Volume 1
Capítulo 26: Tentáculos
— Hector, onde ele está? — a voz de Elena atravessou o ambiente com precisão, firme o bastante para cortar o som irregular que preenchia o espaço.
Hector respondeu com movimento antes de qualquer palavra. O passo perdeu velocidade. O corpo encontrou outro ritmo, o braço esquerdo se ergueu devagar, estendendo-se à frente como se buscasse tocar um ponto específico no ar. Um dos olhos se fechou, e a respiração passou a seguir um compasso diferente do restante do grupo.
O ambiente pareceu acompanhar.
O metal ao redor vibrou em uma frequência quase imperceptível, um tremor leve correndo pelas vigas e superfícies próximas.
— Aguente um pouco… — ele disse praticamente murmurando.
Os dedos da mão suspensa se moveram milímetros, como se encontrassem resistência em algo que não ocupava espaço físico. O gesto era mínimo, praticamente invisivel.
Vance observava tentando entender.
O que Hector fazia não se encaixava em nenhum dos caminhos que ele já tinha visto ou ouvido. Não havia traço claro de força bruta, nem alteração direta, nem um vínculo definido com algo externo. Ainda assim, fragmentos de cada um pareciam presentes, parecia uma mistura.
— Parem! — a voz de Hector rasgou o espaço com força suficiente para travar o movimento de todos.
O impacto da ordem veio junto com a reação. Passos cortados no meio, botas marcando o metal com um som seco. O grupo inteiro congelou em uma mesma linha de tensão, como se cada corpo já soubesse exatamente até onde podia ir antes de quebrar o ritmo.
Hector já apontava.
O braço firme, o dedo alinhado para o alto.
— Ali.
Os olhares seguiram o gesto.
No topo da estrutura, entre vigas cruzadas e placas sobrepostas, algo se movia. Primeiro como uma distorção leve, quase confundida com o jogo de sombras. Depois ganhou forma — um apêndice metálico, longo, segmentado, deslizando pela superfície com uma fluidez que não combinava com o material.
Um tentáculo.
O movimento era sutil, controlado, como se testasse o ambiente antes de avançar mais. A superfície dele refletia a pouca luz em padrões irregulares, como se cada segmento respondesse de forma independente.
Por um instante, ficou ali.
Observando.
Então reagiu.
O metal ao redor se abriu para recebê-lo, e o tentáculo se recolheu para dentro da estrutura com um movimento rápido, limpo, desaparecendo como se nunca tivesse estado exposto.
— Em bai— — Hector começou.
O chão respondeu antes da frase terminar.
Um impacto surdo veio de baixo, seguido por uma ruptura violenta. O metal cedeu em uma explosão curta e concentrada, placas sendo empurradas para cima enquanto algo atravessava de dentro para fora.
O grupo se moveu no mesmo instante.
Mas o ataque já estava lá.
Um tentáculo emergiu do solo, maior, mais denso, formado pelo próprio metal ao redor. A superfície dele se moldava enquanto subia, placas se reorganizando em tempo real, criando uma estrutura flexível, viva.
O movimento veio rápido.
O ar foi cortado com um som pesado, deslocando poeira e fragmentos enquanto a massa metálica avançava.
Lucian recuou meio passo, o olhar fixo naquilo que acabava de surgir.
— Eu nem sabia que isso era possivel...— a voz saiu baixa, mais surpresa do que medo, enquanto o corpo já se preparava para reagir.
O impacto veio antes de qualquer resposta.
O tentáculo desceu em arco, pesado, carregando o próprio peso do metal reorganizado. O chão recebeu o golpe com um estrondo seco, placas se deformando sob a força, o som reverberando pelas estruturas ao redor como um pulso.
O grupo já tinha se espalhado.
Elena puxou Vance para a lateral no instante exato, o corpo dela se movendo com precisão quase automática. O ataque passou por onde eles estavam um segundo antes, raspando o espaço com violência suficiente para deslocar o ar e lançar fragmentos contra as paredes.
A resposta veio em movimento, cada um ocupando o próprio espaço dentro do caos que se formava.
Elena ergueu a mão, e o ar ao redor dela pareceu condensar. Linhas finas surgiram primeiro, quase invisíveis, cruzando-se em ângulos precisos até ganharem forma. O brilho frio tomou corpo em questão de segundos, se alongando, afinando nas extremidades, até se fixar em algo sólido — uma lâmina limpa, afiada, com um contorno que parecia cortar o próprio espaço ao redor.
Lucian seguiu por outro caminho.
Ele se abaixou e apoiou a mão no chão, os dedos pressionando o metal com firmeza. Por um instante, nada aconteceu. Então o impacto veio de dentro. A superfície reagiu ao toque, vibrando em ondas curtas que se espalharam em círculos. Placas começaram a se deslocar, peças antigas se reorganizando como se obedecessem a uma ordem silenciosa. Algo emergia dali, tomando forma a partir da própria estrutura.
Aurelia não ergueu arma alguma.
O corpo dela já estava pronto. O peso distribuído, o olhar preso no movimento dos tentáculos, acompanhando cada variação com precisão. Os passos eram leves, quase ausentes, mas carregavam intenção suficiente para preencher o espaço ao redor.
Vance observou por um instante, e decidiu.
A mão foi até a arma de fogo, puxando-a com um movimento direto. O metal frio encaixou na palma como uma extensão natural. As adagas permaneceram no cinto, imóveis. Diante daquilo que se movia ao redor, lâmina parecia curta demais para alcançar qualquer resultado.
E então, de repente, um som chegou como um rasgo contínuo, pesado, arranhando cada superfície ao redor. O metal vibrou antes mesmo da ruptura, um aviso curto que percorreu o chão até encontrar o ponto exato atrás de Dorian.
Então veio a explosão.
Placas se abriram em um arco violento, fragmentos lançados para cima enquanto algo atravessava de dentro para fora com força bruta. O tentáculo surgiu no centro da ruptura, subindo em espiral, os segmentos se encaixando enquanto ganhavam forma. Cada parte dele parecia decidir o próprio lugar no instante em que existia, ajustando-se em um fluxo constante.
Ele já tinha se movido.
O corpo deslizou para o lado em um único passo, preciso e calculado. O ataque passou pelo espaço que ele ocupava um segundo antes, o deslocamento de ar puxando o tecido contra o corpo dele. O impacto veio logo depois, o tentáculo atingindo o chão com um peso que reverberou por toda a estrutura.
Um estilhaço cortou o ar em rotação e encontrou o ombro de Dorian com um impacto seco. O corpo dele absorveu o golpe sem sair do lugar, mas o tecido rasgou, e o sangue começou a descer em um fio escuro pelo braço, marcando o metal abaixo em gotas espaçadas.
Hector já estava ao lado.
O olhar dele caiu direto no ferimento, avaliando sem precisar tocar.
— Foi profundo? — perguntou, a voz baixa, firme, encaixada no ritmo da movimentação ao redor.
Dorian girou levemente o ombro, sentindo o alcance do corte. O rosto permaneceu estável, como se ele nem sentisse dor.
— Não — respondeu, ajustando a postura. — Bem superficial.
O sangue ainda descia pelo braço de Dorian quando o chão voltou a vibrar.
Dessa vez, o tremor veio mais amplo, espalhando-se em todas as direções como uma onda comprimida sob o metal. As placas sob os pés do grupo emitiram um rangido profundo, longo demais para ser apenas consequência do impacto anterior. A estrutura inteira pareceu prender o ar por um instante.
Então cedeu.
Rupturas surgiram em sequência, rasgando o chão em múltiplos pontos. Primeiro uma, depois três, depois várias ao mesmo tempo. O metal se abriu em explosões curtas e violentas, lançando fragmentos para cima enquanto algo atravessava de dentro para fora com força crescente.
Tentáculos, um atrás do outro, surgindo sem padrão definido, ocupando o espaço ao redor como se o próprio chão tivesse decidido reagir. Alguns mais finos, rápidos, cortando o ar em linhas precisas. Outros densos, pesados, se arrastando com peso suficiente para deformar o metal ao redor a cada movimento.
O impacto dos estilhaços veio junto.
Fragmentos giraram no ar em alta velocidade, ricocheteando nas vigas, raspando superfícies, cruzando o espaço entre eles sem direção clara. O som metálico se espalhou em camadas, seco, constante, preenchendo cada intervalo.
Vance sentiu o primeiro corte no antebraço.
Rápido, superficial, quase um arranhão mais profundo. A pele abriu em uma linha fina, o ardor vindo logo depois. Outro fragmento passou rente ao rosto, traçando um risco leve próximo à mandíbula antes de desaparecer no chão atrás dele.
Ao lado, Elena girou o corpo no tempo exato, desviando de um estilhaço maior que passou onde o pescoço dela estava um instante antes. Ainda assim, um fragmento menor encontrou o braço, abrindo um corte fino que começou a marcar o tecido.
Lucian recuou um passo enquanto a estrutura que surgia sob sua mão ganhava forma. Um estilhaço atingiu o ombro dele de raspão, o impacto desviando parte do movimento, mas o foco permaneceu fixo no que construía.
Aurelia atravessou o espaço entre dois ataques com um deslocamento curto, preciso, quase leve demais para o caos ao redor. Mesmo assim, um fragmento encontrou a lateral da perna, deixando um corte estreito que logo escureceu o tecido.
Hector ergueu o braço instintivamente, protegendo o rosto enquanto outro estilhaço raspava a lateral do corpo. O impacto desviou na última fração de segundo, ainda assim suficiente para abrir a pele em um traço irregular.
Dorian permaneceu firme.
O sangue do ombro se misturava agora a novos cortes menores espalhados pelo corpo, cada um raso, quase irrelevante isoladamente, mas presentes. O olhar dele seguia acompanhando os movimentos ao redor, ajustando posição entre uma ruptura e outra.
Os tentáculos continuavam vindo.
Um deles atravessou o espaço entre Vance e Elena, subindo em linha reta antes de curvar abruptamente, como se tivesse mudado de ideia no meio do movimento. Outro deslizou rente ao chão, varrendo fragmentos e levantando poeira enquanto avançava em direção ao grupo.
O ambiente inteiro se movia com eles.
As vigas vibravam, os cabos balançavam acima, e o chão deixava de ser um ponto fixo para se tornar uma superfície instável, sempre prestes a abrir em mais uma ruptura.
Vance ajustou a postura, a arma firme na mão enquanto o olhar tentava acompanhar tudo ao mesmo tempo.
Dessa vez eles estavam mesmo em perigo.
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