Sinph Star Brasileira

Autor(a): SoulPeak


Volume I

Capítulo 30: Morte Certa

 — Eu provavelmente deveria ter pago um pouco a mais no saco de dormir. Caralho, tô basicamente dormindo no chão.

— Nós te avisamos, cabeção. Uma moeda de prata a mais e você poderia ter comprado um igual ao nosso.

Reid era o único com um saco de dormir barato, até mesmo Allastor gastara um bom dinheiro no seu. O garoto não gostava de gastar dinheiro com coisas assim, algo que o fazia arrepender-se com muita frequência. Parando para pensar, ele nunca comprou nada bom para si mesmo.

— Reid.

— Eu.

Trevor estava em seu próprio saco de dormir, deitado bem próximo de Reid.

— Você também fica meio mal... vendo aqueles dois?

— Você tá falando do Jin e da Elise?

— Uhum. Quando acordo para ir no banheiro de noite, escuto sem querer as conversas deles. Cara. Que merda.

— Nem me diga. — o garoto não se estendeu no assunto.

Mais um pouco de silêncio.

— Hoje é o dia, sim? Que vamos entrar na masmorra. Cê tá nervoso? — Trevor não tirava os olhos do crepitante fogo da fogueira.

— Não tanto, para falar a verdade. E você?

— Confesso que sim. É a minha primeira vez, e se eu ferrar tudo?

— É normal, relaxa um pouco. Mesmo que você foda tudo, nosso grupo é forte o suficiente para que não tenhamos nenhuma baixa.

Essas palavras de apoio não conseguiram fazer o garoto relaxar. Foi uma longa noite.

O dia amanheceu dando espaço para uma garoa bem rigorosa. Felizmente, o grupo já tinha tomado a decisão de sair antes do nascer do sol. Todos estavam ansiosos. Alguns mais do que outros. Valkyrie e Trevor estavam uma pilha de nervos.

— Vocês estão sofrendo à toa. Relaxem e se lembrem do treinamento. — o grupo andava em uma fila, com Allastor na frente e Elise atrás. — Pelo menos tentem respirar do modo certo.

— É fácil pra você falar.

 

O caminho para a Cripta não era muito longo, uma trilha que já vira muitas pegadas. Uma entrada que já cravara muitos caixões vazios. Uma mãe que nunca mais vira a face daquela criança por qual daria a própria vida. Uma sensação que nem mesmo o melhor dos lúdicos, nem o pior dos poetas poderiam descrever. Mataria por um desejo? Morreria por uma vontade?

— A partir de agora, é terra sem dono. Prestem muita atenção por onde andam. Não quero ter que... bom, vocês já sabem. Não preciso ficar fingindo. — Jin apontou para o seu peito. — Não vamos descer muito, essa aqui ainda não foi explorada até o fim, vamos ficar bem nos primeiros andares.

Uma fenda quase... artificial no meio de uma gigantesca rocha marcava o ponto de entrada da masmorra. Várias pegadas entrando, nenhuma saindo. Uma adaga cega e enferrujada estava cravada bem profundamente na parte esquerda da entrada, em sua lâmina, encravada, uma frase que dizia "Morte Certa".

— Nada convidativo. A gente vai só ignorar qualquer sinal, né não?

— Eu não andei tudo aquilo pra dar pra trás, Trevor.

— Tem... tem razão, Reid. Você vai na frente! — o garoto foi empurrado.

Reid foi o primeiro a entrar na fenda, seguido por Elise e Jin no seu encalço. Um cheiro muito... peculiar invadiu as suas narinas, um cheiro viciante, doce e azedo ao mesmo tempo. No chão, diversas ossadas indescritíveis se encontravam amontoadas, Reid preferiu acreditar que fossem de animais. — Laranjeira. — era um cheiro inesquecível.

— Vocês não acham que os outros já deveriam ter entrado?

O garoto tentou voltar pela entrada, mas... encontrou somente uma parede sólida.

— É assim que começa, porra!

— Relaxa, Reid. O que quer que seja a coisa que controla esse lugar, escolheu muito mal a separação do grupo.

Os três olharam a parede por mais algum tempo, e por mais que tentassem, Reid e Elise não conseguiram danificar a estrutura; Jin não ganhou o direito de gastar mana, não em uma situação como essa. Surpreendentemente, ou não, nenhum dos três demonstrou mais algum sinal de desespero.

— Acham que foi de propósito? Quer dizer, nosso grupo ser esse e tal.

— Acho que o número de participantes, sim. Não as pessoas especificamente. Se lembra que Trevor te empurrou para passar na frente dele? Provavelmente, estariam Trevor, Reid e eu aqui dentro. — Elise sempre fora boa em manter a calma dentro de masmorras, podia-se ver até mesmo um pequeno sorriso de excitação no canto de seus lábios.

— Elise tem razão, Reid. De qualquer jeito, nosso grupo não é daqueles que depende só de uma peça como essência para funcionar. Allastor deve estar gargalhando de excitação agora. Ele sempre fazia isso quando caíamos em armadilhas.

— Bom... vocês têm razão. Nosso grupo me parece imparável e o deles no mínimo vai fazer tio Allastor se divertir. Entã... — uma nota. Uma arrastada e desafinada nota de piano veio do corredor atrás do trio. Depois, outra. E mais outra. Cada uma mais arrastada que a outra.

— Vocês estão?

Os três fizeram que sim com a cabeça.

— É uma... melodia. Trevor me ensinou a pelo menos reconhecer. Não é aleatória. — Reid estava certo. Por mais que de forma lenta e desafinada, as notas formavam uma pequena melodia. — Só não sei dizer qual é.

— Boa observação, Reid. É meio... macabra, não? Quer dizer, a coisa que está tocando, com certeza é ciente. Um monstro de categoria alta.

— Lichs não fazem isso, fazem? — Elise agarrou a mão direita de Jin, sem muita pressão.

— Não...

— Então? Vamos ficar aqui ou vamos atrás desse som?

Ninguém disse mais nada, apenas aceitando que estavam perdendo tempo ali. Elise seguiu na frente, Jin no meio e Reid no fim da fila. O piano estava ficando mais lento com o passar do tempo. Os corredores eram muito estreitos, com diversos arranhados nas paredes, manchas pretas e sinais de abandono.

— Reid, dá pra parar de cantarolar a canção macabra?

— Foi mal, ficou na cabeça. Mas perceberam que ela parou?

Um silêncio ensurdecedor cobriu o grupo. Elise conseguia ouvir até mesmo os próprios batimentos.

— Me sinto num daqueles seus livros, Jin. Aqueles de terror.

— Vamos seguir.

— Olhem! Um... esqueleto. — Reid nunca sacara sua espada tão rápido. — Uau. Acho que me animei pra nada. Quem quer fazer as honras? Tô brincando, eu mesmo faço. — enquanto ativava sua técnica dos cem passos, o garoto tinha um sorriso brincalhão no rosto. Em menos de um piscar de olhos, Reid tinha sua lâmina erguida no ar, com um destino certo: partir a criatura em dois.

— Ele realmente melhorou, não?

— Eu te disse, Jin. Eles não são mais crianças. — a mulher pensou um pouquinho antes de falar. — Quer dizer, esse aí eu não tenho tanta certeza. Reid! Tem mais alguns vindo, pelo corredor da esquerda. — Elise sacara sua espada, a Trovoada, numa velocidade ainda mais impressionante que Reid. Diversas faíscas amarelas dançavam ao redor do fio da lâmina, uma reação que mudava de intensidade dependendo do humor da mulher.

— Vocês dois têm o mesmo sorriso...

Um grupo de setenta esqueletos foi devastado por Reid e Elise, com um triste Jin dando "cobertura" por trás, consistindo em instruções sem muita serventia, já que os três tinham estilos de luta muito diferentes. A cada golpe, a espada de Reid pulsava em violáceo, "respirando" e dando sua opinião sobre os golpes. A de Elise não chegava a ter a mesma característica, mas ela e Elise eram basicamente um, quando em batalha. Algumas vezes, durante o combate, Reid teve que desviar de fagulhas amarelas sem destino.

— Por mais... que tenha... sido divertido. — Reid respirava audivelmente. — Isso aqui não foi muito fácil? Quer dizer, nem usamos técnicas, só esgrima crua.

— E por que cê tá suando, Senhor da Espada? — Elise também respirava audivelmente, mas mais por conta da quantidade de corpos que teve que acertar.

— Qual é, vocês dois? Nunca entraram numa masmorra antes? Isso aí foi só pra começar. — Jin tinha um pequeno biquinho, afinal, os dois tinham gritado com ele quando o homem tentou lançar um feitiço de magma no grupo de esqueletos.

— Verdade. Vamos indo então!

— Tá ficando mais difícil pisar em algo que não seja osso. Meu Deus, quanta gente morreu aqui?

— Muito mais do que você imagina. Nenhum grupo que não tivesse aventureiros de elite saiu para contar a história.

— Olhem, aquela porta não parece macabra? — o garoto apontou sorrindo para uma enorme porta feita de pedra-de-limo. — Aposto que o nosso pianista deve estar lá dentro. Quero um autógrafo.

— Faça as honras. Quanto antes matarmos essa coisa, menos trabalho teremos.

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