Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Jaque


Volume 2

Capítulo 4: O Aroma do Desejo (Parte 1)

“Uma besta?”

“Sim, ou pelo menos foi o que ouvi dizer”, respondeu Jiujiu enquanto penteava o cabelo de Jusetsu.

Ao acordar naquela manhã, Jiujiu ouviu o canto dos pássaros na floresta, fazendo muito barulho. Ela saiu para ver o que estava acontecendo. Perto dali, encontrou vários eunucos da Casa de Amarra — uma organização sob o controle direto do imperador, encarregada de reprimir o crime dentro do palácio — carregando espadas na cintura. Eles corriam de um lado para o outro, confusos e nervosos. Aparentemente, o corpo de uma dama da corte havia sido encontrado na floresta. A julgar pelos ferimentos, presumia-se que ela havia sido atacada por uma fera.

“Dizem que algo mordeu sua garganta… E se for um cachorro selvagem, um lobo… ou um tigre?”

“Um tigre talvez fosse uma possibilidade se estivéssemos nas montanhas, mas não há nenhum em um lugar como este. Nunca vi um cão selvagem no palácio interno também. Há algum por perto?”, perguntou Jusetsu.

“Acho que cães selvagens já entraram algumas vezes. Teve um eunuco que morreu depois de ser mordido por um. Formou-se pus em seus ferimentos e ele sofreu terrivelmente…” Jiujiu estremeceu, com o rosto pálido.

“Em qual palácio trabalhava a dama da corte falecida?”

“Ninguém sabe ainda. Estão perguntando em todos os palácios para verificar se alguma dama da corte desapareceu.”

Jusetsu fez uma pausa. "Será que aquela dama da corte estava a caminho daqui?"

...Será que a infeliz mulher estava a caminho de ver o Consorte Corvo com um pedido, mas foi atacada por uma fera antes de chegar lá?

Jiujiu olhou para o rosto de Jusetsu no espelho. "Não. Tenho certeza de que a fera a perseguiu, e esta foi a distância máxima que ela conseguiu correr", disse ela, atrapalhada, tentando proteger os sentimentos de Jusetsu.

Jusetsu encarou o espelho. Seu reflexo era sombrio e ela tinha uma expressão de desamparo. Endireitou as costas e se esforçou ao máximo para parecer séria. O espelho era octogonal e ricamente ornamentado. Materiais como conchas de turbante, âmbar, casco de tartaruga e lápis-lazúli haviam sido usados ​​para representar flores e pássaros em um estilo tradicional de decoração embutida. Jusetsu traçou a borda do espelho com um de seus dedos pálidos e observou atentamente seu próprio rosto... ou melhor, seu cabelo.

“Meu cabelo ainda está bom?”, ela perguntou.

“Está absolutamente ótimo. Você tem um cabelo preto lindo.”

Jusetsu estava verificando se a tintura havia desbotado. Jiujiu não sabia da situação de Jusetsu, mas também não queria perguntar muito a respeito. Koshun havia revogado a ordem que exigia a captura e o assassinato de toda a família Ran, então não havia mais chance de ela ser morta se descobrissem que ela era uma sobrevivente. Mesmo assim, ela ainda não conseguia se conformar em voltar a ter cabelos prateados. Isso só causaria problemas.

Havia, porém, uma diferença. Ela não sentia mais aquele medo angustiante de ser caçada. Koshun quis ajudá-la de alguma forma, e o esforço que ele fez para isso lhe trouxe alívio. Ela não acordava mais todas as manhãs com uma sensação opressiva de desespero, temendo a ideia de ter que sobreviver a mais um dia. Seu coração se sentia um pouco mais leve — e mais aquecido também.

“Hoje vou me vestir de eunuco”, disse Jusetsu.

“Entendido”, respondeu Jiujiu. Ela começou a arrumar o cabelo de Jusetsu, juntando-o em uma única mecha em vez das duas voltas habituais. Enquanto fazia isso, porém, acrescentou preocupada: “Você vai mesmo sair? Pode aparecer um cachorro selvagem.”

"Imagino que eles ajam durante a noite. Afinal, foi quando aquela dama da corte foi atacada. Além disso, eu nunca vou conseguir dar um passo sequer para fora de casa se você continuar falando coisas assim."

"Você costuma ficar em casa a maior parte do tempo, não é? Por que você tem que sair justo num dia como hoje?"

“O Ministro do Inverno pode se aposentar a qualquer momento.”

Ela planejava visitar Setsu Gyoei. Achava que ir de liteira seria ostentoso demais — uma vez já era mais do que suficiente. Mesmo assim, chamaria muita atenção se fosse a pé com suas vestes de consorte. Disfarçar-se de oficial teria sido o ideal, mas, devido ao seu tamanho e aparência, Jusetsu pareceria um menino pré-púbere se ela se vestisse de homem. Por isso, optou por se vestir de eunuco.

"E aposto que você pretende levar só o Onkei com você, não é?" Jiujiu bufou.

“Não foi você quem me disse que era perigoso porque poderia haver um cachorro selvagem por lá?”

“Se é perigoso para mim, então deve ser perigoso para você também, niangniang”, disse Jiujiu emburrada, fazendo beicinho. “Mas eu não pediria para você me levar junto… Eu detestaria te atrasar caso algo improvável aconteça.”

Enquanto dizia isso, suas mãos se moviam com a precisão de um relógio para prender o cabelo de Jusetsu em um coque alto. Atrás deles, Shinshin estava com as asas fechadas, comportando-se adequadamente.

Sempre que Jusetsu planejava sair, o pássaro fazia um alvoroço, então isso era incomum. Ele nem sequer tentou sair pelas cortinas. Em vez disso, parecia que Shinshin estava com medo de algum tipo de inimigo externo e simplesmente estava ouvindo em silêncio qualquer sinal dele.

[Kessel: O protagonista está atento! Ele está farejando seu inimigo…]

Quando Jusetsu vestiu seu robe cinza-claro, cor de rato, e saiu, ainda podia ouvir o som dos pássaros cantando inquietos e batendo as asas nas árvores.

“Eles ainda não sabem em qual palácio aquela dama da corte trabalhava…?” perguntou ela a Onkei. O homem a estava seguindo.

“Eles conseguiram determinar que ela trabalhava para o Palácio Jakuso”, respondeu ele.

“O Palácio Jakuso…?” Jusetsu repetiu em um sussurro. Aquele palácio estava em seus pensamentos ultimamente. “Será que ela estava tentando chegar ao Palácio Yamei?”

“Isso ainda não foi discernido.”

O fato de a vítima ser uma dama da corte fez Jusetsu se lembrar de alguém que a visitou antes. Essa mulher também era uma dama da corte. Ela implorou a Jusetsu, pedindo-lhe que trouxesse um morto de volta à vida. O cheiro do Aroma do Desejo a seguia por toda parte. Jusetsu não sabia como ela era, já que seu rosto estava coberto por uma fina seda, mas... qual era a cor de seu ruqun naquela noite?

Quem era aquela dama da corte, afinal?

Jusetsu ponderou silenciosamente sobre essas coisas enquanto caminhava. Então, olhou para trás, para Onkei. "Aquela dama da corte costumava usar o Aroma do Desejo?"

Onkei pareceu confuso. "Bem, é difícil dizer. O cheiro de sangue estava tão forte ontem à noite que eu não consegui..." Ele fechou a boca abruptamente, mas já era tarde demais.

“Onkei, foi você quem descobriu o cadáver?”

Agora que Jusetsu parou para pensar, fazia sentido. Afinal, ele era o guarda do Palácio Yamei.

“…Foi sim”, admitiu ele, parecendo frustrado por o segredo ter sido revelado. “Eu a encontrei enquanto estávamos em patrulha noturna.”

“Você deveria ter me informado.”

“Não era apropriado que você ouvisse falar disso, niangniang. Afinal, o cadáver era uma visão horrível de se contemplar.”

“É verdade que algo lhe mordeu o pescoço?”

Onkei franziu a testa. "Alguém lhe revelou essa informação?"

“Jiujiu ficou sabendo disso”, explicou Jusetsu.

Onkei parecia preocupado.

“Ela pode ser um pouco curiosa demais para o próprio bem. Mesmo assim, sei que ela não é uma garota má”, continuou Jusetsu.

“E isso é tudo o que importa.” Onkei deu uma risadinha. Depois que se acostumava com uma pessoa, suas expressões eram surpreendentemente variadas.

“Ouvi dizer que uma fera estava por trás disso. Você sabe alguma coisa a respeito?”

“A julgar pelos ferimentos, acho que ela definitivamente foi mordida, mas…” Onkei hesitou. “As marcas de dentes pareciam mais com as de um cão selvagem ou um lobo do que com as de uma fera.”

“Isso significa que era uma fera sem incisivos? Uma fera dessas atacaria alguém?”

“Até os macacos têm incisivos. Talvez tenha sido…” Onkei ficou em silêncio, como se tivesse medo de continuar.

Jusetsu acariciou os lábios. ...Humanos também têm caninos, pensou ela. Não poderia ter sido uma pessoa, poderia?

“Havia mais uma coisa que achei suspeita. Havia uma quantidade enorme de sangue na área, mas muito pouco dele estava no próprio ferimento no pescoço.”

Jusetsu colocou um dedo no queixo e refletiu um pouco. "...Você está dizendo que ela pode ter sido trazida para lá depois de morrer em outro lugar?"

“É uma possibilidade. Se for esse o caso, então devemos encontrar evidências adicionais na área circundante, desde que procuremos com afinco. Estava muito escuro ontem à noite para dizer muita coisa.”

Os eunucos que ainda rondavam a floresta deviam estar lá para procurar evidências.

“De qualquer forma, recomendo que você evite sair sozinha, niangniang.” 

“Jiujiu também não me deixaria.”

A expressão de Onkei suavizou-se. "Ah, claro", disse ele. "Certifique-se de ouvi-la."

Jusetsu teve a sensação de que ele estava começando a importuná-la tanto quanto Jiujiu.

 

Quando chegaram ao Santuário Seiu, já havia outro visitante lá – Koshun. Havia uma mesa colocada na passagem externa e ele sentou-se em frente a Gyoei. Os dois estavam jogando Go. O tabuleiro era feito de sândalo vermelho com entalhes nas laterais, e as pedras vermelhas e azuis tinham pássaros e flores pintadas. Quando Jusetsu viu como tudo parecia luxuoso, ela imaginou que Koshun o havia trazido com ele. Ainda não era meio-dia, então era incomum encontrá-lo em um lugar como este.

“A reunião do conselho imperial terminou mais cedo, então vim aqui”, Koshun respondeu à pergunta ainda não feita de Jusetsu – ele poderia dizer pela expressão no rosto dela o que ela queria dizer.

Jusetsu olhou para o tabuleiro Go. “Você está se segurando, Gyoei?” Gyoei estava segurando uma pedra Go azul escura e parecia estar perdendo.

"Não, não, de jeito nenhum. Sua Majestade é um jogador impressionante." Parecia que o velho estava sendo sincero. Ele grunhiu e acariciou a barba na ponta do queixo.

“Eitoku tem me ensinado a brincar desde que eu era criança”, explicou Koshun.

"O Grande Chanceler Un uma vez até derrotou um mestre Go, não foi? Posso ver de onde você aprendeu isso agora."

Jusetsu sentou-se no assento que um dos subordinados de Gyoei trouxe para ela e afrouxou o colarinho. Estava fresco na sombra da passagem externa, mas ela estava suando por causa da distância que andava.

“Eu desisto”, declarou Gyoei. “Você gostaria de um jogo, Raven Consort?”

Jusetsu olhou para o topo do tabuleiro e franziu a testa. “Não vale a pena jogar contra mim”, disse ela.

"Oh, céus. Você não é uma boa jogadora de Go?" Gyoei perguntou.

"Reijo me ensinou a jogar, mas nunca ganhei um jogo. Fazer concessões aos jogadores mais fracos não era um conceito que ela reconhecesse."

"Eu também costumava jogar contra ela com frequência. Ela sempre dava tudo de si, não é?" Os olhos de Gyoei se estreitaram de nostalgia. Era como se ele pudesse ver o rosto de Reijo através do de Jusetsu.

“Qual de vocês era o melhor jogador?” Jusetsu perguntou.

“Deixe-me pensar… acho que tive 123 vitórias, 105 derrotas e 15 empates contra ela.”

Ele se lembrava bem disso, Jusetsu pensou enquanto olhava para o rosto de Gyoei. Ele acariciou a barba novamente e desviou o olhar. Ele então voltou para o tabuleiro Go e começou a pegar as pedras azuis Go com os dedos. Ele os colocou de volta em um pequeno recipiente, um de cada vez, com o máximo cuidado. Com a cabeça virada para o lado, ele se recusava silenciosamente a dizer mais alguma coisa sobre Reijo.

Para ele, pensar nela parecia trazer-lhe dor e nostalgia ao mesmo tempo.

"...Você diz que quer se aposentar, mas o que fará depois disso? Você retornará para sua cidade natal?" Jusetsu perguntou.

Gyoei não era casado e nem sequer tinha residência fora da propriedade imperial.

Jusetsu se perguntou se ele teria algum lugar para ir quando partisse.

“Meu irmão mais novo faz negócios na área ao redor da propriedade imperial. Ele administra uma loja de óleos. Estou planejando me encostar nele. Bem, eu digo isso, mas tenho certeza de que até um velho tolo como eu poderia se tornar útil de alguma forma” disse ele, indiferente. Ele então ofereceu o recipiente cheio de pedras Go para Jusetsu.

"Consorte Corvo, que tal você adicionar algumas pedras de desvantagem ao organizar as suas? Cinco delas serviriam. Você deve ser capaz de competir com Sua Majestade dessa forma."

Ele estava sugerindo que ela deixasse algumas pedras de fora e fizesse Koshun pegar leve com ela.

“Eu recuso,” Jusetsu disse mal-humorada.

Gyoei soltou uma risada calorosa. “Suponho que você deve ter herdado sua competitividade da Reijo”, comentou. Então, ele colocou as mãos sobre a mesa e levantou-se lentamente. "Está me cansando um pouco, ter Sua Majestade como meu primeiro oponente em tanto tempo. Por favor, tenham a gentileza de me desculpar por hoje."

Com isso, o Ministro do Inverno entregou o recipiente de pedras Go a Jusetsu e saiu da passagem externa para voltar para dentro. Imediatamente depois, ele foi escoltado para fora daquela sala por seus subordinados. Jusetsu olhou para o contêiner, mas relutantemente sentou-se em frente a Koshun.

“Não me importo se você coloca cinco ou nove pedras de desvantagem”, disse Koshun em tom relaxado.

Jusetsu franziu a testa. “Você não precisa pegar leve comigo”, disse ela. 

"Não? Nesse caso, vamos começar em pé de igualdade."

Isso significava não colocar nenhuma pedra de desvantagem. Jusetsu franziu ainda mais a testa.

“Só vou... lançar... três”, disse Jusetsu, parecendo tão angustiada que fez Koshun rir.

"Tudo bem. Como preferir", respondeu ele.

No final das contas, Jusetsu foi – compreensivelmente – incapaz de reivindicar a vitória com apenas três pedras de desvantagem no lugar. No jogo seguinte, ela usou cinco, mas ainda assim era totalmente inútil. Koshun tinha uma expressão despreocupada no rosto o tempo todo, o que irritava Jusetsu profundamente.

“Você desiste muito rapidamente”, disse Koshun. Ele estava criticando cada pequeno movimento que Jusetsu fazia. "Assim que você está em desvantagem, você sacrifica suas pedras para mim. Persevere."

“Qual é a utilidade de ser paciente com algo assim?” 

“Bem, você só ficará chateada se perder.”

“Cale-se”, ela retrucou.

Eles colocaram as pedras Go de volta no recipiente para jogar outro jogo. Jusetsu rapidamente os empurrou para dentro, fazendo barulhos de clique-claque ao fazê-lo. Em vez disso, Koshun colocou calmamente as pedras dentro do recipiente, uma de cada vez.

“Agora, então,” ele começou, e pegou uma pedra... mas naquele exato momento, Eisei apareceu na esquina da passagem externa, com dois - não, três - outros eunucos seguindo atrás dele. 

“Mestre, é hora de você voltar.”

“Oh, já é essa hora?”

Koshun colocou a pedra Go de volta no recipiente, colocou a tampa e levantou-se. Ele estava saindo enquanto estava ganhando. Ele olhou para Jusetsu. “Se isso não basta para saciá-la, ficaria feliz em jogar com você outra hora.”

“Não tenho vontade de jogar com você de novo.”

“Então jogue com Eisei”, disse o imperador, olhando para o eunuco.

O rosto de Eisei parecia dizer: “Se você ordenar, então não há nada que eu possa fazer a respeito, mas prefiro não fazer isso”.

Jusetsu disse: “Absolutamente não.”

O fato de ela ter recusado a sugestão deixou Eisei parecendo descontente. Como ele deveria reagir a isso?

Os eunucos guardaram o tabuleiro Go em uma linda caixa de madeira incrustada com marfim colorido.

Observando isso com o canto do olho, Jusetsu fez uma pergunta a Koshun. “…Você sabia que uma dama da corte morreu perto do Palácio Yamei?”

“Sim, eu ouvi sobre isso”, ele respondeu com um aceno de cabeça. "Eles estão caçando feras no palácio interno enquanto conversamos. Você deve evitar vagar muito por aí."

“Aparentemente, ela trabalhou para o Palácio Jakuso.”

“Ela trabalhava”, disse Koshun, antes de olhar para Jusetsu. "Você a conhecia?"

“Não…”

Mesmo que a dama da corte morta fosse a mulher que a visitou naquela noite, não havia nada que ela pudesse fazer a respeito.

Ainda assim, Jusetsu continuou. “Se você descobrir qual era o nome dela, diga-me. Vou queimar uma pena de seda para ela. Assim, ela poderá cruzar o mar sem hesitação.”

Uma pena de seda era uma asa de pássaro feita de papel e usada para lamentar os mortos. Koshun sinalizou para Eisei com os olhos.

“O nome dela era Josei”, respondeu o eunuco.

Jusetsu perguntou como estava escrito e fez uma anotação mental. “Ela usou o Aroma do Desejo?” ela perguntou a ele.

“Eu não saberia dizer”, respondeu Eisei bruscamente.

“Aroma do Desejo?” Koshun disse. "Não é um incenso que você queima para o seu amante? Aquele que cheira a lírios?"

Jusetsu ficou surpresa ao ouvir isso vindo dele. “Eu não esperava que você tivesse tanto conhecimento sobre esse tipo de coisa.”

"Já ouvi falar disso antes, sabe. A Consorte Pega perfuma suas vestes com isso."

“…O quê?”

A Consorte Pega usa isso em suas vestes? Jusetsu pensou. Não, não era como se houvesse algo particularmente estranho em uma consorte usar o incenso do Aroma do Desejo em suas vestes para o imperador – mas Jusetsu ainda se sentia estranhamente desconfortável com isso. Uma sensação de ansiedade estava se insinuando, carregando consigo uma sombra sombria.

"Ouvi dizer que a Consorte Pega não estava se sentindo bem... Esse ainda é o caso? Acredito que você foi visitá-la antes."

"Ela não está melhor. Mandei mensageiros para ver como ela estava enquanto não pude visitá-la, mas eles disseram que ela ainda estava acamada."

Eu nunca esperei que ele cuidasse tão fielmente de suas consortes, Jusetsu se viu pensando brevemente - mas agora ela estava mais preocupada com a condição da Consorte Pega.

“É algum tipo de doença recorrente?” ela perguntou.

"Ela não está doente. Bem, suponho que seja algum tipo de doença. Ela está deprimida e não tem comido nem dormido direito."

“Isso parece ser… muito sério.”

Comer e dormir eram os alicerces da vida.

"Realmente é. Tudo começou quando um ente querido dela faleceu recentemente."

“Oh?” Jusetsu exclamou em tom de pergunta.

"Sim, o irmão dela. Ele aparentemente estava com boa saúde, mas foi atingido no lugar errado quando caiu do cavalo."

Jusetsu não disse nada. Uma pessoa morta e o Aroma do Desejo. Essas coisas lembraram Jusetsu da mulher que a visitou naquela noite, implorando para que ela trouxesse alguém de volta dos mortos.

“Estou pensando em mandá-la de volta para a casa de sua família para se recuperar, se ela não melhorar sozinha. A família Kin... Ah, a propósito, o nome da Consorte Pega é Kin Keiyo. O nome do pai dela é Kokei, e ele é o vice-ministro da secretaria. Ele faz parte da Facção do Solstício de Inverno, então eu queria dar as boas-vindas a sua filha, tomando-a como uma de minhas consortes.

“A Facção do Solstício de Inverno?”

“Para simplificar, eles são uma família que não tem nada a ver com a família Un.”

Ele realmente foi surpreendentemente franco. Em outras palavras, ele queria designar membros da família Kin para cargos importantes, a fim de controlar a família Un.

“Você provavelmente deveria mandá-la de volta para seus pais em vez de deixá-la morrer em vão no palácio interno”, disse Jusetsu.

Koshun começou a caminhar pela passagem externa e Jusetsu foi ficar ao lado dele. Os eunucos que seguravam reverentemente a caixa contendo o tabuleiro Go os seguiram. Quando eles seguiram em direção ao santuário, encontraram Gyoei esperando lá ao lado de seus subordinados, provavelmente para se despedir do imperador.

“Tome cuidado na sua viagem para casa”, disse ele de forma ensaiada, depois fez uma reverência.

"Você também deveria cuidar de si mesmo. Não exagere."

A preocupação de Koshun fez Gyoei rir baixinho. “Muito obrigado”, disse ele. “Farei o que puder.”

Koshun foi se virar em direção à sua liteira, mas depois olhou para Jusetsu, parecendo ter se lembrado de algo.

"Você não vai... usá-lo?" ele perguntou hesitante, olhando para a área da cintura de Jusetsu.

Por mais vago que Koshun estivesse sendo, Jusetsu sabia do que estava falando – o peixe de vidro. Jusetsu olhou para a cintura de Koshun e lá estava pendurado um peixe de vidro. O que Jusetsu tinha ainda estava guardado em seu armário.

“Você não gostou?” Koshun perguntou. 

“Não é bem assim”, disse ela.

Koshun ficou em silêncio com isso. Seu rosto estava inexpressivo, mas de alguma forma ele ainda parecia meio triste. Incapaz de suportar, Jusetsu continuou a falar calmamente.

"... Eu não queria perdê-lo. Essa é a razão..."

Koshun ficou quieto por um tempo, olhando para Jusetsu. "Entendo. Nesse caso, farei para você algo que você não se importaria de perder." 

"O que?"

“Vou esculpir algo para você. Se você perder, posso facilmente fazer um substituto para você. Presumo que você prefere uma flor em vez de um peixe?”

Ele deve ter dito isso porque se lembrou de Jusetsu ter pedido uma rosa esculpida em madeira anteriormente.

"Não quero nada", disse Jusetsu, recusando a oferta.

Koshun não deu atenção às palavras dela. "Não precisa se conter", disse ele simplesmente — e então subiu em sua liteira. Ele já havia passado pelos portões antes que Jusetsu tivesse a chance de dizer qualquer outra coisa.

No instante em que Koshun passou pelos portões, Eisei voltou seu olhar para Jusetsu, e em seguida desviou o olhar novamente.

Enquanto observava o grupo partir, Gyoei a chamou. "Consorte Corvo?"

Jusetsu se virou e percebeu que os subordinados de Gyoei haviam desaparecido, e ele estava parado ao lado dela, sozinho. Onkei a esperava um pouco mais adiante.

“Simpatia e amor são duas coisas diferentes”, disse o velho. “Você sabe disso, não sabe?”

Sua declaração repentina fez Jusetsu franzir a testa. "Do que você está falando?", perguntou ela.

“Se você não entende o que quero dizer, é melhor que as coisas continuem assim. Eu poderia lhe dizer para não se aproximar mais de Sua Majestade do que já está, mas acho que isso seria impossível.”

“Diga isso para o Koshun. É ele quem sempre vem me visitar sem ser convidado.”

“Sua Majestade é um sujeito profundamente compassivo. Não se esqueça: ‘A Consorte dos Corvos não pode desejar nada.’”

Gyoei não precisava lhe dizer isso — era o que Reijo sempre a alertava. "Eu sei", disse ela.

“O desejo cria sofrimento. Uma vez que você se deixa consumir por ele… é aí que um monstro será criado dentro de você.”

Jusetsu engoliu em seco. Um monstro? Ela ficou ali parada, paralisada.

As palavras de Ishiha ecoavam em sua mente. "Ele disse que viu um monstro em seus olhos, niangniang."

Gyoei curvou-se diante de Jusetsu com as mãos juntas e virou-lhe as costas.

“Quando você sentir que está se perdendo, por favor, tente se lembrar do que eu disse.”

[Kessel: Que profundo e… sinistro.]

Ele a deixou com essas últimas palavras e voltou para o santuário. Pareciam mais uma despedida final. Quando Jusetsu voltou a si, foi atrás dele, mas ele já havia desaparecido. Sozinha, Jusetsu ficou completamente perdida. Sentia como se tivesse sido jogada para o alto, sem ninguém por perto para ampará-la.

Mas ela não estava sozinha. Onkei caminhou até ela, seus passos silenciosos.

“Devo providenciar uma liteira para você, niangniang? Você não parece bem.”

“Não”, disse Jusetsu, balançando a cabeça. “Estou bem. Vou para casa a pé.”

Caminhar a distrairia de seus pensamentos. Jusetsu dirigiu-se ao portão, mas então lançou um olhar para Onkei.

"Que bom que tenho você", disse ela para ele.

Ela se sentia tão impotente que deixou transparecer seus verdadeiros sentimentos. Tudo o que Onkei fez foi retribuir com um pequeno sorriso.

 

Ao retornarem ao Palácio Yamei, Jusetsu fez um pedido a Onkei.

“Quero que você investigue o Palácio Jakuso. Por favor, descubra mais sobre a situação da Consorte Pega.”

“Entendido”, disse ele.

Onkei saiu do palácio num instante. Sendo tão astuto quanto era, Jusetsu esperava que ele voltasse em breve, tendo descoberto o que ela queria saber.

Jusetsu entrou no palácio e chamou Jiujiu. "Você se lembra daquele pedaço de seda que a dama da corte deixou cair? Traga-o para mim."

Jiujiu trouxe o tecido de outro cômodo. Jusetsu o aproximou do rosto. Ainda exalava o cheiro do Aroma do Desejo. Ela o estendeu e o examinou, sentindo sua textura. O material era surpreendentemente leve, macio e suave ao toque. Havia sido cuidadosamente tecido com seda da mais alta qualidade.

“Pensei isso quando toquei pela primeira vez, mas isto é luxuoso demais para pertencer a uma dama da corte”, observou Jusetsu.

“Agora que você mencionou isso, você tem razão”, disse Jiujiu. “Mas algumas damas da corte são bem de vida.”

Jusetsu relembrou a aparência daquela mulher naquela noite. Ela usava um robe de dama da corte com um fino véu de seda na cabeça. Contudo, do momento em que entrou até o momento em que saiu, ela não se curvou à Consorte Corvo uma única vez.

Nem uma única vez.

Será que isso se devia ao seu frenesi? Será que uma dama da corte — que teria aprendido boas maneiras à exaustão — se permitiria sequer deixar de fazer uma reverência a uma consorte? O fato de ela ter ido até Jusetsu pedir que ela trouxesse alguém de volta à vida — um pedido feito por puro desespero — só torna isso ainda mais implausível.

"Algo de errado, niangniang?" Jiujiu perguntou apreensivamente.

"Nada..." respondeu Jusetsu lentamente. Ela permaneceu ali, segurando a fina seda com uma expressão grave no rosto.

Jusetsu instruiu Jiujiu a guardar o objeto novamente. Em seguida, dirigiu-se ao armário para pegar um tinteiro e tinta. Pegou também um pedaço de papel de cânhamo colorido em formato de pena de pássaro — a pena de seda que ela havia mencionado antes. Reza a lenda que antigamente eram feitos de algodão e, ainda mais antigamente, costumava-se usar tecido de casca de árvore. Isso demonstrava há quanto tempo esse costume era usado para lamentar os mortos. Jusetsu moeu um pouco de tinta e pegou seu pincel. Escreveu o nome “Josei” em uma folha de papel de cânhamo colorido, o nome da dama da corte que havia falecido.

Então Jusetsu carregou o papel e um prato de prata em forma de flor com pés para fora pelas portas do palácio. Desceu as escadas e colocou o prato sobre o calçamento. Passou a mão pelos cabelos, como se esperasse uma peônia, mas percebeu que, como ainda estava vestida de eunuco, suas flores não estavam ali. Em vez disso, virou a palma da mão para cima e a estendeu à sua frente. Uma luz vermelha cintilou e, em seguida, uma — depois duas — pétalas tomaram forma. Momentos depois, uma peônia em plena floração repousava em sua palma. Ela cobriu-a com a outra mão e soltou um sopro de ar. Ao abrir as mãos, finos fragmentos vermelho-claros caíram sobre o prato de prata abaixo e formaram uma tênue chama.

Jusetsu jogou o papel de cânhamo colorido com o nome da mulher escrito sobre a chama, e em seguida, jogou também o papel em branco em formato de asa. O papel queimou silenciosamente. Jusetsu aqueceu as mãos sobre as chamas. A chama vermelho-clara subiu e se agarrou aos seus dedos. A chama não estava quente, apenas morna. Jusetsu reuniu a chama nas mãos e a segurou com firmeza antes de abrir as palmas novamente. De suas mãos voou um pequeno pássaro. O animal era translúcido, vermelho-claro, e tremeluzia como uma chama de vez em quando.

O pequeno pássaro bateu as asas cada vez mais alto no ar, planou sobre as copas das árvores e, por fim, desapareceu de vista. Provavelmente guiaria a alma da dama da corte falecida sobre o mar até o paraíso — pelo menos enquanto ela não tivesse se transformado em um fantasma ou algo do tipo.

Jusetsu voltou para dentro do palácio, carregando o prato de prata debaixo do braço. Encontrou Jiujiu arrumando a mesa.

“Você queimou a pena de seda?”, perguntou ela, pegando o resto do papel de cânhamo colorido. “Em homenagem à dama da corte que morreu?”

Muitas pessoas queimavam penas de seda para lamentar os mortos, não apenas a Consorte Corvo — embora ela fosse a única que transformava uma chama em um pássaro para guiar suas almas ao paraíso.

“Então, devo te ajudar a se trocar, niangniang?” disse Jiujiu, abrindo as cortinas.

“Esta roupa é mais confortável”, respondeu Jusetsu. O manto de eunuco permitia se movimentar com muito mais facilidade.

“Acho que não. Você fica linda vestida de homem, mas, no geral, um ruqun combina mais com você!” Jiujiu disse isso com tanto fervor que Jusetsu decidiu ceder.

“Combina?” ela perguntou. “Tudo bem…”

Era sábio não desafiar Jiujiu em momentos como esses.

Enquanto Jusetsu se trocava atrás das cortinas, Ishiha entrou no palácio carregando Shinshin. Parecia que ele tinha acabado de dar um banho de poeira no pássaro.

"Você não foi até a floresta, foi?" perguntou Jusetsu.

Eles ainda não tinham encontrado a fera que matou a dama da corte, então ainda era perigoso.

"Não, niangniang", respondeu Ishiha. "Eu estava na parte de trás do palácio. Nem mesmo Shinshin quer ir lá."

"Ah?"

Jusetsu encarou Shinshin. O pássaro mágico, que era apenas vagamente visível através da cortina, estava estranhamente quieto ultimamente.

Assim que terminou de se trocar, ela saiu pelas cortinas e encontrou Ishiha ajoelhado, olhando para o chão.

"O que houve?", perguntou ela.

“Nada, niangniang”, disse ele, olhando para cima. Ele estava corando um pouco.

“Você estava no meio de se vestir, então não era como se ele pudesse simplesmente ficar parado olhando para você”, explicou Jiujiu.

“Ah, entendi”, disse Jusetsu.

Jiujiu ficou perplexa com a reação dela. "Você precisa ser um pouco mais discreta, niangniang."

"Discreta?" Jusetsu repetiu em um sussurro. Pelo menos sou sensata o suficiente para me trocar atrás das cortinas, pensou ela.

Com mais pessoas por perto, Jusetsu também tinha que aprender mais coisas. Longe de achar isso um incômodo, no entanto, Jusetsu achava fascinante aprender coisas novas.

“Não precisa se sentir constrangida perto de assistentes pessoais como eu e os outros, mas seus modos também causam problemas para o imperador. Você já se vestiu na presença do imperador como se nada tivesse acontecido, não é?”

"Já fiz isso? Não me lembro", disse Jusetsu.

“Poxa, niangniang…” Jiujiu resmungou exasperada. Nesse mesmo instante, Onkei entrou vindo da cozinha com Kogyo atrás dele.

“Isso foi rápido, Onkei.”

Onkei juntou as mãos em reverência a Jusetsu. Como era de se esperar do pupilo de Eisei, sua reverência foi bela e executada com simplicidade.

“Estive investigando os arredores da Consorte Pega conforme suas instruções. Ainda há muito trabalho a fazer, mas achei que deveria informá-lo sobre o que descobri até agora.”

"Sim?", disse Jusetsu, incentivando-o a continuar.

“Nos últimos meses, a Consorte Pega está acamada. Parece que seu irmão mais velho morreu repentinamente, o que a levou a um estado de depressão. Atualmente, ela está sendo cuidada por várias damas de companhia, e somente por elas. Nem suas damas da corte nem seus eunucos conseguem se aproximar dela. Contudo…” Onkei se calou, aparentemente repensando o que queria revelar.

“O que foi, Onkei?”

“Há um eunuco a quem ela favorece, e ele é o único que ela permite estar ao seu lado. Dizem que ela se desmancha em lágrimas sempre que ele sai.”

“Você sabe de mais alguma coisa?”, perguntou Jusetsu.

Onkei havia dito que a consorte favorecia esse eunuco, mas devia haver um motivo para isso. Provavelmente havia algo de incomum nele.

“Ele é um neófito que chegou ao palácio interno recentemente. Tem cerca de vinte anos. Não falei com ele pessoalmente, mas pude ver sua aparência.”

Onkei olhou para Kogyo, que estava atrás dele. Ela estendeu um pedaço de papel que segurava.

“Contei a Kogyo sobre suas características marcantes e ela gentilmente desenhou um retrato dele para mim”, explicou Onkei. Ele mostrou o pedaço de papel para Jusetsu. “O nome dele é Ho Shogetsu.”

Quando Jusetsu viu o retrato, ficou tão chocada que sentiu como se tivesse levado um soco no peito.

Ela conhecia esse rosto.

O homem — com seus longos cabelos negros presos e caindo atrás dele — tinha um rosto tão bonito que você jamais o esqueceria depois de vê-lo.

A coruja.

Este era o homem que Uren Niangniang avistou naquela noite em que saiu para passear — aquele que lhe provocou um medo visceral.

Jusetsu se lembrou de ter sentido o mesmo terror quando estava no lago do Palácio Jakuso. Seria porque... aquele homem estava no palácio?

“Você o reconhece?” perguntou Onkei.

Jusetsu não conseguiu dizer uma palavra e apenas acenou levemente com a cabeça. Onkei lançou-lhe um olhar penetrante.

“Desde que aquele homem chegou, parece que a Consorte Pega começou a se distanciar cada vez mais das pessoas ao seu redor. Além disso, as pessoas relataram sons estranhos vindos do quarto dela de tempos em tempos…”

“Que tipo de sons?”

“Sons de sucção… e gemidos.”

[Kessel: Ih.]

Antes que percebesse, Jusetsu se viu cerrando os punhos. O que seriam aqueles ruídos? Uma coisa era certa: ela tinha um pressentimento muito ruim.

“Parece que algo vai acontecer com Shogetsu e a Consorte Pega. Vou investigar um pouco mais”, disse Onkei simplesmente. Ele fez uma leve reverência a Jusetsu e começou a sair.

"Espere!", gritou Jusetsu, involuntariamente. O som da própria voz a pegou de surpresa. Ela não sabia o que queria dizer. Apenas sentiu que precisava impedi-lo.

Onkei esperou que Jusetsu continuasse.

“Não… Não importa. É só que… você não precisa investigar muito fundo”, ela conseguiu dizer.

"Entendido", disse Onkei, e com isso, saiu da mesma maneira que havia chegado — com passos silenciosos e inaudíveis.

Jusetsu olhou mais uma vez para o retrato que ele havia deixado e engoliu em seco. Que sensação indescritível de ansiedade era aquela que ela sentia?

Ao cair da noite, Onkei ainda não havia retornado.



Jusetsu saiu do palácio apressadamente, apenas para encontrar Koshun subindo os degraus naquele mesmo instante. Eisei o acompanhava, segurando um castiçal. Ainda havia um vestígio do pôr do sol no ar, pairando sobre o palácio interno como um véu lilás. Embora o sol já tivesse se posto, ainda era muito cedo para a noite ter entrado em sua fase mais escura. O calor do dia ainda não havia se dissipado completamente, e um vento forte e morno soprava.

"Aconteceu alguma coisa?" perguntou Koshun ao ver Jusetsu. Parecia que ele pressentiu imediatamente que algo estava fora do normal.

“O Onkei”, disse Jusetsu. “Ele ainda não voltou do Palácio Jakuso.”

Koshun franziu a testa. "O Palácio Jakuso? Por que ele iria a um lugar como aquele?"

“Eu pedi a ele. Queria que ele investigasse o que estava acontecendo com a Consorte Pega.” Jusetsu mordeu o lábio. “Ele voltou com um relatório antes de sair novamente. Disse que investigaria mais a fundo o que estava acontecendo entre ela e aquele eunuco. Eu deveria tê-lo impedido. Não, eu deveria ter ido eu mesma. Eu…”

Eu estava com medo. Dominada por uma misteriosa sensação de ansiedade, Jusetsu ficou intimidada com a ideia de ir verificar o que estava acontecendo pessoalmente — e, em vez disso, passou a tarefa para Onkei.

Antes, ela costumava fazer tudo sozinha, mas desde que começou a ter pessoas para ajudá-la, tornou-se dependente delas.

“Eu fiquei fraca”, disse ela.

Não era para ser assim. Ela não deveria depender dos outros, nem envolver outras pessoas em seus problemas.

“Jusetsu”, disse Koshun, segurando seu braço. “Você vai para o Palácio Jakuso, não vai?”

O imperador olhou fixamente nos olhos dela. Ela assentiu com a cabeça.

“Então concentre-se nisso, e somente nisso. Você pode se preocupar com todo o resto em outro momento.”

As palavras de Koshun atingiram Jusetsu em cheio. Sempre a atingiam. De certa forma, sua voz era capaz de controlar suas ações, mas, naquela ocasião, a acalmou. Ela cerrou os dentes e assentiu novamente.

“Eu vou com você. Isso deve agilizar as coisas.”

Koshun parou em frente dela e começou a andar. Enquanto Jusetsu o seguia, ela se virou para dar uma olhada no palácio. Jiujiu e os outros espiavam pelas portas, parecendo preocupados. Jusetsu se virou para o caminho à sua frente e acelerou o passo.

Assim que os últimos raios de sol desapareceram, escureceu rapidamente, e uma escuridão de tom índigo preencheu o palácio interno. Enquanto caminhavam, a cor só se intensificava. A chama no topo do castiçal que Eisei segurava enquanto os guiava tremeluzia. Eles adentraram a área arborizada onde loureiros e rododendros estavam plantados, mas naquele exato instante, ouviram um grasnido alto acompanhado pelo som de asas batendo. Os três recuaram, assustados. A silhueta de um pássaro passou voando sobre suas cabeças e seu canto ecoou pelo ar. O pássaro farfalhou entre as folhas e pousou em um galho. Era um corvo-estrela, e as pintas brancas em suas asas pareciam se destacar na escuridão. Jusetsu soltou um pequeno suspiro e apressou o passo.

O Palácio Jakuso estava silencioso, como se estivesse prendendo a respiração. Era tão silencioso que se podia ouvir um alfinete cair. Não havia nenhum som na área, nem mesmo o zumbido de um inseto correndo por ali. Eles se dirigiram para o edifício do palácio onde a Consorte Pega residia, mas as portas da frente e as portas que davam para a passagem externa estavam todas fechadas. Da mesma forma, as janelas de treliça estavam completamente escuras. Nenhuma luz havia sido acesa dentro, e o mesmo se aplicava às lanternas penduradas do lado de fora. Todos os edifícios e passagens do palácio estavam envoltos em escuridão.

Não é como se este fosse o Palácio Yamei. Não faz sentido.

Supostamente, os edifícios deveriam ter luzes brilhantes à noite para afastar Yeyoushen — então por que estava tão escuro aqui?

Eisei parou diante da porta da frente e anunciou que estavam em visita. "Por favor, abram as portas, venerada Consorte Pega."

Não houve resposta. Quando Eisei a chamou pela segunda vez, as portas finalmente se abriram lentamente.

Foi uma das damas de companhia da Consorte Pega que as abriu. Ela estava extremamente pálida e emaciada.

“Peço desculpas pela demora”, disse ela antes de se ajoelhar. Estava completamente escuro lá dentro. “A Consorte Pega detesta luzes acesas, sabe… Vou acender algumas para você agora.”

A dama de companhia era tão magra que parecia que ia quebrar a qualquer momento. Ela andava de um lado para o outro apressadamente, acendendo as lanternas. O interior do quarto finalmente emergiu da escuridão, dando-lhes uma vaga ideia de como era.

O quarto era espaçoso e grande demais para ser iluminado apenas por uma ou duas lanternas. Eles conseguiram distinguir o contorno tênue de algumas cortinas penduradas ao fundo e perceberam que havia uma mulher sentada na cama atrás deles.

Koshun entrou no palácio com Jusetsu logo atrás. Ela estava escondida atrás de Koshun na penumbra. Olhou em volta, mas não parecia haver nenhum sinal de seus criados, além da dama de companhia que abriu a porta. O eunuco em questão também não estava por perto. Jusetsu cobriu o nariz com a manga. No instante em que pôs os pés lá dentro, foi atingida pelo cheiro sufocante de incenso. Era um incenso com uma fragrância doce, pura, semelhante à de lírios.

Aroma do Desejo.

O aroma a fazia sentir como se tivesse se perdido em um jardim de lírios. O quarto devia estar tão escuro e enevoado por causa da fumaça do incenso queimado em excesso. Ao lado das cortinas penduradas, havia um armário — ou talvez uma mesa — sobre o qual repousava um queimador de incenso de porcelana. Dele saía fumaça.

Jusetsu não pôde evitar a sensação de que havia um leve cheiro metálico escondido por trás do aroma do incenso. Será que estou imaginando coisas? Não, acho que não.

“Vossa Majestade…” uma voz fraca soou de dentro das cortinas. A mulher estava sentada, arrancou os lençóis e tentou descer da cama. Ela cambaleou ao se mover.

“Pode ficar aí. Não exagere”, disse Koshun, aproximando-se das cortinas.

Eisei se manteve ao lado de Koshun como sua sombra, atento a qualquer ameaça potencial ao redor. Jusetsu também acompanhou Koshun até a cama.

“Sinto muito. Você não deveria ter que me ver assim…”

Jusetsu se lembrava de ter ouvido aquela mesma voz fraca antes. Koshun abriu as cortinas e entrou. Jusetsu o seguiu.

Quando a Consorte Pega ergueu os olhos e viu Jusetsu parada ali, seus olhos se arregalaram e ela engoliu em seco, assustada. Ela era tão magra que suas maçãs do rosto eram preocupantemente proeminentes. Ainda era muito bonita, mas sua pele havia perdido o brilho. A mulher tinha uma aparência refinada que poderia ser descrita como graciosa.

“Ah… Você é…”

A Consorte Pega empalideceu como um lençol e olhou para baixo. Sua voz era, sem sombra de dúvida, a mesma da "dama da corte" que veio anteriormente pedir a Jusetsu que trouxesse alguém de volta à vida.

“Acredito que você deixou este pedaço de seda no Palácio Yamei”, disse Jusetsu. “Vim devolvê-lo.”

Jusetsu tirou o tecido que havia escondido na manga e o jogou na cama. Ele caiu sobre os lençóis da consorte sem fazer barulho.

“Agora devolva-me o meu eunuco.”

A Consorte Pega olhou para cima, alarmada.

Jusetsu olhou fixamente nos olhos dela. "Se você não fizer isso, eu jamais a perdoarei, Kin Keiyo."

O rosto da Consorte Pega — ou melhor, de Keiyo — congelou. Todo o sangue lhe fugiu. "P-Por favor... Por favor, me perdoe, Consorte Corvo."

"Pelo quê?"

“Bem…” Keiyo cobriu o rosto com as mãos.

Jusetsu sentiu seus últimos nervos se consumindo lentamente em seu peito. Um suor frio escorreu por sua pele.

“Keiyo… Onde está Onkei? Onde está meu eunuco?”, disse ela, pressionando Keiyo severamente por uma resposta — mas então, um som semelhante ao rugido de uma fera ecoou pela sala.

O som vinha de trás das portas, no fundo da sala.

De onde ela tirou forças para fazer isso era um mistério completo, mas a Consorte Pega de repente saltou da cama. Cambaleou e tropeçou até a porta.

“Consorte Pega”, disse sua dama de companhia, tentando rapidamente segurá-la para impedi-la de fugir. Keiyo a empurrou e abriu as portas.

Um cheiro sufocante subiu às narinas de todos. Era aquele mesmo fedor metálico que se misturava ao aroma do incenso.

“…Sinto cheiro de sangue”, murmurou Koshun.

Jusetsu espiou cuidadosamente pela porta aberta. Parecia dar para um cômodo adjacente. Não havia luzes lá dentro, e estava completamente escuro.

Mesmo assim, havia algo ali. Jusetsu podia sentir. Ela deu um passo cauteloso para a frente, prendendo a respiração.

Keiyo parou em frente à porta aberta e falou com a coisa que estava lá dentro.

“Meu querido irmão”, ela chamou. Sua voz era estridente e desafinada. Era peculiar e parecia conter uma mistura de medo e afeto. “Acalme-se, meu caro irmão. Você não terá que esperar muito mais. Vou pedir gentilmente a Sua Majestade que me ajude.”

Irmão?”

Keiyo virou a cabeça. Seus olhos estavam fixos em Koshun, mas como eram negros como tinta, era impossível dizer o que ela realmente estava olhando.

“Majestade, peço desculpas. Mantive meu irmão escondido aqui. Seu corpo não está como de costume, então não tive outra escolha. Por favor…”

"Espere", disse Koshun em voz baixa. Uma leve carranca surgiu em seu rosto. "Seu irmão não faleceu?"

Keiyo fez uma careta ao ouvir aquilo. Era como se um fino pedaço de vidro tivesse se estilhaçado dentro dela.

“Ele morreu. Ele morreu... mas não faz sentido! Ele sempre foi tão saudável!!!” Seu grito agudo ecoou pela escuridão, quase como se estivesse a cortando. “Ele nunca ficava doente. Desde pequeno, nunca parava quieto, então sempre se machucava um pouco aqui e ali, mas nunca deixava isso o impedir. Num instante, já estava de volta ao cavalo, galopando pelos campos e montanhas, completamente imperturbável... Morávamos no campo, então havia muitas montanhas ao redor da nossa casa, perfeitas para pequenas viagens. Sempre que meu irmão saía para caçar, eu ficava desesperada pensando em como era perigoso, mas ele sempre conseguia voltar ileso. E, no entanto...”

Sempre que a voz de Keiyo parecia prestes a desaparecer a qualquer momento, ela se tornava mais forte. Embora às vezes ficasse estridente, ela estava se entregando de corpo e alma ao que dizia. Era como se tivesse se deixado levar pelo próprio entusiasmo. Seu jeito de agir fazia com que todos se calassem, incapazes de interrompê-la.

“Éramos só nós dois. Ele era meu único irmão. Desde que eu era pequena, ele me acolheu e me protegeu. Às vezes ele também me repreendia — não, o tempo todo — e a gente tinha essas discussões bobas. Crescemos juntos. Meu irmão mais velho era incrivelmente inteligente e incomparável nas artes marciais. Mesmo comparado aos colegas de escola, ele estava anos-luz à frente. Para mim, ele era o cavalheiro mais excepcional que existia. Era vivaz, bonito e destemido… e eu…” A voz de Keiyo tremeu e ela cobriu o rosto com a manga. “Eu o adorava. Vim para o palácio interno na esperança de que isso beneficiasse meu irmão. Ele acabaria se tornando um funcionário do governo! Mas então, ele… Ele…”

Ela continuou choramingando por um tempo antes de finalmente conseguir se expressar adequadamente.

“…Deve haver algum engano. Não há como meu irmão ter morrido. É por isso que pedi à Consorte Corvo que o trouxesse de volta à vida para mim.”

Koshun lançou um olhar silencioso para Jusetsu.

“Ela me disse que era impossível, e com isso, perdi meu último vislumbre de esperança. Pensei que seria melhor seguir os passos do meu irmão e morrer também. Mas então…” O rosto de Keiyo se iluminou de repente, e suas bochechas coraram novamente. “Apareceu alguém que poderia realizar meu desejo.”

Koshun a interrompeu em voz baixa. "O que exatamente você quer dizer com... 'seu desejo'?"

Mesmo diante da demonstração bizarra de Keiyo, a voz de Koshun era calma e serena. Ele talvez sempre tivesse sido assim, mas seu comportamento também dava a impressão de estar — ainda que por pouco — controlando o fervor de Keiyo.

“Ele me disse que trazer meu irmão de volta à vida não seria tão difícil, afinal”, explicou Keiyo. Seus olhos marejados brilhavam enquanto falava. “Essas foram as palavras de um eunuco que tinha acabado de chegar ao palácio interno, então a princípio não consegui acreditar nele. Ele me disse para buscar um pouco de cabelo do meu irmão ou alguns ossos dele, junto com um pouco de argila. Escrevi uma carta para meu pai pedindo ajuda, e ele me enviou um pouco de cabelo. Eu… eu nem tinha visto o corpo do meu irmão, sabe? Tudo o que eu consegui foi uma mecha de cabelo dele, e isso só me deixou ainda mais desesperada para vê-lo, só mais uma vez. O eunuco usou esse cabelo e a argila para fazer meu irmão de volta para mim. Enquanto ele construía o boneco de argila, pensei que ele pudesse estar planejando usar algum truque superficial para me consolar, mas quando terminou… meu irmão estava realmente lá.”

Enquanto Jusetsu ouvia o que Keiyo dizia, entrou silenciosamente na sala ao lado. Estava completamente escuro lá dentro, mas depois de alguns instantes, seus olhos se acostumaram à escuridão. No centro da sala, havia uma cadeira onde alguém estava sentado. Pela altura, provavelmente era um homem, mas ela não conseguiu identificar pelo rosto.

No entanto, quanto mais ela avançava no quarto, mais forte se tornava o cheiro de sangue.

“É mesmo ele”, continuou Keiyo. “Ele voltou à vida. Ele se move normalmente. Ele ainda não consegue falar… mas o rosto e o corpo são do meu irmão. Dá um pouco de trabalho mantê-lo vivo — o que não é tarefa fácil —, mas está tudo bem. Ele não vai te causar nenhum problema. Bem… de vez em quando ele fica com fome, e suponho que isso possa ser um problema, mas…”

Keiyo tagarelava sem parar, com a voz fraca. Era um mistério como alguém com um corpo tão magro conseguia encontrar forças para continuar falando. Não era que ela estivesse nervosa demais para parar, mas sim que parecia que ela falava numa tentativa de esconder suas próprias ansiedades.

Sua voz estava cheia de medo, e era por isso que estava tão trêmula.

“Não haverá uma repetição do que aconteceu da última vez, então, por favor, tenham piedade dele…”

Jusetsu forçou a vista enquanto olhava para o fundo da sala. O que são aquelas coisas? Havia vários objetos no chão. Ela não conseguia distinguir muita coisa na escuridão, mas pareciam baldes cheios de água preta como carvão. Espera, isso não pode ser água. É…

[Kessel: Que sinistro, mas ao mesmo tempo, que incrível. A Kouko Shirakawa mandou muito bem nessa ambientação!]

"Como assim, 'o que aconteceu da última vez?'", perguntou Koshun, em tom de reprovação.

Keiyo engasgou com as palavras, o rosto tenso. "Bem, veja bem... Vossa Majestade. Eu..."

A voz de Keiyo parecia prestes a se quebrar. Ela respirou fundo, como se estivesse soluçando.

Jusetsu olhou novamente para o fundo da sala. Além de uma fileira de baldes, ela viu uma pessoa deitada em um canto. Jusetsu deu um passo lento para frente. Nem a pessoa sentada na cadeira nem a pessoa no chão se moviam. Esta última estava de costas para ela e parecia ter os pulsos amarrados atrás das costas. Vestia uma túnica de eunuco. Jusetsu não conseguia ver o rosto, mas a altura por si só já era suficiente para dizer quem era.

"Onkei!" ela gritou e correu até ele. Acabou derrubando alguns baldes à sua frente, mas não se importou nem um pouco.

Ela se ajoelhou ao lado dele e o chamou pelo nome novamente. Ao tocar seu braço, sentiu alívio ao constatar que estava quente. Colocou um dedo em seu pescoço e verificou seu pulso. Estava tão escuro no quarto que ela não tinha certeza, mas não parecia que ele tivesse sofrido ferimentos graves.

“Onkei”, ela chamava repetidamente.

Finalmente, ele abriu os olhos. “…Niang…niang?” disse ele com a voz rouca. 

"Sou eu", respondeu Jusetsu. Ela segurou a corda que prendia seus pulsos. O nó estava apertado e difícil de desfazer, por isso estava demorando um pouco.

Onkei virou a cabeça e olhou para ela, mas então sua expressão congelou de medo. Ele direcionou o olhar para a área atrás de Jusetsu.

"O que foi...?" perguntou Jusetsu, virando-se para dar uma olhada por si mesma.

Mesmo ainda amarrado, Onkei saltou de pé e ficou diante de Jusetsu, pronto para defendê-la de um possível inimigo. Ele era tão ágil que levou apenas um segundo.

Agora havia outra pessoa parada bem na frente delas. Estava escuro demais para ver direito, mas devia ser o homem sentado na cadeira, já que agora estava vazia. Jusetsu ficou apavorada — ela não sentiu ninguém atrás dela. Pelo contrário, mesmo agora que aquela figura estava diante de seus olhos, parecia que ele não tinha vida alguma.

O que está acontecendo aqui?

“Irmão!”

Keiyo entrou correndo. Ela puxou o braço do homem que estava parado ali e o afastou de Jusetsu e Onkei. O homem cambaleou e se mexeu enquanto se movia. Seus movimentos eram muito estranhos, não eram naturais.

Uma luz tênue — embora pequena — iluminou repentinamente o cômodo. Eisei havia entrado, segurando seu castiçal. Koshun estava parado perto da porta, com o olhar fixo no homem.

“…Este é o seu irmão mais velho ressuscitado de quem você falou?”

Keiyo cravou as unhas no braço do homem. Jusetsu agora conseguia ver suas costas e seu perfil lateral de onde estava. As mãos do homem estavam amarradas atrás das costas, assim como as de Onkei. Seu rosto estava pálido — e não parecia ser uma ilusão causada pela penumbra. Seus lábios estavam sem sangue e seus olhos, vazios e vidrados. Jusetsu percebeu que ele tinha um rosto bonito, mesmo de perfil — mas, por algum motivo estranho, não conseguia enxergar a beleza nele. Apesar de tudo isso, o homem ainda parecia uma pessoa.

“Esse eunuco conseguiu trazê-lo de volta dos mortos…” Jusetsu sussurrou. Ela não conseguia acreditar. “Nem mesmo os xamãs são capazes de realizar tal feito… e eu também não.”

Keiyo girou a parte superior do corpo em direção a Jusetsu, mantendo as pernas imóveis. "Shogetsu fez isso por mim. Ele me devolveu meu irmão."

“Quem é esse Shogetsu? Ele não pode ser apenas um eunuco comum”, perguntou Jusetsu.

“Não sei. Pessoalmente, não importa se ele é um eunuco ou um deus da morte — ele me ajudou, e é isso que conta.”

“Onde ele está agora?”

“Ele deve estar em algum lugar neste palácio. Eu disse para ele não se afastar muito.”

Isso fez Jusetsu se lembrar do relatório que Onkei lhe havia dado. "Você tem um colapso terrível sempre que Shogetsu sai do seu lado, não é?"

Keiyo desviou o olhar e se agarrou ao braço do irmão. "É... porque Shogetsu é o único que consegue controlar meu irmão."

“O que você quer dizer com ‘controlar meu irmão’?”

“Meu irmão precisa de sangue.”

Com um movimento suave, Keiyo estendeu o braço e apontou para o chão, para a fileira de baldes. Os que Jusetsu havia derrubado ainda estavam deitados de lado. O castiçal que Eisei segurava iluminava-os, assim como o conteúdo dos baldes que haviam se espalhado pelo chão. Um cheiro metálico emanava deles.

Era sangue. E muito sangue.

Jusetsu sentiu arrepios por todo o corpo. De onde veio todo aquele sangue?

“Não se preocupe, todo esse sangue veio de feras”, disse Keiyo com voz fraca. Era como se ela tivesse lido a mente de Jusetsu e soubesse exatamente o que a estava preocupando.

“O único problema é que meu irmão não gosta muito de sangue de animais. Ele já tentou de tudo. Shogetsu diz que se eu não der sangue para ele, ele vai virar um pedaço de barro. Ele parece gostar mais de sangue de macaco e de porco… mas mesmo isso é o último recurso. O que ele realmente precisa é de sangue humano, e isso é bem difícil de conseguir. Às vezes, meu irmão fica furioso quando exige. Quando ele fica assim, Shogetsu é o único que consegue pará-lo.” Keiyo empalideceu enquanto falava. Ela estava tremendo.

"É por isso que as mãos dele estão amarradas?", perguntou Jusetsu, e Keiyo assentiu levemente em resposta.

“Keiyo”, chamou Koshun.

Alarmada, Keiyo voltou-se para o imperador. Parecia que o som de sua voz — aquela que ressoava tão profundamente em Jusetsu e tocava seu coração — era apenas uma fonte de medo para a consorte.

“Você não respondeu à minha pergunta anterior”, disse Koshun sem demonstrar qualquer emoção. “O que você quis dizer com ‘o que aconteceu da última vez’?”

Keiyo baixou a cabeça e cobriu o rosto com a manga. "Por favor, perdoe-nos, Vossa Majestade. Meu irmão... matou Josei", respondeu Keiyo com a voz trêmula.

Josei — a dama da corte deste mesmo palácio que foi morta com uma mordida mortal.

“Naquela noite, meu irmão estava faminto. Sangue de besta não era suficiente para saciá-lo, e ele entrou em fúria, desesperado por sangue humano. Até então, Renjo e eu estávamos lhe dando um pouco do nosso para apaziguá-lo antes que a fome o dominasse.”

Keiyo arregaçou a manga. Algodão alvejado estava enrolado firmemente em todo o seu braço. Renjo devia ser a dama de companhia que veio abrir a porta. Ambas pareciam emaciadas e extremamente pálidas — provavelmente por estarem com falta de sangue.

“Naquela ocasião, não conseguimos impedi-lo a tempo. Eu estava correndo para chamar Shogetsu quando Josei entrou na sala com água, justamente na hora errada. Meu irmão mordeu o pescoço dela… Tudo aconteceu num piscar de olhos. Ele simplesmente ficou parado ali, sugando o sangue dela, absorto…” O rosto de Keiyo estava mortalmente pálido — e não apenas pela falta de sangue desta vez. Ela tremia. “Quando Shogetsu finalmente apareceu, era tarde demais. Josei estava morta. Não podíamos simplesmente… deixá-la lá. Não podíamos permitir que as pessoas viessem procurar por ela neste palácio — a existência do meu irmão precisa ser mantida em segredo. Ordenei aos meus eunucos que levassem o corpo dela para bem longe… Sinto-me tão mal pelo que aconteceu com ela.” Ao proferir a última frase, sua voz ficou tão baixa que quase desapareceu.

“Majestade”, disse Keiyo, erguendo o olhar. “Assumirei toda a culpa. Por favor, faça vista grossa para o meu irmão. Imploro. Foi preciso tanto esforço para trazê-lo de volta à vida, mas finalmente conseguimos. Se meu irmão morrer novamente, eu…”

Keiyo tinha um olhar desesperado e feroz no rosto. Sua voz, que momentos antes parecia prestes a se extinguir, agora estava tensa e determinada. Jusetsu se levantou da posição agachada e encarou o homem que estava ao lado de Keiyo, sem fazer nada. Ele estava inexpressivo, sem emoção, e seu rosto parecia desprovido de qualquer pensamento.

“Keiyo… esse não é seu irmão.” Ao dizer isso, Jusetsu sentiu um gosto amargo na boca.

"O quê...?" respondeu Keiyo, virando-se para encarar Jusetsu com uma expressão estupefata no rosto.

“Essa pessoa não é seu irmão revivido. Shogetsu não o trouxe de volta à vida. Ele apenas o ‘criou’. Ele é um boneco de barro.”

“Do que você está falando?”, perguntou Keiyo.

“Essa pessoa não está viva. Ela é vazia. Admito que esse receptáculo possa parecer com seu irmão mais velho, mas a alma dele não está lá. Não importa quanto tempo você espere, ele nunca se tornará o irmão que você conheceu.”

O rosto de Keiyo ficou branco como um lençol. Quase dava para ouvir seu coração se despedaçando.

“Você está mentindo”, ela murmurou, mas apenas sons muito sutis escaparam de seus lábios. “Isso não pode ser verdade. Isso não pode ser…”

Keiyo olhou para o homem ao seu lado. Ao ver a falta de reação em seu rosto, ela desabou. Mesmo ela devia ter pressentido, lá no fundo, que aquele não era seu irmão.

“Não, não. É ele. É ele, meu único irmão”, Keiyo continuava argumentando com crescente veemência, a voz trêmula. Ela balançava a cabeça repetidamente. “Meu amado irmão, o único que eu já tive…”

Os apelos de Keiyo, repletos de dor, eram dirigidos a ele, mas tudo o que o homem ao lado dela fazia era olhar fixamente para o vazio.

Keiyo fez uma careta e lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Parecia que ela não aguentava mais. "Irmãozão." Keiyo estendeu as mãos trêmulas e tocou as bochechas do homem de olhar vazio.

Naquele instante em que ela fez aquilo, os olhos do homem se arregalaram — foi a primeira vez que sua expressão mudou. Ele abriu a boca e, antes que alguém percebesse o que estava acontecendo, inclinou-se para a frente rapidamente — muito mais rápido do que qualquer um dos movimentos lentos que havia feito antes.

Um suspiro de surpresa escapou dos lábios de Keiyo.

Os dentes do homem estavam na garganta de Keiyo. Ele os cravou em seu pescoço pálido, rasgando sua pele. O sangue jorrou da ferida aberta. Os outros podiam ouvir a carne da mulher sendo dilacerada. Seu sangue espirrou até o teto, e mais sangue caiu sobre o rosto de Jusetsu como chuva. Tudo aconteceu num piscar de olhos.

Ainda mordendo a garganta de Keiyo, o homem sorveu seu sangue. Os braços de Keiyo pendiam fracamente ao lado do corpo, balançando para frente e para trás como pêndulos. Seus olhos lacrimejantes estavam abertos, mas agora pareciam tão vazios quanto os do irmão.

Jusetsu arrancou uma peônia de seu penteado e a transformou em uma flecha. Deu um passo em direção ao homem e imediatamente a cravou em seu estômago.

O homem que bebia sangue congelou.

Se ele fosse uma boneca, seria fácil quebrar o feitiço. Ela só precisava remover o objeto de invocação do receptáculo. Esse era o núcleo da magia que criava sua forma. Ela sabia que havia apenas um lugar onde ele poderia ter sido implantado: na boca do estômago.

Jusetsu retirou a mão de seu torso. Ela segurava uma mecha de cabelo na palma da mão.

A pele do homem ficou seca e escura. Argila formou grumos e caiu de seu rosto em pequenos pedaços. Suas mãos, e depois seus braços, transformaram-se em pedaços de argila e desmoronaram. Seu rosto então se despedaçou, começando pela boca.

Keiyo tombou no chão, e o corpo do homem desabou sobre ela.

Tudo o que restou dele foi um monte de barro e um manto. Eles cobriram Keiyo como um edredom.

Por um instante, ninguém disse nada. Ninguém conseguia se mexer. O forte odor de sangue e o cheiro terroso de argila impregnavam o ambiente.

A primeira pessoa a emitir um único som foi a dama de companhia de Keiyo. Seus soluços começaram a ecoar pela sala, ainda que fracamente.

Koshun caminhou para a frente e ajoelhou-se ao lado de Keiyo. Estendeu a mão e fechou os olhos arregalados da consorte para ela.

“Desde que soube da trágica notícia sobre seu irmão, você não parecia você mesma… Eu deveria tê-la mandado de volta para seu pai antes.” Havia um tom de remorso e vergonha em sua voz. Por um longo tempo, ele encarou o rosto de Keiyo em silêncio.

Jusetsu tirou um lenço do bolso do peito, agachou-se e usou-o para limpar o rosto ensanguentado de Keiyo. Em seguida, passou os cabelos do irmão da mulher pela mão antes de se levantar e ir embora.

Ao sair da sala, a Consorte Corvo lançou um olhar por cima do ombro. Koshun ainda encarava o rosto de Keiyo.

[Kessel: Nossa. Acho que fiquei uns cinco minutos encarando a tela sem saber o que escrever. Que fim horrível para a Consorte e que situação igualmente horrível para todos que presenciaram isso. Coitada da Renjo (a dama de companhia), do Koshun e até mesmo da própria Jusetsu. Espero que a autora não deixe essa morte “esquecida”, gostaria de ver um impacto real na forma como o Koshun e a Jusetsu agem daqui para a frente.]


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