Rich Girl Caretaker Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Volume 5

Capítulo 3: Aprendendo o ABC do Amor com Pessoas Comuns

NA MANHÃ SEGUINTE. Como de costume, eu estava estudando em silêncio. Era o meu terceiro dia naquela casa. Finalmente estávamos começando a nos adaptar. Já tínhamos ido à rua comercial e à escola, e eu não conseguia pensar em outros lugares para mostrar. Além disso, depois de dias saindo, Hinako parecia querer descansar em casa hoje.

Acho que vou revisar o material do curso de verão também.

Eu já tinha terminado de revisar as boas maneiras à mesa com a Shizune-san e o conteúdo das aulas da academia. Aproveitando o embalo, decidi rever o que havia aprendido no curso de verão. As matérias eram todas especializadas, mas eu tinha certeza de que seriam úteis algum dia.

Ao olhar para o meu smartphone, notei uma nova mensagem.

— Tennouji-san?

Ao ver o nome do remetente, verifiquei o conteúdo imediatamente.

Tennouji-san: Isso é meio repentino, mas que tal uma sessão de estudos?!

Só de ler a mensagem, eu praticamente conseguia ouvir a voz da Tennouji-san ecoando na minha cabeça. A mensagem continuava.

Tennouji-san: Que tal todos nós focarmos e nos prepararmos para a reabertura da academia?

Era exatamente o que eu vinha pensando ultimamente. Não havia motivo para recusar. A primeira sessão de estudos na academia havia sido produtiva e, com o pessoal da Academia Kiou, certamente manteríamos um clima sério até o fim.

Itsuki: Eu adoraria participar!

Assim que respondi, a mensagem foi marcada como lida. Porém, Tennouji-san não respondeu imediatamente. Cerca de um minuto depois, uma nova mensagem chegou.

Tennouji-san: Posso te ligar agora?

Como ambos havíamos lido as mensagens na hora, ela provavelmente achou que seria mais rápido ligar. Quando respondi "Claro, sem problemas", meu celular vibrou quase imediatamente.

— Alô, sou eu!

Ela até acrescenta um "desu wa" no "alô"...

(N/SLAG: もしもしですわ (moshi moshi desu wa) → soa bem elegante/feminino)

— Faz tempo.

— De fato! Desde o curso de verão!

A voz animada da Tennouji-san soava do outro lado da linha. Ela continuava tão enérgica como sempre. Ouvir sua voz, de alguma forma, também aumentava minha própria energia.

— Eu sabia que você se interessaria!

— Bem, estou em uma posição em que preciso me esforçar mais do que a maioria para acompanhar.

— Como se você já não estivesse se esforçando o dobro. Sempre tão diligente.

Eu quase conseguia imaginar Tennouji-san sorrindo do outro lado da linha.

— Aham. Voltando ao assunto... Quando você está livre, Itsuki-san?

A voz dela pareceu subir levemente quando disse meu nome. Eu sabia o que ela queria dizer. Sabia, mas... escolhi ignorar por um motivo.

— Estou livre a qualquer momento.

— A qualquer momento, você diz?

— Sim.

Não, dessa vez não vou fugir disso. O jeito como ela me chamou era claramente uma forma de dizer que queria que eu deixasse a formalidade de lado e falasse de maneira mais casual.

Eu entendia. Entendia perfeitamente, mas… Agora mesmo, Hinako e Shizune-san estavam por perto...

— Desculpe, a situação está um pouco... só posso falar assim por enquanto.

— Tem alguém com você, não é?

— Acertou em cheio.

Ainda bem que ela entende rápido. Minha voz podia vazar pela ligação e, além disso, se eu fosse participar da sessão de estudos, teria que contar para Hinako e as outras. Isso incluía mencionar Tennouji-san como organizadora. Se eu não estivesse usando linguagem formal agora, elas perceberiam que eu falava com ela de forma casual.

Tennouji-san soltou um suspiro desapontado.

— Achei que, por telefone, poderíamos conversar naturalmente...

— Desculpa...

— Faz tanto tempo, achei que poderíamos...

Ela parecia mais abatida do que eu esperava. Como Tennouji-san normalmente era tão animada, vê-la assim me causou um leve sentimento de culpa.

— Bem, que tal durante a sessão de estudos?

— Durante a sessão de estudos...?

— Sim. Vamos arrumar um momento para conversar, só nós dois.

Eu não fazia ideia de como conseguiríamos ficar sozinhos, mas… Daria um jeito.

— Então é uma promessa!

— Sim.

— Tudo bem, vou deixar passar.

Felizmente, o humor da Tennouji-san pareceu melhorar.

— Então, sobre a sessão de estudos, você já decidiu quem vai participar?

— Ainda não, nada definido. Mas espero reunir um grupo parecido com o da última vez...

— Taishou e Asahi estão aproveitando as viagens deles, certo?

— Exatamente. Eles também entraram em contato comigo.

Os dois haviam participado de uma viagem da empresa na primeira metade das férias de verão e agora, na segunda metade, estavam viajando com suas famílias. Perguntaram que tipo de lembrancinha eu queria, então eu disse apenas: "Qualquer coisa simples está bom." Coisas caras me dariam um infarto, então qualquer coisa barata serve.

— Então vou falar primeiro com a Konohana-san.

— Por favor. Eu entrarei em contato com a Miyakojima-san.

— Também devemos perguntar sobre a disponibilidade delas.

— Com certeza.

Eu não tinha certeza sobre a Narika, mas Hinako provavelmente poderia ir. Ultimamente, Hinako vinha participando mais desse tipo de encontro.

— Além disso, se não for problema, acho que deveríamos convidar a Hirano-san.

— Boa ideia. A Yuri leva os estudos bem a sério, então vou avisá-la.

É reconfortante quando meus amigos se dão bem entre si. Depois do curso de verão, parecia que Tennouji-san agora via Yuri como uma amiga de verdade.

— Mais alguma coisa que precisamos decidir...

— O local, claro.

Tennouji-san foi direta ao ponto.

— Minha casa está disponível, mas como é o último evento das férias de verão, eu adoraria fazer em algum lugar diferente do habitual.

As casas das garotas da alta classe geralmente eram elegantes e luxuosas, bem parecidas com a Academia Kiou. Um ambiente único que a academia não tinha... talvez a casa da Narika? O lugar dela também era refinado e grandioso, mas aquele estilo tradicional japonês era algo difícil de encontrar em outro lugar.

Mas então algo me ocorreu. O ambiente mais único que eu poderia sugerir naquele momento era—

— Desculpe, pode esperar um segundo?

Com a autorização da Tennouji-san, deixei o celular sobre a mesa por um instante. Então me virei para a Shizune-san, que estava cuidando de alguns documentos na sala.

— Shizune-san, estou falando com a Tennouji-san agora, e—

— Tudo bem.

Shizune-san respondeu imediatamente.

— Já entendi a situação. Você quer fazer a sessão de estudos aqui, certo?

— Ah, sim. Eu estava prestes a sugerir isso, mas...

— Não há problema algum.

Shizune-san respondeu sem hesitar. Fiquei grato, mas havia uma preocupação.

— Hum, considerando a situação atual do Grupo Konohana, não seria melhor manter o paradeiro da Hinako em segredo?

Hinako havia sido autorizada a sair da mansão para evitar problemas. Mas, se o esconderijo dela se tornasse público, algumas pessoas suspeitas poderiam aparecer. Ao ouvir minha preocupação, os olhos de Shizune-san se arregalaram por um instante. Mas logo ela sorriu suavemente e respondeu:

— Não precisa se preocupar. Esse problema já foi praticamente resolvido.

— Espera, sério?

— Nós afastamos a ojou-sama para evitar que a situação piorasse, mas já encontramos uma forma de resolver tudo pacificamente, então isso não é mais um problema.

Muita gente devia estar trabalhando nos bastidores enquanto eu não fazia ideia de nada. Se era assim, poderíamos usar aquele lugar sem preocupações. Peguei meu celular de volta na mesa.

— Alô, Tennouji-san? Tenho uma sugestão para o local da sessão de estudos...

Fiquei um pouco apreensivo sobre se todos conseguiriam se concentrar em um lugar como aquele, mas, quando apresentei a ideia, Tennouji-san ficou super animada. Era uma sessão de estudos, sim, mas também era o último evento das férias de verão. Queríamos que fosse produtivo e divertido.

— Talvez Takuma-sama estivesse certo.

Observando-me falar com Tennouji-san, Shizune-san murmurou:

— Deveríamos ter contado tudo desde o início.

Dito isso, Shizune-san voltou ao seu trabalho.

*

 

No dia seguinte, por volta do meio-dia. Três garotas apareceram na casa.

— E-Esta é a casa do Itsuki...? — Narika parecia nervosa enquanto observava o exterior.

— Tecnicamente, minha antiga casa.

Agora eu estava apenas usando o lugar por cerca de dez dias, então já não era realmente meu. A maioria dos móveis era alugada por meio dos contatos da Shizune-san.

— Ohohoho! É praticamente uma casinha de cachorro, não é?! — comentou Tennouji-san, observando a casa.

— É, acho que sim.

— E-É brincadeira! Eu li recentemente um mangá shoujo chamado The Plum of Versailles, e tinha uma fala parecida, então não consegui resistir!

Eu sabia que era brincadeira, mas não sabia bem como reagir, então apenas concordei com a cabeça.

— Tennouji-san, você lê mangá shoujo?

— B-Bem, uma colega me emprestou outro dia...

Quando Yuri perguntou, Tennouji-san respondeu, um pouco envergonhada.

— Hirano-san, você já veio à casa do Itsuki antes?

— Não. De alguma forma, esta também é a minha primeira vez...

A pergunta de Narika fez Yuri olhar para a casa enquanto respondia. Eu preferia não entrar nos detalhes. Para ser sincero, minha família não era exatamente do tipo que eu poderia apresentar com orgulho aos amigos.

— Bom, entrem. ...É um pouco apertado.

Abri a porta da frente e convidei as três a entrarem. Hinako, sentada de maneira impecável à mesa, fez uma leve reverência.

— Olá, pessoal.

— Oh? Konohana-san?

Narika pareceu surpresa.

— Eu cheguei mais cedo, então fiquei esperando aqui dentro.

Essa era a versão que estávamos usando. Elas sabiam que eu estava hospedado na mansão Konohana, mas dizer que eu estava morando naquela casa pequena com a Hinako provavelmente causaria reações estranhas. Então, escondemos os sapatos, roupas de cama e roupas da Hinako e da Shizune-san bem no fundo do armário.

A propósito, Shizune-san havia saído. Ela achou que, se ficasse ali como empregada, o ambiente acabaria lembrando demais o café da academia.

— Hm, eu estava esperando algo como um quarto de quatro tatames e meio, mas não é tão pequeno assim.

— Bem, era a casa de uma família de três pessoas.

Respondi à Yuri, enquanto ela observava o lugar.

— Então foi aqui que o Tomonari-san cresceu...

— A casa onde o Itsuki foi criado...

Tennouji-san e Narika estavam inquietas enquanto analisavam o ambiente. Ser observado daquele jeito me deixou um pouco constrangido.

— Sem cama, pelo visto?

— Eu durmo em um futon no chão.

— Itsuki! O que é essa cordinha pendurada no teto?! Posso puxar?!

— É o interruptor da luz. Pode puxar.

O quarto ficou escuro por um instante antes de se iluminar novamente. A casa da Narika era uma mansão tradicional japonesa, então o clima interno era um pouco parecido. Mas, pensando bem, não me lembrava de ter visto interruptores de puxar por lá. Provavelmente tinham abajures ao lado da cama, mas a casa dela combinava aquele estilo clássico com reformas modernas.

Quando olhei para Hinako, ela observava a dupla animada com um olhar calmo. Parecia ser a única mantendo a compostura… mas, no primeiro dia dela ali, também havia ficado tão curiosa quanto.

Uma mesa só era pequena demais, então juntamos duas no centro. Cinco almofadas foram dispostas ao redor. Todos se sentaram.

— Então, hoje teremos uma sessão de estudos no estilo "pessoas comuns". Não posso garantir muito conforto, mas espero que se sintam à vontade.

Tennouji-san e Narika ainda estavam inquietas, mas não era desconforto — era mais como crianças em um parque de diversões.

— Eu trouxe isso, por via das dúvidas...

Yuri tirou alguns doces da bolsa. Sendo atenciosa, ela havia escolhido biscoitos um pouco mais sofisticados.

— Eu também trouxe algo.

— E-Eu também!

Tennouji-san e Narika também haviam trazido guloseimas — Tennouji-san trouxe scones, e Narika, castella. Ambos vinham em embalagens elegantes.

Ótimo... isso é ruim para a Hinako. Hinako não trouxe nada. Claro — ela já estava ali.

...Não tinha escolha. Levantei-me e peguei algo que havia escondido no armário da cozinha.

— Na verdade, a Konohana-san me deu isso aqui.

O que coloquei sobre a mesa foi—

— Batata chips?

A voz da Yuri carregava um leve tom de dúvida.

— Sim. Como estamos fazendo a sessão de estudos em um ambiente diferente, ela quis combinar com o clima.

— Hm, talvez eu devesse ter seguido essa ideia também.

Como o tema era uma sessão de estudos no estilo "pessoas comuns", trazer batata chips como lanche rendeu alguns acenos de aprovação. Tennouji-san soltou um "Grr!" frustrado. Na verdade, Shizune-san e eu havíamos guardado aquilo como uma medida de emergência para animar a Hinako.

— Eu normalmente não como isso, então estou ansiosa para experimentar.

Desde o momento em que as batatas apareceram, os olhos da Hinako estavam grudados nelas. Seu olhar era como o de um cão de caça.

...Será que ela vai mesmo se concentrar nos estudos?

O começo estava sendo um tanto tenso. Mas, assim que abrimos os livros, todos ficaram em silêncio e se concentraram. Como esperado dos dedicados alunos da Academia Kiou, mudaram de postura instantaneamente. Quando levantei os olhos, Yuri pareceu brevemente surpresa, mas logo mergulhou nos estudos. Eu entendia perfeitamente o motivo da surpresa com aquele nível de foco.

Ainda assim, não era um ambiente rígido ou excessivamente sério—

— Estão deliciosos.

De vez em quando, comíamos algo e conversávamos. Tennouji-san experimentava as batatas com curiosidade.

— São batatas fatiadas e fritas, certo? Um pouco salgadas demais para o meu gosto.

Eu queria acreditar que a reação da Tennouji-san era a típica de uma jovem dama refinada. ...Hinako, por favor, pare de encarar cada vez que alguém pega mais batatas.

— Narika, você provavelmente já comeu isso antes, não é?

— Já, vendem na lojinha de doces. Às vezes eu comprava três pacotes de uma vez—hã?! K-Konohana-san?! Por que você está me encarando assim?!

— Deve ser coisa da sua imaginação.

Hinako se fez de desentendida. Ela claramente estava com ciúmes.

— Este é um ambiente agradável — disse Tennouji-san, olhando ao redor. — Passar tempo com alguém em um lugar relaxante como este é uma experiência rara. Quase gostaria que a Academia Kiou tivesse um espaço assim, só com chão e uma mesa.

— Até você acha isso, Tennouji-san?

— Eu tenho sensibilidade para apreciar um ambiente aconchegante e um tanto eclético, sabia?

Eu havia imaginado que alguém como Tennouji-san não teria utilidade para um lugar assim além de satisfazer a própria curiosidade, mas aparentemente não era o caso.

— Se me permite dizer, Tomonari-san parece mais à vontade hoje do que o habitual. Deve ser porque esta casa é o lugar mais familiar para você.

— É verdade.

Deixando a casa de lado, também achei que seria bom se existisse um lugar assim na academia. Eu ficava nervoso toda vez que íamos a algum café ou restaurante refinado. Como cuidador, eu sabia que não deveria reclamar de coisas tão triviais, mas, no fundo, gostaria de um lugar um pouco mais caótico e descontraído. Se a academia tivesse um espaço assim, eu provavelmente iria querer fugir para lá com frequência.

Enquanto pensava nisso, de repente notei Hinako me encarando.

— Konohana-san, o que houve?

— Ah, bem...

Para Hinako, que normalmente mantinha uma postura impecável de jovem dama, era raro vê-la hesitar nas palavras. Mas foi só por um instante. Ninguém além de mim, que estava sempre ao lado dela como cuidador, teria percebido.

— Eu só fiquei um pouco curiosa sobre o que o Tomonari-kun está estudando.

Hinako respondeu rapidamente. Se aquilo eram seus verdadeiros sentimentos ou apenas uma desculpa improvisada, infelizmente eu não conseguia dizer.

— Estou revisando o que estudei no curso de verão.

— Tsk, mesmo tendo sido escolhido como aluno de honra, Itsuki, você é bem esforçado.

— Narika, você também deveria se esforçar um pouco mais.

— Ugh, eu cutuquei um vespeiro...?

Narika desviou o olhar. Também havia algo que me deixou curioso, então olhei para o livro que Yuri tinha nas mãos. Eu achava que ela estaria estudando algo comum, como japonês ou matemática, mas o livro tinha diagramas e gráficos que eu não reconhecia.

— Yuri, o que você está estudando?

— A parte teórica para a licença de chef. Pretendo trabalhar em um restaurante depois do ensino médio e tirar a licença sem ir para uma escola de culinária.

Eu lembrava vagamente de já tê-la ouvido mencionar isso algumas vezes. Yuri também tinha seus próprios desafios, mas parecia realizada. Seu caderno, cheio de anotações organizadas, mostrava o quanto ela estava motivada.

— Mudando de assunto, ouvi dizer que uma empresa do Grupo Konohana demitiu recentemente um funcionário por assédio no trabalho — disse Tennouji-san enquanto movia a caneta.

Eu não sabia como reagir a esse assunto e fiquei em silêncio. Eu sabia do ocorrido, mas será que era algo para comentar tão casualmente? Ao ver que Yuri e eu ficamos sem reação, Tennouji-san parou de escrever.

— Não precisa ficar tenso por causa disso. Para uma família do nosso porte, escândalos assim são inevitáveis. ...Mas isso não significa que não doa.

— Você tem razão. Eu também me sinto decepcionada.

Hinako assentiu.

— Isso saiu nas notícias ou algo assim?

— Não foi divulgado ao público, mas pessoas do meio sempre encontram maneiras de descobrir. Faço questão de me manter atualizada sobre as informações dos meus ami—rivais — Tennouji-san respondeu à pergunta da Yuri.

Ela claramente se corrigiu no meio da frase, mas decidi não comentar. As bochechas de Tennouji-san estavam levemente coradas.

— Mesmo assim, demitir alguém é algo bem raro — disse Narika.

— Como assim?

— Demitir é uma punição bem severa. Especialmente demissão por justa causa — devem existir menos de cinquenta casos por ano. Se alguém foi demitido por assédio, provavelmente era reincidente e bem problemático.

Costuma-se ouvir falar de demissões por desvio de dinheiro ou fraude nas notícias. Esses são crimes propriamente ditos, não apenas violações das regras da empresa. Já o assédio pode passar por várias etapas antes de levar à demissão.

— Aliás, a empresa da Tennouji-san tem uma das menores taxas de punições disciplinares por assédio do mundo, considerando o tamanho do grupo.

— Uau...

Aquilo parecia plausível. Na academia, Tennouji-san valorizava as relações com os outros e demonstrava consideração por eles. O Grupo Tennouji provavelmente era uma organização que priorizava as pessoas.

— Miyakojima-san, você sabe bastante coisa. Até sobre a minha família.

— B-Bem, sim!

Talvez porque seus estudos não estivessem indo bem, Narika estufou o peito com orgulho.

— O segundo semestre na Academia Kiou vai começar em breve. Considerando aquele programa que está por vir, acho que deveríamos estudar gestão empresarial desde já.

— Oh? Então talvez acabemos como rivais.

— N-N-N-N-Não, não foi isso que eu quis dizer...

— Você se desespera rápido demais.

Tennouji-san deu um sorriso irônico enquanto Narika empalidecia. Aquele programa...? Sobre o que seria? Curioso, peguei o bule. Ele estava mais leve do que eu esperava — provavelmente estávamos ficando sem chá.

— Estamos quase sem bebida, então vou comprar mais na loja de conveniência.

Acabamos comendo mais do que eu esperava, então o chá acabou mais rápido. Eu poderia servir água da torneira, mas oferecer isso para essas ojou-samas refinadas pareceria meio inadequado. Ao me levantar, olhei para Tennouji-san.

— A propósito, Tennouji-san, você disse que tinha interesse em lojas de conveniência, certo? Quer vir comigo?

— Hã? ...S-Sim! Ficarei feliz em acompanhá-lo!

Tennouji-san se levantou, parecendo um pouco confusa. Quando saímos da casa juntos, soltei um suspiro de alívio.

— Pronto, agora podemos conversar normalmente.

Durante o planejamento da sessão de estudos, havíamos prometido conversar a sós, então fiquei aliviado por finalmente cumprir isso. Por algum motivo, Tennouji-san me lançou um olhar levemente úmido e acusador.

— Você parece bem acostumado com isso.

— Hã?

— É assim que você anda encantando todo tipo de gente, não é?

— Isso não é justo… — eu achei que tinha sido uma ótima ideia… — Depois de ouvir aquela voz decepcionada no telefone, qualquer um faria algo assim.

— E-Eu não parecia tão decepcionada assim... bom, talvez um pouco.

A voz dela perdeu força, sem muita convicção.

— Eu não sou do tipo que se sente distante por causa da forma de falar, então normalmente não faço esse tipo de sugestão. Mas, se precisar, Tennouji-san, é só dizer.

— Eu também não me sinto distante.

Tennouji-san disse isso como se fosse óbvio. Eu estava acostumado com relações hierárquicas por causa dos meus trabalhos de meio período, então não me importava com linguagem formal. Mas, pensando bem, Tennouji-san devia estar ainda mais acostumada. Ela era filha do Grupo Tennouji, rival do Grupo Konohana. Provavelmente já havia participado de inúmeros eventos formais onde esse tipo de linguagem era padrão.

— Mas você, Itsuki-san, normalmente esconde sua posição...

— Ai.

— O Itsuki-san que fala de forma formal ainda é você, claro... mas quando fala de maneira casual, parece que está mostrando seu verdadeiro eu.

— Verdadeiro eu, é… — não era como se eu estivesse mudando de personalidade… — Será que eu sou tão diferente assim quando falo casualmente...?

— Quando você fala de forma casual, às vezes você me provoca.

— Espera, eu faço isso?

— Faz, sim! Durante o curso de verão, você riu sem parar quando eu tive dificuldade para abrir uma lata de suco! E no fliperama, riu só porque eu não sabia as regras!

— Bom, mas isso foi porque você estava engraçada, Tennouji-san...

— Viu?! Agora mesmo! Viu?!

Tennouji-san apontou para mim, inflando as bochechas de forma adorável. Agora que ela mencionou, acho que realmente deixo meu lado casual escapar mais do que quando estou sendo formal. ...Não que eu diga em voz alta, mas provavelmente penso as mesmas coisas de qualquer forma.

— Ah, é logo ali na esquina. ...A propósito, Tennouji-san, você sabe o que é uma loja de conveniência?

— Claro que sei! Não me trate como uma idiota!

Como esperado, ela sabia o que era uma loja de conveniência. Mas, quando chegamos lá, Tennouji-san ficou olhando para os salgados quentes perto do caixa e murmurou, com uma expressão confusa:

— Essas amostras de comida são muito bem feitas.

— Pfft.

Quando comprei um para ela no caixa, ela ficou completamente chocada.

*

 

Às cinco da tarde, a sessão de estudos terminou, e decidimos encerrar por ali. Dois carros pretos estavam estacionados em frente à casa — um para Tennouji-san e outro para Narika.

— Da próxima vez que nos encontrarmos será na academia.

— Sim.

Faltava uma semana para o início do segundo semestre na Academia Kiou. Eu não estava tão ocupado, mas Tennouji-san e Narika tinham agendas cheias, então provavelmente nos veríamos novamente no primeiro dia de aula. Já Yuri eu veria quando ela viesse trabalhar na casa dos Konohana.

— Hirano-san, por aqui.

— Certo. Obrigada, Tennouji-san.

Yuri tinha vindo a pé, mas parecia que o carro da Tennouji-san a deixaria em parte do caminho.

Assim que entrou, Yuri se sentou e, talvez por os assentos serem mais macios do que esperava, começou a apertar o encosto em silêncio.

— Hm? Konohana-san, você não vai voltar ainda?

Percebendo que não havia carro para Hinako, Narika perguntou.

— Não, parece que o meu transporte vai se atrasar um pouco.

— B-Bem, então eu posso te dar uma carona no meu carro...

— Obrigada, mas deve chegar em alguns minutos, então não se preocupe.

— O-Okay... então eu vou indo...

Hinako não pôde aceitar a oferta, mas Narika reuniu coragem para sugerir. Considerando como ela costumava ser tímida, aquilo já era um grande progresso. Quase fiquei emocionado. Para ser sincero, vários carros pretos de luxo estacionados diante de uma casa pequena como aquela chamavam muita atenção. Era melhor encerrar logo antes que surgissem rumores estranhos.

— Ah!? E-Espera, Konohana-san!

Yuri, já dentro do carro da Tennouji-san, chamou de repente, com a voz aflita. Ela remexeu na bolsa e entregou a Hinako uma sacola de papel.

— Eu quase esqueci... Aqui, estou te emprestando isso. Certifique-se de ler.

— O que é isso...?

— Você veio me pedir conselho antes, lembra? Acho que isso pode te ajudar a encontrar a resposta.

— Muito… obrigada.

Hinako fez uma reverência profunda. Seria algum tipo de presente importante?

— Yuri, o que você emprestou para ela?

— É segredo!

Perguntei por curiosidade, mas Yuri não quis contar. Talvez ela não tenha percebido, mas a segurança da família Konohana estava observando de todos os lados. ...Da janela do vizinho, de um beco escuro e entre inúmeros transeuntes, vários olhares estavam fixos naquela sacola.

Por fim, as garotas entraram nos carros e partiram. Quando os carros dobraram a esquina e desapareceram, soltei um suspiro de alívio.

— Elas foram.

— Foram.

— Uou!?

Uma voz atrás de mim me fez pular.

— S-Shizune-san, quando você...?

— É segredo.

Primeiro a Yuri, agora a Shizune-san também guardando segredos… Eu não fazia ideia de onde ela tinha surgido, mas provavelmente estava observando discretamente de algum lugar fora do nosso campo de visão. Talvez houvesse até um túnel subterrâneo ou algo assim...

— Ufa...

Hinako deixou os ombros caírem. Claro, não havia carro algum vindo buscá-la. Ela voltaria comigo para casa.

— Ojou-sama, por precaução, vou verificar o conteúdo da sacola que recebeu.

— Mmm... pode ver.

Hinako entregou a sacola que recebeu de Yuri para Shizune-san. Shizune-san olhou dentro, seus olhos se arregalaram levemente antes de assentir.

— Não há problemas.

Ela devolveu a sacola para Hinako.

— Shizune-san, o que tem dentro?

— Como Hirano-sama disse que era segredo, não posso revelar. Proteger a privacidade de um convidado faz parte do dever de uma empregada.

Uma empregada justa e correta, que nunca misturava o pessoal com o profissional. Diante disso, não tive escolha a não ser recuar...

— Essa não é a sua roupa de empregada habitual.

— Às vezes, chamar atenção pode ser visto como falta de consideração.

Em outras palavras, ela estava evitando se destacar. Eu tinha certeza de que Shizune-san estava com o uniforme de empregada quando saímos de casa mais cedo, mas agora ela usava roupas casuais.

Uma camisa branca e uma saia plissada preta até os tornozelos... Conhecendo Shizune-san, aquela paleta monocromática ainda lembrava seu uniforme. Era simples e transmitia calma.

Então me lembrei de algo do curso de verão. Quando Hinako, Yuri e as outras mostraram seus trajes de banho, Yuri havia me dito: "Você não tem nada a dizer?". Aquela frase ecoou novamente na minha mente.

— F-Ficou muito bem em você.

— Isso soou extremamente forçado. Ponto negativo.

Que pontos ela estava descontando...? Fiquei pálido, mas Shizune-san soltou uma leve risada. Não parecia irritada. 

Voltamos para dentro. A mesa já estava organizada, e a lixeira ao lado tinha um pacote vazio de batata chips. Hinako tinha começado a pegar duas de cada vez sorrateiramente, então acabaram num ritmo assustador, mas o comentário casual de Yuri — "Esses pacotes sempre vêm com menos do que a gente espera, né?" — ajudou a disfarçar.

No geral, a sessão de estudos ocorreu sem problemas, o que foi um alívio. Todos pareceram concentrados, e aquilo acabou sendo uma ótima lembrança para encerrar as férias de verão.

— Itsuki-san — enquanto eu colocava as mesas de volta no lugar, Shizune-san me chamou. — Você tem tempo depois disso?

— Tenho. Já terminei minhas tarefas do dia.

— Então, poderia me acompanhar para comprar os ingredientes do jantar?

Hesitei por um momento. Era raro Shizune-san pedir ajuda. Mas isso só me deixou ainda mais disposto.

— Claro. Se eu puder ajudar, farei o máximo possível.

Depois da minha resposta, Shizune-san olhou para Hinako.

— E você, Ojou-sama?

— Acabei... vou dormir...

Hinako estava se rolando no chão. Ela devia estar exausta de tanto se concentrar nos estudos.

— Então vamos nós dois. ...Ojou-sama, por favor, fique aqui. Deixei seguranças por perto, então pode chamá-los se precisar de algo.

— Tá bom…

*

 

Depois que Itsuki e Shizune saíram da casa. Hinako pensou em usar uma almofada como travesseiro para tirar um cochilo, mas, ao se deitar, a sacola de papel que Yuri havia dado chamou sua atenção.

Antes de dormir... vou dar só uma olhada.

Ela estava prestes a apagar de cansaço, mas decidiu ao menos conferir o que havia recebido. Retirou o conteúdo da sacola.

Era—

— Livros….?

Uma pilha de livros. Ao observar as capas e as faixas promocionais, Hinako inclinou ainda mais a cabeça.

— Mangá... shoujo?

Uma das faixas dizia: "O mangá shoujo mais vendido do momento!". Então eram mangás shoujo, ao que parecia.

"Dango Over Flowers"... "Para Você, Eu Entrego"... nyanya...

Ela leu os títulos em voz alta. Havia outros também. Nenhum lhe parecia familiar, mas ela folheou algumas páginas para ver.

— Isso é...

Hinako rapidamente se viu absorvida. Os cenários eram, em sua maioria, escolas. Variavam de colégios comuns, como o que Itsuki frequentava, até academias de prestígio como a Academia Kiou, frequentada por filhos da elite.

A protagonista geralmente era uma estudante comum do ensino médio. O início de cada história era mais ou menos igual: a protagonista conhecia alguém do sexo oposto por acaso, se aproximava e, aos poucos, diminuía a distância entre eles. Antes que percebesse, ela começava a se dar conta daquela pessoa...

— I-Isso...!

Hinako ficou em choque.

É exatamente como eu…!

Os sentimentos da protagonista retratada no mangá refletiam perfeitamente aqueles com os quais Hinako vinha lidando. Seu coração acelerava só de estar perto dele. A agitação crescente em seu peito, dia após dia, era tão intensa que até ela mesma ficava confusa. Às vezes, era quase sufocante, mas ainda assim ela não queria se afastar — uma sensação estranha e inexplicável.

A protagonista do mangá também era levada por essas emoções.

Se eu continuar lendo, talvez eu entenda o que esse sentimento realmente é…!

Devia ser por isso que Yuri havia lhe emprestado aquele mangá. Hinako, agora completamente desperta, mergulhou na leitura com entusiasmo febril.

"Por que será que, às vezes, minha mente fica completamente cheia de pensamentos sobre ele?"

A protagonista do mangá se pegava pensando no garoto de quem estava consciente em momentos aleatórios — durante as aulas, enquanto comia ou até deitada na cama, tentando dormir.

Eu entendo…

Hinako era igual. Quando iam juntos para a academia, durante as aulas, enquanto tomavam banho ou quando relaxava no quarto de Itsuki… ela se pegava pensando nele sem perceber.

Tipo: Ele tem se esforçado muito ultimamente, não é?

Ou: Ele melhorou bastante suas maneiras.

Ou: Estudar deve ser difícil para ele.

Ou: Ele realmente se importa comigo, não é?

Hinako pensava nessas coisas o tempo todo. Ela virou a página.

"Por que será que só de vê-lo conversando com outra garota eu fico tão inquieta?"

A protagonista do mangá sentia o coração apertar ao ver o garoto conversando com outra garota. Sua expressão endurecia, mas ela levava a mão ao peito discretamente, tomando cuidado para que ele não percebesse.

Eu entendo perfeitamente…

Hinako sentia o mesmo. Quando Itsuki conversava com outras garotas na academia, ela não conseguia evitar ficar inquieta. Um medo passageiro surgia — o de que ele pudesse simplesmente desaparecer com elas.

Mas, no fim, esses receios geralmente não se confirmavam. Quando ela o observava ansiosa, era como se ele percebesse — ele se virava para ela. E então, com um sorriso gentil, a tranquilizava. Toda vez, ela percebia que Itsuki realmente estava olhando por ela. Um calor reconfortante e uma frustração inquieta coexistiam em seu coração, impossíveis de separar.

Afinal, que sentimentos eram aqueles?

Ela virou a página.

"Ah, isso é amor, não é?"

A protagonista do mangá finalmente percebia seus próprios sentimentos.

— !?

Chocada, Hinako afastou o rosto do mangá. O desenvolvimento repentino a fez olhar ao redor, nervosa, mas não havia nenhuma criada ou cuidador de confiança por perto. Reunindo coragem, Hinako voltou ao mangá.

"Amor? …Amor!? O que é amor…? O que eu devo fazer…?"

A protagonista do mangá corava assim que reconhecia seu amor. Hinako, com o rosto igualmente em chamas, continuou lendo.

P-Por que eles estão tão… carinhosos de repente…? M-Mas parecem tão felizes…

A protagonista agora flertava ativamente com o garoto. Quando caminhavam pela cidade, davam as mãos — com os dedos entrelaçados, inclusive. Ela declarava abertamente que queria ficar sozinha com ele, sem qualquer vergonha. O garoto sentia o mesmo. Nesse vai e vem emocionante e cheio de tensão, os dois se aproximavam cada vez mais—

O-O quê…? P-Por que eles estão encostando as bocas…?

Um instante depois, ela percebeu que aquilo se chamava beijo. Konohana Hinako, dezesseis anos. Por desejo de seu pai, ela havia sido treinada desde pequena em conhecimentos especializados, mas, quando se tratava de romance, era completamente inexperiente.

Ainda assim, como herdeira do Grupo Konohana e aluna da Academia Kiou, havia adquirido o mínimo de conhecimento através da convivência com outras pessoas. Porém, por falta de experiência, esse conhecimento não se conectava com a realidade.

Então, para Hinako, aquilo era uma primeira vez. Pela primeira vez em sua vida, ela encarava o romance não como espectadora, mas como alguém diretamente envolvida.

"Eu te quero."

"Eu também te quero."

Antes que percebesse, o homem e a mulher da história haviam se aproximado muito mais do que antes. Eles trocavam um beijo na varanda. Ao ler aquela cena, Hinako… imaginou a si mesma e Itsuki naquele lugar.

"Hinako."

Itsuki estava diante dela, olhando-a com firmeza.

"Eu te quero."

Dizendo isso, Itsuki se inclinava, aproximando seus lábios—

…!!

Hinako balançou a cabeça com força.

O que eu estou pensando…!?

Ela tentou desesperadamente expulsar aquela fantasia da mente. Mas, por mais que tentasse, não conseguia apagar o fato de que havia se entregado a um devaneio daqueles. A protagonista do mangá fazia exatamente o mesmo.

É isso que significa gostar de alguém…?

Ela já se sentia assim há muito tempo. Isso havia sido apontado durante o curso de verão, mas o sentimento em si havia começado bem antes. Cerca de um mês depois que Itsuki se tornou seu cuidador.

Quando Itsuki foi afastado de sua função, ainda assim voltou à mansão por causa dela. E quando ela se jogou da janela, Itsuki a segurou, abraçando-a com toda a força. Pensando bem, foi naquele momento. Desde aquele instante — ela vinha carregando esses sentimentos no coração o tempo todo.

Eu… quero fazer essas coisas com o Itsuki…?

Desde então, será que ela vinha querendo fazer aquelas coisas com ele? Durante todo esse tempo, no fundo, será que desejava isso?

Hawa...

Pensar nisso era… incrivelmente constrangedor. No mínimo, parecia que Yuri havia percebido tudo…

Hawawawawawa…!

O cérebro extraordinariamente avançado de Hinako, herdeira da família Konohana, entrou em curto-circuito pela primeira vez em sua vida.

*

 

Depois de terminarmos as compras no supermercado, Shizune-san e eu estávamos colocando os ingredientes em sacolas plásticas.

— Obrigada pela ajuda, Itsuki-san.

— Sem problema, é pouca coisa.

Compramos comida suficiente para alguns dias. Como já tínhamos bebidas e temperos em casa, não pegamos nada muito pesado, mas ainda assim era bastante para uma pessoa carregar sozinha.

— Mas fiquei surpresa. Até você fica em dúvida ao fazer compras, Shizune-san?

— O que você acha que eu sou? ...É só que faz um tempo que não uso um supermercado comum, então não tinha certeza de quais ingredientes agradariam ao paladar da Ojou-sama.

De fato, Shizune-san demorou bastante escolhendo os ingredientes. Mesmo com algo simples como uma cenoura, ela analisava cuidadosamente qual agradaria mais ao gosto da Hinako.

— E normalmente, como você lida com os ingredientes?

— Tudo é encomendado. Considerei mandar entregar enquanto estamos na sua casa, mas achei que sairia caro demais, então desisti da ideia.

— Você economiza nas coisas certas, hein?

— Faz parte do dever de uma empregada minimizar os gastos enquanto mantém a imagem pública da Ojou-sama. Voltar andando assim também faz parte disso.

Se Hinako estivesse ali, provavelmente já teria providenciado um carro. Certamente, se quisesse, Shizune-san poderia usar sua autoridade para chamar um carro com facilidade, mas escolhia não fazê-lo.

— Desculpe, preciso ir ao banheiro rapidinho.

— Entendido. Vou esperar aqui fora.

Entreguei as sacolas para Shizune-san e fui até o banheiro perto da entrada do supermercado. Sentindo um leve peso na consciência por deixar uma mulher carregando tudo, me apressei o máximo que pude. Shizune-san provavelmente não se importaria, mas eu me importava.

Hm? Cadê a Shizune-san...?

Quando saí, não a vi em lugar nenhum. Comecei a andar em direção à casa. Então, na entrada da rua comercial, a avistei. Shizune-san estava parada, olhando fixamente para a vitrine de uma loja de roupas. O manequim vestia roupas fofas e cheias de babados — algo que uma garota adolescente adoraria — um pouco infantil e fora de lugar, típico de lojas de rua comercial. Ainda estava longe de ser uma loja moderna para jovens.

Por algum motivo, Shizune-san observava o traje com uma expressão séria. Talvez combinasse com Hinako, mas eu não conseguia imaginar Shizune-san usando aquilo. Mesmo assim, ela parecia genuinamente interessada...

— Hum, quer experimentar?

— !?

Quando falei, Shizune-san se virou, visivelmente desconcertada — algo raro nela.

— N-Não é isso. Eu não quero usar isso.

— Ei, tudo bem. Posso guardar segredo, se precisar...

— Eu disse que não é isso.

— Ah... desculpa.

Ela me lançou um olhar intenso, nada brincalhão. Achei que estivesse apenas disfarçando, mas parecia que falava sério.

— Bem... minha família trabalhava com roupas, então só fiquei curiosa

Ela explicou enquanto voltávamos para casa. Pelo jeito que disse, não parecia apenas que sua família trabalhava com moda, mas sim que possuíam uma empresa do ramo. Sempre percebi traços de uma criação refinada em cada gesto da Shizune-san, então aquilo fazia sentido.

...Por que Shizune-san se tornou empregada da família Konohana?

Ultimamente, talvez por estarmos vivendo em um ambiente diferente, eu vinha ficando curioso sobre o passado dela e seus valores.

— Já que surgiu a oportunidade, vou contar um pouco sobre o meu passado.

Como se tivesse lido meus pensamentos, Shizune-san começou a falar.

— Você sabe que a Academia Kiou é uma das três instituições de ensino mais prestigiadas do Japão, certo?

— Ah, sim.

— Isso significa que existem outras duas no mesmo nível.

Ela levantou o dedo indicador e o médio.

— Eu estudei em uma delas.

— Uau.

Eu não sabia disso. O histórico acadêmico da Shizune-san era impressionante.

— Então você realmente era uma jovem dama refinada, não é?

— Pelo menos por fora.

Shizune-san respondeu com um tom sugestivo.

— Minha família administrava uma empresa de roupas que remontava à era Meiji. Era listada na Bolsa de Valores de Tóquio e, por um tempo, desfrutou de grande prosperidade... mas a bolha econômica estourou, e eles não conseguiram acompanhar os tempos, o que levou a dificuldades financeiras e, por fim, à falência.

Ou seja, a empresa foi à falência. Na Academia Kiou, estudávamos história junto com negócios, então eu conseguia imaginar vagamente a situação da época. No setor de vestuário, o período pós-bolha marcou a ascensão do fast fashion. Com o colapso da economia e a redução de gastos, lojas de departamento que vendiam marcas de luxo entraram em declínio, enquanto o fast fashion dominava o mercado.

A família de Shizune-san não conseguiu acompanhar essa mudança.

— Havia dois motivos para eu poder frequentar aquela academia. Um era a consideração pelo prestígio passado da minha família. O outro era o desejo dos meus pais de manter as aparências através de mim. ...Mas, na realidade, já éramos uma família em decadência. Como mencionei antes, nosso padrão de vida mal diferia de uma família comum.

Nesse momento, Shizune-san olhou para mim, como se tivesse percebido algo.

— De certa forma, você e eu talvez estivéssemos em posições semelhantes. Eu escondia ao máximo a situação da minha família enquanto convivia com meus colegas.

— Agora que você falou, é verdade.

Pensando bem, Shizune-san sempre demonstrou bastante consideração comigo, entendendo minha situação. Talvez suas próprias experiências no passado tenham sido o motivo disso.

— Embora eu me sentisse sufocada pela diferença entre aparência e realidade, levei meus estudos a sério. Antes que percebesse, já estava entre os dois melhores da minha academia.

Tá, não somos tão parecidos assim. Shizune-san e eu éramos diferentes — principalmente no funcionamento do cérebro.

— Foi então que conheci ele. O filho mais velho da família Konohana… Takuma-sama.

Finalmente surgiu a conexão dela com a família Konohana, mas o primeiro nome mencionado não foi o de Hinako, e sim o de Takuma.

— Takuma-sama estudava na mesma academia, mas era tão ocupado que raramente aparecia. Um dia — não sei como ele soube de mim — ao descobrir minhas notas e minha situação, veio até minha casa e disse: "Se não tiver planos depois da formatura, que tal vir trabalhar conosco?". Na época, eu pretendia continuar os estudos, então recusei, mas… depois de algumas reviravoltas, aceitei a proposta um ano depois.

— Reviravoltas, hein?

— Resumindo, as aulas da universidade eram entediantes.

Isso foi resumido demais.

— Se você estiver pensando em seguir para o ensino superior, escolha bem a universidade, Itsuki-san. Se você estiver acostumado com a Academia Kiou e acabar em uma universidade comum, vai estranhar em vários aspectos.

— Vou me lembrar disso — respondi, assentindo.

— E, embora seja um pouco constrangedor admitir, eu respeitava Takuma-sama naquela época. …Era arrogância juvenil, mas, quando eu estava na academia, desprezava as pessoas ao meu redor. Minha família podia ter decaído, mas eu acreditava que minhas habilidades eram incomparáveis. Os herdeiros ricos ao meu redor me pareciam pessoas despreocupadas, criadas em um ambiente protegido.

Como se estivesse envergonhada de seus erros do passado, Shizune-san abaixou o olhar enquanto falava.

— Takuma-sama foi quem me colocou no meu devido lugar. Por mais que eu me esforçasse, não conseguia superá-lo em estudos nem em experiência… fiquei maravilhada, pensando: "Isso é alguém de verdade."

Ela já havia dito antes. Takuma possuía habilidades dignas do sangue da família Konohana.

Será que ele já estava recrutando talentos promissores naquela época? Se sim, Shizune-san foi um achado. Primeira colocada na academia, sem uma empresa familiar para herdar — abordá-la foi uma jogada inteligente.

— Então você é grata ao Takuma, certo?

— De forma alguma.

— Hã?

Não era para a conversa seguir nessa direção?

— Depois que comecei a trabalhar sob o comando do Takuma-sama, qualquer gratidão que eu tinha desapareceu. …Aquele homem é extremamente egoísta. Todos os dias eu sentia que estava prestes a ter uma úlcera.

— Se estamos falando de egoísmo, a Hinako também é meio assim...

— Hah.

Shizune-san soltou uma risada seca.

— Comparada ao Takuma-sama, a Ojou-sama é adorável. …Aquele homem estaria na Antártida no momento em que você tirasse os olhos dele.

Os olhos dela se perderam no vazio enquanto falava. O nível de egoísmo era completamente diferente. Hinako era do tipo que evitava esforço físico, então era relativamente tranquila, mas Takuma-sama parecia do tipo hiperativo que arrastava todos ao seu redor.

— Cansada da imprudência do Takuma-sama, eu estava pensando em voltar para a universidade quando, graças aos arranjos do Kagen-sama, comecei a servir a Ojou-sama. …E foi assim que cheguei até aqui.

Com isso, Shizune-san encerrou sua história. Parecia que ela havia passado por muita coisa até chegar à posição atual. Minhas dúvidas sobre por que ela se tornou empregada e como passou a servir Hinako foram esclarecidas. Mas, ao mesmo tempo, minha curiosidade sobre Takuma só aumentou.

— Hum, Shizune-san.

— Sim?

— Na última vez que encontrei Takuma-sama, ele me disse algo no final. Ele falou: "No momento, você não pode ser alguém com quem ela realmente possa contar." …O que você acha que ele quis dizer com isso?

— Hmm. E você, Itsuki-san, o que acha?

Ela respondeu com outra pergunta, provavelmente porque era algo que eu precisava entender por conta própria. Ainda assim, eu vinha pensando nisso desde então, por isso perguntei.

— Pensei que talvez eu precisasse melhorar mais nos estudos ou no comportamento.

— Entendo. É um pensamento razoável… mas acho que não é isso.

Pelo visto, eu estava errado.

— Acredito que Takuma-sama estava apontando para algo mais fundamental. Não notas ou etiqueta, mas...

— Você sabe o que ele quis dizer, Shizune-san?

— É apenas um palpite. …Mas, sinceramente, esperar isso de você agora parece um pouco severo.

Shizune-san pressionou os lábios, com um olhar indeciso. Provavelmente estava ponderando se deveria me dar uma resposta clara ou não. Talvez o verdadeiro significado fosse mais delicado do que eu imaginava.

Logo chegamos em casa.

Quando abri a porta, Hinako deu um pulo, assustada. Ela rapidamente enfiou algo que estava segurando dentro de uma sacola de papel.

— Hinako, o que foi?

— N-N-Nada…!

Ela estava fazendo algo antes? O rosto dela estava completamente vermelho.

— Ah, é mesmo.

Antes que esquecesse, tirei algo da sacola de compras que queria mostrar para Hinako.

— A Shizune-san encontrou isso para mim, então acabei comprando — uma escova para usar no banho. Parece que, se você escovar o cabelo antes do shampoo, ajuda a remover a sujeira com mais facilidade. Então vamos tentar usar a partir de hoje.

Dizem que basta lavar com calma e atenção, mas isso em um banheiro espaçoso. O que estamos usando agora é pequeno e pouco ventilado, então Hinako sempre quer sair rápido. Comprei a escova para reduzir o tempo que passamos lá.

Achei que ela mostraria algum interesse, mas—

— H-Hoje…!

— Hoje?

— H-Hoje, eu vou tomar banho… sozinha…!

Hinako disse isso gaguejando. Sua reação completamente inesperada me deixou sem palavras por um tempo.

— Eu fiz algo errado…?

— Não, você não fez nada — respondeu Shizune-san.

Enquanto eu ainda estava confuso, Shizune-san olhou para a sacola de papel no chão. Assentindo como se tivesse entendido a situação—

— Isso apenas significa que a Ojou-sama está crescendo.

— Hã…?

Eu não fazia a menor ideia do que ela queria dizer. Achei que logo ela voltaria ao normal… então decidi não me preocupar com isso por enquanto. No entanto, essa previsão acabou estando errada. A partir daquele dia, Hinako começou a agir de forma estranha.

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