Rei dos Melhores Brasileira

Autor(a): Eme


Volume 1

Capítulo 23: Ligação Astral

A mistura gosmenta de sangue e partes de corpos apodrecidos era pisoteada por mais e mais criaturas sedentas, não importava a quantidade que eram abatidos.

Os incontáveis zumbis vagavam sem descanso.

Boom! Swiiish! Bang! Bang! Boom! Shiiiin! Baam!

As explosões, o tiroteio e as lâminas que cortavam o vento regia musicalidade da batalha.

Os jogadores combatiam em menor número, mas não se rendiam a exaustão.

O aplicativo bipou.

Olha aí! Quinta Onda!

Tempo de Duração: 14 min

Tempo de início da onda: 16 min

Boa Sorte!

A quinta onda chegou e os zumbis da quarta não haviam sido completamente derrotados, ou seja, somavam-se diversos monstros a horda numerosa.

Gabrio continuou o uso da técnica improvisada até seus recursos químicos esgotarem.

— Foi bom enquanto durou... — lamentou ele, ao lançar sua última garrafa.

A quantidade de mortos-vivos abafou a explosão, dessa vez, sequer viu o efeito das reações.

O aplicativo bipou, em um clique, visualizou a notificação.

Parabéns!

Você matou 348 monstros nessa onda!

Total abatido de 492!

É... É um bom começo!

Tempo para 6ª onda: 11 min

— Começo?! Estamos na quinta onda, poxa! — protestou Gabrio, guardando o celular no bolso.  Porém, aquilo era uma forma de saber que seus números estavam baixos.

— Corre, Noob! — bramiu o atirador, passando por ele.

O supermercado tornou-se um formigueiro infernal.

Ambos seguiram lado a lado, por sorte, seus inimigos eram lentos.

As ruas estavam repletas de crateras, carros empilhados e destroços que favoreciam a fuga.

— Cadê o resto dos jogadores? — perguntou Gabrio. — Escondidos?!

 Seus olhos vasculharam o ambiente, procurando um lugar que fornecesse essa oportunidade, no entanto, as maiorias das residências estavam destruídas.

— Somos só nós nessa área — respondeu ele. — Apenas dois sobreviventes nessa região.

O atirador cessou a maratona levando as mãos aos joelhos, o local que chegaram estava cercado de destroços, perfeito para uma pausa.

O cansaço batia à porta.

Gabrio não sentia a mesma fadiga, ultimamente, correu tanto que aquela distância pareceu ínfima, aproveitou o momento para observar o jogador a sua frente.

As roupas dele estavam rasgadas, o capuz preto não passava de trapos e, apesar da voz grave, seu rosto era juvenil, possuíam praticamente a mesma altura, porém os músculos bem definidos deixavam a impressão que era duas vezes maior, com proporções igualmente distribuídas pelo corpo, sem a deformidade do careca que enfrentou na Time Square. Se fosse para comparar, Gabrio diria parecer um daqueles “ratos de academia”, os viciados em malhação.

— O que foi? Se apaixonou? — indagou o atirador, percebendo o olhar fixo de Gabrio nele.

— N-não... e-eu... e-u... — gaguejou, era difícil explicar sua mania em dissecar as características das pessoas.  

Há! Há! Há! — Ele explodiu em risadas. — Relaxa, mano. Foi zoeira! Mas... nada contra.  Há! Há! Há!

Gabrio não respondeu, pelo visto, tirar sarro dele devia fazer parte das regras da competição.

Um pequeno círculo com espirais alaranjadas surgiu na frente do atirador, em seguida, ele enfiou a mão dentro.

— Isso é um buraco de minhoca?! — bramiu Gabrio, seus olhos acederam com um brilho estrelar ao ver aquilo.

— Sim, meu caro Noob! O termo técnico deve ser esse, mas gosto de chamar de... portal dimensional — seu tom explicativo flertava com o deboche. — Sabe, né?! A rapaziada gosta mais assim.   

 O atirador retirou a mão em posse de uma latinha de refrigerante, uma belíssima Coca-Cola.

— Toma, aí! — Jogou uma para Gabrio. — Estavam em promoção no supermercado, um preço imperdível!

— Ah, sim... a promoção especial de fim do mundo! — agradeceu ele, entrando no clima da piada.

Secaram a lata rapidamente, quase em um só gole.

— Lá vem! — alertou o atirador. — Melhor sacar logo sua arma.

As criaturas marchavam até eles, atropelavam umas às outras, tentando superar os obstáculos no caminho.

O momento de paz não durou um minuto.

— Se eu tivesse uma arma... seria bom — rebateu Gabrio, coçando a cabeça.

— Pelo amor de Jah! — esbravejou. — Como entra em um círculo azul sem arma?!

— É... — Gabrio não sabia argumentar contra aquilo. — Era necessário ter uma?

— Meu Deus... isso já é noobisse demais! — A expressão dele beirava o puro assombro.

O atirador levou a mão ao queixo, coçando a barbicha, era a sua vez de avaliar o novato da cabeça aos pés.

— Pode ser que... não, não! Mas... será?! — cochichou ele, para si.

— O quê? — interviu Gabrio, curioso.

O atirador ergueu a mão.

 Um imenso portal surgiu sobre a cabeça deles. Em segundos, um objeto desceu como um dos raios ao redor, porém na cor diferente, na forma de um raio-negro que partiu o ar, deixando uma camada de poeira brilhante.

A espada saiu do portal cravando-se com força no chão e, logo após, as descargas elétricas fluíram circulando-a, sua aparência era simples, semelhante aquelas espadas medievais antigas. Entretanto, a lâmina escurecida e o fio azulado mesclavam-se em um diferencial sinistro.

— Vai, Noob! Pega! — gritou o atirador, iniciando seus disparos certeiros.

Gabrio encarou a espada, boquiaberto. Com passos apressados seguiu na direção da arma, hesitou por um momento, por algum motivo seus dedos tremiam.

— Vai logo! — insistiu o atirador.

“Essa é minha vigésima terceira tentativa”, pensou o atirador, o nervosismo fazia que engolisse a própria saliva, seus olhos seguiam atentos os dedos da sua cobaia até o cabo da espada.

O novato puxou a arma do chão.

— Isso! Finalmente! Isso! — comemorou.

— Ei! Era pra ter acontecido algo ruim?! — perguntou Gabrio, sem entender sua atitude, mas com uma leve desconfiança.

“Calma, controle-se! Ainda falta uma coisa.” O atirador se repreendeu mentalmente.

Hum... Urum! — Ele tossiu disfarçando sua alegria. — Não, não! Que nada!

Seu sorriso malicioso não condizia com suas palavras.

— Faz a ligação! — informou, sacando sua pistola. — Eu seguro os zumbis!

— Faz... o quê?! — rebateu Gabrio, mas foi ignorado.  

Ampliando seus alvos, o atirador transformou sua arma em uma pequena metralhadora giratória, retomando seus disparos.

O aplicativo de Gabrio bipou.

O jogador adquiriu um item!

8ª Relíquia da Calamidade!

O item exige uma Ligação Astral!

Deseja aceitar?!

Sim ou Não

“O que acontece se eu aceitar?!”, pensou ele, encarando a notificação repleta de informações novas.  

— Cadê a Bel numa hora dessa — lamuriou, olhando em volta.

Nenhum sinal da ruiva.

— Vamos com isso! O bagulho aqui piorando! — gritou o atirador.

Suas balas não acompanhavam mais a quantidade que surgiam. Em uma visão aérea, os dois eram um torrão-de-açúcar no centro do formigueiro de mortos-vivos.

Gabrio engoliu em seco e clicou na tela.

O jogador acionou uma Ligação Astral!

Ao redor, tudo se apagou.

***

Como um Déjà vu, Gabrio estava cercado de novo pela escuridão.

— Não! Tá de brincadeira?! Ah! Isso que dá aceitar doce de um estranho! — lamentou irritado.

O clima era parecido com o ritual de Restrição, mas apenas isso. Nesse ambiente, Gabrio conseguia falar e se mexer normalmente, outro ponto, não sentia dor e o único som que escutava era o da própria respiração.

O celular permanecia aceso na sua mão.

As chamas vermelhas se manifestaram de maneira natural, fluíram ao seu redor freneticamente.

Clin!

O celular bipou.

O jogador utilizou 3% da sua Energia Física!

... 5%… 12%… 20%...!

Clin! Clin! Clin!

O aplicativo notificava a porcentagem usada conforme as chamas aumentavam.

De repente, o fogo apagou.

RESTRIÇÃO!!!

Absorção Total de Energia Física Negada!

Em seguida, as chamas azuis vieram, comportando-se da mesma forma.

O jogador utilizou 3% da sua Energia Mágica!

... 5% ... 13%... 15%...!

Porém, apagou-se novamente.

RESTRIÇÃO!!!

Absorção Total de Energia Mágica Negada!

Uma luz vermelha acendeu sobre sua cabeça, tão intensa quanto um farol.

— Interessante... — disse a voz grave, repleta de estranheza no tom.

A luz vermelha foi lentamente se afastando.

— Que p*** é essa?! — xingou Gabrio, pasmo.

O que pensou ser o farol, na realidade era um dos olhos de uma criatura gigante, a silhueta desforme chacoalhava como fumaça.

Na escuridão, os olhos vermelhos piscavam em conjunto do sorriso exageradamente largo e dentes pontudos.

— Eu te aceito — emitiu a voz.

Clin!

Ligação Astral Concluída!

***

Lentamente o ambiente retornou ao normal, semelhante ao despertar preguiçoso de um sonho. Contudo, diferente da Restrição, Gabrio estava de pé como se o tempo não tivesse passado. Na sua mão direita, o brilho azul pulsava no fio da lâmina e do pomo saía a descarga elétrica que circulava em espirais até a ponta da espada.

— Ei! Ei! Atrás de você! — alertou o atirador.

O zumbi de braços largos chegava em plena fúria, com o punho fechado, pretendia esmagar o jogador parado a frente.

Gabrio girou o corpo, movimentando a espada em suas mãos por puro instinto.

A lâmina escura atravessou a criatura partindo-a ao meio. Posteriormente, a eletricidade se espalhou pelo corpo do zumbi, se intensificando até gerar chamas amareladas.

Os mortos-vivos próximos também foram afetados, a onda de choque interligou-se de monstro para monstro, até que todos começaram a tremer com a intensidade da descarga.

Aaaah! Aaaaaah! Aaaaah!

Os zumbis agonizavam, sua carne podre fritava com a eletricidade. Em cerca de um quilômetro, torraram até virar cinzas.

— Sinistro... — disse Gabrio, encarando a espada brilhante, impressionado.

— Que coisa mais linda! — relatou o atirador, com um dos dedos limpava a lágrima de emoção. — E pensar que um Noob era a chave.

“Esse cara...” Gabrio entendeu uma coisa, aquele jogador que o salvou uma vez, agora lhe usou para algum experimento.

O aplicativo emitiu o sinal, superaram a quinta onda.

Parabéns!

Você matou 1548 monstros nessa onda!

Total abatido de 2040! Agora sim!

Os sobreviventes comemoram a aniquilação dos monstros, sem tempo para muita euforia.

A sexta onda começou e os zumbis marcharam.

A Tão Esperada! Sexta Onda!

Tempo de Duração: 16 min

Tempo de início da onda: 18 min

Boa Sorte!

O chão tremia com a quantidade de passos pesados, o número de monstros gigantes era impressionante.

Do seu lado, o atirador transformou a metralhadora em uma bazuca, seus disparos aleatórios atingiam o máximo que conseguia, os zumbis menores eram arrebatados facilmente, os outros ignoravam a explosão.

Gabrio preparou sua nova arma. De forma desajeitada, acertava os zumbis e, do mesmo modo que antes, as descargas elétricas afetavam os mais próximos. No entanto, o efeito foi ficando cada vez menor.

 O aplicativo informou o motivo.

O jogador utilizou 100% da Energia Mágica!

— Caramba! Qual é?! Nem sabia que tava usando isso! — reclamou ele, recuando. Quando percebeu, a poucos metros das suas costas estava a cruz marcando o centro da onda.

— Olha quem está vivo! — disse Bel, zombeteira ao chegar.

 Gabrio finalmente reencontrou a ruiva. Porém, Bel do seu lado confirmava que ambas as direções estavam dominadas por monstros.

— O que isso na sua mão?! — perguntou ela, de imediato.

— Uma espada, ora! — rebateu ele, partindo a cabeça de um cachorro-zumbi, mas o efeito elétrico não veio. Fez uma expressão de lamento, queria muito mostrar aquilo a Bel.

— Eu sei que é uma espada, idiota! — esbravejou. — Mas o que faz com isso?! Você não devia... Ah! Esquece, depois conversamos.

Gabrio assentiu, como esperado, fez alguma besteira.   

Os cabelos ruivos dela estavam emaranhados pelo rosto, o resultado das suas piruetas em conjunto dos seus fios compridos livres ao vento, o lenço que geralmente os amarravam fazia a função de máscara de gás.

— Qual o plano?! — perguntou Gabrio, esperançoso que ela tivesse um.

— Sobreviver é o plano!

Bel retornou as adagas de algum lugar, as lâminas giravam retalhando os zumbis na trajetória.

Cerca de vinte jogadores faziam um círculo em volta da estátua de cruz, atacavam os zumbis mais próximos e, certos momentos, acertavam juntos derrubando os maiores. O senso de união se estabeleceu entre eles, sem ser preciso o uso de qualquer palavra, se não lutassem em equipe, todos morreriam.

O número de zumbis ainda era assustador quando o aplicativo anunciou a sétima onda.

Olha a onda! Olha a... Sétima Onda!

Tempo de Duração: 20 min

Boa Sorte!

A cruz atrás deles escureceu, assim como as nuvens.

— É o chefe sendo invocado? — perguntou Gabrio, apreensivo.

Bel não respondeu, mas arregalou os olhos.

O novato seguiu seu olhar e desmoronou ao ver os raios chegarem, literalmente, como uma chuva destrutiva, não faziam a menor distinção, atingiam zumbis e jogadores.

Gabrio procurou por um abrigo, mas a horda o impedia de dar qualquer passo à frente, desviou de alguns, pulando de um lado para o outro e, ocasionalmente, seus olhos se voltaram para região que estava o atirador.

Seu breve parceiro de batalha rolava no chão, segurava com a mão esquerda a perna machucada e com outra disparava a esmo.

— Ei! — bramiu Gabrio, os raios seguiam na direção dele.

 O novato forçou seus pés na corrida e as chamas vermelhas surgiram ampliando sua aceleração. Por um momento, acompanhou a mesma velocidade que linha em zigue-zague do raio se projetava em cima do atirador.

O aplicativo sinalizou.

RESTRIÇÃO!!!

Uso de Energia Física Negada!

A combustão vermelha de Gabrio acabou no momento que abraçou o atirador, era sua tentativa de salvá-lo e retribuir o favor do passado, mas falhou.

Sem qualquer perdão, o raio desceu sobre os dois.



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