Volume 8
RAPSÓDIA DO CALOR CARMESIM - SÉTIMO ANDAR DE AINCRAD, JANEIRO DE 2023 (PARTE 14)
14
ELA SABIA, POR UM LIVRO DO MUNDO REAL, QUE A PALAVRA SPA, USADA NO JAPÃO PARA SE REFERIR A um complexo de banho e beleza completo, vinha do nome de uma área de águas termais na Bélgica.
Por isso, quando «Nirrnir», a supervisora do Grande Cassino de Volupta, sugeriu que fossem ao spa, Asuna ficou momentaneamente surpresa. Mas logo ajustou sua percepção — aquelas pessoas eram habitantes de um mundo desconhecido e, ainda assim, falavam japonês. Era simplesmente parte das conveniências do jogo. Tudo aquilo era um VRMMORPG rodando em realidade virtual, e as pessoas ali eram meros NPCs operados pelo próprio programa — ou pelo menos era o que ela supunha.
— Vou esfregar suas costas para você, Asuna — disse «Kizmel», a elfa negra que lavava os cabelos bem ao lado esquerdo de Asuna.
A garota se assustou, mas logo sorriu ao recobrar os sentidos.
— Sério? Bem, se não for incômodo.
— Nenhum incômodo.
«Kizmel» pegou uma esponja fina, aparentemente feita de algum tipo de planta, despejou um líquido de uma garrafa sobre ela e fez espuma. Em seguida, arrastou seu banquinho de madeira para se sentar atrás de Asuna. A garota curvou as costas, esperando o toque da esponja, mas, em vez disso, sentiu um dedo deslizar por sua coluna, fazendo-a pular.
— Hya! Ei…! Qual é a necessidade disso?!
— Ha-ha-ha, desculpe. Eu só estava me lembrando de quantas vezes «Tilnel» pregou peças assim em mim quando tomávamos banho juntas. Me deu vontade de me divertir um pouco também.
— Bem, não faz muito sentido descontar em mim… mas eu te perdoo.
— Ha-ha. Desculpe de novo — repetiu «Kizmel», desta vez começando a esfregar a esponja nas costas de Asuna. A pressão era na medida certa, nem forte demais, nem fraca demais. Ela não se lembrava de ninguém ter feito isso por ela desde os primeiros anos do ensino fundamental, quando sua família ainda tomava banho junta.
Asuna duvidava que «Kizmel» tivesse sido programada com instruções para lavar as costas de um jogador caso se banhassem juntas, e a ideia de "se vingar de um jogador pelas pegadinhas que sua irmã mais nova fazia" era algo que poucas pessoas pensariam na vida real — e certamente não fariam com outra pessoa. «Kizmel» não era apenas um programa; ela era algo muito diferente da inteligência artificial como Asuna a entendia no mundo real.
Naquele momento, Asuna via «Kizmel», assim como muitos outros NPCs que conheceu, como pessoas reais que viviam em um mundo real chamado Aincrad. E tinha certeza de que seu parceiro temporário, Kirito, compartilhava dessa visão.
Enquanto «Kizmel» continuava seu trabalho, a principal representante dos "outros NPCs", «Nirrnir», observava a cena com inveja à direita delas.
— Isso parece muito agradável. Você pode fazer o mesmo por mim, «Kizmel»?
— Com prazer. Só um momento.
«Kizmel» terminou de esfregar as costas de Asuna e usou a bacia cheia de água quente para enxaguar cuidadosamente a espuma.
— Obrigada, «Kizmel».
— De nada — respondeu ela, sorrindo para Asuna antes de se mover para a direita.
«Nirrnir» estava sentada em outro banquinho de madeira. Seu luxuoso cabelo dourado estava repartido em duas mechas, caindo sobre os ombros. Suas costas expostas pareciam pertencer a uma boneca. «Kizmel» começou a esfregá-las com a esponja, de forma muito delicada.
Asuna sorriu para si mesma ao ver a garota fechando os olhos em êxtase. Então, olhou ao redor do espaço de banho.
O banho do hotel de luxo no terceiro andar do Grande Cassino de Volupta era certamente requintado o suficiente para ser chamado de spa. Depois de passar pela porta no corredor, entravam em um salão com cadeiras reclináveis, seguido de um vestiário impecável e, por fim, do banho propriamente dito. Lembrava um resort de verdade, um grande banho termal, uma casa de banho pública local ou um spa de bairro — e, ao mesmo tempo, era diferente de todos eles.
Para começar, não havia janelas. Era uma hora da tarde e, se houvesse uma grande janela voltada para o sul, a luz do sol entraria aos montes, mas a única iluminação vinha das lanternas presas às paredes. O interior, feito de pedra natural escura, tornava o ambiente um tanto sombrio — embora não tanto quanto o quarto de «Nirrnir». Por outro lado, havia uma grande variedade de plantas espalhadas pelo lugar, o que dava a sensação de um jardim de inverno, sem parecer apertado ou abafado.
Metade do espaço de banho, que tinha cerca de nove metros de largura, era dedicada à área de lavagem, construída exatamente no estilo japonês. Tubulações forneciam água fresca constantemente, enquanto banquinhos de madeira ficavam dispostos em frente a prateleiras com esponjas, xampu e sabonete líquido. Na verdade, podia-se dizer que toda essa instalação seguia o estilo japonês; não havia muitos banhos coletivos como aquele nos Estados Unidos ou na Europa.
De certo modo, considerando que Aincrad era baseado em uma fantasia clássica inspirada na Europa medieval, aquele lugar talvez não se encaixasse no cenário. Mas, para Asuna, qualquer filosofia de design que eliminasse um banho espaçoso e luxuoso valia menos do que as lesmas sugadoras de sangue da Floresta de Rochas soltas.
Entre a banheira coberto no acampamento dos elfos negros no terceiro andar, o Castelo Yofel no quarto andar, a banheira da vila de «Shiyaya» no quinto andar e a banheira subterrâneo do Castelo Galey no sexto andar, Asuna havia recuperado uma quantidade imensurável de energia e disposição. Até mesmo a banheira no quarto acima da fazenda que Kirito estava alugando no primeiro andar... Se naquele dia ela não tivesse conseguido se banhar como queria, talvez tivesse perdido completamente a vontade de lutar contra aquele jogo mortal.
Ela se lembrou de que foi no banho que conheceu Argo, a negociadora de informações. Quando a garota entrou no banho sem aviso, Asuna gritou com todas as forças, mas agora Argo era uma amiga em quem podia confiar sem reservas.
Falando em Argo, ela havia lavado rapidamente o cabelo e o corpo e agora monopolizava a espaçosa banheira. Quando Asuna a viu completamente relaxada, com os braços e pernas estendidos, não conseguiu esperar mais.
— Vou entrar na banheira — disse Asuna para «Kizmel».
— Sim, eu me juntarei a você em breve.
Asuna se levantou e atravessou o chão de pedra até a banheira. Primeiro, usou o balde para se enxaguar e, então, deslizou para dentro da água cristalina.
— Auuuuh...
Ela não conseguiu evitar que o som escapasse de sua garganta. A sensação de relaxamento se espalhou até a ponta dos dedos das mãos e dos pés. Ela se afundou até a boca e fechou os olhos.
Kirito havia mencionado certa vez que o sistema de realidade virtual de SAO tinha dificuldades em reproduzir a sensação de líquido. Quando ela tomou banho no primeiro andar, de fato, algo parecia estranho na maneira como a água pressionava sua pele nua, na sensação de pressão geral, no reflexo da luz na superfície e na forma como as gotas individuais se comportavam. No entanto, quanto mais vezes ela tomava banho, menos notava essas coisas. Ou estava se acostumando ao banho em VR, ou o sistema estava evoluindo.
Se Kirito estivesse aqui, poderia perguntar a opinião dele... Então, ela teve que se repreender mentalmente.
Não, ele não deveria estar aqui!
Como se lesse sua mente, Argo murmurou preguiçosamente.
— Nossa, se ao menos o Kii-boy pudesse estar aqui também...
Asuna quase engoliu um pouco de água. Teve que erguer a boca acima do banho.
— P-Por que você diria algo assim...? Não há um banho masculino aqui.
— É só colocar uma venda nele que fica tudo certo.
— Isso seria meio cruel.
Asuna riu, mas então percebeu algo.
— Espera... Argo, havia alguma placa dizendo que esse era um banho só para mulheres...?
— Nope.
……
Ela lançou um olhar para a entrada. Isso significava que aquele era um banho misto e que um NPC masculino — ou pior, um jogador — poderia entrar a qualquer momento.
— Você está segura — disse uma voz atrás dela, mais uma vez lendo seus pensamentos.
Ela se virou e viu «Nirrnir», já lavada, parada com as mãos na cintura.
— Os hóspedes do hotel só podem usar o banho entre três e nove da noite. No momento, ele é todo nosso. O que significa que podemos até fazer isso.
Ela se agachou brevemente, então saltou alto no ar, fez um giro carpado e caiu sentada na água. Apesar do seu tamanho pequeno, a força do movimento fez a água espirrar por todos os lados. Caiu como chuva sobre as cabeças de Asuna e Argo.
Elas ficaram paradas, imóveis, com a água escorrendo por suas franjas.
Enquanto isso, «Kizmel» entrou silenciosamente na água e disse.
— Se a senhorita «Kio» estivesse aqui, ela teria lhe repreendido.
— Com certeza teria — admitiu «Nirrnir», emergindo na superfície. — Quase todos os banhos que tomo são acompanhados por «Kio», então, nas raras ocasiões em que isso não acontece, posso fazer coisas que normalmente não são permitidas. Por que não tenta pular também?
— Hã, eu passo — respondeu Asuna, esforçando-se para sorrir. Por dentro, pensava.
Não tem como essa garota ser apenas um programa.
Ela passou as mãos no cabelo molhado para trás e voltou a relaxar. O banho estava um pouco quente, mas a vantagem era que não havia risco de tontura ou desidratação no mundo virtual. Melhor ainda, seu cabelo, que ia até a cintura, não precisava ser preso antes de tocar na água. Não havia fios soltos flutuando nem grudando em sua pele.
Se eu me acostumar demais com as conveniências deste mundo, vou ter dificuldades quando voltar para a realidade.
Ela riu sozinha — até que seu sorriso se tornou amargo. Agia como se tivessem avançado muito desde o primeiro andar, mas ainda estavam apenas no sétimo. Havia noventa e três andares de Aincrad acima de suas cabeças. Mesmo que levassem uma semana para concluir cada um, ainda demorariam quase dois anos. E isso considerando uma visão otimista, pois a dificuldade só aumentaria conforme subissem.
Estranhamente, no entanto, pensar sobre o futuro não a enchia mais com o mesmo desespero de antes. Ela precisava afastar a ideia de que talvez estivesse se acostumando com esse cenário insano: um mundo virtual de jogo que a mataria se seu HP chegasse a zero, nem que fosse apenas uma vez. Talvez estivesse se acostumando um pouco, mas isso não era tudo.
Muito provavelmente, havia algo crescendo dentro dela, neutralizando esse desespero. A beleza da paisagem, o sabor da comida, o prazer do banho, a satisfação de resolver enigmas, a socialização com Argo e «Kizmel»... e seu parceiro temporário de cabelos negros, sempre presente. Era um pouco irritante admitir, mas a cada vez que ele a deixava com raiva, a incomodava, a surpreendia ou a encantava, um pouco do acúmulo de medo e pânico em seu íntimo se dissipava.
Se continuasse se aventurando com ele, será que toda aquela escuridão dentro dela acabaria desaparecendo? Será que um dia sentiria que havia um significado, um benefício em ter ficado presa nesse lugar?
Ainda não podia ter certeza. Talvez algum infortúnio colossal e invisível a esmagasse, deixando-a incapaz de se reerguer. Mas, mesmo assim...
À sua direita, «Kizmel» estava de olhos fechados. À sua esquerda, Argo a observava com um sorriso no rosto. À sua frente, «Nirrnir» flutuava na água, com os braços e pernas estendidos. Asuna decidiu que, se tivesse a chance mais tarde naquela noite, convidaria «Kizmel» para tomar banho com ela de novo.
Com trajes de banho, é claro.
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