Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 24: Fábrica

Na madrugada chuvosa de julho de 2142, a operação ganhava forma em silêncio. A água escorria contínua pelo para-brisa, distorcendo as luzes fracas da rua e transformando o exterior em manchas instáveis de cor e sombra. O carro permanecia parado duas quadras distante da antiga fábrica, escondido entre estruturas esquecidas pelo tempo, enquanto o som da chuva preenchia o espaço com um ritmo constante e abafado.
Dentro, o ar carregava outra densidade. Raff ocupava o banco da frente, o olhar fixo em algum ponto além do vidro, como se já atravessasse mentalmente o caminho que ainda fariam. Elena mantinha a postura alinhada ao lado oposto, os dedos repousando próximos ao equipamento, prontos para se mover ao menor sinal. Mais atrás, Lucian ajustava a própria luva com movimentos precisos, enquanto Aurelia observava o reflexo distorcido da rua, acompanhando cada variação como se aquilo pudesse revelar algo além do óbvio. Dorian inclinava levemente a cabeça, atento a padrões que não estavam exatamente visíveis, e Hector permanecia imóvel, o peso do corpo distribuído de forma estável, como uma peça já encaixada no lugar certo.
Vance ocupava o espaço entre eles, mais quieto do que o habitual. A mão repousava próxima à adaga que por sinal Raff não se importou em deixa-lá com ele. O olhar percorria o interior do carro em silêncio, captando pequenos detalhes c respirações controladas, ajustes quase imperceptíveis, o tipo de preparação que não dependia de palavras. Do lado de fora, a fábrica se escondia além das ruas estreitas, um bloco escuro recortado contra o céu carregado, aguardando.
A operação ainda não havia começado. Mesmo assim, o movimento já existia.
O tempo avançava em camadas finas, marcado pelo som constante da chuva e pelo leve vibrar do motor desligado que ainda carregava calor recente. A cidade ao redor parecia distante, reduzida a ecos abafados e luzes dispersas que mal atravessavam o véu da madrugada. Dentro do carro, cada segundo se acumulava com propósito, como se todos ali já ocupassem mentalmente o espaço que ainda pisaria.
Raff levou a mão até um radio no colo, deslizando os dedos pela superfície com familiaridade. Um brilho discreto respondeu ao toque, projetando por um instante linhas suaves de luz que se desfizeram logo em seguida.
Vance acompanhava tudo em silêncio, absorvendo o padrão que se formava entre eles. Não havia troca de instruções, nem revisão de plano. Cada gesto bastava. A mão dele deslizou até a adaga, ajustando o encaixe com naturalidade.
Lá fora, um trovão distante atravessou o céu encoberto, e por um instante breve a rua se iluminou. A silhueta da fábrica surgiu no fundo, massiva, irregular, com estruturas que pareciam se sobrepor de forma errada, como se o próprio lugar resistisse a ser compreendido de uma vez só. A luz morreu tão rápido quanto veio, devolvendo tudo ao tom escuro e úmido da madrugada.
E então Vance se lembrou.
Ele ja tinha passado por essa rua antes, não se lembrava quando nem em que ocasião, mas por algum motivo ele se lembrava dessa paisagem.
Sem esperar por nada, Raff levantou seu braço com um sinal simples.
O gesto bastou.
As portas se abriram quase ao mesmo tempo, liberando o ar pesado do interior para a chuva fina que caía do lado de fora. O som mudou na hora, mais aberto, mais vivo. Um a um, eles saíram, ocupando a rua com passos firmes e silenciosos, já alinhados em formação sem precisar olhar uns para os outros.
Vance foi o último a sair.
Por um instante, ele ficou parado ao lado do carro, sentindo a chuva tocar o rosto, misturando frio com algo mais difícil de nomear.
Era a primeira vez que Vance realmente ouvia ele falar desde o bar. O tom carregava uma calma sólida, até impressionante dado o momento.
Vance soltou o ar pelo nariz, o olhar ainda à frente por um instante antes de responder.
— Não vou mentir… tem um pouco de medo aí.
Hector assentiu de leve, como se já esperasse.
— Medo, hm… — ele murmurou, ajustando o passo ao lado de Vance — isso faz parte. Na real, é o que mantém a gente vivo.
A chuva escorria pelo rosto dele, mas a expressão permanecia estável, quase confortável dentro daquele cenário.
— Todo mundo aqui sente — continuou, sem mudar o tom. — Eu tenho uma filha me esperando em casa… e outros aqui carregam algo parecido.
Ele lançou um olhar rápido para frente, acompanhando o movimento do grupo.
— E, sinceramente… pra dar tudo errado hoje, teria que acontecer algo bem fora da curva.
Uma pausa curta.
— A gente sabe o que tá fazendo.
— É… — ele murmurou, mais para si do que para Hector.
A mão deslizou de leve até a adaga, ajustando o encaixe por hábito. O gesto veio sem esforço, como se o corpo já começasse a se organizar por conta própria.
— Engraçado — continuou, depois de um instante — nunca tive muito o que perder.
Hector não respondeu de imediato. O olhar dele seguiu à frente por alguns segundos.
— Você que pensa… — disse por fim, baixo, quase misturado ao som da chuva. — valor a gente entende quando já passou.
Vance não respondeu, preferiu olhar para o céu e sentir as gotas marcarem sua pele.
— Chegou a hora — disse Raff, a voz firme o bastante para atravessar o som da chuva.
O visor do relógio marcava 03:59.
O braço dele se ergueu, e o ar à frente respondeu antes mesmo do gesto terminar. A chuva começou a se desviar do ponto, como se encontrasse uma superfície invisível. As gotas mudaram de trajetória, contornando algo que ainda se formava.
Então o espaço cedeu.
Uma fenda escura surgiu, vertical, precisa, cortando o ar como uma linha que não deveria existir. Não havia luz ali dentro — apenas profundidade. Um negro que não parecia vazio, mas cheio de algo impossível de enxergar por completo.
O som ao redor pareceu se comprimir.
A chuva continuava caindo, mas já não ocupava o mesmo espaço. As gotas desviavam da fenda como se obedecessem a uma regra invisível, contornando o limite com precisão quase antinatural. O ar ali não era mais o mesmo — mais denso, mais pesado, carregando um tipo de presença que não vinha de lugar nenhum específico, mas ainda assim estava em todo canto.
Lucian foi o primeiro a se mover. Um passo à frente, o corpo atravessou a linha escura e desapareceu sem resistência, como se tivesse sido absorvido por algo que já o esperava do outro lado.
Aurelia veio logo depois, o movimento fluido, contínuo, como se não houvesse diferença entre entrar e seguir. Dorian reduziu o passo por um instante mínimo, o suficiente para inclinar levemente a cabeça, como se tentasse captar alguma lógica naquele espaço dobrado. Então atravessou. Hector passou em seguida, sólido, sem desvio, como uma peça que simplesmente encaixa onde precisa estar.
Elena foi a última antes de Raff.
Ela parou ao lado dele por um segundo. O olhar encontrou o dele, curto, direto. Nada foi dito, mas algo ali fechou — um acordo silencioso, talvez. Então ela seguiu e desapareceu na escuridão.
Vance ficou.
A fenda à frente parecia maior agora, não em tamanho, mas em presença. O negro não era estático. Havia profundidade ali, camadas que não se revelavam por completo, como se olhar por tempo demais começasse a puxar mais do que devia.
A mão apertou levemente o cabo da adaga e conferiu o cabo de sua arma.
Ele deu um passo.
O passo atravessou a fenda e o mundo deslizou.
O chão surgiu sob o pé, firme, mas distante por um instante mínimo, como se o contato viesse com atraso. A visão abriu em camadas desalinhadas — vigas esticadas além do normal, sombras escorrendo pelas bordas, linhas que demoravam a se encontrar.
A dor veio junto.
Uma pressão atravessando a cabeça de dentro para fora, comprimindo pensamento e equilíbrio no mesmo lugar.
Vance travou no lugar.
O corpo reagiu primeiro, os músculos tensionando por todo o corpo. A mão subiu até a têmpora, os dedos pressionando como se procurassem manter tudo encaixado. Um zumbido tomou o espaço, contínuo, ocupando cada canto onde antes existia som.
A respiração falhou por um segundo.
As formas começaram a se organizar. Primeiro as maiores — paredes, vigas, o chão irregular sob os pés. Depois os detalhes — pontos de luz fraca no alto, sombras acumuladas nos cantos, partículas de poeira suspensas no ar denso.
O zumbido cedeu espaço.
Os sons voltaram aos poucos, abafados, como se viessem de dentro do próprio ambiente.
Vance soltou o ar com força, o peito expandindo mais do que o necessário, como se ele estivesse acabado de correr uma maratona.
A pressão atrás dos olhos permaneceu, pulsando leve, constante.
Vance manteve a mão no rosto por um instante a mais, os dedos ainda pressionando a lateral da cabeça. O olhar percorreu o ambiente enquanto a respiração encontrava ritmo.
— Pelo menos eu não vomitei sangue...— repetiu para si mesmo.

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