Santo Renegado Brasileira

Autor(a): Tomas Rohga


Volume 1

Capítulo 3: Contagem regressiva

Erik tinha uma recordação. Devia ter uns quatro ou cinco anos de idade e, na sua cabeça, era a primeira de todas.

Naquele dia, estava sentado no tapete da sala e sua avó chorava ao celular.

Ti foi, vovó? — Recordou-se da fala.

— Vem aqui, Erik. — Dona Elisa esticou o braço livre para apanhar o neto no colo. — Lembra que papai e mamãe foram viajar pra ajudar algumas pessoas?

A criança concordou várias vezes com a cabeça, enxugando os olhos da mulher com os dedinhos. Ela continuou:

— Então… eles foram… foram visitar o Papai-do-Céu, sabe? Vai demorar um pouco pra gente se encontrar com eles.

— Tá bom, vovó. Eu goto de ficar c’ocê. Eu espero eles voltá!

A mulher enfiou o rosto no pijama da criança e desabou de chorar, soluçando até as lembranças de Erik se tornarem nebulosas de novo.

Anos depois, o garoto finalmente compreendeu o peso daquele episódio, e sua revolta piorou ao descobrir que sua mãe e seu pai haviam sido assassinados à mão armada durante uma ação humanitária numa outra cidade-fortaleza.

Naquela época, várias dessas cidades muradas estavam sendo construídas, mas suas populações ainda carregavam as cicatrizes da violência de uma terra que havia sido o Brasil há pouco tempo.

Seus pais, daquele modo, morreram como vítimas da negligência social; algo que, em sua adolescência, transformou o ressentimento de Erik em revolta quando começou a enxergar justiça nas ações dos espectros, criaturas desconhecidas que, alguns anos antes do incidente, simplesmente emergiram dos mares, florestas, cavernas e até vulcões.

Historiadores chamaram o dia zero de A Calamidade Espectral, um evento tão brutal que toda a hierarquia das espécies foi reorganizada depois dela.

Em um ano, os espectros aniquilaram cinquenta por cento da humanidade, uma hecatombe sem precedentes que alterou o comportamento da sociedade e da política global, isolando os sobreviventes em grandes cidades muradas como Brumário.

O que Erik aprovou naquilo tudo, porém, foi imaginar que os maiores filhos da puta do planeta também sucumbiram — assassinos, políticos e criminosos da pior espécie —, e nenhuma arma, retórica ou exército foi capaz de detê-los.

Pelo menos até a descoberta da Ascensão, o poder que deu origem aos primeiros Cardeais, protetores que só mudaram a opinião de Erik naquele fatídico dia…

O jovem terminava de empacotar suas compras no supermercado. A atendente do caixa sorriu com simpatia, encarando o uniforme de Erik.

— Você estuda na Nova Éden…? Nosso mercado está oferecendo dez por cento de desconto para os nossos futuros heróis. É só escanear o código com o seu aplicativo.

— V-valeu…

BOOOM!

O estrondo causou um pequeno terremoto, dando início à gritaria e ao tumulto de clientes. Alguns curiosos correram até a saída do local e Erik se incluiu entre eles, largando ovos e leite para trás.

— Uma explosão! — bradou uma idosa na calçada, apontando para uma nuvem de fumaça que subia pela noite há alguns quilômetros de distância.

— I-isso não vai atrair os espectros? — perguntou outra pessoa, um homem que estava pálido de medo.

Vai, Erik respondeu mentalmente.

Em seu primeiro ano na Academia, havia aprendido que gases tóxicos e desprendimentos de grandes quantidades de energia — como naquele incêndio — atraíam uma parcela das criaturas como insetos para a luz.

De repente, o celular de Erik começou a apitar, seguido pelo aparelho de todas as pessoas por perto. Ele olhou para a tela e, como esperado, encontrou o aviso:

 

[PERIGO]

[Iminência de ataque espectral. Procure abrigo!]

[Expectativa de Risco: Classe B]

 

Então Erik escutou o barulho: um guincho que ecoou pelos ares. Ele olhou para cima e contemplou uma criatura do tamanho de um ônibus, com escamas negras de carvão e quatro asas membranosas.

A criatura riscava o céu noturno com a aparência de um morcego deformado, deixando escapar um traço de luz ao revelar a característica inconfundível de todos os espectros: o vermelho infernal de seus olhos.

Diante da visão, um sorriso enviesado tomou o semblante de Erik antes que se desse conta.

— Eu morro de medo daquelas coisas. — Aquela idosa de antes se aproximou devagar, mostrando uma expressão simpática. — Que bom que temos vocês pra nos proteger.

O rapaz limpou a garganta e voltou a ficar sério.

— Ainda estou em treinamento.

— Percebi pelo uniforme… Mesmo assim, tenho fé que o seu pessoal vai chegar logo, logo. O povo tá comentando que foi uma explosão pros lados do Distrito das Cravinas. Tem muita gente boa por lá. Ali, veja… — Ela apontou para cima outra vez. — Não disse que os Cardeais chegariam num instante?

A mulher estava certa.

Assim que olhou para o céu, Erik avistou a aproximação de um grupo de seis pessoas planando acima da criatura.

Eles se equilibravam à beira da escotilha de uma Atalaia, um pequeno veículo aéreo de patrulha movido a baterias, que planava sobre o espectro: o emblema de um dos Clã da Ordem dos Cardeais pintado sobre o casco de metal.

Então a surpresa iluminou seu rosto ao reconhecer a formação completa de um grupo de assalto: havia um Paladino carregando uma lança, uma Conjuradora portando um cajado, um Emissário mirando uma flecha a partir do arco, um Guardião usando um escudo maciço, um Luminoso brandindo um cetro e uma Sentinela apontando uma adaga.

Erik vislumbrou a umbrenergia iluminar a ponta do cajado da Conjuradora, junto à flecha do Emissário, que também cintilava, numa preparação para liberarem a primeira ofensiva sobre o inimigo, mas as palavras “Distrito das Cravinas” fizeram todo o resto perder a importância e suas pernas acelerarem pelas ruas.

Vovó! Só conseguia pensar nela.

Ele correu o mais rápido que conseguiu, sentindo o coração enlouquecer dentro do peito ao avistar o longo pescoço do espectro se iluminar de amarelo e disparar uma rajada de fogo na exata direção das construções da sua vizinhança.

Eu devia estar lá com ela, condenou-se. Eu devia estar…

Maldito espectro.

Maldita burrice…

— Vovó!

A escuridão voltou a ganhar cor quando Erik abriu os olhos. Piscou várias vezes para se acostumar à claridade, até começar a reconhecer que estava sobre um leito branco ao redor de alguns aparelhos que apitavam. Era um quarto de hospital.

— Erik! — gritou uma voz aguda.

Em seguida, ele sentiu o abraço repentino de uma idosa de cabelos curtos, acomodada sobre uma cadeira de rodas motorizada na lateral da cama.

— Ai! — reclamou Erik, percebendo seu corpo repleto de ataduras e o perfume gentil do casaco de lã da mulher. — Vó…? Eu… eu tô vivo?

Dona Elisa se afastou e deu um tapinha na mão dele.

— É claro que você tá vivo! Eu sabia que você não demoraria pra acordar. Eu disse pra todas as enfermeiras que o meu neto era bem forte.

— O que aconteceu…?

— Parece que foi um grupo de criminosos, não se lembra? — Ela encarou o neto com os olhos aguados. — A direção da Academia me contou tudo, Erik: eles entraram pra roubar algumas armas, mas toparam com você pelo caminho e te machucaram. Os infelizes te jogaram num buraco antes de fugirem.

A mentira deslavada atingiu o cérebro de Erik como um chicote. Ele trincou os dentes, furioso, mas não surpreso, com a decisão da Academia de acobertar as ações de Vincent.

— Olha, vó… — Fez menção de abrir a boca e contar toda a verdade, mas mudou de ideia ao encarar a cadeira de rodas da idosa. Ela não precisava de mais preocupações. Pigarreou: — De qualquer modo, há quanto tempo eu tô aqui?

— Uma semana, querido.

— Uma semana?! — Seus olhos se escancararam ao ser atingido por outra lembrança. Algo ainda mais urgente: — Mas e a Bianca? Como ela tá?

Dona Elisa baixou as mãos sobre a manta que cobria as pernas, que só iam até os joelhos. Pareceu tristonha.

— Eu não… não sei direito, Erik. Parece que também está internada, mas o telefone dos Decker não atende.

— A senhora tá com meu celular?

— Eu guardei pra você quando te resgataram daquele buraco — disse ela, retirando o aparelho da bolsa na lateral da cadeira de rodas. — Aqui. Carreguei pra você, mas deixei desligado.

A recordação daquela cripta retornou à cabeça de Erik, e também aquela luz etérea e avermelhada, que preenchia a dimensão das suas lembranças. Todos os detalhes do episódio eram tão insanos que precisou respirar fundo para controlar sua pulsação, que subiu ao tentar se convencer de que tudo não havia passado de um sonho.

Sim. Tinha certeza de que não havia consumido umbralita alguma, nem feito qualquer acordo com um espectro acorrentado. Foi só um pesadelo porque eu bati a cabeça, concluiu Erik, que achou graça ao pensar em espectros falantes, como se pudesse existir razão em monstros que só matavam e destruíam.

Decidido, Erik apanhou o celular da mão da avó e deslizou para fora da cama, imaginando que tentar ligar para a amiga seria perda de tempo quando, num estalo de frustração, recordou-se de que o aparelho havia se quebrado naquela queda.

— O quê? — Estranhou ao se colocar de pé, notando que o objeto estava bizarramente intacto. — A senhora comprou um celular novo pra mim?

— Novo? — Dona Elisa mostrou uma expressão confusa. — Era o que já tava com você… Aliás, por que saiu da cama? Você precisa descansar, menino! Acabou de acordar.

— Mais tarde, vó — respondeu ele, arrancando a agulha do soro meio que sem pensar. — Eu só preciso… só preciso usar o banheiro. 

— Que maluquice é essa, Erik? Volta aqui — perturbou-se a idosa. — Enfermeira! Enfermeira!

Sem olhar para trás, Erik se arrastou até a porta do quarto, usando a canhota para religar o celular e a outra mão para afastar o colarinho do pijama do próprio pescoço. Sentia um aperto no peito, além de uma queimação na lateral das costelas onde os ossos haviam se partido. As duas sensações se combinavam para dificultar sua respiração.

Mesmo com os chamados da avó às suas costas, Erik precisava deixar aquele lugar o mais depressa que pudesse e respirar outros ares. Iria sufocar naquele quarto.

Com a sensação de que as pernas eram de geleia, cambaleou pelos corredores, desviando-se dos vultos de outros pacientes e enfermeiros. Enquanto isso, o celular em sua mão vibrava muito, mas não conseguia dar atenção ao detalhe quando usava toda a sua concentração para não desabar.

De repente, sentiu que suas forças estavam no fim, então empurrou a entrada do primeiro banheiro que encontrou pela frente e despencou sobre o piso com um baque forte.

Para o lado onde a sua cabeça pendeu, Erik contou quatro compartimentos vazios, todos fechados; porém, na abertura inferior da sua linha de visão, avistou as canelas de uma pessoa sentada na privada.

Ele engoliu em seco ao reconhecer uma saia bege, uma meia-calça preta e uma calcinha branca abaixadas sobre um mocassim tratorado.

Aquela garota — quem quer que ela fosse — pareceu se preocupar com o barulho, pois perguntou do outro lado da cabine:

— Tá tudo bem por aí?

A resposta de Erik foi um gemido sem graça, algo que a fez pular do assento e, transcorrido alguns segundos, escancarar a porta com toda a força.

O tempo congelou durante o período em que Erik deu de cara com uma garota usando vestes casuais e um pingente com a marca de um dos Clãs da Ordem.

A jovem asiática, que devia ter mais ou menos a sua idade, o encarava de volta, com sua pele pálida e cabelos muito negros e lisos ao redor dos olhos estreitos.

Ela usava um corte chanel com franja e óculos de armação redonda. Tinha o corpo magro e torneado, com seios pequenos e pernas levemente mais grossas e atléticas dentro da meia-calça escura.

O fato de tê-la achado bonita deixou Erik ainda mais desconcertado.

— Vo… vo… — murmurou ela, com o rosto ficando da cor de um tomate. — Você…

— Eu tenho uma boa explicação pra…

— TARADO! — E saiu correndo dali.

Erik permaneceu estático, atravessado pela dor no peito mesclado ao desânimo, questionando-se sobre a probabilidade estatística de um ser humano vivenciar tantos azares em sequência.

Entretanto, seus pensamentos foram logo varridos por aquela vibração irritante — e incessante — do celular em sua mão.

Com algum esforço, ele conseguiu se virar de barriga para cima e finalmente conferiu as dúzias de notificações ocupando a tela do aparelho. Elas vinham de um aplicativo que Erik não reconhecia, sempre repetindo a mesma mensagem:

 

[ATIVE O VIVA-VOZ]

[ATIVE O VIVA-VOZ]

 

Com uma sobrancelha erguida, Erik abriu o menu do celular e encontrou algo ainda mais estranho: o hexagrama azul do aplicativo da Nova Éden havia se transformado num pequeno crânio vermelho nomeado como [S#?M¿З!].

Ele apertou no ícone. Um segundo depois, uma voz grossa explodiu no celular: — Por derradeiro!

Com o susto, Erik atirou o aparelho para cima. O objeto descreveu uma parábola e quicou no azulejo, ação que frustrou aquela voz.

— Como tu podes ser tão fraco e obtuso, Erik Marconde?

A situação o deixou sem palavras. Aquilo… aquilo tá falando comigo?

Respirando fundo para ganhar coragem, ele se arrastou até o objeto e o tomou de volta, lentamente, encontrando a tela ocupada pela representação de um crânio vermelho, que ziguezagueava pelo fundo do display.

— O que é isso…?

— Não te recordas? — respondeu a imagem, movendo seu maxilar ossudo. — Fizemos um acordo há sete dias.

— Sete…? Aquele espectro? Foi tudo real?!

— O que é ainda mais real, criança, é que o teu tempo está no fim. Sete horas de vida. É tudo o que lhe resta. O que farás a partir de agora?

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