Volume 3

Capítulo 2: Depois Aquilo

── 11 de setembro・Perspectiva de Kondo (Pai) ──

   Mesmo depois da data ter virado, eu ainda não conseguia dormir. E então vi uma mensagem do meu secretário me dizendo para olhar as notícias da internet imediatamente.

   Lá, meu comportamento de mais cedo naquele dia havia sido gravado e distribuído para o mundo inteiro. Provavelmente rastreariam minha identidade em pouco tempo.

   E, com a chantagem de Ichijou Ai, eu já não podia fazer mais nada. Se eu a tornasse minha inimiga, passaria a ser vigiado por um inimigo ainda pior do que a imprensa.

   Não importava qual caminho eu escolhesse, eu estava arruinado. Não havia como escapar do destino da ruína.

“Nãoooooo… não… não… nãoooooooo…!”

   Meu grito ecoou pela casa espaçosa. Era apenas questão de tempo até que eu tivesse que abrir mão dessa casa também. A realidade cruel mostrava seus dentes para mim.

   Meu telefone tocou.

[Este é o número do telefone do Kondo-san? Desculpe ligar tão tarde. Aqui é Nanami, do Niccho Shimbun…]

     Como eles tinham rastreado esse número? O terror tomou conta de mim, e eu desliguei. Um telefonema veio imediatamente em seguida, de um número diferente.

“Eu já estou… acabado.”

   Desliguei o celular. Mas o telefone fixo tocou logo em seguida. Arranquei o cabo de energia. Para escapar dessa realidade cruel.

   Fuga da realidade. Mesmo enquanto eu percebia que era apenas isso que minhas ações significavam.

“Pare com isso, por favor. Nãoooooo… não… não… nãoooooooo…!”

   As noites sem dormir continaram.

 

※※※

 

   Enfim a manhã chegou. Eu não havia dado nem uma piscada, e fiquei esperando o sol nascer. Já não havia mais nada que eu pudesse fazer. Apenas aquele desespero permanecia.

   Quando amanhecesse, a imprensa provavelmente viria em um grande enxame. Mesmo pensando que eu precisava fugir rapidamente, não conseguia nem me mover diante da sensação esmagadora de desespero.

   Um e-mail havia chegado do meu advogado.

[Escute, Kondo-san. Não diga nada desnecessário, está bem? Mesmo que perguntem algo, se safe dizendo que não pode responder porque a investigação está em andamento.]

   Ler aquela mensagem apenas intensificou meu medo. Fez com que eu percebesse claramente que havia me tornado um inimigo da população. Eu estava farto disso. Não tinha escolha a não ser fugir dali. Um passo em falso, e eu seria detido e acabaria na prisão. E se a empresa perdesse o contrato com a prefeitura… só de pensar nisso, eu ficava com medo.

   Se isso acontecesse, eu perderia tudo. Minha reputação, meu trabalho, meu dinheiro, minha família—tudo… eu perderia tudo.

   Com o medo atingindo o seu auge, de alguma forma consegui sair da cama. Eu precisava me mover, então fui para fora abrir a garagem. Por enquanto, eu não tinha escolha a não ser fugir para um hotel e me esconder.

   Finalmente quando havia tomado minha decisão., já havia vários membros da imprensa do lado de fora.

   Meu sangue gelou na hora.

“Vereador Kondo. Por favor, fale conosco. Aquele áudio era seu?”

“Como o senhor pretende assumir a responsabilidade?”

“É verdade que seu filho foi pego pela polícia?”

   Tentei me apressar para sair, mas fui cercado imediatamente.

“Por favor, não fuja. O senhor tem o dever de explicar isso aos seus eleitores!”

“Se o senhor fugir, podemos considerar isso como uma admissão?”

“Com uma prova em áudio dessas, uma desculpa como ‘meu secretário fez isso por conta própria’ não será aceita!”

   O medo dificultava a voz a sair. Forcei as palavras a saírem de alguma forma.

“O assunto do meu filho está atualmente sob investigação, e meu advogado me instruiu a não dizer nada. Peço desculpas pelo transtorno que causei.”

   Mas não havia como palavras assim fazerem com que eles me perdoassem. A perseguição continuou.

“Então o que o senhor acha da suspeita de que ameaçou alguém?”

“Um vereador ameaçando um cidadão é algo sem precedentes, não é?”

“E quanto à renúncia e coisas do tipo…?”

   Minha mente entrou em pânico e, por fim, palavras estranhas escaparam.

“Quanto a essas declarações, eu estava apenas falando em termos hipotéticos… peço desculpas profundamente por ter levado a outra parte a um mal-entendido. No entanto, tornei-me vereador ao conquistar a confiança dos cidadãos. Gostaria de cumprir essa responsabilidade por meio de minhas funções oficiais…”

   Mesmo enquanto dizia isso, eu sabia que tinha cometido um erro. Entendi imediatamente que estava jogando lenha na fogueira.

“Então o senhor nega que irá renunciar?”

“Chamar isso de hipotético não é um argumento absurdo?”

“O senhor acha que os cidadãos vão aceitar isso?”

   Já não havia mais nada que eu pudesse fazer. Saí correndo e me afastei do local.

“Por favor, não fuja!”

   Minha irritação explodiu, e eu gritei sem pensar.

“Calem a boca!”

   Como se isso os tivesse intimidado, os membros da imprensa pararam.

   Tirei meu carro querido da garagem e fugi do local sem qualquer destino.

     O que irá acontecer comigo?

   Encostei-me no acostamento e conferi meu telefone, e uma mensagem havia chegado. Era da filial local do partido ao qual eu pertencia. 

[Venha aqui imediatamente.]

   Ela era educada, mas a mensagem estava escrita de uma forma que claramente transmitia raiva.

   Tremendo de medo da minha ruína, acelerei. — Como eu posso encobrir isso?  — Não havia nenhuma forma de evitar o caminho da ruína? Eu estava com uma cara patética, chorando enquanto fugia.

 

※※※

 

“Cara, conseguimos uma imagem incrível. Não importa como você olhe, ele é um magistrado mesquinho e corrupto.”

“Não é!? Isso vai deixar o noticiário da manhã em polvorosa.”

“E mesmo sem termos roteirizado nenhuma daquelas desculpas, ele nos deu exatamente as reações que queríamos.”

“Certo, agora vamos espalhar isso por toda parte e arrastá-lo para uma coletiva pública de pedido de desculpas!”

   Com um furo desse tamanho pela primeira vez em muito tempo, todos os envolvidos se uniram além dos interesses competitivos da emissora. Estava claro que ninguém poderia mais parar esse ímpeto.

 

※※※

 

   Consegui continuar dirigindo e fui direto para a filial do partido. No momento em que cheguei, fui levado ao gabinete do chefe da filial como se estivesse sendo detido.

   Os funcionários me encaravam com olhos tensos. Uma atmosfera pesada pairava sobre tudo. Eles me lançavam olhares frios, como se estivessem olhando para um criminoso. Isso me encheu de uma sensação da tragédia que estava prestes a começar.

   Nosso chefe de filial era um membro da Dieta. Um homem tão ocupado que eu quase nunca o via estava me chamando a essa hora da manhã de propósito. Era praticamente uma sentença de morte.

   Um secretário abriu a porta, e o chefe da filial entrou. Instintivamente, eu me levantei e abaixei a cabeça.

“Peço sinceras desculpas pelo transtorno que causei.”

   Mantive a cabeça baixa, agarrando-me à doce esperança de que talvez eles deixassem isso passar.

   Um silêncio pesado se instalou na sala.

“Você entende o que fez?”

   Essas palavras despedaçaram minhas doces expectativas.

“Peço sinceras desculpas.”

   Abaixei ainda mais a cabeça, como se fosse me prostrar. Então o chefe da filial ligou a TV.

   Nela, minha voz gravada berrava em fúria. Os insultos que eu havia lançado contra o diretor e a família de Aono passavam repetidamente. Além disso, mostrava imagens de quando eu havia lidado com a imprensa mais cedo.

   As legendas na tela diziam: “Vereador conhecido por chantagem nega renúncia”, “Vereador abusivo intimida repórter a ‘calar a boca’”, e “Condenação nacional; reclamações inundam repartições municipais”.

“Parece que recomendá-lo para concorrer à prefeitura foi inteiramente um erro meu. Este ano também temos as eleições locais em nível nacional. É difícil para nós defendê-lo, você entende, certo? E, além disso, chegaram protestos de Minami, o ex-prefeito, e do deputado estadual Yamada. O que você vai fazer a respeito disso? Eles estão entre as figuras mais influentes desta região. Do nosso lado, tornar-nos inimigos deles seria suicídio.”

   Ele continuou jogando a realidade cruel sobre mim. Eu não conseguia parar de tremer.

   Para a corrida à prefeitura, eu havia reunido muito dinheiro. Já tinha gasto dinheiro com preparativos. Tudo isso seria desperdiçado. Para alguém que já estava à beira de perder até sua posição, o desespero só se aprofundava.

“Eu realmente—”

   Tentei dizer mais um pedido de desculpas, mas fui interrompido.

“Isso já não está mais no nível de você se desculpar comigo. A organização central também está tratando isso como um problema. Minami-san e o deputado estadual Yamada também nos disseram para cumprir nossa responsabilidade de explicar isso em um ambiente oficial. A este ponto, espera-se que você seja expulso por má conduta. Antes que isso aconteça, realize uma coletiva de imprensa, peça desculpas sinceramente e admita seus erros. Assim, nossas feridas também serão menores.”

   Diante dessas palavras impiedosas, abri os olhos reflexivamente e me agarrei a ele. Mas não conseguia tirar da cabeça as palavras daquela garota naquela ocasião. As reações tanto da liderança central do partido quanto da filial foram rápidas demais. — Isso significava que…? Eu vou ser descartado…

   Minha ruína não parava.

“Mesmo assim, isso é—”

   O chefe da filial exibiu uma expressão irritada e rejeitou meu apego. Seu tom tornou-se mais duro do que nunca.

“Você acha que tem escolha? Isso é misericórdia. Se você se recusar, não se esqueça de que isso significa que nós também nos tornaremos seus inimigos.”

   Sob essa pressão, não consegui evitar soltar um gritinho patético: “Hii.”

   Mesmo que eu conseguisse persuadir o chefe da filial, não poderia silenciar o pai da garota, que estava acima dele.

“Entendeu? O local da coletiva já está marcado. Entre no hotel indicado neste memorando uma hora antes do horário de início. Depois disso, nosso secretário já providenciou tudo.”

   Rendição total. A partir daqui, eu seria colocado em uma esteira totalmente automática e seria simplesmente carregado em direção à ruína. Minha empresa também estava acabada. Eu perderia tudo.

   Até ontem, eu deveria estar seguindo um caminho de carreira promissor e tranquilo como próximo candidato a prefeito. Mas, em um único dia, eu havia perdido tudo. O que me aguardava agora era ter minha desgraça transmitida em rede nacional, ser transformado em brinquedo da internet e não poder fazer nada além de assistir enquanto tudo era lentamente tirado de mim.

   Riqueza, fama, felicidade — tudo desapareceria. Eu só tinha algumas horas restantes. — Eu deveria ter sido alguém escolhido… — e, ainda assim, por fim estava sendo forçado a perceber que, diante de pessoas com poder além do meu, eu era uma existência impotente, como um bebê que não podia fazer nada.

   Não, não. Ninguém estendeu a mão para mim enquanto eu desmoronava chorando. Ninguém ajudou. Ninguém me salvou.

“Ei, fique de olho nele para que não fuja. Não vou aguentar se formos parecer ainda mais vergonhosos do que isso.”

   Eu já estava sendo tratado como um criminoso. Senti como se estivesse lentamente subindo os degraus para a forca.

   Mesmo com a minha ruína se aproximando, eu não podia fazer nada. Fiquei trancado no gabinete do chefe da filial, e tudo o que pude fazer foi esperar para ser socialmente morto.

   Eu nem sequer tinha permissão para fugir. Não havia nada que eu pudesse fazer. Fui forçado a sentir minha própria impotência. Um fraco cujo poder sobre a vida e a morte estava inteiramente nas mãos de outros. Percebi que o fraco que eu havia desprezado todo esse tempo era eu.

   Eu apenas tinha passado de uma raposa agindo como um tigre. Como indivíduo, eu quase não tinha poder algum. Com a morte social bem diante de mim, eu estava sendo forçado a perceber isso.

   Impotência, impaciência, desespero. Minha mente estava à beira de se quebrar.

   Minha mente estava tão completamente embaralhada que parecia que aquilo estava acontecendo com outra pessoa. Havia algo errado comigo. Eu não conseguia parar de rir. Um funcionário abriu a porta por um instante e a fechou novamente de imediato.

“Estou arruinado. Se quiserem rir, então riam. Vou perder tudo desse jeito. Não, não, não.”

   Enquanto sentia o medo de deixar de ser eu mesmo, tomei consciência do meu coração — e de tudo o que eu havia construído até agora — desmoronando.

“A essa altura, vou contar tudo. Todos os segredos que eu sei, tudo!”

   Enquanto eu gritava, ficou difícil respirar, e eu desabei no sofá. Minha visão ocilava, mas apenas o tempo continuava passando impiedosamente. Restava menos de uma hora até a execução.

 

※※※

 

── Perspectiva do Chefe da Filial ──

   Kondo estava chorando e gritando. Comecei a me preocupar se ele realmente conseguiria fazer uma coletiva de imprensa naquele estado mental. Foi então que meu telefone tocou.

   Quando vi o nome exibido, a tensão percorreu todo o meu corpo.

   Atendi imediatamente.

“S-Secretário-Geral…? A que devo a honra desta ligação?”

   A outra parte era uma figura importante da organização central. O número dois do partido governista.

[Estou ligando a respeito do caso do vereador Kondo. O Primeiro-Ministro e os patrocinadores também estão bastante preocupados. Afinal, virou uma grande notícia. Dada a posição dele como vereador, as reportagens não ligaram isso profundamente ao partido, e esse é o único ponto positivo. No entanto, se essa confusão continuar… pode deixar cicatrizes do nosso lado. Encerre isso imediatamente, sob sua responsabilidade.]

   Era uma voz intelectual, mas fria e impiedosa. Quase senti vontade de chorar.

“Prosseguiremos exatamente conforme instruído. Já garantimos o local da coletiva de imprensa. Os preparativos estão em ordem. No entanto, o estado mental dele está extremamente… Nesse ritmo, não temos ideia do que ele pode acabar dizendo. Vai ficar tudo bem?”

   Mas o Secretário-Geral sequer mudou o tom de voz e respondeu friamente.

[Não importa. No fim das contas, é apenas um vereador que achou erroneamente que tinha poder e saiu do controle. Francamente, é mais conveniente para nós se ele chorar e gritar no meio do caminho e virar um brinquedo da internet. Assim, muitas pessoas entenderão que ele carecia das qualidades de um representante eleito. Eu até prefiro isso. Mesmo que ele aja de forma imprudente e revele algo, o nível de informação que esse homem detém é, no máximo, limitado. Ele não pode fazer nada. Já tomamos providências com a polícia. Antes que algo ainda mais desnecessário aconteça, assim que a coletiva terminar, expulsem-no do partido e façam com que seja preso sob suspeita de chantagem, então escoltem-no até a cela de detenção. Se agirmos o mais rápido possível, a opinião pública deve compreender o nosso lado. Ouvi dizer que há alegações online de que o vereador Kondo não será preso por fazer parte da elite privilegiada. É exatamente por isso que devemos priorizar a rapidez e causar impacto com nossa resposta.]

“Ugh…”

   Era eficiente demais. Senti um calafrio subir pela espinha.

[É prática comum que políticos que causam escândalos sejam hospitalizados, mas com um homem desse nível, é mais certo fazer com que a polícia o prenda. Mais importante ainda, Chefe da Filial, você fez uma escolha bastante terrível de candidato. Dependendo de como isso se desenrolar, você também pode ter que assumir responsabilidade. Nesse caso, não leve para o lado pessoal.]

   Era uma ameaça não dita: “Fracasse, e não haverá próxima vez.” Minhas mãos começaram a tremer.

   Mesmo depois da ligação ter terminado, minhas costas rígidas e eretas se recusaram a relaxar por um bom tempo.

   O futuro de Kondo já estava completamente obscurecido.

   Pensar em quão perto estava o fim para o homem delirante no cômodo ao lado, que estava gritando, deixou-me com um sentimento miserável. Mas o fracasso não era permitido. O palhaço tinha que dançar de uma forma divertida, ou o amanhã também não chegaria para mim.

 

※※※

 

── Perspectiva de Kondo (Pai) ──

   Finalmente, a hora havia chegado. Eu estava em um salão de hotel reservado para a coletiva de imprensa. Ali, dezenas a centenas de membros da imprensa aguardavam.

   Tremendo, subi ao palco. Os flashes das câmeras fizeram meus olhos doerem. Recuava diante da quantidade esmagadora de câmeras, mais do que jamais haviam sido apontadas para mim antes. Os repórteres tinham olhos sanguinários enquanto tentavam extrair algo interessante de mim, o homem de quem todos falavam. Chegava a parecer monstruoso, como animais carnívoros que haviam encontrado sua presa, e com a sentença de morte pairando sobre mim, eu não conseguia parar de tremer.

     Então era assim que minha vida terminava. Por que isso acabou assim? Tentando ganhar o favor dos figurões da liderança central, eu havia sujado as mãos com todo tipo de irregularidade. Como resultado, eu finalmente havia chegado à beira de assumir a cadeira de prefeito. Se as coisas tivessem continuado desse jeito, eu deveria ter conseguido ainda mais do que isso no futuro.

   Hoje, eu seria arruinado.

“Agradecemos a todos por se reunirem apesar de suas agendas lotadas. Pois bem, daremos início a esta coletiva de imprensa explicativa a respeito da conduta imprópria do vereador Kondo.”

   O Chefe da Filial, atuando como moderador, já havia iniciado a execução. Ele não parecia se importar nem um pouco se eu estava mentalmente preparado.

“No que diz respeito ao incidente envolvendo meu filho e a mim, peço sinceras desculpas por causar preocupação.”

   Quando abaixei a cabeça, os flashes apenas se intensificaram.

   Entre eles, havia murmúrios descarados como: “A gente não está preocupado”, e “Anda logo e conta a verdade”. Meu coração já estava despedaçado. Eu queria fugir daquele lugar o mais rápido possível.

“Vereador — é verdade que, para acobertar o incidente de agressão cometido por seu filho, o senhor ameaçou a escola e a família da vítima?”

“Como o senhor pretende assumir a responsabilidade perante os cidadãos que votaram no senhor?”

“O senhor tem consciência de que cometeu um ato claramente criminoso?”

   As perguntas vinham em rajadas. A essa altura, já era pura vaia.

“Quanto a isso, como uma investigação está atualmente em andamento, eu gostaria de me abster de entrar em detalhes…”

   Falei de acordo com o roteiro de perguntas e respostas preparado em minha cabeça, mas isso apenas jogou mais lenha na fogueira. Antes mesmo de eu terminar, gritos furiosos voaram na minha direção.

“Essa desculpa não vai colar!”

“Pare de fazer os cidadãos de idiotas!”

“Com aquela gravação circulando, o senhor ainda acha que pode se safar!?”

“O que foi aquele ‘calem a boca’ desta manhã, afinal!?”

   Cambaleando sob a enxurrada de insultos, eu sentia o suor escorrer pelas minhas costas. Essas pessoas eram as mesmas que, até ontem, não faziam nada além de se curvar e bajular diante de mim.

“Quando chegar o momento, eu definitivamente falarei sobre isso.”

   Essas palavras apenas fizeram a situação se inflamar ainda mais.

   Os repórteres se levantaram de suas cadeiras e começaram a se mover como se fossem saltar sobre mim.

[Almeranto: Essa parte me lembrou muito um meme do réu pulando em cima da juíza kkkkkk.]

   O Chefe da Filial, atuando como moderador, bradou: “Todos, por favor, acalmem-se. Kondo-kun, você tem a obrigação de explicar. Responda adequadamente.” Eu estava falando estritamente de acordo com o roteiro que você mesmo havia feito. Maldição, maldição, maldição! Que se dane tudo! Eu vou contar tudo!

“Sobre este assunto, eu apenas agi pensando no futuro do meu filho, e… eu não estive envolvido em nenhuma violência direta. Meu filho fez isso por conta própria.”

   Naquele momento, os flashes das câmeras atingiram o seu auge.

“Então não foi o seu secretário — seu filho fez isso sozinho, é?”

“Isso é basicamente uma admissão.”

“Isso é terrivelmente grave.”

   Havia até risadinhas misturadas.

“Quanto às supostas ameaças, eu apenas fiquei abalado com a prisão do meu filho, e não tive a intenção de falar de forma tão forte. Eu entrei em pânico, falei errado. Foi só isso…”

   Lágrimas começaram a cair antes que eu percebesse, por causa da tensão e da ansiedade. Eu não conseguia parar de soluçar.

“Chamar aquela gravação de ‘erro de fala’…”

“O olhar dele não está meio estranho?”

“Ele começou a chorar.”

   Minha voz deixou de sair direito.

“Eu trabalhei tanto até agorrrra. E mesmo assim, e mesmo assim… e de qualquer forma, Chefe da Filial, o senhor também é terrível, não é? O senhor sempre depende de mim quando o assunto é dinheirrrro. Mas numa hora dessas, me descarta imediatamente. O senhor tem ideia de quanto eu o apoiei até chegar à sua posição atualrrr?”

   Eu deixei escapar algo que jamais deveria ter dito. Quando fui encurralado, eu havia planejado confessar tudo. Ótimo. Estava tudo bem. Eu fiz isso. Se eu fosse cair, o Chefe da Filial cairia comigo.

“O que você está dizendo, seu idiota!? Por mais que seja mentira, não é algo que se diga!”

   Ver o pânico do Chefe da Filial reduziu um pouco o meu ressentimento. Mas isso também deveria ter sido algo que eu não podia revelar nem pelo meu próprio bem — ainda assim, na minha incapacidade de pensar normalmente, eu não consegui perceber isso.

   Não havia como os repórteres deixarem passar uma presa tão suculenta.

“Então o senhor quer dizer fundos ilegais!”

“Vereador — o senhor está admitindo que subornou pessoas?”

“Isso foi devidamente processado na contabilidade?”

   Os repórteres, hipersensíveis ao cheiro de furos e assuntos exclusivos, apenas ficavam cada vez mais exaltados.

   O caos absoluto se instaurou.

   O Chefe da Filial protestava desesperadamente: “Não, isso é um mal-entendido. O vereador Kondo está apenas dizendo isso em desespero, então, por favor, acalmem-se!” Não era mentira. Em troca de apoiar minha posse como prefeito, eu vinha entregando fundos ilegais ao Chefe da Filial. Se isso viesse à tona, deveria se tornar um grande escândalo.

   Mas esse caos foi silenciado por um único homem.

   Passos ecoaram no salão barulhento. Naquele instante, todos se viraram para olhar naquela direção. Um único homem de meia-idade, com as costas eretas, subiu lentamente ao palco. Eu percebi imediatamente quem ele era. Naquele lugar, não deveria haver ninguém que não o conhecesse.

“Por que ele está aqui…?”

“É coisa séria.”

“Por que o número dois do partido governista está aqui?”

   O homem que havia subido ao palco sentou-se lentamente ao meu lado.

“Responderei às perguntas no lugar dos dois.”

   Com um sorriso suave, ele declarou isso com confiança.

   As palavras escaparam de mim antes que eu pudesse impedi-las.

“Secretário-Geral Ugaki…”

   Uma grande figura que era o número dois do partido governista e que detinha a autoridade sobre pessoal e orçamento do partido. O monstro que havia alcançado essa posição na idade mais jovem da história — quarenta e cinco anos — também era chamado de “primeiro-ministro das sombras” por seu poder financeiro e influência política.

   Esse homem poderoso murmurou em voz baixa, de um jeito que ninguém além de mim podia ouvir.

“Kondo-kun. Você está preparado para isso, certo?”

   O Secretário-Geral sorria de forma amigável, como sempre, mas seus olhos não sorriam. Ele tinha um olhar afiado, cheio de raiva. Gostando ou não, aquilo me fez perceber que eu havia pisado no rabo de um tigre.

“Hã…?”

“Escute com atenção. Em disputas de poder político entre políticos, você não pode usar palavras como ‘ameaça’. Se não tiver a determinação de esmagar o outro, então não se meta nisso com tanta facilidade.”

   Aquelas palavras foram uma declaração de guerra direcionada a mim — um aviso intimidante e furioso, dito de modo que apenas eu pudesse ouvir naquele local.

   E a elite verdadeiramente privilegiada se livrou de mim sem o menor traço de piedade, como se eu fosse uma formiga prestes a ser esmagada sob o pé de um elefante, enquanto ele segurava a caneta guardada no bolso interno do paletó.

“Pois bem, a todos aqui presentes, eu gostaria de oferecer também minhas mais profundas desculpas em relação ao caso do vereador Kondo. Sinto muito.”

   O Secretário-Geral simplesmente inclinou a cabeça. O local explodiu em alvoroço diante de um pedido de desculpas vindo de uma figura tão poderosa. — Ele não deveria ter tido absolutamente nada a ver com esse assunto desde o início. Por que estava se desculpando? — A maioria das pessoas, eu incluído, pensou isso.

“E quanto a essa conduta imprópria, da nossa parte também, em nome da conformidade e da disciplina partidária, conduzimos uma investigação minuciosa. Ele é um vereador… e, para a confiança dos eleitores, carrega o dever de prestar explicações. Essa investigação foi realizada como uma medida de autocorreção. E, como um fato veio à tona, gostaria de aproveitar esta oportunidade para explicá-lo.”

   Suor que grudava escorria da minha testa.

“Primeiro, há duas coisas que descobrimos. Parece que as ameaças feitas pelo vereador Kondo eram realizadas de forma rotineira para encobrir as irregularidades cometidas por seu filho. Quanto aos detalhes, já submetemos as provas à polícia, portanto tudo o que podemos fazer agora é aguardar o julgamento dos tribunais.”

     O que esse homem estava dizendo? — Quando ele investigou isso? Era verdade que, por causa do problema do meu filho, eu havia praticado atos que, na prática, eram ameaças mais de uma vez. Mas eu deveria ter lidado com isso em segredo. — Provas? Alguém me traiu? Alguém da minha empresa? Droga — o que estava acontecendo?

“E quanto à questão financeira que o próprio vereador Kondo acabou de confessar, quando o partido revisou seus documentos contábeis e os relatórios de balanço de fundos políticos, encontramos múltiplos indícios de falsificação e ocultação. O que distribuiremos a vocês agora são as provas disso. Vereador Kondo, por favor, dê uma olhada também.”

   Eu senti meu rosto ficar mortalmente pálido. O sangue pareceu drenar do meu corpo.

   Compra de votos e subornos a figuras influentes, como o chefe de filial. Para isso, eu falsificava documentos e reunia dinheiro restante para poder usá-lo livremente. E, com esses subornos, eu deveria consolidar minha posição na câmara municipal e finalmente abrir caminho para a eleição de prefeito.

   Tudo havia sido completamente exposto. Ele pretendia me descartar.

“Você tem alguma desculpa, Kondo-kun? Sua expulsão já está decidida. Nós já registramos um relatório junto à polícia também. Você e o chefe de filial servirão como sacrifícios. Também já confirmamos, mais ou menos, para onde fluíram seus subornos dentro da organização central. Se fizermos você assumir a culpa rapidamente, os danos serão menores. Até o fim, isso é responsabilidade sua, e não há risco de que as feridas se espalhem ainda mais. E eu também posso ganhar o favor daquela facção com a qual você é próximo. São só vantagens, não acha?”

   Ele murmurou isso em um sussurro que, com absoluta certeza, apenas eu podia ouvir. Era uma declaração de xeque-mate. Eu já não podia fazer nada.

   Tudo o que eu conseguia pensar, quase como se fosse problema de outra pessoa, era que ele tratava pessoas como brinquedos.

“Não… quer dizer, eu dediquei minha vida até agora… trabalhei de forma tão desesperada por todos… depois de me tornar prefeito, eu iria entrar na política nacional… É mentira, é mentira, é mentira. Isso é demais. Waaaah. Minha vida está completamente arruinada!”

   Minhas emoções se tornaram um caos, e acabei soltando lamentações confusas e incoerentes.

   A imprensa imediatamente apontou suas câmeras para mim, ansiosa para noticiar aquilo como algo divertido.

   Ainda chorando, desci do palco e corri em direção à saída. Quando olhei para trás, vi o Secretário-Geral com um sorriso irônico, zombando de mim. A imprensa tentou me cercar, mas eu os afastei e abri a porta de saída. No entanto, vários policiais uniformizados estavam esperando ali.

“O senhor é Kondo-san, correto? Temos algumas perguntas a lhe fazer na delegacia, então, por favor, venha conosco.”

   Meus braços foram agarrados por policiais robustos que o Secretário-Geral provavelmente havia providenciado, e eles falaram comigo sobre procedimentos como mandados de prisão. Mas nada disso entrou na minha cabeça.

“Por que diabos eu tenho que ser preso? Eu sou um presidente de empresa e vereador — eu sou importante!”

   Ninguém reagiu a essa bravata vazia. Sendo praticamente carregado, fui levado para fora do hotel.

 

※※※

 

── Perspectiva da Miyuki ──

   Eu não conseguia mais esconder. Tomei minha decisão e fui até o quarto de hospital da minha mãe.

   Para explicar tudo.

   O quarto havia sido mudado à força para um quarto particular pelo pai do Senpai. Aparentemente, ele também havia deixado dinheiro, mas minha mãe o devolveu imediatamente. Ela não pretendia aceitar dinheiro para silenciar.

   Quando abri a porta do quarto, minha mãe estava assistindo a um programa matinal de variedades. Ele exibia justamente uma reportagem sobre o vereador Kondo. Ela encarava a tela sem expressão.

   Ela pareceu perceber imediatamente que se tratava do pai do Kondo-senpai, que havia vindo ao quarto antes.

“O que isso quer dizer?”

   Minha mãe já havia entendido tudo. As reportagens diziam que o filho do vereador havia causado um incidente violento contra um estudante da mesma escola e que ele havia sido um dos instigadores do bullying.

   Tudo estava conectado — como causamos o incidente violento contra o Eiji e como criamos a faísca que deu início ao problema de bullying dele.

   A voz da minha mãe havia se tornado mais fria e mais sombria do que eu jamais tinha ouvido.

“Desculpa. O Eiji me viu o traindo, e o Senpai usou da violência contra o Eiji. Não apenas fingi que não vi, como joguei a culpa no Eiji para me proteger e incentivei o bullying. Foi tudo culpa minha. Eu empurrei o Eiji até a beira do suicídio.”

   Ao ouvir isso, minha mãe ficou pálida como papel, abaixou os olhos com tristeza e começou a tremer. Só de ver aquilo, senti meu coração sendo esmagado por culpa e arrependimento.

   Minha mãe, normalmente gentil e amável, levantou-se de forma trêmula com seu corpo instável, ficou na minha frente e, sem dizer uma palavra, bateu com força na minha bochecha. 

   Ela me bateu de novo e de novo. Por um instante, eu não entendi o que havia acontecido, mas pensei que era apenas natural.

   Porque tudo foi culpa minha.

“Por que você fez algo tão irreparável!? Você não apenas traiu o Eiji-kun — você deixou feridas que nunca vão desaparecer… Não importa o quanto se desculpe, você não pode compensar isso. Por quê, com um garoto tão gentil que era seu amigo de infância…? Por que você retribuiu bondade com traição…?”

   Sua voz trêmula sacudiu até o meu próprio coração.

   Eu não conseguia chorar. Porque eu era a culpada. Eu não tinha o direito de chorar.

   Tantas memórias preciosas do tempo que passei com o Eiji voltaram de uma vez. A lembrança de nós três indo juntos ao parque de diversões. A lembrança de almoçarmos juntos, felizes. A lembrança dele me confortando quando eu chorava. Tudo isso, tudo isso — eu manchei.

“Desculpa. Acho que fiz algo imperdoável. Eles também me disseram que haverá punição disciplinar da escola. Fiz algo pelo qual não posso reparar. Mesmo que leve a minha vida inteira, eu vou pedir desculpas e compensar o Eiji.”

   Minha mãe, que viveu apenas comigo todo esse tempo, mostrou desespero no rosto e tremeu enquanto chorava.

“Não diga isso de forma tão leviana! Não é algo tão simples assim…… isso é……”

   Ela espremeu as palavras enquanto tentava cumprir sua responsabilidade como mãe. Eu realmente pensei que era a pior pessoa possível.

“Eu não consigo encarar o Eiji-kun, e não consigo encarar a Aono-san. Não sei como compensar. Eu não sei. Você vai ter que viver a sua vida inteira carregando esse fato. Como você não entendeu o que isso significava?”

“……”

   Eu não conseguia mais encontrar palavras. Minha mãe tentou sair do quarto de hospital, de forma cambaleante.

“Mãe, espera! O médico disse que você também precisa ficar em repouso—”

   Ela se livrou da minha tentativa de detê-la e tentou seguir em frente.

“Eu preciso pedir desculpas. Se eu não for, quem vai? Eu preciso pedir desculpas direito, pelo menos. Eu preciso compensar, nem que seja um pouco……”

   Eu não conseguia me perdoar por fazer minha mãe, acamada, sentir tamanha responsabilidade.

   Mesmo sendo uma das envolvidas, até agora eu havia agido como se fosse, de alguma forma, problema de outra pessoa. No verdadeiro sentido, eu percebi meu próprio pecado.

   A versão mais baixa de mim, que traiu e enganou o gentil Eiji.

   A versão mais baixa de mim, que lançou violência verbal contra o Eiji enquanto ele estava sendo agredido.

   A versão mais baixa de mim, que espalhou boatos maldosos para se proteger e empurrou o Eiji até a beira do suicídio.

     Por que eu ainda estava viva?  — Eu já não conseguia me perdoar por ter feito algo tão vil como ser humano. O auto-ódio envolveu tudo.

   Do lado de fora do quarto, enfermeiras haviam se reunido e tentavam parar minha mãe.

   Eu saí correndo do quarto. Eu não havia entendido o verdadeiro desespero. Meu pensamento havia sido ingênuo. Eu tinha ferido minha mãe a esse ponto. Isso me aterrorizou além de qualquer ajuda.

   Eu me lembrei do Eiji. Lembrei-me também da mãe do Eiji. Os dois também deveriam ter sido meus benfeitores…… e eu esqueci isso e acabei retribuindo bondade com traição. Por que eu era tão tola? Por que esqueci o que realmente importava? — Eu me deixei consumir por uma chama momentânea de romance e joguei tudo fora.

     Naquela época, se eu tivesse ficado ao lado do Eiji depois que ele foi atingido pelo Kondo-senpai e caiu, meus sentimentos teriam sido um pouco mais leves?

   Não. Não era isso. Em primeiro lugar, se eu não tivesse traído — se eu não tivesse disfarçado com palavras como “é só uma brincadeira” e tentado jogar fora a coisa mais importante para mim, eu não achava que isso teria terminado assim.

   Se eu dissesse que nunca imaginei isso, seria mentira. Um futuro em que eu ficasse ao lado do Eiji assim para sempre. Deveria ter sido um futuro tão quente e gentil.

“Por que eu sou tão idiota?”

   Auto-ódio e culpa. E o pedido de desculpas por arrastar o Eiji e minha mãe para isso. O fato de eu ter levado mentalmente alguém que eu amava à beira da morte.

   O que minha mãe disse me fez perceber o peso do meu pecado.

   Eu deveria simplesmente morrer. Eu não tinha mais lugar na escola. Eu havia perdido a confiança do Eiji e da minha mãe também. Todos os meus amigos tinham ido embora.

   Tudo o que restava era culpa e um auto-ódio inabalável.

   Eu fui para casa e troquei de roupa, vestindo meu uniforme. Depois, saí. Me enojava o fato de que até aqui havia uma parte de mim se movendo de forma calculada. Eu percebi mais uma vez que era alguém que não tinha permissão para viver.

   Antes que eu percebesse, meus pés estavam me levando em direção à escola. Não — já que eu tinha colocado o uniforme e saído, talvez eu tivesse a intenção de vir para cá desde o início. Parecia que eu não era eu mesma. Esse lugar só guardava memórias divertidas. O caminho até a escola também. As lembranças de caminhar todos os dias, rindo junto com o Eiji, agora haviam se tornado uma arma que feria meu coração.

   Eu iria acabar com tudo.

   Contornei até a entrada dos fundos e me infiltrei no prédio da escola. As aulas ainda estavam em andamento, então não havia ninguém nos corredores. Eu deveria estar proibida de entrar por estar suspensa, mas já não me importava mais com isso.

   Pelo menos, para o meu fim, eu queria terminar olhando para um lugar cheio de memórias felizes. Eu queria jogar tudo fora. Eu queria que acabasse.

   Olhei para o meu celular, que não parava de vibrar com notificações desde ontem. A maioria eram mensagens abusivas da Ritsu e dos alunos do clube de futebol. Misturadas a elas havia chamadas perdidas do professor Takayanagi e do professor Mitsui. Ainda nem era hora do almoço. — Ah, como eles eram boas pessoas. — Estavam tentando me lançar uma corda de salvação, até para alguém tão horrível quanto eu. Mas eu iria traí-los também.

   Não importava o que fosse, eu só conseguia viver de forma egoísta. Eu havia ouvido do Kondo-senpai que a fechadura do terraço desta escola estava quebrada, e que os alunos conseguiam entrar. Se eu fosse acabar com tudo, era perfeito.

   Se não estivesse aberto, eu desistiria. Poderia ir para outro lugar.

   Eu subi silenciosamente as escadas que levavam ao terraço.

   Só mais um pouco. Do lado de fora, um céu azul deveria estar se estendendo. Até aquela beleza parecia um símbolo de condenação para mim. Eu girei a maçaneta da porta que dava acesso ao terraço.

“Huh?”

   Algo estava errado. A fechadura deveria ter aberto se eu girasse a maçaneta para o outro lado, mas ela não girava de jeito nenhum. Por quê?

   Ouvi passos de alguém na escada. O som se aproximava lentamente. Eu também conseguia ver uma silhueta.

   Era alguém que eu conhecia.

   Alguém que possuía tudo aquilo que eu havia deixado escapar me encarava com um olhar firme. Como se reagisse a isso, palavras duras escaparam de mim.

“Por que você está aqui…… Ichijou Ai?!”

   O rosto dela era tão bonito que eu não conseguia deixar de encarar, e ela usava uma expressão tão melancólica. Até eu, sendo outra garota, quase a confundi com um anjo. Senti inveja. Havia uma parte de mim que a ressentia por ela ter tudo — inclusive o Eiji.

“Amada-san, sou eu quem deveria estar perguntando isso. Por que você está aqui? A escola não deveria ter ordenado que você permanecesse suspensa? E ainda assim você está até usando o uniforme e parada aqui. Isso não é normal.”

“Isso é…”

   Minha posição era obviamente pior, e eu fiquei sem palavras.

“É inútil. Fiz uma denúncia anônima e pedi que os professores consertassem a fechadura da porta que leva ao terraço. Eu estava fazendo isso para pôr um fim aos meus próprios sentimentos, mas no final acabou sendo útil de outra forma.”

     Por que essa garota continuava entrando tanto nos meus nervos assim? Por que ela só fazia coisas que eu odiava?

“Por que você não me deixa nem ao menos acabar com tudo?”

   Diante da minha voz suplicante, ela fechou os olhos com força e soltou um longo suspiro. Então continuou.

“Acabar com tudo, você diz. Eu entendo que não tenho o direito de dizer nada para você. Mas eu não vou deixar você ir mais longe.”

   Aquele tom condenatório fez uma pequena faísca de raiva surgir dentro de mim.

“Isso não tem nada a ver com você! Por que você está aqui? Me responde!”

   As palavras saíram mais duras do que eu pretendia. Ela respirou fundo e continuou.

“Vou me desculpar primeiro. Eu pedi para alguém ficar de olho em você, para que não fizesse nada estranho. Achei que você pudesse agir de forma imprudente. Recebi um relatório dizendo que você estava se comportando de maneira anormal, então vim até aqui.”

   Senti um medo tão forte que o sangue sumiu do meu rosto. — Por que ela estava desconfiada de mim a ponto de fazer algo assim? — E comecei a temer o poder que essa veterana mais nova possuía — poder suficiente para isso.

“Por quê…”

“Pergunte ao seu próprio coração. E você absolutamente não pode ir mais longe. Pare. Você ainda pode voltar atrás agora.”

       Por quê, por quê, por quê?

       Alguém tão abençoada quanto você jamais poderia entender como é viver em uma casa com apenas uma mãe, ou o quanto eu estava sofrendo naquele momento!

       Por que você não me deixa morrer? Eu nem tenho a liberdade de morrer?

“Cale-se. Alguém tão abençoada quanto você jamais poderia entender como eu me sinto.”

   Ela me lançou um olhar de desprezo.

“Talvez isso seja verdade. Mas até quando você vai continuar fingindo ser a heroína trágica…? Se continuar assim, vai permanecer desse jeito para sempre.”

   Aquelas palavras rasgaram meu coração em pedaços.

“Não fale comigo de cima para baixo quando você nem sabe como eu me sinto!”

“Eu não posso fazer isso. Você entende que, se você se matar aqui, o Senpai vai se machucar? Depois de ter sido traído e enganado pela amiga de infância com quem sempre esteve junto, você realmente tem o direito de machucá-lo ainda mais de forma egoísta? Como você pôde ter sido próxima de pessoas tão gentis e ainda assim não entender algo tão simples? Você era a namorada do Senpai, então pense ao menos um pouco nele. Por que você tem o direito de prejudicar o futuro dele? Até onde você precisa espalhar feridas que vão durar a vida inteira antes de ficar satisfeita? No fim das contas, você realmente amava o Senpai?”

   Diante dessas palavras cheias de dor, senti minhas convicções começarem a ruir.

“Isso não é verdade… eu… eu me importava com o Eiji…”

   Mas o anjo cheio de compaixão facilmente ultrapassou até meu instinto de autopreservação e arremessou contra mim o amor dela pelo Eiji.

“Então por que você foi capaz de escolher uma opção que machuca tanto o Senpai? No fim, Amada-san, você só pensa em si mesma. É por isso que você consegue escolher tão facilmente ações que ferem as pessoas ao seu redor. Você realmente entende o quanto o Senpai e a mãe dele ficaram feridos ao serem traídos pela garota que eles viam como parte da família? Sua mãe te criou até agora para que você fizesse algo assim? Sozinha, como mãe solteira. Se você tivesse dado sequer um passo além dessa porta, não teria mais como parar. E você teria acabado machucando todo mundo. Suas mentiras mudaram a vida de tantas pessoas. Você não pode simplesmente fugir desse pecado e morrer sozinha. Já chega — pare de abusar dos outros desse jeito!”

   Ao ouvir a verdade, meu coração ficava cada vez mais confuso. Mesmo assim, eu não podia recuar. Eu não podia recuar. Se eu fosse fugir deste lugar.

“Cala a boca, cala a boca, cala a boca. Não diga o que quiser quando você nem sabe como eu me sinto. Não existe a menor chance de alguém tão abençoada quanto você entender como eu me sinto agora.”

   Mesmo depois de eu rejeitá-la com tanta força, ela me negou ainda mais.

“Então o que você sabe sobre mim? Eu me esforcei desesperadamente para entender você. Mas você nunca tentou sequer me conhecer. Foi a mesma coisa com ele. Se não fosse por ele, eu nem teria vontade de entender por que uma pessoa egoísta como você consegue machucar os outros com tanta facilidade. Eu não entendo por que alguém tão egocêntrica quanto você está viva no lugar da minha mãe que era tão gentil. Não diga de forma irresponsável que eu sou ‘abençoada’ sempre que quiser. Então você viveria a minha vida no meu lugar? Você devolveria minha mãe… devolveria minha família preciosa para mim?”

   Quanto mais ela falava, mais calmo seu tom se tornava. Ainda assim, aquelas palavras silenciosamente poderosas não tinham nada da leveza frívola de uma idol escolar. Eram as palavras de alguém que estava vivendo desesperadamente o presente. E eu estava sendo forçada a perceber a minha própria superficialidade.

“Isso é…”

   Eu não consegui evitar ficar sem palavras. Ela segurou meu ombro. Foi muito gentil.

“No dia em que conheci o Senpai pela primeira vez. Ele estava prestes a pular do terraço, logo depois daqui.”

   Senti meu corpo esfriar de repente. Havia algo que eu não sabia. Foi essa a sensação que tive ao ouvir aquilo.

“……”

   Quando eu não consegui dizer nada, ela continuou, como se avançasse em direção a uma resposta cruel.

“Foi aqui que nos conhecemos pela primeira vez.”

   Algo realmente estava errado. Minhas palavras cruéis de instantes atrás voltaram e atingiram meu coração com uma dor surda, como um bumerangue afiado.

“Você não consegue imaginar por que eu estava ali?”

   Fui forçada a encarar o verdadeiro significado das palavras duras que ela havia dito antes — e também das minhas próprias palavras superficiais. Percebi que as palavras dela, carregadas de uma intensidade desesperada, não eram direcionadas apenas a mim, mas também a ela mesma. Mesmo enquanto mexia em sua própria ferida antiga, ela ainda vinha até mim com uma determinação feroz para proteger o Eiji e os outros.

“Eu perdi alguém preciosa por minha causa. Isso é algo que não pode ser desfeito. E eu também estava prestes a fazer outra coisa que não podia ser desfeita. É por isso que estou te impedindo. Porque é algo que me foi ensinado pelo Aono Eiji-senpai, no terraço logo à frente. No fim, você vai ser salva por um homem chamado Aono Eiji. Eu só estou agindo da mesma forma que ele agiu.”

   Dizendo isso como se estivesse me guiando, ela deixou o local. Eu não consegui dizer nada, e tudo o que pude fazer foi desabar ali mesmo.

“Alguém como eu… realmente está bem?”

   No final, ouvi uma voz fraca de Ichijou Ai, como se fosse uma prece.

   Alguns professores vieram em minha direção, passando por ela enquanto chegavam.



 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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