Volume 1
Capítulo 27: Demônios Metálicos
O metal ainda vibrava.
Os tentáculos continuavam surgindo em ondas, como se o chão respirasse violência,
empurrando formas para fora a cada pulsar invisível. O espaço inteiro havia perdido
qualquer estabilidade, distância, direção, até peso pareciam oscilar em pequenas
variações que forçavam o corpo a se ajustar a cada segundo.
Vance cerrou os dentes e se forçou a ignorar a dor cortante que surgia em partes de
seu corpo.
Um tentáculo metálico rasgou o ar em sua direção, surgindo do chão com velocidade
brutal. Ele se jogou para o lado praticamente em um susto.
O golpe passou raspando.
O deslocamento de ar atingiu o corpo dele como uma pancada invisível, empurrando o
equilíbrio por um instante. A ponta do tentáculo ainda encontrou o ombro de leve, o
suficiente para arrancar tecido e deixar um risco quente que ardeu na hora.
Vance deslizou alguns centímetros no metal úmido antes de recuperar a base.
Os olhos voltaram para frente no mesmo instante.
A velocidade daquilo… era absurda. Seu tempo de reação mal conseguia acompanhar
seu avanço, ele não tinha nada além de susto.
Vance ergueu a arma quase no mesmo movimento em que recuperava o equilíbrio. O
braço alinhou, o olhar travou no segmento que ainda se reorganizava à frente, e os
disparos vieram em sequência.
O impacto foi imediato.
Faíscas curtas saltaram da superfície metálica. As balas bateram e desviaram,
ricocheteando em ângulos imprevisíveis, cortando o ar ao redor antes de
desaparecerem contra o restante da estrutura.
O tentáculo nem desacelerou.
A superfície dele absorveu o impacto como se aquilo fosse irrelevante, no máximo um
leve arranhão perdido entre as placas que já se ajustavam novamente.
Vance manteve a arma erguida por um segundo a mais.
O som dos disparos ainda ecoava, mas o resultado já estava claro. Não havia o que
fazer.
— Atenção! — a voz de Raff cortou o comunicador, firme, atravessando o ruído
metálico ao redor — Encontrei a fonte desses tentáculos.
Um segundo de silencio se fez presente.
— Segurem por mais vinte segundos.
Vance soltou o ar pelo nariz, se obrigando a ajustar a postura.
— É hoje que eu morro... — ele murmurou, ironicamente.
Vance varreu o olhar pelo campo ao redor, buscando algum padrão no meio do caos
que se rearranjava a cada instante. O som do metal se chocando preenchia o espaço,
vibrando pelas vigas e retornando pelo chão como um eco constante.
Lucian chamou atenção primeiro. Ele avançou no tempo exato em que um tentáculo se
erguia à sua frente, o corpo inteiro acompanhando o movimento como se já estivesse
ali antes do ataque acontecer. A estrutura que ele havia moldado respondeu junto,
subindo do chão e encontrando o segmento no meio do trajeto. O impacto abriu o
metal de cima a baixo, um rasgo irregular que espalhou faíscas e empurrou as placas
para lados opostos. O tentáculo perdeu forma por um instante, os segmentos
desalinhados antes de começarem a se reorganizar.
Aquilo abriu espaço.
Elena aproveitou sem hesitar. A lâmina descreveu um arco curto, atingindo outro ponto
em movimento e desviando a trajetória do ataque seguinte. O golpe não buscava
cortar, buscava guiar o proximo. Cada movimento dela criava pequenas brechas, e
essas brechas já eram ocupadas por alguém.
Aurelia cruzou uma delas com um passo leve, o corpo passando por um intervalo
estreito entre dois ataques que se fechavam logo depois. Dorian ajustava posição
alguns metros atrás, o olhar acompanhando as aberturas e fechamentos como se
estivesse lendo um padrão que ainda se formava. Hector mantinha o braço
parcialmente erguido, a postura firme, reagindo mais rápido a cada nova ruptura que
surgia ao redor.
O grupo se mantinha em movimento, ocupando o espaço que o ambiente permitia por
frações de segundo. Um tentáculo caía, outro surgia logo ao lado, o chão se abrindo e
fechando em sequência. Fragmentos continuavam cortando o ar, raspando
superfícies, marcando roupas e pele em linhas rápidas que ardiam e desapareciam
sob o ritmo do combate.
Vance estava tentando aprender o padrão. Cada vez que um deles conseguia
interromper um movimento, o espaço parecia respirar por um instante, mas o intervalo
se fechava rápido demais. Um tentáculo destruído deixava uma abertura curta, logo
preenchida por outro que surgia quase no mesmo ponto.
Ele ajustou a posição e acompanhou com a arma um dos segmentos que começava a
emergir. O disparo saiu no tempo certo, desviando levemente a trajetória do ataque,
criando espaço suficiente para Elena reagir e destruir. O som seco do tiro se perdeu
rápido no ruído ao redor, engolido pelo choque constante de metal contra metal.
— Nossa... — Vance murmurou, surpreso.
À frente, onde um tentáculo havia acabado de cair sob o golpe de Lucian, o chão já se
abria de novo. As placas cederam com um som arrastado e outro segmento começou a
subir, ocupando o mesmo espaço como se nada tivesse acontecido antes.
Vance acompanhou aquilo sem desviar o olhar.
O ritmo não quebrava.
Cada abertura durava menos que a anterior, cada resposta do ambiente vinha mais
rápida, mais ajustada ao que eles faziam. O espaço entre um ataque e outro encurtava,
exigindo mais precisão, mais leitura, mais movimento em menos tempo.
O ritmo subiu mais um degrau e o campo à frente virou um emaranhado de trajetórias
que se cruzavam sem espaço para leitura limpa. Vance acompanhou com a arma por
um instante, o cano tentando escolher um alvo no meio de corpos que se moviam
junto dos tentáculos, cada abertura se fechando antes mesmo de se formar por
completo.
Um disparo ali já não carregava margem de erro.
Ele sentiu o dedo travar antes de puxar o gatilho. A linha de tiro atravessava Elena por
um ângulo, cruzava Lucian por outro, e qualquer desvio mínimo ricochetearia em
direções impossíveis de prever. O som ao redor crescia, metal contra metal, estilhaços
riscando o ar, passos marcando o chão em sequências rápidas demais.
A arma permaneceu erguida por um segundo a mais.
O suficiente para perceber que insistir naquele ponto só aumentaria o risco.
Então o braço cedeu alguns centímetros.
Vance ficou imóvel no meio do fluxo.
Os movimentos continuaram ao redor dele, cortes passando perto, deslocamentos
abrindo e fechando espaço, o ar sendo empurrado por impactos que vinham de todos
os lados. Um tentáculo atravessou à frente, outro subiu atrás, fragmentos riscaram o
campo de visão em linhas rápidas.
E, ainda assim, ele permaneceu.
Os outros se moviam como se já conhecessem aquele espaço antes mesmo de pisar
nele. Corpos deslizavam por aberturas que surgiam e desapareciam no mesmo
instante, golpes encontravam pontos exatos entre os segmentos metálicos, desvios
aconteciam por margens mínimas que Vance mal conseguia enxergar. Cada ação
parecia encaixada em um ritmo que não chegava até ele.
O olhar dele tentou acompanhar por mais um momento, mas falhou.
As trajetórias se sobrepunham rápido demais, os intervalos se fechavam antes de se
tornarem claros, e o que restava era apenas um fluxo contínuo de movimento que ele
não conseguia ler por completo. O corpo permaneceu onde estava, preso em um ponto
que já não acompanhava o mundo ao redor.
Foi quando o ambiente respondeu.
Um tentáculo rompeu o chão à frente e veio direto, alinhado ao centro onde Vance
permanecia. O metal se estendeu em um avanço limpo, sem hesitação, ocupando o
espaço com velocidade suficiente para engolir qualquer reação atrasada.
O olhar encontrou o ataque.
O corpo ainda não tinha se movido.
— Minha nossa, o que se passava na cabeça de Raff. O que diabos eu estou fazendo
aqui…
A voz saiu baixa, quase perdida no próprio fôlego.
— …fraco demais…
O tentáculo já estava perto o suficiente para distorcer o ar ao redor.
E Vance ainda estava ali
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