Sputnik Saga Brasileira

Autor(a): Safe_Project


OVERKILL

Capítulo 1: Aqueles ao Meu Lado

Duas crianças rastejaram para fora dos escombros de uma casa em ruínas. O mais velho puxava o caçula pelo braço, este que segurava firmemente uma pelúcia de coelho.

Silêncio. Nenhuma ajuda havia chegado até agora.

A comida se esgotou ontem, a última caneca de água dividida logo antes de saírem do esconderijo. O ronco de seus estômagos começava a atrair as criaturas na área, a presença destas na noite passada marcada pelas pegadas no chão barrento.

O mais velho segurou o irmão pelos ombros, forçando contato visual.

— Escuta, vai pra um dos prédios na borda da cidade e se esconde no último andar. Eu te encontro lá assim que encontrar mais comida.

O caçula — de apenas oito anos — assim o fez, desaparecendo entre os prédios em ruínas.

Sozinho, o rapaz conferiu os arredores uma última vez. Sabia de um acampamento na área de antigos sobreviventes, partindo para o local antes que  fosse avistado por algo indesejado.

                                                                                                                                    

Dois dias se passaram.

No alto de um prédio, um vampiro alado observava a cidade fantasma como um vigia. Sua forma humana preservada ao extremo, tornando-o uma representação quase perfeita de um anjo.

Na mão direita, um pequeno braço que terminava de devorar. Na esquerda, um coelho de pelúcia que veio de brinde no lanche.

Outros vampiros rastejavam pelas ruínas abaixo, revirando escombros, cavando buracos e brigando entre si pelo cadáver de um urubu.

Por um breve momento, os gritos de uma outra criança ecoaram para nunca mais serem ouvidos.

O vampiro então mirou os limites da cidade, onde uma frota de veículos militares atravessou a densa nuvem de poeira.

“Eles finalmente chegaram.”

Estrondos começaram de imediato.

As massas de vampiros abaixo intercalavam entre avançar e recuar. Prédios colapsavam um atrás do outro, e mesmo com um arranha-céu caindo sobre si, as figuras invasoras sempre saíam com vida.

Trajados num mesmo uniforme preto de detalhes dourados, mostravam proficiência com armas diversas e, acima de tudo, uma constituição física acima de qualquer humano ou Amaldiçoado comum.

“Soldados de Elite.”

Ele estalou a língua, voando para um prédio mais distante da confusão.

Todos os Soldados eram Amaldiçoados. Em termos de habilidade geral, cada um valia por um Vampiro Descendente.

Enquanto os menores lidavam com os militares no chão, o vampiro alado voou na direção oposta da confusão.

Outros Descendentes como ele se reuniam no centro da cidade, os quais pretendeu usar como isca em caso de emergência.

Fiush! Vush!

Tiros rasparam suas asas.

Dois dos soldados ignoraram os vampiros menores e agora o seguiam saltando entre telhados de prédios.

“Eles já estão em mim? Bem, eles não podem fazer nada contra mim enquanto eu estiver voando.”

Ele pensou, acelerando para despistar os perseguidores.

Fez curvas bruscas e até arriscou manobras por dentro de alguns edifícios, e mesmo assim falhou em perder os soldados.

Mais disparos. Alguns acertaram suas asas, curados quase imediatamente pela regeneração natural.

O vampiro grunhiu irritado, diminuindo a velocidade ao considerar lutar de volta. Um pensamento que durou menos de dois segundos, suficiente para que tudo mudasse.

À sua esquerda, um prédio subitamente colapsou. Sua lateral marcada por um grande impacto.

Em seguida, uma sombra lhe cobriu.

Estava planando a mais de quarenta metros de altura, mas um Soldado surgiu logo acima de sua cabeça.

“É ELE!”

           T
              U
                 N
                    S
                       H!

Um golpe diagonal para baixo acertou no ombro, quebrando a barreira do som.

Ele caiu como um meteoro, quicando algumas vezes no asfalto até colidir contra uma parede.

Parte do asfalto se partiu ao pousar bruto do Soldado. Caminhava sem pressa, certo do sucesso da captura. Alcançou sua vítima ao mesmo tempo em que esta regenerou o corpo ferido.

Na mão direita empunhava uma katana, cuja lâmina branca refletiu um destino terrível.

O vampiro usou as asas como uma coberta, uma criança se protegendo do bicho-papão. Fugir era inútil, tal como falar, respirar ou sequer existir.

Um homem de meia-idade. Seus olhos eram vermelhos, tal qual seus longos cabelos, ambos envolvendo a criatura num calor tão intenso que seu corpo ficou confuso pela mudança de temperatura e gelou completamente.

A mão apertou o punho da espada.

— E-Espera, não me mate! Eu posso… Eu posso ser útil! Só me diga o que quer! Eu faço qualquer coisa!

O soldado respondeu com um leve sorriso, então sua mão agarrou a face do vampiro.

B U N S H!

Num único empurrão, a criatura atravessou diversas paredes até que acabasse do outro lado do quarteirão. As asas outra vez quebradas, e sua regeneração era lenta demais para reagir.

— Eu vou perguntar apenas uma vez.

Agarrou o vampiro pelas pernas como se faz antes de matar uma galinha.

— Quem mandou você, e onde está minha filha?

— E como eu iria saber disso, seu maluco?!

Ele mirou a mordida na coxa do soldado, mas a bota invadiu sua boca. Metade de seus dentes quebraram, a maioria forçada goela abaixo.

Como se o próprio espaço se distorcesse, eles percorreram dois quarteirões e pararam em uma pequena praça. O espaço para crianças guardava alguns poucos brinquedos, em especial um gira-gira quase em perfeito estado.

Com apenas uma mão, o soldado quebrou cada uma das barras de ferro, tornando o brinquedo num círculo com várias estacas pontudas.

Sem hesitar, ele jogou o vampiro no equipamento e pisou sobre seu corpo, forçando o metal enferrujado através de sua carne podre.

AAAAAAAAHHRR!!

Espetado com o corpo contorcido, ele mirou o soldado com dificuldade, sua visão manchada por seu próprio sangue.

Todo o corpo ficou suspenso na metade do caminho das barras, a base do brinquedo se transformando num espelho carmesim.

— Cerca de cinco anos atrás — iniciou. — seu mestre raptou minha filha. Eu quero descobrir quem ele é, então eu posso caçá-lo e resgatar minha garotinha.

… Diga tudo que você sabe, só então eu vou te finalizar.

Cuspindo mais sangue que palavras, respondeu:

— E como eu disse, eu não sei nada!

O soldado franziu o cenho, pegando uma das barras e girando a plataforma com tanta força que o vampiro parecia estático no lugar. Seu corpo perdeu qualquer forma reconhecível.

— Você é um Descendente! Criado a partir do sangue de um Original! Como não saberia de nada?

Começou a forçar uma das barras que segurava contra a cabeça do vampiro. Apesar de afiada, a ponta era incapaz de penetrar a carne independentemente de quanta força o homem colocava, agindo como uma prensa.

Truk! Seu crânio começou a rachar.

— E-Eu juro que não sei!

Truk! Truk! Prestes a romper.

— Como que não saberia quem é o próprio Mestre? Não faz sentido.

— Eu… Eu servia ao Vampiro Original que comandava o Oeste!

— …! O quê?

A pressão no cérebro parou. Na vaga esperança de ser solto, continuou:

— Eu e vários outros vampiros fugimos do Oeste depois que nosso mestre foi morto. Fomos em massa para o Norte, e ficou tudo bem por alguns meses.

… Mas, de repente, o Original que comandava o Norte também foi morto uns dois meses atrás. Era impossível entrar no Leste por causa da barreira que cobre toda a região, então a única opção que sobrou foi aqui no Sul. O plano era usar essas cidades fantasmas pra aumentar os números antes de voltarmos pra casa!

O soldado ponderou brevemente. Graças às informações reunidas pelo exército, tinha certeza de que tudo isso era verdade.

A migração explicava o aumento súbito de vampiros, mas alguns pontos continuavam desconexos.

"Então por que continuam tão bagunçados?"

Vampiros se adaptavam facilmente a mudanças de liderança, seguindo o simples raciocínio de animais selvagens que vivem em bando. O líder costuma ser o mais forte ou sábio, sem mais segredos.

Porém, este que tinha em mãos e muitos outros capturados nos últimos meses agiam “por conta”, por assim dizer. Se realmente estivessem aqui há tanto tempo, então deveriam saber muito bem quem era o líder na região.

— Nós viemos pra cá como última opção — continuou o vampiro. — Queríamos voltar pro Oeste no próximo mês, mas agora…

— Para por aí. Eu não quero ficar ouvindo monólogo ou ver um flashback do seu passado triste. Apenas responda: Quem é o Original desta região e por que ele raptou minha filha?

O vampiro encarou com um semblante confuso.

— Espera… você não sabe?

Respondido com silêncio e um breve desviar dos olhos do soldado, ele caiu na gargalhada. Riu com tanto fervor que quem ouvisse não pensaria se tratar de um vampiro empalado por onze barras de ferro.

HAHAHAHAHAHA!

Ah~! Cara, isso melhorou meu dia. Depois dessa, nem me importo mais de morrer.

— Entendo, que tal responder minhas perguntas antes disso?

Nah, tô vazando. Até mais, vadia.

— Perdão?

A cabeça do vampiro explodiu, suas entranhas destruídas ao ponto de que apenas uma mistura líquida se espalhou ao redor.

O soldado limpou o pouco que caiu em seus olhos. Filho da puta! O cerrar de seu punho partiu em dois a barra de metal que segurava.

Explosão Espontânea.

Este misterioso evento começou a ser observado há pouco mais de dois meses, mas existem relatos bem mais antigos por toda La Serva. Tal como o nome dá a entender, a cabeça de um indivíduo subitamente explode sem explicação aparente.

Devido ao fato das vítimas serem sempre encontradas após o ocorrido, era impossível seguir uma linha lógica de evidências que guiasse para algo ou alguém culpado.

“Outra vez… eu não consegui nenhuma informação sobre ele.”

Ele sacou sua katana e brandiu violentamente contra o prédio adiante.

VASH!

Uma massa de ar visível atravessou o concreto de um lado ao outro, dividindo-o ao meio. A estrutura colapsou na direção do soldado, cujo permaneceu imóvel.

Cru-lu-lu-lum!

Da cortina de poeira que se ergueu, ele se revelou ainda de pé. Os escombros que o atingiram partiram ao meio, incapazes de sequer arranhá-lo, limitados a soterrá-lo até a cintura.

Outra vez, ele era o último de pé ao fim da batalha, todos os outros reduzidos ao pó. Mesmo que legiões estivesse ao seu lado no início, o cenário no fim da ação era sempre o mesmo.

Bem quando mordia o lábio quase ao ponto de rasgar, uma voz o trouxe à realidade.

— Devic! Finalmente te achei.

Outro Soldado de Elite, a diferença no uniforme sendo o capacete de astronauta. Preto como o céu noturno, mas pouco assustador graças ao display no visor que eventualmente revelava suas emoções.

Devic respirou fundo e relaxou o rosto antes de se virar.

— Lucas… Como me achou?

— Bem, se eu vejo um prédio ou quarteirão sendo destruído, ou é um Vampiro Original ou é você, né.

Respondendo com um rosto inexpressivo, viu uma carinha raivosa surgir no visor por um momento.

— O resto do pessoal terminou a limpeza?

— Sim, todos os vampiros na área eliminados sem problemas. ( ̄^ ̄)ゞ

— Alguma pista dele?

— Absolutamente nada!

— Entendo.

Lendo o disfarce no semblante do colega, Lucas se aproximou enquanto buscava algo num dos bolsos.

— Ei, sem essa! Não achamos nada de útil, mas pelo menos nenhuma catástrofe aconteceu. Só o mesmo dia normal de sempre.

Ele então ofereceu um pirulito de morango ao colega, uma atitude quase cotidiana a este ponto. Como sempre, aceitou com um pequeno sorriso.

— Sei que você quer encontrá-lo o quanto antes, todo mundo quer. Mas eu tenho certeza de que as coisas vão mudar muito breve, é o que as estrelas estão me dizendo! <( ̄︶ ̄)>

— Haha! As estrelas, né…

Ele mirou o céu brevemente, nublado como desde que se entendia como gente.

Lucas se despediu, combinando de se reencontrarem no refeitório para conversar durante o jantar.

A cidade até então abandonada começou a se encher de veículos militares e soldados comuns. Com a eliminação dos vampiros concluída, iriam analisar a área para futuramente a utilizarem para maiores propósitos, sempre mirando a restauração da antiga glória da humanidade.

Porém, independente de quantos vampiros menores eliminassem, de nada adiantaria enquanto todos os quatro Originais fossem mortos.

Tal como constatado pelo vampiro alado, dois deles já haviam sido eliminados.

Aquele que governava o Leste se protegia atrás de uma barreira impenetrável, provavelmente mantida pelo Original que lá habitava. Por hora, a solução era torcer para que alguém poderoso de dentro da barreira o derrotasse.

Com a morte dos originais do Norte e Oeste, os atuais líderes destas regiões requisitavam constante apoio dos Soldados de Elite, então missões para o exterior não faltavam.

Entretanto, Devic estava ocupado demais para se preocupar com o exterior.

Seu inimigo estava nesta mesma região, quem sabe lhe observando neste exato momento.

— Eu sei que está me observando…

O Vampiro Original que governava o Sul.

— Ludwig.

 

 


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