Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 23: Segunda Missão

Após uma tarde absorvendo instruções básicas de sobrevivência, Vance seguiu direto para casa.
Os dois dias seguintes passaram arrastados, sem grandes mudanças — tempo suficiente para o corpo se recompor e a mente reorganizar o que tinha aprendido.
Então, no momento exato em que o corpo de Vance começava a pedir mais ação, ela veio.
A segunda missão havia chegado.
— Esse é o local — Raff disse, projetando a imagem acima de um dispositivo quadrado. A luz azul recortou o ambiente enquanto o mapa tomava forma no ar. — Vamos precisar de força, muita.
Vance se aproximou.
A projeção se estabilizou, revelando um recorte urbano irregular, comprimido, com construções empilhadas sem padrão e corredores estreitos se cruzando em ângulos estranhos. No centro, uma estrutura maior se destacava — blocos pesados, industriais, marcados pelo tempo e pelo abandono.
— Favelas de Vallum — continuou Raff, apontando com dois dedos para a área mais densa. — E aqui…
O ponto central brilhou.
— Um depósito energético antigo, aparentemente desativado por risco à população.
Vance estreitou os olhos, acompanhando as linhas do mapa.
— Risco à população? — ele riu. — Como se eles se importassem.
Dentro da sala estava praticamente todo mundo que ele conhecera até então, desde Elena até os homens quietos da festa anterior. A reação geral era parecida — expressões fechadas, olhares trocados, um entendimento silencioso de que havia algo mal contado ali.
Vance passou o olhar pelo grupo, captando isso sem esforço.
— O plano é o seguinte — Raff puxou a atenção de volta para si, a voz firme o suficiente para cortar as conversas ao redor. — Eu vou abrir um portal direto para o interior da estrutura.
Ele fez um gesto curto, e a projeção respondeu. O dedo traçou uma linha que atravessava o portão principal sem tocá-lo, indo direto para além dele.
— Aqui.
O ponto destacado ficava logo após a primeira barreira física, já dentro do complexo, em um espaço de transição entre a entrada externa e os corredores internos.
— Evitamos a aproximação pela superfície e entramos direto na zona inicial — continuou. — Menos exposição, menos tempo perdido.
A área brilhou levemente, marcando o ponto de inserção.
— A partir daqui, começa a parte difícil — Raff seguiu, deixando o olhar percorrer o grupo antes de voltar à projeção. — Encontrar o item sem chamar atenção.
A pausa veio com intenção, suficiente para que todos percebessem que algo ainda estava sendo segurado.
— E, sim… eu ainda não expliquei exatamente o que estamos buscando.
O ambiente reagiu em silêncio, mas com movimento. Alguns trocaram olhares rápidos, outros ajustaram a postura como quem se prepara para algo maior. A tensão cresceu de forma contida, organizada.
Raff manteve o tom estável.
— Vocês vão entender melhor quando isso acabar. Mas, no geral… o item, na verdade, é um ser humano.
A frase percorreu a sala de forma diferente do esperado. O peso estava no contexto. Um dos homens encostados na parede soltou um riso seco, enquanto outro passou a mão pelo queixo, pensativo. Elena manteve o olhar fixo em Raff, os olhos mais estreitos, atentos.
Raff deixou aquele momento se formar antes de avançar.
— Arlith Ashlight. É ele quem vamos recuperar.
O nome se espalhou pela sala com um peso próprio. Um dos combatentes se afastou da parede, soltando o ar de uma vez, enquanto outro balançou a cabeça em um gesto curto. Pequenos sinais surgiram em sequência — olhares trocados, posturas ajustadas — todos apontando na mesma direção.
Lucian quebrou o silêncio primeiro, a voz baixa, carregada de descrença.
— Tá brincando…
Mais ao fundo, Aurelia inclinou levemente a cabeça, um meio sorriso surgindo sem pressa.
— Esse cara já não tinha morrido? — perguntou, o tom leve, mais provocação do que dúvida.
Alguns ao redor soltaram sopros curtos pelo nariz, quase risos, mas ninguém relaxou de verdade. O nome continuava ali, puxando memória e expectativa.
— Resumindo, Arlith não morreu, pelo menos não completamente — Raff disse. — Melhor dizendo… ele não está vivo o suficiente.
Elena deu um passo à frente.
— Estamos falando do mesmo Arlith? O que fundou os Irregulares?
— Exatamente — respondeu Raff. — O homem que trouxe a joia. O fundador.
O silêncio que se seguiu cresceu devagar até preencher tudo. O peso da missão começava a se reorganizar na cabeça de cada um.
Elena sustentou o olhar por mais alguns segundos antes de soltar o ar.
— Quem diria… — disse, mais baixa. — Um belo dia para encontrar uma lenda perdida em um lugar abandonado.
Lucian passou a mão pelo rosto, andando alguns passos antes de parar.
— Você podia ter começado por isso.
Raff permaneceu em silêncio.
Vance continuava imóvel, o olhar preso no ponto central da projeção. O nome ainda ecoava, agora acompanhado de algo mais sólido.
— “Não está vivo o suficiente”… — murmurou. — O que isso quer dizer?
Raff olhou para ele.
— Para ser sincero… eu também não sei.
A resposta trouxe um peso diferente. Não havia direção clara ali, apenas espaço aberto. Alguns desviaram o olhar, outros continuaram encarando Raff, esperando algo mais.
Nada veio.
A projeção continuava suspensa entre eles, o ponto central pulsando em um ritmo quase orgânico. Vance manteve os olhos ali por mais um instante, como se buscasse alguma resposta no próprio brilho.
— Então a gente entra… — disse ele, a voz mais baixa, organizada — encontra alguém em um estado desconhecido… e se adapta no caminho.
Raff assentiu uma vez.
— Errado. Ainda não cheguei na pior parte.
Ele ergueu a mão, e a projeção ampliou a estrutura central. Camadas internas se revelaram, corredores mais densos, áreas onde a energia parecia se concentrar com mais intensidade.
— Aqui é onde a coisa complica de verdade — disse, indicando uma região mais profunda. — A leitura mostra instabilidade crescente conforme nos aproximamos do núcleo. Interferência sensorial, distorção de espaço… e alterações de comportamento.
O grupo absorveu a informação sem interrupções.
Vance deu um passo à frente, o olhar acompanhando cada linha com mais intenção.
— Então o lugar inteiro responde a ele… ou ele responde ao lugar — disse Dorian.
Raff inclinou levemente a cabeça.
— É uma possibilidade.
Aurelia soltou um riso curto, sem humor.
— Ótimo. Ambiente vivo e alvo instável. Pelo menos temos um caminho.
Raff fechou a mão, e a projeção recuou ao formato inicial.
— Dez minutos — disse, firme. — A partir do momento em que entrarmos, temos dez minutos para sair.

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