte de alguma coisa.

— Eeeei, voltamos! Aqui, um souvenir!

O que Yakishio estava trazendo era um monte de fogos de artifício.

— Uau, que demais. Você comprou tudo isso?

Sorrindo, vitoriosa, Yakishio me entregou alguns.

— Nada! Eu corri muito rápido, peguei a bandeira e… pá! Ganhei!

Beleza, eu não faço a menor ideia do que ela está falando. A confusão deve ter ficado estampada na minha cara, porque Tsukinoki-senpai entrou para explicar.

— Yakishio-chan entrou na competição de beach flags por impulso, e esse foi o prêmio principal. Vocês dois tinham que ter visto.

— S-Sim, foi incrível.

Komari acrescentou, assentindo com entusiasmo, ainda empolgada.

— Bom, não é grande coisa, mas… vai, me elogiem mais!

Yakishio se remexeu, claramente curtindo a atenção. Em contraste absoluto, havia uma pessoa que parecia completamente abatida.

— Yanami-san, o que foi? Você não parece muito animada.

— Não tinha barracas de comida…

Ela encarava as lojinhas à beira da praia, com uma expressão de quem estava morrendo de fome. Seus lábios formaram silenciosamente: ta-ko-ya-ki. Tenho certeza.

— Se você comer demais agora, não vai ter espaço para o jantar.

— Hã? Por quê?

…Por quê?

Yanami parecia genuinamente confusa. Por quê, mesmo? Isso parece uma pergunta filosófica.

— Falando em jantar, a gente tem que cozinhar no alojamento do centro juvenil, né? O que vamos fazer?

— Hehehe. Nukumizu-kun, preocupado com falta de carne? Não tema.

Yanami sorriu com confiança.

— Eu reservei um espaço no camping aqui perto. O jantar vai ser churrasco!

— Ah… entendi…

Ela não tinha vindo nessa viagem para fugir de um churrasco, em primeiro lugar? Eu, pessoalmente, preferia curry. Tem algo especial no arroz feito na panela de acampamento.

— Hã? Nukumizu-kun, por que você está com essa cara desanimada?

Percebendo minha reação apagada, Yanami me olhou como se eu fosse um alienígena.

— Churrasco! Carne! O que mais você poderia querer?

Como se tivesse entendido algo de repente, Yanami bateu as mãos.

— Ah, já sei. Relaxa, a gente vai pegar carne bovina também. Afinal, a gente já está no ensino médio.

Yanami me deu um joinha, com a cara cheia de superioridade.

— Tá, mas qual é exatamente a ligação entre carne bovina e estar no ensino médio?

— É óbvio. Famílias não podem comer carne bovina enquanto os filhos ainda estão no ensino obrigatório. É a regra!

— Não existe regra nenhuma dessas.

— Hã? Mas o meu pai disse.

Essa conversa está começando a ficar meio deprimente.

— Espera… isso é uma norma? Uma regra da escola, talvez?

— Provavelmente é alguma coisa ligada ao trabalho do seu pai. Sabe… tipo aquelas famílias que só compram carro da Toyota por causa de onde o pai trabalha.

Boa, eu. Vamos encerrar esse assunto por aqui.

— Trabalho, é? O que meu pai anda fazendo hoje em dia, afinal…

Yanami abaixou a cabeça, e o tom dela ficou ainda mais sombrio. A corrente de tristeza ainda não acabou.

— Bem, é… trabalhando? Provavelmente?

— S-Sim! Ele está trabalhando, com certeza! Mas o meu pai não é muito bom com, tipo… organizações e essas coisas.

Tá tudo bem, Yanami. Vamos parar por aqui. Se isso continuar, eu que vou começar a chorar.

 

A hora do nosso ônibus está se aproximando.

Considerando o tempo para tomar banho e trocar de roupa, já está na hora de começar a juntar as coisas. Yanami também está quase terminando de comer o último takoyaki.

Enquanto eu arrumava as bagagens, Yakishio, aparentemente ainda sem querer encerrar o dia, começou a se alongar olhando para o mar, com saudade.

— Ei, falando nisso, Komari-chan… não me diga que você… ainda nem entrou na água?

— Hã? Ah…

Komari remexeu nervosa na bolsa, tentando puxar o celular. Yakishio não deixou a chance escapar. Com um sorriso malicioso, ela avançou e pegou Komari no colo, num carregamento de princesa.

— Nua!?

— Bora! Até depois, pessoal!

— Até depois. (×4)

A gente acenou enquanto Yakishio disparava em direção à água, ignorando completamente os protestos se debatendo da Komari. Que monstro de força.

— Então eu vou dobrar o guarda-sol.

— Beleza. Você consegue devolver junto com a boia de orca? Eu termino de arrumar aqui.

Na beira d’água, a água espirrou para o alto junto de um grito agudo. O grito da Komari, surpreendentemente, é até fofo.

— Shintaro. As meninas vão descer no meio do caminho para fazer compras no mercado. Vocês dois podem ir na frente e levar as bagagens para a pousada?

Tsukinoki-senpai soltou o cabelo úmido, os fios negros caindo sobre os ombros nus.

Enquanto ela apertava o cabelo com uma toalha para tirar a água, se inclinou para perto — perto até demais — para espiar o quadro de horários na mão do presidente.

— Se a gente comprar e pegar o próximo ônibus, dá tempo certinho.

— Koto, seu cabelo está encostando em mim. Está frio.

— Cala a boca. É de propósito.

Lá vão eles. Flertando sem o menor constrangimento. Não podem se apressar e explodir logo?

— Ugh… e-eu estou encharcada…

Toda molhada, Komari voltou torcendo a jaqueta. O traje de banho regulamentar da escola grudava no corpo, destacando a linha da cintura.

…Entendi. O comentário de antes da Yanami finalmente faz sentido. Esse desencaixe — o contraste entre o lugar e a roupa — cria uma mistura forte de vergonha e tabu. Definitivamente um gosto mais avançado.

— Komari-chan! E aí, como foi? O mar estava gostoso, né?

— S… Salgado…

— Né?! Não é ótimo?

— E-Eu disse que é s-salgado!

— Mas é claro, é o mar! Komari-chan, você fala as coisas mais engraçadas!

Yakishio riu, alegre. Komari, economiza saliva. Tentar ter uma conversa normal com ela é inútil.

Tsukinoki-senpai bateu palmas, bem decidida.

— Certo, todo mundo! Acabou a brincadeira! Hora de trocar de roupa e ir para a pousada!

…A gente já brincou bastante. Talvez desse para encerrar por aqui e dispersar, né? Foi o que pensei, enquanto colocava o guarda-sol no ombro.

*

 

O sol começou a se pôr, e o calor sufocante do dia sumiu como se tivesse sido mentira. Os grilos de insetos desconhecidos cortavam o ar. Sinceramente, dá até um arrepio.

— Deixei os legumes lavados aqui.

— Valeu. Você pode alinhar os picados na bandeja?

Yanami se voluntariou para comandar a cozinha na área externa do camping. Por algum motivo, ela me escolheu especificamente como ajudante. E, como prometeu, ela maneja a faca com uma habilidade decente — quer dizer, bem mediana. Ela descasca cenouras com uma técnica competente, mas perigosa o suficiente para me deixar levemente nervoso.

— Yanami-san… você tinha alguma coisa que queria falar comigo?

— Hã? Não, nada. Aqui, agora você vai fatiar essas cenouras descascadas em rodelas. Dá conta?

Claro que dá. Com mais ou menos o mesmo nível de habilidade da Yanami, comecei a cortar as cenouras em rodelas.

— Eu só estava me perguntando por que você me escolheu para ajudar, e não a Yakishio.

As mãos de Yanami pararam na hora.

— Você já caiu no mesmo grupo que a Lemon-chan numa aula de culinária?

— Ah, não. Acho que não.

Por um instante, o olhar da Yanami ficou distante.

— Ela ainda está na fase em que você não pode deixar ela chegar perto do fogo nem de uma faca.

O que foi que aconteceu? Por fora, Yakishio parece a atleta perfeita, uma beleza de alto nível no topo de um pico inalcançável. Mas, quando você conhece de verdade, percebe que ela é uma desligada desastrada.

— Aliás, ela se ofereceu para ficar responsável por acender o fogo.

— Vamos fingir que eu não ouvi isso.

Bom, seja lá o que estiver acontecendo lá, eles vão dar um jeito. Resolvi puxar um assunto que eu estava curioso.

— Falando nisso, Yanami-san… eu li o conto que você escreveu mais cedo.

— O quê? Já? Isso é meio vergonhoso.

— Eu achei muito bom. Bem fácil de ler também.

O conto da Yanami é uma cena leve, refrescante, que captura um instante passageiro de uma manhã de escola. O texto tem um tom conversado, mostrando a luta interna da protagonista sobre cumprimentar ou não o garoto de quem ela gostava.

— E eu não fazia ideia de que aqueles espetinhos de frango frito de conveniência tinham tanta inovação no design. Isso me pegou.

— Né? Muita gente não sabe.

Pera… do que a gente estava falando mesmo? Bom, tanto faz. A Yanami parece estar de ótimo humor.

Quando terminamos o preparo e voltamos para o acampamento, o presidente estava abanando as brasas e cuidando do fogo. Perto dele, Tsukinoki-senpai também abanava — ele.

— Ei, cadê a Yakishio?

Ela não estava em lugar nenhum.

— Está ali, emburrada por alguma coisa.

Bem fora do círculo de luz, Yakishio estava sentada de pernas cruzadas, o rosto sujo de fuligem abaixado enquanto descascava favas em silêncio.

…Parece que aconteceu alguma coisa.

— Vamos deixar ela.

— É… deixa ela.

*

 

Carne, carne, pimentão, carne, linguiça. Como se quisesse compensar a falta de carne durante o dia, Yanami não dava nenhum sinal de que ia diminuir o ritmo.

Para constar, eu tinha acabado de passar por repolho, cebola e milho quando a fatia de carne que eu estava cuidando com atenção foi simplesmente "roubada" da grelha pela Yanami.

— Ei, espera, ainda está assando—

— Está bom, está bom. Você é muito certinho, Nukumizu-kun.

Yanami mordeu feliz a carne mal passada, ainda pingando sangue.

…Entre quem não liga para carne quase crua e quem gosta de assar até o ponto perfeito, existe um abismo enorme e intransponível. Percebendo que eu já tinha perdido a batalha, me resignei a beliscar uma cenoura queimada enquanto observava os outros membros do clube.

— Isso é incrível! Essa carne é do México?

Yakishio, radiante, devorava a carne com o suco vermelho escorrendo pelos cantos da boca.

— Shintaro, essa leva já está pronta. Me dá seu prato.

— P-Prez, essa aqui t-também está pronta.

— Valeu. Comida fica melhor quando a gente come fora, né?

O presidente está no meio de construir o próprio mini-harém. Eu não consigo decidir se devo invejá-lo ou não.

— Nukumizu, você está comendo o suficiente? Essa carne está ótima. Come enquanto tem.

— Sim… estou dando um jeito.

Mesmo assim, eu não conseguia tirar essa sensação estranha de incômodo. Quando olhei ao redor, percebi uma coisa.

…Por que todo mundo parece estar comendo carne?

Na minha frente, Yanami estalou a pinça e colocou mais carne na grelha.

— Lemon-chan, essa textura grita Argentina, não grita? Quando é carne importada, as Américas são o melhor.

— Uau, Yanami-chan, você sabe muito! Argentina é, tipo… muito longe, né? Isso é o que chamam de carne maturada?

Impressionada, Yakishio enfiou mais um pedaço na boca. Tsukinoki-senpai deu de ombros, sorrindo com resignação.

— Yakishio-chan, isso não é o que "maturada" significa. Vem no acampamento do ano que vem, que eu te deixo provar a de verdade.

…Espera, ela não é do terceiro ano? Ela pretende continuar no Clube de Literatura no ano que vem também?

— C-Carne bovina… faz tanto tempo…

Komari, tomada pela emoção, também devorava a própria porção. A carne que Yanami tinha acabado de colocar na grelha, segundos atrás, já tinha sumido — devorada por todo mundo.

…Sem dúvida. Esse povo todo é do time "não ligo se estiver mal passada".

Pensar que todo mundo ao meu redor é inimigo… Mas, mesmo assim, eu não podia ficar aqui aceitando derrota. Meu olhar caiu num ingrediente específico.

Isso dá para comer cru, se precisar. Estendi meus hashis em direção a uma linguiça que tinha acabado de cair na grelha.

— Nukkun, isso mal encostou aí. Você devia esperar um pouco mais para assar direito.

— T-Tão guloso…

Como eles — que comeram carne quase crua sem pestanejar — têm coragem de falar isso pra mim? A injustiça pesou, mas então Yanami, segurando um pedaço de porco com a pinça, ofereceu para mim.

— Nukumizu-kun, você deve estar morrendo de fome. Aqui, esse aqui já está pronto.

Instintivamente, afastei meu prato do porco meio cru que ela estava me entregando. …Por que isso parece déjà vu? Do lado, Tsukinoki-senpai estendeu um prato para mim.

— Se você está com fome, come isso aqui.

No prato havia um onigiri — de sekihan, arroz com feijão azuki.

— Ah… de onde isso veio?

— Um pessoal de uma barraca ali perto compartilhou com a gente. Disseram que é feito na hora.

Ah, entendi. O sal estava no ponto, e estava delicioso.

— Era uma garota fofinha, provavelmente do fundamental. Eu queria agradecer oferecendo carne, mas não achei ela em lugar nenhum.

Olhei ao redor por reflexo, mas não vi nenhum rosto familiar.

…Impossível. Espantando os insetos zumbindo ao meu redor, dei mais uma boa mordida no onigiri de sekihan.

*

 

O céu do entardecer escureceu até um índigo profundo, enquanto a noite nos envolvia. O som de grilos e os coaxos distantes de sapos ecoavam ao redor. O farfalhar das árvores se juntava ao coro, criando uma sinfonia de montanha vibrante — que eu nem tinha notado antes.

Na ponta do braço estendido de Tsukinoki-senpai, um fogo de artifício de mão desenhou um arco amarelo no ar. A luz passou do amarelo para o verde e, por fim, ficou vermelha, espalhando faíscas brilhantes antes de desaparecer na noite.

Tsukinoki-senpai sorria com alegria de criança. Mas o olhar dela estava fixo no presidente Tamaki.

Só que o presidente, completamente alheio, estava ocupado fuçando a caixa de fogos para escolher o próximo. Sem dizer nada, senpai deu um chute certeiro nas costas dele.

— Pelo menos assiste aos fogos de vez em quando.

— Eu estou assistindo. Só estou tentando escolher o próximo que a gente vai usar.

— Aff, tanto faz. Aqui, olha! Esse aqui é grande, então você precisa da minha ajuda! Vamos fazer juntos!

— Você consegue segurar sozinha! Ai! Tá bom, tá bom, para de me chutar!

O que é esses dois? Sério, casem logo.

Suspirei, colocando o último pedaço de carne na grelha. Dessa vez, eu estava decidido a cuidar dele com carinho até o fim, com as brasas já fracas. Sim, eu iria nutrir. O nome dela? Setsuko.

Estalos de fogos ecoaram perto. Quando olhei, vi Yakishio espalhando fogos giratórios, fazendo Komari gritar e correr pela própria vida.

— Elas ficaram bem próximas, né?

Yanami mastigava os pimentões que sobraram como se fossem um lanchinho qualquer. Próximas? É… vamos dizer que sim.

— Você não vai soltar fogos também, Yanami-san?

— Eu pensei em fazer a sobremesa primeiro.

— Ah, em churrasco, sobremesa seria…

— Hehe, exatamente, isso aqui!

— Marshma—

— Mix de miúdos!

Yanami ergueu triunfante um pacote de miúdos sortidos, com o maior sorriso do mundo. Claro.

— Lá em casa, a gente sempre termina o churrasco com isso!

Como com quase tudo envolvendo a família Yanami, é melhor não questionar. Resolvi só aceitar.

Enquanto isso, o primeiro lado da Setsuko já tinha dourado num ponto perfeito, cheiroso. Se a Setsuko fosse humana, esse seria o primeiro dia dela no fundamental. Uma mochila vermelha combinaria tanto… Agora era a hora de virar, para o outro lado terminar de assar bem.

— Ah, eu vou comer isso.

Antes que eu reagisse, Yanami "pescou" a minha Setsuko com os hashis.

— Setsuko!?

Todas as memórias que eu tinha imaginado com a Setsuko — meus sonhos delicados e passageiros — passaram diante dos meus olhos como um caleidoscópio.

— Setsuko?

— A-Ah, quer dizer…

Yanami sorriu travessa, apontando os hashis para mim.

— Se você queria, era só pedir. Aqui, abre a boquinha, aah~.

— Eeh? Hã!?

Olhei ao redor, nervoso, para garantir que ninguém estava vendo, e então abri a boca com cuidado. O gosto de sangue e gordura se espalhou pela minha língua.

— Bom, né?

— S-Sim…

— E quanto você vai pagar por isso?

Eek!? Claro que ela ia meter uma dessas. Essa garota está brincando com o coração inocente de um jovem. Mas, se eu tiver que colocar um preço…

— Setece—

— Ah, para. Eu estou brincando.

Yanami disse, rindo alto.

— Hã? Você ia falar alguma coisa agora, não ia? O quê? 700 ienes?

— Eu não disse nada…

Sem conseguir encarar, baixei o olhar. Yanami se inclinou com um sorriso provocador.

— Ah, então eu te dar comida na boca vale tudo isso, é? Interessante~.

— Não é esse o ponto. Garotas não deviam fazer esse tipo de coisa tão casualmente. Sabe… valor de raridade, ou… algo assim. É importante manter isso.

— Uhum, uhum, você está certíssimo. Ah, quer mais uma mordida? Eu até faço desconto.

Ela está me zoando totalmente. Por mais irritante que seja, eu não consigo vencer. Voltei minha atenção aos outros membros do clube, brincando com os fogos.

Yakishio, depois de acabar com os fogos giratórios, agora rodopiava com estrelinhas nas duas mãos, gritando de alegria. As faíscas dançavam ao redor dela como estrelas cintilantes, se dissolvendo na noite. De longe, ela parecia tão energética e fofa — perfeita, contanto que você não precise lidar com ela de perto.

Quanto à Komari, ela estava totalmente focada em "queimar o chão" com os fogos há um tempo. O chão matou a família dela ou o quê? 

Cada um se diverte do seu jeito. Yanami? Ela é mais do time da carne do que do time dos fogos.

Enfim, a história da Setsuko tinha chegado ao fim. Como Yanami ainda estava absorvida na carne, decidi que eu também podia entrar na brincadeira dos fogos. De pé, peguei um foguinho pequeno da pilha. É baratinho e tem cabo em forma de pistola, mas eu lembro de ser o meu favorito quando era criança.

Fingindo atirar, mirei as faíscas nas pedrinhas do chão. Estou parecendo a Komari aqui. Ao acender o foguinho, olhei de lado, casualmente, para ver o que a Komari estava fazendo. Através da chama esbranquiçada, vi Komari lutando para acender um fogo de mão maior. Ela tentou várias vezes até finalmente pegar fogo e começar a soltar faíscas.

Mas, tão rápido quanto começou, apagou. Talvez estivesse úmido. Enquanto eu pensava nisso sem muita pressa, Komari virou o fogo da mão e espiou pela abertura.

— Não!

Eu gritei antes mesmo de perceber. BANG! Um estalo alto de pólvora explodindo tomou o ar.

O clarão me deixou cego por um instante. Quando minha visão voltou, a primeira coisa que vi foi o presidente segurando o fogo de mão com força. O rosto dele se contorceu de dor enquanto ele esmagava os restos e jogava de lado.

— Komari-chan, você se machucou!?

— E-Eu estou b—

— Você se machucou em algum lugar?

O presidente examinou as mãos da Komari com cuidado e, de repente, segurou o rosto dela e encarou seus olhos.

— Você está enxergando direito? Não está doendo nada, né?

— S-Sim… eu estou b-bem, de verdade…

— Que bom… o que você teria feito se ficasse com uma cicatriz no rosto?

A expressão do presidente finalmente relaxou, aliviada.

— U-Uma cicatriz no meu rosto… n-não é tão g-grave… mas, u-um, p-presidente, a sua mão… está machucada…

— Não fala besteira. Claro que isso não está ok.

Ele enfiou casualmente no bolso a mão que tinha segurado o fogo de mão.

— M-Mas ninguém olha para o meu rosto mesmo…

— Você olha, pelo menos.

— Hã… a-ah, b-bem…

— Todo dia, quando você se olhasse no espelho, você ia se sentir horrível ao ver isso, né? Eu não quero que você passe por isso.

— P-Presidente…

— Então não diga coisas assim. Cuide de você, tá?

— P-Presidente T-Tamaki!

A voz da Komari falhou e ecoou pelo céu noturno. Eu consegui ouvir ela puxando ar fundo, mesmo de onde eu estava. E então, no instante seguinte—

— E-Eu te amo!

O tempo congelou com a confissão repentina. Yanami virou a carne na grelha. Um foguinho em forma de dragão subiu e chamuscou as pontas do cabelo da Yakishio, que ficou ali, boquiaberta.

O presidente, ainda atordoado com a situação, enfim falou:

— Komari-chan? Ah… o que exatamente você quer dizer com isso…?

Mas Komari puxou mais um ar e despejou seus sentimentos de uma vez, as palavras transbordando como uma enxurrada.

— E-Eu quero dizer que eu te amo! E-Eu sempre t-te amei! E-Eu… eu-eu estive apaixonada por você e-esse tempo todo!

As palavras de Komari saíam como uma barragem rompendo.

— V-Você sempre olha p-para mim, e isso m-me deixa tão feliz! Eu te amo, presidente, então por favor… n-namore comigo!

A voz dela falhou no final e, quando terminou, a cabeça caiu. Lágrimas se juntaram nos olhos, como se ela tivesse gastado toda a energia que tinha só para conseguir dizer aquilo. Diante daquela cena, Tsukinoki-senpai ficou paralisada, como uma estátua. Yanami continuou comendo. Yakishio batia no cabelo chamuscado. O que é essa gente?

— Ah… bem, isso foi meio do nada, então eu estou… surpreso.

O presidente Tamaki disse por fim, quebrando o longo silêncio. Ele começou a falar, parou, e ficou evidente que estava lutando para achar as palavras certas. Depois de algumas tentativas, ele finalmente conseguiu dizer algo — e, com isso, o momento que tinha travado começou a andar de novo.

— Por favor… me dá um tempo para pensar.

Komari assentiu de leve. Depois de lançar um olhar assustado para Tsukinoki-senpai, ela se virou e saiu correndo dali. Espera… isso é—

Os três espectadores trocaram olhares sem dizer nada. Lentamente, Tsukinoki-senpai caminhou até o presidente Tamaki.

— Shintaro, o que está acontecendo aqui?

— Como assim, Koto…? Quer dizer, foi tão de repente—

Antes que ele terminasse, Tsukinoki-senpai puxou a mão dele para fora do bolso e despejou água de uma garrafinha por cima.

— Foi mal. É só um pouco de fuligem. A queimadura nem é tão grave.

— Mesmo assim, dizer "deixa eu pensar" é cruel. Não alimenta esperança.

Ela enrolou um lenço na mão dele com habilidade.

— Ei, Koto—

— Ser direto e rejeitar na hora seria mais gentil!

Ela apertou a mão dele com força e o encarou de baixo para cima.

— Calma aí, Koto.

— Por quê!? Por que você não rejeitou ela de imediato!?

O presidente Tamaki desviou o olhar, sem conseguir responder à acusação direta.

— Aceitar ou rejeitar… isso é entre eu e a Komari-chan. Não é você que decide.

Outro silêncio caiu. Entre os grilos, o único som era o estalo ocasional da gordura pingando na grelha.

— Você tem razão. Afinal, nós somos só amigos de infância.

Tsukinoki-senpai disse, seca. Então, após uma breve pausa, ela armou o braço e deu um tapa forte na bochecha dele.

— Só amigos de infância, é!?

Ela gritou de novo e virou-se, saindo correndo, deixando o presidente Tamaki parado ali, em choque.

Aos pés da Yakishio, um "fogo de cobra" se contorcia pelo chão.

…Cara, eu queria apagar tudo da memória e só brincar com um fogo de cobra agora.

Enquanto eu tentava fugir da situação por dentro, Yanami e Yakishio me lançaram olhares "sabidos", me pressionando para fazer alguma coisa. Era praticamente um sinal de "vai, fala alguma coisa!", com aquelas expressões exageradas. Eu hesitei, mas as duas continuaram, em silêncio, mexendo os lábios: "Vai, vai!"

— Ah… presidente…

Os olhos vazios dele se viraram para mim.

— Nukumizu, é… desculpa. Era para ser um acampamento divertido.

— Não, tudo bem! A gente resolve por aqui. É… você devia ir atrás dela.

— De qual?

Faz o que você quiser. Quase escapou no reflexo, mas eu engoli as palavras.

— Isso é algo que você precisa decidir sozinho.

Não ficou muito melhor, mas paciência.

— Entendi. …Desculpa. Eu deixo o resto com vocês.

Com isso, o presidente cambaleou e sumiu na noite. Os que ficaram para trás soltaram um suspiro profundo em conjunto. Quer dizer, quem imaginaria que as coisas iam escalar desse jeito do nada?

— Com licença… vocês podem começar a encerrar? Já está na hora de apagar o fogo.

A voz tímida veio de um funcionário do camping, que se aproximou com cuidado. A expressão desconfortável e sem jeito dele, por algum motivo, bateu fundo em mim. Ele devia estar observando de longe, sem poder intervir, vendo aquela confusão toda acontecer.

— Ah, desculpa. A gente limpa já.

— Foi mal por isso. Vocês, ah… parecem estar passando por muita coisa.

Que pessoa boa. Meio sem graça, eu comecei a juntar os pratos depressa.

— Entendi.

Enquanto isso, Yanami assentiu solenemente, com uma expressão séria.

— Eu vou terminar de comer tudo imediatamente.

*

 

— Caramba… então era assim que a Komari-chan se sentia? Uau, que coragem!

Na área de lavagem do camping, Yakishio segurava uma esponja cheia de sabão e olhava sonhadora para o céu estrelado.

— Se declarar sob o céu cheio de estrelas para quem se arriscou para salvar ela! Que romântico! Agora as garotas estão na era de tomar iniciativa—

Antes que terminasse o monólogo dramático, o entusiasmo dela despencou. A esponja escorregou da mão e caiu no prato com um toc sem graça.

— É… esperar não leva ninguém a lugar nenhum. Eu aprendi isso hoje…

Por que essas heroínas derrotadas insistem em reabrir as próprias feridas? Eu mesmo fiquei meio melancólico e amarrei o saco de lixo em silêncio.

— Mas, ei, Nukkun… o presidente Tamaki e a Tsukinoki-senpai não namoram?

— Pelo visto, não. Eu sempre achei que era só questão de tempo, mas…

Pelo que o presidente disse, isso quer dizer que a Komari ainda tem chance? Eu não acredito. Tsukinoki-senpai talvez seja mesmo uma candidata a "heroína perdedora".

— Fooo… mmphff hmm mmphf mphphfh pmmph mphhm…

nhac nhac nhac. Com a boca cheia de horumon grelhado, Yanami assentiu com ar de quem entende tudo enquanto falava.

— Né? O presidente e a vice-presidente combinam mesmo.

— Mmph hmm. Mmph mm, mmph mmhh phmhng mm hhmm mphrhph…

— Sim, sim. Eu também sinto isso.

De algum jeito, a conversa delas fazia todo sentido. Yakishio, pelo visto, tem um talento surpreendente. Sentindo uma estranha sensação de exclusão, eu me afastei em silêncio. Quando o assunto é sumir sem ninguém notar, eu tenho habilidade de alto nível. E, como esperado, as duas nem perceberam que eu tinha ido embora.

…Depois de andar um pouco, vi o brilho fraco dos banheiros do camping na escuridão. Melhor aproveitar e resolver isso agora.

Os banheiros daqui têm um design peculiar. Acima da fileira de mictórios, a parede se abre na altura dos olhos, revelando as silhuetas de árvores balançando no escuro lá fora. O silêncio é inquietante. Dá medo ficar sozinho aqui, mas a ideia de alguém aparecer do nada é tão ruim quanto.

— Nukumizu.

— AHH!

Uma voz atrás de mim me assustou tanto que eu quase perdi o controle. Por sorte, eu já estava no meio do serviço, então a tragédia foi evitada.

— Ei, presidente! Não aparece do nada assim!

— Nukumizu… me escuta, por favor…

— Espera eu terminar! E para de segurar meu ombro, sério!

Fechei o zíper e lavei as mãos com capricho, comprando um segundo para pensar.

— Espera, presidente. Você ficou no banheiro esse tempo todo?

— Mais ou menos. Eu não sei o que fazer.

Você não devia estar indo atrás de uma delas, em vez de ficar rondando o banheiro e despejando seus problemas no seu calouro? Isso é um uso criminoso do seu tempo.

— Ei, Nukumizu. Me dá um conselho.

Você está brincando comigo. Esse cara está mesmo me pedindo conselho amoroso? Eu encarei meu veterano, incrédulo. E, para piorar, isso é um triângulo amoroso. É como pedir a uma minhoca dicas de como derrotar um peixe dourado.

— Presidente… você é obviamente popular. Por que está me pedindo conselho?

— Calma, você entendeu tudo errado. Eu fui solteiro a vida inteira. Nunca ninguém se declarou para mim, muito menos eu ganhei chocolate no Dia dos Namorados… quer dizer, tirando a Koto.

— Tá vendo? Então ganhou.

— Todo ano, desde criança, ela me dá um chocolate com "obrigatório" escrito. Tipo… onde ela arruma essas coisas?

Dois caras. Conversando isso num banheiro. Isso aqui é o quê, um RPG ocidental?

— Eu sou o cara que nunca é chamado quando as meninas vão sair. Quer dizer, se alguém é um perdedor no romance… sou eu.

Por favor, levanta a cabeça. Eu te mostro o que é um perdedor de verdade. Você está olhando para ele.

— Mesmo assim… o fato de você estar hesitando depois que a Komari se declarou… não quer dizer que você gosta dela, nem que seja um pouco?

— A Komari-chan é fofa como caloura. Mas… como "garota", eu nunca…

— Então por que você disse que precisava pensar?

— Quando um cara como eu, que nunca recebe atenção, do nada ouve uma caloura se declarando desse jeito… claro que dá uma mexida, né? Ou pelo menos faz você pensar.

…É assim que funciona mesmo? Eu não entendo. Mas uma coisa é clara: tem um furo enorme nessa lógica.

— Mas você tem a Tsukinoki-senpai, não tem? Não é ela que você gosta de verdade?

Aliás, não é justamente por causa dela que você nunca recebeu chocolate nem confissão de mais ninguém?

Os ombros do presidente caíram pesados.

— Já que eu te joguei nessa confusão… acho que é justo eu te contar.

— Tá…

— Eu me declarei para ela e levei um fora.

— Hã?

Impossível. Se nem esse tipo de confissão dá certo, o que sobra para o resto de nós, betinhas?

— Calma, calma. Isso deve ter sido quando você tinha, sei lá… quatro ou cinco anos, né?

— Não. Foi no último Natal.

Isso é recente demais. De repente, a reação do presidente mais cedo fez muito mais sentido. Rejeitado por quem ele gostava há poucos meses e agora, tentando seguir em frente, uma caloura fofa se declara para ele.

Não é de se estranhar que ele esteja confuso — mesmo sendo a Komari.

— Foi por isso que eu tenho evitado a sala do clube ultimamente. Mas aí a Koto, agindo como se nada tivesse acontecido, continua se aproximando de mim do jeito de sempre.

O presidente se agachou, abraçando os joelhos. A gente está num banheiro, tá?

— E, por algum motivo, eu ainda tenho que lidar com isso vindo justamente da pessoa que me rejeitou. Eu não entendo.

Sinceramente, considerando o surto da Tsukinoki-senpai agora há pouco, realmente não fecha.

— De qualquer forma, você tem que voltar e conversar direito com ela.

Eu disse, colocando a mão no ombro dele.

— Nukumizu, você é algum tipo de especialista em romance escondido?

De onde ele tirou isso? Eu dei um sorriso irresponsável.

— Acredite ou não… eu sou um mestre do amor.

*

 

Depois de garantir que o presidente estava indo de volta para a pousada, eu voltei para a área de lavagem, onde Yanami e as outras estavam terminando a limpeza. E assim, tudo se resolveu — ou pelo menos, saiu das minhas mãos. Agora só restava confiar na capacidade do presidente de lidar com a situação. Arregacei as mangas, pronto para voltar a limpar, mas Yanami marchou até mim com uma cara irritada.

— Ei, Nukumizu-kun, onde você estava!?

Ai. Ela não parece feliz. Sair da limpeza no meio foi um erro?

— Ah… eu só… fui ao banheiro.

— Isso não importa!

Então por que perguntou? Que cruel.

— A Tsukinoki-senpai pegou as coisas dela e saiu andando na direção oposta da pousada!

Espera, sério? No escuro desse jeito? Isso é perigoso. Eu fiquei encarando, em branco, a direção que Yanami apontou — e percebi que ela estava me olhando com uma mistura de exaustão e incredulidade.

— Alô? Terra chamando Nukumizu-kun?

— Hã? O quê?

— Uma garota andando sozinha à noite é perigoso!

…Ela quer que eu vá atrás dela? Aff, está escuro e dá um medo danado lá fora. Enquanto eu enrolava, tentando ganhar tempo, Yanami me deu um tapa forte nas costas.

— A Lemon-chan foi ver como a Komari-chan está, e eu vou procurar o presidente. Então anda logo e vai atrás dela!

— Eu? Mas já está escuro e—tá, tá, eu vou.

O medo da Yanami oficialmente superou meu medo do escuro. A contragosto, peguei o celular e liguei a lanterna, seguindo pela estrada sombria atrás da Tsukinoki-senpai. Depois de andar um pouco, vi ela mais à frente, sob a luz fraca de um ponto de ônibus. Ela estava com a bagagem, e eu chamei seu nome enquanto corria para alcançá-la.

— Ah… é você, Nukumizu-kun…

Quando ela se virou e viu que era eu, o rosto dela mostrou uma decepção bem óbvia. Desculpa, eu não sou o presidente.

— Senpai, para onde você está indo? Esse não é o caminho da pousada.

— Eu vou embora. Eu não consigo mais ficar com alguém como ele.

Ela ajeitou a bolsa no ombro e acelerou o passo.

— Espera, calma. Não tem mais ônibus.

— Eu vou a pé até a estação. De lá eu me viro.

É uma caminhada longa, ainda mais com a estrada escura e quase sem postes.

— Por enquanto, por que a gente não senta e conversa um pouco? Olha, tem um banco ali no ponto.

— Ei, espera, Nukumizu-kun!

Ignorando os protestos, peguei a bolsa dela sem pedir.

— Estou com pressa. Me devolve minha bolsa.

— Vamos só descansar um pouco.

Eu disse, sentando no banco e tirando algumas bebidas que eu tinha comprado antes.

— Afternoon Tea ou Kocha Kaden. Qual você quer?

— Eu fico com o Afternoon Tea.

Ela suspirou, provavelmente percebendo que não valia a pena discutir. Sentou ao meu lado, relutante, mas resignada. Ótimo — pelo menos eu consegui fazer ela ficar. Agora… eu falo o quê? Eu devia ter pedido conselho para a Yanami. Olhei a estrada escura da montanha, enrolando mais um pouco.

— O Shintaro te disse alguma coisa antes de você vir atrás de mim?

— Ah… bem…

Tsukinoki-senpai franziu a testa, analisando minha resposta hesitante.

— Ou não?

— Bem… o presidente está te procurando. Ele foi na direção do centro juvenil, então parece que vocês dois só se desencontraram.

Tomara que isso seja verdade. Vamos, presidente, não me deixa na mão. Tsukinoki-senpai deu um gole no chá e se curvou para a frente, os ombros caindo de cansaço.

— Desculpa. Era para ser um acampamento divertido.

Ela disse exatamente a mesma coisa que o presidente. Então eles realmente são parecidos em alguns aspectos. Enquanto eu pensava nisso, abri a minha bebida. Se fosse só entre o presidente e a Tsukinoki-senpai, provavelmente isso se resolveria rápido. Mas com a Komari no meio, virou um triângulo amoroso bagunçado — e é por isso que eu claramente estou fora do meu alcance aqui.

— Como a Komari-chan está?

— Eu não sei, mas a Yakishio foi ver ela, então acho que não tem com o que se preocupar.

Senpai ficou em silêncio por um tempo, com uma expressão inquieta. Então, ela murmurou baixinho, quase para si mesma:

— Os garotos realmente preferem meninas que parecem precisar de proteção?

Ah, conversa de romance. Claro. Primeiro o presidente, e agora ela. Por que todo mundo insiste em me arrastar pra isso? Devem estar todos encurralados de verdade.

— Bem… eu acho que é um clichê bem comum.

— Então garotas como a Komari-chan são as que recebem toda a atenção, né…

Não. Definitivamente não.

— O problema de verdade não são tendências gerais, e sim como vocês dois se sentem um pelo outro. Do ponto de vista de fora… bem… você e o presidente parecem, ah… gostar um do outro.

— Eu também achava. Até agora há pouco.

Que confiança. Mas o presidente não disse que levou um fora? Que diabos está acontecendo aqui?

— Eu realmente acho que vocês dois deviam sentar e conversar com sinceridade. Pelo que eu ouvi, pode ter rolado algum mal-entendido.

— Mal-entendido, é? Mas aquele idiota deixou a confissão da Komari-chan em banho-maria. Isso não é basicamente dizer que ele está considerando seriamente namorar com ela?

Até onde dá para ir sem piorar tudo? Escolhendo bem as palavras, eu avancei com cautela.

— Sobre o presidente… eu acho que, hm… ele pode acreditar que você não gosta dele.

— O quê!? Por que ele acharia isso!?

Eu sabia. Esse negócio de "rejeição" só pode ser algum mal-entendido. Eu não posso cavar mais fundo e piorar, mas talvez eu consiga empurrar ela para o caminho certo.

— Sobre o último Natal… vocês dois estavam juntos, né?

— Ele te contou isso?

— Bem… mais ou menos. O presidente… ah… falou alguma coisa importante naquela hora?

— Importante? Quero dizer, a gente conversou, claro. Estávamos juntos, então óbvio que conversamos.

— Eu digo mais tipo… os sentimentos dele, talvez?

— Sentimentos…? Deixa eu ver… ele ficou falando sem parar do amor profundo que ele tem pelo Dom Dom Burger. Enquanto comia um Mos Burger.

…Isso é o que ele considera conversa de encontro de Natal? Até para o presidente, enfiar hambúrguer numa confissão parece forçado.

— Tá, mas tirando isso. Teve algum momento romântico? Tipo ver iluminações, apreciar uma vista bonita juntos?

— Aquele cara? Não tem como ele me levar pra um lugar desses.

— Não precisa ser sobre o lugar. Ele segurou sua mão fria, dividiu um cachecol… ou te surpreendeu com um anel escondido num bolo? Ou então vocês se olharam e as luzes acenderam todas ao mesmo tempo, e começou a intro do Kazumasa Oda?

— Essa última aí não é meio… cafona?

Então como foi que ele se declarou? Teve mesmo chance da Tsukinoki-senpai "não perceber", nem com a magia do Natal?

— Ah… mas agora que eu pensei, ele disse uma coisa na frente da árvore na estação, na volta.

Aí! É isso! Presidente, você fez o clássico cenário romântico de Natal! Esquece o papo de Dom Dom — é isso que importa!

— Então… o que ele disse!?

— Se eu me lembro bem… depois de resmungar e reclamar de mim por um tempo, ele falou tipo: "Se você não achar ninguém e acabar sozinha, eu tiro você do mercado, então não precisa se preocupar", ou algo assim.

Isso… foi a "confissão" que o presidente estava falando? É muito pior do que eu imaginei.

— Eu só mandei ele ir pro inferno ou algo assim, eu acho.

Senpai me olhou com uma expressão confusa, como se não acompanhasse o fluxo da conversa.

— Nukumizu-kun… o que é isso tudo?

— Então, é. Isso não é exatamente o que se chama de confissão.

Presidente Tamaki… então você é assim, é? Não combina nada com a sua aparência. Talvez eu devesse te emprestar uma boa recomendação de rom-com ou coisa do tipo.

— Confissão?

Tsukinoki-senpai murmurou, com a voz baixa.

— O quê!? Aquilo!? Aquilo era pra ser uma confissão!?

A voz dela ecoou pela noite.

— Bem… quer dizer… talvez seja tipo "eu queria muito provar a sua sopa de missô caseira", sabe?

Ah, então ela não tinha percebido mesmo. Espera… era mesmo okay eu falar isso em voz alta?

— É Natal! Uma confissão de Natal no segundo ano do ensino médio— que porcaria foi aquela!? Ele é idiota!? Ele quer morrer?!

Droga. Eu passei muito do limite. Se isso virar uma bola de neve, vai ser culpa minha.

— Ah, bem, quer dizer… é só uma interpretação possível, ou um hipotético—

— Eu vou arrebentar ele!

O grito furioso veio junto do som de sapatos chutando cascalho.

— Ei, calma, não faz iss—

Quando me virei, vi o presidente Tamaki se aproximando, ofegante, como se tivesse corrido até ali.

— Presidente!

Ótimo, agora eu deixo o resto com eles. Dei meia-volta e comecei a caminhar de volta para a pousada, bem quieto. O que acontecer agora não é responsabilidade minha. Isso, estou livre.

…Ou era o que eu pensava, até alguém tapar minha boca e me puxar para dentro dos arbustos.

— Eek!?

— Shh! Fica quieto!

Essa voz—é a Yanami. Em choque, eu assenti rápido.

— Como membros do clube, a gente tem que acompanhar isso. Agora abaixa um pouco.

Yanami sussurrou no meu ouvido. Foi estranhamente… cócega.

— Ah… isso aqui não é basicamente espion—

Beliscão! Yanami beliscou minha lateral sem dizer uma palavra. Eu decidi que era melhor não discutir.

Encolhidos no mato, a gente se esforçou para captar o que o presidente e a Tsukinoki-senpai estavam dizendo. De vez em quando, o braço da Yanami roçava no meu, e o cheiro de carne grelhada, suor e desodorante fazia cócegas no meu nariz.

…Tsukinoki-senpai, com a cabeça baixa, ficou parada, enquanto o presidente coçava a nuca sem jeito e se aproximava devagar.

— Ah… desculpa por aquilo.

— O Nukumizu-kun me contou. O que ele disse é verdade?

— Você quer dizer… a coisa do Natal?

Em vez de responder, Tsukinoki-senpai começou a falar.

— A gente está junto há mais de dez anos, não está?

— É… desde o primeiro ano do fundamental. E por algum motivo a gente ainda caía nas mesmas turmas.

— Por causa do meu jeito, que não é exatamente fofo nem encantador, teve vezes em que até as meninas da nossa turma não gostavam de mim.

Ela fechou os olhos e mordeu o lábio, como se lembrasse de algo doloroso.

— Você não precisa falar, se estiver difícil.

— Mas… Shintaro, você sempre me defendeu, não defendia? Mesmo quando te zoavam por isso, você não parecia se importar.

— Porque eu preferia ser zoado do que deixar você virar alvo.

O presidente respondeu de forma simples, sem qualquer pose.

— E é exatamente por isso que…

Mesmo de longe, dá para ver que ela estava corando, cobrindo a boca com o dorso da mão.

— Desde o fundamental II, quando você começou a crescer, eu tive que aguentar muita coisa, sabia? Espantando todas as pragas que ficavam zumbindo ao seu redor.

— O quê? Você está falando como se fosse sua culpa eu não ter sido popular.

Ah… na prática, é. Eu fiz uma anotação mental.

— Eu estive esperando esse tempo todo, sabia. Esperando, esperando… por tanto tempo.

Tsukinoki-senpai se firmou, puxando ar fundo. Então, com tudo o que tinha, ela gritou para ele.

— E depois disso tudo, aquilo é o que você chama de confissão?! Nem pensar! Até um amor de cem anos morreria na hora!

Sem fôlego, ela encarou o presidente.

— É. Você tem razão.

Ele sorriu sem graça, meio aflito, e deu um carinho leve na cabeça dela. Tsukinoki-senpai se sobressaltou.

— Então acho que eu vou ter que fazer você se apaixonar por mim por mais cem anos.

— Pode tentar, se acha que consegue.

Tsukinoki-senpai encostou a cabeça de leve no peito dele.

Depois de hesitar por um instante, o presidente, devagar e nervoso, envolveu os braços nela como se estivesse segurando uma peça de vidro. Com cuidado.

*

 

— Ah… que emocionante…

Yanami juntou as mãos, sonhadora, olhando para os dois. Mas, sério, isso já está demais.

— Vamos, Yanami-san.

— Hã? Mas agora é que ia ficar bom—

— Isso já está errado. Mais um pouco e vira espionagem total.

Bom… para ser justo, já é espionagem. Eu peguei na mão da Yanami e comecei a sair.

— Ei, Nukumizu-kun.

— Vamos deixar eles em paz agora.

— E por quanto tempo você pretende segurar a minha mão?

O quê!? Eu soltei na hora. Isso é ruim. Eu deixei a proximidade e o clima romântico me afetarem e acabei ficando mais ousado do que o normal.

— D-Desculpa! Eu não quis dizer nada com isso!

— Não precisa pedir desculpa desse jeito.

Ela percebeu o quão vermelho meu rosto estava? A expressão da Yanami virou um sorrisinho provocador.

— Oh? O que é isso? Nukumizu-kun… você está se declarando pra mim?

— Não.

— Tudo bem, pode se declarar. Eu só vou te rejeitar.

— Eu disse que não.

Comecei a andar rápido, tentando colocar distância entre nós. Yanami acompanhou, com aquele sorriso convencido grudado no rosto.

— Awn… ver aquilo não fez seu coração bater mais forte? Não deu vontade de se apaixonar também?

Ela se inclinou, espiando meu rosto com malícia.

— Bem… não é que não dê, mas… você ia me rejeitar de qualquer jeito, né?

— Sim, claro que eu ia.

Por que ela ficou tão séria de repente?

— Mas olha… talvez, se você der sorte, ganhe um beijo na bochecha?

— Mas você ainda ia me rejeitar, não ia?

— Nossa, você está bem fixado nisso, Nukumizu-kun — Yanami suspirou com exagero e deu de ombros.

— Enfim, o mais importante—

— Espera… o mais importante? — A sobrancelha da Yanami tremeu. Que reação foi essa?

— Eu estou preocupado com a Komari. Vamos voltar.

— Sim, é verdade. É, mas… — ela inclinou levemente a cabeça e murmurou mais uma vez: — Mais importante?

*

 

Quando girei a maçaneta do quarto dos meninos, eu finalmente lembrei: estava trancado.

E, claro, a chave do quarto dos meninos está com o presidente. Ótimo. Ficar esperando ele voltar não é exatamente empolgante, e ir para o quarto das meninas enquanto isso? Sim, claro que não.

Graças ao jeito frio da Yanami no final, minha coragem agora está em números negativos. Ela vinha tagarela e atrevida até então, mas do nada ficou gelada. Garotas são impossíveis de entender. Suspirei e comecei a andar pelo centro juvenil. Talvez eu encontre um besouro-rinoceronte ou algo assim.

Ao passar sob uma janela, o som animado de vozes chegou até mim. Verdade… acho que vi uma placa mencionando que também tinha um acampamento conjunto do conselho estudantil aqui. Mantendo distância das janelas iluminadas, continuei andando até avistar uma figura pequena agachada. Um brilho alaranjado tremeluzia nas mãos dela.

É a Komari. O que ela está fazendo aqui sozinha? Cadê a Yakishio?

— Ah… Komari? Então você está aqui.

— O-Oi… é só você, N-Nukumizu.

Droga. Eu quase tinha esquecido. Ela acabou de levar um fora, né? A imagem dos dois veteranos que eu tinha visto antes — as sombras se sobrepondo como uma só — passou pela minha cabeça. Não tem como eu ser a pessoa que vai contar isso pra ela. Isso é algo que o presidente precisa resolver pessoalmente.

Enquanto eu ficava ali, sem jeito, Komari me estendeu, sem dizer nada, uma bolsinha pequena.

— T-Toma. Estrelinhas. E-Eu não consigo fazer isso s-sozinha.

Acompanhando, eu me agachei e acendi uma das estrelinhas. Uma chama laranja pequena e vigorosa disparou — não exatamente como eu lembrava. Observando, a ponta se transformou num pequeno globo redondo.

Depois de uma breve pausa, faíscas delicadas e familiares começaram a estourar do globo, se ramificando como mini fogos cintilantes.

— É. Era assim que estrelinhas eram.

Fazia anos desde a última vez que eu brincava com estrelinhas. Talvez, quando eu voltasse para casa, eu pudesse chamar a Kaju para soltar fogos comigo — pela primeira vez em muito tempo. Depois de queimarmos vários palitinhos, eu olhei para a Komari com cautela, tentando medir o humor dela. Por coincidência… ou talvez não, nossos olhares se encontraram.

— O-O quê?

— Quer dizer… você não estava com a Yakishio antes?

— E-Estava. A gente acendeu u-uma estrelinha, m-mas aí ela enjoou e v-voltou pro quarto.

Bom, estrelinha não explode nem voa. Eu entendo.

— Mesmo assim, é bom ver você e a Yakishio se dando bem.

Com meu comentário casual, os olhos da Komari se arregalaram, como se ela não acreditasse no que ouviu.

— S-Se dando bem? A gente parece que está se dando bem? Seus olhos são buracos, é?

Buracos, é? Então meus olhos nem são uma entidade de verdade — são só um conceito, a essa altura.

…Certo. Pelo menos estamos falando como sempre. Ela deve estar ainda sob o efeito da adrenalina da confissão. Eu devia escoltar ela de volta para o quarto das meninas antes que ela descubra o tamanho da própria dor. Depois disso, era melhor deixar isso nas mãos das amigas dela—

— O-O presidente passou a-aqui a-antes de você chegar…

Plop. Uma faísca recém-formada caiu no chão.

— Ah, é? E então…?

— E-Ele me rejeitou.

Ela disse com naturalidade, me passando a próxima estrelinha.

— M-Me rejeitou de verdade.

Com uma voz lisa, sem emoção, ela acendeu a minha estrelinha.

— Entendi… quer dizer… isso… é. Foi isso que aconteceu, né? Então o presidente te deu uma resposta de verdade.

Se fosse comigo, eu provavelmente deixaria em banho-maria enquanto corria atrás da minha paixão de verdade.

— N-Nukumizu… v-você com certeza me deixaria em b-banho-maria, né?

— Como você sabia?

— V-Você é horrível.

Eu não tenho resposta pra isso. A ponta da estrelinha brilhou fraca, formando um globo laranja. A minha estrelinha e a da Komari explodiram em faíscas ao mesmo tempo. A luz iluminou o rosto da Komari de lado.

— O p-presidente pensou… ele p-pensou sério… se ia ou não n-namorar comigo.

Komari sorriu fraco, o rosto tremendo, como se estivesse prestes a chorar.

— Hehe… p-pelo menos por um pouquinho… eu ganhei da T-Tsukinoki-senpai.

Os ombros pequenos dela tremeram. A última faísca do globo caiu no chão com um estalinho fraco. Komari encarou o ponto onde caiu, sussurrando com a voz rouca:

— E-Eu vou chorar… então… só vai para algum lugar.

Ainda segurando o palitinho queimado, a voz dela saiu fraca, quase inaudível.

— Por favor…

Voltei em silêncio para o prédio e me sentei num banco do saguão. Puxei a lingueta de uma lata de café, mas, por algum motivo, não deu vontade de beber.

Tudo o que aconteceu hoje é demais para a minha cabeça e minhas emoções processarem. A luz fluorescente do saguão zumbia baixinho, piscando de vez em quando. Fiquei encarando o teto por um tempo, deixando meus pensamentos irem para todo mundo. Até pouco atrás, nós cinco mal conversávamos… e, ainda assim, aqui estávamos, reunidos no mesmo lugar.

O que vai acontecer depois que esse acampamento acabar? 

Yanami e Yakishio não têm um interesse especial pelo Clube de Literatura. Elas são como pássaros se abrigando debaixo de uma árvore durante uma chuva rápida. Quando o céu abrir, é provável que voem embora de novo.

Komari pode começar a se sentir deslocada e parar de aparecer. Ou talvez os veteranos fiquem constrangidos e se afastem por conta própria.

Semana que vem é a cerimônia de encerramento. O que vai acontecer com meus "encontros" no almoço com a Yanami?

Dei um gole no café em lata. Eu quero escrever alguma coisa.

*

 

Na manhã seguinte, na sala de reuniões da hospedagem.

— Certo, vou postar o primeiro capítulo.

Com um clac satisfatório, o presidente bateu as teclas do notebook.

O primeiro capítulo da minha obra de estreia, "Os Desajustados da Rua do Primeiro Amor", agora está oficialmente publicado.

— Isso está um pouco diferente do enredo que a gente tinha pensado, não está?

Não dá para culpar o presidente por dizer isso. Até ontem, o plano era um isekai de vida lenta. Agora virou uma comédia romântica num distrito comercial de cidade pequena. Sinceramente, quem mais está surpreso com a mudança sou eu.

— É que… eu só senti vontade de escrever algo assim, do nada.

Eu só tinha escrito uma introdução curtinha — tão curta que não leva nem três minutos para ler.

— Eu pretendo ir devagar e escrever no meu ritmo.

— Acho que essa é a melhor abordagem. Ah, falando nisso, o texto da Yanami-san que a gente postou ontem já tem alguns comentários.

— O quê? Sério?

Yanami, comendo um pão de melão no café da manhã, se inclinou para ver a tela. Os olhos dela brilharam ao ler os comentários e, depois de um instante, ela fez um sorriso de canto e me olhou de lado, com um ar travesso.

— Isso aqui é seu, não é, Nukumizu-kun?

— Ah… é, sou eu.

Por algum motivo, dá vergonha. É engraçado como, em vez do autor corar por alguém ler a obra, é o leitor que fica sem graça por ter o comentário "descoberto".

— Hmm… mesmo assim, eu fiquei meio feliz. Aliás, o que são esses "pontos"?

— Ah, os leitores podem adicionar pontos ao colocar a história nos favoritos ou dar uma nota. Olha, tem mais um comentário de outra pessoa.

Tomando um gole de uma bebida de gelatina, o presidente levou o mouse até a tela.

— T-Talvez… seja eu.

Komari, vestindo o uniforme de educação física, entrou na sala de reuniões. O ambiente ficou estranhamente silencioso. Komari ignorou a tensão e foi direto até o presidente.

— Bom dia, Komari-chan.

— Bom dia. E-Eu mandei a minha história, então… pode me ajudar a postar?

Ela abaixou a cabeça com educação. O presidente assentiu meio rígido e puxou o notebook para mais perto.

— Então… aqui está o texto… e aqui estão o título e o resumo. Certo, está tudo aqui.

O presidente foi colar o título na página de envio, mas travou de repente.

— Komari-chan… você tem certeza de que quer mandar assim, do jeito que está?

— Tenho. O-O título fica como está.

Komari engoliu em seco, nervosa, e continuou.

— E-Eu também não vou dividir o conteúdo. E-Eu quero que leiam o p-primeiro c-capítulo do jeito que ele é.

Ela disse isso com firmeza, sem hesitar. Ao ver os olhos determinados da Komari, a rigidez no rosto do presidente finalmente amoleceu.

— Entendi. É… eu acho que esse é o melhor jeito de transmitir o charme da sua história, Komari-chan.

Sorrindo de leve para ela, o presidente voltou a atenção para o notebook por um tempo.

— Pronto, foi. Olha, já apareceu na página de lançamentos recentes.

Komari encarou a tela por um instante e, então, abriu um sorriso radiante. Mantendo esse sorriso, ela se virou para o presidente.

— O-Obrigada. E-Eu não e-entendo muito do s-site, e-então… por favor, me ensine mais d-daqui pra frente.

— Claro. Deixa comigo.

Eu nunca tinha visto a Komari fazer uma expressão dessas. Quando ela olhava para mim, era sempre como se estivesse olhando para um monte de lixo. Outra pessoa também parecia deslocada. Tsukinoki-senpai estava sentada quieta numa mesa no canto desde cedo, sozinha.

Komari mexeu as mãos, abrindo e fechando os dedos, nervosa, antes de sentar de frente para ela.

— S-Senpai… bom d-dia…

— Ah… bom dia, Komari-chan.

As duas ficaram em silêncio. O peso daquele silêncio tomou a sala inteira, e foi Komari quem quebrou.

— E-Eu acabei de postar minha h-história, então… p-por favor, lê.

— Sim… eu vou comentar para você.

— M-Muito obrigada.

…O silêncio voltou.

Depois de mais um tempo constrangedor, Komari falou de novo.

— U-Um… p-por favor, volta a ir na s-sala do clube a partir de amanhã, tá? F-Fica solitário sem você, senpai.

Baixando a cabeça, envergonhada, Komari acrescentou, num tom um pouco mais baixo:

— E-E… a pessoa assustadora do conselho também vai aparecer.

— Sim! Deixa comigo. Eu expulso ela por você!

Finalmente, um sorriso voltou ao rosto de Tsukinoki-senpai. Mas, quase ao mesmo tempo, lágrimas começaram a escorrer dos olhos dela.

— Ah… hã? Desculpa, eu… do nada… o que é isso…?

Komari correu para sentar ao lado dela.

— S-Senpai… e-eu estou bem, então… por favor.

— Komari-chan… eu achei que você não ia mais voltar. Obrigada… obrigada mesmo.

Komari abraçou Tsukinoki-senpai, que chorava baixinho. Depois de um tempo, quando senpai se acalmou, ela limpou os olhos e ergueu a cabeça.

— Suas histórias são sempre tão divertidas, Komari-chan. Eu estou ansiosa por essa também.

— O-Obrigada. V-Você também escreveu a-algo, senpai?

— Bom, eu escrevi, mas quando eu editei para uma versão "livre", acabou ficando com umas vinte linhas só.

Tsukinoki-senpai fungou, olhando para o celular com uma expressão confusa.

— Nesse ponto… parece que a minha história era só sobre… bom… as partes explícitas.

Bom, isso provavelmente é verdade. Números não mentem.

— V-Vamos ir se juntar aos o-outros, senpai.

— Vamos.

…De mãos dadas, as duas foram até a mesa onde todo mundo estava. O presidente as recebeu com um sorriso.

Claro, isso não quer dizer que tudo se resolveu feliz. O presidente Tamaki e Tsukinoki-senpai agora estão namorando, e Komari foi rejeitada. Isso não mudou.

As coisas não vão voltar a ser como antes. O único jeito de seguir é construir novas relações, assim, devagar. Mesmo eu mantendo distância, é assim que todo mundo vive: ajustando, reconstruindo e seguindo em frente. Enquanto você está vivo, não dá para escapar.

Meu momento de encarar o mesmo também não vai demorar. Afinal, eu já faço parte dessa dinâmica em mudança entre os membros do clube. Enquanto eu observava o grupo de longe, com uma sensação estranha de ter caminhado bastante desde o começo, alguém me entregou uma folha de papel.

— Toma, Nukkun. Você vai colocar isso naquele site ou algo assim, né?

A mão que me entregou estava ainda mais bronzeada do que ontem.

— Isso é… um diário ilustrado?

— Isso! Tinha uns lápis de cor no saguão, aí eu fiz uma entrada de diário desenhada.

Era uma cena da viagem à praia de ontem. Espera… essa coisa em formato de pessoa deitada no chão, de mãos dadas com o que parece ser a Yakishio…

— Isso era pra ser eu?

— Hehe, acertou! É você, Nukkun.

Dependendo de como você olha, parece que a Yakishio está arrastando um cadáver.

— Ei, isso ficou ótimo! Está hilário.

O presidente disse, espiando por cima do meu ombro, assentindo impressionado.

— Mas, ah… a gente não pode postar isso lá. Aquele site é só para texto, afinal.

— Então que tal a gente criar uma conta do Clube de Literatura e postar no Twitter?

O presidente bateu palmas, animado.

— Ótima ideia. A gente tem uma conta antiga do clube que não usa, então dá para reaproveitar.

Tsukinoki-senpai fungou enquanto pegava o diário ilustrado.

— Acho que tem um scanner na sala do escritório. Eu vou perguntar se dá para usar. Yakishio-chan, vem comigo.

Tsukinoki-senpai e Yakishio saíram juntas. Eu olhei o celular e, sem pensar muito, fui checar meu romance. É uma sensação estranha ver minha história postada para todo mundo ler.

— Hã? Meu romance já tem nota e comentário.

Com o coração batendo forte, eu abri. A nota? Um lixo, lá embaixo. O comentário? Uma única linha:

"Fantasia de virgem."

Hã!? Dá para ser mais mal-educado que isso? Não tem como bloquear essa pessoa?

…Espera. Como essa pessoa sabe que eu sou virgem?

— Komari, foi você?

Komari abriu um sorriso malicioso, quase diabólico.

— E-Escreve a próxima parte direito. A-Aí eu reconsidero a n-nota.

— Só espera. Eu vou fazer você dar nota máxima.

 

 


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