Volume 1
Capítulo 25: Estrutura Viva
O gosto metálico ficou na boca por um instante.
Vance passou a língua pelos dentes, sentindo o resquício desaparecer enquanto a respiração encontrava um ritmo mais estável. A mão ainda pairava próxima ao rosto, como se o corpo aguardasse uma nova onda que não veio. Aos poucos, os dedos desceram.
O mundo ao redor já se mantinha firme.
Quase.
As linhas ainda carregavam pequenas distorções nas bordas, como se o lugar respirasse fora de compasso. As vigas acima pareciam longas demais em certos ângulos, curtas demais em outros. Sombras se acumulavam onde a luz não alcançava, mas não permaneciam exatamente no mesmo lugar por muito tempo.
— Se estabilizou? — a voz de Elena veio próxima, baixa.
Vance assentiu uma vez, ainda ajustando o foco.
— Dá pra seguir.
Ela observou por um segundo a mais, como se medisse a resposta além das palavras. Então voltou o olhar para frente.
— Vamos.
O ponto de chegada ficava logo após o portão principal. O chão sob os pés de Vance trazia a firmeza do metal gasto, marcado por anos de uso e abandono. Ao redor, tudo carregava o mesmo material frio — placas sobrepostas, vigas expostas, superfícies riscadas pelo tempo. O espaço lembrava uma fábrica em cada detalhe, mas com uma densidade a mais, como se o próprio ambiente tivesse acumulado camadas além do visível.
À frente, um caminho se estendia em linha quase reta, guiando o olhar até uma estrutura que dominava a área. A entrada surgia como um grande caixão metálico suspenso, sustentado por vigas e pilares que se cruzavam em ângulos rígidos, formando um bloco pesado, fechado sobre si mesmo. A abertura parecia próxima o suficiente para alcançar em poucos passos… mas algo na proporção fazia a distância oscilar, seu olho parecia falhar em momentos especificos.
Mas era para lá que seguiam.
Ao redor, o espaço se fragmentava em múltiplas camadas. Pequenas construções metálicas se espalhavam sem padrão claro, interligadas por tubos grossos que percorriam o chão e as paredes como veias expostas. Fios, e dessa vez fios fisicos, pendiam de pontos altos, alguns imóveis, outros balançando levemente, reagindo a correntes de ar que não tinham origem definida. Estruturas menores surgiam entre colunas maiores, criando passagens estreitas e zonas abertas que se alternavam de forma irregular.
Motores antigos repousavam em cantos específicos, silenciosos, mas ainda carregando presença, como se pudessem voltar a funcionar a qualquer momento. O conjunto inteiro se organizava como um labirinto de ferro, uma espécie de cidade construída sobre função e abandonada antes de terminar de se explicar.
Vance deixou o olhar percorrer o ambiente enquanto avançava.
A partir dali, o movimento se reorganizou.
O grupo se dividiu em pares com naturalidade, como se a formação já estivesse definida muito antes daquele momento. Lucian seguiu ao lado de Aurelia, os dois ajustando o ritmo sem trocar palavras. Hector se posicionou com Dorian, a postura de ambos alinhada, atentos ao ambiente de formas diferentes, mas complementares. Vance acabou ao lado de Elena.
O mapa que guiava a operação era direto ao ponto. A estrutura da instalação se distribuía em três níveis principais. Eles ocupavam o primeiro, uma camada mais ampla, com acesso relativamente aberto. Abaixo, dois níveis adicionais se estendiam, cada um mais profundo, mais comprimido, como se o próprio espaço fosse se fechando conforme desciam.
Elena e Vance receberam o trajeto mais direto.
O terceiro nível, o mais fundo.
A indicação não veio acompanhada de explicação longa. Bastou um gesto, uma troca de olhares, e a direção já estava definida. O caminho até lá exigiria atravessar o segundo nível, encontrar o acesso correto e continuar descendo, sempre em direção ao ponto onde a leitura de energia se concentrava com mais intensidade.
Raff não se juntou a nenhum dos grupos.
Ele permaneceu sozinho.
A presença dele ainda era ouvida em algum lugar dentro da estrutura, movendo-se em paralelo, fora do alcance imediato. Vance não deu muita importancia.
O foco já estava em outra coisa.
À frente, o interior da fábrica se aprofundava.
— Ei… você tem alguma ideia de como a gente chega no último nível? — Vance perguntou, mantendo o ritmo enquanto avançavam em direção à estrutura.
Elena não reduziu a velocidade. O olhar seguia fixo à frente, acompanhando o caminho que se moldava entre vigas e sombras.
— Tenho — respondeu, direta. — Dorian já leu o trajeto. Ele está mapeando as rotas em tempo real.
Vance franziu levemente a testa, ajustando o passo para acompanhar.
— Então a gente só segue no escuro até lá?
Elena desviou um pouco o corpo, contornando uma estrutura caída sem quebrar o ritmo.
— É por ai — disse, o tom estável. — Ele ajusta o caminho enquanto avançamos.
Uma pausa curta.
A voz de Dorian ecoou, baixa, mas clara o suficiente para cortar o som do ambiente:
— Preciso de três minutos. Mantenham posição e fluxo até lá.
Elena assentiu, mesmo sem ser vista.
— Ouviu — disse, sem olhar para Vance. — Três minutos.
O ritmo não mudou.
Até agora tinham se passado cerca de 10 segundos desde o inicio da operação.
À frente, a entrada se impunha.
Não mais como uma silhueta distante, mas como uma presença concreta, quase ao alcance da mão. A estrutura projetava sombra sobre o caminho, comprimindo o espaço conforme se aproximavam. As vigas metálicas se cruzavam acima deles, formando um teto irregular que parecia descer alguns centímetros a cada passo.
E então, no meio do movimento, o espaço cedeu.
A entrada — tão próxima que quase podia ser tocada — escorregou para longe. Não houve transição. Um instante ela ocupava todo o campo de visão, no seguinte, recuava vários metros, reposicionada como se o próprio ambiente a tivesse empurrado.
O caminho entre eles se alongou.
As vigas acima pareceram se rearranjar nas bordas da visão, e a abertura voltou a parecer distante, inalcançável por alguns passos.
— O que?!— a voz de Aurelia cortou o ar, como um grito alto, carregado de confusão. — Tava demorando...
Hector diminuiu meio passo, o olhar percorrendo as estruturas ao redor como se estivesse medindo algo além do visível.
— Vinculador… — murmurou, mais para confirmar do que para anunciar.
A mão dele roçou de leve o metal de uma das colunas. O contato foi curto, mas suficiente. O dedo se afastou no mesmo instante, como se tivesse tocado algo vivo.
— O lugar inteiro está impregnado — continuou, a voz baixa, pesada. — Como previsto, tem coisa presa aqui.
O olhar seguiu à frente.
— Isso vai ser dificil.
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