Volume 1

Capítulo 1: A Derrota de Anna Yanami, a Amiga de Infância Profissional

NOTA DO TRADUTOR: E aí, galera. Slag aqui. Estou aqui para trazer pra vocês uma nova tradução de MAKEINE! Qualquer erro, só avisar nos comentários ou servidor. Também, como podem perceber, as ilustrações não estão no começo, pois mudei a forma de colocá-las. Agora elas estão no cenário do contexto; claro, elas estão limpas e os textos seguem normalmente. Algumas ilustrações não fazem sentido literalmente com o contexto, mas... Bom, as ilustrações não faz jus com o contexto, pelo menos com o cenario em si. Elas são representações. Mas mesmo assim, estã no lugar "certo". Espero que gostem. E OBVIAMENTE, creditos da revisão para o mano @shisuii. BOA LEITURA, GUYS! NOVOS CAPÍTULOS EM BREVE


 

AS PROVAS finais do primeiro semestre finalmente acabaram.

Numa tarde de sexta-feira, faltando menos de dez dias para as férias de verão, decidi fugir completamente da escola e fui até um restaurante familiar na cidade vizinha. Pedi acesso ao bar de bebidas e uma montanha de batatas fritas.

Enxugando o suor da testa com um lenço, observei o restaurante ao redor com calma. O segredo aqui é não ter pressa. Primeiro, vou esperar as batatas fritas chegarem. Depois, lentamente, irei até o bar de bebidas.

— Certo, vamos começar…

Depois de confirmar que não havia nenhum outro uniforme da minha escola à vista, tirei um romance de bolso da minha bolsa. É o volume mais recente de Não tem problema eu ser mimado pela minha irmãzinha mais velha?, que acabei de comprar. Refrigerante, batatas fritas e uma light novel. Que a festa comece.

*

 

— VOCÊ FOI MUITO BEM, onii-chan. Foi difícil, não foi? Eu sei o quanto você se esforçou em tudo, então pode se apoiar na Kurumi o quanto quiser, tá?

…Não consegui evitar que meus olhos se enchessem de lágrimas ao ouvir as palavras da Kurumi, a heroína e irmãzinha.

A doçura absoluta da Kurumi-chan, que nunca falha em mimar o protagonista, chegou a me dar arrepios de verdade. Depois de saborear a clássica cena de vinte páginas de puro carinho da série, fechei o livro em silêncio.

Olhei com carinho para a Kurumi-chan na capa. Ah, eu queria viver um amor assim. Um travesseiro de colo naquelas coxas macias e fofinhas—

— Anda logo, Sosuke! Você não pode ficar aí parado assim!

Um grito repentino vindo da mesa ao lado destruiu meu devaneio. Parecia que um casal estava no meio de uma discussão. Meu Deus, é por isso que extrovertidos são tão cansativos… Eles bem que podiam aprender uma coisinha ou duas com o próprio anjo do mimo, Kurumi Kashitani. Tudo bem, vou pegar um refrigerante de melão e dar outra olhada naquela ilustração com calma.

— Hein!?

Quando me levantei para ir ao bar de bebidas, sentei de volta às pressas. Eu tinha baixado a guarda. O casal na mesa ao lado não eram apenas dois estudantes quaisquer do ensino médio — eles são meus colegas de classe.

Quem estava gritando era Anna Yanami, a garota fofa, de aparência suave e popular da nossa turma. Sentado na frente dela estava Sosuke Hakamada, o garoto bonito, alegre e chamativo. Eles estão sempre juntos, então devem mesmo estar namorando, né?

Mas por que diabos eles estão tendo uma DR num lugar desses? Enquanto fingia me concentrar no meu livro de bolso, escutei discretamente.

— Se você não for buscá-la logo, a Karen-chan vai embora para a Inglaterra! Você acha mesmo que está tudo bem assim?

— Mas ela se despediu de mim—

— Isso obviamente quer dizer que ela quer que você vá atrás dela!

…O que é isso? Uma história que eu definitivamente já ouvi em algum lugar? Enquanto eu terminava um único light novel, esses dois aparentemente haviam chegado ao clímax do próprio drama romântico.

Essa tal de "Karen" de quem eles não param de falar… Não é aquela garota que se transferiu para nossa classe um tempo atrás? Acho que o nome dela era Karen Himemiya ou algo assim.

No primeiro dia, durante as apresentações, ela não gritou imediatamente: "Ah! Você é aquele pervertido de antes!" e começou a discutir com o Hakamada? Espera, ela vai se transferir de novo? Para a Inglaterra? Isso não é rápido demais?

— Como você pode ter tanta certeza disso?

— Eu simplesmente sei! Porque… eu também sempre…

Mordendo o lábio, Yanami abaixou o olhar.

— Anna, eu—

— Não, está tudo bem.

Erguendo a cabeça com um sorriso corajoso, Yanami se levantou, pegou a chave da bicicleta e a colocou sobre a mesa.

— Vá. A Karen-chan está esperando por você.

— Tem certeza?

— A Karen-chan é uma boa garota. Não vou te perdoar se você não a fizer feliz.

— Obrigado. Vou contar para a Karen como me sinto.

— Boa sorte. Pelo menos eu escuto suas lamentações se ela te rejeitar.

— Desculpa, Anna.

Com isso, Hakamada saiu correndo, sem nem olhar para trás. Depois de ficar ali parada por um tempo, Yanami afundou de volta na cadeira, murmurando baixinho:

— Não peça desculpas, seu idiota.

Em que cena eu fui me meter. Mesmo sendo um mundo totalmente distante do meu, habitado por extrovertidos, um pouco de compaixão samurai é necessário aqui. Vou apenas fingir que não vi nada. Tentei me esconder atrás do cardápio para sobreviver ao constrangimento, mas não pude acreditar no que vi.

Hã!? Não. Não pode ser. Isso não pode estar acontecendo!

Anna Yanami, que tinha acabado de ser rejeitada há poucos instantes, estava lentamente estendendo a mão para um copo. O copo que pertencia ao Sosuke Hakamada — o cara que tinha acabado de dar um fora nela.

Pare! Por favor, não faça algo tão patético!

Minhas orações desesperadas não a alcançaram. Yanami segurou o copo com as duas mãos, hesitou por um instante, e então envolveu o canudo com os lábios.

…Ah, ela fez mesmo.

De repente, o olhar dela pareceu ser puxado por algo, como um ímã. Seus olhos estavam fixos — em mim. Isso é ruim. Nossos olhos se encontraram. Minha última esperança era que ela não tivesse me reconhecido, mas—

Ah não, o rosto da Yanami ficou vermelho como um tomate. E então—

— Cof!

Ela cuspiu a bebida em um jato de café, tossindo violentamente e completamente em pânico.

…É por isso que a realidade é uma droga. A essa altura, minha única opção era fingir que não vi absolutamente nada. Assobiando uma música que eu nem sabia assobiar, fingi interesse no cardápio.

Mas meus esforços para evitar a situação foram inúteis. Yanami veio e sentou na minha frente. Só pode ser brincadeira. Por que ela simplesmente não me deixa em paz?

— Você é o Nukumizu-kun da minha turma, né?

— S-Sim. Yanami-san, você estava aqui? Eu nem percebi.

Droga, isso saiu completamente sem emoção. As orelhas da Yanami ficaram vermelhas enquanto ela me encarava com olhos marejados.

— P-Por favor, não conte isso a ninguém!

— Ah, uh, tá. Eu não vi nada. Fica tranquila.

— Isso mesmo! Você não viu nada, Nukumizu-kun!

Ela desviou o olhar de forma estranha e se levantou. Parecia que eu estava sendo tratado como algum tipo de voyeur, mas fui eu quem chegou primeiro aqui. Bom, tanto faz. Dei de ombros e fui até o bar de bebidas. Talvez mais um copo de suco gelado ajudasse a esfriar minha cabeça.

Quando voltei com meu refrigerante de melão, Yanami ainda estava parada perto da minha mesa. Ela mexia nervosamente na carteira, contando moedas. Será que estava sem dinheiro?

Tentei simplesmente passar por ela e sentar, mas com ela andando de um lado para o outro bem na frente da minha mesa, era impossível ignorá-la.

…Não tem outro jeito. Para proteger minha tranquila tarde pós-aula, contei até dez mentalmente antes de falar:

— Uh, você está sem dinheiro?

— Hein?

Quase chorando, Yanami assentiu várias vezes. Peguei a conta da mão dela. Nossa, quanto eles pediram? Vocês estão falando sério? O Hakamada pediu um combo de steak. E a Yanami, tentando manter as aparências, pediu só uma salada e uma sopa… antes de acrescentar um combo de hambúrguer e sobremesa quando isso não foi suficiente. Que tipo de gasto irresponsável é esse?

— Tudo bem. Eu pago por enquanto. Você me devolve na segunda.

Ah, adeus à minha farra comprando light novels no caminho de casa. Mesmo assim, não sou insensível a ponto de abandonar uma colega de classe em apuros depois de ouvir a situação dela.

— Espera, sério? Você está mesmo bem com isso? Eu mal te conheço além do nome.

Está tudo bem. Eu só quero que você vá embora logo. E ainda assim, por que ela está sentando na minha mesa de novo?

— Uh, por que você está sentando?

— Obrigada. E, hum, desculpa. Acho que entendi você errado, Nukumizu-kun.

Ela não acabou de dizer algo meio rude casualmente? Só para constar, já estou começando a me arrepender de ter ajudado. Não que eu vá admitir.

— Então… por que você está sentando, mesmo?

Isso é importante, então perguntei duas vezes. Mas Yanami, me ignorando, juntou as mãos e ficou olhando para o vazio com um olhar distante.

— O Sosuke, sabe… ele é meu amigo de infância.

Essa garota acabou de começar um monólogo?

— Quando éramos crianças, o Sosuke colocou um anel de trevo no meu dedo e prometeu se casar comigo… Se casar comigo…

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da Yanami em um rio.

— Ei, ei, ei! Yanami-san, você está bem?

Sério, o que há com essa garota? Os olhares dos outros clientes são insuportáveis. Fugi até o bar de bebidas, peguei um sachê de chá qualquer e fiz um chá para ela.

— T-Toma, bebe isso e se acalma.

— Obrigada. Está muito bom…

— Que bom que gostou. É chá de rosa mosqueta, aparentemente.

Ah, é mesmo, acho que tinha uma placa listando os benefícios. Vamos ver…

— Diz que melhora a pele.

— Melhora da pele, é? — Yanami soltou uma risada amarga e autodepreciativa. — Como se tivesse alguém para eu mostrar isso.

Pare. Isso foi real demais. Agora, por favor, beba isso e vá para casa. Enquanto eu pensava em como dispensá-la educadamente—

— Aqui está sua porção grande de batatas fritas! Obrigado por esperar!

— Hein?

Um prato enorme de batatas fritas foi colocado sobre a mesa. E, de alguma forma, foi adicionado à minha conta.

— Com licença… o que é isso?

— A Karen-chan é uma amiga importante para mim. Mas, sabe? Ela só se transferiu para cá em maio. Então me diga… o que significam os doze anos que eu e o Sosuke passamos juntos?

Snif. Yanami assoou o nariz em um guardanapo e começou a comer as batatas com determinação.

— Vou perguntar de novo. Você pediu essas batatas, Yanami-san?

— O Sosuke até prometeu me fazer sua noiva. Não é horrível? Ele é um mentiroso.

E o que eu estou passando agora não é igualmente horrível? Mas, bem, já fui arrastado para essa bagunça mesmo. Contendo um suspiro, cruzei as pernas.

— Quando foi que aconteceu essa promessa de "noiva"?

— Antes de começarmos a escola primária, então quando eu tinha uns quatro ou cinco anos.

É, isso não conta.

— Isso não conta como traição? Trocar por uma aluna transferida bonita e peituda assim que ela aparece?

Traição? Hm. Então até o Hakamada, com aquela imagem radiante, poderia fazer algo assim. Para ser justo, Karen Himemiya, a aluna transferida, é inegavelmente bonita. A Yanami pode não perder em fofura, mas falta aquele fator estrela — o tipo de brilho que faz alguém parecer a heroína principal de um jogo ou anime. Esse tipo de presença é algo com que você nasce.

Sentindo um leve traço de simpatia por Yanami, perguntei cuidadosamente, em um tom gentil:

— Então, você e o Hakamada estavam mesmo namorando?

— Hein? O-O quê? Parecia isso? As pessoas sempre disseram que nós combinávamos desde pequenos… acho que foi assim que pareceu para quem via de fora. Ehehe.

Yanami corou, pressionando as mãos contra as bochechas avermelhadas com um sorriso constrangido.

Espera, então isso quer dizer que…?

— Vocês nem estavam namorando? Então não foi traição nem nada, certo?

Ao ouvir minhas palavras, a expressão de Yanami mudou drasticamente.

— O quê?! N-Não! Era como se estivéssemos meio que namorando! Com certeza já teria dado certo se aquela mulher peituda não tivesse aparecido!

Ela não é sua preciosa amiga?

— E além disso, o jogo ainda não acabou. Não existe a possibilidade de o Sosuke mudar de ideia no último segundo?

— Não, o jogo já acabou completamente.

Eu já li minha cota de comédias românticas. Não existe rota de retorno aqui. Dei um gole no meu refrigerante de melão, sentindo uma pontada de tristeza.

— Na verdade, isso é segredo, mas… eu já até tomei banho com o Sosuke antes.

— Isso foi quando você tinha quatro ou cinco anos, né?

Prepare-se, porque eles vão ultrapassar esse marco em breve.

— E! E! O fato de que nossos pais aprovam a gente é enorme, não é? Casamento é sobre a união das famílias, afinal—

Yanami continuava falando sem parar, mas as lágrimas já voltavam a escorrer pelo rosto dela em torrentes.

— Ei, o que foi agora?!

— Casamento… noiva… O vestido que eu ia usar… O vestido que eu ia usar… e agora aquela mulher peituda vai desfilar com ele…

Parece que ela começou a imaginar a rival amorosa dela em um vestido de noiva. Sério, todas as garotas recém-rejeitadas ficam assim emocionalmente instáveis?

— Eu sei. Se eu tivesse sido mais corajosa antes, talvez as coisas tivessem sido diferentes.

— É-É, talvez. Quer mais chá? Chá de hortelã também é uma boa opção.

— Tem gosto de pasta de dente, então não, obrigada…

Depois de chorar tudo o que tinha para chorar, ela pareceu se acalmar. Enxugando as lágrimas, me deu um pequeno sorriso.

— Desculpa por ter perdido o controle assim.

— Não, tudo bem.

Mas sinto que há outra coisa pela qual ela deveria pedir desculpas.

— Eu vou ficar bem. Enquanto o Sosuke continuar sorrindo, eu ficarei feliz. Se eu puder continuar sendo a amiga mais próxima dele, isso já é suficiente para mim.

— E-Entendi…

Ainda assim, que fora espetacular. O coração partido teatral da Yanami é realmente algo de se ver. Enquanto ela continuava falando, peguei algumas batatas fritas, observando-a com uma mistura de simpatia e curiosidade.

Pensando bem, existe um termo para garotas como ela. Anna Yanami. É, ela é exatamente o que você chamaria de heroína derrotada.

*

 

Três dias depois, na segunda-feira. Limpei meus lábios úmidos e fechei a torneira.

As pessoas dizem que a água da torneira da cidade é horrível, ou que ultimamente alguns defendem que ela é até boa. No entanto, poucos entendem as diferenças sutis entre as torneiras do mesmo prédio.

Eu, Kazuhiko Nukumizu, aluno do primeiro ano da turma 1-C do Colégio Tsuwabuki, sou alguém que entende.

— Nada supera essa torneira de manhã…

O lugar que eu havia escolhido durante o intervalo após a terceira aula era a torneira em frente à biblioteca, no primeiro andar do prédio novo. É a mais próxima do reservatório de água do telhado, o que significa que tem menos cloro. Uma escolha cuidadosa para minimizar o impacto no estômago antes do almoço.

Muito bem, hora de voltar para a sala. Depois de beber água o suficiente, calculei o tempo restante e a distância enquanto voltava para a sala. Se eu chegasse cedo demais, poderia ter que lidar com a situação irritante de alguém sentado no meu lugar.

Caminhando tranquilamente pelo corredor, me peguei lembrando dos acontecimentos da semana passada.

Anna Yanami. Ela é uma das garotas mais bonitas do nosso ano, então lembro dos garotos fazendo um grande alvoroço por causa dela na cerimônia de entrada. Como ela estava muito fora do meu alcance desde o começo, fiz questão de nem sequer deixá-la entrar no meu campo de visão.

Mas, na semana passada, acabei fazendo companhia para ela até que ficasse satisfeita. Quando foi a última vez que conversei tanto assim com uma garota? As expressões dela mudavam o tempo todo — sorrisos, lágrimas, de tudo — e não pude deixar de ficar um pouco hipnotizado e também um pouco nervoso.

Bom, pertencemos a mundos completamente diferentes. Assim que ela me devolver o dinheiro, essa pequena conexão terá acabado. Pensando assim, acho que será apenas uma daquelas pequenas lembranças.

Conferindo meu relógio, entrei na sala 30 segundos antes do sinal. Tempo perfeito.

Tsk. Estalei a língua suavemente. Alguém está sentado no meu lugar. É Lemon Yakishio, membro do clube de atletismo. Ela é uma garota esportiva, bronzeada e cheia de energia. Conheço ela desde o ensino fundamental. É alegre, fofa e está sempre cercada de pessoas. Se eu a deixar em paz, provavelmente não vai sair dali até o sinal tocar.

Passei pelo meu lugar, dei a volta mais longa e joguei no lixo um recibo que guardava justamente para momentos como esse. Bem na hora, o sinal tocou.

Agora a Yakishio deve voltar para o lugar dela. Hora de eu recuperar o meu—

— Hã?

Algo pareceu estranho, e parei no lugar. Por que ninguém está voltando para seus assentos? Será que…? Olhei para o quadro-negro.

4ª aula: História Mundial atrasada em 10 minutos. Estudo livre até lá.

…Então é isso. Todo mundo deve estar vendo isso como um intervalo prolongado. O que fazer? Limpei o suor da testa e fui até o mural.

…Ah, vai ter uma cerimônia de despedida para o torneio interescolar este mês. Parece que o clube de arco e flecha se classificou para o nacional por três anos consecutivos. Impressionante. Esvaziei a mente e comecei a ler o cronograma do torneio desde o topo. Cerimônia de abertura: 22 de julho. Vôlei feminino: 22 a 25 de julho. Canoagem: 28 a 31 de julho…

— Então vamos almoçar juntos nós três!

Uma voz alegre perfurou minha concentração. Essa voz pertence à Karen Himemiya.

Espiando discretamente, vi que ela conversava e ria com Yanami e Hakamada. Com sua beleza deslumbrante e personalidade radiante, ela exalava energia de heroína principal. E sim, ela é… enorme.

Yanami, por outro lado, estava com uma expressão animada e ria com facilidade, seu rosto irradiando felicidade.

…Depois dos acontecimentos da semana passada, eu estava um pouco preocupado com a Yanami, mas ela parecia estar bem. Acho que se aproximar e se afastar é apenas algo que os extrovertidos fazem o tempo todo.

— Acho que vou passar. Não quero ser vela para vocês dois.

Disse Yanami com um sorriso provocador.

— Não se preocupe com isso! Somos amigas, não somos?

— É, não é do seu feitio pensar demais nas coisas.

— Sosuke, você deveria tentar ser um pouco mais atencioso com a Karen-chan de vez em quando.

Yanami respondeu, cutucando Hakamada levemente com o cotovelo.

— Ei, Anna.

— O que foi, Karen-chan—

Antes que pudesse terminar, Karen Himemiya abraçou Yanami com força.

— Eh? O que houve?

— Obrigada. Anna, você realmente é a minha melhor amiga.

É, sua melhor amiga te chamou de mulher peituda mais cedo.

— Vamos, Karen-chan. Estamos na sala de aula, sabe?

Yanami deu leves tapinhas no ombro de Karen enquanto falava. Bom, se a Yanami realmente superou, então isso é bom.

…Ou pelo menos era o que eu estava começando a pensar — até perceber. As pernas da Yanami estavam tremendo enquanto Himemiya se agarrava a ela, e suas mãos, firmemente entrelaçadas atrás das costas, estavam brancas de tanto apertar.

Meu Deus, essa garota não superou nada.

— Então vamos almoçar juntas no pátio—

— E-Eu… bem…

A insistência animada de Himemiya foi recebida com o rosto cada vez mais pálido de Yanami. Antes que eu percebesse, me vi caminhando até os três e falando:

— Ei, Yanami-san.

— Hã? (x3)

Os três se viraram para mim com expressões surpresas. Aí está. Esse olhar. Foi mal atrapalhar, figurante aqui. Quase perdi a coragem, mas mantive a compostura e disse a fala que havia preparado.

— Yanami-san, você está de plantão hoje, certo? A Amanatsu-sensei pediu para você ir ajudar na sala de impressão.

— Eh? Ah, entendi. Obrigada, vou lá agora.

Aliviada, Yanami escapou do abraço de Himemiya. Quando já estava indo em direção à porta, parou e se virou para mim, como se tivesse lembrado de algo.

— Ei, Nukumizu-kun, você poderia vir ajudar também?

*

 

Por algum motivo, estou caminhando pelo corredor ao lado da Yanami, sem saber o que dizer.

Olhei de lado, observando-a. Anna Yanami. Com seu cabelo macio e volumoso e uma energia extremamente feminina, ela transmitia uma aura que gritava feminilidade. Seus olhos levemente caídos, rosto pequeno e jovial — ela é cheia de características que os garotos achavam atraentes.

Honestamente, ela é fofa. Por que o Sosuke Hakamada rejeitou ela? Ela também é amiga de infância dele. Não teria sido perfeita?

Claro, Karen Himemiya é mais bonita, tem seios maiores e uma presença mais chamativa, mas ainda assim—

— Hm? Tem alguma coisa no meu rosto?

Yanami inclinou a cabeça e se aproximou, olhando para mim com inocência.

— Hã? Ah, não.

Não é bom. Eu tinha pensado algo meio rude agora há pouco. Percebendo meu estado confuso, ela diminuiu casualmente a distância entre nós e sussurrou em uma voz que só eu podia ouvir:

— Nukumizu-kun, você me salvou lá atrás?

— Bom, você parecia estar em apuros. Talvez eu tenha me intrometido.

— Não, claro que não. Eu estava a isso aqui de agarrar o peito da Karen-chan com as duas mãos.

O que ela está dizendo com essa cara tão séria?

— Para onde estamos indo? Não houve realmente um pedido da professora, houve?

— A Amanatsu-sensei sempre esquece de imprimir os materiais quando nos manda fazer estudo livre. Achei que poderia ajudar enquanto isso.

Konami Amanatsu é nossa professora de estudos sociais e também nossa professora responsável pela turma.

Ela costuma se atrasar, embora não por preguiça. Ela apenas confunde frequentemente os horários das aulas, esquece os materiais ou até vai para a sala errada. E sempre que declara um período de estudo livre, quase sempre é porque esqueceu de imprimir algo.

Abri a porta da sala de impressão e, como esperado, lá estava ela, mas—

— Uau, o que aconteceu aqui?

Papéis estão espalhados por todas as mesas e pelo chão, um verdadeiro desastre. No meio da bagunça, lutando contra a copiadora, está ninguém menos que a Amanatsu-sensei. Uma professora baixinha, de aparência jovem e adorável que facilmente passaria por uma aluna de uniforme. Mas, bem…

— Ara, Yanami! O que você está fazendo aqui durante— ai!

Escorregando em uma folha de papel, ela fez um monte de impressões voar para todos os lados.

"Desastrada" pode soar adorável, mas a Amanatsu-sensei é realmente complicada.

— Pensamos que talvez pudéssemos ajudar em algo.

— Ah, isso seria ótimo! Vocês poderiam copiar material suficiente para a turma toda?

Papéis estão espalhados por todo o chão. Então… quais devemos copiar? 

No fim, nós três tivemos que vasculhar a bagunça até encontrar os materiais e, quando conseguimos, o período de dez minutos de estudo livre já havia terminado há muito tempo.

— Eu me esforcei bastante nesses materiais, então fiquem ansiosos!

Os materiais dela são sempre impressionantemente detalhados, então por curiosidade dei uma olhada.

— Sensei, esse conteúdo não está fora da aula de hoje? Achei que começaríamos história chinesa hoje.

— Ora, eu não sei quem é você, mas preste atenção na aula! Julho no segundo ano é sobre o Império Bizantino. Vou mostrar todos os pontos moe em detalhes!

— Sensei, sua próxima aula é com a turma 1-C, começando agora.

— Ehhhh!?

Além disso, sou um dos seus alunos. 

Com um baque surdo, ela largou a pilha de papéis que tínhamos acabado de juntar.

— Tudo bem! Ainda tenho quarenta minutos, então vou terminar de preparar o material até lá! Espera só um pouquinho!

Desse jeito, a aula não vai acabar antes? Depois de tropeçar mais uma vez, a Amanatsu-sensei saiu esvoaçando da sala de impressão, toda apressada. A tempestade passou. Nós dois, esmagados pela energia de furacão dela, finalmente começamos a nos mexer.

— Bom, vamos começar arrumando a sala.

— É. A Amanatsu-sensei não mudou nada, né?

Enquanto limpávamos em silêncio, o clima ficou um pouco estranho. Só nós dois numa sala de impressão vazia… eu devia dizer alguma coisa?

…Certo, tem uma coisa importante que eu preciso falar. Pigarreando, eu me dirigi à Yanami.

— Ah… sobre o dinheiro que eu paguei pra você na sexta…

— Ah, verdade. Eu tô sem carteira agora, então você pode me encontrar na escada de emergência do prédio antigo no almoço?

— Hã? Ah, claro. Desde que você me devolva.

Ela provavelmente não quer que ninguém da sala veja ela conversando com alguém como eu — ainda mais na frente do cara que rejeitou ela. Me sentindo um pouco emburrado, entreguei à Yanami a pilha de folhas que a gente tinha juntado.

Yanami alinhou os papéis com um "tac" bem certinho.

— Nukumizu-kun, você percebeu, né? Aqueles dois… agora estão namorando.

Ela disse isso num tom completamente sem emoção. Olhei para a Yanami, que estava com um olhar vazio, quase sem vida, alinhando a pilha de papéis repetidas vezes, mecanicamente.

— Ah… quer dizer, meio que… mas esses papéis já estão alinhados, não estão…?

— Você ouviu eles me chamarem pra almoçar, não ouviu? Normalmente, você acha que eles chamariam?

A força com que ela segurava os papéis foi aumentando aos poucos.

— Ei, você acha que eles estão fazendo isso pra me provocar? Estão tentando esfregar na minha cara?

Por fim, Yanami amassou a pilha de papéis nas mãos.

— Olha… eu já trabalhei com o Hakamada em trabalhos em grupo e, sinceramente, ele é um cara muito gente boa. Não parece o tipo que faria uma coisa dessas.

— É. O Sosuke não é assim, né?

— É, exatamente.

— O Sosuke é praticamente um anjo, sabe? As fotos dele de quando era criança são tão fofas… é tipo: por que tem um anjo de verdade nessas fotos? Isso viralizaria total nas redes. Ehehe.

Com um sorriso sonhador, Yanami fechou os olhos, perdida numa névoa nostálgica. Quanto tempo passou? Quando ela abriu os olhos de novo, eles ardiam com uma chama escura.

— Então é a Karen-chan. É tudo culpa da Karen-chan. Ela é o demônio.

— Hã?

— Ela está tentando quebrar meu espírito pra eu não chegar perto do homem dela.

— Ah… eu acho que você pode estar pensando demais…

— Eu achava que ela era minha amiga. Mas ela tá seduzindo o Sosuke com aquele corpo dela, que cresceu fora de controle…

Já faz um tempo que eu me pergunto… vocês duas são mesmo amigas?

— Dentro daquelas duas bolsas enormes dela, só tem maldade e veneno. Você não acha também, Nukumizu-kun?

Por favor, não me arraste pra isso. Para mim, aquilo são duas bolsas de sonhos e esperança. Ah, Amanatsu-sensei… por favor, volta logo. Como se respondesse ao meu pedido silencioso, a porta se abriu na hora certa.

— Ainda bem, sensei—

— Viva Bizâncio!

Amanatsu-sensei entrou transbordando uma energia inexplicavelmente alta. Isso só podia acabar mal.

— O que foi agora, sensei?

— Então, eu percebi que, na verdade, eu nem tinha preparado nada para as turmas do primeiro ano. Aí pensei em me esconder na sala dos professores e esperar passar.

Por que você está sorrindo enquanto diz isso? Você não deveria ser uma profissional?

— Mas aí eu percebi que dá pra transmitir o moe do Império Bizantino praquelas crianças do primeiro ano mesmo sem material! Vamos voltar pra sala imediatamente!

— Sensei, por favor, dá aula direito.

Por que eu sequer quis que essa pessoa voltasse?

— Eu estou totalmente pronta pra dar o conteúdo do segundo ano!

— Vamos usar o livro didático na aula. Você consegue, sensei.

— Mas eu consigo mesmo sem preparar nada?

— Não é questão de conseguir. É que você tem que conseguir.

Por algum motivo, meu encorajamento meia-boca funcionou. Amanatsu-sensei fechou os punhinhos minúsculos com força.

— Tá bom, vou tentar! Mesmo que eu tenha esquecido meu livro didático.

— Então vamos buscar primeiro.

— Você é tão gentil. Mas a aula já começou, então por que você não volta pra sua sala?

— Eu sou da sua turma.

…Sensei. Eu tô cansado demais pra continuar com isso. Posso só voltar?

*

 

Na hora do almoço daquele dia, me sentei no ponto combinado, perto da escada de emergência. Eu nem tinha percebido que existia um lugar assim na escola. Olhando ao redor, admirei o "esquema".

É um espaço reservado, protegido dos olhares de fora e sem movimento de gente. Quatro meses dentro do ano letivo, eu já comecei a enjoar de beber água de torneira, então esse parece o lugar perfeito para uma pausa.

A Yanami podia aparecer a qualquer momento, então decidi comer um pão enquanto esperava.

— Ah, Nukumizu-kun, você tá aqui.

Descendo do andar de cima, Yanami me chamou. Levantei o olhar sem pensar — e dei de cara com a visão das coxas brancas dela. Em pânico, desviei o olhar na hora.

— A-Ah! Não, quer dizer, eu não estava tentando—

Ignorando minha reação desesperada, Yanami se jogou ao meu lado.

— Me ajuda.

Foi a primeira coisa que ela disse depois de sentar.

— A Karen-chan me chamou pra ir ao karaokê depois da aula. Nós três.

…Karaokê. O passatempo favorito dos extrovertidos. Se ela está pedindo ajuda, não dá pra negar a fama de atividade perigosa.

— Hã? É só ir.

Diante da minha resposta perfeitamente razoável, Yanami segurou a cabeça em desespero, com uma cara totalmente derrotada.

— Eles vão fazer dueto! Você sabe o que isso significa? Nukumizu-kun, você está me mandando morrer!?

Por que eu saberia uma coisa dessas?

— Eu nunca fui a um karaokê, então não entendo muito.

— Ah…

A expressão da Yanami se toldou.

— Ah, desculpa. Eu não sabia… eu realmente não sabia. Desculpa, desculpa mesmo. Eu nem sei como pedir desculpas direito…

Ei, ei, calma. Para de pedir desculpas. Por favor. Se continuar assim, eu vou acabar chorando também.

— Não, sério, relaxa. Ah… então, sobre o dinheiro daquele dia…

— Eles disseram pra eu não me preocupar e que tudo ia continuar como sempre, mas…

Espera, a Yanami está abrindo a marmita? Ela pretende almoçar aqui?

— É… não se force demais, tá? Então, sobre aquele dinheiro…

— Naquela mesma noite, depois que eu peguei o dinheiro emprestado com você, eles me falaram oficialmente que tinham começado a namorar.

Pá, pá, pá. Ela espetou uma raiz de taro com os hashis como se quisesse matá-la.

— O que eles estavam fazendo até então?

— Ah… talvez eles só não tenham tido oportunidade de te avisar?

— Nessa noite, a irmã do Sosuke me mandou mensagem perguntando se eu estava com ele, porque não estava conseguindo falar com ele.

— Ah…

Alguém me salva. Fixei o olhar no pão de curry à minha frente.

— Você acha que eles estavam fazendo alguma coisa que não podiam contar…? Hm?

O taro que ela espetou se esfarelou.

— T-Talvez o celular dele tenha descarregado ou algo assim? Acontece comigo direto.

— É, você tem razão. Eu devo confiar nele, né? Mesmo eu já não sabendo mais no que acreditar…

Eu também não sei o que pensar dessa situação. Yanami ficou em silêncio, de cabeça baixa por um tempo, até finalmente levantar o rosto.

— Desculpa. Eu fiquei falando sozinha.

— Ah… tudo bem. Eu não me importo de ouvir.

— Obrigada, Nukumizu-kun. Eu não consigo falar dessas coisas com minhas amigas ou conhecidas, então fico feliz que você esteja aqui.

…Então eu nem sou conhecido?

— O intervalo já vai acabar. Vamos comer.

Os únicos assuntos que nós dois — que nem conhecidos somos — temos em comum são aquele casal meloso e a comida na nossa frente. Com minha sugestão, Yanami me deu um sorriso cansado.

— É. Você tem razão. Vamos comer.

E assim começou um almoço silencioso. Eu terminei meu pão de curry cedo e olhei para a Yanami. Por que eu estava almoçando ao lado de uma garota?

Para quem está no topo da hierarquia social, levar um fora ou dar um fora deve ser algo corriqueiro. A Yanami é fofa o bastante pra, em algum momento, ter sido ela quem rejeitou alguém. Mas desta vez, ela foi a rejeitada.

Provavelmente é uma parte inevitável da vida dela — algo que vai acontecer de novo e de novo — diferente de alguém como eu.

— Ah… Yanami-san…

Eu me surpreendi por ter puxado assunto. Droga, eu nem pensei no que dizer em seguida.

— Bem… você é muito popular com os garotos. Quer dizer, você provavelmente tem mais fãs do que a Himemiya-san. É.

Yanami me encarou com uma expressão confusa por um instante. Esse olhar de novo. O olhar que as pessoas fazem quando alguém chama o nome delas do nada ao vivo na TV.

— Você está tentando me animar?

— Ah… sim. Desculpa, foi uma coisa esquisita de dizer. Esquece.

Ótimo. Fiz besteira. Devia ter ficado no modo figurante. Enquanto eu me arrependia de ter falado, ouvi uma risadinha suave. Yanami sorriu de leve, voltando à expressão gentil de sempre. Sem graça, eu desviei o olhar.

— Obrigada. Acho que eu entendi você errado, Nukumizu-kun.

Ela disse isso enquanto colocava na boca uma das raízes de taro que ainda estavam inteiras.

…Quão profunda foi essa confusão? Que impressão ela tinha de mim?

— Bem… então, posso receber o dinheiro agora? Aqui está o recibo daquele dia.

— Sim. Obrigada de novo por ter me ajudado. Foi—

Ela congelou no meio do movimento ao pegar o recibo.

— O que foi?

— Ué… não aumentou o valor…?

— Yanami-san, você pediu aquela panqueca de melancia com sorvete em cima, não pediu?

— Pedi.

— E depois ainda fechou com aquele udon de salada com shabu-shabu de porco.

— Mas salada não engorda.

Essa fé inabalável em salada… eu até admiro. Agora que ela parece convencida, acho que finalmente está na hora de eu receber. Yanami alternou o olhar entre minha mão estendida e o recibo na mão dela algumas vezes, antes de assentir com firmeza, como se tivesse tomado uma decisão.

— Por exemplo, se você não se importar, Nukumizu-kun… que tal eu te pagar de outro jeito?

— De outro jeito?

O que ela está querendo dizer? Yanami se remexeu, o rosto ficando vermelho, enquanto pegava com os hashis um pedaço de frango cozido — só para deixá-lo cair de novo.

— E-Eu não sou muito boa nisso, então não sei se você vai ficar satisfeito, mas eu não tenho dinheiro, então é tudo o que eu posso oferecer. O Sosuke ficava feliz com isso também…

— Hã?

Do que ela está falando? Eu encarei, atônito, o frango brilhante e lustroso na ponta dos hashis dela. Yanami abaixou o olhar, tímida, com os hashis brilhando de gordura do frango—

Espera, espera, o quê!? Ela está falando daquilo? Isso vai virar pra esse lado agora!? Balancei a cabeça com força.

— N-Não, não, não! Isso é totalmente fora de questão! Aqui é a escola!

— Eu quero dizer… eu não sou muito boa cozinhando, mas eu pelo menos consigo fazer uma marmita…

— Hã? Marmita?

— Sim. Ué, tem alguma coisa errada?

Yanami inclinou a cabeça de leve, com aqueles olhos claros cheios de inocência.

— Ah! M-Marmita, né.

…O que foi que eu estava imaginando? Recuperei a compostura rapidamente e olhei para o valor no recibo.

— Mas uma marmita só não vai cobrir esse valor.

Esse era meu dinheiro suado, cuidadosamente economizado do almoço.

— Por isso eu vou fazer uma pra você todo dia e ir abatendo até dar o valor do recibo.

Uma marmita caseira feita por uma garota. Isso não é algo que eu viveria de outra forma. E ainda economizaria meu dinheiro do almoço, então, tecnicamente, eu recuperaria o prejuízo. Mesmo assim… parece uma dor de cabeça. Ter que evitar as pessoas enquanto recebia as marmitas e ainda ficar controlando a conta… dava um trabalhão.

— A-Ah… na verdade, eu prefiro…

— Então eu vou te esperar aqui a partir de amanhã!

O sorriso da Yanami deixou claro que, para ela, o assunto estava resolvido. Observando-a comer feliz o pedaço de frango, eu só consegui dizer—

— Tá bom. Vou ficar esperando.

*

 

Quando o sinal do almoço tocou, anunciando o fim do intervalo, eu afundei na cadeira, completamente exausto. Estou morto. Por que foi preciso tanta energia só pra receber de volta o dinheiro que me deviam?

…E ela nem me pagou ainda. Por algum motivo, Yanami decidiu quitar a dívida com marmitas caseiras. Isso quer dizer que eu vou estar comendo os almoços dela pelo futuro previsível? É uma reviravolta inesperada, muito além do que eu poderia imaginar, e meu cérebro está tendo dificuldade de acompanhar.

Já é metade de julho. Certo, está decidido: vou passar o resto do semestre vivendo quieto, sem pensar em nada. Eu me visualizei desaparecendo no fundo.

…Ótimo, agora ninguém vai me incomodar hoje. Afinal, essa técnica de jujutsu nunca falhou comigo desde o início do ano letivo—

— A-Ah… N-Nukumizu-kun, né?

Quebrou instantaneamente. Uma garota com cara de nervosa veio correndo até mim.

— E-Eu sou cal-caloura do… do Clube de Literatura!

Ela mal conseguiu cuspir as palavras antes de começar a tossir. O que há com essa garota? O nervosismo dela faz eu parecer calmo em comparação.

— Ah… quem é você? De onde você veio?

— A-Ah! E-Eu sou a Komari! Do Clube de Literatura! Chika Komari!

A garota que se apresentou como Komari puxava nervosamente a barra larga demais do uniforme de verão, com os grandes olhos marejados fixos em mim.

— É-É… eu q-queria falar com você sobre… ah… as atividades do clube!

— Atividades do clube? Por que alguém do Clube de Literatura iria querer falar comigo?

— P-Porque, Nukumizu-kun, v-você está no Clube de Literatura, não está!?

— Hã?

— Hã?

Silêncio.

Espera. Pensando bem, logo depois do início do ano letivo, eu me lembro vagamente de ter passado no Clube de Literatura por curiosidade. Acho que escrevi meu nome em alguma coisa naquela época. Aquilo era mesmo um formulário de inscrição?

— Ah, é. Acho que deve ser verdade, se você está dizendo.

Chika Komari soltou um suspiro de alívio e começou a digitar freneticamente no celular. Quando terminou, enfiou a tela na minha cara.

O conselho estudantil emitiu um aviso sobre membros de clubes que estão inscritos, mas não participam. Já estamos quase abaixo do número mínimo de membros!

Então o problema sou eu. Os dedos da Komari voltaram a voar pela tela.

De qualquer forma, por favor, venha ao clube hoje depois da aula.

— Ah… certo, entendi. Eu passo lá.

Agora eu me lembrei. Tirando o presidente do clube, todas as integrantes — inclusive as visitantes como eu — eram garotas. Foi tão constrangedor que eu simplesmente parei de ir.

Enquanto observava a Komari se afastando, tive certeza de que minha decisão de me distanciar do Clube de Literatura tinha sido a correta. Afinal, a pessoa que eles enviaram como representante foi ela.

*

 

Eu já quero ir pra casa. Depois da aula, me vi em um canto silencioso do primeiro andar do prédio oeste — uma área que eu quase nunca visito.

— Então, essa é a sala do Clube de Literatura…

Encarei com desânimo a porta da sala do clube. Honestamente, não tenho interesse nenhum em estar aqui, mas quando alguém diz que o clube mal está sobrevivendo com o número mínimo de membros, não posso deixar de sentir um pouco de simpatia. Conheço bem demais as dificuldades de estar em minoria.

Respirei fundo e girei a maçaneta.

— Hã, está trancado.

Se está trancado mesmo depois de terem me chamado, quer dizer que eu posso ir pra casa agora?

Aliviado, me virei para sair — apenas para ter a tela de um celular enfiada na minha frente.

Ei, sai da frente. Eu vou destrancar.

Era a Chika Komari. Ela me empurrou para o lado e começou a abrir a porta. Sério, você podia ter dito isso em voz alta. Eu a segui para dentro da sala. Komari foi direto para uma cadeira, sentou-se e abriu um romance sem nem olhar para mim.

Então ela é do tipo quieta e antipática, é? Só que não é aquele tipo de distante charmosa — é só inacessível mesmo. Isso não vai te render fãs, sabia? Sentei-me em uma cadeira dobrável de metal, afastado dela, e observei a sala do Clube de Literatura. Uma das paredes é coberta por estantes que vão até o teto, cheias de livros.

Na minha primeira visita, não reparei em muita coisa porque estava nervoso demais, mas há várias coleções de capa dura empoeiradas, além daqueles lombos azuis característicos. Surpreendentemente, parece haver uma boa coleção de light novels também.

— Ei, Komari-san. Todos esses livros—

— Eh? Ah, hum…

Komari se debateu, tentando pegar o celular. Estou começando a sentir pena dela.

— Tudo bem. Pode continuar lendo seu livro.

Mesmo assim, a atmosfera aqui é sufocante. Sentindo-me inquieto, peguei um livro de bolso com obras do Dazai da estante. Eu já tinha lido algumas das obras mais famosas dele antes. Pensando bem, o Dazai era ridiculamente popular com as mulheres. Droga, espero que ele tenha se afogado num rio.

(N/SLAG: Ele realmente tentou suicídio várias vezes e morreu por afogamento com uma amante.)

Folheei o livro distraidamente.

Hã? Desde quando começaram a incluir ilustrações modernas nesses livros? Que cena é essa?

Eu não entendi muito bem, mas aparentemente se chama "Hora da Doce Punição". Ah… algo sobre a vara de mel furiosa do Takuya encontrando as pétalas suavemente maduras do Haruta—

Hã? O que é isso? Isso é mesmo Dazai?

Quando tentei tirar a capa, o livro foi arrancado das minhas mãos numa velocidade impressionante. Komari, pálida como um fantasma, o abraçou com força contra o peito.

— N-N-Não! M-Meninos não podem l-ler isso!

— Mas é do Dazai Osamu, não é?

— É-É! Por isso mesmo! Não!

Mas por quê? Eu não faço ideia do que está acontecendo.

— Ah, já estão se dando bem, pelo visto!

A voz animada pertence a uma garota de óculos que acabou de entrar na sala. Ela tem cabelos longos presos em duas marias-chiquinhas baixas e uma aura de elegância — definitivamente uma beleza madura. Komari rapidamente se escondeu atrás dela, me lançando um olhar ressentido da segurança de seu abrigo.

— Ara, talvez não exatamente.

A garota de óculos disse isso, fazendo carinho na cabeça da Komari enquanto sorria para mim.

— Você é o Nukumizu-kun, certo? Já faz um tempo.

A expressão gentil dela era contagiante, e acabei sorrindo de volta. Finalmente, uma pessoa normal.

— Ah, hum, desculpa por isso. Eu tenho sido um membro totalmente fantasma.

— Só o fato de você estar aqui já ajuda muito. Você se lembra de mim? Eu sou Koto Tsukinoki, a vice-presidente. Terceiro ano.

— Ah, sim, claro.

Claro que isso é mentira. A Tsukinoki-senpai olhou para o romance que a Komari estava segurando e assentiu, como se tivesse entendido tudo.

— Ah, esqueci de mencionar. Os livros do Dazai e do Mishima na estante são proibidos para meninos.

— Yukio Mishima e Dazai Osamu?

Os óculos da senpai brilharam de forma ameaçadora no momento em que eu disse isso. Antes que eu pudesse recuar por instinto, ela segurou meus ombros com firmeza usando as duas mãos.

— Não. Dazai vem primeiro. Dazai Osamu e Yukio Mishima. Eu não reconheço inversões. Isso não é negociável.

Os olhos dela eram assustadores. Assenti cautelosamente, e o sorriso dela voltou.

— Fico feliz que tenha entendido. Sente-se. Quer que eu prepare um chá?

Que diabos foi isso? Não tem ninguém normal nesse clube? 

Enquanto eu me sentava, encarando o fecho da minha mochila com medo, a Komari tocou no meu ombro. Olhei para cima e vi que ela estava estendendo o celular.

Completamente errado. Mishima vem primeiro. A ordem correta é Mishima, depois Dazai.

Eu não me importo com a ordem. Só me deixem fora disso.

— Nukumizu-kun, que tipo de livros você costuma ler? — Perguntou a Tsukinoki-senpai, me entregando uma xícara de chá.

— Ah… ultimamente, mais light novels.

— Ah, é mesmo? Temos várias light novels aqui, então pode pegar emprestado à vontade.

Isso sim é útil. Graças a certa pessoa, meu plano de comprar livros tinha ido por água abaixo.

— A propósito, que outros membros tem no clube?

— Bem, tem o presidente. Ele é do terceiro ano. Acho que eu te apresentei a ele em abril, quando você veio pela primeira vez.

Vagamente, eu me lembrava de alguém assim. Um cara alto, simpático e bonito, se não me engano. Espera. A Tsukinoki-senpai já tinha se acomodado e começado a tomar chá.

— Chá verde quente no calor é realmente revigorante, não acha?

— Hum… e além dele?

— Só isso.

Colocando a xícara na mesa com um "clinc" firme, ela abriu um sorriso presunçoso. Por que essa cara de orgulho?

— Ultimamente, o conselho estudantil tem ficado de olho na gente. Vou precisar que você apareça no Clube de Literatura por um tempo. Pode beber o chá à vontade.

As estantes estão cheias de light novels. Hmm, nada mal.

— Bom, sendo assim…

Tsukinoki-senpai sorriu calorosamente e se levantou com uma energia quase inquieta.

— Então, estou indo. Komari-chan, mostre o clube para ele e explique como as coisas funcionam, tá?

— Ueh!?

Komari, que tinha se concentrado num livro sem que ninguém percebesse, soltou um gritinho de surpresa.

— O Shintaro esqueceu que estava de plantão hoje e agora ficou preso tendo que ficar até mais tarde. Eu preciso ir ajudar.

Espera, então ela tem namorado? Estudantes do ensino médio… parece que todo mundo está envolvido em romance. Quem foi que disse que o amor é uma matéria optativa no fundamental e obrigatória no ensino médio? De qualquer forma, eu certamente estou reprovando.

— Ah, e mais uma coisa — nem pense em tocar nos livros do Dazai ou do Mishima na estante. Vou repetir porque é importante.

Acenando levemente, Tsukinoki-senpai saiu da sala. Assim que comecei a me sentir aliviado, Komari enfiou o celular na minha cara de novo.

Mishima primeiro, depois Dazai! Não erra!

Essa garota parece estar prestes a reprovar nessa tal matéria obrigatória também.

— Entendi. Então, pode me falar sobre o clube agora?

— E-Ehh…

O rosto da Komari se contorceu numa expressão de total relutância.

— Não temos muita escolha. A vice-presidente fugiu para ver o namorado.

— E-Ele não é o namorado dela! O Shintaro é o presidente! Tamaki Shintaro! E-Eles são só amigos de infância!

Por que ela parece tão defensiva? Como se estivesse prestes a digitar furiosamente, Komari pegou o celular — só para soltar um pequeno grito.

— A-A bateria!

Ela começou a revirar uma bolsa freneticamente — espera, essa é a minha mochila. Calma aí. Toc, toc. O som de batidas interrompeu o caos. Sério, o que foi agora?

— Com licença. Aqui é a Shikiya do conselho estudantil. Posso entrar?

— Ah, estamos meio ocupados—

Mas minhas palavras morreram quando a aluna que entrou chamou minha atenção. O cabelo ondulado, castanho-claro, enfeitado com um acessório de flor. Um scrunchie no pulso. Unhas decoradas chamativas. O uniforme usado de forma folgada, combinado com uma saia curta.

A maquiagem, apesar de parecer natural, era meticulosamente feita, e o cabelo tinha um volume perfeito. E… aquelas lentes de contato brancas? Assustadoras. Isso… é uma gyaru. Uma criatura de um mundo completamente desconectado do meu, agora parada aqui.

A gyaru, que havia se apresentado como Shikiya, examinou a sala antes de se aproximar de mim.

Engoli em seco. Não sei o que ela quer, mas ela é uma gyaru. Com certeza está aqui pra me humilhar até não sobrar nada. Honestamente, não consigo esconder minha empolgação.

— Você é… o Nukumizu-kun do Clube de Literatura, certo…?

Hã? Por que ela parece tão sem energia? Ela não é uma gyaru?

— Ah… sim, eu sou o Nukumizu…

Por algum motivo, meu nível de energia também caiu. Não que eu tenha ficado decepcionado. Definitivamente não.

— Desculpa… me pediram para investigar… algo sobre as atividades do clube… O que o Clube de Literatura costuma fazer?

Shikiya-san se encostou pesadamente na parede, parecendo completamente exausta. Ela está bem?

— Bom… eu não sei muito sobre as atividades…

— Espera… você é membro desse clube, não é…?

Os olhos pálidos dela se fixaram em mim com um olhar penetrante. Droga. Certo, esse clube não está prestes a ser fechado por minha causa? Olhei para a Komari em busca de ajuda, apenas para encontrá-la tremendo no canto da sala com o celular descarregado por causa da gyaru.

Inútil.

— Ah… bem, é o Clube de Literatura, então… nós lemos livros e tal…

— Leem… e só isso? — Shikiya-san inclinou a cabeça lentamente. Espera, isso não é o suficiente? — O clube… não faz… mais nada…?

Balançando levemente, Shikiya-san começou a caminhar em minha direção. Isso é assustador. Ela parece uma garota zumbi.

— Ah… bom, a gente também escreve! Às vezes, a gente escreve coisas!

— Escrever… huh… entendi… então não é… só leitura…?

Shikiya-san olhou para o teto por um momento antes de anotar algo no caderno sem nem olhar.

— Entendi… obrigada…

Ela fechou o caderno, virou nos calcanhares e saiu da sala. Isso foi assustador demais. Quando olhei para a Komari, ela estava cutucando a tela apagada do celular como se estivesse possuída. Sinceramente, ela também é meio assustadora. Peguei um cabo de carregador do meio da bagunça no chão e entreguei a ela.

— A-Ah, me empresta!

Komari arrancou o cabo da minha mão e, com dedos trêmulos, conectou-o à tomada. Observando-a, cheguei a uma conclusão.

Eu sou bem normal, relativamente falando.

*

 

Naquela noite, sentei-me à minha mesa no quarto, revisando o plano que estava escrito no meu caderno. Usando a lista de light novels que vi na sala do clube como referência, eu estava atualizando o plano de compras que tive que alterar graças à Yanami.

Recostando-me na cadeira, calculei mentalmente o estado da minha carteira e o orçamento do almoço da próxima semana.

Como minhas despesas com almoço estarão cobertas por um tempo, posso usar esse dinheiro para comprar lançamentos e completar as séries que ainda não li.

— Primeiro, vou completar "Você Gosta de Onee-sans de Combate Corpo a Corpo?", a série que me fisgou com o anime.

Talvez seja hora de finalmente começar "Senpai de Peito Pequeno". Já até limpei uma prateleira para os volumes, incluindo as adaptações em mangá. Enquanto eu anotava isso no plano, uma pequena mão pálida de repente prendeu a minha.

— Você não pode deixar de fora "Você, a Inocente Rainha das Trevas". Deve começar comprando até o Volume 5, onde a personagem favorita da Kaju tem seu grande momento.

— Kaju, por que você está no meu quarto?

— Onii-sama pode não perceber, mas a Kaju normalmente está aqui.

Quem disse algo tão perturbador foi minha irmã mais nova, Kaju. Dois anos mais nova que eu, ela é inegavelmente fofa, mesmo do ponto de vista tendencioso de um irmão mais velho.

Além disso, ela entrou recentemente para o conselho estudantil. Como duas pessoas da mesma família podem ser tão diferentes?

— Mas eu estava pensando em colecionar "Senpai de Peito Pequeno" primeiro.

— Esse é engraçado, mas é muito indecente. Não é adequado para você, onii-sama. Faz mal para os seus olhos.

— Como você sabe disso?

— Uma amiga emprestou para a Kaju. Era indecente demais.

Isso não é justo. Me empresta também. Assim que abri a boca para reclamar, Kaju enfiou um biscoito nela. Delicioso. Em seguida, colocou um canudo de chá gelado na minha boca. Ela está… cuidando de mim agora?

— Eu posso beber sozinho, sabia?

— Onii-sama, você já fez algum amigo na escola?

Kaju se aproximou, com um tom estranhamente investigativo.

— Ah… não, ainda não…

— Kaju está preocupada com você, onii-sama. Você já está no ensino médio. Não ter amigos só é perdoável durante a educação obrigatória.

Então… não é mais perdoável?

— Por exemplo, excluindo os professores, com quantas pessoas você falou hoje?

Ah… deixa eu ver. Yanami, Komari, a vice-presidente Tsukinoki-senpai e a Shikiya-san do conselho estudantil.

— Quatro, eu acho.

— Quatro?

Os olhos da Kaju se arregalaram de espanto. Isso mesmo, até seu irmão consegue esse tanto quando se esforça—

— Onii-sama, não ter amigos não é algo vergonhoso.

— Mas não é perdoável, né?

— No entanto, mentir para sua amada irmãzinha é muito vergonhoso. O coração da Kaju está partido.

— Hã? Eu não estou mentindo.

Ela realmente tem tão pouca fé nas minhas habilidades sociais assim?

— E o coração da Kaju também está partido ao pensar que ela pressionou você tanto a ponto de você sentir a necessidade de mentir para sua irmãzinha.

Com os olhos marejados, Kaju começou a me dar biscoito atrás de biscoito.

— Ei, eu já dihse que pofsso comê sozinhô..

— Não se preocupe, onii-sama. Kaju vai garantir que você faça amigos.

Enxugando as lágrimas, ela envolveu minha cabeça com os braços e me abraçou com força. Está quente.

Nukumizu Kaju. Ela é uma brocon ou só se preocupa demais comigo? De qualquer forma, ela sempre arruma uma desculpa pra cuidar de mim.

Mas será que não ter amigos é realmente algo tão ruim? No dia a dia, isso não me causa nenhum inconveniente em particular. Suspirando com o quão problemática minha vida tinha se tornado, tomei um gole do meu chá gelado.

Saldo Atual do Empréstimo: 3.617 ienes

*

 

É o intervalo de almoço do dia seguinte. Eu vim até a escada de emergência buscar minha marmita, só para ser recebido pela Yanami com isso—

— Você não é bem maldoso?

Por que estou sendo arrastado pra drama logo de manhã?

— Como assim?

— Você, é claro. Eu pedi sua ajuda ontem, não pedi? E acabei tendo uma experiência horrível no karaokê!

E por que exatamente estou sentado aqui na escada ao lado da Yanami? Honestamente, eu só queria ficar sozinho.

— O que exatamente você esperava que eu fizesse?

— Garotas só querem que alguém tenha empatia com elas, tá? Você não consegue ao menos entender como eu me senti ouvindo aquele dueto de Frozen?

Frozen, é… deixa eu ver…

— Você quer dizer aquele "Seja você mesmo~" ou algo assim?

Espera, isso não parece certo.

— Não! É o dueto entre a Anna e o príncipe. A troca final de falas foi uma tortura absoluta pra mim.

Ahh, esse. A fala do príncipe era algo tipo—

— É aquele "Case comigo!", né?

— E a Anna responde "Claro!". Aaaahhh!

Yanami gemeu, segurando a cabeça. Por que ela está reabrindo as portas do próprio inferno?

— Aquela garota está mesmo tentando me destruir. É uma bruxa de gelo…

— B-Bom, sabe… casais são assim quando começam a namorar. Enfim, cadê minha marmita?

Para ser sincero, por mais que eu tentasse manter a pose, não podia negar um pequeno lampejo de expectativa. Ter uma colega de classe — uma garota, ainda por cima — fazendo meu almoço era meio… especial.

— Aqui.

A marmita que ela me entregou é feita de papel colorido. Pelas palavras "Coxa de frango, 98 ienes" impressas nela, estava claramente dobrada de um panfleto de supermercado. Acho que já vi isso na casa da minha avó.

— Hum… o que exatamente é isso?

— Eu tentei fazer seu almoço junto com o meu hoje de manhã, Nukumizu-kun.

— Entendi. E por que acabou assim?

— Quando eu estava preparando duas marmitas, minha mãe disse: "Tenho certeza de que o Sosuke vai adorar isso."…

…Para. Só para. Não diga palavras como mãe ou Sosuke. É doloroso demais. Em silêncio, abri a marmita e encontrei um sanduíche embalado em plástico.

— Isso é de loja de conveniência, não é?

— Você não estava me ouvindo? Foi por isso que eu não consegui preparar duas marmitas!

Isso pode mesmo ser chamado de marmita caseira? Claro, o exterior foi feito à mão…

— Quanto você acha que isso dá, Nukumizu-kun?

— Ah… 268 ienes.

— Tão barato?

Está escrito bem na embalagem. Yanami suspirou, depois tirou um pedaço de tamagoyaki da própria marmita e colocou na minha.

— Bom, 300 ienes.

Afastei a marmita quando Yanami tentou adicionar outro pedaço de karaage.

— Mais importante, não seria melhor você manter certa distância daqueles dois? Você tem vários outros amigos, não tem?

A expressão "contar centavos" passou pela minha mente enquanto eu colocava o tamagoyaki na boca. Estava um pouco queimado, mas surpreendentemente gostoso. Aparentemente, a família Yanami prefere tamagoyaki doce.

— Todo mundo da nossa turma está sendo excessivamente cuidadoso comigo.

Yanami murmurou, separando o próprio tamagoyaki em pedaços.

— Sabe como eu e o Sosuke estávamos sempre juntos antes da Karen-chan se transferir? Agora tem toda aquela vibe de "Ah, então a Yanami levou um fora, né?".

— Ah… eu realmente não sei o que dizer sobre isso…

Antes que eu conseguisse pensar em uma resposta, um pedaço de karaage rolou para dentro da minha marmita.

— Quanto dá agora com o karaage?

— 350 ienes.

Com o que eu estava preocupado mesmo? Essa garota é uma idiota.

— Ah, a propósito, Nukumizu-kun, onde você estava depois da aula ontem? Eu te vi se afastando dos armários de sapato.

— Você presta bastante atenção.

— Bem, você sempre vai direto para os armários sozinho, então chama atenção.

…O que há nos comentários dela que faz todos parecerem alfinetadas?

Dito isso, eu me formei no clube de ir direto pra casa. Sentindo-me levemente orgulhoso, mordi meu sanduíche.

— Acontece que eu estou no Clube de Literatura, então provavelmente vou passar um tempo lá.

— Ah, sério? Eu não sabia que você gostava desse tipo de coisa.

Yanami disse isso distraidamente enquanto mastigava uma salsicha em formato de polvo, claramente sem interesse.

— Talvez eu passe lá pra dar uma olhada. Posso ir com você?

— Eu não me importo, mas… você se interessa por esse tipo de coisa?

— Sim, eu gosto de flores e tal.

— Esse é o Clube de Jardinagem. Eu estou no Clube de Literatura.

Estou começando a entender por que ela levou um fora. Ela até tem arroz grudado no rosto.

*

 

As aulas do dia finalmente acabaram. Eu queria sair da sala imediatamente, mas como o autoproclamado "observador" da turma, aqui vai um conselho.

Em situações como essa, o melhor é esperar. O período logo após a aula está cheio de perigos em potencial. Primeiro, olhe para a porta da sala. Um grupo de colegas está se reunindo ali. Eles estão observando os movimentos de todos para não serem deixados de fora depois da aula.

Essas pessoas não vão abrir caminho para alguém como eu, um figurante.

…Sim, quando você olha para o fundo, o fundo também olha para você. Se quiser se misturar a eles, nunca deve reconhecer a existência deles. Arrumei minha mesa lentamente, observando o fluxo de pessoas pelo canto do olho. A multidão na porta está começando a diminuir.

Mas não posso baixar a guarda. Esse mesmo grupo logo mudará sua base de operações para os armários de sapato, se amontoando enquanto se encontram ou prolongam despedidas.

O pior cenário seria eles ficarem conversando bem na frente do meu armário. É difícil fingir que esqueci onde ele fica enquanto ando sem rumo quando já estamos em julho.

…Espera, hoje eu não devo ir direto pra casa, né? Preciso passar um tempo na sala do Clube de Literatura—

Nesse momento, um garoto entrou na sala e foi direto até minha mesa.

— Ei, Nukumizu. Ouvi dizer que você entrou no Clube de Literatura?

— Eh…?

Quem falou comigo foi Mitsuki Ayano, da turma D. Estudamos no mesmo fundamental, embora não sejamos exatamente amigos. Ele só puxa conversa ocasionalmente porque fizemos cursinho juntos. Aliás, mesmo tendo feito o mesmo cursinho, as notas dele são muito melhores que as minhas. Ele até usa óculos, o que o faz parecer mais inteligente.

— Ah… sim. Mais ou menos.

— Ouvi de um professor que vocês têm a coleção completa do Abe Kobo lá. Se importa se eu aparecer algum dia pra pegar emprestado?

Hã. Não sabia que tínhamos isso. Eu só tinha conferido a seção de light novels.

— Ah… claro. Eu falo com o veterano responsável pra você.

— Valeu, fico te devendo.

Com um sorriso amigável, ele bateu no meu ombro e se virou para sair. Nesse momento, uma figura bronzeada entrou no meu campo de visão. É Lemon Yakishio, apoiando os braços queimados de sol na minha mesa.

— Mitsuki! Espera aí um pouco.

Inclinando-se na direção dele, um leve cheiro de desodorante 8×4 misturado com suor chegou até mim. Perto demais. Além disso, você está no caminho.

— Ei, eu estou de folga do treino hoje. Quer comer alguma coisa juntos?

— Desculpa, hoje é dia de cursinho pra mim.

Ayano juntou as mãos em gesto de desculpa.

— Ah, qual é, a gente só está no primeiro ano. Se tudo o que você faz é estudar, vai acabar virando um idiota.

— Você é quem devia estudar mais, ou vai acabar repetindo de ano.

…Por que eles estão flertando na minha mesa?

— Mitsuki-san, é melhor você ir logo ou vai se atrasar pro cursinho~.

Uma garota alta colocou a cabeça para dentro da porta da sala. Hã, lembro dela. Ela costumava andar bastante com o Ayano no cursinho. É bonita e inteligente, então é bem conhecida por lá. Não sabia que estudávamos na mesma escola.

— Ah, Chihaya. Já vou. Até mais, Lemon.

— Ah, é, tchau.

Yakishio acenou fracamente, sem tentar esconder a decepção. Eu queria sair, mas com a Yakishio bloqueando o caminho, não consegui pegar minha mochila.

— Ah… Yakishio-san… hum… minha mochila…

— Ei, Nukumizu, você é amigo do Mitsuki? Vocês são de turmas diferentes, né?

Os cílios longos dela tremularam curiosamente enquanto ela se inclinava para olhar meu rosto. Lemon Yakishio, o ás dos corredores de curta distância do time de atletismo e uma das garotas mais chamativas da turma. Seu cabelo curto emoldura um rosto pequeno, e seus membros esguios e tonificados se estendem do uniforme, bronzeados de forma saudável. Fiquei momentaneamente sem reação, mas logo recuperei a compostura antes de falar.

— Ah, nós não somos exatamente amigos. Fizemos cursinho juntos, então conversamos de vez em quando.

Os olhos da Yakishio brilharam de repente.

— Você foi para o mesmo cursinho? Então conhece aquela garota de antes?

Ela se inclinou tão perto que seu entusiasmo me pegou de surpresa.

— Ah… acho que o nome dela é Asagumo. Ela estava no mesmo curso avançado que o Ayano, e acho que as notas deles eram mais ou menos iguais.

— S-Sério? Então o Mitsuki gosta de garotas inteligentes, hein…

Ela disse isso olhando ansiosamente na direção em que Ayano e Asagumo-san tinham desaparecido.

Espera… será que a Yakishio…

— Bom, eles estavam no mesmo curso avançado, então é óbvio que passavam algum tempo juntos. Mas acho que são só amigos.

— Né!? Eles são só amigos, né!?

O rosto da Yakishio se iluminou com um sorriso tão brilhante quanto o céu azul. Bom, não sei o que aconteceu depois que o cursinho acabou, na verdade.

— Ah… então… minha mochila…

— Ah, foi mal, Nukumizu. Certo, acho que vou dar uma corridinha pra animar!

Com isso, Yakishio começou a se alongar ali mesmo, suas longas pernas bronzeadas brilhando sob a luz do sol. Após um breve aquecimento, saiu correndo com a energia lá em cima.

Assim que ela foi embora, peguei minha mochila e me levantei. Existem todos os tipos de pequenos e grandes dramas acontecendo ao meu redor que eu nunca tinha percebido antes. Provavelmente já faz muito tempo.

Ahh, que saco. Se ao menos eu pudesse viver sem me envolver em nenhum deles.

— Terminou de bater papo, Popular-san?

Outra pessoa problemática apareceu — Yanami estava atrás de mim, segurando a bolsa.

— Ah, Yanami-san. O que foi?

Primeiro a Yakishio e agora a Yanami. Algumas das maiores beldades do meu ano vindo falar comigo — o que está acontecendo? Ela não está aqui pra dizer que está sem dinheiro de novo, né?

Desconfiado, olhei para ela, mas Yanami sorriu de volta, completamente despreocupada.

— Você está indo para a sala do clube agora, né? Você prometeu. Me leva pra dar uma olhada.

Ela está falando sério? Anna Yanami visitando o Clube de Literatura… não consigo imaginar isso, mas quem sou eu pra impedir? Assenti em silêncio.

*

 

No caminho pelo corredor até a sala do clube, resolvi confirmar com a Yanami.

— Yanami-san, você tem certeza disso? Quer dizer, é um clube meio… discreto. Pode não ser sua praia.

Eu só tinha ido lá ontem, mas já conseguia sentir a… vibe única do clube. Levar uma das alunas mais extrovertidas da turma até lá pode não ser uma boa ideia.

— Está tudo bem. Eu fazia feltragem com agulha antigamente, sabe? Aquela de espetar lã pra fazer formas.

— Esse é… o Clube de Artesanato. Estamos indo para o Clube de Literatura.

É, vamos parar de nos preocupar com ela. Abri a porta da sala do clube.

— Ah, olá.

— Olá, Nukumizu-kun.

Tsukinoki-senpai levantou a mão em cumprimento sem tirar os olhos do livro, afastando o cabelo enquanto falava.

— Hã?

Komari levantou o rosto com relutância, congelando no lugar ao pousar o olhar em uma garota desconhecida.

— Ah… ela veio como visitante.

— Com licença. Sou Yanami, da mesma turma que o Nukumizu-kun.

— Ara, seja bem-vinda. Vou preparar um chá, então pode se sentar.

Ajustando os óculos com um empurrão rápido, Tsukinoki-senpai passou por mim e me deu um leve cutucão.

— Muito bem, Nukumizu-kun. Trouxe uma garota tão fofa assim?

— Hã? Ah… quer dizer…

— Não me diga… ela é sua namorada?

O que essa pessoa está dizendo?

— N-Não, quer dizer, não é nada disso—

— Ah, não, não somos assim. Só estamos na mesma turma.

A reação da Yanami foi completamente neutra. Sem corar, sem desagrado — como se estivessem perguntando sobre o clima de hoje. Ela olhou curiosamente ao redor da sala do clube.

— Este clube tem muitos livros. Que tipo de atividades vocês fazem?

— Hã? (x2)

…Por algum motivo, tanto a senpai quanto a Komari estão me encarando. Fixamente. E com expressões extremamente sérias. Antes que a tensão constrangedora me sufocasse, a porta da sala se abriu.

— Uau, hoje está animado por aqui.

Um garoto alto entrou na sala. Ele deve ser o Tamaki-senpai, o presidente do clube, né? Honestamente, o timing dele foi um alívio.

— Shintaro, que tipo de presidente de clube age como um membro fantasma?

Tsukinoki-senpai lançou-lhe um olhar sério de brincadeira, embora o leve sorriso nos lábios a denunciasse.

— Desculpa, desculpa. Tenho estado ocupado com a preparação para o vestibular.

O presidente deu um tapinha casual no ombro dela.

— Você? Estudando? Tá bom.

— Estou mesmo. Ah, Nukumizu! Quanto tempo. E… ela é um novo membro?

— Prazer em conhecê-lo. Sou Yanami. Só vim dar uma olhada.

O presidente abriu um sorriso amigável ao se aproximar, mas Komari de repente se levantou, como se reunisse coragem, e se colocou entre nós.

— A-Ah, P-Presidente! O livro q-que você me emprestou outro dia era m-muito interessante!

— Já terminou? Que ótimo. A Koto aqui sempre zomba de mim por gostar de ficção científica e nem dá uma chance.

Ele lançou um olhar rápido para a Tsukinoki-senpai, que o encarou de volta como se o desafiasse a continuar.

— Eu não zombo. É você quem não toca em nada do Haruki.

— Espera, você é uma harukista?

— Não exatamente, mas mesmo assim. E você nem leu aquele livro da Usami Rin que eu te emprestei outro dia, leu?

— Li, li. Personagem incrível. Muito bom.

…Hmm, o que está acontecendo aqui? Esses dois estão… juntos?

Enquanto eu observava a troca deles com leve exasperação, Komari se intrometeu corajosamente na conversa.

— H-Hum, e-eu gosto m-muito do Egan! Mesmo que… eu não entenda muito bem o que ele escreve!

— Sério? Então você tem um ótimo gosto, Komari-chan!

O presidente sorriu e bagunçou o cabelo da Komari com carinho.

— F-Fwah!

Tsukinoki-senpai afastou a mão dele com um tapa seco.

— Ei, isso é totalmente um momento #MeToo. Komari-chan, se você estiver desconfortável, eu posso repreendê-lo por você.

— N-Não, eu…!

Komari, assustada com o som da própria voz, rapidamente abaixou o olhar.

— N-Não é isso. Eu… hum… não desgosto… nem nada…

O rosto dela ficou vermelho enquanto murmurava.

— Você é tão fofa, Komari-chan. Koto, você devia aprender com ela.

— Ah, por favor. Komari-chan, não mime demais ele. Ele se empolga fácil.

O presidente olhou o relógio, e uma expressão apressada surgiu em seu rosto.

— Droga, tenho uma reunião dos presidentes de clube. Preciso ir. Mal posso esperar pra me gabar de termos tido uma visitante hoje.

— Vou com você. Senão você vai acabar dormindo no meio.

— Então você me acorda, Koto.

— Como se eu fosse me dar ao trabalho. Vou é te recomendar como o novo faz-tudo.

Os dois saíram da sala, ainda discutindo de forma brincalhona. Sinceramente, pra que o presidente veio mesmo?

— F-Fofa… o presidente disse que eu sou… fofa… hehe.

Komari murmurou para si mesma, sorrindo de orelha a orelha. Odeio estragar a felicidade dela, mas ela foi mais usada como escada do que qualquer outra coisa. Yanami tocou meu ombro e se inclinou, seu rosto desconfortavelmente perto. Ela até cheira bem.

— Então, o presidente e a vice-presidente, hein? Aqueles dois estão namorando?

— Quem sabe? Parece que sim.

Komari, que aparentemente tem uma audição excelente, enfiou o celular na nossa frente.

"Aqueles dois são apenas amigos de infância! Só isso! Eles não estão namorando!"

Os olhos da Yanami se estreitaram.

— Amigos de infância?

"Sim! Só amigos de infância!"

Komari, respirando com convicção, nem ficou para mais discussão. Colocou os fones de ouvido, que estavam vazando som para todo lado, e começou a ler como se nada tivesse acontecido. Que concentração incrível.

Yanami arrastou a cadeira para mais perto.

— Ei, por que ela usa o celular pra falar?

Eu também gostaria de saber.

— Ah, a propósito, Nukumizu-kun. Então o presidente e a vice-presidente são amigos de infância, né?

— Hã? Ah, sim, parece que sim.

— Por que existe tanta distância entre amigos de infância?

Yanami murmurou, como se estivesse espremendo as palavras.

— Ah… Yanami-san. O presidente e a vice não fizeram nada de errado aqui, tá?

— Espera. Isso quer dizer…

Yanami de repente levantou a cabeça, como se tivesse percebido algo, e fixou o olhar na Komari.

— Uma destruidora de lares?

Ela murmurou em voz baixa. Komari se encolheu, assustada.

— N-Não, não! O presidente e a vice nem estão namorando. Não tem lar nenhum pra destruir!

— Esse não é o ponto. Qualquer garota que aparece mesmo existindo uma amiga de infância já é automaticamente uma destruidora de lares. Você não entende?

Ah. É tipo quando um cara invade uma história yuri? Entendi agora. Morra.

— Entendo o que você quer dizer, mas talvez seja melhor não ter essa conversa aqui. A Komari-san ainda está aqui.

— Mas ela não consegue nos ouvir com a música tocando.

Sentindo nossos olhares, Komari se curvou como um animal assustado. Hmm. Tem algo estranho nisso.

— Espera, a Komari-san talvez não esteja ouvindo música nenhuma.

— O quê? Mas ela está de fones.

— Ela está usando, mas fingindo que não está ouvindo.

— Então e antes? O som estava vazando!

— Não está agora. Aquilo foi só uma distração.

O suor começou a escorrer pelo rosto da Komari enquanto ela lia. Por fim, ela tirou os fones e me lançou um olhar enquanto estendia algo.

— Nukumizu, a-aqui. A c-chave da s-sala.

— Oh? Obrigado.

— E-E-Eu vou indo p-primeiro!

Komari tropeçou enquanto saía apressada da sala.

…A sala do clube, que antes estava animada, ficou completamente silenciosa. Só restam uma visitante e alguém que praticamente também é uma visitante. Então, o que eu devo fazer agora? Eu nem sei muito sobre esse clube.

— Por enquanto, vou fazer um chá. Escreve seu nome no livro de visitas, tá?

— Obrigada. Ah, vou querer chá verde.

— Uau, tivemos bastante visitantes. Olha só, Nukumizu-kun, seu nome está aqui. E a garota de agora era a Komari-san, né?

Yanami, aparentemente já entediada, olhava distraidamente para a estante. Vai ser um problema se ela mexer nas prateleiras do Dazai ou do Mishima.

— Aqui está seu chá.

— Obrigada. Ei, Nukumizu-kun.

Tomando um gole do chá, Yanami olhou para mim com olhos claros e sinceros.

— Então, o que exatamente esse clube faz mesmo?

*

 

Depois de voltar para casa, me joguei no sofá da sala e murmurei, perdido em pensamentos.

— Eu estou agindo como um estudante normal do ensino médio pela primeira vez…

Olhei para o aplicativo LINE, que eu havia instalado apenas para colecionar figurinhas do meu personagem favorito, mas que nunca tinha usado até agora. A mensagem da Tsukinoki-senpai — "Bem-vindo ao clube!" — estava na janela de conversa.

De fato, eu entrei no grupo do Clube de Literatura no LINE. Isso pode ser o auge da minha vida no ensino médio. Depois disso, posso viver em silêncio, como uma humilde ostra. Ah, é verdade. Me pediram para emprestar um livro. Aproveitando o embalo, decidi enviar minha primeira mensagem.

"Posso emprestar a coleção completa do Abe Koubou para um conhecido do primeiro ano?"

Enquanto digitava, me peguei murmurando as palavras em voz alta. Então é assim que os velhos se sentem quando fazem isso. Agora… será que vão me responder? Já ouvi falar de pessoas sendo ignoradas, e pior, e se todos simplesmente me bloquearem?

Enquanto eu me preocupava com essas possibilidades, chegou uma resposta da Tsukinoki-senpai. Ah, graças a Deus. Não fui bloqueado.

Tsukino Mono: "Tudo bem. Mas não deixe que ele vá embora de mãos vazias. Recrute-o com força."

…Permissão concedida. Mas, sério, a senpai não pode fazer algo sobre esse nome de usuário estranho? Enquanto eu rolava preguiçosamente no sofá, minha irmã Kaju se sentou silenciosamente do outro lado da mesa.

— Você é uma pessoa maravilhosa, onii-sama.

Ela disse isso do nada.

— Ah… obrigado?

— Você sempre escuta as histórias da Kaju com um sorriso e nunca nega o que a Kaju diz.

— Eu te corrijo o tempo todo.

Como agora, por exemplo.

— Você até suporta pacientemente o egoísmo da Kaju sem nunca reclamar.

— Se você sabe que é egoísmo, talvez devesse tentar consertar.

Ignorando minha resposta, Kaju pigarreou exageradamente.

— E é por isso que, onii-sama, você precisa fazer uma marmita de personagem.

Ela foi muito além do reino da lógica com essa.

— Ah, pode explicar melhor?

— A Kaju está preocupada com você, onii-sama, sorrindo para o celular enquanto olha para seus personagens favoritos.

Ah, então é daí que vem a marmita de personagem.

— Desculpa, não estou entendendo nada.

— Use a marmita de personagem pra conquistar todo mundo e puxar assunto. Aí você pode criar laços por gostarem das mesmas coisas — mangá e anime!

— Por que isso está limitado a mangá e anime?

— Onii-sama, esse é o único assunto sobre o qual você consegue conversar.

Que grosseria, vinda da minha própria irmã. Mas ela não está totalmente errada…

— Mas pra quem eu mostraria isso, mesmo que eu tivesse?

— Onii-sama, mesmo que você não tenha amigos, você não está almoçando totalmente sozinho, está?

— Ah… eu como sozinho o tempo todo, na verdade.

— Hã? Como isso é possível?

Os olhos da Kaju se arregalaram de choque, e ela cobriu a boca como se tivesse acabado de ouvir a notícia mais trágica do mundo.

— Mas… tudo o que você precisa fazer é chamar alguém pra almoçar com você!

Eu não seria um solitário em primeiro lugar se eu conseguisse fazer isso.

— Onii-sama, a Kaju deve ir pra sua escola? A Kaju vai pedir pra todo mundo almoçar com você!

— Não, não… pensa em como isso faria seu irmão mais velho parecer.

— Então tem que ser a marmita de personagem. A Kaju já fez uma versão de teste — dá uma olhada.

Ela já fez? Kaju tirou uma marmita de não sei onde.

— Onii-sama, pensando na sua apresentação, a Kaju decidiu fazer um retrato seu na primeira tentativa.

Espera, espera, espera… isso é assustador. O desenho é hiper-realista — mais parece um retrato dramático de alga do que uma marmita fofa.

— A Kaju até escreveu seu perfil com gergelim preto! Assim seus colegas vão ver seu charme, onii-sama.

Colegas não querem saber minha altura, meu peso ou — Deus me livre — meu primeiro amor.

— E por que meu primeiro amor está listado como você?

— Bem, onii-sama, desde que a Kaju tem memória, você sempre disse que a Kaju é fofa!

Bom, é porque você é minha irmãzinha.

— Enfim, eu nem preciso de marmita. Alguém já concordou em fazer meu almoço por um tempo.

— Uma marmita? …Espera, o quê? Como assim?

Kaju congelou, como se o cérebro dela se recusasse a processar a informação.

— Ei, Kaju? Você tá bem?

— Onii-sama! Você tem uma namorada fazendo almoço pra você mesmo não tendo amigos? E sem consultar a Kaju antes!?

— Não, não, não! Eu não tenho namorada! Sem amigos, sem namorada, nada disso!

— Ah, claro. Afinal, alguém sem amigos não pode ter namorada.

Por que minha própria irmãzinha sente a necessidade de me lembrar o tempo todo que eu não tenho amigos?

— A Kaju ouviu dizer que, às vezes, o seu tipo tem uma coisa chamada "namorada imaginária". Mas uma marmita imaginária não tem calorias, então você ainda precisaria de lanches para sobreviver.

— Quem você acha que eu sou? Relaxa — é comida de verdade.

Afinal, é só coisa de loja de conveniência.

— Mas normalmente pessoas que não são amigas nem estão namorando não fazem almoço uma pra outra, fazem?

— Ela está sendo paga por isso, tá?

— Ah, então é um serviço profissional.

Kaju assentiu como se tivesse entendido tudo, batendo palmas.

— Tipo um serviço extra de marmita, né? A Kaju já ouviu falar disso por umas amigas.

— Por favor, arrume amigas melhores.

Enquanto meu olhar vagava, acabei encarando sem querer o retrato de algas de mim mesmo. Nós dois estamos passando por muita coisa, né?

Saldo Atual do Empréstimo: 3.267 ienes

*

 

No dia seguinte, quarta-feira. Como prometido, Yanami apareceu na escada de emergência durante o almoço. Parece que ela está falando muito sério sobre pagar a dívida com entregas de marmita.

Sentada num lenço que estendeu nos degraus, a garota — nem namorada, nem amiga — soltou um suspiro pesado ao meu lado.

— Eles me chamaram de novo hoje. Querem estudar na casa da Karen-chan juntos depois da aula.

— É só dizer não.

Minha sugestão perfeitamente razoável recebeu um olhar de protesto da Yanami.

— Mas se eu não for, eles vão ficar sozinhos.

— Eles já estão namorando. Talvez seja hora de deixar pra lá?

Eu só devia pegar a marmita, mas de alguma forma isso descambou pra mais uma coisa bizarra.

— Claro que a Karen-chan quer me esmagar completamente. Ela deve ter percebido como eu tenho olhado pro Sosuke, sabe… daquele jeito.

Yanami, guarda esses pensamentos pra você, tá?

— Talvez pare de pensar em tudo do pior jeito possível. E se eles só ainda estiverem meio sem jeito de ficar sozinhos e quiserem você lá pra ajudar a quebrar o clima?

— Então, basicamente, eu sou só a isca para atrair o Sosuke pra casa dela.

Espera… eu acabei de dizer algo muito ruim?

— Não, eu acho que você está lendo demais as coisas…

— Ela está baixando as barreiras psicológicas para levar ele pra casa. E eventualmente—

Yanami virou de repente pra me encarar, mudando o tom abruptamente.

— Ah não, a Anna-chan de repente não pode hoje.

— Hã?

Lá vem ela falando coisas estranhas de novo.

— É uma simulação. Eu estou imaginando o que aconteceria se a Karen-chan e o Sosuke ficassem sozinhos.

— Aham.

Dá pra fazer essa simulação sem me envolver?

— Tá, vamos de novo desde o começo. Ah não, a Anna-chan de repente não pode hoje. Nukumizu-kun, você faz o Sosuke. Vai, rápido!

— Ah… tá. É mesmo? Então vai ser só nós dois.

Que teatrinho é esse?

— E se eu disser que eu não convidei ela de propósito?

Yanami continuou, abaixando um pouco o olhar e se inclinando na minha direção. O que um protagonista de comédia romântica diria numa hora dessas? Pensa.

— Se você sabia disso e mesmo assim veio… o que você vai fazer?

— Sosuke…

— Karen…

Um instante de silêncio enquanto nos encaramos. Yanami de repente recuou e bateu com força no próprio joelho.

— Viu!? É isso! Aquela mulher está totalmente atrás do corpo do Sosuke!

Isso é 100% coisa da sua cabeça.

— Mais importante: cadê minha marmita?

— Sabe, Nukumizu-kun, talvez seja por isso que você não tem amigos.

Cuida da sua vida. Yanami tirou uma única marmita de alumínio. Espera, só uma?

— Aqui, segura a tampa pra mim.

Me entregando a tampa, Yanami fincou os hashis no arroz.

— O que você está fazendo?

— Eu te falei ontem, não falei? Eu só posso usar uma marmita.

Com o braço tremendo, ela ergueu um bloco de arroz e deixou cair na tampa com um plof. É pesado. Olhando de perto, os grãos estão tão compactados que parecem mais mochi.

— Então eu enfiei duas porções numa marmita só, o mais apertado possível. Tá. Agora os acompanhamentos.

Mais dois blocos caíram: um refogado e um ensopado. Os dois moldados no formato da marmita, sólidos como tijolos e completamente sem apetite.

— Bom, vamos comer.

— É. Vamos.

Agora… como eu vou atacar essa obra-prima em forma de bloco de arroz da Yanami? Desesperado com a inutilidade dos hashis, tentei quebrar com o caldo que vazava do ensopado.

— E aí? Tá bom?

Ela está falando sério? Essa é a hora de perguntar sobre o sabor?

— Você fez os acompanhamentos também?

— Claro! Eu me esforcei muito. Quanto você acha que vale?

Ah, entendi. Ainda bem que a Yanami não cresceu comendo isso.

Olha só — um croquete congelado escondido bem no meio do bloco do refogado.

— Ah… vamos dizer 400 ienes.

— Boa! Nada mal.

Yanami mordeu feliz o próprio bloco de arroz. Só pra constar: esse preço foi bem generoso, dadas as circunstâncias. E essa marmita é enorme.

— Desse jeito, talvez eu quite a dívida antes das férias de verão.

Certo, quando ela terminar de pagar, esses almoços acabam. Mesmo assim… se for só temporário, não é tão ruim. Claro, vou recuperar até o último iene.

— Ei, quer subir? Dá pra ver o campo do patamar do quarto andar.

Quando terminamos de comer, Yanami se levantou, guardando a marmita agora vazia. Eu não tinha um motivo real pra recusar. Sob o céu limpo de julho, o campo esportivo se estendia diante de nós, com o time de atletismo treinando pesado.

— Ei, aquela ali não é a Lemon-chan?

Apoiando-se no corrimão, Yanami estendeu a mão. Mesmo de longe, a silhueta bronzeada pelo sol é inconfundível: Lemon Yakishio. Ao sinal de largada, ela disparou, deixando as outras para trás num piscar de olhos.

— A Lemon-chan é muito rápida, né?

Cinquenta minutos de intervalo — tempo suficiente para comer, trocar, treinar e trocar de novo. Não tem como eu conseguiria fazer isso. Não é inveja nem nada. É mais aquela sensação estranha de ver algo brilhante e inalcançável.

— Ela ganhou os 100 metros no torneio de estreantes da cidade, né? E acho que ela também ficou bem colocada nas seletivas da província pro interescolar.

— Uau, você sabe bastante.

Deixa comigo: eu absorvo qualquer informação colada em mural.

— A Lemon-chan é incrível.

Foi só um comentário casual. Eu ia responder do mesmo jeito, mas as palavras travaram na minha garganta. Os olhos da Yanami estão cheios de lágrimas. As gotas transbordaram, brilhando sob o sol antes de serem levadas pelo vento.

O perfil dela ainda carrega um traço de inocência infantil. Até pouco tempo, nós nem tínhamos trocado uma palavra, e agora ela está aqui ao meu lado, chorando. Essa cena parece irreal, como se escorregasse por entre meus dedos.

— Ah… Yanami-san? Você está bem?

— Eu levei um fora de verdade, né?

Quem diria.

— Você está pensando "Quem diria", não está?

— Hã? Como você sabia?

Ler a mente dos outros sem permissão é um péssimo hábito.

— É como se… agora estivesse caindo a ficha.

— Caindo a ficha…?

— Vendo a Lemon-chan correr, eu pensei "uau, ela é incrível". E aí me bateu: eu levei um fora, né?

As lágrimas nos cílios dela cintilavam, pegando a luz.

— Quer dizer, eu sabia na cabeça. Mas, tipo… meu corpo ainda não tinha acompanhado.

No campo, Yakishio começou a segunda corrida, dessa vez com os meninos. Sob nossos olhos, ela foi ultrapassada no final por um garoto alto.

— Nukumizu-kun, talvez você entenda quando levar um fora bem feio.

— É assim que funciona?

— Levar um fora não muda nada. Nem faz você se sentir melhor.

Yanami abriu os braços, como se tentasse afastar o peso das próprias palavras.

— Mas, sabe… o mundo continua andando mesmo assim, então você não tem muita escolha além de seguir junto.

Como um evento forçado em videogame, eu suponho.

— Eu nunca levei um fora, então não sei.

— Ohh, isso é coisa que um cara popular diria.

Minha tentativa desesperada de autoironia recebeu um sorriso suave e relaxado da Yanami. Se eu fosse o protagonista de um light novel, esse seria o momento de dizer algo esperto e conquistar o coração dela. Mas, pra mim, isso já é o máximo que dá.

O tempo segue em frente, até para uma heroína derrotada. Enquanto casais criam memórias juntos, a vida cotidiana dela continua. Sem trocar uma palavra, nós dois apenas observamos os alunos correndo, deixando o vento levar nosso silêncio.

Saldo Atual do Empréstimo: 2.867 ienes

 


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