Volume 1

Capítulo 20: Um Contra Um (5)

Eun-Ho se lembrou de uma conversa que teve com alguém um tempo atrás.

— Eun-Ho, por que você tem tão pouca coisa? Você é daqueles… como é que chama… minimalistas?

Não era nada chique assim. Eun-Ho simplesmente nunca comprou muita coisa para começo de conversa.

Trocar de emprego com a mesma frequência que a maioria das pessoas, renovar contratos de aluguel e se mudar o tempo todo fazia comprar coisas novas parecer inútil. A ideia de pagar aluguel caro só para guardar um monte de tralha inútil era pior ainda.

Com o tempo, Eun-Ho tinha se treinado para viver só com o essencial e comprar apenas o que realmente precisava. Por isso, ele nunca imaginou comprar pão mofado, muito menos dar isso de presente.

“É a primeira vez que eu compro esse tipo de coisa aleatória.”

Graças a isso, um dos maiores desafios foi resolvido: achar um jeito de comunicar as regras e estratégias da provação para os outros.

[Um presente chegou do Sujeito Choi Jae-Hyuk!]

[O Corvo do Departamento de Gestão ficou estarrecido, porque ninguém nunca usou o sistema de presentes assim.]

[Um observador anônimo dá um sorriso malicioso, assumindo o crédito em silêncio.]

Mesmo que isso tivesse criado novos problemas, a missão vinha em primeiro lugar por enquanto.

— Verificar! — Eun-Ho falou com os lábios se curvando num sorriso satisfeito.

A caixa e a carta se materializaram diante dos olhos dele, tomando forma aos poucos.

Pop!

Assim que ele tocou o envelope de bordas afiadas, ele se abriu como uma semente brotando, esticando os cantos como braços.

  • Para: Lee Eun-Ho
  • De: Choi Jae-Hyuk
  • Mensagem: Hyungnim, você está bem? Eu achei mesmo que ia morrer. Um monstro estranho caiu do céu, e não importa quantas vezes eu matasse....

A mensagem se cortou no meio, como o título de uma música antiga e esquecida. Eun-Ho duvidou que fosse uma pausa dramática. Era mais provável que existisse um limite de caracteres.

Ainda bem que ele tinha enfiado o máximo de informação possível na resposta. Senão, teria cortado alguma coisa importante sem querer.

“Tomara que a Ji-Eun tenha recebido o dela também.” Eun-Ho pensou com uma combinação de alívio e preocupação.

Com isso, Eun-Ho abriu com cuidado a caixa que Jae-Hyuk tinha enviado.

Ssshk.

A caixa abriu sem esforço, com a superfície lisa e fria como vidro polido. Dentro havia leite estragado.

“Eca…”

Grumos grossos e coalhados de uma gosma branca misteriosa estavam ali; fermentados e fedorentos. Só Deus sabia há quanto tempo.

[O Príncipe do Departamento de Investigação nega com a cabeça, confuso com as preferências alimentares do Setor 13.]

[O Corvo do Departamento de Gestão incentiva Eun-Ho a se apressar e beber.]

— Guardar!

Eun-Ho enfiou o item imediatamente no Inventário. Ele nem queria encostar.

Quando balançou a cabeça, um aviso ecoou pelo espaço.

[A provação final começará em dez segundos.]

Era a última chance, então Eun-Ho precisava agir rápido. Tinha que concluir a tarefa depressa e salvar a criança. Mesmo sem conseguir vê-los, ele tinha certeza de que Ji-Eun e Jae-Hyuk tinham recebido o presente e estavam pensando a mesma coisa.

[Como penalidade por falha na provação, o Fantasma Maior evoluiu para um Fantasma Supremo.]

Eun-Ho também tinha certeza de que todo mundo devia estar entrando em pânico com a penalidade.

“Um Fantasma Supremo vai ser ainda maior? Até o Fantasma Maior da segunda rodada já era maior do que eu.”

[A provação final começou.]

[Elimine o Fantasma Supremo.]

Depois de soltar um suspiro, Eun-Ho dobrou os joelhos e abaixou o centro de gravidade até firmar os pés, bem debaixo do espaço distorcido acima.

Fuuush!

De repente, uma névoa negra entre líquido e gás cobriu o teto inteiro. Então, sem um único som, uma massa gigantesca despencou de cima, expelida como uma tosse silenciosa.

O Fantasma Supremo vinha direto na cabeça dele. Normalmente, ele teria se esquivado sem hesitar.

— Petrificar! Invocar!

Desta vez, porém, ele firmou a espada. A lâmina estalou de energia, reforçada pela Petrificação. Então, num único movimento contínuo, ele a ergueu bem acima da cabeça. Um segundo, até um décimo de segundo, podia fazer toda a diferença.

“Eu tenho que acabar com isso num golpe só.”

Tunc! Creck! Creck.

[A Explosão Elétrica foi ativada.]

[Explosão Elétrica restante: 4 usos.]

A espada subiu, perfurando entre as pernas do Fantasma Supremo enquanto ele caía.

Keeuugh!

Com um guincho ensurdecedor, o Fantasma Supremo se debateu numa dor insuportável, afrouxando o aperto no porrete de ferro gigantesco.

O couro grosso dele tinha servido como armadura, protegendo a vida até ali. Só que a ponta estalando da lâmina de Eun-Ho brilhou como relâmpago. Ele empurrou mais fundo, enfiando a espada inteira no núcleo do Fantasma Supremo.

Com um som nojento e úmido, o corpo enorme se abriu, contorcendo-se enquanto se partia. Sangue vermelho-escuro e fumegante jorrou como uma cachoeira. Mas não havia tempo para admirar.

[Você eliminou o Fantasma Supremo.]

[Vagão 18 foi concluído.]

[09:45]

Em seguida vinha o Vagão 17. Desta vez, ele tinha que usar a habilidade Aceleração.


Eun-Ho alternou entre Petrificar e Aceleração, controlando com cuidado a Recarga de cada uma.

“Estou mais rápido do que na segunda rodada!”

Sem Aceleração, ele seria lento demais. Sem Petrificar, a espada elétrica não funcionava. Na segunda rodada, ele tinha perdido muito tempo só esperando as Recargas passarem.

— Invocar a Espada de Ferro Azure!

Quando Petrificar estava disponível, ele invocava a Espada de Bico Navalha Eletrificada. Quando não estava, usava a que tinha pegado com Lee Ye-Ji.

[Um observador anônimo ficou satisfeito pelo Sujeito Lee Eun-Ho ter monopolizado todas as armas.]

“Pegar aquela espada foi um movimento genial.”

A espada da Lee Ye-Ji comprou tempo precioso. Além disso, ao repassar o conselho do cara boca suja de ficar escondido do lado de fora do trem, Eun-Ho garantiu que ninguém fosse ferido.

Quando ele finalmente derrotou o Fantasma Supremo no Vagão 13, onde Yoon Sol-Ah tinha se escondido, a criatura deixou o porrete gigantesco cair no chão, sem perceber que o fim estava perto.

[Um presente chegou do Sujeito Kim Ji-Eun!]

[Gostaria de verificar?]

Veio uma resposta da Ji-Eun junto de um par de meias amareladas ou do que algum dia já foram meias.

  • Para: Lee Eun-Ho
  • De: Kim Ji-Eun
  • Mensagem: Concluí os vagões 1 ao 3. Vou ajudar até o vagão 6 e voltar. Se cuida!

“Graças a Deus ela está bem.”

O alívio tomou conta dele. O Fantasma era lento, então ela daria um jeito. Ji-Eun sempre foi a segunda melhor exterminadora de zumbis da Força-Tarefa, logo atrás dele. E os instintos dela em combate eram mais afiados do que qualquer um imaginava.

[08:20]

Eun-Ho estava adiantado. Mesmo contando o tempo de voltar, ele se sentiu um pouco mais tranquilo ao pensar que Ji-Eun podia avançar até o Vagão 6.

A ideia trouxe uma calma rara. Era isso que significava confiar de verdade que alguém estava cobrindo suas costas? Era estranho e reconfortante ao mesmo tempo.

“Nesse ritmo, a gente vai conseguir. Vai dar.”

À medida que o ritmo dos movimentos ficava mais suave, uma faísca de confiança acendeu dentro dele. Essa confiança durou até ele chegar ao Vagão 11. Eun-Ho não tinha ido tão longe na segunda rodada.

No instante em que a porta abriu, o cheiro de sangue bateu nele como uma onda. Logo depois veio a visão. Pedaços de carne espalhados pelo centro do corredor, marcados num vermelho profundo.

“Um uniforme…”

O uniforme preto, quase inteiro, era tudo que restava para identificar o corpo. Era aquele cara resmungão que tinha ficado na equipe com o pai e a filha na provação anterior. Parecia que ele tinha sido esmagado antes mesmo de correr, provavelmente por um monstro caindo do teto.

Griiih!

— Aceleração... — Forçando as palavras a saírem da boca seca, Eun-Ho lidou com o Fantasma Supremo que vinha na direção dele e seguiu para o Vagão 10.

Antes mesmo de conseguir processar, aconteceu de novo: mais um corpo.

Eun-Ho ficou em silêncio. Havia um par de óculos quebrados no Vagão 10 e um crachá de identificação meio submerso numa poça de sangue no Vagão 9. Os rostos estavam destruídos demais para reconhecer, achatados por um porrete pesado.

[O Corvo do Departamento de Gestão estala a língua diante da fraqueza patética de alguns sujeitos.]

[O Príncipe do Departamento de Investigação retruca que esse é um resultado esperado.]

— Calem a boca. —Eun-Ho acabou gritando antes que ele percebesse.

O homem esmagado sob o peso do monstro podia ser qualquer um deles; podia ser ele. Todo esforço, tudo que essas pessoas tinham lutado para sobreviver, era apagado num instante por esse sistema frio e impiedoso.

Lá no alto, os espectadores assistiam, rindo do banho de sangue como se fosse só mais um show.

[Um observador anônimo advertiu que o último comentário foi perigoso.]

[O Príncipe do Departamento de Investigação se enfureceu, dizendo que ele é um sujeito insolente.]

Eun-Ho não se importou mais. Ele não ia cooperar.

— Vão se foder.

Os pés dele hesitaram. O horror grudou nele como eletricidade estática, mesmo assim, ele abriu a próxima porta. Ele precisava continuar para sobreviver. E precisava salvar quem ainda estivesse vivo.

Eun-Ho correu para cima do Fantasma Supremo sem hesitar com a espada erguida. O Fantasma Supremo abriu a boca torta e serrilhada.

Ao ver isso, Eun-Ho golpeou de cima para baixo repetidas vezes, rasgando a carne grossa até o osso preto e branco aparecer. Ele esvaziou a mente, deixando instinto e memória muscular assumirem.

O Vagão 7 finalmente surgiu à vista, o que significava que o Vagão 6 era o próximo.

“Assim que eu encontrar a Ji-Eun, eu volto.”

Se Ji-Eun tinha chegado até ali vindo da frente do trem, isso significava que eles tinham concluído todos os vagões. Faltava matar mais um Fantasma Supremo e ele estaria lá.

Fuuush!

“Hã?”

O Fantasma Supremo do Vagão 7 já estava morto. Os assentos estavam destruídos, com apoios de braço ensanguentados. Além disso, as pernas da criatura foram decepadas, e o crânio estava amassado como se tivesse sido esmagado por uma arma contundente.

“Isso só pode ter sido o Jae-Hyuk!”

Ele foi a primeira pessoa além de Eun-Ho a derrubar um Fantasma Supremo. Foi como encontrar outro sobrevivente de naufrágio no meio de um mar infinito. Ele não perdeu um segundo: escancarou a porta do Vagão 6 e entrou disparado.

Clang!

O porrete de ferro de um Fantasma Supremo bateu contra a armadura de Jae-Hyuk com um som metálico e duro. A espada dele estava no chão, a alguns metros de distância.

— Você tem que sobreviver, senhor! Você precisa ver sua filha de novo!

Keugh! Eu não devia ter te arrastado pra esse lugar!

Clang! Clang! Clang!

Sem arma, Jae-Hyuk desviou golpe após golpe, usando o próprio corpo como escudo para o homem mais velho atrás dele. Eun-Ho observou com o coração batendo forte.

Quando eles tinham lutado contra zumbis juntos, Jae-Hyuk tinha servido de escudo para Eun-Ho mais de uma vez. Agora ele parecia quase heroico, enfrentando o porrete de um Fantasma Supremo só com o próprio corpo.

— Não, senhor! O Hyungnim me disse pra ajudar quem está perto da gente!

— Espera, você está falando… daquele que salvou a gente antes?

— Sim! É isso!

— Vocês são todos… incríveis…

O velho parecia que ia chorar. Eun-Ho decidiu entrar antes que a cena ficasse ainda mais dramática. Ele saltou e enfiou a espada fundo nas costas do Fantasma Supremo.

Bzzzzt!

[A Explosão Elétrica foi ativada.]

[Você usou todas as cargas restantes da Explosão Elétrica.]

[Você eliminou o Fantasma Supremo.]

[Vagão 6 foi concluído.]

— H-Hyungnim!

— Senhor!

Os dois olharam para Eun-Ho como se ele fosse uma corda jogada do céu.

— Hyungniiiim!

— Jae-Hyuk. Você viu a Ji-Eun? — Eun-Ho perguntou.

— A Noonim? — Jae-Hyuk piscou e então negou com a cabeça.

Isso era estranho. Ji-Eun tinha dito que ajudaria até o Vagão 6 e depois voltaria.

“Aconteceu alguma coisa?”

Aaaaaah!

No instante em que um frio desceu pela medula dele, um grito agudo ecoou além das portas de vidro.


Quando eles escancararam a porta do Vagão 5, uma cena horrível os recebeu. Um Fantasma Supremo estava em cima de um assento esmagado, segurando uma colegial no alto pela nuca.

— Meu Deus! Pegou ela! — a faxineira gritou em pânico.

— F-fica calma! Eu vou te salvar! — Ji-Eun tentou soar firme, mas o rosto apavorado entregava.

— P-por favor… me ajuda.

Era a amiga da Yoon Sol-Ah, a mais baixa. Ela estava pálida, tremendo e paralisada, como se qualquer som mínimo fosse provocar a criatura.

Ploc.

Um dos sapatos da garota caiu e aterrissou em cheio no pé do Fantasma Supremo.

— O sapato dela...

Shiu! Silêncio!

Heeergh.

A criatura soltou um chiado rouco, como ar raspando por uma traqueia esmagada, e abaixou a cabeça. Todos ficaram imóveis com os nervos esticados. Um movimento errado e o inferno se soltaria.

Hic

Lágrimas desciam em silêncio pelo rosto da colegial.

— O-o que a gente faz agora?!

— Senhorita Song! Por favor, fica quieta!

Heeergh.

O Fantasma Supremo estava a menos de três metros. Se Eun-Ho encaixasse o tempo certinho, talvez ele conseguisse usar Aceleração para pegar a garota.

Aceleração!

[A habilidade está em Recarga. 43 segundos, 42 segundos, 41 segundos…]

“Droga!”

— Eu vou!

— Não, Jae-Hyuk! — Eun-Ho segurou Jae-Hyuk quando ele foi pegar a espada. — Essa espada longa é arriscada demais! Um golpe errado e você pode cortar a garota também!

O Fantasma Supremo sabia disso e a usava como escudo humano.

— Então o que a gente faz, Hyungnim?!

— Trinta e nove, trinta e oito, trinta e sete… eu só preciso de tempo — Eun-Ho respondeu.

Ele apertou mais o punho da espada, esperando o tempo de recarga.

Ji-Eun deu um passo à frente de repente, com os lábios fechados numa linha firme e decidida. Na mão esquerda, uma lâmina com borda fina; na direita, uma adaga brilhou sob a luz fraca.

— Cabeça!

“Ela vai arremessar?! Isso é arriscado demais!” Eun-Ho pensou.

— Ji-Eun! Se você errar, ela pode morrer! — Eun-Ho gritou em desespero, mas a adaga já estava no ar.

Fuuush!

A lâmina voou em linha reta, um risco prateado mirando o coração do Fantasma Supremo. A trajetória era perfeita, como uma lança arremessada por um guerreiro experiente.

Mas o Fantasma Supremo se mexeu. Ele grunhiu e ajustou o aperto, erguendo a garota diante do peito como escudo.

Kyaaaah!

— Nããão!

A garota gritou quando a lâmina veio na direção da cabeça dela, e a voz da Ji-Eun rachou de pânico.

“Isso é ruim.”

Eun-Ho se moveu por instinto, tivesse habilidade pronta ou não. Ele avançou, mas a adaga passou fora do alcance.

Kyaaaaah!

Tunc!

A adaga se cravou bem no meio da testa do Fantasma Supremo, até o cabo.

— Aaaah! Me ajudeeee! Ué, ?

Creeeck.

Um fio grosso de sangue escorreu do ferimento, descendo pelo rosto do Fantasma Supremo enquanto a testa trincava.

— Espera. Vocês viram isso?

— E-essa coisa… fez curva?

A adaga mudou de direção no meio do ar. Mesmo já tendo saído da mão da Ji-Eun fazia tempo, ainda assim fez uma curva mínima, o suficiente para acertar exatamente onde precisava.

— E-estamos vivos?

Tump!

A garota escorregou do aperto frouxo do Fantasma Supremo e caiu no chão, com as pernas falhando de puro alívio.

— O que foi isso?

Ji-Eun ficou paralisada de olhos arregalados, alternando o olhar entre a criança soluçando e as próprias mãos tremendo.

Então, mais para si mesma do que para qualquer um, ela sussurrou duas palavras familiares: — Dados de habilidade?

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