Santo Renegado Brasileira

Autor(a): Tomas Rohga


Volume 1

Capítulo 1: Fragmentos

 

Segurando uma lâmina, Erik Marconde encarava uma larva espectral.

A criatura, de olhos vermelhos e vazios, possuía o mesmo tamanho de um torso de criança, refletindo as chamas de uma caçamba que queimava próxima de seu corpo viscoso e sem membros.

Em meio à área confinada, humano e monstro se estudavam na penumbra sob o teto baixo de um depósito de lixo hospitalar, ladeados por caçambas e vigas de concreto.

— Matar essa coisa é a minha única esperança…?

Como resposta, a larva escancarou uma boca repleta de dentes minúsculos, grunhindo como um porco ao disparar um jato de ácido amarelo na direção de Erik.

Pego de surpresa, o rapaz tentou cair para o lado, mas seu corpo doente não lhe permitiu nenhuma ação rápida. No último segundo, aquele jato corrosivo atingiu seu braço esquerdo, e a dor se alastrou como uma explosão.

Erik exclamou, cambaleando para trás enquanto o ácido derretia o tecido do moletom até chegar em sua carne.

— NÃO! — O cheiro de pele tostada se misturou ao ambiente, cujas chamas ganhavam mais e mais força.

Erik tombou de joelhos, estremecendo de dor. Tentou mover o braço esquerdo, mas o membro já não lhe obedecia. Ao encará-lo, vislumbrou apenas uma confusão de ossos, músculos expostos e sangue cauterizado pela qual subia um cheiro grotesco.

— Eremita… — arfou ele, com as lágrimas vertendo em profusão.

Uma voz estranha no celular de Erik respondeu a partir de seu bolso, num tom de sistema artificial:

— É dano por Corrosão, e você não tem nenhum elixir consigo. Precisa se livrar do seu braço antes que o efeito se espalhe.

— Q-Quê?! Como? Impossível!

— Sugiro que o faça depressa, Erik. Resta menos de um minuto.

— Merda! Merda! Merda! — Ele ergueu a lâmina, um bisturi hospitalar, com a mão direita e hesitou por três segundos, sem saber se aquilo funcionaria sem imbuir energia no metal, mas o ácido já havia causado a maior parte do estrago…

Então, com um grito de desespero, afundou o bisturi sobre a carne morta, trincando os dentes até sua mandíbula estralar.

— AAAAAAAHHHH!! — A aflição era insuportável, inconcebível. As lágrimas cortavam seu rosto. Um corte, depois outro, e mais outro…

Erik podia sentir…

Estava sendo arrastado para os domínios da morte.

 

*******

 

Uma semana antes, o dia de Erik não começou muito melhor. Ele se sentia deslocado, como se não pertencesse àquele lugar.

Magro, curvado, de pele oliva e cabelo tão preto quanto os olhos, era o tipo de cara que passaria despercebido na multidão, mas não ali… Ali era um ninho de cobras, onde até o menor dos ratos seria abocanhado.

Era o motivo pelo qual Erik sentia a risadinha de seus colegas como mordidas nas costas; um murmúrio que envolvia a sala de treinamento na qual se encontrava: uma arena ampla e vazia, com cheiro de suor, um teto alto, paredes de placas de metal reforçado e uma porta dupla automática.

— Fracote… — Ele escutou um deles cochichar.

— Vai ser o primeiro a morrer — murmurou outro, com um sorriso cruel.

Ele engoliu em seco, tentando ignorá-los ao se concentrar no instrutor à frente da turma: um homem calvo trajando uma batina que era religiosa e, ao mesmo tempo, militar; uma peça na cor branca com detalhes em azul e ombreiras de proteção.

— Algum postulante pode me explicar o que é a Ceia da Ascensão? — perguntou o Cardeal, que se posicionava ao lado de uma mesa com um pequeno baú e alguns copos de água. Ele encarou os rostos de cada um dos presentes.

Ao todo, havia cerca de vinte estudantes, mas o braço que se ergueu foi o da única pessoa que não riu de Erik.

Era uma garota ruiva, de seios grandes e pernas longas, bem diferente da postura torta do rapaz. Bianca Decker usava um terninho azul que se ajustava com perfeição ao seu corpo esbelto, a gravata vermelha e a saia bege completando o conjunto do uniforme.

Erik percebeu que ela o fitava, mas só até seus olhos se cruzarem. Ela pareceu encabulada, imediatamente se voltando na direção do Cardeal.

— É um ritual de transformação, senhor. Na nossa Academia, acontece no segundo ano, sempre no dia sete de setembro, quando todos os postulantes já têm dezenove anos ou mais. É a idade mínima pra aguentarmos a umbralita sem morrer, um metal que… enfim, dá poderes quando o corpo o absorve.

— Muito bem, Decker. — O instrutor assentiu, satisfeito. — E qual é a latência da umbralita?

— Vinte e três dias, senhor.

— Ótimo, ótimo. Escutaram bem? Todos devem gravar esse número na cabeça ou estarão mortos antes do vigésimo quarto! Vocês ficarão um mês em recesso não pra descansarem, mas para treinarem à exaustão, ou a umbralita se tornará veneno no corpo de vocês. 

Treinar…?, pensou Erik, desanimado.

— Contudo, assim que retornarem, já estarão sensíveis à umbrenergia e preparados para esse tipo de coisa… — O homem estalou os dedos diante do grupo, invocando um pequeno redemoinho de fogo no ar. As chamas se agitaram brevemente antes de se extinguirem com outro estalo. — Com isso, vocês se tornarão Ascendidos. A verdadeira batalha contra os espectros só começará depois que obterem esse título.

Apesar da rápida, mas empolgante demonstração de habilidade, Erik já não prestava atenção. Os risinhos continuavam atrás de si. Ele até curtia uma boa piada, mas não quando ele era a piada.

Sentia-se ansioso, pensando em puxar o celular do bolso e jogar algo rápido, talvez ler uma webnovel de sacanagem. Erik respirou fundo.

— Aproximem-se — pediu o Cardeal, curvando-se para abrir o baú e revelar seu conteúdo: vinte pepitas de um metal escuro que emitiam uma aura etérea e avermelhada. — Peguem um fragmento e o engulam.

Como o aluno mais fraco de sua turma, Erik se afastou discretamente para ficar por último. Permaneceu de cabeça baixa até sair da sala, ouvindo o eco das gargalhadas ao seu redor.

 

*******

 

Erik afrouxou a gravata do uniforme, ainda sentindo o gosto horrível da umbralita na boca. Debruçava-se sobre a grade do terraço da Academia Nova Éden, tentando ignorar o enjoo.

— Essa merda tem gosto de sangue… — Respirando fundo, seus olhos apáticos observaram o pôr do sol sobre uma boa parcela de Brumário, com seus carros elétricos, prédios com painéis solares e guindastes que reconstruíam os muros da enorme cidade-fortaleza nos trechos arrasados pelos ataques.

Experimentando um misto de raiva e frustração, Erik pensou no passado. Grande parte de suas lembranças da infância eram povoadas de notícias sobre as tragédias.

Espectros, era a forma que chamavam as malditas criaturas que habitavam o outro lado dos muros, responsáveis pela maior matança que a humanidade já havia conhecido…

Sacudiu a cabeça, desviando os pensamentos para o fato de que devia comemorar (era a droga do seu aniversário de vinte anos, afinal!), mas o clima daquela tarde não o empolgava. Nem um pouco.

Respirando fundo, puxou o celular do bolso e clicou no aplicativo da Nova Éden — um hexágono estilizado na cor azul-elétrico —, conferindo o programa de treinamento das férias. Sentiu-se exausto só de ler os exercícios do primeiro dia.

De repente, um som o distraiu, uma voz feminina às suas costas:

— Tava te procurando.

Erik guardou o aparelho e se virou, topando com o sorriso daquela garota ruiva de antes.

— Oi, Bia.

— Por que tá sozinho no terraço num dos dias mais importantes da sua vida? — Bianca se juntou a ele sobre a grade de proteção, tão próxima que Erik conseguiu sentir o calor emanando do braço dela. A garota fechou os olhos verdes, deixando o vento roçar nas sardas.

— Tava aqui pensando no meu futuro… ou na falta dele. Tô tentando me decidir.

— Você vai se tornar um bom Cardeal, Erik.

Seu desânimo hesitou por um segundo em meio ao perfume de morango da amiga, mas conseguiu fazer um não com a cabeça.

— Meu Limite é Classe D, esqueceu?

— E daí? Cadê aquele garoto que, quando éramos crianças, me prometeu ficar mais forte? — Bianca encarou o céu, jogando uma mecha para trás da orelha. — Se você tem espaço pra lamentar que é fraco, também tem espaço pra ficar mais forte. É isso.

Erik deu de ombros, gesto que indignou a garota.

— Então por que veio estudar aqui?!

— Pelo trabalho. — Ele coçou a bochecha. — Tô de olho no programa de recomendação. A Academia deve me mandar pra algum Clã pequeno, talvez como Escudeiro.

— E é o que você quer?

— É o que me resta. Vou poder ajudar minha vó.

— Bem, seria legal te ver num dos Seis Clãs Maiores, mas tenho certeza que, independente do que escolher, ela ficará orgulhosa.

— Obrigado. É só que… é uma decisão que eu mesmo preciso tomar. Se as coisas derem errado, a responsabilidade vai pesar só pra mim.

— Entendo. — A garota se virou para o outro lado, tentando esconder o sorriso breve e o ardor no rosto. — E então? Já tem algum Clã em mente?

Num gesto de frustração, as mãos de Erik pressionaram as grades de proteção. Ao longe, ele observou um guindaste girar devagar sobre um trecho do muro arrasado: uma silhueta amarela contra o pôr do sol.

— Acho que o que vier é lucro. Você ouviu as risadas do pessoal. Ninguém bota fé em mim.

— Como assim ninguém? E o que eu sempre te digo?

— Que você precisa superar esse seu medo besta de baratas?

— Q-quê! Não viaja, garoto. É nojo. Nojo! Mas sério, já repeti umas mil vezes: você precisa ser mais corajoso. Coragem não vai diminuir os seus problemas, mas eles ficarão mais fáceis de enfrentar.

Hah! — Sem soltá-la, Erik se afastou da grade com uma expressão de escárnio. — Papo furado.

— Então, em vez de me escutar, vai dar crédito para aquele bando de babacas?

— Não consigo ignorá-los, Bia. Me faz lembrar que eu não devia estar aqui.

Céus! Você continua o pirralho irritante de sempre.

— Isso é falta de respeito com os mais velhos — ele abrandou o tom com um sorrisinho.

— Só um ano. — Bianca lhe mostrou a língua, contendo o riso pouco antes da voz ser tomada pela nostalgia. — Lembra de quando a nossa bola ficava presa lá na árvore da mansão? Não dava tempo de eu dizer cuidado e você já tava lá em cima. Parecia que você não tinha medo de nada.

— Eu era doido. Prometia que ia te proteger dos espectros, e hoje… Hoje é você quem tem um Limite de Classe B…

— Dá vontade de te dar um cascudo quando você é dramático assim, sabia?

— Bem — ele limpou a garganta —, se eu olhar pro copo meio cheio, ninguém da nossa turma vai ser mais forte que aquele Vincent Lucius, não é?

— Pois é.

— O primeiro Limite de Classe S em vinte anos…

Eles permaneceram em silêncio por alguns segundos, absortos nos tons de melancolia que o céu criava enquanto o horizonte engolia o sol.

— Que tal a gente ir? — Bianca se afastou da grade e encarou o amigo, apontando com o polegar para a saída. — Na verdade eu tava te procurando porque queria te mostrar uma coisa.

— Uma coisa do nível “tropecei de leve” ou “adeus, mundo cruel”?

Ela revirou os olhos, mas depois corou de leve.

— Vamos dizer que… se você vier, tem um negócio bem legal à sua espera.

— Vindo de você, deve ser uma pegadinha.

Bianca fechou a cara e falou com a frieza de quem perdeu a paciência: — Só para de reclamar e vem logo.

Erguendo uma sobrancelha, Erik decidiu acompanhá-la em direção à porta, pensando que, de vez em quando, as mulheres pareciam mais perigosas que os espectros.

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