Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 7: O Útero

Devic se moveu devagar, como se lidando com um animal selvagem.

Indo contra o curso normal de ação, ele guardou a espada na cintura e forçou os músculos a relaxarem com um exercício de respiração.

— Como eu disse, meu nome é Emilia. É falta de educação não se apresentar em seguida.

Ele deixou escapar uma curta risada ansiosa.

— Perdão. Eu sou Devic, um Soldado de Elite.

— Imaginei pelo uniforme, mas o que faz tão longe de sua terra natal, e ainda sozinho?

— Assuntos pessoais, mas eu adoraria sua ajuda, se possível. Sendo a guardiã deste lugar, deve saber de bastante coisa.

— Eu entendo. Permita-me então ser sua guia neste magnífico castelo.

Ela deu um sorriso animado e juntou as mãos rente ao peito.

Outra vez, Devic respirou fundo, sem nunca desviar a atenção da mulher. Um pouco de suor frio começava a aparecer em seu rosto.

— Muito bem, vamos começar o passeio!

— O quê?

Antes que pudesse questionar, ela o arrastou pelo braço corredor adentro.

O salão de festas era repleto de armaduras e estátuas posicionadas como convidados.

Na cozinha, ratos construíram uma sociedade funcional e agora dirigiam experimentos sobre reencarnação em outro mundo através da morte por ratoeira.

Os banheiros… não falamos sobre os banheiros.

Passavam por um cômodo atrás do outro, e a velocidade da caminhada parecia aumentar gradualmente, ao ponto que cada cômodo pareceu passar num breve flash, como uma sequência de imagens sendo passadas uma atrás da outra numa tela posta diretamente em seus olhos.

De repente, estavam de volta ao salão do trono.

— Me desculpe pela correria — disse Emilia, arfando de empolgação.

Os olhos de Devic giravam, controlados pelo Terceiro Olho antes que vomitasse.

— Então, o que achou do castelo? Admito que ele já esteve em dias melhores, mas eu me orgulho muito do estado em que consegui mantê-lo. Enfim, infelizmente não tenho mais lugares para mostrar, então creio que o senhor queira se retirar.

Emilia tentou agarrar o soldado novamente, suas mãos evitadas com um tapa.

— Já pode parar com isso. — Deu dois passos para trás.

— Perdão?

Ele suspirou, impressionado com a insistência da criatura.

— Eu encontrei o Vampiro Descendente que você adotou como bicho de estimação, e ele me contou o que precisava saber. Eu quero falar com o você de verdade.

— … Hmph, tá começando a ficar arrogante. — A figura de Ludwig tomou o lugar da empregada. — Entrou na fase rebelde, por acaso? É um pouco feio pra alguém casado e que tem… ops, digo, tinha uma filha.

— Seus truques sujos pra me irritar não vão mais funcionar tão fácil. — Cerrou o punho, vitorioso. — Eu ganhei iluminação e me tornei uma nova pessoa desde que nos vimos da última vez no Corredor Sagrado.

— Isso aconteceu tem só umas cinco horas.

— Talvez, mas eu realmente mudei. Eu sei que você é apenas uma ilusão, então não faz sentido tentar lutar.

O vampiro riu curtamente, ainda forçando uma leve encenação.

— Sei… Qual seu objetivo aqui, então? Eu aguardei ansioso pensando que iria sair destruindo tudo com sua espada, mas pelo visto o que você quer é outra coisa.

Devic analisou o semblante manso do vampiro, tentando encontrar qualquer dica de calote, uma microexpressão que fosse, levado à falha.

— Pelo que explorei até agora, você não deixou nenhum rastro físico para seguir, então destruir o castelo seria inútil. Outra coisa que confirma isso é que você não parece ligar para o fato de que as próprias pessoas irão demolir ele em breve.

— Que garotinho esperto.

— Eu serei direto… Por que você veio pra este lugar, e o que você fez aqui?

Ludwig murmurou para si mesmo, analisando as informações que estariam em jogo. Se possível, ele gostaria de diminuir o máximo possível de pistas, estendendo um pouco mais a duração de seu jogo, mas motivos externos o impediram de fazê-lo.

— Certo, em recompensa por sua coragem, eu irei lhe dizer… E também por que eu não tenho nada melhor pra fazer.

Num estalar de dedos, as paredes do castelo se contorceram como um cubo mágico, organizando-se num corredor inédito.

À frente, a única porta do local. Ao contrário das outras, a madeira estava parcialmente podre, podendo-se ouvir baratas e cupins disputando pela supremacia no interior das tábuas.

— Aqui é onde tudo começou.

O vampiro pôs a mão no buraco que servia de maçaneta e puxou, ecoando um longo e incômodo rangido.

Devic aguardou até que a escuridão inicial se dissipasse, porém a própria luz que tentava avançar era absorvida no breu.

— Que… coisa é essa?

Separado do resto castelo por um simples limite de porta, um abismo infinito aguardava os desavisados. Um espaço que levava ao nada, como se a realidade ali tivesse sido apagada.

— Apenas aqueles que viviam dentro do castelo sabiam da existência desse lugar, e desde que ele surgiu, foi chamado de "Útero". Consegue imaginar o motivo?

Pensou um pouco. Se dependesse de si ou qualquer outro membro do exército, tinha certeza de que um lugar assim se chamaria "abismo" ou qualquer outra coisa relacionada.

Após alguns segundos, negou com a cabeça.

— Pois bem, antes de qualquer coisa, permita-me lhe apresentar.

Ludwig se curvou num cumprimento elegante, indicando o vazio além da porta como um líder de festa apresenta o convidado de honra.

— Sr. Devic, gostaria de lhe apresentar vossa majestade… a Rainha de Von Legurn.

— …! O quê?!

Ele encarou o vazio, intrigado, tentando ao máximo enxergar qualquer detalhe que remetesse a uma pessoa, porém teve de desviar a atenção quando sentiu uma estranha hipnose começar.

Ludwig deu um curto riso antes de continuar.

— Pouquíssimo se sabe sobre a Rainha, pois ela praticamente nunca saía dos limites do castelo. Porém, essa reclusão atingiu níveis extremos quando ela engravidou…

                                                                                                                   

Há quase três décadas atrás, durante uma visita a outro Vampiro Original, Ludwig decidiu ir ao castelo de Von Legurn por pura curiosidade.

A Rainha, dita como reclusa, havia engravidado, e desde então se recusava a sair de um dos cômodos do castelo. O lugar em questão era a sala de tortura.

Apesar do susto que todos tiveram, ela nunca tentou nada de estranho consigo mesma, sempre repousando na única mesa do quarto, esta esculpida em rocha nua. Ainda assim, o fato de uma mulher grávida escolher um lugar tão insalubre para dar à luz era, no mínimo, curioso.

Serviçais a visitavam constantemente, realizando todo o cuidado necessário. Na porta da sala, sempre havia no mínimo dez guardas fortemente armados.

Devido à falta de Amaldiçoados que o reino sofria na época, toda força era pouca contra o possível ataque de um vampiro.

Eles sem dúvida entrariam em choque se soubessem que o maior inimigo já estava lá dentro desde o começo.

Ludwig usava uma ilusão simples para se tornar invisível no ambiente, sempre recostado numa parede a menos de cinco metros da Rainha. Dali, ele assistia.

Ela estava grávida de apenas três meses, porém com uma barriga de nove.

— Seja forte, meu filho. Esse mundo irá negá-lo de todas as formas, por isso… seja forte.

Estas mesmas palavras eram repetidas sempre que ela acordava e antes de dormir, sem falta.

Porém, em um certo dia do terceiro mês de gravidez, algo inédito em toda La Serva aconteceu.

— Você será… o salvador! Você será… o líder! Você será… o exemplo! Você será… a luz!!

A Rainha ficou louca, foi o que os guardas relataram ao Rei.

No exato instante em que ela acordou naquela manhã, começou a proclamar as mesmas coisas repetidamente, como um feiticeiro reunindo energia através de um mantra sagrado, prestes a liberar sua mais poderosa magia.

As serviçais acompanhavam a Rainha de perto, de mãos dadas com ela desde que começou a falar. Na entrada, guardas se atentavam para qualquer intruso ou presença suspeita no castelo.

Ludwig, no entanto, observava com outros olhos.

"Tem algo errado."

Desde o primeiro dia que chegou ao castelo, um incômodo crescia devagar em seu peito.

Uma coceira atacava diretamente seus músculos, mandando-o destruir a vida que se fortalecia diante de seus olhos antes que esta pudesse de fato começar. Ao mesmo tempo, uma contra ordem mandava que ficasse parado.

Matar a Rainha e a vida que ela carregava, isso era o mesmo que desafiar o que estava escrito nas próprias estrelas.

Ludwig, por mais insano e orgulhoso vampiro que fosse, não era tolo de testar a própria sorte.

Naquele dia, as consequências desta decisão, fosse boa ou ruim, finalmente chegaram.

— Você… será… REI!!

O corpo da Rainha se contorceu em posições impossíveis para um humano, e de seus sete orifícios escorreu uma gosma negra. Densa como água e fria como gelo.

As empregadas que seguravam suas mãos foram pegas de surpresa, incapazes de fugir da escuridão uma vez que a tocavam.

"O que é…??!"

Vendo a massa opressora que avançava pelo cômodo, Ludwig compreendeu melhor a sensação que lhe atacava nos últimos meses. Passou despercebido devido ao tempo que não a sentia.

Medo.

Ele saiu da sala de tortura junto dos guardas e as poucas empregadas que sobraram, quase sendo uma das vítimas da Rainha.

Todos aguardaram ansiosos em frente sala, se perguntando até onde a coisa iria se estender. Por sorte, ela interrompeu seu avanço quando nos limites da porta.

Ludwig ficou invisível o tempo inteiro.

"A Rainha era uma Amaldiçoada? É a única explicação para algo assim acontecer, mas então…"

Um intenso arrepio percorreu todo o seu corpo.

"Ela sabia! Ela sabia que eu estava lá desde o início!"

Começou a lembrar de cada momento que passou dentro da sala escura, e além da resistência e perseverança da Rainha, o mais impressionante era a tranquilidade que nunca deixou seu rosto em momento algum.

Para saber da presença de um Vampiro Original a dois braços de distância e ainda assim ficar calma…

"Quem exatamente era essa mulher?"

Infelizmente, ele nunca teria essa resposta, mas quem sabe algo ainda melhor.

A parede escura, calma como a superfície de um lago subterrâneo, ondulou intensamente. De sua base, um pequeno braço estendeu-se da escuridão que se pensava ser inescapável.

E então, ele nasceu.

                                                                                                                   

Devic engoliu em seco, e Ludwig finalizou.

— Naquele dia, o que saiu do Útero, a primeira e última criatura a realizar tal proeza.

... Este era o príncipe herdeiro, Vast Los Filho.

Permaneceu calado, suor frio escorreu pelo rosto ao imaginar a cena. Um bebê recém-nascido a engatinhar para fora do abismo inescapável. Isto era loucura absoluta.

O vampiro continuou.

— Depois de presenciar aquela cena, eu… He, dá um pouco de vergonha admitir, mas… eu fiquei excitado.

O silêncio de Devic foi traduzido num breve olhar de nojo.

Hm? Ah, não é nesse sentido que você deve estar pensando. Aquele bebê saiu de um vazio que todos pensaram ser inescapável, é claro que chamaria a atenção. Ele não tinha nenhum vestígio do cordão umbilical, sangue nem mesmo fluído amniótico. Ele era puro, sim, é a melhor palavra para defini-lo.

Outro estalar de dedos. A mudança rápida de ambiente deixou Devic zonzo por alguns segundos. Do corredor, foram agora para um quarto no alto de uma torre, onde jazia um berço vazio.

— Depois de presenciar o nascimento de algo como ele, eu não pude mais me segurar. Poucos dias depois eu invadi o castelo e eliminei todos. Serviçais, guardas e o próprio Rei. Em seguida, eu fui até o quarto do príncipe, e sabe o que ele fez? Aquele bebê me encarou com os olhos de um caçador quando avista outro predador. Não era medo, apesar de que havia um pouco, mas ele estava determinado a proteger seu território de caça.

… Eu fiquei ainda mais curioso. Que tipo de guerreiro uma criança que nasceu da encarnação do próprio vazio poderia se tornar? Bem, eu corri o risco. Como esperado, ele sobreviveu e se tornou um Amaldiçoado, o qual a querida Emilia criou com todo o cuidado e carinho que ele poderia desejar.

Devic engoliu em seco.

"O príncipe de Von Legurn, um Amaldiçoado criado diretamente por um Original…!"

Lamentou nunca ter conhecido o rapaz pessoalmente. A quantidade de informações que ele deveria ter sobre Ludwig eram imprescindíveis, mas era inútil chorar sobre o leite derramado.

— Mas e então? O que exatamente ele tem de especial tendo nascido dessa forma estranha?

— Eu sei lá, porra.

Treck! O som de expectativas quebradas ecoaram pela sala.

… Eu observei o pequeno príncipe todos os dias, mas nunca cheguei a notar nada de tão especial. Ele até tinha uma resistência física acima da média, só que ainda era algo a níveis humanos. Talvez eu tenha esperado demais. Ele foi apenas uma falha, outra das várias que eu já encontrei… Até que eu achei você.

Ludwig fingiu alisar o rosto do soldado, fazendo-o se afastar um pouco mais.

… Você não me respondeu no teatro. Diferente do príncipe, você realmente é especial. Tudo em você atingiu o pináculo da humanidade, tanto que vampiros sequer são uma ameaça real a você.

Ele deu passos longos, os olhos arregalados fixos em Devic.

… Quais foram as condições do seu nascimento? Caiu de um meteoro? Criado artificialmente? Nepotismo? Me diga como que nós somos tão parecidos…!

A espada de lâmina branca foi pressionada contra seu pescoço. Mesmo ciente das condições da [Overkill], Ludwig teve a impressão de que avançar seria uma má ideia.

Uma vez que o vampiro se afastou devagar, Devic baixou a lâmina e respondeu.

— Sou apenas um homem normal, com objetivos normais. Não tem absolutamente nada de parecido entre nós.

Seus olhos pegavam fogo, os músculos tensionados num anseio de desferir um corte que rasgasse a própria realidade junto de seu inimigo.

Ludwig apenas riu da cena.

— Sei, sei. Você disse que ganhou algum tipo de iluminação no Corredor Sagrado.

… Você mentiu.

De repente, um intenso trovejar do lado de fora chamou a atenção de ambos.

Oh~, ele chegou! A conversa tava legal, mas é melhor eu ir.

Ludwig fez um cumprimento, como um maestro agradecendo os aplausos no fim do espetáculo.

— Se você sobreviver a isso, garanto que não irá se arrepender no nosso próximo encontro. Mas antes de eu ir, saiba de uma coisa, soldado…

Ambos cruzaram olhares, excitados e determinados.

— Eu me apressaria um pouco se fosse você. O tempo da sua esposa talvez seja bem menos do que imagina. Boa sorte!

A figura do vampiro começou a se desfazer em fumaça rapidamente.

— Espera! Eu tenho mais perguntas, seu maldito!!

O teto colapsou de vez antes que pudesse fazer alguma coisa.

Do rombo criado, uma figura familiar para qualquer Soldado de Elite surgiu, portando uma raiva demoníaca em seu semblante.

— Lí-Líder Absoluto…?!

 

 

 


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