Volume 1
Capítulo 2: Olhos na penumbra
Ainda no rastro da amiga, Erik percebeu que se dirigiam para a biblioteca da Academia, seguindo por corredores cada vez mais vazios. As cores do entardecer atravessavam as janelas, gradualmente tomadas pelo azul da noite.
De repente, Bianca perguntou: — E como anda a sua avó?
— Bem melhor, com certeza. Nem sei como agradecer pela cadeira de rodas motorizada. Vou pagar a sua família assim que…
— Larga disso. — Bianca desconversou com um sorriso gentil. — É um presente pra Dona Elisa. Era o mínimo que podíamos fazer.
— Vocês não precisavam. Eu devia estar com ela quando aconteceu, teria feito alguma coisa. Aquele espectro maldito… as pernas da vovó…
Bianca se deteve e apertou o pulso do amigo com cuidado, preocupada com a vermelhidão repentina no rosto dele.
— Sem o poder da umbralita, não havia nada que você pudesse fazer, Erik. O importante é que a sua avó tá bem agora. Venha logo, encontrei algo que você vai gostar.
O jovem ergueu uma sobrancelha.
— O que é que você tá tramando, afinal?
Mas, em vez de uma resposta, eles voltaram a caminhar, encontrando a biblioteca meio minuto depois.
Assim que passaram pela entrada, Erik notou o silêncio e o cheiro de papel velho. Com exceção dos dois, as estantes abarrotadas de livros eram os únicos ocupantes do local, até que sua atenção foi desviada por um comentário da garota:
— A verdade é que eu encontrei um livro, um negócio velho pra caramba. Ele conta sobre a existência de um espectro aqui embaixo.
— O quê? Embaixo da onde…? Da Academia?
Bianca concordou.
— Aqui já foi um monastério, não?
— Há mais de duzentos anos. — Erik estreitou os olhos, desconfiado. — Mas o que tem a ver? Não faz nem trinta anos que os primeiros espectros apareceram.
— Acha que é mentira? — Bianca parou e, cruzando os braços, apontou com a cabeça para uma mesa adiante. — Então vá lá checar por conta própria.
Sem vontade de discutir, Erik se afastou da amiga, encontrando um livro cujo título desbotado aparecia como: Contos muy antigos de Brummario.
Estudou a primeira folha, oxidada pelo tempo, e depois abriu numa página marcada, lendo num português arcaico que traduziu do seguinte modo:
Rezam os sacerdotes que, nas entranhas do Monastério de Brumário, jaz um nume inominado, esquecido pelas Eras.
Renegado pelos deuses, grilhões sujetam seu…
O resto do texto era ilegível.
— Que besteira. É só uma lenda da cidade. — Erik se voltou para a garota com a testa franzida. Uma cena inesperada, porém, o fez recuar um passo.
De repente, viu Bianca com o braço esticado em sua direção, segurando um prato de papel com uma grande fatia de bolo de morango. Duas velas formavam o número 20 sobre o pedaço.
— Feliz aniversário… — desejou ela, desviando o olhar. — Achou que eu me esqueceria?
— I-isso é sério?
— Por que não seria? — Sorriu ela. — É verdade que encontrei o livro sem querer, mas pensei que seria uma boa desculpa pra te trazer até aqui. O lugar fica vazio nesse horário. Enfim, eu mesma que fiz o bolo. Peguei a receita na intranet.
Erik não ligava muito para o próprio aniversário, porém, no momento em que recebeu aquele gesto de Bianca, foi verdadeiramente golpeado por um sentimento que acelerou seu coração.
— Obrigado… — Apanhou o prato com as bochechas em brasa. — Eu não ia comemorar nem nada…
— Sei que não ia, porque você é irritante e não gosta desse tipo de coisa, mas agora vai ter que admitir que eu sou ótima com surpresas.
Ele concordou com a boca cheia de glacê.
— Tá gostoso? — perguntou ela, um pouco corada, mas preparando o soco caso ele respondesse que não.
— Seria triste admitir que é a melhor coisa que eu comi esse ano?
A resposta da garota veio no formato de uma risada, seguida por uma aproximação repentina. Quando Erik deu por si, ela o havia beijado no pescoço e se afastado, deixando para trás um leve aroma de morangos com flores…
— Não — sorriu Bianca. — Não seria.
— O-o-o que foi isso?
Quase da cor de ameixa, ela começou a se explicar, sem conseguir olhar para ele:
— Eu disse que você ganharia isso se viesse comigo, não foi? Você cumpriu a sua promessa, eu cumpri a minha. E-era pra ser na bochecha, mas você é alto, então…
Ela não terminou de falar, mas Erik estava rubro, tocando onde sua pele ainda sentia os lábios mornos de Bianca. Por mais óbvio que fosse, realmente havia considerado aquela fala no telhado como mais uma das piadas dela.
Ele resolveu perguntar: — O que você…
BLAM!
Um estrondo ecoou pela biblioteca, derrubando o prato de Erik com o susto.
Quando se voltaram na direção do barulho, encontraram uma figura irrompendo pela entrada. Era um rapaz loiro, alto e de expressão arrogante, com uma cicatriz que lhe cortava a sobrancelha. Usava o mesmo uniforme da Academia, mas cambaleava como se estivesse bêbado.
— Alguém…? — balbuciou ele, e desmoronou.
Bianca arregalou os olhos.
— Aquele não é o Vincent Lucius?
— O próprio!
Sem pestanejar, a dupla correu na direção do colega de turma. Erik se ajoelhou para ajudá-lo e perguntou ao mesmo tempo: — Você tá bem?
— Eu… — Vincent se encolheu sobre o piso, abraçando o próprio estômago. — Minha barriga dói… Dói muito! Me ajudem.
— A-a gente vai procurar algum Cardeal Luminoso pra te curar, que tal?
Vincent agarrou o pulso de Bianca com grosseria.
— Não! Eu pensei que… poderia resolver sozinho… mas vocês estavam aqui e…
Bianca o afastou, parecendo preocupada. Começou a dizer: — Não precisa se explicar. Vou buscar ajuda enquanto o Erik fica de olho em você. É rapidinho.
Mas a garota foi novamente impedida por Vincent.
— Já falei pra não chamar os Luminosos! Se eles me virem desse jeito… vão contar pro meu Clã… Serei visto como um fraco. Imperdoável!
— E daí? — Erik afastou a mão de Vincent do braço dela. — Você tá morrendo, cara. O que é mais importante?
— Eu tô bem. Só não chamem ninguém. Eu vou… vou dar um jeito.
Era óbvio que ele estava longe do conceito de “bem”, mas havia uma intensidade naquele olhar que obrigou Erik a parar de insistir.
— Olha — tornou Vincent, virando-se para Bianca —, você é a Decker, não é…? Você é uma das mais espertas da nossa turma. Sei que pode saber o que tá rolando. Eu… comecei a passar mal depois da Ceia.
— Acho mais fácil só chamarmos um Luminoso — disse Erik. — Eles saberiam o que fazer e…
Mesmo com aquele aspecto de doente, Vincent foi rápido ao agarrar o colarinho de Erik.
— Para de me retrucar, moleque! Só preciso que mantenham essa situação de merda em segredo. Deu pra me entender agora? Se abrirem o bico, eu mato vocês dois!
— Ótimo! Nada como implorar por ajuda e depois nos ameaçar desse jeito.
— T-tá tudo bem. — Bianca engoliu em seco. — Deve ser a dor. Vincent não tá raciocinando direito.
Erik cruzou os braços e fungou, pouco convencido pelo argumento. Bianca continuou:
— Bem, eu já li alguns estudos sobre os efeitos colaterais da ingestão da umbralita. De imediato, podem ocorrer enjoos e dores de estômago…
— Lá no terraço… eu tava meio enjoado.
— Já eu, não senti nada — refletiu Bianca. — Na verdade, o desconforto pós-Ceia da Ascensão é bem raro. Alguns estudos sugerem que, quanto mais alto é o Limite de Classe, mais intensos podem ser os colaterais, mas é a primeira vez que ouço falar de um futuro Classe S passando mal.
— Eu não tô… — gemeu Vincent — passando… MAAAAAAAAAAH!
— Droga, Erik! O que a gente faz?
— Sei lá! Que mais você se lembra dos estudos?
— SÓ ME DEEM ALGO PRA ESSA DOR!
— O-o que eles diziam mesmo…? — Bianca correu as mãos pelo cabelo, nervosa — Eles… eles diziam… Sim, é isso! Eles sugeriam a ingestão de mais umbralita, compensando um possível desequilíbrio, já que a substância cria um novo sistema de circulação no corpo humano: o de umbrenergia.
— Mais… umbralita?
— Tá vendo aí, cara? — animou-se Erik. — Seu problema não parece tão difícil de resolver.
A resposta de Vincent, no entanto, veio no formato de uma tosse que espirrou sangue para cima junto a uma massa de fogo que chamuscou as sobrancelhas de Erik.
— Caramba!
— Ele tá extravasando umbrenergia! — alarmou-se Bianca. — A diluição tá muito rápida. Temos que agir agora ou ele não vai resistir!
— Não vou… o quê? — Diante do aviso, seu gesto foi ágil. Muito ágil.
Quando Erik deu por si, sentia o pescoço comprimido pelos dedos firmes de Vincent. Mesmo com toda a dor que afirmava sentir, o jovem loiro se levantou sob o olhar atônito de Bianca. De repente, ele acertou o primeiro soco no estômago de Erik, fazendo-o cuspir saliva.
Tão rápido ele o atacou, Vincent também o soltou. Cambaleou para trás.
— O que é que você pensa que tá fazendo?! — O grito de Bianca ecoou pela biblioteca.
Ignorando-a, Vincent mordeu a própria mão com tanta força que uma lágrima solitária lhe escorreu de um dos olhos.
— Não vou desmaiar… — Ele firmou a postura, ergueu os punhos e levantou a guarda, tentando controlar a respiração enquanto Erik tossia sem parar, massageando a garganta com uma mão e pedindo calma com a outra. — Você… é o sujeito mais fraco dessa Academia inteira, Marconde. A sua presença profana esse lugar. Então mostre serventia… e cuspa seu fragmento.
— NÃO! A diluição já tá em andamento. Isso mataria o Erik!
— Poder é tudo, Decker. É por isso que os fracos morrem. — Reunindo o que havia sobrado de suas forças, ele avançou mais rápido que da primeira vez.
— Espere! — suplicou Erik.
Mas não houve conversa. Vincent começou a atacá-lo com uma sucessão alucinada de socos, mal dando espaço para seu adversário raciocinar.
Erik, fazendo o melhor que podia, conseguiu se desviar de duas acometidas, mas foi brutalmente golpeado pela terceira, bem no queixo, seguido por um agarrão no colarinho e duas joelhadas na boca do estômago.
Ele cambaleou para trás, despencando sobre o piso duro sem conseguir inalar uma fração de oxigênio que fosse.
Naquele momento, Erik se arrependeu de cada treino que pulou, de cada vez que achou que seu destino já estava traçado. Havia colocado na cabeça que se tornaria um Escudeiro e agora que precisava lutar, transformara-se num animal acuado.
Pela lógica, sua maestria em combate deveria ser igual a de Vincent. Nenhum de nós consegue usar a umbrenergia, recordou-se, um detalhe que significava que os dois eram tão fortes quanto qualquer civil de Brumário, mas a superioridade física de seu rival era inquestionável, fosse em tamanho, fosse em habilidade marcial.
O fato de Vincent estar debilitado parecia pouco importar diante da incompetência de Erik, cada vez mais consciente da diferença de forças entre eles.
Era como se a distância entre Erik e o herdeiro do maior Clã de exterminadores de espectros, como os Lucius, fosse o espaço entre o céu e a terra.
Parabéns, seu merda, pensou ele. Vai levar uma surra bem no seu aniversário.
Levantando-se com uma ânsia de arder o estômago, sentiu a dor repuxar cada fibra de seu corpo.
Imaginou que, talvez, fosse melhor vomitar e acabar com aquele pesadelo de vez, mas a lembrança do sorriso de sua avó ao entrar na Nova Éden lhe invadiu a cabeça e o obrigou a erguer os punhos, colocando-se em posição de guarda. Não iria desistir…
— DEIXA ELE EM PAZ! — Sem mais nem menos, Bianca avançou para cima de Vincent e o agarrou pelo pescoço. A dupla girou por alguns segundos, como se dançassem uma valsa macabra, até que o sujeito a segurou pelo braço.
— Sua puta! — Vincent a atirou com todas as forças contra uma estante de livros. O móvel se estilhaçou e levantou uma nuvem de poeira no ar. Tossindo novamente, cuspiu o sangue da boca e se afastou sem olhar para trás.
Ao encarar Bianca desmaiada no meio dos escombros, o coração de Erik errou uma batida, sentindo a visão se turvar pela fúria que o consumiu por dentro. Apertou o punho até estalar e partiu ensandecido.
— Filho da…!
O ímpeto de Erik, porém, foi repentinamente aparado por Vincent, que se desviou daquele soco atrapalhado. Mais uma vez, Erik foi agarrado pelo pescoço e prensado contra uma parede.
— Acha que ficar irritado vai te deixar mais forte, Marconde? — O jovem loiro o ergueu acima do chão. Então, esticando a mão esquerda, enfiou três dedos na garganta de Erik sem qualquer cerimônia, liberando-o no exato momento em que ele começou a vomitar.
Erik despencou no chão com um baque úmido, caindo sobre o conteúdo do próprio estômago: uma poça feita de bile, bolo de morango e um fragmento de metal escuro que emitia uma aura avermelhada.
Tentou esticar o braço para apanhar a umbralita, mas Vincent o parou quando pisou com força em sua mão.
— Aaaaah!
— Você é um verme, Marconde. — Ele cuspiu sangue sobre o rosto de Erik.
— Eu vou… vou contar pra um instrutor e…
POW!
Erik nunca sentiu uma dor tão aguda na vida e, por um instante, pensou que sua cabeça fosse rachar no meio, sendo violentamente virado de barriga para cima. Um zumbido rasgou seu cérebro, fazendo-o perder a noção do tempo, e ele permaneceu ali, deitado, sem saber o momento em que Vincent o largou para trás.
De repente, as formas perderam a solidez. A realidade entrou num liquidificador e misturou todas as suas cores, cheiros e sons, transformando-se num pesadelo febril.
— Bia… — Quando recuperou parte das forças, começou a se arrastar na direção de uma mancha: uma forma esticada no chão que lembrava sua amiga. Precisava levá-la para a enfermaria. Se ela morresse ali, por sua culpa… — Me responde… por favor.
No entanto, Erik jamais a alcançaria, pois despencou numa pequena cratera que se abriu no meio do chão, onde a estante havia quebrado.
— Gah! — gemeu de dor ao atingir o solo duro, sentindo alguns ossos se quebrarem. Zonzo, piscou seus olhos várias vezes, mas só encontrou a escuridão. A dor era tamanha que não conseguia nem respirar direito.
Quem está aí?, as trevas ecoaram diretamente na cabeça de Erik.
Ele ergueu o olhar até uma luz cor de sangue, cuja fonte emanava de uma silhueta na penumbra a poucos metros de distância.
A criatura tinha uma aparência quase humana, embora bem mais alta e esguia, com orelhas pontudas e élficas. Seu rosto era descarnado: um crânio de olhos vermelhos do qual brotava dois chifres e uma barba longa e desgrenhada.
Também havia uma flecha fincada em seu peito, e seu corpo, cuja pele parecia feita de carvão endurecido, encontrava-se irremediavelmente preso a uma coluna por seis correntes que partiam do chão e formavam um círculo de runas.
— Espectro… — Erik estremeceu, invadido pela raiva e pelo medo.
Uma criança humana, sibilou a entidade, brilhando suas órbitas vazias de um vermelho ainda mais intenso. Sinto o odor pungente da morte. Mesmo tão jovem, a vida se esvai de ti.
A resposta de Erik foi um jorro de sangue que lhe escapou pela boca. Sentia a consciência lhe deixar.
Mas há algo estranho em ti… há sim. Duas mentes, mas um só corpo. Como é possível? Sinto uma delas em seu peito…
Com dificuldades, Erik moveu o braço até seu bolso interno do paletó, próximo ao coração, e retirou o celular quebrado. Será que era daquilo que ele estava falando?
Dê-me a sua mente. Liberte-me destes grilhões. Eu o salvarei.
— Me… salvar?
Diga-me, criança: você quer viver?
— Eu quero… — Ele assentiu fracamente. — Eu quero viver.
Ouviu-se um som regurgitante e, um momento depois, as mandíbulas da criatura se abriram, vomitando uma grande pepita metálica. O vermelho do fragmento brilhava tão intenso que inundava toda a cripta.
Pois tome a minha alma. É tudo o que precisa fazer.
Erik apanhou a umbralita com a mão livre e a encarou. Seu corpo inteiro estremeceu, sentindo como se o fragmento o encarasse de volta.
Atirou-o para dentro da boca.
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