O Cuidador da Ojou-sama Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Volume 5

Capítulo 4: Por uma Mudança Positiva

NA MANHÃ SEGUINTE.

— Shizune-san, bom dia.

— Sim, bom dia.

Quando acordei, Shizune-san já estava de pé. Seus longos cabelos negros não tinham um único fio fora do lugar, e ela já havia trocado para seu uniforme de empregada, então não parecia que tínhamos nos levantado ao mesmo tempo.

— O café da manhã está pronto. Gostaria de comer agora?

— Sim, obrigado.

Para abrir espaço para a mesa, movi a divisória. Ao fazer isso, devo ter feito um pouco de barulho, porque Hinako acordou. Achei que ela voltaria a dormir, mas, no momento em que nossos olhares se encontraram—

— N, m…!?

Os olhos de Hinako se arregalaram, e ela se sentou de um salto.

— Bom dia, Hinako. Você acordou cedo hoje.

— P-Preciso lavar o rosto.

As bochechas de Hinako coraram levemente, e ela correu apressada para o banheiro do quarto. Definitivamente havia algo estranho com ela.

Pensei que uma noite de sono resolveria, mas… 

Enquanto guardava a roupa de cama no armário e arrumava a mesa, Hinako voltou.

— Vamos comer.

Como Hinako já estava acordada, o café da manhã para três pessoas foi servido à mesa. O cardápio incluía bacon, omeletes, salada de legumes e pão… um café da manhã ao estilo ocidental. Querendo umedecer a garganta primeiro, estendi a mão para o copo à minha frente. Dentro havia algo que parecia suco de vegetais.

— Você… fez isso?

— Sim. Tentei fazer um smoothie com o liquidificador que compramos ontem à noite.

Como esperado da chefe das empregadas. Tudo o que ela fazia era de altíssimo nível. O bacon crocante e o omelete macio e cremoso estavam deliciosos. Enquanto eu admirava as habilidades culinárias de Shizune-san, percebi que Hinako não havia dado uma única mordida e apenas encarava o vazio.

— Não tem jeito.

Durante os intervalos de almoço na academia, quando comíamos bento juntos, Hinako às vezes ficava assim. Peguei um pouco de omelete com a colher e levei até sua boca.

— Aqui.

Provavelmente ela queria que eu a alimentasse, como sempre. Foi o que pensei, mas Hinako me olhou, chocada, e gaguejou:

— N-N-N-Não, não é isso…!

— Hã? Então por que você não está comendo?

Deixei a colher sobre a mesa e perguntei. Hinako abaixou o olhar e murmurou:

— E-Está muito perto…

Por entre as mechas de seu cabelo cor de âmbar, pude ver suas orelhas, vermelhas como maçãs. Ela queria dizer a distância entre nós? Estávamos sentados lado a lado, mas a distância não era muito diferente de quando comíamos na mansão.

— Mas, Hinako, você sempre deixa a comida cair, não é?

— Ugh.

Mesmo a Hinako de verdade, sem sua encenação, conseguia comer normalmente, mas estava sempre distraída ou sonolenta, deixando comida cair da boca o tempo todo. Evitar isso fazia parte do meu trabalho como cuidador dela.

— H-Hoje, eu vou me esforçar mais…!

Com isso, Hinako começou a enfiar comida na boca. Mas, na pressa, um pedaço de ovo acabou parando em sua bochecha.

— Hinako, fique parada.

Peguei um guardanapo de papel no centro da mesa e limpei sua bochecha.

— Pronto, saiu.

Lembrei vagamente de ter feito algo parecido em um restaurante de gyudon. Mas, ao contrário de mim, Hinako — por algum motivo — abriu e fechou a boca como um peixe e—

— Auuu~~~~!!

— Hinako?

Ela parecia completamente envergonhada, com o rosto vermelho como um tomate. Era algo que sempre fazíamos… então, o que havia de errado com ela?

*

 

Meio-dia. Eu estava fazendo meus estudos e revisões de costume. Naquele dia, era matemática. Durante a sessão de estudos de ontem, Tennouji-san havia criado um problema de repente para mim, mas eu não consegui resolvê-lo, o que me fez perceber que precisava revisar mais matemática.

Estudar com outra pessoa ensinava muita coisa. Era algo que eu não teria notado na época em que estava ocupado demais com trabalhos de meio período para socializar. Nesse momento, senti o olhar de alguém e levantei a cabeça.

— Hinako, o que foi?

— N-Nada.

Hinako desviou o olhar rapidamente. Mas, quando voltei a me concentrar nos estudos… senti seu olhar novamente.

— Hinako?

— Não é nada.

— Não, você estava me encarando esse tempo todo…

— É… coisa da sua cabeça.

Definitivamente não era coisa da minha cabeça. Pensando que talvez houvesse algo no meu rosto, toquei o nariz e as bochechas, mas não havia nada. Olhei de relance para o relógio no suporte da TV; eram duas da tarde. Lá fora, estava claro, com uma atmosfera tranquila.

…A Hinako provavelmente está prestes a adormecer.

Nos fins de semana, Hinako costumava tirar um cochilo por volta desse horário.

— Hinako, quer que eu prepare a cama?

Quando perguntei, ela balançou a cabeça de forma estranha e disse:

— H-Hoje, não vou dormir.

— O quê?

Não pode ser. Não dormir? A Hinako dizendo algo assim? Impossível. Por um momento, cheguei a pensar se a garota à minha frente era uma impostora, mas isso era ridículo, então considerei a próxima possibilidade.

— Hinako.

— O-O quê!?

Parei de estudar e me aproximei dela. Afastei seu cabelo sedoso e coloquei a mão em sua testa lisa e branca.

— Tudo bem. Sem febre.

Achei que seu comportamento estranho pudesse ser por causa de alguma doença, mas não parecia ser o caso. Bem, desde que ela estivesse saudável, era o que importava.

Mas Hinako, com os olhos marejados, se afastou de mim e—

— Uuuuu~~~~~~!!

— Hinako?

Cobrindo o rosto com as duas mãos, como se quisesse esconder as bochechas coradas, ela soltou um gemido.

*

 

Era noite. Estava um pouco mais fresco do que o normal para o verão e, conforme escurecia lá fora, havia um frio agradável no ar. Depois do jantar, fiquei encarando a TV, perdido em pensamentos.

Ela está me evitando?

Durante o jantar, Hinako não se sentou ao meu lado, mas na diagonal em relação a mim. Não exatamente de frente, mas na diagonal. Talvez eu estivesse pensando demais, mas, comparado à nossa proximidade habitual, parecia que ela estava mantendo distância.

— H-Hoje, eu vou tomar banho sozinha de novo…!

— O-Oh, tudo bem.

Sim… ela definitivamente estava me evitando. Observando-a entrar no banheiro do quarto, desabei no chão, com mãos e joelhos trêmulos de desânimo.

— Itsuki-san, recomponha-se.

— Estou bem. Mas ser rejeitado dois dias seguidos… eu fiz algo errado?

— Se pensar com calma, é mais incomum que pessoas da mesma idade e de sexos opostos tomem banho juntas.

— É verdade.

Por um momento, fiquei convencido.

— N-Não, mas! Sempre fizemos isso antes!

— Isso é que era estranho.

— Bem, é…! Acho que sim…!!

Eu não consegui argumentar contra isso. Mesmo que antes fosse algo fora do comum, a questão era por que essa mudança estava acontecendo agora. Pensando bem, Hinako já me evitou antes. Por exemplo, houve um período em que ela pediu à Shizune-san que a acordasse de manhã no meu lugar.

Naquela época, nunca descobri o motivo, e o tempo acabou resolvendo tudo. Será que eu deveria esperar desta vez também? Mas não consigo ficar calmo assim.

— Você poderia tentar perguntar a ela por mim, Shizune-san?

— Muito bem.

Shizune-san olhou na direção do banheiro.

— Ojou-sama, Itsuki-san disse que gostaria de lavar o seu cabelo.

— N-Nem pensar…!!

A voz de Hinako veio do outro lado da porta. Foi uma recusa incomumente firme para ela.

— Nem pensar…!?

Desta vez, caí de joelhos. As palavras "Nem pensar" ecoaram na minha cabeça. Ser rejeitado com tanta força… não vou me recuperar disso tão cedo.

— Isso foi inesperado. Pretendia observar a Ojou-sama com paciência, mas não imaginei que ele ficaria tão abalado.

Shizune-san murmurou, levando a mão à testa. Naquele momento, ouviu-se um pequeno clique quando a porta do banheiro se abriu.

— Sh-Shizune…

— Sim, Ojou-sama?

— Esqueci de trazer minha roupa íntima.

Hinako disse, soando envergonhada. Ao ouvir sua voz, senti uma chance de me redimir.

— E-Eu pego!

— Não, acho melhor não.

— Tudo bem! Eu ajudava ela a se trocar no começo!

Abri a bolsa de Hinako ao lado do armário. Encontrando o que procurava, corri até a porta.

— Aqui, Hinako! Trouxe sua calcinha!

Segurei a peça branca diante da porta. Claro, mantive os olhos bem fechados para não vê-la no banheiro. Esperava que isso a animasse, mas—

~~~~~~!!

Hinako soltou outro gemido e arrancou a roupa da minha mão.

— P-P-P…

— P?

— Pervertido…!!

A porta foi fechada com força.

— P-Pervertido…!?

O que foi que ela acabou de me chamar…? O choque foi tão grande que até esqueci de respirar.

— I-Itsuki, sai de casa por um tempo…!!

As palavras dela cravaram no meu peito como uma faca. Atordoado, saí cambaleando para fora.

*

 

Cinco minutos depois. A brisa fria esfriou minha cabeça, e recuperei os sentidos.

— Eu sou um pervertido.

Por que eu fiz aquilo? Talvez eu estivesse em pânico por sentir a Hinako se afastando. Desde a noite passada… não, desde que o curso de verão terminou, ela vinha agindo de forma estranha. E, ainda assim, eu também acabei agindo de maneira esquisita. Eu deveria ter esperado ou era hora de agir? Eu não sabia.

Achando que precisava agir, me intrometi e estraguei tudo. Agora já era tarde, mas provavelmente esse era um momento para esperar. Mas então percebi… esperar doía. Era mais fácil continuar agindo. Foi por isso que eu agi. Disse a mim mesmo que era pela Hinako, mas, na verdade, eu só queria me sentir melhor.

Eu fui tão imaturo… Enquanto eu estava agachado do lado de fora da casa, refletindo, a porta da frente se abriu.

— Parece que você já se acalmou um pouco — disse Shizune-san, olhando para mim, abatido. — Eu também fui expulsa.

— O quê?

— A Ojou-sama quer ficar sozinha por um tempo. Afinal, esta casa não é exatamente boa para privacidade.

Isso era verdade. Quando eu morava aqui, meus pais quase sempre estavam fora, e eu raramente ficava em casa entre a escola e o trabalho, então isso nunca me incomodou. Mas agora, nós três passávamos longos períodos aqui.

Mesmo assim…

— Não consigo imaginar a Hinako se importando com isso…

Ela sempre se esgueirava para o meu quarto para tirar cochilos. Nunca pareceu querer ficar sozinha antes.

— Talvez ela comece a se importar agora.

Será que essa era uma das mudanças que Shizune-san considerava positivas? Para mim, pelo menos, as mudanças de Hinako só eram confusas.

*

 

Uuuu~~~~!!

Depois de expulsar os dois, Hinako enterrou o rosto em uma almofada, se debatendo. Ela se sentia mal por tê-los mandado para fora. Mas, naquele momento, precisava desesperadamente ficar sozinha. Nunca havia se sentido assim antes.

Por que o Itsuki não sente nada…!?

De manhã, ao meio-dia e agora há pouco!

Seu coração estava disparado, mas Itsuki parecia completamente indiferente.

Eu preciso… estudar mais.

Talvez a maneira de acalmar esses sentimentos estranhos fosse adquirir o conhecimento certo. Com isso em mente, Hinako pegou o mangá shoujo que havia pegado emprestado de Yuri.

A protagonista, uma colegial, estava comendo com um garoto bonito da sua turma. Eles estavam comendo macarrão quando o garoto de repente levou um guardanapo à boca dela—

"Tem algo aqui."

Com um sorriso encantador, ele limpou o molho dos lábios dela. Kyun! A protagonista corou, com o coração acelerado. Ao ver aquela cena, os olhos de Hinako se arregalaram.

— M-M-M-M… É igual ao mangá…!?

Ela se lembrou de Itsuki limpando a comida de sua bochecha naquela manhã. Hinako sabia que o mangá shoujo que pegou com Yuri era sobre romance. Mesmo fazendo exatamente a mesma coisa, por que Itsuki ficava tão indiferente?

…Será que o Itsuki sente o mesmo que eu?

Talvez, só talvez, Itsuki também não entendesse o amor, assim como ela. Por isso ele conseguia agir com tanta naturalidade, não é?

Eu preciso perguntar ao Itsuki.

Hinako, segurando o mangá que pegou emprestado de Yuri, abriu silenciosamente a porta da frente. Espiando para fora, viu Itsuki e Shizune conversando animadamente.

— Mas, Shizune-san, se você troca seus utensílios de cozinha com tanta frequência, isso não dificulta o descarte?

— Você pode vendê-los de segunda mão. Segundo os fornecedores, há demanda por parte de pequenos restaurantes independentes. Por outro lado, às vezes também compramos equipamentos usados. Por exemplo—

Parecia que estavam falando sobre trabalho. Ambos pareciam realizados, imersos em uma conversa sobre a vida de servos.

…Eles parecem bem próximos.

Um sentimento turvo surgiu em seu peito. Era como no mangá. …Ultimamente, ela vinha se sentindo assim com frequência. Será que a Shizune percebia isso? Ela sempre falava mais quando estava com Itsuki.

Esses dois… têm muita coisa em comum, não têm?

Observando-os de perto, Hinako havia notado.

Itsuki e Shizune eram parecidos em alguns aspectos. Um deles era a seriedade. Outro era a surpreendente tendência a se fixarem em detalhes. Ambos mergulhavam de cabeça em tudo o que decidiam aprender e, quando chegava a hora de colocar em prática, adotavam aquela atitude de "já que vamos fazer, vamos fazer direito", acrescentando um toque próprio. Por exemplo, Shizune fazia questão de preparar smoothies no café da manhã, e Itsuki adicionava um ingrediente secreto ao seu curry. Esses dois… adoravam acrescentar aquele toque extra.

— Itsuki.

Interrompendo a conversa dos dois, Hinako falou.

— Oh, Hinako!?

Os olhos de Itsuki se arregalaram ao notá-la. Shizune também pareceu surpresa, mas, por algum motivo, Hinako não conseguiu encará-la naquele momento.

— Hinako… ah, desculpa pelo que aconteceu antes. Eu passei dos limites.

— Já está tudo bem.

Na verdade, não estava tudo bem, mas havia outra coisa que ela queria perguntar.

— Você conhece isso?

Hinako ergueu o mangá em suas mãos para que Itsuki visse. Os olhos dele se arregalaram novamente.

— Mangá shoujo? Por que você está com isso?

— Peguei emprestado com a Hirano-san.

— Então era isso que tinha naquela sacola de papel… — murmurou Itsuki. — Não sou muito familiarizado com mangás shoujo, mas… aquele Hana yori Manjuu? Eu peguei emprestado com a Yuri antes. Li até mais ou menos o volume cinco.

— Você leu?

— Sim. Achei bem interessante.

Itsuki disse isso com toda a confiança. Ao ouvir a resposta dele, Hinako decidiu voltar para dentro.

— Uh… Hinako?

— Fiquem aí por um tempo.

Agora ela tinha ainda mais coisas em que pensar. Ainda precisava de um tempo sozinha.

Ele leu…

Hinako ergueu o olhar para o teto.

Então o Itsuki… ele sabia dessas coisas e mesmo assim fez tudo aquilo…!?

O que isso significava? Completamente perdida, sua cabeça girava em círculos. Talvez ainda não tivesse estudado o suficiente. Ela voltou a mergulhar no mangá shoujo. Havia uma cena em que a heroína recebia um travesseiro de colo do garoto de quem gostava.

A gente fez exatamente a mesma coisa que no mangá…!

O rosto de Hinako ficou vermelho como um tomate, mas—

"Um travesseiro de colo? Meu coração bateria tão rápido que eu nem conseguiria dormir!"

Era isso que a heroína estava pensando.

…Hã?

Hinako sentiu que havia algo estranho.

Quando eu recebi um travesseiro de colo… não foi assim.

O colo de Itsuki era quente. Fazia com que ela se sentisse calma, tranquila, capaz de adormecer em paz. Seu coração disparar a ponto de não conseguir dormir? Isso nunca aconteceu. Qual era essa diferença? Aquilo a incomodava, mas, por mais que lesse, não encontrava a resposta.

…Preciso perguntar a alguém.

Hinako pegou o celular. Ela sabia exatamente para quem ligar. A pessoa que havia lhe emprestado o mangá.

— Alô, Hirano-san?

— Konohana-san? O que houve?

Yuri atendeu imediatamente. Hinako respirou fundo e começou a falar.

— Eu li o mangá que você me emprestou. Foi a primeira vez que li mangá, então levei um tempinho…

— Espera, você nunca leu mangá antes?

— Não.

— Uau, você realmente parece uma Ojou-sama perfeita, saída direto de um mangá, Konohana-san.

Por algum motivo, Yuri soltou um comentário como se estivesse completamente convencida.

— Então, o que achou?

— Hum, achei todos muito interessantes.

— Interessantes, é…

Talvez percebendo que o comentário de Hinako era um pouco superficial, a reação de Yuri foi meio morna.

— Você conseguiu entender o que é "amor"?

— !

— Haha! Parece que você conseguiu!

Percebendo a reação agitada de Hinako, Yuri riu. Hinako tentou se acalmar e falou da forma mais neutra possível.

— Para ser sincera, ainda não tenho certeza se entendo completamente o que é amor. Mas, ao ler o mangá, surgiram algumas dúvidas, então resolvi ligar.

— Entendi. Vou responder da forma mais séria que puder.

Foi uma resposta reconfortante.

— Primeiro, sobre Dango Over Flowers

Hinako folheou o mangá em suas mãos enquanto fazia suas perguntas.

— Por que eles decidiram dar as mãos aqui?

— Bem, provavelmente porque segurar a mão de alguém de quem você gosta é bom, então eles criaram coragem, né?

— Então, por que eles estão se abraçando aqui?

— Hum… talvez, tipo, eles quisessem confirmar o que o outro sente? — Yuri respondeu, soando um pouco envergonhada.

— Por que eles se beijaram aqui?

— I-Isso provavelmente… tipo, os pais não estavam em casa, e eles acharam que podia ser a única chance, então simplesmente aproveitaram… Espera, eu estou sendo interrogada agora?

Dominada pelo constrangimento, Yuri deixou escapar algo estranho para fugir da situação. Confusa, Hinako não entendeu bem o que ela quis dizer, mas Yuri pigarreou de forma exagerada, sinalizando para continuar.

— Então, esse travesseiro de colo…

— Hmm… talvez eles quisessem sentir essa proximidade especial?

Parecia semelhante às explicações anteriores sobre dar as mãos, abraçar ou beijar. Mas Hinako sentia que havia algo diferente.

— Acho que um travesseiro de colo não significa a mesma coisa, certo?

— Hã?

Para uma Yuri confusa, Hinako explicou:

— Digamos… só como exemplo, se um garoto me desse um travesseiro de colo.

— Espera, você já chegou nesse nível?

— Hã?

— Ah, desculpa! Hum, continua.

Por algum motivo, Yuri parecia agitada, mas logo se acalmou. Hinako continuou:

— Mesmo que eu recebesse um travesseiro de colo, não acho que meu coração bateria tão rápido assim. Se fosse o caso, seria tão confortável que eu provavelmente acabaria dormindo.

— Sério? Se você já estiver acostumada, talvez, mas…

Como havia sido assim desde o início, provavelmente não era questão de costume.

— Há outros exemplos também. Tipo, quando alguém me carrega nas costas… é parecido com um abraço, eu acho, mas, em vez do coração disparar, isso me faz sentir segura.

Às vezes, lá na mansão, Itsuki a carregava nas costas até o quarto. Isso também não fazia seu coração disparar — era tão reconfortante que ela quase adormecia. Era diferente das emoções que as heroínas dos mangás sentiam. Será que a forma como ela sentia as coisas era única?

— Hmm… certo, o que faz o seu coração disparar, Konohana-san?

Ao ouvir a pergunta, Hinako se lembrou de algo recente que havia feito seu coração acelerar.

— Por exemplo, quando estamos cozinhando juntos e nossos ombros se encostam sem querer…

— Eeee! Que fofo!

Comparado a dar as mãos ou abraçar, tão comuns nos mangás shoujo, seu exemplo podia parecer um pouco tímido. Ainda assim, Yuri o elogiou como se fosse a melhor coisa do mundo.

— Acho que entendi. …É sobre parecer "romântico", não é?

— Romântico…?

— Tipo, travesseiro de colo tem aquela imagem de mimo, sabe? O mesmo vale pra carregar nas costas. Mas cozinhar lado a lado, com os ombros se tocando… isso parece romântico, como algo que um casal ou um casal já casado faria. Quando você percebe isso, o coração dispara, não é?

Era como se Yuri tivesse enxergado diretamente o fundo do seu coração, um lugar que nem a própria Hinako ousava tocar. Tudo se encaixou. Perfeitamente. Estava ficando claro que tipo de sentimentos ela tinha por Itsuki. Por algum motivo, ela sentiu que precisava negar aquilo. Se reconhecesse esses sentimentos, parecia que algo dentro dela iria se quebrar…

— M-Mas, quando nossos ombros se tocaram, talvez eu só tenha me assustado. Pensando bem, travesseiro de colo e carregar nas costas não são coisas repentinas, então faz sentido…

— Ah, vai, você sabe a diferença entre se assustar e sentir o coração bater mais forte, não sabe?

— Ugh…

As palavras diretas de Yuri deixaram Hinako sem resposta. Poucas pessoas conseguiam falar com tanta franqueza com Hinako, que era chamada de "Ojou-sama perfeita" ou "flor da alta sociedade". Era uma perspectiva rara e valiosa.

— No seu caso, Konohana-san, acho que o seu desejo de ser cuidada e os seus sentimentos românticos estão todos misturados.

— Misturados…?

— É, embaralhados. …Provavelmente por isso foi tão difícil pra você perceber.

Yuri disse isso com um tom compreensivo.

— Escuta, Konohana-san. Eu vi você e o Itsuki assistindo aos fogos de artifício juntos durante o curso de verão. Ainda me lembro do seu rosto naquela hora. …Aquele não era o rosto de alguém que só quer ser mimada.

Pode ser intromissão, mas… acrescentou Yuri.

— O meu rosto…?

Hinako nunca havia prestado muita atenção ao próprio rosto.

Toda manhã, ela o via no espelho enquanto arrumava o cabelo, mas, a menos que estivesse interpretando o papel de Ojou-sama perfeita, sua expressão habitual era apenas… vazia. Sonolenta, lenta, nada que alguém consideraria agradável de ver.

O que Yuri poderia ter visto nela? Curiosa, Hinako se levantou e foi até o espelho do banheiro. Provavelmente seria apenas seu rosto apático de sempre. Foi o que pensou, mas o rosto refletido—

— Ah.

O reflexo não era a Hinako que ela conhecia. Bochechas coradas. Olhos brilhantes. Uma expressão tecida de expectativa e ansiedade. Aquilo não era a Ojou-sama perfeita nem a garota apática. Ela nunca tinha visto aquele rosto antes. Era tão diferente de seu eu habitual que, por um momento, pensou se não seria outra pessoa.

Sim, claro.

Se tivesse se olhado no espelho desde o começo, talvez tivesse entendido antes. A pessoa à sua frente não era a Hinako de antes. Por isso, sua forma antiga de pensar não conseguia dar sentido aos sentimentos que giravam em seu peito.

O espelho mostrava uma desconhecida — uma garota. Mas não era algo novo. Ela simplesmente não tinha percebido. Aquela garota provavelmente já estava ali há muito tempo.

Aquele era o seu novo eu. Um eu que havia mudado por causa de Itsuki.

— Você está bem?

— Sim, estou bem agora.

Talvez percebendo seu silêncio, Yuri esperou pacientemente antes de perguntar. Graças a isso, Hinako teve tempo para organizar seus sentimentos.

— Acho que entendi agora. Meus sentimentos… e o significado das suas palavras.

Hinako falou devagar, saboreando cada palavra. Ela quase podia sentir Yuri sorrindo suavemente do outro lado da linha.

— Parece que finalmente consegui ouvir a verdadeira você, Konohana-san.

— Me desculpa. Não foi minha intenção esconder nada…

— Não se preocupe com isso. Afinal, você é a herdeira do Grupo Konohana. Está numa posição difícil, então não é fácil simplesmente ser você mesma, né?

O tom despreocupado de Yuri deixou Hinako sem resposta por um momento. Para manter a fachada de Ojou-sama perfeita, Hinako não tinha intenção de mostrar seu verdadeiro eu para Yuri. Então dizer "não foi minha intenção esconder nada" era uma mentira. Mas Yuri parecia enxergar até isso, aceitando-a com uma generosidade quase avassaladora.

— Você é gentil, Hirano-san.

— S-Sério?

— Sim. Você é como o Tomonari-kun. Apoia as pessoas de forma tão natural… Quando alguém é assim, dá vontade de se abrir.

— Ouvir isso de você me deixa tão feliz que eu poderia sair flutuando! — Yuri riu, com uma leve sensação de cócegas na voz. — Mas, sabe, Konohana-san. Só pra deixar claro… — o tom de Yuri ficou sério enquanto ela continuava. — Em Nanji ni Todoke, tem uma garota chamada Natsu-chan, certo? Se você fosse a heroína desse mangá, eu seria a Natsu-chan.

— O quê….?

A ligação foi encerrada. Hinako colocou o celular no chão e folheou Nanji ni Todoke. O papel da personagem chamada Natsu-chan era, de certa forma, extremamente claro. Ela era a rival amorosa da protagonista.

— Ah, não.

Um turbilhão de emoções complicadas começou a girar em seu peito. Será que, dali em diante, ela teria que lidar com esse tipo de sentimento? Para a Hinako de agora, aquilo talvez ainda fosse um pouco demais… ela pensou.

*

 

No dia seguinte. Depois do almoço, uma atmosfera tranquila preenchia a casa. Enquanto Shizune-san estendia a roupa, eu passava o aspirador pelo chão. Quando desliguei o aspirador para trocar de tomada, ouvi risadas vindas da TV. Ah, é mesmo, Hinako estava assistindo. Pensei se o barulho não tinha sido alto demais e olhei na direção dela.

Hinako estava distraída. Seu olhar estava fixo no nada, e eu não fazia ideia do que ela estava pensando.

— Hinako, você está bem?

— Mmm… não é isso.

Ela balançou a cabeça.

— É que tenho muita coisa na cabeça.

Ela parecia consciente de que não estava como de costume e não tentou disfarçar.

— Estou aqui pra ouvir, se quiser conversar.

— Obrigada. Mas isso provavelmente é algo que preciso resolver sozinha…

Seja lá o que a estivesse incomodando, ela não estava pronta para compartilhar comigo. Hinako voltou a ficar absorta, perdida em pensamentos. Depois de guardar o aspirador, fui até a varanda.

— Shizune-san, deixe-me ajudar.

— Obrigada. Por favor, pendure aqueles futons ali.

Não havia espaço suficiente para arejar três futons de uma vez, então hoje só estávamos lavando o da Hinako. Alisei as rugas do tecido e prendi com pregadores para que não voasse com a brisa.

— O que foi, Itsuki-san?

Shizune-san deve ter percebido que eu estava me movendo distraído, porque perguntou.

— Não, é só que… a Hinako parece estar preocupada com alguma coisa de novo hoje.

— A Ojou-sama também é humana, então é natural que tenha momentos assim.

— Eu sei, mas…

Como eu colocaria esse sentimento em palavras? Olhando para o céu limpo, tentei encontrar as palavras certas.

— É como se… eu me sentisse frustrado por não conseguir ajudá-la em nada.

Talvez fosse um pensamento arrogante. Mas toda vez que via Hinako enfrentando algo sozinha, era isso que me corroía.

— Está tudo bem — Shizune-san sorriu para mim. — Você já é suficiente do jeito que é, Itsuki-san.

Shizune-san conhecia Hinako há muito mais tempo do que eu. Se ela dizia que estava tudo bem, isso já era um pequeno consolo. Mas, ao mesmo tempo, não consegui deixar de lembrar de outra coisa.

"No momento, você não pode ser alguém com quem ela realmente possa contar."

As palavras de Takuma-san ecoavam na minha cabeça, repetindo-se sem parar. Se eu não conseguia ajudá-la agora… se ela estava enfrentando algo sozinha, não seria porque eu falhava em ser o lugar ao qual ela pudesse pertencer?

Essa ansiedade se agarrava a mim, sem querer ir embora. Quando terminei de estender a roupa, voltei para dentro.

— Hm?

Meu celular vibrou no bolso. O aplicativo notificava uma mensagem de um colega de classe.

— Uma reunião de turma…?

Aparentemente, um dos antigos colegas que encontrei perto da escola outro dia estava organizando isso. Seria amanhã — bem em cima da hora, mas, com as férias de verão chegando ao fim, até que fazia sentido. Ao abrir a página de confirmação de presença, vi uma mensagem descontraída: "Talvez a gente consiga ver o Itsuki!" Pelo visto, meu retorno à cidade tinha sido o estopim para a ideia da reunião. Mas, lendo o chat do grupo, parecia ser algo bem espontâneo — todo mundo achava que seria legal ter um evento assim. Até colegas com quem eu não era próximo já diziam que iriam aparecer.

Ser tratado como convidado de honra era um pouco constrangedor e estranho, mas, se não era realmente sobre mim, talvez fosse bom participar. Rever o pessoal outro dia tinha sido nostálgico e divertido. Sinceramente, eu era grato por me convidarem para algo assim.

Mas a Hinako andava estranha ultimamente… O prazo para confirmar presença era naquela noite, mas decidi deixar para responder no último momento. Guardei o celular de volta no bolso.

*

 

Por volta do fim do jantar, Hinako estava, aos poucos, recuperando a calma. Aceitar suas próprias mudanças havia alterado sua forma de enxergar o cotidiano. Receber um travesseiro de colo, ser carregada nas costas… pensando bem, ela tinha sido bastante grudenta.

Será que, a partir de agora, teria que se conter? Esse pensamento pesava em seu coração.

— Hinako, vai tomar banho sozinha de novo hoje?

— !

Itsuki, que estava limpando o banheiro, falou com ela. Era exatamente no que ela estava pensando, então se assustou mais do que pretendia.

Preciso dizer não.

Preciso dizer que, a partir de agora, vou tomar banho sozinha…

Tenho que dizer isso…

— L-Lava… meu cabelo…

— !! Entendi, deixa comigo!

O rosto de Itsuki se iluminou como um dia ensolarado. Ela vinha recusando ultimamente, então ele devia estar radiante. Mas, enquanto Itsuki quase pulava de alegria, o coração de Hinako era um emaranhado de sentimentos.

Eu disse…

Eu devia ter recusado…

Hinako vestiu o biquíni e entrou na banheira, com os nervos à flor da pele. Quando chegou a hora de lavar o cabelo, chamou Itsuki, e ele apareceu, como esperado, de ótimo humor.

— Tem algum lugar coçando?

— E-Está tudo bem…

Seu estado mental, no entanto, estava um completo caos.

…Talvez eu seja descarada.

Ela havia fingido inocência. Mesmo já estando consciente dos próprios sentimentos. Claro, ela estava de biquíni, mas entendia perfeitamente o quão íntimo era para um garoto e uma garota estarem juntos no banho.

Ainda assim, fingiu não saber e acabou envolvendo Itsuki nisso.

Mas… eu quero ficar com ele…

Seu desejo havia superado a culpa. O peito de Hinako era uma tempestade de excitação ao pensar em Itsuki e de culpa que a corroía. Instintivamente, ela cobriu o rosto com as duas mãos.

— Desculpa, entrou shampoo nos seus olhos?

Hinako apenas balançou a cabeça em silêncio. Quando terminou de lavar o cabelo, Itsuki saiu do banheiro. Ao sair do banho e olhar para o espelho, seu rosto estava vermelho como um tomate. Provavelmente, Itsuki pensaria que era apenas por causa do calor. Mas aquela vermelhidão não tinha nada a ver com o banho.

Ao sair, Itsuki, que estava estudando, olhou para ela.

— Acho que agora é a minha vez de tomar banho.

Hinako observou em silêncio as costas de Itsuki enquanto ele ia pegar uma troca de roupa. Ela compreendia o significado especial de viver sob o mesmo teto. Quanto mais reconhecia esses sentimentos, mais confusa ficava. Mas não desejava voltar a não saber. Em troca da confusão, também havia aprendido a saborear momentos de felicidade.

Ela queria saber mais. Queria aprender mais sobre o amor. Com esse pensamento, Hinako decidiu continuar lendo o mangá que havia pegado emprestado com Yuri.

Preciso ler enquanto o Itsuki está no banho.

O mangá shoujo já era intenso por si só, e ela não conseguia se concentrar com Itsuki por perto. Shizune estava ocupada com papelada. Era a chance perfeita de ler sem que ninguém percebesse caso ela se emocionasse demais.

Ela virou a página. Era uma cena em que duas garotas brigavam pelo mesmo garoto.

"Hmph, ele já é meu. Fique fora do nosso caminho para sempre."

Declarou uma garota de maquiagem carregada. Ela não era a protagonista, mas sim a rival amorosa.

Essa garota era obsessivamente possessiva. Uma vez que queria algo — fosse uma bolsa de grife ou uma pessoa — não media esforços para conseguir. Vinda de uma família rica, tinha o péssimo hábito de resolver tudo com dinheiro, às vezes recorrendo até a atitudes forçadas para tomar aquilo que desejava.

Essa personagem… que horror, ela é a pior!

A garota de maquiagem pesada era claramente uma vilã, e Hinako havia passado a detestá-la profundamente. Era egoísta, nunca considerava os sentimentos dos outros, manipulando as pessoas sem nem perceber. Por fim, a protagonista decidiu enfrentá-la diretamente.

"Por que você não consegue perceber!?"

Gritou a protagonista.

"Tudo o que você está fazendo é prendê-lo, tentando fazê-lo seu!"

A garota de maquiagem pesada recuou, seus ombros estremecendo. Ela havia sido exposta, e aquilo a atingiu em cheio. Mas aquelas palavras—

"Ah."

Ah.

Oh.

Aquelas palavras não atingiram apenas a personagem do mangá — atravessaram diretamente o coração de Hinako.

"Pare de tirar tudo dele!"

O grito angustiado da protagonista esfriou o coração agitado de Hinako como um balde de água fria.

Como… como ela pôde quase esquecer disso? Será que ficou tão absorvida em entender seus sentimentos que acabou se deixando levar?

Sou uma idiota.

Havia outra verdade que precisava encarar.

Eu… posso ter roubado a vida do Itsuki.

Desde que ouviu as histórias do passado de Itsuki durante as aulas de verão, esse pensamento não saía de sua cabeça.

Antes de se tornar seu cuidador, Itsuki tinha uma vida completamente diferente. Foi ela quem tirou isso dele de forma abrupta. Itsuki deveria ser uma pessoa comum, que nunca pisaria na Academia Kiou, mas ela o forçou a entrar nesse mundo da elite, exigindo dele um esforço muito além do justo.

Se ela não tivesse se aproximado dele, Itsuki estaria morto em algum lugar? …Claro, seus pais o abandonaram, mas, pelo que Yuri disse, não parecia que isso o destruiria. Ele já tinha uma rede de pessoas em quem podia confiar. Mesmo sem a ajuda dela, provavelmente teria conseguido reconstruir sua vida com o apoio de Yuri e de seus antigos colegas.

Então… ela não havia se intrometido sem necessidade? Não foi o egoísmo dela que desviou o rumo da vida de Itsuki? Foi por isso que decidiu ficar por um tempo na casa de Itsuki — para encarar essa ansiedade. Tudo isso era para entender mais profundamente o passado de Itsuki. Para compreender completamente o quanto ela havia distorcido a vida dele—

"Eu…"

No mangá, a garota de maquiagem pesada permanecia em silêncio, com o rosto contorcido de frustração, incapaz de responder. Até então, Hinako vinha se identificando com a protagonista do mangá. Guardava uma esperança tímida de viver um romance doce e agridoce com o garoto de quem gostava, assim como a heroína. Mas parecia que ela estava enganada.

"Eu… não sou a protagonista…"

Ela não era a heroína. Era a garota inventada. Não aquela que trazia felicidade ao garoto de quem gostava, mas sim aquela que o fazia sofrer. Sua cabeça latejava. Seu peito doía. Hinako deitou-se lentamente no chão.

— Ojou-sama?

Shizune, que estava trabalhando, chamou por Hinako ao vê-la caída.

A princípio, pensou que ela apenas tivesse adormecido — mas, ao perceber claramente seu sofrimento, a expressão de Shizune mudou.

— Ojou-sama!?

*

 

Quando eu estava prestes a sair do banho, ouvi o grito de Shizune-san. Troquei de roupa rapidamente e corri para fora do banheiro.

— Shizune-san! O que aconteceu com a Hinako!?

No meio do quarto, Hinako estava deitada. Seu rosto estava contorcido de dor, e era evidente à primeira vista que ela não estava bem. Gotas de suor brilhavam em sua testa.

— É febre. Já fazia um tempo desde a última.

A água ainda pingava do meu cabelo molhado. Febre causada por estresse. Hinako, constantemente forçada a desempenhar o papel de Ojou-sama perfeita, periodicamente tinha febres provocadas por estresse. Mas, ultimamente, parecia que esse estresse havia diminuído, e ela não tinha tido febre há algum tempo, então, em algum lugar dentro de mim, devo ter baixado a guarda.

Ver Hinako sofrendo daquele jeito — me abalou profundamente.

— P-Por quê…?

— Com base nos casos anteriores, é provável que seja estresse — disse Shizune-san, com uma expressão pesada. — Pode haver várias causas. Ela está em um ambiente desconhecido, interagindo com pessoas desconhecidas, e…

Shizune-san lançou um breve olhar silencioso na minha direção. Mas logo voltou sua atenção para Hinako, verificando seu estado.

— V-Você chamou um médico?

— Sim. O médico da família que fica de prontidão na mansão deve chegar em breve.

Shizune-san colocou uma toalha embebida em água fria na testa de Hinako. Sobre a mesa havia um pacote aberto de analgésicos antitérmicos e um copo de água, provavelmente usados para administrá-los. Haviam se passado apenas alguns minutos desde o grito, e ainda assim Shizune-san já havia resolvido tudo.

— Eu vou esperar o médico lá fora!

Querendo perceber a chegada do médico o mais rápido possível, saí de casa. As ruas daqui são meio confusas. Eles poderiam acabar passando direto. Mas, na verdade, essa preocupação era secundária.

Eu só… queria fazer alguma coisa, qualquer coisa, pela Hinako. Depois de um curto tempo de espera, um carro preto elegante parou em frente à casa. Dele desceu um médico de jaleco branco — e…

— Yo.

Por algum motivo, Takuma-san também estava lá.

— Obrigado por esperar aqui fora. Aqui é meio escuro, achei que poderíamos nos perder.

— Takuma-san, por que você está aqui?

— Eu estava relaxando na mansão quando os médicos da empresa começaram a se agitar. Parece que a Shizune chamou um médico, então vim junto para ver como estavam as coisas.

O médico entrou na casa. Takuma-san espiou pela porta aberta, vendo Hinako por um instante.

— Achei que já estava na hora de algo assim acontecer.

O que ele quis dizer com isso…? Eu queria perguntar, mas o estado de Hinako era a prioridade. Comecei a seguir o médico para dentro.

— Ei, espera. Itsuki-kun, vamos conversar um pouco.

— Conversar…?

— As habilidades deles são de primeira. Você ficar por perto só vai atrapalhar.

Provavelmente ele estava certo. A porta da frente se fechou. Uma brisa fria passou entre mim e Takuma-san.

— O que você acha que causou isso na Hinako?

Takuma-san perguntou, mantendo o olhar fixo em mim. A hipótese de Shizune-san era estresse — ambiente desconhecido, pessoas novas. Era verdade que os acontecimentos recentes poderiam ter sido estimulantes demais para Hinako.

Mas algo não encaixava para mim. Porque Hinako estava animada desde o começo. Ficar na minha casa, explorar a cidade — ela parecia genuinamente empolgada com tudo isso.

Quando comemos naquela loja de gyudon, Hinako parecia estar se divertindo ao máximo. Não consigo imaginar que isso se transformaria em estresse suficiente para causar febre. Claro, foram muitas experiências novas, mas, como ela queria vivê-las, o estresse não deveria ser tão grande assim. Então por que Hinako estava sofrendo desse jeito—?

— É você.

Takuma-san disse. Seu olhar me atravessava, como se enxergasse tudo.

— Eu já te disse, não disse? No momento, você não pode ser alguém com quem ela realmente possa contar. …Vamos lá, você é o cuidador dela. Precisa se tornar esse lugar para ela.

— Mesmo você dizendo isso…

O que eu deveria fazer? O que está faltando? As perguntas começaram a se acumular dentro de mim.

— A Hinako está ansiosa. Ela não sabe em qual mundo você vai escolher viver.

Takuma-san continuou.

— Você está preso entre o mundo comum em que cresceu e a sociedade de elite à qual eu e Hinako pertencemos. Você consegue se adaptar aos dois, e está mantendo suas opções em aberto. Então a Hinako começou a pensar… talvez seja melhor para você viver no mundo comum.

Aquilo me pegou completamente de surpresa. Eu, dividido entre dois mundos…?

— Isso não…

— Você não ficou todo amigável com seus antigos colegas na frente da Hinako? Qualquer um que visse aquilo pensaria o mesmo: Talvez eu só esteja atrapalhando.

— !

Eu não consegui rebater.

— Você já passou tempo suficiente na Academia Kiou para entender, não é? Pessoas como nós, da elite, para o bem ou para o mal, vivem com o futuro em mente. Herdar o negócio da família, abrir uma empresa, se tornar um funcionário público, casar-se com alguém rico — todos têm sua própria visão. Mas você não tem. Seus planos para o futuro são vagos, então ninguém sabe até onde pode confiar em você. E se você simplesmente desaparecer das nossas vidas de repente? Até que ponto o seu futuro e o da Hinako realmente se cruzam… ninguém sabe.

Aos poucos, comecei a entender o ponto de Takuma-san. Não se tratava do presente. Era sobre olhar para o futuro. Se fosse isso… eu não podia negar. Agora que ele mencionava, percebi que não havia pensado no futuro com nenhum detalhe, nem o suficiente para formular uma única resposta.

Graças aos arranjos de Shizune-san, eu havia recebido uma oferta de emprego de uma certa empresa de TI, mas ainda não tinha me comprometido totalmente a aceitá-la. Embora estivesse começando a me interessar pela área, ainda não havia decidido que tipo de função queria exercer.

Será que… esse era o problema?

— Do nosso ponto de vista, sabe, a forma como você vive parece meio indefinida.

Declarou Takuma-san.

— Não estou dizendo que você precisa escolher uma sociedade e cortar completamente os laços com a outra. Mas… não sinto em você nenhuma determinação de não voltar atrás. Pela minha experiência, consigo perceber esse tipo de decisão em pessoas que realmente pensam no futuro, sem exceção.

Eu não consegui dizer nada. Takuma-san me olhou com seriedade e disse:

— Você deveria pensar com cuidado sobre o que quer fazer no futuro, sobre como quer viver.

Com isso, Takuma-san não voltou para o carro, mas saiu andando para algum lugar. Sem conseguir segui-lo nem chamá-lo, entrei na casa. Nesse momento, parecia que o atendimento já havia terminado, pois o médico conversava com Shizune-san em um canto do quarto. Aproximei-me de Hinako, que estava deitada no centro.

— Hinako…

— Itsuki…?

Eu não esperava uma resposta, e meus olhos se arregalaram. Parecia que ela havia acordado. Ao ver seu rosto úmido de suor por causa da febre, senti uma frustração esmagadora.

— Hinako, me desculpa. Eu te fiz se preocupar…?

— Não.... A culpa é minha — Hinako negou com uma voz fraca. — É porque eu… prendi você à minha vida.

Assim como Takuma-san havia dito, parecia que Hinako vinha se preocupando com a forma como eu vivia. Por volta do fim do curso de verão, ela começou a me perguntar muito sobre meu passado. Agora, finalmente, eu entendia o motivo. Hinako esteve preocupada com isso o tempo todo. Com a minha vida comum de antes—

— Se você quiser voltar à sua vida antiga… eu vou respeitar isso.

Hinako disse, com a voz rouca. Era como se estivesse dizendo que aceitava que eu deixasse de ser seu cuidador. Instintivamente, balancei a cabeça.

— Hinako, não é isso. Eu não me sinto preso de forma alguma. Eu quero ficar com você, agora e no futuro—

— Não… por minha causa.

Hinako balançou a cabeça de leve. Sua voz era fraca, e seu corpo quase não se movia. Mas seus olhos carregavam uma determinação forte.

— Pense nisso por você mesmo.

Seu olhar implorava, insistindo que eu precisava fazer isso. Nesse momento, meu celular vibrou. Achei que podia esperar, mas—

— Está tudo bem… você pode atender.

Hinako, percebendo a ligação, falou. Talvez eu estivesse fazendo ela se preocupar à toa. Atendi.

— Ei, Itsuki! Você é o único que ainda não confirmou presença na reunião!

A voz que saiu do alto-falante foi mais alta do que eu esperava. Droga, a Hinako ouviu. Eu não tinha a intenção de esconder que ainda estava indeciso sobre ir, mas ainda assim senti um aperto no peito.

— Desculpa, estou meio ocupado agora.

Enquanto começava a recusar, Hinako balançou a cabeça.

— Vá.

— Mas…

— Você precisa… encarar sua vida antiga de verdade.

Mesmo enfraquecida pela febre, Hinako falou com dificuldade, mas com firmeza.

— Passe um tempo com as pessoas desta cidade de novo… e depois me dê a sua resposta.

*

 

Na tarde do dia seguinte.

No fim, decidi seguir as palavras de Hinako e participar da reunião. Peguei um trem semi-expresso e desci em uma estação no centro da cidade, a seis paradas de distância. Como escolhi a escola mais próxima para economizar no transporte, raramente me afastava de casa. A última vez que usei aquela estação foi quando precisei pegar trem para um trabalho temporário relacionado a eventos.

Quando cheguei ao ponto de encontro em frente às catracas, cerca de dez rapazes e garotas já estavam reunidos, conversando e rindo.

— Itsuki!! Quanto tempo, cara!

— É, faz tempo.

Meus antigos colegas me notaram e acenaram de forma casual. Acenei de volta e me juntei ao grupo.

A Yuri também está aqui, hein?

Yuri, que normalmente estava ocupada com os negócios da família, tinha conseguido vir. Quando nossos olhares se cruzaram, ela acenou levemente para mim.

— Beleza! Já que todo mundo chegou, vamos nessa!

— Que horas é a reserva do yakiniku?

— Às sete.

— Ei, cadê o Take-chan?

— Ele está trabalhando, então só vem à noite. Disse que ninguém podia cobrir o turno dele e que estava quase chorando por causa disso.

O evento principal da reunião era o jantar de yakiniku às sete. Antes disso, alguém sugeriu sair para passar o tempo com quem pudesse chegar mais cedo, e eu acabei participando também — porque Hinako tinha me dito para ir.

— Então, primeiro, karaokê!

— Você é desafinado, então nem canta.

— Já escolhi minha música de sempre, então me deixa tentar de novo!

Ao ouvir aquela conversa boba, não consegui evitar um sorriso. Ah, é… esse clima… eu me lembro. Era diferente da atmosfera das salas da Academia Kiou. Eu também já tinha vivido nesse tipo de energia. Agora parecia algo tão distante.

A Adachi-san… não veio, né? Ela não estava entre o grupo.

As coisas estavam estranhas entre nós por causa do Takuma-san, então senti um leve alívio. Ainda não tinha certeza se tudo o que ele disse estava completamente certo, mas, considerando o elogio de Shizune-san à "perspicácia excepcional" dele e o comentário da Yuri de que "a Adachi-san ficou mais chamativa", também não podia ignorar totalmente suas palavras.

Entramos no karaokê com meus antigos colegas.

— Só tinham duas salas disponíveis.

— Com esse tanto de gente, dá tranquilo. Vamos dividir de qualquer jeito.

O grupo se dividiu em dois, e fomos para nossas salas. Ao me sentar na cadeira dura, comecei a pensar. Por que a Hinako acha que está me prendendo…? Para começar, essa preocupação em si já estava errada. Eu estava satisfeito com a minha situação atual.

Não me sentia nem um pouco limitado pela Hinako. Eu escolhi ser o cuidador dela por vontade própria. Nunca pensei que estava sacrificando minha vida anterior.

Então, como eu poderia transmitir isso para ela? Lembrei do que Takuma-san havia dito. Talvez Hinako só se tranquilizasse se eu tivesse uma visão clara do meu futuro.

Mas, de repente, ter que decidir o que quero fazer… não bastaria dizer que quero continuar sendo o cuidador dela?

Continuar apoiando a Hinako — isso já não deveria contar como um plano para o futuro? Agir por outra pessoa não deveria ser algo tão estranho. Mas… mesmo sem ter uma base concreta, eu sentia que isso não era suficiente. De alguma forma, eu sabia que esse raciocínio não convenceria Hinako.

— Ei, Itsuki, canta alguma coisa também!

— Ah, é… claro.

Afastei, por um momento, os pensamentos que giravam na minha cabeça. Na verdade, aquela era apenas a segunda vez que eu ia a um karaokê, e mal lembrava como escolher uma música. A última vez tinha sido no ensino fundamental, quando um colega insistente me arrastou.

Escolhi uma música que conseguia cantar mais ou menos e a coloquei na fila. O título apareceu na tela.

— Nossa, isso é antigo!

— Não é aquela música que bombava quando a gente estava no fundamental!?

Como o ensino médio foi praticamente tomado por trabalhos de meio período, meu repertório musical ficou preso naquela época.

— Beleza, eu vou escolher essa!

— Ah, eu também conheço essa! Vamos cantar em dueto!?

Enquanto as garotas se animavam, o microfone chegou até mim. Cantar na frente dos outros pela primeira vez em anos… aparentemente, meu desempenho não foi nem bom nem ruim — apenas mediano, já que não houve nenhuma reação especial.

Depois de passar o microfone adiante, me levantei.

— Vou ao banheiro.

— Beleza!

Saí da sala e fui em direção ao banheiro. Mas, na verdade, nem precisava ir. Encontrando um corredor vazio, soltei um suspiro.

Cara… eu realmente não estou entrando no clima.

Se ficasse lá mais tempo, sentia que acabaria estragando o ambiente só por estar ali. Eu estava preocupado com outras coisas, não conhecia músicas recentes e, embora não estivesse entediado, simplesmente não conseguia me animar como os outros.

— Hã, Itsuki?

Yuri apareceu do outro lado do corredor.

— Yuri? O que você está fazendo aqui?

— Indo pegar bebida. Perdi no pedra-papel-tesoura.

Conhecendo a Yuri, ela provavelmente se ofereceria para isso mesmo sem perder. Devia estar apenas acompanhando o ritmo do grupo.

— Itsuki, você está com alguma coisa na cabeça?

Perguntou Yuri. Pelo visto, eu não estava escondendo tão bem quanto pensava. Para mim, Yuri era praticamente a pessoa perfeita para desabafar. Decidindo aproveitar a oportunidade, falei com sinceridade.

— Na verdade, a Hinako não está se sentindo bem agora.

— O quê? Então por que você veio? Você não está trabalhando como cuidador dela ou algo assim?

— Foi a Hinako que me mandou vir.

Yuri inclinou a cabeça.

— Ela disse algo como… eu deveria tirar um tempo pra mim de vez em quando.

— Hmm. Então você estava sendo meio grudado, e ela precisava de espaço?

— Ugh…

— Ei, calma! Também não precisa ficar tão deprimido assim!

Ao me ver encostado na parede, com as mãos e a testa apoiadas nela, Yuri entrou em pânico. As palavras diretas dela me atingiram em cheio naquele estado.

— Não é que estivéssemos sendo grudados… mas, do ponto de vista da Hinako, talvez parecesse que eu estava negligenciando a mim mesmo.

Para quem olhasse de fora, talvez realmente parecêssemos inseparáveis, mas claramente não era uma questão de distância física, então deixei isso de lado. O problema de verdade era que Hinako achava que estava me prendendo.

— Do meu ponto de vista, eu tenho vivido minha própria vida o tempo todo. Trabalhar para a Hinako parece natural, considerando meu papel, e eu realmente acho isso gratificante. Então não entendo por que ela ficaria ansiosa com isso…

Yuri sabia que eu trabalhava como cuidador da Hinako — basicamente, seu servo. Achei que ela concordaria comigo, mas…

— Se você deixasse de ver a Hinako como uma grande Ojou-sama e passasse a vê-la como uma garota da sua idade, isso não mudaria as coisas?

— Hã…?

— A Hinako também tem esse lado, não tem? Ela não sabe tudo e… provavelmente também fica confusa com os próprios sentimentos às vezes, certo? — Era quase como se Yuri tivesse visto aquele lado da Hinako com os próprios olhos. Ela falava com uma convicção evidente no rosto. — Se você olhar por esse ângulo, a sua forma de pensar pode parecer um pouco pesada.

— Pesada…?

— Tipo, dizer "estou fazendo isso por você!"… não soa meio dramático? É como se você dissesse que é por ela, mas isso pode acabar colocando pressão nela.

As palavras de Yuri me atingiram como um raio. Processando aquilo aos poucos, abri a boca.

— Entendi. Eu estava colocando pressão nela.

Yuri estava certa. Eu realmente queria ajudar Hinako. Mas, talvez, pouco a pouco, ela tenha começado a se sentir culpada por eu pensar assim.

Ah… é isso. O que Takuma-san disse, o que Hinako disse e agora o que Yuri disse — tudo se conectava, como pontos formando uma linha. Hinako tinha lados além de ser uma Ojou-sama. Isso era algo que eu já sabia, mesmo sem Yuri apontar. Mas eu tinha assumido que os únicos lados dela eram os que eu já conhecia: a garota preguiçosa, completamente dependente, que adorava batata frita e às vezes se agarrava a mim de um jeito inesperado. Achei que aquele era o "outro lado" dela.

Mas eu estava errado. Ou melhor… não era só erro — aquilo tinha mudado. Shizune-san já havia dito várias vezes: Hinako estava mudando. Um lado novo dela, que eu não conhecia, tinha surgido. Nos últimos dias, Hinako tinha andado pelas ruas da cidade onde eu vivia e conversado com pessoas que eu conhecia. Isso certamente provocou mais uma mudança nela.

A Hinako de antes provavelmente não se importaria. Mas para a Hinako que havia mudado… eu me tornei um peso. E isso a deixava ansiosa. Como eu sempre agia "por ela", ela acabou interpretando que estava me prendendo.

— Entendeu agora?

— Sim….

— Bom, você sempre foi ruim em reservar tempo para si mesmo, né? — Yuri olhou para mim com uma expressão meio solidária. — Você tem esse jeito em que fica difícil saber se está fazendo algo porque quer ou porque sente obrigação. Isso pode ter deixado a Hinako insegura também.

Com isso, Yuri seguiu em direção ao bar de bebidas. Provavelmente, Yuri era quem mais me observava de perto. As palavras dela ecoaram profundamente dentro de mim. Fazer porque eu quero… ou porque me sinto obrigado… Claro que eu achava que fazia porque queria. Mas, se me pedissem uma prova disso, eu não teria nenhuma.

Olhando para trás, sempre fui assim. Pela Hinako, pela Tennouji-san, pela Narika, pela Yuri — eu encontrava satisfação em agir pelos outros. Em troca, quase não olhava para mim mesmo.

O que eu queria fazer? Onde eu queria estar?

— Eu preciso pensar sobre isso….

Agora que entendia melhor o que estava incomodando Hinako, abandonei a ideia superficial de que "basta continuar me esforçando por ela".

Parecia que eu realmente precisava encarar isso de forma séria. Minha visão de futuro — não só os três anos até me formar no ensino médio, mas também a vida adulta, o que eu queria ser depois de crescer. Quando voltei para a sala, o cara que organizava o encontro estava cantando uma música que eu não conhecia.

O clima não caiu, e cerca de uma hora depois, saímos do karaokê.

— Hora de ir pro yakiniku!

— Aí sim!!

Todo mundo estava animado. Fomos levados até uma mesa reservada e nos sentamos um a um.

— Cara, nunca pensei que estaria comendo yakiniku com o Itsuki.

— O Itsuki do ano passado teria faltado com certeza.

O cara à minha frente e o que estava ao meu lado disseram, rindo.

— Foi mal….

— Que isso! Hoje você só precisa comer à vontade!

Pedaços de carne foram sendo colocados na grelha limpa, um após o outro. Sentindo o calor subir do carvão, pensei novamente em Hinako.

O que ela estaria fazendo agora? Estaria descansando direito?

Sobre o que eu deveria conversar numa situação dessas?

Sem conseguir pensar em nenhum assunto em comum, não consegui abrir a boca. Então, apenas passei a ouvir as conversas ao meu redor.

— Você viu aquele filme que saiu recentemente?

— Ah, vi sim! Estavam falando dele no noticiário hoje de manhã!

As garotas à minha direita conversavam sobre filmes.

— Ontem eu fiquei upando ranking com um amigo online a noite toda.

— Cara, você vive jogando, né?

Os caras à minha frente, à esquerda, falavam sobre jogos online. Fazia tempo que eu não assistia filmes nem jogava. Não me via entrando em nenhuma dessas conversas. Ou melhor… parecia que não havia nenhuma conversa na qual eu pudesse simplesmente me encaixar.

— Aliás, Itsuki, esse cara aqui finalmente arranjou uma namorada!

Disse o rapaz sentado à minha frente, enquanto comia carne recém-assada. O cara apontado corou, claramente envergonhado.

— Você não dizia que queria uma desde o primeiro ano?

— Pois é! Na viagem do segundo ano, tomei coragem e me declarei. Cara, ainda bem que fui em frente!

Se fosse sobre o passado, eu poderia entrar na conversa e me divertir com eles. Ter uma namorada ainda parecia algo distante para mim, mas ele devia ter se esforçado muito, se aprimorando ao máximo. Olhei para ele novamente e disse:

— Parabéns.

— Ah, é mesmo. Itsuki, você não trabalhava naquele restaurante de okonomiyaki lá na galeria?

— Sim, trabalhava. Por quê?

— Outro dia a gente foi lá comer, e o pessoal viu nosso uniforme e começou a falar de um funcionário incrível da nossa escola que trabalhava lá e se esforçava demais. A gente pensou que podia ser você!

— Provavelmente era. …Se tiver chance, passo lá para dar um oi.

Eu tinha passado pela galeria há alguns dias, então talvez devesse ter aparecido para cumprimentá-los naquela hora.

— Enfim, chega de falar da gente — conta aí sobre você, Itsuki!

O cara que aparentemente tinha arranjado uma namorada se inclinou para frente, animado.

— Itsuki, você não está mais trabalhando meio período?

— Bom, não sei se dá pra chamar de meio período, mas estou trabalhando como residente agora. Limpeza, lavar louça e… cuidar de pessoas, eu acho.

— Ah, tipo um funcionário de hotel?

— É, algo assim.

Pensando bem, o trabalho de um servo não era tão diferente do de alguém que trabalha em hotel. Embora, no meu caso, fosse um pouco mais… peculiar.

— Parece puxado como sempre. Mas, agora que você está na Academia Kiou, não está mais apertado de dinheiro, né?

— É.

Meus hábitos de economizar não tinham mudado, então eu basicamente só estava juntando dinheiro.

— Então dá pra se divertir, né? Tipo viajar pro exterior ou ir a parques temáticos!

— Dá pra ir ao cinema sempre que quiser!

— E comprar todas as roupas que quiser!

Outros rapazes e garotas ao redor começaram a entrar na conversa. Mas eu soltei uma risada sem graça e disse:

— Ah, nem tanto.

Relembrando minha vida até então, respondi:

— Eu fico ocupado com trabalho e estudos todos os dias. Desde que as férias de verão começaram, tive um pouco de tempo pra sair assim, mas normalmente não saio pra nada além de trabalho. …Acho que não vou às compras há meses.

Durante a semana já era esperado, mas até nos fins de semana eu ficava ocupado com minhas tarefas como servo e com os estudos. Meu tempo livre aumentou em relação a antes? Na verdade, não. Se duvidar, até diminuiu. O curso de verão pareceu um pouco uma viagem, mas foi mais como um treinamento intensivo. Em Karuizawa, tive aulas tão pesadas que só de lembrar já me fazia fazer careta.

— A-Ah, entendi…

— V-Você está se esforçando bastante, hein…

As pessoas que perguntaram deram sorrisos constrangidos.

…Hã? Eu não entendia por que estavam reagindo de forma tão desconfortável. Não é como se eu achasse minha vida difícil ou algo assim…

— Itsuki! A gente vai pro fliperama pra segunda rodada—você vem!?

Um rapaz um pouco mais distante chamou em voz alta. Eu ainda não tinha encontrado a resposta que daria para Hinako.Mas, por algum motivo, senti que tinha vislumbrado algo agora há pouco. Se eu passasse mais tempo com todos, talvez encontrasse.

— Tá bom, eu vou.

— Boa! Vamos jogar Taiko no Tatsujin!

Os caras ficaram animados. Diferente de mim, eles pareciam ter ideias divertidas na ponta da língua. Depois de aproveitar bem o yakiniku, saímos e nos dividimos entre quem iria ao fliperama e quem iria embora. Yuri estava entre os que iam embora.

— Yuri, você já vai?

— É, comecei a me preocupar com as coisas lá de casa.

— Entendi…

Senti uma pontinha de solidão. Então Yuri olhou para mim com uma expressão provocadora.

— O quê, quer que eu fique com você?

— Bom, um pouco.

— Hã!?

Os olhos de Yuri se arregalaram de surpresa. Um instante depois, percebi o que tinha dito.

— Ah, desculpa. Soou estranho…

— Estranho nada, isso foi bem… além disso… achei que meu coração ia sair pela boca…

Corando intensamente, Yuri levou a mão ao peito. Talvez por nos conhecermos há tanto tempo, às vezes eu acabava dizendo exatamente o que pensava quando estava com ela.

— Quer dizer… tipo… ter você por perto agora me deixa mais tranquilo, mentalmente.

— O que isso quer dizer…?

Mesmo dizendo isso, Yuri parecia já ter entendido um pouco, soltando um pequeno suspiro antes de continuar.

— Bom, acho que sou meio parecida com você.

— Parecida comigo?

— Talvez, mas… você está sentindo uma certa distância entre você e todo mundo agora, não está? Eu também sinto isso às vezes. Normalmente fico tão ocupada com o trabalho no restaurante que quase não tenho tempo pra sair com as pessoas.

Então eu não era o único que sentia aquele distanciamento.

— Yuri, você já ficou insatisfeita com o jeito que vive?

— Não. Eu quero me tornar uma grande chef no futuro. Claro, às vezes não consigo acompanhar os assuntos de todo mundo, mas eu simplesmente aceito isso e sigo em frente.

Yuri declarou com firmeza. Entendi… Yuri tinha uma visão clara do próprio futuro. Ela podia ser parecida comigo, mas já estava um passo à frente. Senti um pouco de desânimo. …Percebendo isso, Yuri voltou a falar.

— Você me disse antes, não disse? Que, depois que seus pais te abandonaram, se não tivesse conhecido a Konohana-san, você com certeza teria contado comigo.

— É…

— Aquilo me deixou bem feliz, sabia?

Yuri disse, com um sorriso tímido.

— Então, quando realmente precisar, eu vou estar lá pra te ajudar, exatamente como você esperava. …Você não está sozinho. Não importa como escolha viver, você não vai acabar isolado. Pode confiar nisso.

Dizendo isso, Yuri virou as costas. Antes que sua pequena silhueta desaparecesse, eu a chamei sem pensar.

— Yuri!

— O quê?

— Sinto que não teria chegado até aqui sem você.

— Dá pra não soltar essas emoções do nada…? — Yuri pareceu sem jeito. — Mas, bem, isso é natural. Afinal… eu sou sua Onee-san!

Com isso, Yuri foi embora de vez. Eram exatamente aquelas palavras que eu queria ouvir. Queria ouvir o que sempre ouvia, para confirmar que o caminho que eu estava seguindo não estava errado. Ela deve ter percebido isso.

Que Onee-san confiável.

Independentemente da conclusão a que eu chegasse daqui pra frente, eu queria manter meu vínculo com a Yuri. …Foi isso que decidi.

*

 

A maioria das pessoas que foi para a segunda rodada eram rapazes. Eu os segui até o fliperama. Diferente do da minha cidade, aquele era um prédio enorme, com cinco andares.

— Itsuki, você é muito ruim nisso!

— Dá um desconto, faz tempo que não jogo.

Jogamos de tudo, desde jogos de ritmo até corridas. Quando fui ao fliperama com Hinako e Tennouji-san, eu tinha dominado tudo, mas com meus antigos colegas a situação se inverteu. Fui esmagado em quase todos os jogos que jogamos. A única vez em que consegui me manter foi nos jogos que dependiam mais de sorte.

Diferente de mim, a maioria deles parecia acostumada com aquele tipo de jogo. Essa percepção trouxe uma sensação de distanciamento, mas…

…Está tudo bem. Eu não estou sozinho.

Lembrei das palavras da Yuri. Até pouco tempo atrás, aquele sentimento de afastamento abalava minha confiança no caminho que eu havia escolhido. Mas agora, eu me sentia tranquilo o suficiente para encarar de frente as palavras de Hinako.

Viver de forma diferente dos outros provavelmente não é algo ruim. O problema é que isso exige determinação. E Hinako e Takuma-san perceberam isso claramente — eu ainda não tenho essa determinação.

— Cara, estou suando!

— Eu também.

— Vamos dar uma pausa.

Sentei em um banco perto das máquinas de venda automática com um dos meus antigos colegas. Talvez tenhamos nos empolgado demais no air hockey. Já fazia tempo que eu não me divertia assim.

— Aqui, Itsuki. Eu pago.

— Ah… valeu!

Peguei a bebida esportiva e bebi de uma vez. Ele me observava como se estivesse me analisando.

— Você mudou.

— Ouço isso bastante. Postura melhor e tal.

— Não, não é aparência. Pra falar a verdade, você está mais fácil de conversar agora.

Inclinei a cabeça, e ele continuou:

— Antes, você fazia um baita alarde quando alguém te pagava alguma coisa. Não era ruim, mas às vezes era meio exagerado.

— Ugh… foi mal por isso.

Diferente de quando estou com a Yuri, com quem já tenho intimidade, eu ficava formal demais quando outras pessoas me ofereciam algo. Acho que no começo eu também era assim com a Yuri.

— Itsuki, a gente está pensando em sair de novo amanhã. Vai com a gente?

— Desculpa, já tenho planos. Quer dizer, preciso estudar.

— Estudar?

— As aulas vão começar logo, então quero me preparar e revisar. …As aulas da Academia Kiou são difíceis. Se eu não me esforçar nesse nível, não consigo acompanhar.

Me preparei para mais uma reação desconfortável. Mas, dessa vez, foi diferente.

— Parece divertido.

Meu colega me olhou com um sorriso aliviado. A resposta inesperada me fez inclinar a cabeça.

— Divertido?

— É. Você não se esforçaria tanto se não fosse, né?

— É, acho que sim. É divertido.

Era um ponto de vista completamente razoável. É mesmo. Eu gosto dos meus dias na academia. …Disso não havia dúvida.

— Mas foi difícil no começo. As palavras dos professores pareciam magia, e o ritmo das aulas era muito rápido. Todo dia eu estudava como se minha vida dependesse disso.

Quando percebi, já estava relembrando meus dias na Academia Kiou em voz alta.

— Mas, mais do que a dificuldade, o que me surpreendeu foi ver que todo mundo ao meu redor se esforçava assim como se fosse algo normal. Eu achava que estava sofrendo porque não era inteligente o bastante, mas não era isso. Na Academia Kiou, todo mundo — independente do talento natural — se esforça muito todos os dias.

Claro, talento natural existe. Mas, observando Hinako e os outros, percebi que isso era um detalhe menor. A verdadeira diferença entre mim e eles estava na mentalidade. Os alunos da Academia Kiou carregavam uma determinação intensa voltada para o futuro.

— Então eu quero ser como eles—

Parei no meio da frase.

…Ah. Uma palavra quase escapou da minha boca. Repeti aquilo várias vezes na minha mente. É isso. Não preciso pensar demais. Essa é a minha resposta.

— Itsuki?

— Não é nada.

Balancei a cabeça, dizendo para ele não se preocupar.

— Foi mal. Estou mais fácil de conversar agora, mas ainda sou meio enrolado pra sair.

— Sem dúvida. Bom, só não vai se arrepender depois.

Ele provavelmente percebeu como eu estava lidando com aquele sentimento de distanciamento durante a reunião. Estou cercado de pessoas boas… percebi isso mais uma vez.

— Beleza, agora eu quero revanche!

— Aí sim, Itsuki. Pode vir!

A pausa acabou, e voltamos aos jogos. Eu já tinha encontrado minha resposta. Poderia ter ido embora, mas decidi aproveitar o máximo possível aquele momento. A próxima vez que eu sair com eles provavelmente vai demorar. São boas pessoas. Eu valorizo esses laços. Mas provavelmente não nos veremos com tanta frequência.

Eu já encontrei o lugar ao qual pertenço.

*

 

— Hinako!

Assim que cheguei em casa e fechei a porta, chamei pelo nome dela. Logo em seguida percebi — ela estava com febre.

— D-Desculpa, falei alto demais.

— Ngh… eu estava acordada, então tudo bem.

Hinako, enterrada na roupa de cama, se mexeu e se virou para mim.

— Ah, onde está a Shizune-san?

— Foi fazer compras… Como eu fiquei com febre, ela foi comprar algumas coisas pra mim.

Agora que ela mencionou, não vi os sapatos da Shizune-san na entrada. Ela provavelmente cuidou da Hinako até pouco antes, e quando a situação estabilizou, saiu para comprar coisas. Havia uma toalha ao lado do travesseiro, provavelmente usada para baixar a febre.

Parecia que Hinako estava descansando direito — sua expressão estava bem melhor do que quando eu saí. Pelo visto, ela já teve essas febres antes, então Shizune-san e os outros sabem como cuidar dela, e a própria Hinako também sabe como se recuperar.

— Você encontrou sua resposta?

— Sim…

Hinako provavelmente percebeu o motivo da minha pressa. Para não sobrecarregá-la, falei de forma calma e tranquila.

— Hoje eu fui a uma reunião e encontrei meus antigos colegas depois de muito tempo.

Contei tudo o que vi e ouvi naquele dia. Relembrei cada detalhe com cuidado e compartilhei com ela.

— Ouvi várias histórias. Ir ao cinema, sair pra comer… é óbvio, mas todo mundo tem passado bastante tempo junto em lugares que eu nem conheço. No karaokê, todo mundo, menos eu, sabia cantar as músicas mais recentes. No fliperama, eles eram muito melhores que eu. …Provavelmente vão com frequência.

A expressão de Hinako se entristeceu. Ela provavelmente achou que tinha tirado de mim esse tipo de vida cotidiana. Para ser sincero, ao vê-los, eu pensei que aquela também poderia ter sido a minha vida. E, sem dúvida, é uma forma feliz de viver.

— Mas… eu não senti inveja.

Os olhos de Hinako se arregalaram.

— Porque eu estou feliz com a vida que tenho agora.

— Feliz…?

— Sim.

Assenti com firmeza à pergunta dela.

— Eu me sinto realizado com a forma como estou vivendo agora. Assim como todo mundo está fazendo o que quer, eu também estou fazendo o que quero.

Perceber esse sentimento foi algo enorme. Se eu estivesse ao lado da Hinako apenas por obrigação, provavelmente sentiria inveja de todos os outros. Mas meu coração não se moveu nem um pouco nesse sentido.

— Não é obrigação.

O fato de eu estar ali, conversando com a Hinako naquele momento, definitivamente não era por obrigação. Ser o cuidador dela, estudar na Academia Kiou, me dedicar aos estudos todos os dias, dar o meu melhor — nada disso era por dever. Era algo que eu gostava de fazer.

— Sabe, te conhecer, Hinako, me mudou.

Por que meu cotidiano tinha se tornado tão agradável? Comecei a explicar o motivo.

— Ir para a Academia Kiou, conhecer pessoas da alta sociedade como você, Hinako, e me impressionar de verdade com o modo como vivem. Pessoas que carregam grandes responsabilidades e se esforçam para corresponder a elas. Eu passei a admirar todos vocês, vivendo de forma tão grandiosa.

Várias pessoas vieram à minha mente. Asahi-san e Taishou também eram assim. Desde o começo eram fáceis de conversar, mas, como esperado de alunos da Academia Kiou, pensavam seriamente sobre o próprio futuro. Eu estava cercado de pessoas incríveis.

— E, antes que eu percebesse, comecei a querer ser como vocês também.

Era algo completamente natural. Afinal, quando você está cercado de pessoas que se esforçam tanto, com tanta seriedade… É inevitável se sentir inspirado.

— No começo, eu me esforçava por você, Hinako. Mas agora não é só isso. …Agora, por vontade própria, eu quero crescer e ficar lado a lado com todos vocês.

O meu esforço era algo ativo. Não era algo imposto por outras pessoas ou pelo ambiente. Por isso era prazeroso. Porque eu estava fazendo o que eu queria fazer.

— O que eu quero fazer no futuro… ainda não encontrei exatamente. Mas tem uma coisa que eu já decidi.

Talvez não fosse algo de agora, mas algo que eu já vinha decidindo inconscientemente há muito tempo. Um único objetivo que eu carregava sem perceber—

— Eu quero me tornar alguém capaz de carregar grandes responsabilidades. Como você, Hinako, como o Tennouji-san, como a Narika…

Ou até como o Kagen-san. Eu também sentia algo parecido em relação à Yuri. Ela queria se tornar chef, assumir o restaurante da família e até tinha ambição de transformá-lo em uma rede. Eu a respeitava.

Isso não era apenas admiração. Era um objetivo. Eu queria viver como eles.

— Para isso, eu não preciso viver como os amigos com quem saí hoje. …Eu quero continuar vivendo no mundo onde vocês estão, Hinako.

Eu não estava preso à Hinako. Eu estava vivendo naquele mundo por vontade própria. Transmiti tudo isso a ela, colocando meus sentimentos em cada palavra.

— Que bom….

Hinako, que tinha me ouvido até o fim, disse com lágrimas se formando nos olhos.

— Que bom… que você não vai embora, Itsuki…

Com uma expressão de puro alívio, Hinako sorriu. Eu acariciei suavemente a cabeça dela enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas.

*

 

Enquanto recebia afagos na cabeça, Hinako relembrou os últimos dias. Ela estaria causando dor a Itsuki…? Aquela ansiedade foi crescendo conforme a presença dele em seu coração se tornava maior.

Confirmar isso era assustador, mas reprimir a inquietação que inchava em seu peito estava se tornando difícil demais, então Hinako reuniu coragem e decidiu perguntar.

O que Itsuki realmente queria fazer—?

De verdade… ainda bem.

Enquanto Itsuki lhe fazia carinho na cabeça, Hinako sentiu um alívio vindo do fundo do coração. Não era a primeira vez que ele fazia isso. Ele já a carregara nas costas, haviam comido juntos, até tomado banho juntos… tantos momentos.

Todos aqueles eram gestos que Itsuki fizera porque quis. Ela não estava fazendo Itsuki infeliz.

Eu… eu posso amar o Itsuki…

Poder sustentar essa certeza era o que mais a fazia feliz.

Então não vou mais me conter… a partir de agora, serei mais corajosa…

Ela ainda não sabia exatamente o que fazer, mas poderia descobrir aos poucos. Cada carinho em sua cabeça era tão reconfortante. Provavelmente Itsuki fazia aquilo sem qualquer intenção romântica, e isso a deixava um pouco confusa, mas… talvez devesse começar tentando mudar essa forma de pensar dele.

Ela também precisava responder adequadamente à declaração de Yuri, que se colocara como sua rival no amor. Já não havia mais motivo para recuar desse desafio. A batalha apenas começara. Outro afago em sua cabeça. O espírito combativo que havia surgido derreteu-se suavemente.

Só por hoje… não havia problema em relaxar, certo?

Hinako adormeceu tranquilamente, algo que não acontecia havia algum tempo.

*

 

Depois que Hinako adormeceu, Shizune-san voltou para casa. Hinako estava completamente apagada, mas ainda era cedo demais para dormirmos. Para não acordá-la, fiquei estudando em silêncio, enquanto Shizune-san começou a trabalhar.

Então, alguém bateu à porta.

Uma batida…? Mesmo tendo interfone?

Olhei pelo olho mágico.

— Takuma-san?

Uma figura familiar estava ali. Calcei os sapatos e fui para fora. De alguma forma, tive a sensação… de que ele viera falar comigo, não com Hinako ou Shizune-san.

— Ei, Itsuki-kun. Desculpe incomodar tão tarde.

Fiz uma leve reverência, sem saber qual era sua intenção. Takuma-san olhou para o meu rosto e sorriu.

— Pela sua expressão, parece que você se tornou, de fato, o lugar ao qual a Hinako pertence, não é?

— O senhor realmente enxerga tudo, não é?

— Hahaha, é por isso que muita gente me acha assustador.

Aparentemente, apenas ao olhar meu rosto, ele já havia entendido a situação geral. Sinceramente, não era de se estranhar que isso deixasse as pessoas desconfortáveis.

— Vamos conversar um pouco? — dizendo isso, Takuma-san começou a andar. Caminhando ao lado dele, fiz uma pergunta.

— Antes, o senhor não usou o interfone por causa da Hinako, certo?

— Bem, sim. Seria uma pena acordá-la quando está dormindo tão tranquilamente.

— O senhor se preocupa com ela, não é?

— Sou o irmão dela, afinal. Não é natural?

Ouvir Takuma-san dizer aquilo me trouxe certo alívio. Pelo que Hinako e Shizune-san haviam contado, ele passava uma impressão assustadora em vários sentidos, mas talvez fosse mais sensato e gentil do que eu imaginava. Foi o que pensei.

— Então, o que você disse para acalmar a Hinako?

— Isso…

Provavelmente esse era o ponto principal desde o início. Expliquei a Takuma-san o que havia dito a Hinako mais cedo.

— Hum… você quer se tornar alguém capaz de carregar grandes responsabilidades, é?

Takuma-san assentiu levemente à minha resposta.

— Sei que ainda é uma visão vaga. Mas, para mim, só isso já foi suficiente para decidir em qual mundo quero viver.

— Não, está tudo bem. Na verdade, se você tivesse definido uma carreira concreta só porque eu o provoquei, soaria artificial. O futuro não é algo que se decide levianamente, certo?

Disse o homem que havia me instigado em primeiro lugar… Contive, com razão, a irritação que surgia no meu peito.

— Mas, no seu caso, não parece ser só isso — disse Takuma-san em tom provocador. — Você encontrou um objetivo um pouco mais específico, não foi?

A percepção dele continuava afiada como sempre. Não havia como enganá-lo.

— É apenas algo que estou considerando como uma possível direção — confessei uma determinação que ainda não havia contado nem mesmo à Hinako. — Se possível, gostaria de me tornar um executivo do Grupo Konohana.

Aquele era um desejo que encontrei enquanto buscava respostas. Que tipo de pessoa eu queria me tornar? A primeira coisa que me veio à mente foram Hinako e os outros, vivendo com dignidade na Academia Kiou. 

E então, o que eu queria fazer no futuro? O que surgiu foram… adultos como Kagen-san. Pessoas como Tennouji-san ou os pais da Narika, que carregavam grandes responsabilidades e faziam as coisas acontecerem. Ao pensar até esse ponto, visualizei a posição que deveria almejar.

— Pff, hahahahaha! Isso é bem ambicioso, não é!

Takuma-san caiu na gargalhada. Sua risada ecoou pelas ruas silenciosas da noite.

— Não ria. Foi por isso que eu guardei isso para mim.

— Você está sendo alvo de risos porque ainda não tem capacidade para isso.

Ele estava absolutamente certo. Alguém como eu dizer algo assim agora seria, obviamente, vergonhoso. Um dia eu precisava me tornar alguém capaz de dizer isso e fazer com que os outros assentissem com seriedade.

— Por enquanto, vou reconhecer a coragem de ter dito isso na minha frente. Como recompensa, que tal eu te contar um pouco mais sobre toda essa situação?

— Situação?

— Sobre o escândalo do Grupo Konohana. …Se você pretende se tornar um executivo, vale a pena ouvir.

Takuma-san olhou para mim com uma expressão séria.

— O motivo de eu ter sido chamado àquela mansão foi porque minha posição em relação a esse escândalo era diferente da do meu pai.

Takuma-san começou a explicar.

— Fui eu quem vazou para a mídia os casos de assédio moral na empresa do grupo.

Isso… eu não sabia. Então foi Takuma-san quem deu início a tudo?

— A Konoha Drinks Co., Ltd. é uma empresa que adquirimos há seis meses. Mas acontece que essa empresa tinha um problema antigo com uma cultura de assédio entre funcionários. Eles conseguiram encobrir isso durante a aquisição, mas, só de olhar para o rosto dos empregados, eu percebi que o problema ainda existia.

Percepção inata. Um tipo raro de inteligência emocional, até mesmo em escala global. Para alguém como Takuma-san, ler a cultura de uma empresa a partir da expressão dos funcionários devia ser algo trivial.

— Então decidi vazar a questão para a imprensa e torná-la pública. Assim, não só resolveríamos os problemas da Konoha Drinks, como também serviria de aviso para outros funcionários propensos ao assédio dentro do grupo. …Mas meu pai impediu isso no último momento, dizendo que prejudicaria a marca do Grupo Konohana.

O raciocínio de Takuma-san até fazia sentido. Mas, para mim, o julgamento de Kagen-san parecia ainda mais correto. A abordagem de Takuma-san era extrema demais. Kagen-san provavelmente havia concluído que as perdas seriam grandes demais.

— Nos últimos dias, enquanto vocês estavam fora da mansão, eu estive debatendo com meu pai, mas, no fim, perdi para a maioria. Ainda assim, achei que era o melhor caminho.

— O melhor…?

Abri a boca sem pensar, e Takuma-san me encarou diretamente. Atravessado por seu olhar, hesitei por um instante, pensando se alguém como eu tinha o direito de opinar. Mas, já que ele havia explicado tudo até ali, ao menos eu deveria poder dizer o que pensava.

— Se a marca do Grupo Konohana for prejudicada, isso não colocaria em risco a posição dos funcionários também?

Se isso acontecesse, não anularia o propósito de tudo?

— Isso é o que se chama de sacrifício necessário.

Takuma-san disse aquilo com naturalidade. Como se não houvesse problema algum nisso.

— Sabe, eu acho que não haveria problema se o Grupo Konohana desmoronasse uma vez.

Por um tempo, não consegui compreender o significado daquela afirmação. O Grupo Konohana… desmoronar? O que esse cara estava dizendo?

— Nosso grupo tem uma história tão longa que a decadência está espalhada por toda parte. Esse é o estado atual. Por isso, acho que precisamos de uma abordagem de destruir para reconstruir. …Sem a determinação de manchar temporariamente a marca, não é possível realizar uma reforma fundamental. É aí que entro em conflito com meu pai.

Eu entendia o que ele dizia. Mas, ainda assim, sua forma de pensar parecia radical demais. Será que era porque eu era um plebeu… por não entender de fato o que significa administrar uma empresa, que não conseguia visualizar isso direito? Talvez percebendo meus pensamentos, Takuma-san continuou.

— Você acha estranho, não é? Por que a Hinako tem que sofrer tanto?

Isso era algo com o qual eu conseguia me identificar. Desde o começo, eu sempre pensei nisso. Por que Hinako precisava passar por tudo isso—?

— A linhagem Konohana sempre foi cheia de peculiaridades. A Hinako é preguiçosa, e eu sou egocêntrico. Para um clã tão excêntrico como o nosso controlar um grupo desse porte, precisamos podar os excessos periodicamente. Mas meu pai não quer fazer isso. É por isso que o fardo da Hinako é tão pesado. Meu pai é ruim em cortar coisas fora.

— Mas, mesmo com esse escândalo, o Kagen-san não está administrando o grupo adequadamente?

— Meu pai também está se forçando. Desde que a mamãe morreu.

Disse Takuma-san, abaixando levemente o olhar. Será que Takuma-san estava apenas preocupado com a família? Mas, ainda assim, havia uma estranha sensação de desconforto que permanecia.

— É isso que a Hinako quer?

Eu sabia que Hinako não gostava de Takuma-san, mas será que ela pensava o mesmo sobre as ideias dele? Curioso, perguntei. Takuma-san respondeu após pensar um pouco.

— Quem sabe? Para ser sincero, você é a primeira pessoa a quem explico minha visão com tanto detalhe, Itsuki-kun.

— O quê… sério?

— Sim. Então não sei se a Hinako concordaria comigo — Takuma-san disse isso com naturalidade.

— Espere um segundo — eu não conseguia compreender aquela indiferença. — Você não conversou com a Hinako… e mesmo assim está planejando reformas que podem afetar a vida dela?

Com receio da resposta, perguntei com cautela. Mas Takuma-san respondeu como se fosse algo óbvio.

— Sim. Porque isso com certeza vai tornar as coisas mais fáceis para a Hinako.

Ao ouvir aquela resposta, finalmente entendi. …Entendo. Agora fazia sentido. A verdadeira natureza da inquietação que eu vinha sentindo em relação a esse sujeito o tempo todo. Quando percebi que ele não havia tocado o interfone por consideração à Hinako, cheguei a pensar que, à maneira dele, talvez realmente se importasse com a família.

Mas essa não era a realidade. Assim como Hinako havia dito na mansão, esse cara só pensava em si mesmo.

Ele só pensava em si mesmo, ainda que acreditasse estar se preocupando com a família. Takuma-san não se importava de verdade com a própria família. Provavelmente era o mesmo com o Grupo Konohana. O que importava para Takuma-san era o próprio julgamento ao "cuidar" do grupo, e os sentimentos das pessoas que viviam dentro dele vinham em segundo plano. …Até mesmo os funcionários que sofriam assédio talvez não desejassem uma solução tão exposta. Mas Takuma-san não se interessava pelos sentimentos deles.

Era por isso que ele falava com tanta naturalidade em destruir e reconstruir. Eu conseguia imaginar, até certo ponto, por que ele pensava assim. Esse cara tinha uma confiança absoluta de que seu julgamento estava correto. Sua percepção aguçada, capaz de ler o coração das pessoas — sua habilidade de enxergar o que os outros não viam — havia moldado sua forma de ser.

E provavelmente isso era verdade. Porque eu sentia que a abordagem de Takuma-san poderia, de fato, alcançar as reformas que ele pretendia. Mas, com esse método, eu—

Hinako—

— Você está fazendo a mesma expressão que meu pai — disse Takuma-san, olhando para mim. Não havia expectativa nem decepção em seus olhos. Sua expressão era completamente neutra. — Bem, tanto faz. Se você encontrar um caminho diferente do meu, tudo bem também.

— O que quer dizer com isso?

— Eu só estou tentando tomar a decisão mais correta neste momento. Mas, se você se esforçar e mudar a situação no futuro, outras possibilidades podem surgir.

Takuma-san estava dizendo, de forma implícita, que, no momento, a escolha dele era mais correta do que a de Kagen-san. Takuma-san era objetivo. Sua postura podia parecer arrogante à primeira vista, mas suas palavras eram justas. Sua confiança não vinha de presunção, mas de cálculos meticulosos.

A única coisa que não entrava nesses cálculos eram os nossos sentimentos.

— Se você não gosta da minha escolha… então terá que criar outras alternativas por conta própria.

Takuma-san declarou com um sorriso destemido.

Um arrepio percorreu meu corpo, como se uma brisa desagradável tivesse soprado à minha frente.

Minha pele se arrepiou. Fui lembrado de quão pequeno e insignificante eu era. Aquela sensação só podia ser descrita como presença. Eu estava sendo dominado pela presença esmagadora de Takuma-san.

— No entanto, se você realmente pretende alcançar uma posição na diretoria do nosso grupo, deveria acumular mais realizações enquanto ainda é estudante. Do jeito que está agora, você nem chegaria à linha de partida.

Takuma-san levou um dedo ao queixo, mergulhando em pensamentos. A pressão pesada de antes já havia desaparecido. Uma gota de suor frio escorreu pelo meu rosto e caiu no chão.

— O ideal seria entrar para o conselho estudantil. Mas isso dá muito peso à origem familiar, então, no seu caso, Itsuki-kun, existe o risco de sua condição ser exposta antes mesmo de suas habilidades entrarem em jogo… E você também precisaria vencer o Management Game.

— Management Game…?

— É uma disciplina um tanto peculiar. Quanto ao que exatamente envolve… vou deixar isso sem explicação por enquanto.

Quando inclinei a cabeça diante do termo desconhecido, Takuma-san esboçou um leve sorriso.

— Você não saberia mesmo. Na Academia Kiou, o verdadeiro desafio começa no segundo semestre do segundo ano.

Alguns dias depois, eu viria a compreender o peso das palavras de Takuma-san. O ponto intermediário da vida no ensino médio: o segundo semestre do segundo ano. A Academia Kiou estava prestes a sediar um evento de grande escala.

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