Volume 1

Capítulo 15: Canibalismo (6)

 

Enquanto isso, a perseguição sobre o trio continuava. Os canibais não conseguiam alcançar de fato nenhum deles, mas também não ficavam para trás: o primeiro que se desconcentrasse levaria a pior. A ordem era: Ethan em um canto, Lucy no outro, e David no meio.

Dos escombros do prédio, os ghouls machos pegavam destroços enormes e até pedaços de carros quebrados com suas forças descomunais, enquanto as fêmeas que não estavam em perseguição, respiravam fundo para usarem seus gritos.

Os objetos eram arremessados e os pedaços de construção estavam a maior parte indo em Ethan e David, enquanto as partes de carro em Lucy. O garoto olhava para trás e se assustava, gritando no puro susto:

— Cuidado! – logo em seguida ele saltava, porém, com o uso de suas botas, que agora estavam sugando sua energia vital em troca do garoto ter mais vantagens, ele acaba saltando mais alto que os destroços, acertando apenas o chão e estilhaçando-se. O menino quase tropeça ao aterrissar, mas é retomado à corrida por Lucy, que o segura pelo braço.

David concentrava sua criocinese e jogava as mãos para trás, criando um escudo de gelo para proteger ele e Lucy, fazendo os pedaços de carro se quebrarem junto da barreira após se chocarem.

Já Lucy retirava um pouco mais de sangue do corte no braço e respirava fundo, fazendo mais uma bala de sangue. Ela então saltava ao mesmo tempo em que se virava, jogando-se de costas enquanto mirava.

A ruiva então disparava o projétil que ia a uma velocidade absurda, acertando em cheio um dos ghouls que estava na perseguição bem em seu rosto, logo após ela explodia parte de trás de sua cabeça, fazendo aquele canibal cair inconsciente no chão.

Enquanto a ruiva caía, David estendia o braço e segurava Lucy pelas costas, impedindo-a de cair no chão para assim continuar sua corrida.

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Enquanto isso, Mary ficava escondida, somente preparada para atacar. Ela não sentia energia nenhuma e não ouvia nenhum barulho, então ela aproveita para retomar o fôlego, suspirando e começando a sussurrar sozinha.

— O que eu tô fazendo? Eu sou uma molenga mesmo.

Mary pensava o porquê de ela estar fazendo aquilo, por que ela estava interferindo em um assunto que tinha mais haver com a vila dos Cicatrizes do que com os Heróis. Por que ela estava confiando em pessoas que até alguns dias só a menosprezavam e ainda confiando alguém como o Ethan a elas, mesmo que por pouco tempo. 

Ela não sabia responder se havia amolecido o suficiente ou se as pessoas é que descobriram como passar por sua frieza, mas ela não exatamente achava ruim aquilo. Não gostava da ideia de se apegar muito, pois sabia que iria sofrer se houvesse uma perda, mas ela mesma parecia querer mais afeto.

Ela acabava lembrando que, no começo, na primeira vez que trabalhou com os Cicatrizes, ela foi muito bem recebida, Lucy inclusive chegou a tentar se enturmar com ela, mas Mary não permitiu que ela se aprofundasse nisso. O irmão de David, Ryan, foi quem mais insistiu em se aproximar de Mary: sentava para conversar e falava o quanto seu irmão era cabeça-dura, a assassina até mesmo chegou a sorrir com uma piada dele.

Ela tinha se apegado, tanto que, na hora de sua partida, a albina sentiu um enorme aperto no coração, antes de se despedir e abandoná-lo para permitir que os reféns escapassem com vida. Mary viu mais um amigo morrer. E obviamente aquela não tinha sido a primeira vez. A albina pensava sobre isso e se perguntava:

— E se eu tivesse feito diferente?

 Até que ela sentiu dois ghouls perto dali, porém, em vez de estarem procurando pela presa, eles estavam conversando.

— Vamos, Rebecca, temos que ajudar na caça. – Victor dizia.

— Que seja, eu não vou ganhar a refeição de novo... – Rebecca dizia, encostada na parede com os braços cruzados e uma expressão que misturava raiva e tristeza.

— Rebecca, deixa de ser birrenta, você entregou nossa posição. – respondeu Victor, tentando puxar a garota pelo braço. – Foi merecido.

— Uau, desculpa por praticamente me sacrificar para que soubéssemos o que nos aguardava naquela vila. – ela o fez largar seu braço para os cruzar novamente. Rebecca então sussurrava para si mesma. – Não importa se somos da mesma espécie, ainda estou abaixo de todos ali...

— O quê? – perguntou, como se tivesse escutado parte do sussurro.

— Deixa pra lá... Eu tô sozinha mesmo, nem você me quer do seu lado. – Rebecca apertava os lábios com força para não chorar, mas não conseguia e, após dizer isso, saía correndo dali, porém não para se juntar a perseguição, e sim para o lado oposto, porque estava triste.

— Rebe- Rebecca, espera! – Victor ia atrás dela. Mary conseguiu escutar tudo enquanto escondida, nisso ela começava a planejar seu movimento.

— Para de me seguir! – Rebecca dizia para o garoto e até derrubava alguns pedaços de construções no caminho para atrasá-lo. Tudo isso enquanto ela lacrimejava.

— Rebecca! Espera. Eu não queria...  Espera! – Victor tentava alcança-la, livrando-se dos escombros até com facilidade, mas, quando menos percebeu, já a tinha perdido de vista.

— Me deixa em paz, Victor! – ela gritava uma última vez, encostando-se na parede de um estabelecimento e, enquanto se abraçava, ela lacrimejava. Enquanto isso, Victor continuava a procurando-a.

A ghoul pensava e dizia para si mesma que, mesmo sendo da mesma espécie, naquela “família” de canibais ainda havia diferenças, rejeições e preconceito. Na prática, eram iguais aos humanos. Aquela situação de ser humilhada parecia familiar para ela, mas não sabia de onde era essa memória. Estava tão concentrada em seu choro e tristeza que nem prestou atenção em um vulto bem em sua frente.

Mary se aproximava muito rapidamente, chegando bem perto do rosto de Rebecca e bloqueando a boca dela com a mão. Ela ficava assustada por um momento, a primeira emoção que Mary viu de um canibal além dos sorrisos sádicos.

— Quase. – disse Mary, antes de enfiar a faca que estava segurando bem na lateral da cabeça de Rebecca, atravessando até a metade de seu cérebro. Isso impede a canibal de gritar e também a deixa inconsciente.

— Rebecca, Rebecca! – Victor era escutado se aproximando. Mary olhava para os lados e pegava um pouco de pó de cimento que havia ali perto, e quando ele virou a esquerda, viu, mesmo que por um segundo, Rebecca caída nos braços de uma figura feminina.

Antes que ele pudesse sequer falar algo, a albina jogou o pó em seu rosto e em seguida deu um forte chute no peito de Victor, jogando-o para trás.

Por um momento, ele ficava impressionado, pois ele nunca havia recebido um golpe tão forte de alguém antes, considerando que ele próprio era mais forte que um humano normal. Fazia tempo que ele não cuspia sangue ou sentia um osso seu quebrando.

Victor limpava seus olhos após se recompor e tossir um pouco de sangue. Ele olhava com uma expressão de raiva, porém não havia mais ninguém lá. O garoto olhava em volta e ficava desesperado, suas garras se aparentavam novamente e suas veias salientadas.

— Aparece, larga ela! Me leva no lugar dela! – Victor tentava gritar para o céu, mas nenhuma resposta foi escutada até tentou sentir algum cheiro de sangue, principalmente o de Rebecca, mas não conseguia por algum motivo. O ghoul enfim começava a correr desesperadamente à procura dela.

Mary estava em um prédio em ruínas próximo, com a garota nos braços. Para impedir o sangue de jorrar, ela estava com o dedo  enfiado dentro do buraco que causou com a faca, e por mais que algumas gotas caíssem, grande parte acabava contida, então por mais que a biologia ghoul dela tentasse, não conseguia regenerar por completo seu cérebro.

Era uma sensação estranha sentir um órgão se reconstruindo, mas ela apenas ignorava e pensava seu próximo movimento, até que a albina escutou gritos muito altos vindo da direção do prédio que derrubaram.

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Enquanto isso, a perseguição dos ghouls pelo trio, parecia não ter fim. Mesmo que Ethan conseguisse desviar dos escombros e buracos no caminho com facilidade, ele ainda estava se acostumando com os coturnos, então ocasionalmente ele tropeçava e era retomado à corrida após realizar uma acrobacia rápida no ar. Felizmente não estava descontrolado.

Lucy não poderia ficar repetindo as balas de sangue com a mesma manobra de antes, pois os canibais já haviam entendido a estratégia. David precisaria de tempo se quisesse realizar um golpe de gelo mais poderoso, assim como para fazer uma parede mais resistente.

 Ele se culpava por essa limitação, David sabia que podia fazer muito mais se pudesse, mas algo estava o acorrentando a um limite, como se algo fosse acontecer caso ele realmente usasse todo seu poder.

Ethan acabava se lembrando de um detalhe, gritando para a dupla ao seu lado:

— As ghouls mulheres gritam!

— O quê?! – o casal não entendia a pergunta, estavam mais concentrados em como iriam despistar aqueles seres.

E, por causa disso, as fêmeas do bando soltaram seus gritos ensurdecedores, Ethan se antecipou e protegeu seus ouvidos, mas ainda assim estavam extremamente altos.

— AAAAAAHHHHHH!! – os dois gritavam de dor, enquanto Ethan somente gemia por cobrir seus ouvidos a tempo.

David sentia uma dor latejante em seus ouvidos, sua cabeça começava a rodar, estava ficando zonzo e perder velocidade. Tanto que, quando ele menos esperou, um ghoul conseguiu agarrar sua blusa por trás.

Felizmente, David tentou se concentrar e focar o máximo que conseguia, e poucos instantes depois que o canibal agarrou a vestimenta do singular, sua mão foi congelada e, após o gelo preencher toda a mão do ghoul, ela se despedaçava. Cerca de um segundo para voltar a se concentrar e mais um para usar seu poder.

Lucy acabou tomando uma medida ainda mais arriscada. Ela retirava por um instante seu comunicador e simplesmente enfiava com tudo os dedos em seus ouvidos até estourar seus tímpanos à força, para ela não ficar tão zonza enquanto corria.

Seus ouvidos sangravam e a dor ainda perdurava, mas a ruiva preferia essa dor do que a dor que os gritos das fêmeas causavam à cabeça.

Enquanto tudo isso ocorria, as fêmeas se preparavam para soltar mais um grito, nisso David acabava tendo uma ideia. Ele começava a fazer linguagem de sinais para Lucy, e eles diziam: “disperse nosso rastro, eu vou tirar a visão deles.”

Levou alguns segundos para a ruiva entender, estava difícil de se concentrar, estavam correndo a toda velocidade com gritos agudos em seus ouvidos, mas ela compreendeu. Lucy começava então a levitar todo o sangue que estava nas roupas e corpo do trio, enquanto David segurava Ethan e o colocava em suas costas. O garoto ficava confuso, mas, por estar desesperado, agarrava com força no singular.

— Se segura firme! – David começava a canalizar o gelo em suas mãos e parecia criar uma esfera de vapor gelado concentrada. Lucy então começava a contar nos dedos: três, dois, um.

Ao mesmo tempo, David e Lucy dispersaram vapor gelado e sangue para os lados. A nuvem fria cobria a rua toda em que eles estavam correndo, que já era larga, e agora os ghouls estavam sentindo cheiro de sangue em todo canto.

Os machos que estavam em perseguição acabam até mesmo trombando uns nos outros por não estarem achando suas benditas presas. O cheiro de sangue para todo lado, mais os barulhos de passos dos próprios canibais, estava deixando-os sem direção.

— Onde eles foram?! – Henri gritava e esperava que alguém respondesse.

— Não consigo achar eles! – Leon respondia, nervoso, pois estava todo confuso.

Enquanto eles ficavam perdidos, em um sobrado a algumas quadras de onde eles estavam, os três estavam lá dentro, escondidos e ofegantes. David e Lucy estavam conseguindo recuperar a respiração normal, porém Ethan estava hiperventilando, abraçando-se e com uma expressão de medo constante.

— Ethan. – Lucy tentou tocar no ombro do menino, que recuou, assustado. Ela se aproximava, devagar e sem estresse. – Calma... Já passou, já estamos seguros.

— Mas... E a Mary? Será que eles a pegaram? E se pegaram, ela vai conseguir escapar? Ela vai voltar, né? – ele dizia com um olhar ainda assustado, um menino traumatizado.

— Calma. Calminha, ela vai nos encontrar. – Lucy procurava e encontrava um corte no braço de Ethan, onde ela colocava sua mão nele e por estar em contato com o sangue do menino, conseguia ajustar seu fluxo sanguíneo, acalmando o coração do menino e aliviando sua tensão.

O garoto vai voltando a respirar normalmente, e, conforme a adrenalina vai passando, as lágrimas vão caindo de seus olhos, e ele encostava na parede ao lado por estar cansado. David colocava a mão no ombro de Ethan e sorria conforme ofegava.

— Vai ficar tudo bem, relaxa. – o menino inclusive achou engraçado o sorriso de David, pois ele ficava com covinhas na bochecha quando fazia essa expressão. Lucy aproveitava a situação para soltar um pouco seu cabelo, arrumando-o.

Agora que Ethan estava mais calmo, ele não sentia energia de singulares próximos fora David e Lucy, ele então ele estava preocupado em mesmo se Mary os encontraria, porque, de certa forma, ele confiava que viva ela sairia, afinal era mestra dele.

O trio se sentava por alguns minutos, não ouviam mais gritos de ghouls, nem passos, e o menino não sentia energias se aproximando. Lucy usa desse momento calmo para sussurrar para David enquanto Ethan estava distraído.

— Ele mal consegue usar o poder dele nessa situação. Eu sinto pena dele, é só uma criança, catorze anos e ele já tem olheiras maiores que as minhas. – Lucy dizia, de certa forma, preocupada.

— Bom, não é exatamente culpa da Mary. Mesmo que colocar uma criança nessas situações seja meio complicado, ele meio que quis isso, talvez ele não queira ser abandonado. Então dessa vez eu entendo a Mary. – David respondia, oferecendo seu ombro para Lucy deitar a cabeça.

— Abandonado é... – a ruiva se escorava no namorado e tinha algumas lembranças de seu passado. – Ah, verdade. Ethan. – chamou pelo garoto, que parecia querer pegar no sono, como todos ali.

— Hã? – ele dizia, tentando manter os olhos abertos.

— Como conseguiu correr tão rápido daquele jeito? – Lucy também estava se esforçando, seu controle de sangue infelizmente não tinha efeito sobre seu sono.

— Ah. E-eu não posso falar. – ele dizia um pouco hesitante, não sabia quais seriam as consequências de contar a verdade. O casal se olhava por um tempo e afirmavam juntos.

— Mary. – David apenas disse isso.

— Por que não estou impressionada? Ela nunca revelou coisas sobre ela. – assim que a ruiva terminava sua frase, os três recebiam um chamado em seus comunicadores. Assustados por um momento, eles clicavam no objeto e escutavam uma voz feminina.

— Estão com sono já? – Mary dizia, mas mantendo seu tom frio na voz. Quando escutou sua mestra, Ethan abriu um sorriso, podendo respirar tranquilamente, pois ela estava viva. – Ethan, na escuta?

— S-s-sim senhora. – respondeu com uma visível preocupação na voz.

— Não chore, vai desidratar. Ethan, preciso de uma ajuda sua. Já sei onde estão e estou a caminho, preciso testar uma coisa.

David pensava e raciocinava por alguns segundos, até perguntar para Mary.

— Você tá trazendo uma ghoul para cá? – ele não parecia muito feliz, porém não estava surpreso pela atitude da albina.

— Sem estresse, ela está contida. Eu só preciso arrancar algumas informações, pode ser vital para nosso futuro e dos Cicatrizes.

— Eu já desisti de te questionar. – Lucy respondia, suspirando.

— Não é a mim que devem questionar. – porém, dessa vez, a voz de Mary parecia estar bem mais perto, nem era do comunicador de onde estava vindo a voz dela, e sim da porta do cômodo em que o trio estava. Mary havia chegado.

David tomava um susto e quase se joga para trás.

— Puta merda... Avisa pelo menos. – ele dizia enquanto ofegava.

— Não podia fazer muito barulho. – Mary respondia. Apesar da voz fria, ela parecia menos formal para conversar agora.

Ethan, quando viu sua mestra em sua frente novamente, lacrimejou e correu em sua direção, abraçando-a. Mary ficava um pouco surpresa, mas aceitava o abraço, só não chega retribuiu pois não sabia bem como reagir. A albina colocava a mão no rosto do menino calmamente e dizia com a voz de certa forma autoritária, mas dessa vez, reconfortante dela:

— Não chore, vai desidratar.

O garoto percebia que estava lacrimejando e secava suas lágrimas na gola da camiseta, e depois assumia uma postura ereta e acenava para sua mestra.

— Sim.

— Cadê a ghoul? – perguntou Lucy.

Mary então puxava, com seu braço direito, Rebecca pela gola, revelando-a para os três ali. A garota estava com uma expressão de morta praticamente, pois a faca continuava em sua cabeça, porém o sangue já estava seco.

Além disso, ela estava com as mãos amarradas por correntes com uma espessura um pouco grossa, e em sua boca estava um pedaço de concreto, para impedir que ela gritasse quando acordasse. Os três acharam um pouco nojento aquela cena, mas nada que não pudessem aguentar.

— Vamos começar o interrogatório. – disse Mary.



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