Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Jaque


Volume 2

Capítulo 4: O Aroma do Desejo (Parte 2)

Quando Jusetsu saiu do palácio, alguns rostos que espreitavam o edifício da entrada do corredor externo recuaram apressadamente. Provavelmente eram damas da corte e eunucos que, intrigados com a confusão, vieram ver o que estava acontecendo. Jusetsu desceu as escadas e caminhou a trote sobre o calçamento de pedra.

“Niangniang.” Onkei correu até ela, alcançando-a. Parecia que ele mesmo havia conseguido se libertar das amarras. Ele ofereceu a Jusetsu seu próprio lenço. “Para o seu rosto”, disse ele.

Jusetsu tocou sua bochecha. Havia sangue nela. "...Desculpe", ela sussurrou.

Ela pegou o lenço dele e enxugou o rosto. O que eu fiz? Jusetsu se perguntou enquanto fazia isso. Uma dama da corte havia morrido, e Keiyo também. Keiyo tinha vindo até a Consorte Corvo pedindo a Jusetsu que trouxesse seu irmão de volta à vida — mas, acima de tudo, ela só queria ajuda.

E eu não fiz nada.

Jusetsu simplesmente a expulsou dali.

“Niangniang… Jusetsu.” Onkei ofereceu-lhe a mão. Jusetsu devolveu o lenço. Onkei não o guardou, mas disse: “Com licença”, e começou a limpar o resto das manchas de sangue do rosto dela.

“…Eu também sinto muito pelo que fiz com você, Onkei.”

Ele parou de limpar o sangue e olhou para ela.

“Sou eu quem deve pedir desculpas”, disse ele. “Não só falhei em cumprir suas ordens, como também precisei que você salvasse minha vida. Por favor, aceite minhas mais sinceras desculpas. Foi um ato humilhante de negligência da minha parte.”

Onkei explicou como conseguiu localizar uma das damas de companhia, mas, quando estava prestes a ouvir sua história, alguém lhe deu um soco por trás.

“Deve ter sido a Consorte Pega”, acrescentou ele.

[Kessel: Aqui forçou um pouco a barra, hehe. Podia ter sido algum eunuco ajudando ela… o Onkei é descrito como um eunuco “forte e confiável”, não seria derrubado por um soco apenas de uma consorte debilitada…]

"Entendo", murmurou Jusetsu.

Ela voltou-se para o edifício do palácio e olhou para cima. A lua branca iluminava as telhas decorativas do telhado em forma de pega, fazendo-as brilhar tanto que pareciam estar molhadas.

“Precisamos procurar Shogetsu”, continuou Jusetsu.

“Tenho certeza de que o Atendente Ei poderia providenciar uma busca, mas que tal darmos uma olhada dentro do palácio?”

“Ele não estaria mais aqui.”

Se damas da corte e eunucos tivessem vindo dar uma espiada no que estava acontecendo, era seguro presumir que Shogetsu também teria notado a comoção. Ele certamente já havia fugido.

"Onde fica o quarto de Shogetsu?" perguntou Jusetsu. Ela pensou que talvez pudesse usar alguns fios de cabelo ou pertences dele para encontrá-lo. Como sabia o nome dele, poderia usar um pássaro mensageiro para segui-lo.

“Bem”, começou Onkei, “Shogetsu não tem um quarto nos alojamentos dos eunucos. Ele trabalhava como assistente pessoal da Consorte Pega, então eu me perguntei se ele tinha um quarto no palácio dela, mas não tinha… Ninguém sabe onde ele dorme ou faz suas refeições.”

"O quê?" disse Jusetsu, perplexa. Como Shogetsu estava sobrevivendo?

“Ninguém nunca o viu dormir ou comer”, acrescentou Onkei. “É quase como se Shogetsu fosse…”

O irmão de Keiyo — ou melhor, seu quase-irmão — me veio à mente. Aquele boneco de barro com olhos vazios.

Jusetsu franziu a testa. Se ela não conseguisse rastreá-lo com sua magia, não haveria outra maneira de encontrá-lo. Ela teria que esperar até que os eunucos de Eisei o localizassem.

“…Vamos voltar ao Palácio Yamei por enquanto.”

Jusetsu mordeu o lábio e saiu correndo do Palácio Jakuso, furiosa consigo mesma por ter sido tão inútil.

Era noite, então a lua iluminava o caminho. Sua sombra se projetava sobre o cascalho sob seus pés, e ela pisava nela enquanto voltava para casa.

Ela tinha acabado de entrar no bosque de loureiros e rododendros quando aconteceu. Um arrepio percorreu a espinha de Jusetsu e ela parou abruptamente — ou, talvez mais precisamente, congelou de medo e não conseguiu se mexer.

“Niangniang?” Havia ceticismo na voz de Onkei.

Jusetsu não tinha um segundo sequer para respondê-lo. Ela examinou os arredores. A luz da lua brilhava sobre as árvores, criando inúmeras sombras no chão. Nos pontos onde a luz conseguia penetrar, o chão era branco e brilhante, mas nos locais onde os galhos se amontoavam, a escuridão embaixo era ainda mais densa que as sombras.

E lá estava ela, no topo de um daqueles galhos.

Duas pernas humanas repousavam sobre o galho de um loureiro. Aquela era a única parte da pessoa iluminada pelo luar, e parecia que ela emergia do ar escuro da noite. Jusetsu percebeu, pela bainha do manto cinza-claro, que se tratava de um eunuco.

“Você é a Consorte Corvo?” perguntou uma voz vinda do galho. Era uma voz aguda, que lembrava o canto de um pássaro, mas ao mesmo tempo, era profunda como o rosnado de um cachorro. Tinha um timbre prateado, e ainda assim, transmitia uma serena tranquilidade.

Onkei se colocou na frente de Jusetsu para protegê-la. "Quem está aí?", perguntou ele.

A pessoa lá em cima na árvore não respondeu. O galho se curvou e, antes que percebessem, o homem em questão havia caído no chão. Ele próprio não emitiu nenhum som. Tudo o que podiam ouvir era o farfalhar das folhas umas contra as outras acima deles.

Ele tinha um corpo magro e flexível, com um rosto pálido. Seus longos cabelos negros e esvoaçantes caíam atrás dele. Ele era idêntico àquela imagem de Shogetsu que Kogyo havia desenhado.

O mesmo jovem que Jusetsu viu naquela noite estava parado diante dela.

"É a coruja!" Jusetsu gritou quando seus olhares se encontraram — da mesma forma que naquela noite.

“Não exatamente”, respondeu Shogetsu friamente. “Este não sou eu, não exatamente. Assim como você não é o Corvo, por assim dizer.”

Ao dizer isso, ele colocou a mão no peito, como que indicando o próprio corpo. "Isto é apenas um receptáculo. Um instrumento."

Um receptáculo?

Enquanto Jusetsu refletia sobre sua escolha de palavras, ela tirou uma peônia do cabelo arrumado. Seu corpo se movia por conta própria, como se não lhe pertencesse mais. Suas mãos rapidamente lançaram a flor em direção a Shogetsu. A flor se transformou no ar em uma flecha, na esperança de perfurar sua pele. No instante em que ela pensou que a ponta da flecha atingiria seu peito, ela se dissolveu suavemente e pareceu ser sugada para dentro dele. Ou pelo menos foi essa a impressão que teve.

“É inútil para pessoas como nós lutarmos umas contra as outras. Somos da mesma família. Se você quiser lutar comigo, terá que usar seu instrumento de pássaro”, disse Shogetsu, parecendo um tanto desapontado. Ele tinha um rosto frio e inacessível que permaneceu estoico enquanto falava. “Não me diga que você também não sabe disso… Ou será que o Corvo se esqueceu? Deve ter comido flores demais…”

Jusetsu começou a suar frio. Ela queria fugir, mas suas pernas estavam grudadas no chão e não se moviam. Sua respiração estava ofegante.

“Mesmo assim, sei que sou assustador. Hmph.”

"Eu... eu não entendo uma palavra do que você está dizendo", disse Jusetsu, com a respiração ofegante dificultando a pronúncia. Sua voz estava trêmula e fraca — ela não se lembrava de ter se ouvido falar assim antes.

“Eu sei. É óbvio que você não sabe nada. Escute. Eu sou o Coveiro do Palácio Isolado — acho que vocês o chamam de ‘executor’ por aqui. Sou o irmão mais velho do Corvo.”

O Palácio Isolado — esse era o nome de uma terra muito, muito distante, além do mar, onde viviam os deuses. Ele é um carrasco de lá?

Shogetsu pareceu achar que essa era uma explicação suficiente. Então, ele olhou para o céu.

“Ah”, disse ele, com um toque de divertimento na voz, mas a expressão permaneceu a mesma. “Aqui está. Eu estava procurando por isso. Deu tanto trabalho chegar a esta ilha, então fiquei chateado por tê-lo perdido.”

Então, ele chamou um nome que soava como "Sumaru" e fez um gesto para algo.

Jusetsu e Onkei podiam ouvir o bater de asas e o grasnar de um pássaro acima deles. Um pássaro pousou num galho próximo. Tinha pintas brancas nas penas marrons — um corvo-estrela.

“Eu te disse para vir aqui. Até mim. Você realmente não me ouve, não é?” Shogetsu continuou, chamando o pássaro repetidamente. Finalmente, ele desceu e pousou no braço de Shogetsu. “Sumaru é basicamente um corvo, entende?”, disse ele.

Jusetsu abriu a boca seca e conseguiu articular algumas palavras. "Quem é esse 'Corvo' de quem você fala? Sou... eu?"

“Não exatamente”, disse ele, repetindo a frase de antes. “O Corvo é o Corvo. A coisa dentro de você.” Shogetsu apontou para Jusetsu.

"Dentro de mim?" Jusetsu levou as mãos ao torso.

“Tenho observado isso há muito tempo. Não me era permitido interferir. Interferir aqui é proibido. Esta é a ilha dos rejeitados, onde aqueles banidos de nossa terra — o Palácio Isolado — acabam. Mesmo quando o Corvo foi expulso do Palácio Isolado por seus pecados, e mesmo depois de ter chegado a esta ilha, eu não pude fazer nada.”

O rosto de Shogetsu não mudou nem um pouco, mas sua voz carregava um leve toque de tristeza.

“O Corvo e eu nascemos de uma bolha de sabão que se dividiu em duas. Começamos como uma única bolha. A mim foi dado o papel de Coveiro. O Corvo assumiu o papel de Promontório, aquele que cavalgava as correntes e os ventos para guiar as almas dos mortos na direção que deveriam seguir. As almas são belas. Elas têm um leve brilho branco e cintilam na escuridão como estrelas. O Corvo e eu vivíamos na noite.”

[Kessel: Essa tradução é meio difícil de entender, então vou explicar. Na tradução do inglês usaram o termo “Headlander” (ou Promontory; de onde vem o “Promontório”) para se referir ao Corvo. E isso é basicamente uma massa de terra, geralmente alta e rochosa, que avança significamente em direção ao mar. Dentro da obra, o mar é visto como a travessia que as almas fazem para o paraíso, sendo assim o Corvo ser representado por esse nome, praticamente indica que ele é um guia espiritual, pois está simbolicamente apontando a direção correta a qual as almas devem ir. Algo que é consistente como o que vimos até aqui na obra!]

Por alguma estranha razão, ouvir essa história despertou em Jusetsu uma onda de nostalgia, que surgiu de dentro dela. Não era como se ela nunca tivesse ouvido essa história antes. Na verdade, ela ouviu uma história semelhante não muito tempo atrás — o conto popular da cidade natal de Ishiha que ele compartilhou com ela. Mas, além disso… ela sentia como se já soubesse disso há muito, muito mais tempo. Ela não entendia. Suas memórias estavam confusas e embaralhadas.

O homem continuou. “Mas então, o Corvo cometeu um crime. Ela foi enfeitiçada por um dos mortos e enviou sua alma de volta para ser ressuscitada. O Corvo era uma garota mansa e tola, e não tinha noção da gravidade do crime. Ela era minha irmãzinha boba, e por isso eu a amava. Ela era minha única irmã mais nova, mas eu não pude fazer nada para ajudá-la. Apenas a observei se afastar, e senti que ela havia chegado a uma ilha muito, muito distante. Intervir não era permitido, então tudo o que eu podia fazer era observar do Palácio Isolado. Mas então…” Havia uma força renovada na voz de Shogetsu. “Há pouco tempo, senti o poder do Corvo. Esse poder estava tentando se manifestar dentro de você. Isso me trouxe lembranças tão queridas, e era tão precioso que eu não conseguia suportar. É por isso que enviei isso e Sumaru para cá do Palácio Isolado.”

Ao dizer a palavra "isso", Shogetsu apontou para o próprio corpo.

“Perseverei por mil anos… Impressionante, não acha?” disse Shogetsu, antes de arrancar uma das penas do corvo estelar. “Vim para pôr fim ao seu sofrimento, Consorte Corvo… Minha irmãzinha.”

A pena transformou-se numa espada de dois gumes. Sua lâmina marrom era reta e salpicada, tal como a plumagem do corvo-estrela. Era uma espada belíssima, que brilhava intensamente ao luar. No instante em que Jusetsu percebeu o que estava acontecendo, Shogetsu chutou o chão.

O corvo estrelado bateu as asas.

Onkei foi o primeiro a reagir. Tirou uma adaga do bolso do peito. Assim que a desembainhou, o tilintar das lâminas chocando-se ecoou pelo ar.

Shogetsu se afastou por um instante. Permaneceu em posição de combate com sua espada, encarando Onkei atentamente. Lentamente, recuou, distanciando-se do guarda-costas de Jusetsu.

“É difícil se mover nessa forma. As ondas e a lua estão atrapalhando. Se ao menos houvesse lua nova esta noite…”

Shogetsu parecia estar reclamando, mas sua expressão permaneceu a mesma. Ele provavelmente era incapaz de mudar sua expressão enquanto estivesse nessa forma — embora Jusetsu não tivesse certeza se seu corpo atual era um boneco de barro ou algo completamente diferente.

Jusetsu gradualmente se acalmou de seu estado de pânico — talvez porque Onkei estivesse ali. Se ela apenas demonstrasse nervosismo, ele também poderia acabar em perigo.

"Você está dizendo que está aqui... para me matar?", perguntou Jusetsu para ter certeza.

Shogetsu fez uma pausa antes de respondê-la. "Eu não quero te matar, mas se eu quiser dar descanso eterno ao Corvo, terei que destruir o receptáculo que o abriga. E esse receptáculo é você", disse Shogetsu, explicando seus planos passo a passo, com toda a educação. Ele parecia querer que ela soubesse.

"Por Corvo, você quer dizer Uren Niangniang, não é?" Não havia outra opção em que ela conseguisse pensar.

Shogetsu deixou outra lacuna na conversa. "Esse é apenas um nome aleatório que vocês deram a ela — não é o nome pelo qual a conheço. 'Corvo' e 'Coruja' também não são seus nomes, mas não quero revelar seus nomes verdadeiros."

Isso significa que o Corvo é Uren Niangniang, e ele veio para enterrá-la.

E isso significava que ele também mataria Jusetsu, como garantia.

Jusetsu encarou Shogetsu. Ela não conseguia decifrar sua expressão. Ele era como um boneco. Mesmo assim, a julgar pelo jeito como falava, não parecia ser alguém com quem fosse impossível se comunicar. Ele até teve a integridade de tentar explicar coisas para Jusetsu que ela não entendia.

Dito isso… ele a atacou com uma espada do nada.

Calma, Jusetsu disse a si mesma. Ela não tinha a impressão de que ele fosse matá-la a sangue frio. Se o fizesse, Onkei também se envolveria no conflito. Shogetsu jamais faria algo tão imprudente a essa altura.

“Então, Ho Shogetsu não é o seu nome?” disse Jusetsu, mudando ligeiramente de assunto. Ela não tinha certeza se ele perceberia o que ela estava tentando fazer.

“Esse é um nome que o Professor me deu. Ele cuidou de mim.”

“Professor?”

“Era assim que as outras pessoas o chamavam. O nome dele era Ho.” 

“Como assim ele cuidou de você?”

“Foi difícil para mim atravessar o oceano, e gastei todas as minhas energias assumindo esta forma. O Professor me encontrou quando desmaiei e me salvou. Foi ele quem me trouxe até aqui.”

Sempre que Jusetsu perguntava algo a Shogetsu, ele respondia honestamente. Era estranho, considerando que ele veio ali para matá-la. Ela não conseguia entender por que havia tal contradição.

“…Você também precisa de sangue humano?”, perguntou ela.

“Não”, respondeu Shogetsu. Sua expressão não mudou, mas havia um toque de irritação em sua voz. “Aquela coisa que eu criei era um humano. Para manter aquela aparência, ele precisava de sangue.”

“Aquilo não era um ser humano. Era apenas uma boneca de barro. Por que você fez uma coisa dessas?” Jusetsu manteve a voz baixa, mas não conseguiu esconder a fúria que sentia.

Shogetsu inclinou levemente a cabeça para o lado e observou Jusetsu, como se a estivesse analisando. "Aquela consorte me pediu. Achei que fiz um bom trabalho."

“Você não fez nada… Você não trouxe uma pessoa de volta à vida. Não tinha alma. Era apenas uma imitação de um ser humano.”

“A consorte ficou definitivamente satisfeita. Ela pensou que fosse o irmão dela.” 

“Você está me dizendo que fez isso para agradá-la?” perguntou Jusetsu.

“Se essa não fosse minha intenção, por que eu teria me dado a tanto trabalho? Ela estava em uma situação tão lamentável que resolvi confortá-la.”

Jusetsu ficou sem palavras. Ela encarou Shogetsu fixamente. 

"...Há um lago no Palácio Jakuso, não é? Você já esteve lá?", perguntou ele.

A imagem da idosa dama da corte surgiu no fundo de sua mente, mas ela não respondeu.

“Eu estive”, disse ele. “Havia um demônio lá dentro, então me livrei dele. Se você deixar coisas assim por conta própria, elas vão machucar alguém. É cruel com os próprios demônios também.”

Jusetsu já não sabia do que ele estava falando e ficou em silêncio. "É só isso? Sem mais perguntas?" Shogetsu ergueu sua espada.

Onkei também se reposicionou, empunhando sua adaga. "Espere...!" ela gritou.

Shogetsu deu um passo à frente, mas de repente congelou. Algo passou por seus dedos e perfurou o chão. Foi uma flecha. Ele olhou para ela e foi pegá-la, mas outra flecha perfurou seu ombro de repente. O choque fez Shogetsu dar um passo para trás. Mais flechas podiam ser ouvidas voando pelo ar, mas Shogetsu rapidamente se esquivou delas e se escondeu em uma árvore. As flechas que foram disparadas contra ele caíram no chão.

Jusetsu olhou em volta. Algumas silhuetas espreitavam na entrada da área florestal, e Koshun estava perto da frente. Eisei estava diante dele como um escudo humano. De cada lado deles, havia eunucos da Casa da Contenção. Todos estavam armados, com flechas em seus arcos ou espadas desembainhadas.

Jusetsu voltou seu olhar para onde Shogetsu estava. Ela não conseguia vê-lo debaixo das árvores. Se ele sentiu necessidade de se esconder, então os ataques de flecha devem ter surtido efeito nele — mesmo que a magia de Jusetsu não tivesse. Ele era um boneco de barro — será que isso significava que ele estaria em grandes apuros se seu receptáculo se quebrasse? Agora que Jusetsu pensou nisso, ela ouviu a resposta sair da boca dele.

Para enterrar o Corvo, ele precisava quebrar o receptáculo que a continha…

“Flechas não vão me matar, mas se os braços ou as pernas deste aparelho cederem, terei que reconstruí-lo. Prefiro poupar o tempo”, Jusetsu ouviu sua voz dizer do alto das árvores.

Ele deve ter subido em uma árvore. Com flechas em seus arcos, os eunucos apontaram para o local de onde veio a voz de Shogetsu.

No entanto, estava escuro, e os galhos e folhas atrapalhavam, tornando impossível atirar nele.

Koshun aproximou-se em silêncio.

Jusetsu o examinou de cima a baixo. "Você está ferido?"

Koshun balançou a cabeça. "Aquele é Shogetsu?", perguntou, olhando para as copas das árvores.

“Sim, é.”

“Estávamos justamente procurando por ele. Que sorte.”

“Eu não teria tanta certeza. Ele não é uma pessoa comum”, disse ela.

“Se ele for um fantasma, não me incomoda. Já me acostumei com eles. Mas não, a flecha o atingiu, não é? Hum…” Koshun observou atentamente as copas das árvores. “Ele disse algo sobre reconstrução. Isso significa que ele também é algum tipo de boneco de barro?”

“Bem, eu não sei se ele é feito de barro, mas…”

"Se ele for um boneco, então vamos quebrá-lo", sugeriu Koshun casualmente.

Naquele mesmo instante, Eisei soltou algo afiado de sua mão. Algo deslizou para baixo da escuridão dos galhos. Era Shogetsu.

Mesmo quando caiu no chão, o som que emitiu foi peculiarmente fraco.

Uma faca estava cravada no tornozelo de Shogetsu — Eisei deve tê-la arremessado.

Shogetsu não se deu ao trabalho de puxá-la, mas em vez disso agachou-se e olhou para Jusetsu e os outros. Como sempre, sua expressão era vazia. A flecha que havia perfurado seu ombro ainda estava lá.

"Você é o imperador?", perguntou ele. "Preferiria que você ficasse fora disso."

Eisei tirou uma adaga do bolso do peito, mas Koshun ergueu a mão para contê-lo.

“Se você pretende ferir a Consorte Corvo, então ficar de fora disso está simplesmente fora de questão”, respondeu Koshun, com a voz calma e tranquila.

Shogetsu olhou para o imperador com desconfiança. Koshun retribuiu o olhar, também parecendo sondá-lo.

“Eu também não quero necessariamente matar essa jovem inocente. Se você vai guardar rancor por alguém, que seja por Kosho.”

Kosho: a primeira Consorte Corvo. "Por quê?"

“Ela começou tudo isso. Foi ela quem aprisionou o Corvo dentro de você.”

Koshun lançou um olhar rápido para Jusetsu. Em seguida, fez um sinal com os olhos para Eisei, e Eisei ordenou aos eunucos da Casa da Contenção, que estavam por perto, que se afastassem um pouco. Eles não podiam ouvir aquela conversa.

“Foi Kosho quem aprisionou Uren Niangniang no Palácio Yamei, não foi?” disse Jusetsu. “E é por isso que a Consorte Corvo é sua guardiã.”

Pelo menos, era isso que Jusetsu tinha aprendido — e a mesma coisa estava registrada nos arquivos históricos do Palácio Yamei.

“Guardiã, hein?”, Shogetsu cuspiu as palavras com desdém.. Em seguida, soltou um sorriso de escárnio. “Ela era uma garotinha astuta. Ofereceu a si mesma e às muitas mulheres que a seguiam como receptáculos. Selou-a para que não pudesse escapar e, depois, manteve silêncio sobre seus crimes. Era uma criminosa. Um monstro. Eu a desprezo.”

A voz de Shogetsu era fria, e parecia haver uma sombra de ódio pairando sobre seu rosto — embora ele devesse estar inexpressivo.

“Usar uma pessoa viva como receptáculo não é algo que deva ser perdoado. Sempre, sem exceção, causa distorções. Tal habilidade é um tabu, tanto para você quanto para nós. Kosho quebrou um tabu.” Então Shogetsu olhou para Jusetsu. “Imagino que você sofra muito em cada lua nova, não é? Porque o Corvo dentro de você se liberta. Nesse momento, sua alma está prestes a ser despedaçada. Nem eu consigo imaginar a dor que isso deve causar. É o Corvo dentro de você que causa essa dor.”

Jusetsu nem queria se lembrar da agonia que sentia nas noites de lua nova. Ela havia aprendido que a Consorte Corvo e Uren Niangniang eram indissociáveis. Seria isso que significava?

Jusetsu sentiu subitamente um nó no estômago. Uren Niangniang estava dentro dela.

A palavra "monstro" me veio à mente.

“Você provavelmente me acha assustador. Mas não é você que tem medo de mim — é o Corvo. Eu sou o Coveiro, encarregado de caçar pecadores do Palácio Isolado. Você já é parte Corvo.. Você entrou neste mundo como você mesma, mas sem perceber, isso lhe foi roubado. É uma coisa extremamente cruel de se fazer com alguém, mas Kosho…” Shogetsu se calou por um momento e então soltou um suspiro profundo. “Kosho alimentou o Corvo com flores. Ela fez isso repetidas vezes. Mas aquelas flores eram venenosas. Intoxicantes. O Corvo já… se perdeu.”

Shogetsu parecia aflito, como se lhe fosse difícil articular as palavras.

“Flores…?” Jusetsu sussurrou.

Ela olhou para a palma da mão. Ele estaria falando da flor que ela ofereceu a Uren Niangniang à noite? Será que eram mesmo venenosas?

Mesmo assim, eu a observava constantemente de longe. Observei-a por tanto tempo que acabei ficando atordoado. Mas então, não faz muito tempo, senti o poder do Corvo quase transbordando. Era o grito de fúria e sofrimento dela. Ela estava em fúria dentro de você. Tenho certeza de que você também deve ter sentido essa raiva.

Furiosa com...? Jusetsu lembrou-se do momento em que enfrentou Hyogetsu. Ela sentiu que ia perder o controle de si mesma. Naquele dia, sentiu um calor intenso em seu estômago, e não conseguiu impedi-lo.

“Chegou a hora de deixar o Corvo descansar. Vim enterrar minha irmãzinha, como qualquer bom Coveiro deveria fazer. Para isso, terei que matar você também.”

Antes que ele terminasse de dizer isso, Shogetsu ajoelhou-se e desferiu um golpe lateral com sua espada. A ponta da lâmina rasgou o robe de Jusetsu — Onkei havia puxado a jovem para trás a tempo. Shogetsu rapidamente se levantou e desferiu outro golpe ascendente com sua espada contra Jusetsu, já que ela havia recuperado o equilíbrio. Onkei aparou o golpe com sua adaga, mas Shogetsu o repeliu com o golpe seguinte de espada. Nesse instante, Onkei caiu de joelhos. Shogetsu brandiu sua espada mais uma vez, mirando no pescoço de Jusetsu.

A nuca dela estava gelada, o que Jusetsu presumiu ser devido à forma como o ar se movia quando ele reposicionou a lâmina. Quando ela pensou que a lâmina iria rasgar sua pele, alguém a agarrou pelo braço com força e a puxou para trás, fazendo-a cair no chão. Ela caiu de lado e pôde sentir a frieza da terra e o forte cheiro de orvalho vindo da grama. Que coisas estranhas para se prestar atenção em um momento de tanto perigo.

Mas não era só isso. Ela também conseguia sentir o calor da pele de alguém. Alguém a estava abraçando. Por algum motivo, ela sabia de quem vinha aquele calor.

Era Koshun.

O imperador parecia estar pairando sobre ela, e então estremeceu. Quando se levantou, Jusetsu sentiu um cheiro de algo metálico.

Sangue.

Um arrepio percorreu seu corpo e as pontas dos seus dedos ficaram geladas. Ela se levantou num pulo. "Koshun..."

“Não se preocupe. Estou bem.” Antes que Jusetsu pudesse dizer qualquer coisa, Koshun se levantou e estava segurando o braço. Ele tinha uma expressão vazia no rosto. “Ele só me atingiu de raspão.”

Parecia que Shogetsu havia feito um corte no braço do imperador. Ele pode ter insistido que foi apenas um arranhão, mas havia sangue escorrendo do punho da manga.

Jusetsu levou a mão ao peito. Seu coração estava acelerado. Seus dedos ainda estavam frios e trêmulos.

Ela podia ouvir o som das lâminas se chocando. Quando olhou, viu que Eisei havia bloqueado outro golpe da espada de Shogetsu. A adaga de Eisei girou para cima. Eisei estendeu a lâmina enquanto Shogetsu cambaleava levemente, mas Shogetsu saltou para trás e se afastou dele. Ainda com a espada erguida, Eisei o observava atentamente para descobrir seu próximo movimento.

Foi então que um grito estridente ecoou pelo ar. Não era o grito de um corvo estelar, mas sim um grito que Jusetsu conhecia bem. Algo amarelo-dourado voou dos arbustos e apareceu ao lado de Shogetsu.

“Shinshin!” O pássaro bateu suas asas douradas e planou até Jusetsu. “Por que você está aqui?”

[Kessel: O herói aparece! Finalmente!]

Não era necessariamente uma resposta à pergunta de Jusetsu, mas Shinshin soltou outro grito.

"Harara!" Shogetsu exclamou, com um tom de desgosto. "O que esse instrumento inútil em forma de pássaro está fazendo aqui?"

Shinshin abriu as asas como se quisesse intimidar o homem. Instrumento de pássaro, pensou Jusetsu. Então, lembrou-se do que Shogetsu havia dito antes.

“Se você quiser lutar comigo, terá que usar seu instrumento de pássaro.”

Jusetsu arrancou uma das penas da cauda de Shinshin. Num instante, ela se transformou numa flecha dourada — o mesmo tipo de flecha que diziam que voava em direção à localização da próxima Consorte Corvo. Então, é assim que funciona, pensou Jusetsu — ela entendeu o que queriam dizer com aquilo.

Jusetsu se virou para Shogetsu e arremessou a flecha dourada em sua direção com toda a força que conseguiu reunir. A flecha cortou o ar, sua ponta afiada brilhando enquanto voava em sua direção.

A flecha atingiu o ombro de Shogetsu. Naquele instante, seu ombro se estilhaçou e se abriu. Um pequeno estrondo ecoou. Contudo, o que se espalhou pelo chão naquele momento não foram pedaços de carne, mas penas de pássaro. Eram listradas de marrom e branco — penas de coruja. Antes que Jusetsu tivesse a chance de pensar mais, ela lançou outra flecha. Desta vez, o som foi como o de um pedaço de vidro fino se estilhaçando ao atingir o alvo. Parecia que seu peito havia se expandido, mas então penas se espalharam em todas as direções a partir dele. Suas pernas, depois seus braços, começaram a se transformar em penas em sequência. Sem corpo para preenchê-las, seu manto caiu frouxamente no chão.

A única parte do seu corpo que não se transformou em penas foi a cabeça, que simplesmente caiu inteira. Como era de se esperar, não havia expressão em seu rosto, mas seus lábios se moveram enquanto isso acontecia.

Nenhuma voz foi emitida, então Jusetsu não sabia o que ele disse. Ele provavelmente estava chamando o Corvo pelo seu verdadeiro nome.

Antes que sua cabeça tocasse o chão, ela também se transformou em penas. Penas de coruja cobriram o chão onde Shogetsu esteve. Ele desapareceu sem deixar mais nenhum rastro.

Tudo o que restou foi um monte de penas sob a luz do luar.

[Kessel: Que sinistro!!! Estou muito curioso com as implicações disso tudo!]

 

Koshun estava sentado com o ombro exposto e Eisei enfaixou seu braço com algodão alvejado. Jusetsu os observava pelo canto do olho enquanto recolhia as penas que Shogetsu havia deixado para trás.

“É só um pequeno ferimento. Vai melhorar rapidinho. Já sofri coisas muito piores”, disse Koshun calmamente depois que Eisei terminou de tratar seus ferimentos. Ele ajeitou o manto.

Jusetsu tinha vislumbrado as cicatrizes de Koshun aqui e ali, então não havia como discutir isso — mas ele ainda estava ferido. Não havia como negar que doía.

“…Sinto muito. E obrigada”, disse Jusetsu simplesmente. Koshun e Eisei se entreolharam.

Jusetsu silenciosamente encheu um saco de estopa com as penas. Ela não sabia se podia deixá-las ali, então decidiu que o melhor seria recolhê-las e guardá-las no Palácio Yamei. Onkei a estava ajudando, mas eles não estavam conversando. Jusetsu se concentrou na tarefa. Ela se envergonhava por não ter conseguido fazer mais nada em relação a Shogetsu e, por isso, não se sentia com energia suficiente para falar. Se Shinshin não tivesse aparecido, ela estaria completamente desamparada.

Shogetsu havia chamado Shinshin de "Harara". Seria esse o verdadeiro nome de Shinshin? Havia tanta coisa que Jusetsu desconhecia.

Jusetsu colocou a mão sobre o estômago. As palavras de Gyoei ecoavam em sua mente.

“…Um monstro será criado dentro de você.” 

Será que eu vou me transformar em um monstro?

“Você já é meio-Corvo. Você entrou neste mundo como você mesma, mas sem perceber, isso lhe foi roubado. É uma coisa extremamente cruel de se fazer com alguém, mas Kosho…”

Será que Kosho não havia refletido muito sobre o que fez? Ou será que ela sabia e mesmo assim optou por oferecer a Consorte Corvo como receptáculo? Será que Reijo e as Consortes Corvo anteriores sabiam disso? E o Ministro do Inverno?

A Consorte Corvo estava aprisionada no Palácio Yamei, mas agora parecia haver algo ainda mais profundo. Isso significava que nem o corpo de Jusetsu, nem seu coração, lhe pertenciam?

Ela estava perdendo algo profundo dentro de si. Estava se desfazendo.

Como sobrevivente da família Ran, Jusetsu foi mantida em segredo, viu sua própria mãe ser assassinada e, então, foi escolhida para ser a Consorte Corvo. Tudo isso estava além do seu controle, mas ela se manteve firme e decidiu que não tinha outra escolha a não ser sobreviver. Era assim que ela vivia. Ela acreditava que a única coisa que ninguém poderia tirar dela era ela mesma. Era algo inquestionável para ela — não precisava se convencer disso. Com essa crença em seu âmago, Jusetsu podia se manter de cabeça erguida.

Mas agora, ela nem sabia mais se era ela mesma.

Onde começa o Corvo e onde termina o "eu"? Será que um dia me perderei completamente para o Corvo? Ou isso já aconteceu?

A visão de Jusetsu ficou distorcida.

Não aguento mais isso, pensou ela.

“Jusetsu”, chamou Onkei. Ela ergueu o olhar. “Tenho certeza de que Jiujiu e os outros estarão esperando por você no Palácio Yamei. Você deve estar com frio neste ar noturno. Por que não pede a eles que preparem um chá quente para você?” Onkei fechou a parte superior do saco de estopa e o pendurou na cintura. Então, virou-se para a jovem e estendeu a mão. “Você consegue andar, Jusetsu?”, perguntou.

Ela olhou fixamente para a mão que ele lhe ofereceu e, lentamente, estendeu a sua. Colocou os dedos gélidos sobre a mão quente de Onkei, finalmente permitindo-se sentir o calor novamente. Parecia que o calor do corpo dele estava se infiltrando no dela.

Onkei a ajudou a se levantar. Antes que percebessem, Shinshin havia desaparecido.

Talvez o pássaro tenha retornado apressadamente ao Palácio Yamei.

"Jusetsu", Koshun a chamou, e ela se virou. Ele procurou algo no bolso do paletó enquanto caminhava em sua direção.

"O que foi?" perguntou Jusetsu. "Você trouxe algum lanche para mim de novo?"

Se Koshun tivesse algo escondido no bolso, geralmente significava que ele havia trazido algum tipo de guloseima.

"Não", disse Koshun. Parecia que desta vez era diferente. Ele tirou algo do bolso, deu uma olhada rápida e franziu a testa. Depois, guardou de volta no bolso.

“O que é isso?”, perguntou ela.

“Eu te mostro em outra ocasião.”

“Por quê? Não pode me mostrar? Tenho certeza de que eu me interessaria”, disse Jusetsu.

Com um olhar relutante, Koshun tirou o objeto do bolso. Pegou a mão de Jusetsu e colocou algo em sua palma. Era um enfeite de cinto: um peixinho dourado. A escultura em madeira era tão detalhada que tinha escamas esculpidas, e as barbatanas da cauda do peixe pareciam prestes a se mover.

“Devo estar vendo coisas. Como você fez isso tão rápido?”

Jusetsu havia dito a Koshun que tinha medo de perder seu peixinho dourado de vidro, então ele disse que faria um de madeira. Essa conversa tinha acontecido naquele mesmo dia.

“Eu consigo fazer algo assim rapidinho. Estava visitando o Palácio Yamei porque queria te dar de presente.” E foi por isso que Koshun esbarrou nela assim que ela saía do palácio. “Mas eu fui descuidado. Parece que lascou quando caí.”

Agora que Jusetsu olhou mais de perto, percebeu uma pequena imperfeição na barbatana dorsal do peixinho dourado. Achei que fosse assim mesmo, pensou Jusetsu. Mas ela não teria notado se ele não tivesse mencionado.

"Vou fazer um novo para você", disse Koshun, estendendo a mão. Parecia que ele estava pedindo o antigo de volta.

Jusetsu olhou fixamente para o peixinho dourado. "Não preciso de outro."

Tinha um cordão vermelho claro preso a ele. Jusetsu passou o cordão pelo cinto e deu um nó. Agora havia um peixinho dourado pendurado em seu cinto. A cada movimento, ele balançava. Parecia que o peixe estava pulando.

“Uma pequena lasca não faz diferença para mim”, disse Jusetsu. “Se este peixe não tivesse nenhum defeito, provavelmente começaria a se mover sozinho.”

“…Tudo bem então”, respondeu Koshun. Enquanto observava Jusetsu mexer o peixinho dourado com a ponta dos dedos, um leve sorriso surgiu em seu rosto. “Se você gostou, fico feliz”, acrescentou.

Jusetsu olhou para Koshun de relance, depois desviou o olhar. Voltou-se para o Palácio Yamei. "Sim", sussurrou. "...Obrigada."

[Kessel: Fofos!!!]

Então ela acelerou o passo sem se virar para Koshun. Onkei estava à sua frente, olhando ao redor enquanto caminhava. A lua brilhava forte no céu.

As pesadas correntes que prendiam Jusetsu com seu calor venenoso eram agora o que a puxava para trás e a impedia de cair.

Pode ter sido um erro, e ela pode ter quebrado a promessa que fez a Reijo, mas…

 

“Eisei”, chamou Koshun ao seu eunuco enquanto retornavam ao pátio interno.

Eisei segurava um castiçal e liderava o caminho, mas aproximou-se sorrateiramente do imperador. Ainda havia alguns eunucos da Casa da Contenção por perto.

“Há algumas coisas que preciso verificar”, disse Koshun. 

“Elas têm a ver com Shogetsu?”

Koshun assentiu, reconhecendo a grande intuição de Eisei.

O imperador tinha várias dúvidas sobre Shogetsu — e sua identidade era a menor de suas preocupações. Como Shogetsu havia entrado no palácio interno como eunuco? E não só isso, como também trabalhava para o palácio de uma consorte. Como conseguiu obter um passe?

"Ele está trabalhando em conjunto com alguém..." O sussurro de Koshun foi tão baixo que se dissipou na escuridão da noite.

***

Após Koshun passar pelo portão do Santuário Seiu, dirigiu-se diretamente à parte de trás do palácio. Como não havia avisado o Ministro do Inverno de sua chegada, quando seus subordinados o avistaram, saíram apressados ​​do palácio e se ajoelharam.

"Gyoei está aqui?" perguntou Koshun, e o conduziram ao mesmo quarto de sempre.

O velho apareceu num instante. Era como se estivesse à espera da visita de Koshun.

“Fui informado de que você sofreu uma lesão há alguns dias. Você está se recuperando bem?”

“Você não perdeu muita coisa”, respondeu Koshun. “Não é nada sério. Só um arranhão.”

Essas palavras — e o fato de Koshun parecer normal — tranquilizaram Gyoei, que assentiu. "Fico feliz em saber disso", disse ele.

“Isso te faz sentir melhor?” 

“Sim, faz.”

“Ótimo.” Koshun fechou a boca e olhou para a janela de treliça. A luz do sol lá fora era tão forte que o fez semicerrar os olhos.

Ele passou muito tempo tentando descobrir a melhor maneira de abordar o assunto. Isso ficou em sua mente até o momento em que chegou ao Santuário Seiu.

“Quem me feriu foi um eunuco chamado Ho Shogetsu. Ele é um neófito que chegou recentemente ao palácio interno. Você também ouviu falar disso?”

Gyoei encarou Koshun atentamente, como se estivesse tentando decifrar suas verdadeiras intenções.

Koshun prosseguiu. “Shogetsu seduziu a Consorte Pega, causou a morte de uma dama da corte e mergulhou todo o palácio interno no caos. É natural que seu passado seja investigado a fundo. Ele recebeu um passe como sobrinho de alguém chamado Ho Ichigyo, mas sabemos que definitivamente não é. Em outras palavras, o passe foi emitido sob falsos pretextos. Quem o providenciou? E mais uma coisa: Shogetsu não era um eunuco que o Alto Mordomo Abutre comprou de um corretor. Ele teve permissão para entrar no palácio porque um oficial o recomendou, e é por isso que o Palácio Jakuso confiou nele o suficiente para empregá-lo. Quem o recomendou? Descobri que a resposta para essas perguntas é Shukuko, o funcionário do conselho de pessoal.”

Koshun encarava o rosto de Gyoei enquanto ele falava, mas o Ministro do Inverno não pareceu nem um pouco surpreso.

“Shukuko era um dos seus subordinados, então presumo que o conheça bem. Ele é um dos homens que o senhor treinou. Pelo que ouvi, nenhum deles jamais se esqueceu do que o senhor fez por eles — eles o admiram muito. Então… como um homem assim se envolveu nisso?”

Foi somente quando Koshun disse isso que o lábio de Gyoei tremeu e ele cerrou os dentes. O velho permaneceu em silêncio durante todo o resto.

“Shukuko nunca admitiu o que você pediu para ele fazer, mas as pessoas viram você o visitando. Elas também ouviram você. Não há como esconder essas coisas, mesmo que vocês se encontrem em segredo no meio da noite.”

"Você o torturou?" perguntou Gyoei.

“Foi você quem o torturou”, disse Koshun, com calma, mas com firmeza. Gyoei se calou novamente ao ouvir isso.

"Por quê?" Koshun perguntou novamente. "Por que você enviou Shogetsu para o palácio interno? Que tipo de relacionamento você tem com ele?" Koshun continuou, cuspindo as palavras. Ele se sentia sufocado. "Você o enviou para lá sabendo que Shogetsu tinha vindo para... assassinar Jusetsu?"

Gyoei não desviou o olhar. Koshun agora sentia como se fosse ele quem estivesse sendo observado.

"Eu sabia", admitiu Gyoei calmamente, mantendo os olhos fixos em Koshun. “A princípio, eu não sabia da existência de Ho Shogetsu. Ho Ichigyo era um velho amigo meu. Não nos víamos há anos, mas recebi uma carta dele pela primeira vez em muito tempo. Ele disse que queria que eu conseguisse um passe para ele, então pedi ajuda a Shukuko. Na época, pensei que era apenas um pequeno favor a um velho amigo. A surpresa veio quando ele chegou e me visitou. Ele me pediu para designar Shogetsu para o palácio interno como eunuco. Muitos jovens sem dinheiro se tornam eunucos, então o pedido em si não era particularmente incomum. Aqueles com recomendações recebem tratamento preferencial depois de entrarem no palácio. No entanto, Shogetsu não parecia estar com dificuldades financeiras, então eu realmente não conseguia entender por que ele estava tão ansioso para se tornar um eunuco. Ele era um homem peculiar… não, ele não era um homem. Ele não era nem homem nem mulher e, como tal, nem sequer visitou a Câmara do Castigo para ser transformado em eunuco. Na verdade, não foi isso que aconteceu. Sequer parecia que ele era minimamente humano.”

Gyoei soltou um suspiro e respirou fundo por um instante. Ele ergueu o copo e umedeceu os lábios com chá. Então, continuou.

“Shogetsu respondia a qualquer pergunta que você lhe fizesse. Ele disse que queria ir ver a Consorte Corvo. Quando perguntei por quê, ele disse que precisava matá-la. Não lhe perguntei mais nada além disso. Ele não era apenas um homem extraordinário, mas também alguém com uma missão a cumprir. Pedi a ajuda de Shukuko e enviei Shogetsu ao palácio interior, como você sabe.”

"Mas por quê?", perguntou Koshun. Não era frequente que sua voz perdesse a serenidade habitual, mas, naquela ocasião, ele havia perdido a compostura. "Não é a mesma coisa que enviar um assassino diretamente para a Consorte Corvo?"

“Você está certo.” A resposta de Gyoei deixou Koshun sem palavras. “Eu acreditava que, se Shogetsu não fosse um homem comum, seria errado da minha parte impedir as coisas. Não me cabe decidir se Shogetsu a mata ou se ela vira o jogo contra ele. Essa é a regra — mesmo que isso leve à morte da Consorte Corvo… Jusetsu.”

“Você está me dizendo que não se importou? Como você pode pensar assim, sabendo o quanto ela gosta de você?”

Jusetsu visitou o Palácio Seiu inúmeras vezes. Ela sempre ficava absorta enquanto ouvia as histórias que Gyoei contava sobre Reijo. Até mesmo Gyoei devia saber o quanto ela se apegou a ele.

As sobrancelhas de Gyoei se moveram e seus olhos se encheram de lágrimas. Ele baixou a cabeça. "...Vossa Majestade sempre demonstra tanta compaixão por ela."

“Quê?”

"Eu o avisei repetidas vezes para não se aproximar da Consorte Corvo, mas o senhor não me ouviu, Majestade."

“Mas eu…” Koshun protestou.

“A Consorte Corvo é um ser solitário. Ela não sente falta de nada e mantém as pessoas à distância enquanto vive seus anos sozinha no Palácio Yamei. Você continua me perguntando por que isso acontece, mas na verdade eu gostaria de lhe perguntar algo: por que você acha que eu recebi Jusetsu de braços abertos? Não consigo entender por que você teve essa impressão.”

Koshun olhou para Gyoei, horrorizado.

“Jusetsu tem eunucos e damas da corte como seus assistentes pessoais. Ela tem você também. Ela vive uma vida de privilégios. Eu não sinto pena dela como você. Desde o momento em que você se preocupou com ela e me visitou, eu nunca a vi dessa forma. Jusetsu está cercada de pessoas. Até o imperador se preocupa com ela. O imperador nunca deu atenção a Reijo dessa maneira. Nenhum dos imperadores anteriores sequer pensou nela. Reijo estava sozinha. Ela estava sempre sozinha, completamente sozinha!” gritou Gyoei. Seu grito rouco e arrepiante ecoou pela sala. “Alguém a ajudou? Alguém usou sua influência para melhorar as coisas para ela? Por que Jusetsu? Se ao menos houvesse um imperador que se preocupasse com Reijo…”

Gyoei socou a mesa com os punhos. As xícaras de chá tombaram e rolaram pela superfície. O conteúdo escorreu para o chão. O gotejar do líquido era anormalmente alto e quase soava como lágrimas.

Os punhos de Gyoei tremiam.

Koshun olhou fixamente para eles. “…Ela tinha Jusetsu”, disse Koshun suavemente, fazendo Gyoei olhar para ele. “Reijo tinha Jusetsu. Ela ensinou Jusetsu a ler e escrever, incutiu nela a razão e cuidou dela com o máximo carinho. Dá para perceber só de olhar para ela o quanto Reijo a amava. Nem consigo imaginar o quão importante a presença de Jusetsu teria sido para ela. Jusetsu não era a salvação de Reijo?”

Gyoei encarou Koshun em silêncio.

“Você tentou assassinar aquela garota.” A voz de Koshun estava calma novamente. O bigode de Gyoei se contraiu, mas nenhuma palavra saiu.

O imperador relembrou todas as diferentes imagens de Gyoei que guardava na memória: seu ar distante e tom um tanto sarcástico, as caretas que fazia quando era pego de surpresa e as rugas entre as sobrancelhas enquanto jogava Go. Afinal, não era só Jusetsu que tinha o hábito de visitá-lo.

Os breves períodos de tempo que Koshun passou com Gyoei foram — de certa forma — momentos de alívio para ele.

E agora, essas oportunidades lhe haviam sido tiradas. Ele jamais as recuperaria. Nunca.

Koshun levantou-se da cadeira. "Você vem dizendo que quer se aposentar, não é? Bem, estou lhe dando permissão. Vá embora. E não ouse dizer mais uma palavra."

Ele não tinha intenção de punir Gyoei publicamente. A imperatriz viúva havia desaparecido recentemente, então ele queria evitar o caos que adviria de ser acusado de mais um plano nefasto.

[Kessel: Entendo a decisão do imperador, mas me dá raiva ver Gyoei escapar impune. Esse miserável tentou matar a Juju!]

Gyoei curvou-se com as mãos juntas. "Agradeço profundamente a gentileza que me demonstrou", disse ele ao imperador.

Koshun não disse nada e saiu da sala. Ele não havia percebido que Gyoei estava reprimindo tanta raiva e tristeza. O jovem imperador estava completamente alheio. Às vezes, Gyoei escondia o rosto para que ninguém pudesse ler sua expressão, e Koshun não entendia o que isso significava. Ou talvez tivesse entendido — e simplesmente estivesse inconscientemente evitando analisar a situação a fundo.

Tudo estava escapando por entre seus dedos. No fim, não sobraria nada. Koshun sentiu como se uma sombra fria e sombria o seguisse novamente por trás.

 

Gyoei deixou o Santuário Seiu antes do final daquele dia e foi morar com seu irmão na área ao redor da propriedade imperial, como ele já havia mencionado.

Alguns dias depois, Koshun soube que Gyoei havia tirado a própria vida.

[Kessel: Lazarento…]

***

O Palácio Koshi ficava em um canto da propriedade imperial. Apesar de ser a residência particular do imperador, era pequeno e sem grande luxo. Suspeitava-se que fosse uma espécie de refúgio que permitia ao imperador passar um tempo em reclusão.

Certo dia, um mensageiro chegou carregando uma liteira, dizendo a Jusetsu para ir ao Palácio Koshi. Naturalmente, essa mensagem veio de Koshun.

Quando Jusetsu saiu da desconfortável liteira, viu uma placa com a inscrição "Palácio Koshi" em um portão com telhado de telhas. Ao atravessá-lo, encontrou um pequeno palácio no final de um caminho de paralelepípedos. Não havia sequer um jardim. O lugar era aberto e desimpedido, mas ela não conseguia se livrar da sensação de solidão. Os pilares do palácio não tinham laca vermelha, sendo apenas madeira nua. Havia telhas decorativas com a imagem de um velho montado em uma tartaruga gigante na beira do telhado. Lanternas de ferro fundido enfeitavam as beiras do telhado.

Um eunuco abriu as portas para ela. Jusetsu ouviu um leve farfalhar ao vento. Que som é esse? Ela percebeu que o ruído vinha das bandeiras de cobre que decoravam o cômodo. Elas balançavam e rangiam umas contra as outras. Que cômodo estranho. Ao olhar para os pés, viu uma incrustação de ouro cobrindo o chão de pedra — círculos e linhas entrelaçados. Parecia ser a representação de uma constelação. Jusetsu a observou enquanto caminhava para frente. Então, avistou um divã no fundo do cômodo. Koshun estava sentada nele, relaxadamente.

Jusetsu disse a primeira coisa que lhe veio à mente. "O que você quer de mim?"

Koshun apontou para o lugar ao lado dele, incentivando-a a sentar-se. Não havia outras cadeiras, então Jusetsu não teve escolha a não ser sentar-se na beirada do divã. Normalmente, ninguém tinha permissão para sentar-se ao lado do imperador, mas Koshun estava cumprindo sua promessa de tratá-la como a Soberana do Inverno quando estivessem sozinhos.

“Temos um novo Ministro de Inverno. Ele quer te cumprimentar, então eu disse para ele vir encontrá-la aqui.”

"O Gyoei se aposentou?" perguntou Jusetsu, um tanto decepcionada. Ele vinha dizendo que queria se aposentar há algum tempo, mas ela não fazia ideia de que ele tinha ido lá e feito isso sem o seu conhecimento.

“Sim”, respondeu Koshun, sendo breve em sua resposta.

Ele deveria ter me contado antes de se aposentar, pensou Jusetsu, mas nem Gyoei nem Koshun eram obrigados a informá-la. Mesmo assim, ela ficou um pouco triste ao ouvir isso.

“Ele disse que ia morar com o irmão e a cunhada perto da propriedade imperial, não disse? Foi para lá que ele foi?”

“Sim”, disse Koshun.

“Então não poderei mais vê-lo.”

Jusetsu não tinha permissão para sair da propriedade imperial. A menos que Gyoei entrasse, ela nunca mais o veria.

Koshun não disse nada e simplesmente ficou olhando para as estrelas no chão.

“Como é o novo Ministro do Inverno?” perguntou Jusetsu. “Já o conheci antes?”

“Acho que não”, respondeu Koshun. “Parece que ele tem se concentrado em cuidar de algumas tarefas administrativas até agora. Ele é a pessoa que tem mantido o Santuário Seiu funcionando, apesar do orçamento apertado e da falta de funcionários. Ele ainda é jovem — pouco mais de quarenta anos, eu acho.” Koshun então explicou que Gyoei já o tinha escolhido como seu sucessor há algum tempo.

“Se ele é o Ministro do Inverno… então isso deve significar que ele sabe o que é a Consorte Corvo, não é?”

“Sim”, disse Koshun, dando mais uma resposta breve.

“…Eu me pergunto o quanto ele realmente sabe”, murmurou Jusetsu.

Até então, ela pensava que o Ministro do Inverno e a Consorte Corvo compartilhavam os mesmos segredos, mas Gyoei insinuou que sabia que Jusetsu tinha um monstro — ou melhor, Uren Niangniang — dentro dela. Isso era algo que Jusetsu desconhecia completamente. Provavelmente havia outras coisas que Jusetsu também não sabia. Será que o Ministro do Inverno sabia de todas elas?

"Mestre", chamou Eisei ao entrar no palácio. Ele caminhou até Koshun com passos silenciosos e graciosos. "O Ministro do Inverno chegou."

Após esse anúncio, outro eunuco conduziu um homem para dentro da sala. Ele vestia um manto escuro, verde-acinzentado, e um futou escuro, cor de rato, com penas da cauda de um pato-de-cauda-afilada. Era um homem extremamente alto e magro. Suas bochechas eram encovadas e pálidas, e ele tinha um olhar penetrante. Parecia estar doente.

O homem aproximou-se de Koshun e Jusetsu e ajoelhou-se diante deles.

“Meu nome é Token. Meu nome de cortesia é Senri. Fui agraciado com a honra de herdar o título de Ministro do Inverno.”

Sua voz era grave, mas ele era uma pessoa surpreendentemente calma e gentil. À primeira vista, parecia tenso, mas talvez não estivesse tão nervoso quanto aparentava.

“Tenho sido propenso a doenças por muitos, muitos anos, então minha saúde não está das melhores. Mesmo assim, estou ansioso para cumprir minhas obrigações neste cargo. E também por Gyoei, que tão gentilmente me apoiou por tanto tempo”, disse Senri com os olhos baixos. Quando ele fez isso, seu olhar não parecia tão penetrante.

"Gyoei está se saindo bem na aposentadoria?", perguntou Jusetsu.

Senri olhou para Koshun por um instante. Rapidamente, voltou seu olhar para Jusetsu. "Sim", disse ele. "Acredito que sim."

“Entendo”, disse Jusetsu. Ela imaginou que ele pudesse estar jogando Go com seu irmão mais novo naquele exato momento. “Eu queria jogar Go com ele um dia. Não sou muito boa, mas duvido que ele seja tão habilidoso quanto Koshun.”

Um sorriso um tanto melancólico surgiu no rosto de Koshun. Ela imaginou que ele também estivesse triste porque Gyoei havia se aposentado.

“Eu sei jogar um pouco de Go”, disse Senri. “Se você não se importar de jogar comigo, terei prazer em jogar uma partida com você quando quiser.”

“Imagino que você seja muito bom. Seu rosto diz tudo. Além disso, ‘Eu sei jogar um pouco de Go’ soa exatamente como algo que um jogador competente diria”, respondeu Jusetsu, franzindo a testa.

Senri riu. Seu sorriso era inesperadamente espontâneo, o que surpreendeu Jusetsu. Talvez ele fosse mais alegre do que sua aparência sugeria.

“Enfim… Gyoei passou muito tempo pesquisando a Consorte Corvo”, disse Senri com um leve sorriso ainda no rosto. “Acho que ele estava ciente de coisas que o Hakuen anterior… o Ministro do Inverno anterior desconhecia.”

“Por exemplo?”, perguntou ela.

“O fato de Uren Niangniang estar selada dentro da Consorte Corvo, por exemplo.”

Jusetsu se viu olhando para Senri. Ele assentiu levemente. “Aqueles que herdam o cargo de Ministro do Inverno recebem a Enciclopédia Duo de História… A outra versão, a mesma que a Consorte Corvo possui. Nada mais nos é transmitido. Como resultado, tudo o que os Ministros do Inverno descobrem é o que está escrito nela. No entanto, parece que Gyoei fez algumas investigações adicionais por conta própria. Descobri isso através das muitas anotações que ele deixou — por isso digo ‘parece’ dessa forma. Ainda não as organizei todas, mas parece que ele era muito apaixonado por essa pesquisa. Dito isso, tenho a impressão de que ele a encerrou após a morte da Consorte Corvo anterior…”

Ah, entendo.

Para Jusetsu, isso fazia todo o sentido. Gyoei devia estar fazendo aquela pesquisa para ajudar Reijo. Mas foi inútil. Ele não conseguiu libertá-la.

“Pretendo começar organizando toda a pesquisa de Gyoei. Depois disso, seguirei seus passos e continuarei a investigação que ele interrompeu. Afinal, esse tipo de coisa sempre foi meu forte.”

"Não seria mais rápido perguntar ao próprio Gyoei sobre o trabalho dele?", perguntou Jusetsu.

“Ele me repreenderia se eu fizesse isso. ‘Você realmente precisa vir correndo para um velho tolo aposentado como eu para te ajudar a entender isso?’, ele diria”, Senri ironizou, sorrindo. “Eu também estou irritado com isso. Vejo como uma tarefa de casa que Gyoei deixou para mim.”

Jusetsu conseguia facilmente imaginar o velho sendo tão irônico. Havia uma mistura de nostalgia e adoração no sorriso esculpido nas bochechas encovadas de Senri. Era evidente que Gyoei e Senri tinham uma relação de confiança mútua.

“Se isso puder te ajudar, Jusetsu… acredito que terei cumprido meu dever como sucessor de Gyoei”, declarou Senri, escolhendo suas palavras com cuidado.

Jusetsu inclinou a cabeça ligeiramente. Por que me ajudar significaria que ele havia cumprido seu dever?

“Veja bem, acredito que o propósito original do Ministro do Inverno era ajudar a Consorte Corvo”, continuou ele.

“Você acredita…?”

“Gostaria de poder ajudá-la, pelo menos.”

Jusetsu encarou o rosto de Senri. Por alguma razão peculiar, ele — apesar de ser tão pálido e magro — fazia Jusetsu se sentir segura. Ela sentia como se pudesse depender dele. Talvez fosse assim que teria sido ter um pai, pensou por um breve instante.

Senri aproveitou a oportunidade para se despedir e voltar para casa. Jusetsu imaginou que o Ministério do Inverno estaria em boas mãos com ele por perto.

“Eu sabia que Gyoei teria treinado um bom sucessor para assumir seu papel”, comentou ela.

“Ele treinou”, disse Koshun, mantendo sua resposta breve mais uma vez, como era de se esperar. 

Jusetsu olhou para ele. “Seu braço está doendo?”

Koshun pareceu confuso com a pergunta. "Não. Por quê?"

“Seu rosto diz tudo”, ela respondeu, repetindo a mesma frase que havia dito a Senri mais cedo.

Koshun soltou uma risadinha. "É mesmo?"

“Se você está cansado, deve voltar logo e descansar.”

"Eu deveria", disse Koshun, mas não fez nenhum esforço para se levantar. "Eu dormi na sua cama uma vez, não dormi?"

“Você dormiu. Foi um incômodo.”

“Essa foi a melhor noite de sono que já tive. Acho que até tive um sonho bom”, continuou ele, ignorando o comentário dela.

“A cama é minha, não sua. Não vou deixar você dormir lá de novo.” 

“Talvez tenha sido porque você estava lá”, continuou Koshun.

“Eu também não sou sua cama.”

“Bem, você não está errada sobre isso”, disse Koshun. Desta vez, ele se levantou. “Desculpe por falar bobagens. Esqueça o que eu disse.”

Jusetsu olhou para o rosto de Koshun. "Você está com dificuldade para dormir?" 

Ele olhou para ela e fez uma pausa. "Um pouco."

Jusetsu apontou para o lugar ao lado dela, incentivando Koshun a se sentar. Era a mesma coisa que Koshun havia feito antes, quando Jusetsu chegou ao Palácio Kosho. Koshun obedeceu e sentou-se novamente.

Jusetsu pegou a mão dele na sua. "Você está com muito frio. E é verão. Você está se alimentando direito?"

“Estou.”

“Não conseguir comer é um problema, mas forçar a comida também não é bom. Só sobrecarrega o estômago. Não limite sua dieta a alimentos frios só porque está calor lá fora. Experimente colocar cebolinha e gengibre em um mingau. Vai te aquecer. Lichia também é uma boa opção, pois melhora a circulação do seu qi”, explicou Jusetsu enquanto massageava a mão de Koshun. “Além disso…”

Enquanto Jusetsu tentava pensar em outra coisa que pudesse comer, ela percebeu um sorriso surgir no rosto de Koshun.

“O que foi?”, perguntou ela.

“Nada demais… Só fiquei curioso para saber se o Reijo também te ensinou isso.”

“A Keishi cuidou de mim. Ela é a serva do Palácio Yamei. Ela nunca para de se preocupar com nutrição. Quando cheguei ao Palácio Yamei, eu era magra como um palito, então ela cuidou de mim.”

Reijo havia ensinado Jusetsu a fazer massagem nas mãos. Quando Jusetsu acordava assustada com pesadelos em que a cabeça de sua mãe estava exposta em público, Reijo costumava massagear e aquecer suas mãos para que a jovem pudesse dormir melhor.

Ela disse isso a Koshun e acrescentou: "Se você não consegue dormir, peça para alguém massagear sua mão assim."

"É mesmo...?" disse Koshun, recostando-se no divã e parecendo relaxado. "A Consorte Pega faleceu", disse ele suavemente.

Jusetsu parou o que estava fazendo e olhou para ele. 

"Eu não queria deixá-la morrer", continuou ele.

“Claro que não”, disse ela.

“Não é como se eu estivesse triste apenas pela morte dela, por outro lado. Eu precisava mantê-la viva também pelo bem do pai dela.”

“O pai da Consorte Pega… Não era ele o vice-ministro do secretariado… e membro da Facção do Solstício do Inverno?”

“Correto. Ele deve me odiar.”

“Duvido que ele… te odeie. O que a Consorte Pega fez não tem nada a ver com você. Esse ressentimento seria infundado.”

“Não, não seria. E se ela não tivesse vindo ao palácio interno? E se eu a tivesse mandado de volta para a família mais cedo? Mesmo que você tente racionalizar, o ressentimento continua queimando no fundo do seu coração. Eventualmente, as brasas que esses sentimentos deixam para trás se transformarão em um incêndio enorme”, disse Koshun. “A mesma coisa aconteceu quando eu não perdoei a imperatriz viúva. Se não fosse pelo que ela fez com minha mãe e com Teiran, não sei se eu teria ficado tão obcecado em ascender ao trono. As emoções movem meu coração. Todos são movidos dessa forma.”

Jusetsu apertou a mão de Koshun novamente. Ela estava mais quente agora, mas Jusetsu tinha certeza de que o calor ainda não havia chegado ao coração dele.

“Estou enojado de mim mesmo por não ter conseguido lamentar a morte da Consorte Pega como deveria”, disse o imperador. A voz de Koshun era calma, mas para Jusetsu, soou como um grito vindo diretamente de seu coração dilacerado.

“Queime uma pena de seda para ela”, sugeriu Jusetsu. 

“Uma pena de seda?”, repetiu Koshun.

“Reserve um tempo para lamentar a perda dela. Isso lhe dará a oportunidade de se concentrar no luto e em nada mais.”

Koshun encarou Jusetsu fixamente. "Tudo bem. Farei isso."

"Vou acender uma fogueira para ela também. Quero ter certeza de que ela atravessará o mar sem problemas."

Ela queria ter certeza de que Koshun também não se desviaria do caminho certo. E essa foi a primeira vez que ela orou por ele.

Ao retornar ao Palácio Yamei, Jusetsu pegou uma pena de seda de seu armário, escreveu o nome da Consorte Pega e a queimou. Observou o pequeno pássaro vermelho-claro voar para longe e pensou em Koshun. Pela primeira vez, se perguntou se havia algo que pudesse fazer por ele. Não queria retribuir o fato de ele ter se ferido para protegê-la, nem por ter lhe oferecido ajuda.

A ideia simplesmente veio à mente.

Ela não conseguia mais ver o pássaro. O céu azul era tão intenso que parecia que, se alguém o mergulhasse, sua mão ficaria azul. As nuvens brancas pareciam ter sido amassadas para formar uma montanha. O próprio céu brilhava com tanta intensidade que chegava a ofuscar. Jusetsu o contemplou, semicerrando os olhos por causa da luz, e então retornou para dentro de seu palácio. Dirigiu-se novamente ao armário e pegou um pouco de papel de cânhamo. Colocou-o sobre a mesa, onde já estavam um tinteiro e um pincel, e sentou-se em sua cadeira. Após alguns instantes de reflexão, pegou o pincel.

Naquele dia, ela enviou uma carta endereçada a um determinado funcionário.

***

Koshun tirou a parte de cima do seu manto e Eisei removeu as bandagens de algodão que estavam enroladas em seu braço. Seus ferimentos já haviam cicatrizado e não doíam mais. Apesar disso, a visão da cicatriz que haviam deixado fez Eisei franzir levemente a testa.

“Mestre…”

A cicatriz era uma linha tênue, e a ferida, na verdade, cicatrizou bastante rápido.

No entanto, uma marca com um padrão listrado apareceu misteriosamente perto dela. Não era uma contusão — era uma marca marrom propriamente dita.

Parecia exatamente uma pena de coruja.

“Não, não há nada de particularmente fora do comum”, disse Eisei.

Koshun voltou a vestir seu manto como estava. De fato, a presença da marca não era estranha. Parecia até que estava ficando mais fraca. Eisei tinha certeza de que desapareceria em pouco tempo.

“Se algo parecer suspeito, eu aviso imediatamente”, disse o eunuco. Ele ainda tinha uma expressão de preocupação no rosto.

Koshun saiu da sala e dirigiu-se do pátio interno para um dos edifícios do palácio. Caminhou pelo corredor e chegou a um canto onde havia um grande lago de lótus. Parou abruptamente antes de alcançar a água. Podia ouvir o zumbido dos insetos. Assim que saísse para o sol, o calor seria tão intenso que começaria a suar imediatamente. Mesmo assim, uma brisa suave soprava sobre o lago, e a sombra do corredor era fresca.

Enquanto Koshun contemplava os botões de lótus — as flores já estavam fechadas — um eunuco informou-o de que um de seus vassalos havia chegado.

O vassalo ajoelhou-se diante de Koshun e juntou as mãos em sinal de respeito. Koshun dispensou Eisei e o outro eunuco que estavam ao seu lado e chamou o homem ajoelhado diante dele.

“Por aqui”, disse ele. “…Kokei.”

O homem endireitou-se bruscamente e foi até o lado de Koshun. Era Kin Kokei, o pai da Consorte Pega. Ele tinha cerca de cinquenta anos e foi um homem de porte atlético. Agora, porém, parecia abatido, uma mera sombra de si mesmo. Até recentemente, seus cabelos eram muito escuros, mas metade deles havia embranquecido.

Ficou decidido que ele deveria renunciar ao cargo de vice-ministro do secretariado e deixar a corte imperial. Oficialmente, a Consorte Pega havia falecido de doença, e a dama da corte foi mordida por um cão selvagem. Contudo, como pai, ele não podia se esquivar da responsabilidade.

“Devo-lhe as mais sinceras desculpas, Vossa Majestade”, disse Kokei. Ele estava inconsolável. Perdeu o filho e agora também a filha. Para piorar a situação, Kokei foi obrigado a pedir desculpas a outras pessoas também. Koshun nem conseguia imaginar o que um pai devia estar sentindo.

“Você não precisa se desculpar. Apenas lamente pelos seus filhos e cuide da sua esposa”, disse ele.

"Oh..." murmurou Kokei. Incapaz de suportar mais, a expressão em seu rosto se desfez e ele cerrou os dentes. Seus olhos se encheram de lágrimas que transbordaram para suas bochechas. "E-eu sinto muito..." ele começou, mas achou impossível pronunciar as palavras. Em vez disso, enxugou o rosto com o lenço.

O homem era uma pessoa honesta em quem os outros funcionários confiavam profundamente. Ele também era um trabalhador confiável. Isso seria uma grande perda para Koshun.

[Kessel: Que dó desse pai. Nenhum parente deveria passar pela experiência de enterrar seus próprios filhos.]

“Como irmãos, aqueles dois sempre tiravam o melhor um do outro, desde pequenos…” Kokei começou a explicar, hesitante, depois de enxugar as lágrimas e recuperar a compostura. “Foi minha mãe quem primeiro comentou que eles estavam um pouco próximos demais. Para minha vergonha, eu mesmo não tinha percebido… Minha esposa sugeriu que a casássemos antes que cometessem um erro, mas eu não achava que simplesmente casá-la com outra família seria suficiente para acabar com o relacionamento deles. Se ela fosse para o palácio interno, porém, nunca mais o veria. Pensei que ou os sentimentos dela desapareceriam naturalmente, ou ela seria forçada a desistir dele. Foi uma razão extremamente impertinente mandá-la para o palácio interno. Esse foi o meu crime. Foi isso que levou Keiyo a fazer o que fez. Eu nunca imaginei que algo tão… tão… terrível pudesse acontecer…”

Kokei apertou o lenço com força. Nenhum arrependimento seria suficiente. Koshun deu um tapinha leve em seu braço, como quem diz: "Não seja tão duro consigo mesmo."

Lágrimas brotaram nos olhos de Kokei mais uma vez, e ele rapidamente colocou um lenço sobre eles. "De verdade... se Keiyo tivesse se apaixonado por um homem gentil como você, ela teria sido a garota mais feliz do mundo..."

Será que eu sou mesmo bondoso? Koshun pensou. Ele deixou Keiyo morrer e perdeu Kokei por causa disso. Ele esperava que esse homem o odiasse.

Não havia como Kokei ler os pensamentos de Koshun apenas olhando para seu rosto inexpressivo, mas mesmo assim, ele lhe deu um pequeno sorriso.

“Eu sei que Vossa Majestade é uma pessoa bondosa. Vossa Majestade queimou uma pena de seda por Keiyo, não foi?”

Koshun ficou chocado. Ele não tinha contado a ninguém sobre isso. A única pessoa que sabia que ele tinha feito aquilo em segredo era Eisei, e ele não teria revelado essa informação.

“Como você…?”

“Recebi uma carta… da Consorte Corvo.”

“A Consorte Corvo?” Ele ficou ainda mais chocado agora. Será que Jusetsu havia escrito uma carta para ele?

“Ela disse que queimou uma pena de seda em luto por Keiyo, para garantir que sua alma não se perdesse. Ela disse que você fez o mesmo. Estava tudo na carta dela. Eu jamais imaginaria receber tal mensagem da Consorte Corvo, então fiquei estupefato quando a recebi. Ela era uma figura misteriosa para mim — eu não sabia se era humana ou fantasma — então fiquei surpreso ao receber uma mensagem tão compassiva… Pude perceber pela carta o quão sinceras eram suas condolências. Ela é uma pessoa bondosa, não é? Assim como você, Vossa Majestade.”

Koshun ficou sem palavras. Ele jamais esperaria que Jusetsu fizesse algo assim. O que o surpreendeu ainda mais foi o fato de que ela provavelmente o fizera... por ele.

Ele não conseguia sentir nenhum ressentimento latente vindo de Kokei, e Koshun achou isso estranho. Ele se perguntou se o homem era bom demais em disfarçar aquilo, ou se aquela sempre fora sua verdadeira natureza.

A carta de Jusetsu confortou Kokei.

Ele não sabia porquê, mas naquele momento, Koshun foi tomado por uma forte vontade de chorar. Apesar da sombra sombria que o perseguia constantemente, sentiu como se finalmente tivesse se lembrado de como respirar novamente.

Durante todo esse tempo, Koshun desejava salvar Jusetsu. Ele sentia culpa por tê-la acorrentado ao palácio sem dizer uma palavra. Sabia que o que Shogetsu lhe disse só aumentaria seu sofrimento.

Jusetsu devia estar toda ferida. Talvez não estivesse fisicamente ferida, mas provavelmente carregava uma profunda angústia psicológica. Por que, depois de tudo isso, ela ainda tinha energia para pensar em mim?

Koshun, de todas as pessoas, sendo o Soberano do Verão que a havia aprisionado, a Soberana do Inverno.

Foi naquele momento que Koshun percebeu, pela primeira vez, que havia subestimado Jusetsu. À medida que se dava conta de sua própria presunção, seu coração — que estava congelado pelo medo das sombras — foi descongelando lentamente.

Ela também finalmente pôde começar a respirar.

Essa foi a salvação dela. A mesma salvação que Koshun tanto almejava, mesmo tendo se conformado com o fato de que jamais a alcançaria.

“Vossa Majestade?” Kokei elevou a voz, surpreso. “Vossa Majestade está… chorando? Por causa de Keiyo?”

Ela não era a razão. Incapaz de encontrar as palavras para corrigir esse mal-entendido, Koshun permaneceu imóvel em silêncio.

Uma brisa soprou sobre a superfície do lago e enxugou levemente a única lágrima que escorria por sua bochecha.


[Kessel: Que conclusão linda para um volume tão intenso. Que obra. Finalmente chegamos ao fim, seguidores da Uren Niangniang! Ou devo dizer que somos os seguidores da Jusetsu agora? Já que… parece que a Uren Niangniang não é exatamente uma aliada da Jusetsu. E essa marca de Coruja no Koshun?!?! O Eisei escolheu não informar o Imperador sobre ela, mas eu não acho que essa foi a decisão mais inteligente da parte dele…

Bom, de qualquer forma, é assim que finalizamos o Volume 2! Obrigado pela leitura, agradeço o carinho e a oportunidade de dividir essa história com vocês. Deixando claro que eu também faço a leitura dela conforme vou traduzindo, portanto, não sei o que vai acontecer daqui para frente! As reações são genuínas e livres de spoiler. Fico feliz que consegui manter um ritmo melhor na tradução deste volume, sem faltar com o lançamento semanal em nenhuma vez (agradeço o apoio da Jaque nisso, inclusive)! Agora é manter o ritmo e trazer um volume 3 de qualidade para vocês! Não sei o que esperar do Volume 3... Só sei que estou ansioso para ler ele!

Espero poder continuar compartilhando essa jornada com vocês até o fim, lembrando que são sete volumes ao todo! Obrigado e até segunda que vem, seguidores da Jusetsu!]


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