Volume 1
Capítulo 1: Fragmentos
Segurando uma lâmina, Erik Marconde encarava uma larva espectral.
A criatura, de olhos vermelhos e vazios, possuía o mesmo tamanho de um torso de criança, refletindo as chamas de uma caçamba que queimava próxima de seu corpo viscoso e sem membros.
Em meio à área confinada, humano e monstro se estudavam na penumbra sob o teto baixo de um depósito de lixo hospitalar, ladeados por caçambas e vigas de concreto.
— Matar essa coisa é a minha única esperança…?
Como resposta, a larva escancarou uma boca repleta de dentes minúsculos, grunhindo como um porco ao disparar um jato de ácido amarelo na direção de Erik.
Pego de surpresa, o rapaz tentou cair para o lado, mas seu corpo doente não lhe permitiu nenhuma ação rápida. No último segundo, aquele jato corrosivo atingiu seu braço esquerdo, e a dor se alastrou como uma explosão.
Erik exclamou, cambaleando para trás enquanto o ácido derretia o tecido do moletom até chegar em sua carne.
— NÃO! — O cheiro de pele tostada se misturou ao ambiente, cujas chamas ganhavam mais e mais força.
Erik tombou de joelhos, estremecendo de dor. Tentou mover o braço esquerdo, mas o membro já não lhe obedecia. Ao encará-lo, vislumbrou apenas uma confusão de ossos, músculos expostos e sangue cauterizado pela qual subia um cheiro grotesco.
— Eremita… — arfou ele, com as lágrimas vertendo em profusão.
Uma voz estranha no celular de Erik respondeu a partir de seu bolso, num tom de sistema artificial:
— É dano por Corrosão, e você não tem nenhum elixir consigo. Precisa se livrar do seu braço antes que o efeito se espalhe.
— Q-Quê?! Como? Impossível!
— Sugiro que o faça depressa, Erik. Resta menos de um minuto.
— Merda! Merda! Merda! — Ele ergueu a lâmina, um bisturi hospitalar, com a mão direita e hesitou por três segundos, sem saber se aquilo funcionaria sem imbuir energia no metal, mas o ácido já havia causado a maior parte do estrago…
Então, com um grito de desespero, afundou o bisturi sobre a carne morta, trincando os dentes até sua mandíbula estralar.
— AAAAAAAHHHH!! — A aflição era insuportável, inconcebível. As lágrimas cortavam seu rosto. Um corte, depois outro, e mais outro…
Erik podia sentir…
Estava sendo arrastado para os domínios da morte.
*******
Uma semana antes, o dia de Erik não começou muito melhor. Ele se sentia deslocado, como se não pertencesse àquele lugar.
Magro, curvado, de pele oliva e cabelo tão preto quanto os olhos, era o tipo de cara que passaria despercebido na multidão, mas não ali… Ali era um ninho de cobras, onde até o menor dos ratos seria abocanhado.
Era o motivo pelo qual Erik sentia a risadinha de seus colegas como mordidas nas costas; um murmúrio que envolvia a sala de treinamento na qual se encontrava: uma arena ampla e vazia, com cheiro de suor, um teto alto, paredes de placas de metal reforçado e uma porta automática.
— Fracote… — Ele escutou um deles cochichar.
— Vai ser o primeiro a morrer — murmurou outro, com um sorriso cruel.
Ele engoliu em seco, tentando ignorá-los ao se concentrar no instrutor à frente da turma: um homem calvo trajando uma batina que era religiosa e, ao mesmo tempo, militar; uma peça na cor branca com detalhes em azul e ombreiras de proteção.
— Algum postulante pode me explicar o que é a Ceia da Ascensão? — perguntou o Cardeal, que se posicionava ao lado de uma mesa com um pequeno baú e alguns copos de água. Ele encarou os rostos de cada um dos presentes.
Ao todo, havia cerca de vinte estudantes, mas o braço que se ergueu foi o da única pessoa que não riu de Erik.
Era uma garota ruiva, de seios grandes e pernas longas, bem diferente da postura torta do rapaz. Bianca Decker usava um terninho azul que se ajustava com perfeição ao seu corpo esbelto, a gravata vermelha e a saia bege completando o conjunto do uniforme.
Erik percebeu que ela o fitava, mas só até seus olhos se cruzarem. Ela pareceu encabulada, imediatamente se voltando na direção do Cardeal.
— É um ritual de transformação, senhor. Na nossa Academia, acontece no segundo ano, sempre no dia sete de setembro, quando todos nós já temos dezenove anos ou mais. É a idade mínima pra aguentarmos a umbralita sem morrer, um metal que… enfim, dá poderes quando o corpo o absorve.
— Muito bem, Decker. — O instrutor assentiu, satisfeito. — E qual é a latência da umbralita?
— Vinte e três dias, senhor.
— Ótimo, ótimo. Escutaram bem? Todos vocês devem gravar esse número na cabeça ou estarão mortos antes do vigésimo quarto! Vocês ficarão um mês em recesso não pra descansarem, mas para treinarem à exaustão, ou a umbralita se tornará veneno no corpo de vocês.
Treinar…?, pensou Erik, desanimado.
— Contudo, assim que retornarem, já estarão sensíveis à umbrenergia e preparados para esse tipo de coisa… — O homem estalou os dedos diante do grupo, invocando um pequeno redemoinho de fogo no ar. As chamas se agitaram brevemente antes de se extinguirem com outro estalo. — Com isso, vocês se tornarão Ascendidos. A verdadeira batalha contra os espectros só começará depois que obterem esse título.
Apesar da rápida, mas empolgante demonstração de habilidade, Erik já não prestava atenção. Os risinhos continuavam atrás de si. Ele até curtia uma boa piada, mas não quando ele era a piada.
Sentia-se ansioso, pensando em puxar o celular do bolso e jogar algo rápido, talvez ler uma webnovel de sacanagem. Erik respirou fundo.
— Aproximem-se — pediu o Cardeal, curvando-se para abrir o baú e revelar seu conteúdo: vinte pedaços de um metal escuro que emitiam uma aura etérea e avermelhada. — Peguem um fragmento e o engulam.
Como o aluno mais fraco de sua turma, Erik se afastou discretamente para ficar por último. Permaneceu de cabeça baixa até sair da sala, ouvindo o eco das gargalhadas ao seu redor.
*******
Erik afrouxou a gravata do uniforme, ainda sentindo o gosto horrível da umbralita na boca. Debruçava-se sobre a grade do terraço da Academia Nova Éden, tentando ignorar o enjoo.
— Essa merda tem gosto de sangue… — Respirando fundo, seus olhos apáticos observaram o pôr do sol sobre uma boa parcela de Brumário, com seus carros elétricos, prédios com painéis solares e guindastes que reconstruíam os muros da enorme cidade-fortaleza nos trechos arrasados pelos ataques.
Experimentando um misto de raiva e frustração, Erik pensou no passado. Grande parte de suas lembranças da infância eram povoadas de notícias sobre as tragédias.
Espectros, era a forma que chamavam as malditas criaturas que habitavam o outro lado dos muros, responsáveis pela maior matança que a humanidade já havia conhecido…
Sacudiu a cabeça, desviando os pensamentos para o fato de que devia comemorar (era a droga do seu aniversário de vinte anos, afinal!), mas o clima daquela tarde não o empolgava. Nem um pouco.
Respirando fundo, puxou o celular do bolso e clicou no aplicativo da Nova Éden — um hexágono estilizado na cor azul-elétrico —, conferindo o programa de treinamento das férias. Sentiu-se exausto só de ler os exercícios do primeiro dia.
De repente, um som o distraiu, uma voz feminina às suas costas:
— Tava te procurando.
Erik guardou o aparelho e se virou, topando com o sorriso daquela garota ruiva de antes.
— Oi, Bia.
— Por que tá sozinho no terraço num dos dias mais importantes da sua vida? — Bianca se juntou a ele sobre a grade de proteção, tão próxima que Erik conseguiu sentir o calor emanando do braço dela. A garota fechou os olhos verdes, deixando o vento roçar nas sardas.
— Tava aqui pensando no meu futuro… ou na falta dele. Ainda não me decidi.
— Você vai se tornar um bom Cardeal, Erik.
Seu desânimo hesitou por um segundo em meio ao perfume floral que ela exalava, mas conseguiu fazer um não com a cabeça.
— Existem poucas opções pra um fracote como eu. Já aceitei que o meu Limite é estagnar como um Classe D de merda.
— Estagnar? Cadê aquele garoto que, quando éramos crianças, me prometeu ficar mais forte?
Erik deu de ombros, gesto rebatido por Bianca com um sorriso otimista. Ela jogou uma mecha de cabelo para trás da orelha e encarou o céu.
— Olha, Erik, se você pensa que é fraco, significa que tem espaço pra ficar mais forte.
— Significa que, pelo menos, vou poder ajudar a minha avó com um salário de Escudeiro — retrucou ele. — Será o máximo pra mim.
— Bom, tenho certeza de que sua avó ficará orgulhosa independente do que escolher.
Num misto de raiva e frustração, as mãos de Erik se fecharam com força contra as grades de proteção.
— E eu tenho outra escolha? Você ouviu as risadas do pessoal. Ninguém bota fé em mim! Pelo menos os Escudeiros estão sempre em falta nos Clãs menores.
— Como assim ninguém? E o que eu sempre digo pra você?
— Que você precisa superar esse seu medo de baratas?
— N-não é medo, é nojo! Mas isso não vem ao caso… Sabe muito bem que eu tô sempre batendo nessa tecla da coragem. Ela não vai diminuir os seus problemas, Erik, mas eles ficarão mais fáceis de enfrentar.
— Hah! Papo furado.
Bianca cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha com frieza.
— Então, em vez de me escutar, vai dar crédito para aquele bando de babacas?
— Não consigo ignorar, Bia… Me faz lembrar que eu não devia estar aqui. Eles sabem que eu sou uma fraude.
— Céus! — zangou-se ela. — Você continua o pirralho irritante de sempre.
— Falta de respeito com os mais velhos. — Ele abrandou o tom da conversa com um sorrisinho. — Isso não é jeito de falar com quem é um ano mais velho que você.
Bianca lhe mostrou a língua, contendo o riso, pouco antes de sua voz ser tomada pela nostalgia.
— Você se lembra de quando a gente brincava na mansão do meu pai? Às vezes, nossa bola ficava presa naquela árvore do jardim. Não dava nem tempo de eu dizer “cuidado” e você já tava lá em cima. Parecia que você não tinha medo de nada.
— Eu era doido! Sempre falava que iria te proteger dos espectros e… — Desviando o olhar, o rapaz hesitou: — e hoje é você quem tem um Limite de Classe B.
— É sério isso? — Ela se zangou de novo. — Qual é a grande importância desse detalhe, afinal? Quando ninguém que conhecemos vai ser mais forte do que aquele Vincent Lucius.
Liberando o ar dos pulmões, o rapaz balançou a cabeça num gesto irônico.
— É verdade… o primeiro Classe S de que se tem notícias em mais de vinte anos, e na nossa turma.
— Dramático… Dá vontade de te dar um cascudo, sabia?
— Ah, é? E quem aguentaria as suas reclamações se eu acabasse num hospital? A sua vida ficaria um tédio.
— Eu finalmente teria paz, garoto, isso sim. — Ela colocou as mãos na cintura e mudou de assunto. — Tava te procurando porque queria te mostrar uma coisa, mas depois dessa, já tô até mudando de ideia.
— Mas qual é o nível de perigo dessa coisa? “Tropecei de leve” ou “adeus, mundo cruel”?
Ela desviou o olhar enquanto corava, depois comentou em voz baixa:
— Olha… se você vier comigo, talvez você possa ganhar um beijo, que tal?
— Quê?! T-tá falando sério? Beijo de quem?
Bianca fechou a cara e rebateu com frieza: — Essa pergunta é séria?
Erguendo uma sobrancelha, Erik decidiu acompanhá-la em direção à saída, pensando que, de vez em quando, as mulheres pareciam mais perigosas que os espectros.
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