Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 10: As Ferramentas dos Mais Fortes

Devic acordou, mas seus olhos continuaram fechados por um tempo. As pálpebras com peso de bigornas.

Pelo cheiro de remédios e a superfície confortável em que deitava, tinha certeza de que estava no hospital, capaz de ouvir a voz da mesma jovem enfermeira que fez seus exames de rotina há pouco tempo.

"Uma mulher alta, cabelo preto em corte chanel, olhos verdes e um vestido preto com aberturas laterais."

Repetiu algumas vezes para ter certeza de que se lembrava corretamente do que o ex-cardeal lhe disse.

Ao vasculhas as memórias, nenhuma figura semelhante surgia. Ludwig e Emilia eram, supostamente, manifestações criadas por [Ela], incerto se fantoches, almas divididas ou algo parecido.

Queria se levantar e caçar o corpo original onde quer que estivesse, o que seria apenas um sonho. De tal forma, foi obrigado a abrir os olhos e encarar a realidade.

Oh, acordou! Ufa! Eu estava começando a ficar preocupada.

Como pensou, era a mesma enfermeira simpática, para quem sorriu brevemente.

Moveu o pescoço com dificuldade, ouvindo longos estalos e uma intensa tensão muscular. Um susto.

Estava seminu, a dignidade protegida apenas por uma cueca. Seus braços foram revestidos em tanto gesso que pareciam o pilar de sustentação de um prédio. Ao flexionar de leve, pôde sentir que os músculos foram reconectados. As pernas estavam livres, apenas enfaixadas.

O mero ato de estar consciente fazia a cabeça latejar. Um pouco de sangue escorreu por seu nariz, rapidamente limpo pela enfermeira com um lenço.

— Por favor, evite qualquer tipo de movimento.

Após fazer uma breve limpeza em seu corpo com uma toalha úmida e trocar algumas faixas, ela buscou um caderno em sua mesa e se pôs a explicar o que aconteceu.

Um esquadrão de apoio havia chegado em Von Legurn cerca de uma hora após o fim do conflito, seguindo as ordens prévias que o Líder Absoluto passou antes de sair do quartel pela última vez.

Nenhum vampiro foi encontrado na área, nem qualquer civil foi ferido de qualquer forma. Um verdadeiro milagre considerando a extensão da luta.

Os soldados realizaram uma intensa investigação, mobilizando todos os Amaldiçoados com habilidades relacionados a investigação forense. Porém, tantos esforços apenas confirmaram o óbvio.

O Líder Absoluto, Sr. Thunder, estava morto.

Desde o fim da luta até o momento em que Devic acordou, quase duas semanas haviam se passado.

— Os capitães estão conseguindo manter o mínimo de ordem entre seus próprios esquadrões — disse a enfermeira. —, mas a desorganização é evidente quando se tem uma visão de fora dos grupos.

Como esperado, uma atmosfera mórbida instalou-se em todos os Soldados de Elite, sem exceção. Ao mesmo tempo, a quantidade de vampiros aparecendo próximo aos quartéis e acampamentos de refugiados aumentou, consequentemente o número de baixas, tanto de civis quanto combatentes.

Devic permaneceu em silêncio, completamente perdido.

O Líder, os soldados, os planos [dela], sua condição… Haviam coisas demais para se pensar.

Foi então que uma figura familiar passou pela porta.

Um soldado com capacete de astronauta, porém isento de qualquer rosto cômico. No visor enegrecido, os semblantes cabisbaixos eram refletidos.

— Lucas…

O soldado acenou com a cabeça, pedindo à enfermeira que os deixasse a sós.

Assim que ela o fez, Lucas puxou uma cadeira e se sentou ao lado da cama sem encarar Devic nos olhos. Sua pergunta era simples, de resposta complicada.

— O que a gente faz agora?

Devic desviou o olhar para o próprio corpo, todo enfaixado, se limitando a ouvir.

— Só você estar vivo já é uma surpresa. Seu corpo estava só o pó. Eu já tinha me assustado quando recebi a notícia de que você vomitou o Núcleo Regulador, e agora tem mais essa…

Inicialmente confuso, o espadachim entendeu as palavras do colega quando olhou para a mesa ao lado.

Numa bandeja de metal suja de sangue havia o que mais parecia um amontoado de fitas desorganizadas, a maioria partida ou danificada além do conserto.

"A Segunda Camada Muscular!"

Provavelmente a vomitou após desmaiar ao fim da luta contra Thunder.

O único órgão que restava agora era o Terceiro Olho.

Num esforço súbito, sentou-se na cama para finalmente encarar o colega.

— Eu me responsabilizo. O que aconteceu com o Líder Absoluto foi…

Lucas interrompeu.

— O relatório oficial diz que o Líder morreu para te proteger. Mesmo quando ele estava saindo daqui para ir atrás de você, ele jamais disse "capturar", o que ele disse foi…

Eu vou salvar Devic pessoalmente.

Ouvindo essas palavras, ele suspirou, ao que o astronauta completou:

— Nenhum dos soldados carrega algum tipo de mágoa contra você, na verdade, parece até que todos eles ficaram com a sua cara.

… Todo mundo tá cheio de ódio, e mesmo sem poder colocar em palavras, mesmo sem saber quem exatamente é, todos querem vingança contra [Ela].

Devic franziu o cenho, flexionando os braços ao ponto que nem os quase dos metros de gesso suportaram, se desfazendo para enfim libertá-lo. Suas mãos apertaram a cama, torcendo até o metal de sustentação.

— Toda essa merda só aconteceu porque [Ela] quis mexer com a minha cabeça! Todo o caos desse lugar, os civis mortos, os soldados, o Sr. Thunder! Tudo por causa daquela…!

Ele selou os lábios antes que a última palavra saísse.

Mesmo sabendo ser um dos preferidos, Devic não quis arriscar ser uma vítima da Explosão Espontânea.

… Eu só estou parcialmente livre por causa do Terceiro Olho, mas você e os outros soldados, por todo esse tempo… Eu nem sei o que dizer.

— E nem precisa. Como eu disse, ninguém está de culpando pelo o que aconteceu. Seja você um soldado como qualquer outro ou um alvo especial, acima de tudo você ainda é o Devic. O que você precisa agora é de descanso.

… Bem, pelo menos é isso que seria numa situação normal.

Ele se levantou e saiu da sala brevemente, voltando com o uniforme do colega, já restaurado.

… Vai ficar de bobeira, por acaso? Acho que já melhorou o bastante pra se levantar. Tem uma coisa importante que você precisa ver. ( ̄︿ ̄)

O espadachim abriu o largo sorriso em resposta, se aprontando imediatamente para o próximo serviço.


Com seu uniforme de volta e a espada guardada em sua cintura, Devic seguiu Lucas pelos corredores do hospital até uma sala que estava acostumado a visitar.

A porta que dividia o ambiente hospitalar do que mais parecia o interior de um forno industrial.

A cápsula contendo sua esposa adormecida estava intacta, mas ela era apenas um dos pontos da discussão que o astronauta queria trazer.

Enquanto encarava sua amada através do vidro embaçado, Devic viu o colega fazer um raro uso de sua Maldição em público.

Com ambas as mãos, Lucas fez um movimento como se abrisse uma janela. O espaço à sua frente foi distorcido, abrindo uma fissura grande o bastante para que o rapaz enfiasse metade do corpo lá dentro.

Após breve procura, ele saiu e fechou o portal. Em mãos tinha um único tubo de ensaio, cheio até a metade com o que aparentava ser sangue.

— Antes de qualquer coisa, eu preciso que mantenha a calma.

Ficou frente a frente com o espadachim, respirando fundo antes de falar.

— Isso aqui… é o sangue do "Ludwig"!

— …

— Vai reagir não, caramba?

Devic deu uma breve risada, se desculpando.

De fato quase teve um sobressalto, na verdade, era capaz que afundasse sua cabeça do teto se ainda tivesse a Segunda Camada Muscular. Porém, apesar de feliz, sabia que isso não era algum tipo de coincidência.

— Eu estou surpreso, afinal esse é um dos motivos de eu estar fazendo tudo isso. Mas…

Pegou o tubo com cuidado, sentindo arrepios súbitos e uma estranha hipnose ao encarar a substância vermelha, muito semelhante à sensação de quando observava o Útero no castelo de Von Legurn.

— Isso é bom demais pra ser verdade, [Ela] deve estar planejando alguma coisa. Como você conseguiu isso pra início de conversa?

Ouviu Lucas engolir em seco, um evento raro.

— Acredite ou não, foi "Ludwig" quem me entregou.

— Quê?! — Não segurou a reação dessa vez.

— Ele não fez nada comigo! Foi pouco depois que o Líder saiu pra ir te salvar. Ele apareceu pra mim e me entregou isso, dizendo que era um presente pra você.

… Eu cheguei a atacar, mas era apenas uma ilusão.

— Entendo.

Voltou a analisar o frasco, contorcendo o cenho em dúvida.

Pouco antes de desaparecer no castelo, [Ela] deu a entender que sua esposa tinha pouco tempo de vida.

Por um lado, era verdade que a condição de sua amada vinha piorando com o tempo, o esperado de alguém que se agarrava à vida através de diversos aparelhos de suporte de vida. Por outro, quem dizia isso era a mesma pessoa que a colocou neste estado.

O clássico truque de inventar um problema para então fornecer a solução.

Devic tinha quase certeza de que isso era falso, por pouco não esmagando o tubo ali mesmo.

Todos os problemas que causou até agora foram para investigar e conseguir o maldito sangue. Em cada tentativa, Ludwig sequer estava ao alcance de sua mão, sempre protegido por um véu ilusório que nunca se desfazia.

Apesar destes seguidos fracassos, cá estava o grande prêmio em sua mão.

"O que ela diria nesta situação?"

Mirou o rosto adormecido da esposa.

Memórias que havia selado no fundo de sua mente emergiram ao mesmo tempo, mas ao invés de contê-las com o Terceiro Olho como normalmente fazia, Devic as apreciou com cuidado, sorrindo ao tomar sua decisão.

— Vamos tentar.

Lucas recuou um passo.

— Tem certeza? A gente não sabe que efeitos isso pode ter.

— Eu vou correr esse risco, além disso… — Sua mão pousou sobre a cápsula, querendo alcançar a da esposa. Em breve. — Ela é forte, muito mais do que eu jamais poderia ser.

A hesitação de Lucas foi varrida pela certeza de Devic. Por baixo do capacete, ele sorriu largamente.

— Certo! Eu vou recrutar os melhores médicos! Vamos fazer funcionar à qualquer custo!

E então, com as decisões feitas, vários profissionais do exército se reuniram, determinados a tornar real essa proeza para qual alguns já se preparavam há certo tempo.

Porém, mesmo que quisesse permanecer na sala com sua esposa, o dever de um Soldado de Elite nunca acabava.

A situação da região Sul mudava gradativamente, mas de forma perceptível até para civis.

A partir deste dia, os céus comumente nublados tinham nuvens estranhamente mais densas que o normal, como se a formar uma barreira para impedir qualquer um de fugir de uma gaiola recém-criada. Este fenômeno foi observado em toda La Serva.

Sem o comando do Líder Absoluto, era difícil organizar vários esquadrões para uma missão de larga escala como a limpeza de uma cidade fantasma. Por causa disso, a quantidade de vampiros aumentava cada vez mais.

Lutas se tornavam mais difíceis, crescendo o número de baixas entre Soldados de Elite, a maioria pegos em ataques surpresa ou encurralados por muitos vampiros Descendentes.

[Ela], por sua vez, desapareceu completamente.


Pouco mais de um mês se passou.

Depois de tantos anos de espera, o dia parecia ter finalmente chegado.

PRUMT!

Devic entrou aos tropeços na sala.

— Me deixem passar!

Os médicos e enfermeiros assim o fizeram, cada um carregando as marcas de cansaço de um veterano de guerra.

A cápsula em que sua esposa descansava há anos foi aberta pela primeira vez, revelando seu corpo que, apesar de magro, estava perfeitamente preservado.

Bip! Bip! Bip!

Os batimentos sempre fracos aumentavam a nível surpreendente, dando mais cor ao corpo adormecido e tornando a respiração notável.

— Acho que o corpo dela finalmente conseguiu! — disse o médico chefe. — Ela adaptou o sangue vampírico em um antídoto! Ela pode acordar a qualquer momento!

O coração de Devic acelerou junto aos da esposa.

"Acorda!"

Queria gritar, mas se conteve. O instinto de evitar criar expectativas vencido pelo largo sorriso alegre que tomou seus lábios, tão ansioso quanto as lágrimas que começavam a descer.

"Acorda!"

Jurou ver os dedos se moverem. Os lábios a pronunciar algo. Seus olhos prestes a se abrirem!

"Por favor! Por favor, apenas…!"

TRUM!

Uma explosão súbita tremeu com toda a base, derrubando alguns aparelhos.

Nenhuma mudança ocorreu no quadro da paciente, no entanto, fez algo muito pior.

O espadachim acordou de seu primeiro sonho dentro de um longo pesadelo. Infelizmente, para quem o acordou, havia sido bem mais curto do que gostaria.

Antes mesmo que os médicos questionassem, uma fissura se abriu numa das paredes, por onde a metade superior de Lucas se revelou com urgência.

— ESTAMOS SOB ATAQUE!! É O LUDWIG!

Raspando os dentes, Devic deu a ordem.

— Soem o alarme de emergência!

Usando 70% da capacidade do Terceiro Olho, escaneou a área necessária e entendeu o que se passava. As lágrimas pararam e sangue escorreu por seu nariz. Não por dor, mas por raiva.

… Precisamos de absolutamente todos os Soldados de Elite!

Apesar da ordem, Devic sabia que era impossível reunir todas as forças num só lugar facilmente, principalmente quando alguns acampamentos estavam nas fronteiras com outras regiões. No entanto, precisava crer que a força presente era suficiente.

Através do portal criado por Lucas, ele saiu da sala dos médicos direto para a superfície.

No topo de uma elevação de terra, Devic e centenas de soldados reunidos arregalaram os olhos.

Pouco mais de quinhentos metros à frente, o que parecia um amontoado de formigas furiosas à primeira vista tomava formação organizada aos poucos. As auras a se sobrepor tornavam impossível distinguir quantos haviam exatamente.

Dezenas, centenas, milhares! Não, centenas de milhares de vampiros surgiram numa massa cujo estômago faminto podia ser ouvido a vários quilômetros de distância.

Qualquer coisa que caísse ali seria devorada até a última lasca de osso.

E acima de todo esse caos, uma figura familiar e pouco agradável flutuava sobre a horda.

Mesmo de tão longe, Devic viu claramente o sorriso ansioso a se formar no rosto andrógeno.

— Seu desgraçado…

Assumindo posição de batalha, o sacar de sua lâmina branca ecoou por todo o campo.

— O QUE VOCÊ QUER DE NÓS!?

Empunhou a espada à frente, dispersando a poeira num movimento bruto.

— LUDWIG!!

 

 

 


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