O Cuidador da Ojou-sama Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Volume 7

Capítulo 3: Em Meio aos Ecos

TRÊS DIAS DEPOIS.

Ao retornar da academia para a mansão e iniciar imediatamente o Management Game...

— Uau!?

Não consegui evitar um grito de surpresa ao ver a enorme quantidade de e-mails não lidos inundando a caixa de entrada do jogo.

— Todos esses são pedidos de clientes?

Pelos títulos das mensagens, praticamente todas eram solicitações de serviços de consultoria. Mas por que, de repente, essa enxurrada de pedidos...?

...Ah, claro. Foi anunciado hoje, não foi?

Uma lembrança me atingiu, e fui conferir a seção de notícias do Management Game. Como esperado, lá estava uma matéria sobre a parceria empresarial entre a J's Holdings e a Taishou Movers.

O assunto estava sendo tratado como algo extremamente importante. Provavelmente no mesmo nível — ou até acima — da repercussão que houve quando a Suminoe-san tentou a aquisição da minha empresa.

A matéria tinha um número impressionante de visualizações. Além disso, deixava claro que a Tomonari Consulting havia liderado o projeto. Era muito provável que aquela reportagem fosse a razão para o súbito aumento de solicitações. Enquanto eu encarava, atônito, a montanha de e-mails não lidos, ouvi uma batida na porta.

— Entre.

— Com licença.

Shizune-san entrou no quarto, empurrando um carrinho de serviço. Parecia que ela havia trazido alguns lanches novamente.

— Itsuki-san, ouvi um grito agora há pouco...

— Ah, desculpe por isso. Aconteceu algo inesperado no Management Game...

— Algo inesperado?

Inclinando a cabeça curiosamente, Shizune-san observou meu monitor enquanto eu lhe mostrava a tela. Depois de dar uma rápida olhada na matéria e na minha caixa de entrada, ela compreendeu imediatamente a situação.

— Isto... você propôs um projeto realmente impressionante.

— Você também acha isso, Shizune-san?

— O objetivo final do Management Game é aplicar, no mundo real, as experiências adquiridas dentro do jogo. Este projeto alcançou exatamente isso. Os outros alunos certamente perceberam esse fato, e é por isso que estão reagindo com tanta intensidade. ...Tenho certeza de que os juízes também ficaram impressionados.

Pensando bem, Asahi-san e Taishou também haviam ficado impactados com a forma como esse projeto poderia se transformar em sucesso no mundo real. Ao que tudo indicava, minha proposta havia atingido o cerne daquilo que o Management Game realmente representava.

Continuei descendo pela matéria e lendo os detalhes.

...Taishou realmente fez algo incrível.

Outro ponto de destaque chamou minha atenção no título. A Taishou Movers havia desenvolvido um novo tipo de material de embalagem e obtido uma patente para ele. Esse material havia sido projetado para o transporte de equipamentos de precisão, e a empresa pretendia comercializá-lo como um produto independente a partir de agora.

Eu apenas havia compartilhado uma visão ideal, mas Taishou claramente havia se esforçado para corresponder às expectativas.

A Taishou Movers era, como o próprio nome indicava, uma empresa de mudanças. Naturalmente, possuía grande experiência no transporte de eletrodomésticos. Essa especialização havia se encaixado perfeitamente no novo empreendimento. Muito provavelmente, o desenvolvimento do material de embalagem havia se baseado no conhecimento acumulado ao longo de anos de atuação.

Nesse momento, meu smartphone vibrou. Na tela apareceu o nome de Konohana Takuma.

— É Takuma-sama, correto? — observou Shizune-san.

— Sim. Estamos prestes a começar uma reunião.

— Então vou me retirar…

Shizune-san levou a mão à maçaneta. Senti um pouco de culpa por aceitar os lanches que ela havia trazido e logo em seguida dispensá-la.

— Você pode ficar, se não houver problema...

— Posso acabar dizendo algo venenoso, então prefiro não.

Sim... provavelmente era melhor evitar isso. Depois que a porta se fechou, iniciei a chamada com Takuma-san.

"Ei, Itsuki-kun. Como está indo esse trabalho de consultoria?"

"Está indo muito bem até agora."

"Imaginei. Sugeri esse caminho porque sabia que você daria conta. ...Então, especificamente, que tipo de trabalho você tem feito?"

"Preparei um resumo geral. Vou enviar por e-mail."

Para tornar a reunião mais eficiente, compartilhei os documentos que já havia preparado. Shimax, J's Holdings e Taishou Movers — essas foram as três empresas com as quais trabalhei como consultor.

"Hã... vendas itinerantes de eletrodomésticos? Foi uma ideia bem criativa."

Takuma-san me elogiou.

"Eu apenas identifiquei os pontos fortes das duas empresas. Por acaso, essas qualidades combinavam perfeitamente..."

"Perceber esses pontos fortes é justamente o seu talento. E esse é exatamente o trabalho de um consultor."

Ouvir aquilo não foi nada desagradável. Dessa vez, tudo havia corrido bem até demais para mim. Tinha sido muito mais do que um bom começo. Mas, pensando melhor, aquela oportunidade só surgiu graças a pessoas como Narika e Asahi-san.

Mais uma vez, fui lembrado de como havia sido importante formar a Aliança do Chá. As conexões entre as pessoas podiam exercer um poder impressionante em momentos como aquele.

"Pode me enviar os dados da Shimax?"

"Claro."

Enviei os documentos para Takuma-san. Um breve silêncio se seguiu. Provavelmente ele estava analisando o material.

"Hum... você e Miyakojima-san formariam uma ótima dupla."

Takuma-san disse isso enquanto tomava um gole de chá.

"Ela tem um talento quase genial quando se trata de criar ideias, não acha? Mas parece que não é muito boa em lidar com os colegas do setor. Se conseguisse colaborar melhor com outras pessoas, alcançaria resultados ainda mais impressionantes... Acho que ela simplesmente não é do tipo que leva jeito para lidar com gente."

Nossa. Isso estava... exatamente certo.

"Por outro lado, você é excelente em lidar com pessoas. Especialmente quando se trata de negociar com colegas de profissão ou outros líderes empresariais. Se usar essa força para apoiar Miyakojima-san, a Shimax poderá dar um enorme salto à frente. Não se trata apenas de compensar as fraquezas dela — é uma sinergia extremamente poderosa."

"...Entendo."

Então, formar uma parceria com Narika realmente havia sido a decisão certa.

— Hum?

Uma nova mensagem apareceu na caixa de entrada do jogo. O remetente... era Narika.

"Aconteceu alguma coisa?"

"Ah, não, é apenas um e-mail de trabalho da Narika."

"Falando nela... certo, vamos encerrar esta reunião. Vá cuidar da Miyakojima-san."

"Espera, já terminamos?"

"Velocidade é tudo nos negócios, especialmente quando se trata de uma cliente importante como ela. ...Mais tarde vou enviar qualquer comentário ou sugestão por e-mail, então apenas revise tudo com calma."

Bem, Narika era uma cliente importante, então… Seguindo a sugestão de Takuma-san, decidi priorizá-la por enquanto. Depois de encerrar a ligação com Takuma-san, notei uma notificação de chamada perdida na tela do celular... de Narika.

Ela já havia tentado me ligar uma vez. Retornei a ligação pelo histórico de chamadas. A chamada foi atendida quase instantaneamente.

"Desculpe, eu estava em outra ligação. Está tudo bem agora?"

"Ah, é... na verdade, eu queria consultar você sobre uma coisa."

Narika falou de forma hesitante.

"Quero reforçar a segurança da empresa, mas não sei muito bem por onde começar."

"...Segurança, é?"

Ela provavelmente estava falando sobre segurança da informação — mais especificamente, medidas de segurança relacionadas à área de TI. Mas a Shimax já não tinha um departamento responsável por segurança?

"O que há de errado com as medidas de segurança atuais?"

"Nós já temos algumas, mas, desde que começamos o negócio de comércio eletrônico, achei que seria melhor fortalecer todo o departamento de TI. Então queria saber se existe algo mais que poderíamos fazer."

Então, com o lançamento da loja virtual, ela queria reformular toda a infraestrutura tecnológica da empresa.

A Shimax era uma empresa tradicional e consolidada. Em companhias desse tipo, os sistemas de TI frequentemente ficavam defasados em relação aos padrões mais modernos. Fazia sentido que ela quisesse aproveitar o novo empreendimento como uma oportunidade para modernizar tudo. Eu conseguia entender esse impulso.

"Então... hum... quanto tempo isso levaria? Você conseguiria cuidar disso imediatamente?"

"Bem, ainda estamos no meio do contrato de consultoria com a Shimax, então, apesar de isso fugir um pouco do escopo normal, vou dar prioridade ao assunto. Dito isso..."

Enquanto falava, não conseguia me livrar da sensação de que havia algo estranho na atitude de Narika.

"...Narika, você está em pânico por algum motivo?"

"O quê!? N-N-Não! Estou perfeitamente bem!!"

Ela era péssima em mentir. Perguntei novamente, desta vez em um tom um pouco mais sério.

"Isso pode ser importante, então seja sincera comigo. Por que você está tão nervosa?"

O trabalho de um consultor dependia de conquistar a confiança dos líderes empresariais. Se ela estivesse escondendo alguma coisa, isso poderia atrasar respostas importantes. Eu precisava que fosse honesta comigo, mesmo que para isso eu tivesse que ser um pouco mais firme.

"B-Bem... é que... na verdade, não tem muito a ver com a empresa."

Narika hesitou.

"Mais cedo, quando entrei no jogo, vi a notícia sobre a empresa da Asahi-san lançando um negócio de vendas itinerantes de eletrodomésticos. ...Foi uma ideia sua, não foi?"

"Foi."

"Isso certamente vai ser um enorme sucesso. Tenho certeza de que outras pessoas pensam o mesmo. Então você provavelmente está recebendo uma tonelada de pedidos agora, não está?"

"...Mais ou menos."

Na verdade, enquanto conversávamos, outro e-mail de solicitação apareceu na minha caixa de entrada. Mas por que isso deixaria Narika tão inquieta?

"E então..."

A voz dela ficou cada vez mais baixa.

"Se você ficar muito popular... eu fiquei preocupada que acabasse se afastando de mim..."

Sua voz tremia de insegurança. Eu praticamente conseguia imaginá-la se remexendo nervosamente, com o rosto tomado pela dúvida. Ao ouvir os sentimentos sinceros de Narika, eu...

"Pfft."

"Ei! Por que você está rindo!? Eu estou falando sério!"

Eu sabia que não era muito gentil da minha parte, mas não consegui evitar uma risada.

"Escuta, Narika... se você acha que eu me esforçaria desse jeito para ajudar qualquer pessoa, está completamente enganada."

Os receios dela eram totalmente infundados.

"Lembra quando eu disse que você tinha um senso comum bem normal?" Eu disse.

"Sim."

"Você está sempre se esforçando tanto que dá vontade de torcer por você. ...Talvez seja porque suas dificuldades parecem familiares. Querer fazer amigos, achar os estudos difíceis... esse tipo de preocupação não é algo que se ouve muito nesta academia, não é?"

"Ugh... é, isso é verdade."

Para alguém como eu, que estava desesperadamente tentando me encaixar naquela academia, os problemas de Narika eram os mais fáceis de compreender.

Eram preocupações comuns, do dia a dia. Do tipo que eu mesmo poderia ter tido sem dificuldade alguma.

"Talvez isso não soe como um elogio, mas eu percebo em você uma certa fragilidade humana. E, por causa disso, quando vejo você seguindo em frente e se esforçando, sinto vontade de apoiá-la e continuar avançando também."

Hinako e Tennouji-san também tinham suas próprias fragilidades. Mas as de Narika provavelmente eram as mais evidentes. Narika parecia a mais real. E essa vulnerabilidade humana era justamente a origem de seu senso comum tão natural.

Dizem que qualidades e defeitos são dois lados da mesma moeda, e Narika era um exemplo perfeito disso. Quando parei para pensar, Takuma-san havia chamado Narika de "gênio", até mesmo em comparação com Hinako e Tennouji-san.

Isso significava que Narika possuía um potencial extraordinário.

"Eu ainda sou inexperiente, então existe um limite para a quantidade de solicitações que consigo atender. Mas não tenho intenção alguma de romper nosso contrato. Deixe-me permanecer no seu navio até o fim."

"I-Itsuki~~~..."

Aliviada, Narika chamou meu nome com a voz embargada pelas lágrimas.

"Vou cuidar da questão da segurança. Em breve vou elaborar algumas propostas, então apenas tenha um pouco de paciência."

"Sim! Muito obrigada, Itsuki!"

Encerrei a ligação com Narika. Afastando a cadeira da mesa, soltei um leve suspiro.

— Medidas de segurança, é?

A Shimax já possuía um departamento de segurança, mas, se o objetivo era realizar uma reformulação completa, talvez fosse melhor recorrer a softwares de segurança especializados de terceiros em vez de depender apenas da equipe interna.

Nesse momento, Narika me enviou um e-mail com as informações mais recentes da empresa, então comecei a analisá-las rapidamente. O negócio de comércio eletrônico estava indo bem até o momento, mas já havia sinais de uma possível falta de pessoal à medida que a nova operação crescia.

Os funcionários já estavam sobrecarregados, e adicionar ainda mais responsabilidades parecia uma receita perfeita para o esgotamento.

"Se usar essa força para apoiar Miyakojima-san, a Shimax poderá dar um enorme salto à frente."

Lembrei-me das palavras de Takuma-san. Ele havia descrito meu principal ponto forte como...

— Habilidade para negociação, hein...

Provavelmente não se tratava de enganar pessoas ou manipular situações. Era sobre algo muito mais direto: construir alianças e conquistar colaboradores. ...Embora Takuma-san parecesse querer que eu desenvolvesse também um lado mais astuto, esse tipo de estratégia sofisticada ainda estava além das minhas capacidades.

Minha experiência prestando consultoria para Asahi-san e para a empresa de Taishou havia me ensinado algo importante. Empresas que exploravam seus próprios pontos fortes tinham muito mais chances de alcançar o sucesso.

...Portanto, eu também precisava aproveitar melhor minhas próprias qualidades.

Negociação.

Construção de relacionamentos.

Era nesse campo que eu realmente podia me destacar.

— Certo, está aqui...

Abri a gaveta da minha mesa e retirei algo que estava guardado ali havia algum tempo.

Era… Um cartão de visitas que Shizune-san havia me dado antes do início da competição.

Originalmente, meu papel havia sido configurado como o herdeiro de uma empresa de TI de médio porte. ...Era apenas uma história de fundo. Mas, à medida que fui me adaptando à academia, percebi que precisava estudar tecnologia da informação seriamente. Quando Shizune-san descobriu isso, ela sugeriu:

"Que tal realmente trabalhar em uma empresa de TI no futuro?"

Para dar mais credibilidade a essa possibilidade, algum tempo depois ela me entregou esse cartão de visitas. Ela havia até conseguido uma promessa de contratação caso eu demonstrasse interesse após a formatura.

A empresa era especializada no desenvolvimento de softwares de segurança para escritórios. Como havia sido recomendada por Shizune-san, tratava-se de uma companhia respeitável, com baixa rotatividade de funcionários e até comerciais na televisão.

Saí do meu quarto e segui em direção à cozinha. Lá encontrei Shizune-san verificando os ingredientes recém-entregues à mansão.

— Shizune-san, tem um minuto?

— O que foi?

Mostrei a ela o cartão de visitas que havia retirado da gaveta.

— Gostaria de usar este cartão...

 

Na noite seguinte, eu estava sozinho em um prédio comercial próximo à estação. Se estivesse usando um terno, passaria facilmente por um funcionário comum. Mas, como estava ali na condição de estudante, vestia o uniforme da Academia Kiou.

Um estudante sozinho em um lugar daqueles devia ser algo incomum, pois tanto os transeuntes quanto os seguranças continuavam lançando olhares curiosos em minha direção. Depois de esperar por algum tempo, um homem saiu do elevador e se aproximou.

— Desculpe. Minha reunião anterior acabou se prolongando...

— Não, quem deveria pedir desculpas sou eu por tomar seu tempo quando o senhor está tão ocupado.

Mesmo tendo se atrasado menos de cinco minutos, ele ainda assim se desculpou. Ele era jovem — provavelmente tinha pouco mais de vinte anos. Curvou-se com naturalidade e experiência, e eu instintivamente fiz o mesmo.

Em seguida, entregou-me um cartão de visitas.

— Watarai, Divisão de Vendas 2, Horizon Inc.

— Tomonari Itsuki. Prazer em conhecê-lo.

Recebi o cartão com ambas as mãos. Eu havia estudado previamente as regras de etiqueta para troca de cartões de visita. Quando se recebe um cartão sem entregar outro em troca, basta aceitá-lo com as duas mãos. Depois disso, deve-se agradecer e fazer uma leve reverência.

— Muito obrigado.

Após agradecer, fiz outra reverência.

— Então vamos para a sala de reuniões.

Segui Watarai-san até o elevador. O escritório da Horizon Inc. ficava no décimo sétimo andar. Saímos do elevador, percorremos um longo corredor e entramos em uma sala de reuniões.

— Fiquei surpreso, sabe? Receber alguém interessado em conhecer nossos produtos é normal, mas um estudante? Essa é a primeira vez.

Talvez percebendo meu desconforto diante do ambiente formal, Watarai-san relaxou propositalmente o tom de voz. Ele me conduziu até o assento principal da mesa.

Uma garrafa de chá já havia sido preparada para mim. No centro da mesa havia um projetor pronto para exibir apresentações. Toda a estrutura havia sido organizada como se fosse uma reunião de negócios de verdade.

Eles não haviam economizado esforços, mesmo para atender um simples estudante, e isso me fez sentir profundamente grato.

— Sinto muito por ocupar seu tempo sendo apenas um estudante...

— Não, não. O Management Game da Academia Kiou é bastante conhecido até mesmo em nossa empresa. É uma honra poder ajudar.

Watarai-san fechou a porta da sala. Coloquei o cartão de visitas que ele me entregara sobre meu porta-cartões e o deixei sobre a mesa. Em reuniões de negócios, não se guarda imediatamente o cartão recebido. A etiqueta exige que ele permaneça à vista durante a conversa e só seja guardado ao final da reunião.

— Curiosidade: o presidente da nossa empresa é ex-aluno da Academia Kiou.

— Sério?

— Sim. Então, de certa forma, isso foi quase uma ordem presidencial. Outro dia ele me disse: "O Management Game é difícil, então trate de ajudá-los quando puder!" Considere isto uma visita peculiar de um ex-aluno.

— Isso é realmente muito gentil da parte de vocês.

A Horizon Inc. era uma empresa de TI fundada há vinte anos. Se eu me lembrava corretamente, o atual presidente ainda era o próprio fundador da companhia. Isso significava que ele havia se formado na Academia Kiou e construído aquela empresa do zero.

Ela não era listada em bolsa, mas possuía cerca de 80 bilhões de ienes em faturamento anual e mais de três mil funcionários distribuídos entre suas subsidiárias. Era uma gigante do setor. A habilidade necessária para criar uma empresa desse porte a partir do nada era algo difícil até de imaginar.

...Na verdade, ela preenchia facilmente todos os requisitos para abrir capital, mas não o havia feito.

Provavelmente preferiam permanecer uma empresa privada para manter maior flexibilidade administrativa e evitar a interferência constante de acionistas exigentes.

— Agora, permita-me apresentar nosso produto... Horizon Viewing.

— Por favor.

Ao entrar no modo de apresentação, a postura de Watarai-san tornou-se novamente profissional. Abri meu notebook e me preparei para fazer anotações.

Afinal, por que eu estava visitando a Horizon Inc.?

Para atender ao pedido de Narika relacionado às preocupações de segurança da Shimax, eu queria aprender mais sobre os softwares de segurança desenvolvidos pela empresa. A Horizon comercializava um produto chamado Horizon Viewing. Pelas pesquisas superficiais que havia feito, tratava-se de uma ferramenta para gerenciamento de ativos de TI corporativos, como computadores e periféricos.

Meu objetivo era avaliar se a Shimax poderia adotar esse sistema. A Horizon Inc. também existia dentro do Management Game. Porém, como era administrada por inteligência artificial e não por alunos, considerei que uma visita presencial seria a melhor abordagem.

Normalmente isso não seria possível. Mas eu tinha uma pequena conexão com aquela empresa. O cartão de visitas que Shizune-san havia me dado era justamente da Horizon Inc.

Esperando conseguir uma reunião, liguei para o número impresso no cartão quase por impulso.

Para minha surpresa, aceitaram o pedido prontamente. E foi assim que cheguei até aquele momento.

— O Horizon Viewing é um software que auxilia empresas no gerenciamento de seus ativos de TI. Seus casos de implementação são bastante diversos, incluindo até mesmo o Ministério dos Assuntos Internos e Comunicações...

Watarai-san iniciou a apresentação com extrema fluidez, sem sequer tropeçar nas palavras. O software era tão confiável que havia sido adotado por órgãos governamentais e universidades privadas de prestígio.

Além disso, possuía a maior participação de mercado em sua categoria. O número total de implementações já ultrapassava vinte mil. Em outras palavras, existiam mais de vinte mil organizações que consideravam a segurança interna uma prioridade. ...Isso provava que os instintos de Narika estavam absolutamente corretos.

— Com o Horizon Viewing, também é possível combater vazamentos de informação. Por exemplo, caso um dispositivo USB não autorizado seja conectado, a transferência de arquivos é bloqueada e uma notificação é enviada imediatamente.

Pelo que parecia, o software não apenas gerenciava os ativos de TI, mas também ajudava a prevenir vazamentos de dados.

— Quanto tempo costuma levar a implementação?

— Isso depende do porte da empresa, mas, por exemplo...

Watarai-san respondeu sem hesitação. Havia nele uma espécie de aura profissional. Uma serenidade típica de alguém acostumado ao mundo corporativo. Sem querer, comecei a me perguntar se algum dia me tornaria um adulto como ele.

Pensamentos assim passaram pela minha mente. Watarai-san continuou explicando os detalhes do Horizon Viewing.

— E acredito que esse seja o panorama geral.

Após concluir a apresentação, ele relaxou visivelmente os ombros.

— Tomonari-kun, você é tão calmo que acabei entrando completamente no modo de vendas. Minha explicação fez sentido?

— Sim. Muito obrigado pela explicação detalhada.

Ele havia explicado tudo de forma clara e objetiva, desde as funções básicas até os métodos de implementação. Com uma quantidade tão grande de casos de sucesso, parecia ser um software que qualquer empresa poderia utilizar.

Isso certamente serviria para a Shimax também. Enquanto eu refletia sobre os próximos passos, alguém bateu três vezes à porta da sala de reuniões.

— Oh! Então você deve ser Tomonari-kun!?

Um homem robusto, com alguns fios grisalhos no cabelo, entrou soltando uma gargalhada calorosa. Ele vestia um terno de excelente qualidade. Não parecia ser de uma marca internacional famosa, mas o caimento perfeito em seu corpo sugeria que provavelmente havia sido feito sob medida.

— Prazer em conhecê-lo. Sou Sorano, presidente e diretor-executivo da Horizon.

— Sou Tomonari Itsuki. Muito obrigado por esta valiosa oportunidade.

Percebendo instintivamente sua posição na empresa, apressei-me em fazer uma reverência e receber seu cartão de visitas.

— Então, o que achou? Aprendeu algo útil hoje?

— Sim, foi uma experiência muito enriquecedora.

— Fico feliz em ouvir isso. ...Talvez já tenham lhe contado, mas eu também sou formado pela Academia Kiou. O lago do pátio ainda existe?

— Ah, sim, continua lá. O lago das carpas, certo?

Eu me lembrava vividamente dele desde a época em que havia sido transferido para a academia, quando vi Hinako alimentando os peixes. Pensando agora… Será que era mesmo permitido alimentá-los daquele jeito?

— Aquele lago foi construído na minha época. O conselho estudantil de então queria usar parte do orçamento para melhorar a paisagem da academia. Foi uma eleição bastante disputada.

Então... aquele lago nem sempre existiu.

— Fazer parte do conselho estudantil dá poder suficiente para mudar o ambiente da academia nesse nível?

— Está interessado no conselho estudantil?

— Sim. Na verdade, pretendo entrar para ele.

— Oh, isso é bastante ambicioso!

O presidente Sorano pareceu impressionado.

— Se pretende entrar para o conselho estudantil, é melhor se acostumar a conversar com adultos. Ouvi dizer que eles frequentemente lidam com pessoas importantes de fora da academia.

— Entendido... muito obrigado.

Nesse aspecto, eu já vinha acumulando bastante experiência. Afinal, eu morava na mansão da família Konohana. Takuma-san, Kagen-san e os demais funcionários… Eu estava cercado por adultos que atuavam em um nível completamente diferente.

— Watarai, por que não lhe dá alguns conselhos?

— Bem, eu sou apenas um vendedor...

Watarai-san sorriu de forma constrangida, claramente pego de surpresa pela sugestão do presidente Sorano. Aproveitei a oportunidade para fazer uma pergunta.

— Hum... existe algum segredo para vendas? Ultimamente tenho negociado com muitas pessoas diferentes...

Eu ainda não havia encontrado grandes obstáculos nas negociações, mas certamente poderiam existir pontos que eu não estava percebendo. Receber conselhos de um profissional era uma oportunidade rara para um estudante como eu. Queria aproveitar tudo o que pudesse para evoluir.

— Deixe-me ver... Eu diria que o mais importante é entender a pessoa à sua frente e ajustar sua abordagem.

Watarai-san levou um dedo ao queixo enquanto explicava.

— Por exemplo, um jovem cheio de energia e uma pessoa mais velha e séria. Seria estranho abordar ambos da mesma forma, não acha? Com o jovem, conversar de maneira descontraída deixa o ambiente mais leve. Já com alguém mais velho, uma postura calma e equilibrada costuma gerar conversas mais profundas.

— Entendo…

Quando ele disse que era preciso mudar a abordagem de acordo com a pessoa, minha primeira impressão foi negativa. Soou um pouco como falsidade. Mas, ouvindo a explicação completa, aquilo fazia todo sentido.

Tentei imaginar a situação oposta. Abordar um jovem com uma postura excessivamente séria provavelmente o deixaria desconfortável. Por outro lado, agir de forma exageradamente animada diante de alguém mais velho poderia passar uma imagem de frivolidade.

Sim. Isso certamente não terminaria bem.

— Isso não vale apenas para vendas. Serve para qualquer forma de comunicação. Mesmo entre seus amigos, alguns adoram brincadeiras enquanto outros são mais reservados, certo? Você não chegaria para uma pessoa tímida dizendo: "Vamos sair por aí para paquerar!". ...Todo mundo faz esse tipo de ajuste instintivamente. Basta aplicar o mesmo princípio às vendas.

Agora que ele mencionava isso, estava absolutamente certo. Talvez fosse uma técnica que todos utilizassem sem sequer perceber.

— Aliás, esse truque também funciona em entrevistas de emprego, então vale a pena lembrar. Normalmente há um recrutador mais jovem e um executivo mais velho na entrevista. Se ajustar sua abordagem dependendo de quem estiver falando, pelo menos passará na seleção da nossa empresa.

— Então você pensava nessas coisas durante as entrevistas...?

O presidente Sorano soltou uma risada resignada. Provavelmente ele havia participado da entrevista de contratação de Watarai-san. Mas a menção às entrevistas de emprego provocou uma pontada desagradável em meu peito.

Era culpa. Originalmente, eu havia recebido uma oferta informal de emprego da Horizon por meio daquele cartão de visitas. Em outras palavras, fui recrutado pela empresa e estava ali graças a essa conexão. Mas eu já havia decidido seguir a carreira de consultor.

O que significava que aquela empresa...

— Hum, me desculpem!

Eu não conseguia mais permanecer calado. Parecia errado. Baixei a cabeça em uma profunda reverência.

— Eu... provavelmente não vou trabalhar nesta empresa!

— Hahaha! Eu já imaginava. Tive esse pressentimento.

— Hã?

Um pequeno som escapou involuntariamente de meus lábios.

— Você ainda é estudante, mas veio visitar uma empresa completamente sozinho. Esse tipo de iniciativa é extraordinário. Mesmo na Academia Kiou, poucos alunos chegariam tão longe. ...Com uma determinação dessas, imagino que você tenha um objetivo muito maior do que simplesmente trabalhar para nós, não é?

— Ah...

Ele acertou em cheio. Fiquei sem palavras. Para ser mais preciso, não era que eu tivesse escolhido um objetivo mais elevado. Eu apenas havia mudado a direção do meu futuro. Mas, do ponto de vista dele, talvez fosse praticamente a mesma coisa.

— Se eu quisesse ser calculista, apenas estabelecer contato com você já poderia fortalecer nossos laços com o Grupo Konohana. Só isso já torna este encontro valioso. Portanto, não há motivo para se sentir culpado.

— Me desculpe….

Metade daquilo provavelmente refletia seus verdadeiros pensamentos. Mas a outra metade certamente era pura gentileza. Eu havia recebido o cartão de visitas da Horizon através de Shizune-san.

Isso significava que a Horizon possuía alguma ligação com o Grupo Konohana. O presidente Sorano provavelmente via aquela situação como uma oportunidade de fortalecer ainda mais essa relação. Havia algo que eu passara a compreender claramente através do Management Game.

Para mim, negócios eram, acima de tudo, uma questão de conexões. Talvez para outras pessoas fosse diferente. Hinako, Tennouji-san, Narika, Asahi-san, Taishou… Cada um deles provavelmente administrava seus negócios com princípios próprios.

Mas, para mim, pelo menos, tudo girava em torno das conexões. Mais do que números, ideias ou sorte… Meus negócios eram construídos sobre relacionamentos.

— Dito isso, a vida é longa. Se algum dia mudar de ideia, considere nossa empresa como uma das suas opções. Receberíamos alguém como você de braços abertos.

— Muito obrigado.

Fiz uma profunda reverência. Naquele momento, eu estava sendo salvo pela generosidade do presidente Sorano.

— A propósito, você sabia que existe um truque secreto no Management Game?

— Hã? Não, eu não sabia...

O presidente Sorano escreveu uma sequência de letras e números em um bloco de notas e me entregou.

— Quando fizer negócios com nossa empresa no jogo, tente inserir este código.

— Ah... certo.

Eu não fazia ideia para que servia, mas aceitei o papel mesmo assim. Por fim, fiz mais uma reverência para ambos.

— Muito obrigado por hoje.

 

Depois de retornar à mansão, contei imediatamente a Narika tudo o que havia acontecido.

"Então vamos reforçar a segurança da Shimax usando o Horizon Viewing."

"Certo!"

Compartilhei com ela os materiais informativos que havia recebido da Horizon. Após discutirmos os detalhes, decidimos seguir o plano original e implementar o Horizon Viewing na Shimax.

"Vou cuidar das negociações com a Horizon, tudo bem?"

"Sim. Não estou tentando roubar seus méritos, sabia?"

Aquilo sequer me preocupava. Eu simplesmente queria levar o assunto até o fim, já que havia sido eu quem pesquisara os produtos da Horizon desde o início. Com a aprovação de Narika, iniciei a negociação com a Horizon Inc. dentro do Management Game.

Ah, é mesmo… O presidente Sorano havia mencionado um truque secreto.

...Hã? Existe um campo para inserir código?

Percebi um campo de entrada estranho no canto da tela de negociação. Por curiosidade, retirei o bilhete que o presidente Sorano me dera e digitei a sequência alfanumérica escrita nele.

Então… O preço do Horizon Viewing recebeu um desconto.

— Então era esse o truque secreto.

Aquele recurso reproduzia dentro do jogo o efeito das negociações realizadas no mundo real. Era parecido com a empresa de marketing que Asahi-san havia me apresentado. Naquele caso, como a empresa era administrada por alunos de verdade, eu havia conseguido um desconto graças à indicação dela.

Mas, como a Horizon era controlada por inteligência artificial, o benefício era aplicado através daquele código. Esse jogo era realmente impressionante. Ele conseguia incorporar até mesmo as conexões do mundo real à sua mecânica.

"Narika, vai sair mais barato do que imaginávamos."

"Hã? Isso é ótimo, mas... por quê?"

"Provavelmente porque o presidente é uma pessoa muito generosa."

Empresas eram administradas por pessoas. Por isso, às vezes, o caráter de um líder podia fazer toda a diferença. Claro, o contrário também era verdadeiro.

"Mesmo assim, Itsuki, você é incrível. Visitar uma empresa de verdade daquele jeito..."

"Foi apenas uma conexão de sorte. Além disso, eu também estava genuinamente curioso."

"Mesmo tendo uma conexão, eu ficaria nervosa demais para ir..."

Pela reação do presidente Sorano, parecia que, dessa vez, o estranho era eu. Então não havia motivo para Narika se sentir mal por não fazer o mesmo.

"A propósito, Itsuki, você está livre neste sábado?"

"Sábado? Sim, estou livre."

"E-Então... gostaria de vir à minha casa?"

À casa da Narika?

"Você tem me ajudado muito ultimamente. Quero agradecer por isso... e também, meu pai disse que gostaria de se desculpar pelo mal-entendido que tivemos quando éramos crianças."

"Mal-entendido... ah, aquilo."

Quando fiquei hospedado na casa de Narika durante a infância, achei que o pai dela, Musashi-san, me odiava. Só depois do festival esportivo descobri que tudo não passava de um mal-entendido. Eu também tinha parte da culpa naquela história, mas provavelmente Musashi-san queria esclarecer tudo adequadamente.

Nesse caso, eu não tinha motivo algum para recusar. Era um convite gentil.

"E... hum... essa foi uma ideia do meu pai, mas, já que é uma oportunidade rara, ele sugeriu que você pudesse dormir lá, como nos velhos tempos..."

"...Dormir lá, hein."

Para ser sincero, a ideia me deixou animado. Passar a noite na casa de Narika quando éramos crianças havia sido extremamente divertido. Provavelmente estava entre as três melhores lembranças da minha infância. Que criança não ficaria empolgada em se hospedar numa mansão enorme como aquela?

Foi justamente por isso que o mal-entendido com Musashi-san ficou tão marcado em minha memória. Eu havia visitado a casa de Narika durante o primeiro semestre, mas não tinha passado a noite lá. Se pudesse me hospedar novamente, como naquela época… Seria um dia muito divertido.

"Primeiro vou pedir permissão à família Konohana."

"Ah, claro!"

Por enquanto, eu precisava obter autorização de Hinako, Shizune-san ou Kagen-san. Pensando nisso, segui em direção ao quarto de Hinako.

— Hum... Itsuki?

— Itsuki-san? Aconteceu alguma coisa?

Além de Hinako, Shizune-san também estava no quarto.

— Desculpem interromper os estudos de vocês. Tudo bem se eu passar a noite na casa da Narika no próximo sábado?

Dirigi a pergunta primeiro a Shizune-san. Os olhos de Hinako se arregalaram imediatamente.

— O-O-O quê...? O que isso quer dizer...!?

— ? É só passar a noite lá, nada além disso...

— E por que você passaria a noite lá...!?

Inclinei a cabeça, sem entender por que ela parecia tão chocada. Shizune-san se aproximou e sussurrou para que Hinako não pudesse ouvir.

— Itsuki-san, só para você saber... não é exatamente normal um estudante do ensino médio passar a noite na casa de alguém do sexo oposto.

— Ah... entendi. Mas eu já moro com a Hinako, não é?

— Isso é diferente. Pelo menos para a Ojou-sama.

Diferente... é? Eu não tinha nada a esconder, então decidi simplesmente explicar a situação.

— Olha, não é nada demais. O pai da Narika apenas sugeriu que passássemos um tempo juntos, como fazíamos quando éramos crianças.

— Ah... entendo. Hum...

Aquilo pareceu dissipar a confusão de Hinako. Mesmo que eu estivesse desesperado, não seria tão descarado a ponto de inventar uma desculpa para passar a noite na casa de uma garota.

— Tudo bem. Você pode ir.

Hinako deu sua aprovação. Olhei para Shizune-san, que assentiu em silêncio. Também não havia problemas da parte dela.

— Quer vir junto, Hinako?

— Vou passar desta vez. ...Você e a Miyakojima-san têm uma longa história juntos, então provavelmente querem um tempo para colocar as conversas em dia sem que eu esteja por perto.

Ela tinha razão. Se começássemos a relembrar o passado com Hinako presente, o clima poderia ficar estranho.

— Obrigado. Vou avisar a Narika.

 

Na noite de sábado, Hinako e Shizune acompanhavam Itsuki até o portão da mansão para se despedirem.

— Certo, estou indo.

— Mm... cuide-se.

Conforme combinado, Itsuki partiu em direção à casa de Narika. O carro da família Konohana, que o transportava, afastou-se lentamente até desaparecer de vista.

— Ojou-sama, a senhorita realmente está bem com isso?

— Estou… Não quero mais tirar o lugar do Itsuki por minha causa.

Ela se lembrou da culpa que havia percebido ao final das férias de verão. Por acaso, Itsuki estivera presente durante o incidente de seu sequestro, e Hinako, sem pensar muito, o transformara em seu cuidador. Por causa disso, a antiga vida dele havia sido tirada dele. Itsuki agia como se isso não o incomodasse, mas aquela experiência levou Hinako a refletir profundamente.

Ela não podia permitir que seu egoísmo roubasse o lugar de Itsuki mais uma vez.

Itsuki vai voltar direitinho... Eu preciso acreditar nisso.

Seu mangá shoujo havia sido muito claro sobre esse assunto. Uma garota excessivamente possessiva apenas acabaria afastando o rapaz de quem gosta.

Mas... a Miyakojima-san é tão incrível...

Confiar plenamente nele e mandá-lo embora era difícil quando a outra pessoa era alguém tão formidável. Para Hinako, Narika era naturalmente admirável. Claro, durante as reuniões do chá ela demonstrava seu lado tímido, mas isso apenas fazia sua postura habitual — confiante e digna — parecer ainda mais impressionante.

Hinako ainda não conseguia vencê-la nas aulas de educação física. Na verdade, nem chegava perto. Ela deveria manter notas perfeitas para desempenhar o papel ideal de uma Ojou-sama, mas até mesmo seu pai considerava aceitável que perdesse para Narika nas atividades físicas.

Narika era tão impressionante assim. E, além disso, tinha dificuldades para se comunicar com as pessoas. Exatamente o tipo de característica que Itsuki consideraria adorável e sentiria vontade de cuidar.

Isso não é justo. Esse papel é meu.

Itsuki é meu cuidador.

Ughhh... estou ficando ansiosa…

E se Itsuki não voltasse da casa de Narika? E se ele acabasse gostando mais de lá do que daquela mansão?

"Hinako, a partir de hoje vou ser o cuidador da Narika."

A imagem de Itsuki dizendo aquelas palavras surgiu repetidamente em sua mente. Se aquilo realmente acontecesse… Ela provavelmente morreria de choque.

— Ugh... ughhh...

— Ojou-sama... que nobre...

Hinako caiu de joelhos e se encolheu no chão. Ela havia se esforçado tanto para esconder sua ansiedade em nome da pessoa que amava. Ao ver as costas frágeis daquela garota tão delicada, os olhos de Shizune se encheram de lágrimas.

 

Ao sair do carro, encontrei-me diante de uma longa e imponente residência que lembrava a morada de um samurai. Fazia algum tempo desde minha última visita à casa de Narika. A atmosfera solene continuava tão marcante quanto antes.

A mansão da família Konohana, onde eu morava atualmente, assim como a residência de Tennouji-san, possuíam arquitetura ocidental, transmitindo uma sensação de luxo, sofisticação e elegância.

Mas uma propriedade tradicional japonesa como aquela causava uma impressão completamente diferente.

Era tranquila.

Digna.

E possuía uma beleza singular que não podia ser comparada à arquitetura ocidental. Seria isso o que chamavam de wabi-sabi?

(N/SLAG: Wabi-sabi (侘寂) é um conceito estético e filosófico japonês focado na aceitação da imperfeição, da transitoriedade e da simplicidade)

— Tomonari-sama, estávamos aguardando sua chegada.

Guiado por um funcionário da família Miyakojima, atravessei o portão. Passei pelo jardim seco de pedras e entrei na residência.

Então...

— Ei! Bem-vindo à residência dos Miyakojima!

— Uau!?

Pop! Pop! Com dois estalos secos, uma chuva de confetes coloridos caiu ao meu redor. Ali estava Narika, segurando um lança-confetes. Seu sorriso era um pouco desajeitado, mas sincero.

— O que você está fazendo?

— Eu-eu pensei... que isso deixaria tudo mais animado...

Eu apreciava a intenção. Mas foi tão repentino que não consegui reagir adequadamente. Talvez percebendo minha confusão, a expressão de Narika imediatamente se abateu.

— Heh. Sou um caso perdido mesmo, não é? Sempre estrago tudo. Não cresci nada desde aquela época...

— Não, espera! Não é nada disso!

Eu não queria que aquele clima constrangedor permanecesse, então me apressei para animá-la.

— Quero dizer, eu adorei! Sério, estou super empolgado para hoje!

— S-Sério? Você ficou feliz!? E-Então todo o esforço valeu a pena...!

Parecendo recuperar o ânimo instantaneamente, Narika abriu um sorriso radiante. Nesse momento, uma mulher vestindo quimono surgiu pelo corredor.

— Tomonari-san, quanto tempo.

— Faz bastante tempo, Otsuko-san.

Era Miyakojima Otsuko, a mãe de Narika. Com seus cabelos negros curtos e cuidadosamente aparados, ela transmitia a imagem de uma beleza refinada em trajes tradicionais japoneses. Sua postura era calma, elegante e serena.

A personalidade ousada e energética de Narika certamente havia sido herdada de seu pai, Musashi-san. Otsuko-san olhou para mim e fez uma reverência graciosa.

— Obrigada por participar da pequena encenação da minha filha.

— Encenação!?

Os olhos de Narika se arregalaram diante da observação impiedosa da mãe. Se Otsuko-san já sabia que aquilo acabaria daquele jeito, poderia muito bem ter intervindo...

— Você deve estar com fome, não é? O jantar está pronto, então por favor venha para a sala de estar.

— Sim. Muito obrigado por me receberem até amanhã.

— Ora, que jovem tão educado. Gostaria que Narika aprendesse um pouco com você.

Narika soltou um pequeno gemido de protesto. Otsuko-san realmente sabia como provocar a filha. Segui Narika até a sala de estar. Uma enorme mesa de jantar estava coberta por uma impressionante variedade de pratos.

— O-Ohh...

Era praticamente um banquete de kaiseki completo. Sushi, tempurá, shabu-shabu, tai grelhado com sal… Cada prato era colorido, refinado e cuidadosamente apresentado. Mesmo sendo uma refeição especial para me receber, o nível de luxo era tão grande que meu humor disparou imediatamente.

Narika parecia sentir o mesmo.

— Mãe, você realmente caprichou!

— De fato. Coloquei todo o meu coração nisso.

A voz de Otsuko-san carregava um toque de orgulho.

— Foi a senhora quem preparou tudo isso, Otsuko-san?

— Recebi ajuda dos funcionários, mas a maior parte fui eu mesma quem fez.

Isso era... incrível. Eu sempre tive a imagem de Otsuko-san como alguém capaz de fazer qualquer coisa, e aparentemente não estava enganado. ...Embora essa habilidade manual não parecesse ter sido herdada por Narika.

Enquanto me sentava ao lado dela, um homem entrou na sala. Nossos olhares se cruzaram. Ele vestia um jinbei casual.

— Musashi-san.

— Então você veio…

O olhar penetrante de Musashi-san fixou-se em mim.

— Ah... faz bastante tempo.

— É……….

……….

…….

...Hã?

O mal-entendido já não tinha sido resolvido?

Durante o festival esportivo, Otsuko-san havia me explicado que Musashi-san simplesmente não era bom com palavras. Eu queria acreditar que aquele silêncio fazia parte disso.

— Agora vamos comer antes que tudo esfrie.

Todos dissemos "Itadakimasu" em uníssono e começamos a refeição. Normalmente, refeições kaiseki seguem uma ordem específica e diversas regras de etiqueta. Mas ali todos os pratos haviam sido servidos de uma só vez, independentemente da sequência tradicional.

Talvez, por terem sugerido que eu passasse a noite ali como nos velhos tempos, quisessem criar um ambiente confortável para alguém como eu, que naquela época não fazia ideia dessas formalidades.

Comecei pela sopa clara e levei a tigela aos lábios.

— Esse sabor.

— Você percebeu?

Surpreso após apenas um gole, ergui o olhar e encontrei Otsuko-san sorrindo gentilmente.

— É o mesmo prato que servi para você muitos anos atrás.

— Agora faz sentido esse gosto tão nostálgico.

Saboreei tanto a delicadeza da sopa quanto a consideração de Otsuko-san.

— Parece que minha filha tem contado bastante com sua ajuda no Management Game.

— Na verdade não. Estou apenas fazendo meu trabalho como consultor.

Então Otsuko-san também sabia sobre o Management Game. Narika provavelmente havia contado tudo a ela.

— O Itsuki é incrível, sabia!? Ele acabou de iniciar sua segunda empresa e já está indo muito bem! Cada vez mais pessoas da minha turma estão prestando atenção nele!

— Fico lisonjeado, mas foi você quem me deu essa oportunidade, Narika. Conseguir a Shimax como meu primeiro trabalho de consultoria foi muito mais do que pura sorte.

— Do que você está falando? Isso aconteceu graças às suas próprias boas ações!

— Se vamos falar disso, então você...

Quando comecei a responder, algo chamou minha atenção. Otsuko-san observava nossa conversa com um sorriso caloroso.

— É bom ver vocês dois se dando tão bem.

Sentindo-me um pouco constrangido, tomei um gole de chá para disfarçar. Narika fez exatamente a mesma coisa.

— Narika, vou dizer isso desde já: você não deve se tornar dependente demais de Tomonari-san.

— S-Sim...

Narika assentiu, parecendo repreendida. Sinceramente, eu não achava que ela dependesse tanto assim de mim.

— Isso também vale para você, Tomonari-san.

— Hã?

Do que ela estava falando?

— Pelo que Narika me contou, parece que você anda cercado por muitas mulheres ultimamente, não é?

— Bem... não são só mulheres...

Tem o Taishou, o Kita, o Ikuno e… Espera. Agora que pensei melhor, o único homem com quem eu conversava regularmente era o Taishou...?

— São todas mulheres, sim.

O olhar gelado de Narika atravessou-me como uma lança.

— Tomonari-san sempre foi o tipo de pessoa que cuida dos outros. Isso é uma qualidade admirável, mas se continuar cuidando de qualquer um que aparecer pelo caminho...

— Se eu continuar?

O sorriso de Otsuko-san tornou-se estranhamente rígido.

— Pode acabar levando uma facada pelas costas.

— Eek!

Soltei um grito exagerado, mas Otsuko-san certamente estava exagerando. Olhei para Narika em busca de apoio. Mas encontrei apenas um olhar pesado e úmido fixado em mim.

...Ei, Narika? Por que você não está me defendendo?

 

Depois do jantar, fui conduzido até o banho.

— Que banho incrível...

A residência dos Miyakojima possuía um amplo banho ao ar livre, e naquele momento eu o aproveitava sozinho. Por estarmos na cidade, as estrelas não eram visíveis, mas relaxar na água quente enquanto observava o céu noturno ainda parecia algo quase irreal.

Entre o jantar e o banho, a sensação era a de estar hospedado em um ryokan de luxo. Quando eu era criança, provavelmente não tinha consciência de quão privilegiada aquela experiência era. Enquanto relaxava na água, a porta do vestiário deslizou para o lado. Olhei naquela direção e vi...

— Musashi-san...

— É você….

Musashi-san lançou-me um rápido olhar antes de começar a se lavar. Pouco depois, entrou na banheira e se acomodou a certa distância de mim. ...E agora? Isso estava extremamente constrangedor.

Eu deveria tentar puxar assunto? Mas não conseguia pensar em nenhum tema apropriado.

— Você não está com medo?

De repente, Musashi-san falou. A pergunta foi tão inesperada que demorei alguns segundos para processá-la. Ao perceber minha demora, ele repetiu:

— Você não está com medo de mim agora?

Pelas palavras dele, senti que Musashi-san estava tentando diminuir a distância entre nós. Assim como Narika, ele possuía uma aparência severa que fazia as pessoas o interpretarem mal. E provavelmente, ainda mais do que ela, escondia seus sentimentos por trás daquela expressão fechada.

...Mas, no fundo, era uma pessoa gentil.

— Não. Agora estou bem.

— Fico feliz em ouvir isso.

Achei ter visto um leve sorriso surgir em seu rosto. No Management Game, eu havia me acostumado a interpretar as intenções dos empresários através dos dados de suas empresas. Comparado a isso, o temperamento de Musashi-san era surpreendentemente fácil de compreender.

— Há algo que quero lhe dizer.

Com sua voz grave de sempre, Musashi-san continuou:

— Você conhece o trauma da Narika, não conhece?

— Ah... sim. Tem relação com o festival esportivo do ano passado, certo?

— Exatamente. No ano passado, Narika deu tudo de si no festival e acabou assustando seus colegas de classe. ...Ela ficou devastada. Nem eu nem Otsuko conseguimos alcançá-la.

Entendi… Eu não havia presenciado aqueles acontecimentos, então desconhecia os detalhes. Mas, pelo modo sincero como Musashi-san falava, era evidente que ela havia sofrido muito.

— No entanto, no fundo, eu não considerava aquilo algo tão grave. Eu mesmo passei pela mesma situação quando era jovem, e com o tempo tudo se resolveu naturalmente. ...Como lhe disse depois do festival, tanto Narika quanto eu somos frequentemente mal compreendidos. Mas, no final das contas, o que realmente importa para a sociedade é a competência. Quando as pessoas reconhecem suas habilidades, os mal-entendidos desaparecem por conta própria. Por isso achei que o problema dela ainda não era algo com que precisássemos nos preocupar.

Assenti em silêncio.

— Mas... eu estava errado.

Uma sombra escura passou por seus olhos. Era arrependimento. Sem dúvida alguma.

— No dia do festival, Otsuko e eu assistimos à prova da Narika. ...Quando percebemos que ela estava tentando perder de propósito na final, fomos tomados pelo remorso. Não tínhamos percebido o quanto ela estava sofrendo.

Para Musashi-san e Otsuko-san, aquela atitude provavelmente pareceu uma traição aos próprios valores de Narika. Para mim também havia parecido assim. Se voltássemos à origem da situação, fui eu quem sugeriu a Narika que perdesse a competição de propósito.

Por isso, naquela ocasião, também fui consumido pelo arrependimento. Aquilo não era o que eu queria que ela fizesse.

— Eu deveria ter estado mais presente para ela. E justamente quando estava me culpando por isso... ouvimos sua voz.

Durante a final, quando Narika estava prestes a perder deliberadamente… Eu gritei. Ao vê-la tentar apagar o próprio brilho para se tornar uma pessoa comum, desejei que ela continuasse sendo extraordinária. Com toda a força que tinha, lancei sobre ela meu desejo egoísta.

"Vai com tudo e acaba com isso—!!"

Talvez tivesse sido o grito mais alto que já dei em toda a minha vida. Então… Minha voz também alcançou Musashi-san e Otsuko-san.

— Suas palavras cheias de convicção... devolveram nossa filha ao caminho que ela deveria seguir.

Após dizer isso, Musashi-san levantou-se da água. Então voltou-se para mim… E fez uma profunda reverência.

— Obrigado. Você não é apenas o salvador da Narika... é um benfeitor de toda a nossa família.

Era isso que Musashi-san queria me dizer. Mesmo sendo tão ocupado quanto Kagen-san — ou talvez até mais — ele havia tirado tempo para falar comigo pessoalmente e se curvar daquela forma.

Isso mostrava o quanto ele se importava com Narika. Ele era um bom pai. ...Senti um pouco de inveja.

— Por favor, levante a cabeça.

Musashi-san ergueu o rosto lentamente.

— Talvez isso soe rude, mas... entre todas as pessoas que conheço, Narika é a que mais se aproxima da perfeição.

Pensei em como Narika costumava agir no dia a dia. Quando permanecia em silêncio, transmitia uma aura digna e imponente. Mas, assim que começava a falar, acabava intimidando as pessoas... ou pelo menos era o que parecia, até que revelava seu lado tímido para aqueles com quem tinha intimidade.

Ao imaginar tudo isso, não consegui evitar um sorriso.

— Se ela simplesmente tivesse um pouco mais de confiança em si mesma, superaria qualquer um. Ela está sempre a um passo de alcançar algo extraordinário. E eu adoro torcer por ela. ...Mal posso esperar para ver o momento em que dará esse último passo.

Por isso, meu objetivo era muito mais simples do que Musashi-san provavelmente imaginava.

— Eu só quero que todo mundo perceba o quão incrível a Narika é. ...Só isso.

— Entendo….

No fim das contas, era quase inteiramente por satisfação pessoal. Quando reencontrei Narika na Academia Kiou e descobri tudo pelo que ela estava passando… Tive a sensação de ser a única pessoa que conhecia seu verdadeiro encanto.

Isso me deixava orgulhoso… E talvez um pouco possessivo. Mas ela era incrível demais para permanecer um segredo só meu. Por isso eu queria que todos soubessem.

Ah... então é isso. Conversar com Musashi-san me fez finalmente compreender meus próprios sentimentos. Para mim, Narika era...

A Ojou-sama que eu mais queria ver brilhar. Eu queria desesperadamente acompanhar seu crescimento. Era a Ojou-sama cujo futuro mais me empolgava imaginar.

— Dito isso… — Musashi-san voltou a se sentar na água, agora com uma expressão séria. — Gostaria que você permanecesse ao lado da Narika pelo maior tempo possível.

— Pelo maior tempo possível...?

— Se fosse possível, eu gostaria que continuasse ao lado dela até mesmo depois da formatura.

Aquilo… Deixou-me sem palavras. Não era que eu não conseguisse imaginar esse futuro. Na verdade, conseguia visualizá-lo com bastante clareza. Narika provavelmente sempre seria alguém que valeria a pena apoiar.

Mas, agora que eu havia decidido seguir a carreira de consultor, minha visão do futuro se tornara muito mais complexa. Talvez fosse apenas um sonho distante, mas se eu realmente tivesse sucesso como consultor, imaginava dedicar minha vida a apoiar muitas pessoas diferentes, e não apenas uma única pessoa.

— Não vou forçá-lo. As famílias Konohana e Tennouji também estão de olho em você, não estão?

— Bem... não exatamente...

Talvez houvesse algum interesse. Mas… Como ele sabia disso? A rede de informações da elite continuava assustadora.

— Apenas apoie Narika o máximo que puder. Pode me prometer isso?

— Posso.

Assenti com firmeza. Mesmo que ele não tivesse pedido, essa já era minha intenção desde o início. Nesse momento, ouviu-se o som da porta do vestiário se abrindo. Mas não vinha do lado masculino.

O que significava...

...Narika?

Ou talvez Otsuko-san.

O banho ao ar livre da família Miyakojima era dividido entre as áreas masculina e feminina. Pensando bem, era uma estrutura bastante luxuosa. Embora, em termos de tamanho, não fosse muito diferente da mansão dos Konohana. Pouco depois, ouvi o som do chuveiro e, em seguida, passos leves.

— Itsuki, você está aí?

A voz de Narika veio do outro lado da divisória. Então quem havia entrado no banho feminino era ela.

— Ah, sim. Estou aqui.

— Entendi.

A voz de Narika parecia mais animada do que o habitual.

— Hehe... isso é meio estranho. Pensar que o Itsuki está logo do outro lado desta parede.

Ouviu-se um leve som de água quando ela entrou na banheira. Realmente era uma sensação estranha...

Por favor, não imagine isso em detalhes demais.

Porque, naquele exato momento… Musashi-san estava sentado bem na minha frente.

……………

Musashi-san me observava em silêncio. Parecia extremamente curioso para descobrir que tipo de conversa eu teria com sua filha. O que eu deveria fazer...? Conversar assim já era constrangedor o suficiente.

— Agora que parei para pensar, nós costumávamos tomar banho juntos quando éramos crianças, não era?

— Hã!?

Nós tomávamos!? Mesmo que fosse verdade, ela realmente não precisava trazer esse assunto à tona agora!

— Sim. Acho que foi depois daquele dia em que fomos pegos por uma chuva enorme voltando da loja de doces. Ficamos completamente encharcados, então minha mãe mandou nós dois tomarmos banho.

……….

— Eu estava chorando porque a chuva tinha estragado meus doces... e estava tão abatida que o você acabou lavando meu cabelo para mim.

— É-É... foi isso mesmo, não foi...?

Musashi-san estava me encarando diretamente. Musashi-san me encarava fixamente. Muito fixamente. Fixamente demais.

— Por algum motivo, minha mãe ficou dizendo: "Não conte isso ao seu pai, está bem?". Por que será que ela disse isso?

Provavelmente porque eu acabaria morto se contasse. O que eu faço...? Eu já estava suando frio dentro do banho quente.

— Claro que não podemos mais lavar um ao outro como naquela época.

— S-Sim... não dá para mostrar um ao outro... aquilo, né...

Então vamos encerrar esse assunto por aqui. Era o que eu esperava, mas...

— Ficar pelada, hein...? Quer dizer, precisaria de muita coragem, mas se fosse com você, Itsuki, eu não me importaria tanto assim...

Pare com isso, Narika...! O olhar do Musashi-san estava praticamente perfurando minha alma...!!

— D-Desculpa! Eu falei uma coisa estranha!

— N-Não se preocupe! Eu sei que foi só uma brincadeira!

— Não foi exatamente uma brincadeira, mas...

— Foi uma brincadeira, não foi!? Foi, né!? Foi!?

— Hã? Ah... é, s-sim... claro...?

Isso era ruim. Eu finalmente estava me dando bem com Musashi-san… E agora estávamos prestes a voltar direto para o clima constrangedor de antes!!

— E-Ei, Itsuki? Você se lembra?

A voz de Narika chegou do outro lado da parede, carregando um leve tom de constrangimento.

— Naquela época... nós... você sabe... dormíamos no mesmo quarto, não era?

— Sim...

Eu também me lembrava disso. Tanto os banhos quanto dormir juntos eram apenas lembranças da infância. Graças a isso, eu ainda estava conseguindo sobreviver à conversa sem sofrer um golpe fatal, mas...

— Então... hum... e-esta noite... que tal nós... você sabe... dormirmos no mesmo quarto, como antigamente?

Os olhos de Musashi-san se arregalaram. ...Será que eu chegaria vivo ao amanhecer? Esqueça dormir. Do jeito que as coisas estavam indo, eu talvez nem saísse vivo daquele banho.

— N-Não quero fazer nada estranho! Eu só... só queria passar um tempo com você como fazíamos antes, Itsuki...

— E-Eu entendo, mas...

Se Musashi-san entendia era outra história...

— Mesmo agora, às vezes eu fico imaginando — a voz de Narika tornou-se mais suave. — A possibilidade de você ter vindo morar aqui em casa, em vez de viver com a Konohana-san.

Isso… Sim, era um mundo que realmente poderia ter existido. Tudo começou quando acabei me envolvendo no incidente do sequestro de Hinako. Mas, se eu não tivesse estado lá naquele dia, quem sabe onde estaria agora?

Talvez eu tivesse recorrido à Yuri. Talvez a família Miyakojima tivesse me acolhido.

Considerando que o mal-entendido com Musashi-san foi resolvido e a forma calorosa como os Miyakojima me receberam — tirando meus problemas com minha própria mãe — não era difícil imaginar esse cenário.

Mas...

— Acho que as coisas estão muito bem do jeito que são.

Falei para Narika através da divisória.

— Se eu tivesse ficado ao seu lado desde o começo, talvez nunca tivesse conhecido Konohana-san e os outros na Academia Kiou.

— Ah...

— E, se isso acontecesse, as pessoas ao seu redor provavelmente seriam completamente diferentes das que são hoje.

A Aliança do Chá provavelmente nunca teria existido. As sessões de estudo depois das aulas. Tudo isso talvez jamais tivesse acontecido.

— Você tem razão.

A voz tranquila de Narika chegou até mim.

— Graças a você, Itsuki, eu conheci tantas pessoas. Konohana-san, Tennouji-san, Taishou-kun, Asahi-san... fico muito feliz por ter conhecido todos eles.

Narika provavelmente estava crescendo aos poucos não apenas por minha causa, mas também graças a Hinako e aos demais. Se ela compreendesse isso, jamais acreditaria que aquele outro mundo teria sido melhor.

Fiquei aliviado ao perceber que Narika estava olhando para frente. Mas então notei Musashi-san observando-me. Ele exibiu um pequeno sorriso de alívio, como alguém que finalmente tirara um peso do peito. Então disse:

— É importante valorizar o cotidiano... mas não vou permitir que vocês durmam no mesmo quarto.

Musashi-san levantou-se enquanto falava.

— P-Pai!? E-E-Espere! D-Desde quando você estava aí...!?

— O tempo todo.

Musashi-san dirigiu-se ao chuveiro. Antes de começar a se lavar, lançou-me um único olhar por cima do ombro.

— Tomonari Itsuki.

— S-Sim, senhor.

O olhar afiado de Musashi-san atravessou-me.

— Nem pense em passar dos limites.

— Vou me lembrar disso, senhor.

Assenti vigorosamente, e Musashi-san começou a se lavar.

— Ughhh...! Ele ouviu tudo...! Ahhh, não acredito...!

Do outro lado da parede, a voz envergonhada de Narika ecoou pelo banho.

 

Na manhã seguinte, acordei no quarto de hóspedes, troquei de roupa pelo jinbei que haviam preparado para mim e saí para o corredor.

— Ah, Itsuki-san. Bom dia.

— Bom dia, Otsuko-san.

Assim que deixei o quarto, encontrei Otsuko-san. Ela carregava um vaso de flores. Na casa dos Konohana, isso seria trabalho de algum funcionário, mas, depois de vê-la cozinhar na noite anterior e agora cuidando das flores, comecei a pensar que ela simplesmente gostava dessas atividades.

— Itsuki-san, o café da manhã já está pronto. Poderia acordar a Narika para mim?

— Eu?

— Acho que Narika ficaria mais feliz se fosse você.

Será que ficaria mesmo...? Eu não tinha tanta certeza, mas recebi as instruções para chegar ao quarto de Narika e fui até lá. Chamei por ela do lado de fora da porta de correr, mas não obtive resposta. 

Então entrei lentamente.

— Está dormindo….

Narika dormia profundamente, com metade do futon já chutado para longe. Sua postura ao dormir definitivamente não era das mais elegantes. ...Pensando bem, ela já era assim quando éramos crianças. Naquela época, costumávamos dormir no mesmo quarto, e às vezes era eu quem a acordava.

— Narika, bom dia.

— Nngh...?

Depois de chamá-la algumas vezes, ela finalmente começou a despertar.

— Itsuki... É o Itsuki...

— E-Ei, não fica toda sonolenta assim.

Narika sentou-se e se arrastou em minha direção. Parecia um filhote carente procurando atenção. O yukata dela estava um pouco desalinhado, revelando mais do que deveria, então desviei o olhar imediatamente.

— Otsuko-san preparou o café da manhã. Vamos para a sala de jantar.

— Me leva até lá...

— Tudo bem, mas primeiro lave o rosto.

— Lava para mim...

Ela estava fazendo exatamente o mesmo tipo de manha que Hinako. Segurei sua mão, arrastei-a até o banheiro e a fiz lavar o rosto. Ainda meio adormecida, Narika me acompanhou até a sala de jantar.

— Vamos comer...

Narika juntou as mãos em agradecimento pela refeição e começou a beliscar o café da manhã.

— Normalmente a Narika acorda cedo sem dificuldade, mas parece que ela baixa a guarda quando você está por perto.

— Agora que você falou, quando éramos crianças ela costumava treinar no dojô logo de manhã.

Narika geralmente era do tipo que despertava completamente assim que abria os olhos. Mas era domingo, então talvez não houvesse problema em relaxar um pouco. ...Diferente da Hinako, que passaria o dia inteiro preguiçando se ninguém a impedisse.

— Narika, você já acordou de verdade?

— Mm... sim, estou acordando.

As mãos dela haviam parado no meio da refeição, então resolvi chamá-la. Parece que finalmente estava despertando.

— Itsuki, obrigada por ter me acordado.

— Não foi nada.

— Você parecia bem acostumado com isso... Não me diga que acorda a Konohana-san desse jeito o tempo todo?

Droga. Deixei escapar.

— N-Não. É só que eu fazia a mesma coisa quando éramos crianças. Não faço isso com a Konohana-san.

— Entendi... Bem, a Konohana-san provavelmente acorda sozinha de qualquer forma.

Se estivesse sozinha, dormiria para sempre. Ainda sonolenta, Narika não insistiu no assunto.

— Como é domingo, não podemos jogar o Management Game. Qual é o plano para hoje?

— Eu adoraria dizer que vamos treinar, mas... ultimamente tenho priorizado os estudos. Como não podemos jogar aos domingos, pensei em aproveitar para revisar e adiantar a matéria.

Uma atitude bastante admirável.

— Certo. Então vou estudar com você hoje.

— Sério!? Isso seria ótimo! Vamos fazer isso no meu quarto!

Narika abriu um sorriso radiante enquanto terminava sua sopa de missô.

 

— Mmmgh...

Já estávamos estudando havia metade do dia. Sentada à mesa do quarto em estilo japonês, Narika franzia a testa. Sua concentração claramente começava a falhar. Sentado à sua frente, examinei seu caderno enquanto consultava o livro didático.

— Ei, Narika, você errou esta parte.

— Ugh... qual parte?

— Esta equação aqui. Parece apenas um erro de distração.

Precisávamos equilibrar o Management Game com os estudos normais da academia. Naquele momento, estávamos revisando matemática.

— Ah, entendi!

— Isso mesmo.

Pelo visto, Narika vinha estudando com bastante dedicação desde a última prova. Se continuasse assim, talvez conseguisse alcançar a média da turma no próximo exame.

— É assim que costuma ser quando você estuda com a Konohana-san?

— Sim. O clima é mais ou menos esse.

Embora, no caso da Hinako, eu não chegue exatamente a ensinar alguma coisa.

— Vocês parecem mais próximos do que eu imaginava.

Narika falou com um tom levemente curioso.

— Achei que você fosse mais como um mordomo trabalhando sem parar para ela.

— Eles já têm mordomos de verdade para isso. Eu sou mais como... um vizinho que fica por perto para que a Konohana-san não se sinta sozinha.

— A Konohana-san se sente sozinha?

— Ah... bem...

Talvez eu tivesse falado demais. A imagem de Hinako como a Ojou-sama perfeita era tão forte que imaginei que Narika simplesmente responderia algo como: "Não, impossível."

Mas...

— Agora que penso nisso... a Konohana-san perdeu a mãe quando ainda era pequena, não foi?

Narika murmurou, como se tivesse acabado de compreender algo sobre a solidão de Hinako. Eu sabia disso. Mas não sabia nada além desse fato. Kagen-san mencionara o assunto uma vez, mas nunca mais voltou a falar sobre ele. E sempre pareceu um tema delicado demais para que eu perguntasse diretamente.

— Talvez a Konohana-san também esteja carregando seus próprios fardos.

Narika aparentemente também não sabia de mais nada. Sua expressão tornou-se complexa.

— E você, Narika? Você disse que queria se portar com mais confiança em público. Fez algum progresso?

— Ugh... nenhum.

Eu já esperava essa resposta.

— Sinceramente, achei que você já conseguiria agir com mais confiança a essa altura...

Lembrei-me do que o pai da Tennouji-san havia dito certa vez. Ninguém nasce imune ao nervosismo. Mas, à medida que acumulamos conquistas, ganhamos compostura naturalmente. A confiança sustentada pelas próprias realizações é algo difícil de abalar. Seguindo essa lógica, Narika já deveria transbordar confiança. Afinal, em certas áreas, ela superava até mesmo Hinako.

— Narika, você possui alguma graduação em kendô?

— Sim. Terceiro dan em kendô e segundo dan em judô.

Essas credenciais eram impressionantes. Como eu não entendia muito sobre graduações, pesquisei rapidamente no notebook. Descobri que ambos os resultados eram extraordinários. O terceiro dan em kendô era o nível mais alto que um estudante do ensino médio normalmente conseguia alcançar.

Já o segundo dan em judô era comparável ao nível de atletas que competiam em campeonatos nacionais escolares.

— Como alguém com esse currículo ainda pode não ter confiança?

— B-Bem, graduações nem sempre refletem habilidade real. Existe um limite para o que estudantes conseguem alcançar. Comparada a atletas adultos, ainda sou inexperiente.

Atletas adultos? Ela estava se comparando a profissionais? A perspectiva dela era ampla demais. ...Por outro lado, sendo filha da maior rede de artigos esportivos do país, provavelmente convivia frequentemente com atletas profissionais. Era natural que seus padrões fossem elevados.

— Tudo bem. Então vamos construir sua confiança à força.

— Hã?

— Vou encher você de elogios. Me avise quando começar a se sentir confiante.

Narika piscou várias vezes, surpresa. Se ela não conseguia elogiar a si mesma, alguém precisaria fazer isso por ela. Essa era minha lógica. Então comecei a listar tudo o que eu admirava nela.

— Você é um prodígio dos esportes.

— O-Oh...

— Quando fica em silêncio, transmite uma presença elegante e imponente.

— Oh...!

— E você é humilde. Nunca age como se fosse superior aos outros.

— Ooh...!

— É responsável. Ambiciosa. Persistente. Nunca machucaria ninguém. Se preocupa com os sentimentos das pessoas. No fundo, é extremamente séria. Leal. Surpreendentemente boa ensinando os outros. E sua caligrafia é linda...

Continuei enumerando qualidade após qualidade. Pronto. Agora ela certamente estaria cheia de confiança, certo?

— Ehehe... ehehehehehehe...!

Narika exibia o sorriso mais bobo que eu já tinha visto. Em vez de parecer confiante, parecia prestes a derreter. Isso… Estava funcionando mesmo?

— Então? Já está se sentindo confiante?

— Hah! Sinto que consigo fazer qualquer coisa agora!

— Ótimo. Então vamos ligar para a Konohana-san imediatamente.

— Hã!?

Peguei o celular e o apontei para ela.

— Diga a ela por mim que volto para casa por volta das oito da noite.

— E-E-Espere, eu entendi...!!

Mantive uma expressão séria de propósito para aumentar a pressão. Narika respirou fundo discretamente e abriu a boca.

— K-Konohana-san... B-Boa noite...

Não. Isso definitivamente não ia funcionar. Que voz ameaçadora era aquela? Parecia uma integrante da yakuza tentando intimidar alguém.

— Ainda está difícil, hein...

— Ugh... E-Espera? Itsuki, não consigo ouvir a resposta da Konohana-san.

— Porque a ligação era falsa.

Para verificar o progresso dela, eu apenas fingira fazer a chamada. Os ombros de Narika caíram em decepção.

— Desculpe por ser tão problemática. Você está sempre me ajudando, Itsuki, mas eu continuo fracassando em tudo desde sempre.

Ao ouvir aquilo, inclinei levemente a cabeça.

— Narika, você não acha que fracassa mais justamente porque encara seus problemas de frente?

— Hã...? B-Bem... acho que sim...

— O motivo de você acumular tantos fracassos é porque enfrenta suas fraquezas. A maioria das pessoas nem sequer tenta superar os próprios defeitos, então fracassa menos. ...Os seus fracassos são prova de que você está se esforçando.

Fracassar é inevitável quando se aceita desafios. Narika se desafiava muito mais do que a maioria das pessoas. Por isso, naturalmente, também acumulava mais fracassos.

— Já disse isso antes, mas eu entendo, sabe? Ver você se esforçando me dá vontade de continuar avançando também. ...Então não diga que é um fardo. Na verdade, sou eu quem está sendo levado adiante por você, Narika.

Quando éramos crianças, eu era sempre quem puxava Narika pela mão. Mas, desde que entramos na Academia Kiou, a presença dela me impulsionou inúmeras vezes. Em algum momento do caminho… Passei a ser eu quem seguia atrás dela.

— Itsuki...

A voz de Narika tremeu. Lágrimas começaram a se acumular em seus olhos enquanto ela se aproximava.

— Fique aqui para sempre...!

— E-Ei, calma...

— Não volte para a casa da Konohana-san... estou implorando...!

Isso era um exagero… Ainda assim, era sinceramente emocionante saber que ela se importava tanto comigo. Nesse instante, a porta de correr abriu-se silenciosamente. Quem apareceu foi...

— Otsuko-san?

— Perdão por interromper os estudos. ...Narika, não deveria começar a se preparar?

— Ah, verdade!

Narika levantou-se num salto.

...Preparar-se para quê?

— Agora, Itsuki-san, vou guiá-lo até outro cômodo.

— Ah... certo.

Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas segui Otsuko-san. Enquanto isso, Narika correu para algum lugar da casa.

 

— Por favor, aguarde aqui por um momento.

Depois de dizer isso, Otsuko-san deixou o recinto. O cômodo para onde fui conduzido era...

...Uma sala de chá?

Era uma pequena sala japonesa de quatro tatames e meio. No centro havia um braseiro embutido no chão, e uma pequena janela posicionada próxima ao piso. As paredes pareciam feitas de argila. Os pilares eram troncos naturais. Tudo ali havia sido construído com materiais simples e naturais, mas o ambiente não transmitia qualquer sensação de pobreza.

...Era a primeira vez que eu experimentava uma forma tão refinada de wabi-sabi. Não havia decorações luxuosas nem móveis extravagantes. Mesmo assim, permanecer naquele espaço dava a impressão de estar dentro de uma obra de arte. Uma atmosfera silenciosa e solene pairava no ar.

— Itsuki, desculpe pela demora.

Narika entrou na sala de chá pela pequena porta de acesso.

— Narika... essa roupa...

— É um traje formal. Para a cerimônia do chá.

Narika estava vestida com um quimono castanho-dourado, que lembrava folhas de ginkgo. Era de uma única cor, mas, observando de perto, era possível perceber um delicado padrão brilhante tecido no tecido, combinando elegância e vivacidade em perfeita harmonia. Seus longos cabelos, que normalmente caíam soltos, estavam cuidadosamente presos para não encobrirem o quimono, conferindo-lhe uma aparência mais madura do que de costume.

— Escolhi esta cor para combinar com a estação. Fica bem em mim?

— Sim... fica muito, muito bem.

Fiquei tão encantado que minha resposta saiu um instante atrasada. Narika caminhou graciosamente sobre os tatames usando suas meias brancas tabi, com passos suaves e silenciosos. Quando passou à minha frente, sua beleza era tão marcante que meus olhos a acompanharam sem que eu percebesse.

— O principal motivo de eu ter convidado você para minha casa foi agradecer por tudo. Você também me ajudou muito no Management Game. Conversei com minha mãe e decidi que esta seria a melhor forma de demonstrar minha gratidão.

— Entendi.

Então aquela era a forma que Narika havia escolhido para me agradecer. Era uma surpresa extremamente agradável.

— Você pratica cerimônia do chá há muito tempo, Narika?

— Sim. A família Miyakojima não se dedica apenas às artes marciais. Também temos uma forte tradição em ikebana, dança tradicional japonesa e cerimônia do chá. Inclusive administramos escolas dessas artes. Eu pratico desde criança.

Arranjos florais e dança também, hein? Talvez Narika fosse ainda mais talentosa do que eu imaginava.

— Assim... consigo me exibir com confiança.

Narika colocou o matcha, retirado com uma colher de bambu, dentro de uma tigela previamente aquecida com água quente. Com cuidado, desfez os pequenos grumos para evitar que empelotassem e, em seguida, despejou lentamente a água quente. Fazendo um leve movimento com as mangas do quimono, pegou o batedor de bambu e misturou o conteúdo da tigela com rapidez e precisão.

Cada gesto era refinado e impecável. Lentos, mas firmes, seus movimentos transmitiam uma sensação de tranquilidade apenas por serem observados. Aquela cena era exatamente o que as pessoas chamavam de elegância refinada.

Sentado em posição formal, observei Narika preparar o chá. Quando ela permanecia em silêncio...

...Narika é realmente linda.

Sua expressão serena era rara na academia — completamente diferente do jeito atrapalhado que costumava mostrar ou da determinação feroz que exibia durante as competições esportivas. Parecia que eu estava conhecendo um novo lado dela.

Quando o chá ficou pronto, Narika me ofereceu cuidadosamente a tigela, girando-a levemente para que o desenho decorativo ficasse voltado para mim. Após fazer uma reverência educada, ela me entregou o chá.

— Recebo humildemente este chá.

Retribuí a reverência, e os olhos de Narika se arregalaram.

— Uau, você até conhece as etiquetas da cerimônia do chá?

— Bem, recebi um treinamento intensivo sobre esse tipo de coisa.

Enquanto falava, girei a tigela para que o desenho voltasse a ficar voltado para Narika.

Eu ainda estava usando apenas um jinbei casual e, como o jantar seria servido em breve, não havia nenhum doce tradicional acompanhando o chá, então a situação estava longe de seguir o protocolo à risca. Ainda assim, depois de ver como os modos de Narika eram impecáveis, senti vontade de corresponder à altura.

— A educação da família Konohana realmente cobre tudo. Não é de admirar que a Konohana-san seja tão excepcional.

Pensando bem, o conhecimento da família Konohana sobre educação e etiqueta estava em outro nível. Não fazia muito tempo que eu era apenas um estudante comum lutando para acompanhar os estudos, mas agora conseguia me sair bem até em situações do mundo dos negócios.

Eles provavelmente poderiam publicar um livro e ganhar uma fortuna. Algo como O Guia Completo de Etiqueta da Família Konohana

Inclinei a tigela e tomei um gole do chá preparado por Narika.

— Está delicioso.

— Fico feliz em ouvir isso.

Havia um amargor profundo acompanhado de uma leve doçura — prova de que ela o havia preparado com habilidade.

— Nunca imaginei que receberia algo tão especial de você, Narika.

— Hehe, até eu tenho coisas nas quais sou boa, sabia?

— Ah, eu sei.

Achei que já soubesse tudo sobre ela, mas descobrir que ainda existiam lados desconhecidos era justamente o que me surpreendia.

— Eu não fazia ideia de que você tinha esse talento. Sinceramente... fiquei hipnotizado.

— H-Hipnotizado!? T-Tanto assim...!?

— Sim. Se a Konohana-san e os outros vissem isso, também ficariam impressionados.

Até mesmo Tennouji-san, que costumava ser tão exigente nas avaliações, daria nota máxima.

— Se você conseguisse agir assim diante de todo mundo, seria imbatível...

— Ugh... eu penso nisso o tempo todo...!

Era evidente que ela tinha plena consciência disso.

— Dito isso, você não precisa tratar todo mundo da mesma forma que me trata.

— E-Eu sei. Quer dizer... existem lados meus que eu quero mostrar para todos e outros que só quero mostrar para você, Itsuki. Afinal... você é especial para mim.

A última parte saiu em um murmúrio baixo, provavelmente destinada apenas a ela mesma, mas... eu ouvi.

Especial.

Toda vez que Narika usava essa palavra, eu acabava me lembrando do festival esportivo.

...Eu queria perguntar.

O que exatamente ela queria dizer com especial...?

...Não, não.

Eu havia tomado uma decisão quando estávamos brincando com a bola de futebol. Até toda a confusão do Management Game terminar... e até que os relacionamentos de Narika se estabilizassem, eu não ficaria pensando nisso. Eu queria que Narika desse o melhor de si. E justamente porque queria vê-la ter sucesso, não queria criar confusões desnecessárias.

— Bem... pensar que sou a única pessoa que pode ver esse seu lado? Acho que isso é algo de que posso me orgulhar.

Talvez por estar distraído com meus pensamentos, um pouco dos meus verdadeiros sentimentos acabou escapando. Narika me encarou, claramente surpresa.

— I-Isso quer dizer que... você sente ciúmes de mim, Itsuki?

Ela perguntou com uma expressão que demonstrava completa incredulidade. Diante daquele olhar sincero, eu...

— Quem sabe?

— E-Ei! Por que está fugindo da pergunta...!?

Não respondi. Até eu tinha coisas que me deixavam envergonhado demais para dizer em voz alta.

 

O tempo passou voando entre os estudos e as conversas. Sentado na varanda, observando o pôr do sol, consultei as horas no celular.

...Acho que já está na hora de voltar.

Baixei o olhar e encontrei o rosto adormecido de Narika. Cansada de tanto conversar, ela havia deitado a cabeça no meu colo. Eu não me importava, mas… Minhas pernas já estavam começando a ficar dormentes.

— Narika, minhas pernas estão ficando dormentes...

— Mnh...

Toquei sua bochecha com o dedo, mas ela nem se mexeu. Tudo bem. Eu aguentaria mais um pouco.

— Ela parece tão confortável.

Uma voz surgiu de repente atrás de mim.

— Otsuko-san.

Otsuko-san sentou-se silenciosamente ao meu lado, tomando cuidado para não acordar Narika.

— Como está sendo sua vida na academia?

— Está indo bem. É difícil, mas...

— Você ficará bem.

Enquanto eu sorria sem jeito, ela me observou diretamente.

— Mesmo que seja um parentesco distante, você carrega o sangue da família Miyakojima. Narika ficou surpresa com suas conquistas, mas eu sabia desde o começo que você acabaria assim.

— É mesmo...?

Otsuko-san assentiu levemente.

— Sua avó... Miyakojima Yuuri, era considerada uma mulher extremamente inteligente. Especialmente nos negócios. Diziam que ela era tão brilhante que poderia ter se tornado uma das raras mulheres presidentes de empresa daquela época.

Aquilo era novidade para mim. Minha avó era tão impressionante assim?

— Mas ela também era muito livre e vivia fugindo de casa. Um dia teve um filho com o herdeiro de uma empresa rival, e isso acabou levando ao seu desligamento da família.

— Isso aconteceu...?

Os tempos e os valores eram diferentes naquela época, mas, para a família Miyakojima de então, as ações da minha avó eram imperdoáveis.

— Os registros dizem que Miyakojima Yuuri costumava apresentar ideias ousadas nas reuniões de negócios. Essa ousadia parece ter passado para sua mãe também.

Sorri sem graça. Quando eu era criança e ficava hospedado ali, minha mãe aparentemente apareceu dizendo: "Quem foi deserdada foi a minha avó, não eu!"

Em vez de trabalhar seriamente para se reaproximar da família, ela me deixou para trás e foi apostar nas corridas… Ela era ousada em todos os sentidos.

...Bom saber. Pelo menos minha avó não havia sido expulsa da família por ter cometido algum crime.

Com minha mãe sendo do jeito que era, eu já havia cogitado a possibilidade de minha avó ter sido expulsa da família por algum motivo absurdo. Mas ser deserdada por fugir com alguém? Isso ainda estava dentro do aceitável para os meus padrões.

— Tome isto.

Otsuko-san me entregou um objeto grande, parecido com um pergaminho.

— O que é isso...?

— Os Cinco Princípios da Família Miyakojima.

— Os Cinco Princípios da Família Miyakojima...

Repeti as palavras sem pensar. O que seria isso?

— É um pergaminho com os princípios da nossa família. Temos vários exemplares sobrando, então vou lhe dar um. ...Como o sangue dos Miyakojima despertou em você, está qualificado para possuí-lo.

Desenrolei o pergaminho imediatamente. Sobre um papel elegante, havia uma bela caligrafia.

Os Cinco Princípios da Família Miyakojima

1. Manter uma cultura empresarial baseada na justiça.
2. Nunca temer uma reunião.
3. É permitido eliminar chantagistas corporativos.
4. Nunca esquecer a cortesia para com acionistas e clientes.
5. Proteger os pequenos e os fracos.

— Isso é... bastante profundo.

— A família Miyakojima descende de samurais. Mesmo depois de fundarmos nossa empresa, continuamos administrando-a com espírito de bushidô. Esses princípios compartilham muitos valores dessa filosofia.

Entendi...

Observando melhor, percebi que o segundo princípio era exatamente aquele que Narika havia mencionado antes. Então ela também crescera seguindo esses ensinamentos.

— Muito obrigado. Vou guardá-lo com carinho.

— Ótimo.

Otsuko-san encontrou meu olhar enquanto eu me curvava.

— Miyakojima Yuuri... o maior gênio empresarial de nossa família. Era inevitável que o neto dela despertasse seus próprios talentos para os negócios.

Depois de dizer isso com uma expressão séria, ela relaxou os ombros.

— Por favor, continue cuidando da minha filha.

— Cuidarei.

 

Depois de aproveitar o jantar na casa dos Miyakojima, retornei à mansão dos Konohana. Eram oito horas da noite. Ainda havia tempo para revisar algumas matérias da escola e, graças a Narika, aqueles dois dias haviam sido um descanso perfeito.

— Hum?

Quando o carro parou diante do portão, avistei duas figuras. Hinako e Shizune estavam ali para me receber. Desci do veículo e caminhei até elas.

— Voltei.

— Bem-vindo de volta.

Shizune fez um leve aceno de cabeça, enquanto Hinako voltou o olhar para mim. Por algum motivo que eu não conseguia entender, Hinako estava usando um vestido. Não era nada extravagante — daqueles que poderiam ser usados casualmente —, mas ainda assim ela estava muito mais arrumada do que de costume.

Normalmente, quando estava na mansão, preferia roupas que transmitissem conforto absoluto.

— Itsuki... bem-vindo de volta.

— Estou em casa, Hinako. ...O que houve com essa roupa?

— Nada... é o de sempre.

Não havia como aquilo ser verdade. Por que ela estava tão produzida numa noite como aquela? Fiquei curioso, mas como ela não parecia querer responder, resolvi não insistir.

— Posso passar no meu quarto primeiro? Preciso guardar minhas coisas.

— Eu vou junto…

Hinako assentiu discretamente.

— Quando você diz "coisas", está falando daquele pergaminho saindo da sua bolsa?

— Isso mesmo. São os Cinco Princípios da Família Miyakojima.

— Os Cinco Princípios da Família Miyakojima...

Shizune repetiu as palavras com uma expressão desconfiada, como se estivesse pensando: "Que diabos é isso?" Eu compreendia perfeitamente a reação dela. Seguimos para o meu quarto, mas como Hinako decidiu me acompanhar, Shizune acabou vindo junto também.

Os três caminhamos em grupo pelos corredores, e eu lancei um olhar para Hinako.

— Ei... você não está andando mais perto do que o normal?

— Não estou.

Hinako respondeu isso enquanto se aproximava tanto que nossos braços quase se tocavam.

Subimos as escadas, mas nossos passos não estavam sincronizados, criando uma pequena distância entre nós. No instante seguinte, porém, Hinako acelerou o passo e voltou a reduzir o espaço até quase encostar em mim novamente.

...O que estava acontecendo?

— Pegue leve com ela, Itsuki-san. Ojou-sama estava preocupada que você talvez nem voltasse. O motivo de ela estar mais arrumada do que o normal é porque queria chamar sua atenção.

— S-Shizune!? Por que precisava contar tudo!?

— Minha língua escapou.

Não, aquilo definitivamente foi de propósito.

— Bem... aliás, essa roupa ficou muito bonita em você.

— Mm.

Hinako baixou os olhos timidamente.

Chegamos ao meu quarto, e comecei a tirar as coisas da bolsa. As roupas que havia levado para passar a noite fora já tinham sido lavadas, então apenas as guardei na cômoda. O notebook e os livros foram para a mesa. Quando terminei de organizar tudo, Hinako se aproximou de mim.

— Colo.

— Hã?

— Seu colo… empreste-o para mim.

Hinako sentou-se na cama e bateu de leve no espaço ao seu lado. Eu me sentei ao lado dela. Então, ela apoiou a cabeça no meu colo. Ao soltar um pequeno suspiro, Hinako pareceu tão tranquila que percebi imediatamente: ela estava aliviada.

Ela realmente tinha ficado preocupada com a possibilidade de eu não voltar. Tinha sido apenas um dia, e eu não achava ter deixado qualquer motivo para que ela se sentisse tão insegura...

— Mesmo quando você confia em alguém, ainda pode sentir ansiedade. Principalmente quando seus sentimentos por essa pessoa são profundos...

Como se tivesse lido meus pensamentos, Shizune-san falou. Suas palavras fizeram sentido. Em resposta, acariciei gentilmente os cabelos de Hinako.

— Eu sempre vou voltar.

Fiz questão de dizer aquilo claramente. Durante minha conversa com Musashi-san, pensei em como invejava alguém que tinha pais como os de Narika.

Mas, no fundo, eu já sabia. Eu também tinha pessoas esperando pelo meu retorno. Por isso, não me sentia inferior nem nada parecido. Claro, eu admirava os pais de Narika e o lar dela, mas já havia decidido qual era o meu lugar.

— Não importa para onde eu vá, eu sempre vou voltar. Afinal, este é o meu lar.

Eu estava satisfeito por ter aquele lugar para o qual retornar. Ainda deitada em meu colo, Hinako soltou um suave:

— Mm… Que bom.

E, menos de um minuto depois, ela adormeceu. Era uma sensação diferente da que eu havia experimentado com Narika.

Aquilo… Aquilo era o meu cotidiano.

— Itsuki-san, gostaria que eu carregasse a senhorita para o quarto dela? — perguntou Shizune-san.

— Não, tudo bem. Vamos ficar assim por mais um tempo.

Eu pretendia revisar parte da matéria depois, mas… talvez não houvesse problema em relaxar um pouco. O Management Game terminaria na semana seguinte e, até aquele momento, ninguém da Aliança do Chá — nem mesmo eu — estava enfrentando grandes dificuldades.

Era isso que eu pensava naquela hora.

Jamais poderia imaginar o que aconteceria com Hinako no dia seguinte.

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