Volume 1
Capítulo 1: Fragmentos
O dia em que Erik Marconde morreu começou com a sensação de que ele não pertencia àquele lugar.
Magro, curvado, de pele oliva e cabelo tão preto quanto os olhos, ele era o tipo de sujeito que passaria despercebido na multidão, mas não ali… Ali era um ninho de cobras, e até o menor dos ratos seria abocanhado.
Era o motivo pelo qual Erik sentia a risadinha de seus colegas como mordidas nas costas; um murmúrio que envolvia a sala de treinamento na qual se encontrava: uma arena ampla e vazia, com cheiro de suor, um teto alto e paredes de placas de metal.
Ele engoliu em seco, tentando ignorar a zombaria ao se concentrar no instrutor à frente da turma: um homem calvo trajando uma batina que era religiosa e, ao mesmo tempo, militar; uma peça na cor branca com detalhes em azul e ombreiras de proteção.
O Cardeal, que se posicionava ao lado de um pequeno baú e de uma mesa com alguns copos de água, encarou os rostos de cada um dos presentes, enfim perguntando:
— Algum postulante pode me explicar o que é a Ceia da Ascensão?
Ao todo, havia cerca de vinte estudantes, mas o braço que se ergueu foi o da única pessoa que não riu de Erik.
Era uma garota ruiva, de seios grandes, pernas longas e corpo esbelto, bem diferente da postura torta do rapaz. Bianca Decker usava um terninho azul que se ajustava com perfeição à sua silhueta, a gravata vermelha e a saia bege completando o conjunto do uniforme.
— É um ritual de transformação, senhor. Na nossa Academia, acontece no segundo ano, sempre no dia sete de setembro, quando todos nós já temos dezenove anos ou mais. É a idade mínima pra aguentarmos a umbralita sem morrer, um metal que… enfim, dá poderes quando o corpo o absorve.
— Muito bem, Decker. — O instrutor assentiu com satisfação. — E qual é a latência da umbralita?
— Vinte e três dias, senhor.
— Ótimo, ótimo. Escutaram bem? Todos vocês devem gravar esse número na cabeça ou estarão mortos antes do vigésimo quarto! Vocês ficarão um mês em recesso não pra descansarem, mas para treinarem à exaustão, ou a umbralita se tornará veneno no corpo de vocês.
Treinar…? pensou Erik, desanimado.
— Contudo, assim que retornarem, já estarão sensíveis à umbrenergia e preparados para esse tipo de coisa… — O homem estalou os dedos diante do grupo, invocando um pequeno redemoinho de fogo no ar. As chamas se agitaram brevemente antes de se extinguirem com outro estalo. — Com isso, vocês se tornarão Ascendidos. A verdadeira batalha contra os espectros só começará depois que obterem esse título.
Apesar da rápida, mas empolgante demonstração de habilidade, Erik já não prestava atenção. Os risinhos continuavam atrás de si. Ele até curtia uma boa piada, mas não quando ele era a piada. Sentia-se ansioso, pensando em puxar o celular do bolso e jogar algo rápido, talvez ler uma webnovel de sacanagem. Erik respirou fundo.
— Aproximem-se — pediu o Cardeal, curvando-se para abrir o baú e revelar seu conteúdo: vinte pedaços de um metal escuro que emitiam uma aura etérea e avermelhada. — Peguem um fragmento e o engulam.
Como o aluno mais fraco de sua turma, Erik se afastou discretamente para ficar por último. Permaneceu de cabeça baixa até sair da sala, ouvindo o eco das gargalhadas ao seu redor.
*******
Erik afrouxou a gravata do uniforme, ainda sentindo o gosto horrível da umbralita na boca. Debruçava-se sobre a grade do terraço da Academia Nova Éden, tentando ignorar o enjoo.
— Essa merda tem gosto de sangue… — Respirando fundo, seus olhos apáticos observaram o pôr do sol sobre uma boa parcela de Brumário, com seus carros silenciosos, prédios com painéis solares e guindastes que reconstruíam os muros da enorme cidade-fortaleza nos trechos arrasados pelos ataques.
Experimentando um misto de raiva e frustração, Erik pensou no passado. Grande parte de suas lembranças da infância eram povoadas de notícias sobre as tragédias. Espectros, era como as pessoas chamavam as malditas criaturas que habitavam o outro lado dos muros, responsáveis pela maior matança que a humanidade já havia conhecido…
Sacudiu a cabeça, desviando os pensamentos para o fato de que devia comemorar (era a droga do seu aniversário de vinte anos, afinal!), mas o clima daquela tarde não o empolgava. Nem um pouco.
Dando de ombros, puxou o celular do bolso e clicou no aplicativo da Nova Éden — um hexágono estilizado na cor azul-elétrico —, conferindo o programa de treinamento das férias e se sentindo exausto só de ler os exercícios do primeiro dia.
De repente, um som o distraiu, uma voz feminina às suas costas:
— Tava te procurando.
Erik guardou o aparelho e se virou, topando com o sorriso daquela garota ruiva de antes.
— Oi, Bia.
— Por que tá sozinho no terraço num dos dias mais importantes da sua vida? — Bianca se juntou a Erik, também se debruçando sobre a grade de proteção. Ela fechou os olhos verdes e sentiu a brisa fresca contra as sardas do rosto.
— Tava aqui pensando no meu futuro… ou na falta dele. Ainda não me decidi.
— Você vai se tornar um bom Cardeal, Erik.
Sorrindo com desânimo, o jovem fez um não com a cabeça.
— Existem poucas opções pra um fracote como eu. Já aceitei que o meu Limite é estagnar como um Classe D de merda.
— Discordo. Se você pensa que é fraco, significa que tem espaço pra ficar mais forte.
Ele deu de ombros.
— Significa que, pelo menos, vou poder ajudar a minha avó com um salário de Escudeiro. Eles estão sempre em falta nos Clãs menores. Será o máximo pra mim.
— Sei que foi por causa dela que você se esforçou tanto pra entrar na Nova Éden. Tenho certeza de que a deixará orgulhosa, independente do que escolher.
Erik respirou fundo, parecendo murchar diante da amiga.
— Você ouviu as risadas do pessoal. Ninguém bota fé em mim.
— Como assim ninguém? E o que eu sempre digo pra você?
— Que você precisa superar esse seu medo de baratas?
— Engraçadinho. Você só precisa ser um pouco mais corajoso, é isso. Coragem não vai diminuir os seus problemas, mas eles ficarão mais fáceis de enfrentar.
— Papo furado.
Bianca cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.
— Então, em vez de me escutar, vai dar crédito para aquele bando de babacas?
— Não consigo ignorar… Me faz lembrar que eu não devia estar aqui. Eles sabem que eu sou uma fraude.
— Céus, Erik! — zangou-se ela. — Você continua o pirralho irritante de sempre.
— Falta de respeito com os mais velhos. — Ele abrandou a conversa com um sorrisinho travesso. — Isso não é jeito de falar com quem é um ano mais velho que você.
Bianca lhe mostrou a língua, contendo o riso, pouco antes de sua voz ser tomada pela nostalgia.
— Você ainda se lembra de quando a gente brincava na mansão do meu pai?
— Eu sempre dizia que iria te proteger e… — Desviando o olhar, o rapaz hesitou: — e hoje é você quem tem um Limite de Classe B.
— É sério isso? — Ela se zangou de novo. — Qual é a grande importância de detalhes como esse, afinal? Quando ninguém que conhecemos vai ser mais forte do que aquele Vincent Lucius.
Liberando o ar dos pulmões, o rapaz balançou a cabeça num gesto irônico.
— É verdade… o primeiro Classe S do Brasil em mais de vinte anos, e na nossa turma.
— Dramático como sempre… Dá vontade de te dar um cascudo, sabia?
— Ah, é? E quem aguentaria as suas reclamações se eu acabasse num hospital? A sua vida ficaria um tédio.
— Eu finalmente teria paz, garoto, isso sim. — Ela colocou as mãos na cintura e mudou de assunto. — Tava te procurando porque queria te mostrar uma coisa, mas depois dessa, já tô até mudando de ideia.
— Mas qual é o nível de perigo dessa coisa? "Tropecei de leve" ou "adeus, mundo cruel?"
Ela desviou o olhar enquanto corava, depois comentou em voz baixa:
— Olha… se você vier comigo, talvez você possa ganhar um beijo, que tal?
— Quê?! T-tá falando sério? Beijo de quem?
Bianca fechou a cara, rebatendo com frieza:
— Essa pergunta é séria?
Erguendo uma sobrancelha, Erik decidiu acompanhá-la em direção à saída, pensando que, quanto mais passava o tempo, menos entendia as mulheres.
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