Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 6: A Companheira Eterna de um Soldado

Após algumas horas, a última brasa das chamas negras desapareceu, levando consigo qualquer vestígio da criatura que antes era o Corredor Sagrado.

Russisch e seu grupo voltaram pouco após a derrota da criatura, acompanhados de alguns médicos que cuidaram das feridas dos soldados.

Devic negou os pedidos para engessarem sua perna, agradecendo os médicos enquanto estes se limitavam a envolver o membro com ataduras.

"Eu nem usei a força máxima, e mesmo assim sofri tanto dano…"

O Núcleo Regulador era o órgão que evitava o corpo de sofrer sobrecarga dos outros órgãos especiais. Caso usasse a força máxima contra a centopeia, era possível de suas pernas explodirem no último salto.

Felizmente a luta exigiu pouco de seus sentidos, então ao menos pôde evitar uma dor de cabeça, apesar de ainda atacado por uma leve tontura.

Seu olhar caiu sobre o grupo de cinco soldados, todos recebendo atenção dos médicos.

"Será que eu comento com eles sobre o diário do Capitão Seivaro?"

Como um aviso, uma das últimas linhas do diário voltou-lhe à mente.

-ELA ESTÁ NOS VENDO O TEMPO INTEIRO!

"Melhor não, seria colocá-los em perigo desnecessário", pensou, procurando ao redor por algo que sequer sabia o que era. "Eu tenho que organizar as informações que descobri e seguir para o próximo local."

Levantou-se logo que as pernas foram envolvidas por ataduras. Quase ao mesmo tempo, Russisch chegou exibindo um sorriso aliviado.

— Eu nem sei como agradecer por tudo que fizeram.

— Só fizemos nosso trabalho, apenas o fato de estarem seguros já é recompensa suficiente para nós.

Encarou brevemente os soldados que faziam um churrasco junto com os civis.

— Eu gostaria de ajudar mais — disse Russisch. — Normalmente eu faria alguma alteração no seu equipamento ou te daria um item novo pra usar em batalha, mas ao meu ver você já tem mais do que o necessário.

— Imagina. Você já me ajudou muito mais do que eu poderia pedir.

Ambos sorriram e deram um aperto de mão. O inventor então perguntou:

— E o que vai fazer agora? Quando entramos no corredor você disse que veio aqui procurando por uma pessoa.

— Sim, eu consegui reunir mais alguns detalhes e confirmar outras suspeitas. Primeiro eu vou voltar ao Sul e me recuperar por alguns dias, e então farei uma visita ao Castelo de Von Legurn, no Oeste.

Russisch teve um breve sobressalto, coçando o queixo num semblante apreensivo.

— Você tem um problema, então. Eu não tenho os detalhes, mas fiquei sabendo que vão começar a demolir o castelo pela tarde de amanhã.

— O quê!?

Viu seu plano ser rasgado em pedacinhos.

"Isso é coisa do Ludwig? Não, ele não tinha como saber até eu comentar com ele dentro do corredor. Deve haver outra razão."

Teve de replanejar seu caminho do início.

Mesmo com o Ponto de Transporte Instantâneo, seria impossível voltar para a base, descansar e ainda sobrar tempo para ir até Von Legurn. Baseado neste fato e ignorando praticamente todo o resto, ele tomou sua decisão.

Após agradecer Russisch uma última vez, Devic foi até os cinco soldados que o acompanhavam.

— Mudança de planos, pessoal. Vocês podem voltar para o Sul seguindo o procedimento padrão, eu estou indo para o Oeste investigar algumas coisas.

Os rapazes trocaram olhares entre si, até que um deles perguntou.

— Nós vamos precisar fazer o relatório da missão para o Líder Absoluto. Quer que a gente forje alguma coisa?

— Não, o Líder é bom em identificar mentiras, então apenas digam toda a verdade e evitem qualquer problema para cima de vocês. Eu assumo a responsabilidade por qualquer coisa. Aliás…

Ele tirou o que parecia um grande bloco de carne do bolso e entregou a um dos soldados.

— Entreguem isso ao Lucas, ele vai saber o que é. Digam que eu mandei conservar isso para ser reimplantado quando eu voltar.

Os soldados hesitaram por um breve momento, mas concordaram em seguida.

Após receberem os agradecimentos dos civis, todos foram para o Ponto de Transporte Instantâneo. Os esquadrão prestou uma última continência e partiram para o Sul. Em seguida, Devic ajustou as coordenadas no dispositivo e o ativou.

Sua mente paralisou por alguns segundos quando sobre a plataforma, capaz de perceber minimamente a paisagem ao seu redor mudando.

Vu-ru-ru-rum

O grande templo desapareceu, e a Torre antes próxima estava agora distante. A única coisa que permanecia igual era o céu tapado por densas nuvens cinzas.

“É aqui. Está em melhores condições do que eu esperava.”

De pé no teto de uma das casas que servia como base do exército, ele analisou o local.

Casas rústicas se erguiam ao redor do castelo, mas nenhuma encostando diretamente neste. As ruas estavam cheias, com crianças e adultos carregando coroas de flores e algumas poucas moedas nas mãos, acumulados num único local.

Na entrada do castelo havia uma estátua heroica esculpida em rocha nua. Era um jovem rapaz com roupas nobres, os cabelos longos presos num rabo de cavalo e o olhar afiado de um guerreiro destemido. Com a mão direita ele erguia a cabeça de um vampiro em absoluta vitória.

Devic se aproximou do local e perguntou a um dos passantes.

— O que vocês estão fazendo?

— Estamos prestando respeito. Faz meio ano que o príncipe herdeiro, Vast Los Filho, saiu do castelo para nos libertar da tirania dos vampiros. Ele lutou bravamente contra todos que apareceram em seu caminho, eliminou o Original e então desapareceu, mas desde então, nenhum vampiro apareceu nesta cidade.

— O Príncipe ainda está vivo! Ele voltará a qualquer momento! — Um terceiro complementou.

Devic observou um pouco mais o cenário ao seu redor.

As pessoas de La Serva costumavam estar sempre cabisbaixas, andando corcundas e com olhos sem brilho. Devic também já foi assim. Na verdade, pouca coisa mudou depois que entrou para os Soldados de Elite.

Vampiros tinham uma capacidade destrutiva equivalente a um desastre natural, e misturar isso com o intelecto muitas vezes igual ao de uma pessoa comum era a receita perfeita para a completa catástrofe.

Porém, neste lugar, as crianças sorriam e brincavam nas ruas sem qualquer medo, adultos se reuniam na porta de suas casas para conversar e o próprio castelo parecia sorrir às vezes. Quando se olhava por muito tempo, ficava difícil acreditar que estava na mesma La Serva de suas lembranças.

A atenção de Devic caiu sobre a estátua uma última vez.

“Príncipe Vast… Ele parece ser uma boa pessoa.”

Enquanto apreciava a escultura, sentiu um olhar esfaqueando suas costas com a ajuda do Terceiro Olho. Permitiu por alguns segundos, até ter certeza de onde vinha e se virar para encarar.

Se escondia parcialmente atrás de uma das casas, tentando escapar quando encontrado o olhar feroz.

Antes que virasse a primeira esquina, o soldado surgiu diante de si e o forçou contra uma parede.

— Eu pensei que vocês tivessem fugido da região — disse enquanto analisava a aura acima da cabeça. Um Vampiro Descendente. — O que faz por aqui?

— O que um Soldado de Elite faz aqui?!

— Eu que faço as perguntas. Quantos você já matou por… espera um pouco.

Devic ergueu o vampiro no ar, analisando a lata do indivíduo. Foi então que uma memória brilhou em sua mente, tal qual a luz refletia na careca perfeita, a marca registrada que tornava aqueles calvos malditos em gêmeos perfeitos.

— Você é… um dos Cardeais da Igreja Ghost!?

— Me conhece…? Pe-Perfeito! Por favor, permita-me explicar!

Seu olhar vagou entre a cara do vampiro e sua aura. Ele não parecia ter intenção de fugir, e mesmo que tentasse, seria fácil alcançá-lo.

Solto e com as costas contra a parede, o ex-cardeal iniciou.

— E-Eu acabei aqui alguns meses atrás devido a um incidente. Eu juro que não matei ninguém! Estou vivendo do sangue de pequenos ratos que encontrei pelos becos!

Uma melhor olhada revelou um corpo esquelético por baixo dos trapos que vestia.

— E por que ainda está por aqui? Não deveria ter voltado para o Norte?

— Bem, realmente foi a primeira coisa que pensei quando percebi onde estava, mas meu novo mestre me impediu de sair.

— E quem seria este mestre?

— Que tipo de pergunta é esta? Eu não posso dizer o nome diretamente, mas deveria ser óbvio quem… Oh~!

O cardeal falhou em conter um curto riso.

— Sinto muito, eu esqueci que você é o Sul. Poderia me dizer o nome do Vampiro Original que vive na sua terra natal?

— Se fosse alguns dias atrás, eu responderia "Ludwig", mas alguns eventos recentes me fizeram questionar isso. Na verdade, é exatamente o motivo de eu estar aqui.

— HAHAHA! Incrível! Então até mesmo alguém que [Ela] possui influência direta conseguiu ver um pouco da verdade. Isso me deixa aliviado.

BUSH!

O punho do soldado atravessou a parede de pedra ao lado da cabeça do vampiro.

— Você sabe?! Então você confirma que Ludwig não é "Ludwig" de verdade? DIGA TUDO QUE SABE!

— E-Espera, espera! Eu não posso! Minha cabeça explodiria!!

Ele arregalou os olhos, atento às palavras seguintes do ex-cardeal.

— Você sabe sobre o fenômeno da "explosão espontânea", certo? Qualquer um de nós que ousar dizer qualquer coisa sobre [Ela] terá a cabeça estourada na mesma hora. Acredite, eu vi acontecer mais do que gostaria.

Devic respirou fundo antes de se afastar. Acelerando os pensamentos com o Terceiro Olho, reorganizou as informações que tinha com as novas.

"Eu nunca tinha ouvido falar de algo parecido, muito menos de outro vampiro além de Ludwig até hoje, então há alguma coisa acontecendo desde antes de eu nascer! Mas o que poderia ser?"

Ele tinha uma suposição, porém a mera ideia de considerá-la como verdadeira fez um arrepio subir por todo seu corpo.

Por hora, adotou para si os termos utilizados pelo homem.

— Eu estou investigando por conta própria para descobrir quem é [Ela] para matá-la. Diga-me tudo que puder.

O vampiro riu curtamente.

— Apenas isso que você disse já seria suficiente para ter a cabeça explodida, mas nada aconteceu. Parece que [Ela] tem um apego especial com sua pessoa, mas eu jamais diria que isso é uma coisa boa. Como eu poderia explicar… É como se uma leoa caçasse um javali e, ao invés de matá-lo na hora, ela desenvolve um apego por ele.

… Ela primeiro devora as patas, o impedindo de fugir. Em seguida, termina de devorar as pernas. Ela então procede para órgãos não letais, como nariz, olhos e ouvidos. Neste ponto, você é apenas um pedaço de carne, flutuando num vazio infinito. Em seguida, sua pele é removida com precisão cirúrgica, e os músculos expostos começam a ser roídos do menos ao mais importante. Os últimos órgãos que sobram são seu cérebro, coração e pulmões. Você sequer sabe como é possível ainda estar vivo, mas está.

… Você não consegue alcançar a morte, mesmo que [Ela] esteja bem ao seu lado.

— …!!

Uma súbita presença fez o Terceiro Olho gritar como uma sirene de emergência. Devic então sentiu uma presença.

Por cima do ombro, ele viu um par de olhos esmeralda a centímetros de seu rosto, encarando diretamente sua alma.

Chek!

Sacou a espada e balançou com verdadeira intenção assassina.

VUSH!

Porém não acertou nada, exceto por um mais ao fundo — também representando príncipe Vast —, cuja cabeça foi separada do corpo.

Encharcado no próprio suor e respirando pesadamente, Devic outra vez se lembrou das palavras do Capitão Seivaro, agora com um novo entendimento.

-[ELA] ESTÁ NOS VENDO O TEMPO INTEIRO!

O ex-cardeal suspirou, simpatizando com o soldado.

— Mesmo que você seja de alguma forma especial pra [Ela], é melhor não abusar muito da sorte. Todo mundo tem um limite de paciência, e o dela é o último que queremos alcançar.

Devic guardou a espada antes de encarar o vampiro outra vez. Seus olhos cederam brevemente à indecisão, mas permaneceram resolutos.

— Eu não tenho opção além de usar e abusar da minha sorte, então é exatamente isso que vou fazer. Fiquei tempo demais sendo controlado por um mestre de palco que sequer era verdadeiro para início de conversa. Já é hora de pedir demissão. — Segurou firme no cabo da espada. — Quem sabe me aposentar.

He! Sinto muito, eu mentiria se dissesse que consigo imaginar isso dando certo.

Se voltar contra [Ela], tal ideia era um absurdo desde o início. Contudo, talvez exatamente por ser este homem, um brilho quase invisível surgiu nos olhos do ex-cardeal, refletindo uma humanidade que ele pensava ter desaparecido após virar um vampiro.

Este era o mais provável motivo de Devic suportar tamanha pressão.

Assim como um javali selvagem, um soldado era constantemente acompanhado de uma feroz e faminta leoa. Ele segue em frente sem hesitar, bem ciente de que seu próximo passo pode ser o último.

Em comparação, ele havia falhado como cardeal, e até mesmo como vampiro. Suportou tudo que pôde até este momento, e sentia que seu trabalho, mesmo que pouco, foi cumprido.

— Uma mulher alta, com curtos cabelos negros, olhos esmeralda e um longo vestido preto com aberturas laterais.

… Isso é tudo que posso dizer.

O soldado permaneceu em silêncio, focado em martelar as características diretamente em seu cérebro. Com isto, um sorriso agradecido surgiu em seu rosto.

Replicando o ato, o homem agradeceu internamente por sentir aconchego uma última vez.

— Antes de ir para o castelo, será que pode me matar? Eu vou morrer de fome em alguns dias, de qualquer forma.

Devic acenou com a cabeça, se ajoelhando ao lado do vampiro e preparando o golpe com os punhos.

— Obrigado pelas informações, nenhuma delas será em vão.

— Lhe desejo sorte, soldado.

Devic finalizou o vampiro da forma mais indolor que podia, prosseguindo com o objetivo principal assim que o viu se desfazer totalmente em névoa.

Considerando toda a atmosfera, era pouco provável que os civis lhe deixassem entrar no castelo mesmo que pedisse educadamente. Desta forma, foi para os fundos e escalou um dos portões, passando para o pátio interno sem dificuldade.

Sem guardas ou qualquer pessoa para fazer vigília, tal qual um museu desprotegido.

Algumas poucas hortaliças na área estavam intactas, com sequer ratos ou aves ousando se aventurar por ali. Apesar deste evidente abandono, tudo estava em condições impecáveis.

Por garantia, Devic sacou a espada antes de dar o próximo passo.

O interior era um espelho do exterior, seus passos a ecoar sem problema por toda a estrutura.

Do piso às janelas e lustres pendurados no teto, tudo estava impecável. Um nível de trabalhado que se esperaria apenas de um grande grupo de experientes empregadas. No entanto, este era um local abandonado.

As paredes eram isentas de qualquer decoração. As usuais pinturas esperadas de uma família real não existiam, tal como livros, móveis, louças e quaisquer itens que indicassem a presença de alguém. Mesmo com janelas abertas, sequer uma brisa atravessava os corredores.

A própria natureza se recusava a entrar ali.

Desde que entrou, o único som a ecoar pelo local por um tempo foram seus passos.

Passou mais de meia-hora andando de um lado para o outro, e ainda faltava muito a se ver. Foi somente quando encontrou a sala do trono que as coisas mudaram um pouco.

Ao contrário do ambiente preservado, o salão era o campo de uma antiga batalha.

No centro havia uma pequena cratera, todo o ambiente marcado por sinais de garras e mordidas. Na varanda do segundo andar, parte do corrimão estava destruído, como se atingido por um grande impacto.

Pelo nível de destruição, assumiu se tratar de uma luta contra um vampiro.

Vasculhou um pouco o local, mas não havia qualquer vestígio de sangue, suor ou material orgânico que pudesse recolher. Nem o trono, o objeto mais chamativo e importante do salão, possuía algo destacável.

“Melhor continuar em outro lugar.”

Seu ânimo começava a diminuir, ao contrário da ansiedade que apenas crescia.

Os soldados provavelmente já haviam relatado a situação para o Líder Absoluto. Sua punição era certa, mas demorar demais poderia torná-la menos agradável do que seria em condições normais.

“Talvez os quartos tenham um diário ou algo parecido.”

Ele mirou o corrimão destruído alguns metros acima e saltou. Uma breve câimbra ao pousar atingiu ambas as pernas, o colocando de joelhos.

— Ora, alguém ferido não deveria se esforçar tanto.

A súbita voz feminina pôs o corpo de pé na base do susto.

— Quem é você?!

À sua frente estava uma mulher jovem de cabelos ruivos, trajada num elegante uniforme de empregada.

— Perdoe-me. Eu sou a cuidadora deste local, a única que permaneceu após a partida do príncipe Vast.

Ela deu um sorriso caloroso para o soldado, seus olhos verdes causando um arrepio nostálgico.

— Pode me chamar de Emilia.

 

 

 


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