Volume 1
Capitulo 17: Epilogo
O entardecer alaranjado dominava o ambiente.
Deitada sobre a copa das árvores, estava uma mulher.
Ela vestia um longo vestido de bailarina, sua saia escura possuía um rasgão em sua crinolina revelando um pouco do seu maiô interno. Em suas costas, da mulher, existia uma cauda preênsil enrolada, sua expressão era séria, constantemente coberta pelos longos fios rosados de seu cabelo. Todo seu foco naquele momento estava sobre um objeto em suas mãos, no qual lembrava uma fatia de maçã que parecia ser feita do mais puro diamante.
— Me pergunto se a mamãe já tem conhecimento sobre isso… — murmurou
Sua preocupação possuía sentido, o objeto que segurava era um exemplar de maçã sangria, fruta criada pela própria carne do dragão da criação, cujos poderes eram muito perigosos para aquela terra neutra.
— Por que será que nenhum cavaleiro apareceu ainda? — Brincando com a fruta, indagou-se. — Isto é estranho.
Tinha percebido essa ausência desde que foi libertada de seu selo. Sendo uma besta alada, a mulher era constantemente vigiada pela sua mãe e pelos servos dela, então não entendia o porquê de não ter recebido uma visitinha até esse momento.
Isso deixava evidente a urgência de um receptáculo, somente com um em mãos um pacto de estigma podia ser feito, e assim tendo passe livre para usar todos os seus poderes sem que isso atraísse as servas de sua mãe ou de alguém que serve ao conselho.
No momento, ela pensava em apenas uma escolha: Aisha. Para aquela garota ir aonde ela estava, uma prisão escondida com poder de Vida junto ao de sua mãe, muito possivelmente a garotinha teria que ser compatível com o seu poder, não era uma certeza, é claro, coincidências existiam, mas arriscar era uma dor necessária.
— Está na hora de eu pagar minha dívida com aquela jovem moça — comentou. — Agora, onde a encontrar…
A porta abriu-se, e um homem cansado adentrou a casa.
Na mesma hora, uma garotinha alegre o recebeu com um sorriso em seu rosto
— Papai! — Pegando a maleta do homem — Deixa que eu carrego para você.
— Obrigado, Aisha, mas consegue carregá-la?.
— Claro que consigo! — falou.
Era óbvio que ela não conseguia carregar direito, porém o pai da garota não conseguia dizer não para ela. Após muito esforço em carregar o objeto, os dois foram até a cozinha, onde Aisha começou a preparar um café para seu pai.
— Tem certeza de que não quer que eu faça isso? — Em uma tentativa de tomar a chaleira das mãos da garota, o homem perguntou: — Não quero que se queime.
—Não! Eu sei fazer isso, o senhor me ensinou — fazendo biquinho, ela abraçou o objeto — O senhor já trabalhou demais, deixe tudo com sua filha aqui!.
Com um sorriso em seu rosto, o homem concordou com a cabeça, pegando um jornal para ler. Aisha então encheu a chaleira com água, tentando colocá-la no fogão logo em seguida, não imaginava que aquele objeto era tão pesado e o fogão era tão alto. Se esforçou ao máximo para conseguir cumprir seu objetivo, e por um descuido, a chaleira escorregou de sua mão.
Foi então que a garotinha viu como se o tempo tivesse parado, ela estendeu suas mãos para a chaleira e, na mesma hora, o objeto parou no ar, a água dentro dela flutuava em volta do objeto semelhante a bolhas de sabão. Aisha pegou o objeto flutuante confusa, olhou para seu pai em busca de respostas, mas ele tinha sua atenção toda voltada para o jornal em suas mãos.
“Eu fiz isso?” Indagou-se em seus pensamentos.
Em sua mente, ela lembrou do camaleão que resgatou mais cedo, de como ela parecia usar os ventos para se locomover, e se perguntava se estava fazendo o mesmo.
Em uma tentativa de replicar o que tinha acontecido, Aisha jogou a chaleira no chão, usando suas mãos para tentar fazê-la flutuar novamente. Contudo, o objeto caiu no chão, fazendo um grande baque metálico e a molhando no processo.
— Não deu certo…
— Aisha… O que está fazendo? — Oliver perguntou. — Acho melhor você ir para seu quarto, deixe que eu faço o café.
Aisha queria resistir, mas a descoberta de agora não podia esperar. Ela caminhou até seu quarto, em todo o trajeto pensou em como replicar aquilo que tinha feito.
Ela adentrou seu quarto, o local estava como o habitual, algumas pelúcias de animais repousavam em cima de um armário de madeira, no meio do quarto estava a cama de Aisha, na qual ela deitou-se.
Em uma última tentativa, ela virou-se de lado e levantou suas mãos até o armário, tentando derrubar as pelúcias em cima, mas nada aconteceu.
De repente, a garotinha foi pega de surpresa por uma voz feminina ao seu lado.
— Não acho que você vai controlar seu poder elemental tão fácil, eles só apareceram agora…
Virando-se até a voz, Aisha foi surpreendida por uma mulher com gentil sorriso. Ela quase gritou de surpresa, mas sua boca foi coberta por mãos.
— Por favor, não grite! — falou Determinação.
A mulher retirou as mãos de sua boca, deitando-se de bruços ao lado dela. Ela estava tão perto que era possível sentir a fragrância do perfume de seus cabelos, lembrava o cheiro de rosas, porém o que mais chamava atenção nela era sua cauda preênsil encolhida em suas costas em forma de bola
— Você é a mulher de antes!? Determin… Como era seu nome mesmo? — Aisha perguntou.
— Determinação, hehe, esse é meu nome; ela sorriu gentilmente. — Desculpe aparecer assim de repente dentro de seu quarto, mas eu não queria que seu pai me descobrisse
A mulher-lagarto então caminhou até a porta do quarto, começando a deslizar suas mãos no local. Ela então fez o mesmo com as janelas e algumas paredes.
— O que está fazendo? — Curiosa, Aisha indagou.
— Bloqueando o som para o lado de fora, não quero ser pega de surpresa quando estiver conversando contigo. Sabe, nosso assunto é muito sério para fofoqueiros intervirem.
Movendo suas mãos, a mulher criou uma brisa repentina, fazendo com que uma das pelúcias em cima do armário flutuasse até o colo da garotinha.
— Uau! Você é mesmo uma mágica! — exclamou Aisha. — Então, se veio até mim, significa que vai me tornar uma mágica também!?
— Não é bem magia… Talvez na sua interpretação… Esquece.
A mulher-lagarto deu uma leve risada, estava até um pouco envergonhada com tanto de admiração que recebia naquele momento, mas a ingenuidade da garotinha deixou mais evidente como ela deveria tratar certos assuntos com Aisha, não queria a envolver muito em suas brigas familiares, mas ela precisava de um receptáculo, era o único meio de poder lidar com sua irmã naquele momento.
— Você que muito virá uma maga, né… Estaria disposta a passar por um extenso treinamento?
Aisha concordou com a cabeça fervorosamente. Determinação suspirou, percebia que estava a enganando com esse acordo, porém o fato de a garota achar que a energia elemental seria mágica acalmou mais sua culpa.
Aproximando sua mãe até o peito de Aisha, a mulher-lagarto começou o ritual, retirando uma esfera flamejante esbranquiçada de lá.
— Uau, o que é isso!? — Admirada, Aisha perguntou. — Parece algodão-doce.
A esfera parecia dançar entre as mãos da mulher-lagarto, enquanto com seus dedos ela pintava algo sobre o objeto.
— Esta é a sua alma, Aisha. Ela é sua identidade, todo ser vivo tem alma, mas nem toda alma é igual.
Determinação desenhou um símbolo que lembrava sua cauda de camaleão encolhida, e com um toque de seus dedos, a esfera sumiu em pó brilhante. — Está feito.
Aisha, então, analisou todo o seu corpo, sempre com expressão pensativa em seu rosto. Em uma ação cômica, ela colocou suas duas mãos em frente à pelúcia em uma tentativa de replicar o poder de Determinação, porém nada aconteceu, e isso a frustrou.
— Deu tudo certo mesmo? — Aisha perguntou.
— Claro, só olhar como sua energia elemental mudou; a mulher então se estapeou. — Como sou burra, me esqueci de que neste mundo vocês não fazem ideia do que é isso.
Aisha ficou curiosa — Então eu ainda não tenho magia?
— Claro que tem, você apenas não sabe controlar ainda; ela então perguntou algo que já sabia a resposta — Aisha, você conhece a história da Tabela?
— Tabela? Está falando daquela coluninha com numeros?
Determinação riu com a resposta — hehe, não a tabela da tabuada, me refiro à entidade Tabela, mas pela sua resposta já sei que não.
A mulher então sentou-se de joelhos — sente-se ao meu lado, irei lhe explicar.
Determinação então começou a contar tudo de uma maneira que Aisha pudesse absorver o máximo de informações. Ela explicou a origem dos tecidos dos mundos e da entidade conhecida apenas como Tabela, e de como sua interferência nas raças deu origem a um sistema de poder capaz de manipular os elementos da natureza, os chamados portadores
Explicou também que cada elemento era catalogado em uma classe, com Aisha controlando o elemento primário vento, aproveitando a questão para explicar que ela era uma besta alada filha do dragão da criação. Ao terminar, a mulher percebeu a cara de confusa da garotinha, reagindo desapontada — É, não sou muito boa com história, você entendeu, né, Aisha?
— Não entendi… Essa tal de Nephrite é deus!? Você é Deus!? — Alvoroçada, indagou.
— Não, está certo que em seu ponto de vista eu posso parecer algo divino, mas tanto as entidades como eu somos seres vivos… — a mulher começou a coçar seu ombro — se é que eu posso me considerar um ser vivo, é claro.
Aisha ignorou a última frase. Muitas informações bombardeavam sua mente naquele momento. Ontem, ela estudava que a Terra era redonda e que ela era o único planeta com vida no universo. Hoje, ela descobre que a terra e o universo não são únicos, é que neles existem seres capazes de apagar a existência ou criar, dependendo da sua vontade.
Ela olhou para o lado de fora da sua janela, o céu estava alaranjado devido ao entardecer, passou alguns segundos encarando esta visão até falar com sorriso em seu rosto.
— Este mundo é realmente incrível! Determinação, por favor, me ensine tudo sobre ele!
A mulher reagiu rindo, a inocência de Aisha era apegável, isso a deixou com um pouco mais de culpa de a ter tornado seu receptáculo, porém ela decidiu esquecer isso no momento.
— Eu irei, mas é melhor ir com calma; afagando a cabeça de Aisha — Como minha mãe sempre diz, nunca apresse, tudo tem seu tempo.
Aisha então percebeu um tom triste nas palavras da mulher — Sua mãe também morreu?
— Não, mas infelizmente as circunstâncias atuais não nos permitem ficar juntas — Com expressão triste, Determinação comentou.
Um silêncio rompeu o quarto por alguns segundos. Aisha tentou se desculpar, porém um movimento em sua porta fez perder o foco. Era seu pai tentando entrar no quarto, mas, devido ao poder de Determinação, ele não conseguia.
A mulher então começou a caminhar para trás, gesticulando silêncio para Aisha. Na mesma hora, ela se camuflou com as cores da parede do quarto e estalou seus dedos.
O homem então entrou no quarto — Oi, Aisha, por acaso você viu onde eu coloquei meus sapatos?
A garotinha negou com a cabeça, o homem então começou a mexer na porta, virando-a de um lado para outro. Aisha ficou meio tensa de seu pai acabar deparando-se com sua visitante, mas o homem nada notava a presença da mulher.
Isso a impressionou, sabia que ela tinha característica de camaleão, até parte de seu nome levava o título da espécie, mas não suspeitava que ela podia agir igual ao animal.
— Estranho, eu poderia jurar que essa porta estava pesada, acredita? — Oliver falou.
Aisha apenas deu um sorriso sem graça como resposta, esperando seu pai sair de seu quarto para ir até a Determinação.
— Eu vou poder ficar invisível também? — Animada, a garotinha indagou.
— Aí você teria que criar escamas, saindo de sua camuflagem, dando a língua — É ter uma língua deste tamanho.
— Haha, eu gostaria disto
Aisha riu da situação, ao mesmo tempo ele ficou cada vez mais animada em aprender a controlar sua tal magia, estava curiosa com o que podia fazer com aquilo.
Ao mesmo tempo, Determinação ponderava: assumiria a responsabilidade dos ensinamentos de Aisha, era seu dever a partir de agora, porém temia seus métodos de ensino, ela não era sua mãe, sabia que isso ia demorar mais do que o planejado. Aisha vivia em um mundo neutro, não possuía noção do uso da energia elemental, algo complicado, ainda mais quando a essência do poder exige da interpretação máxima de seu usuário.
Neste momento, uma frase dita por sua mãe soou em sua mente.
“Um dia você verá o peso de ser uma professora, e verá que terá que fazer uma escolha: seguir ou desistir? ”
— Eu me arrependo de não ter levado a sério as palavras dela naquele dia…
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios