Volume 2
Capítulo 3: O Homem da Máscara (Parte 2)
Alguns dias depois, Koshun voltou com uma resposta.
“Ele disse que eles estavam tocando flauta e alaúde. Os músicos não trabalhavam para ele, mas havia uma Trupe de Aves Canoras contratada para aquele dia.”
“Trupe de aves canoras…” Jusetsu repetiu.
“Com base nisso, acho que o homem mascarado estava reagindo ao som do alaúde.”, disse Koshun.
“O que faz você pensar isso?”
Koshun trouxe a caixa consigo novamente naquele dia. Abriu a tampa e retirou a máscara de tecido.
“As máscaras de tecido têm recortes diferentes dependendo do instrumento que tocam”, explicou ele depois de estender o tecido. “Mas todas têm aberturas para os olhos.”
Koshun apontou para a boca da máscara.
“Para os flautistas, há uma abertura lateral na boca para que possam tocar flauta melhor enquanto usam a máscara. Para os tocadores de flauta irlandesa, há uma única abertura vertical para os lábios. E aqueles que tocam outros instrumentos não precisam de outra abertura na máscara.”
[Kessel: Usaram os termos flute e whistle em inglês, para os dois instrumentos musicais nessa cena. Aparentemente são dois instrumentos bem parecidos e a tradução para eles seria flauta e flauta irlandesa. Obviamente, o Koshun não usou o termo “flauta irlandesa” nesta cena, afinal, o conceito de Irlanda sequer existe para eles.]
Essa máscara não tinha fendas.
“Essa máscara pertencia a alguém que não tocava nenhum instrumento de sopro. Um músico não reagiria ao som do instrumento que ele próprio toca?”
Koshun estava sugerindo que o dono da máscara era um tocador de alaúde, já que se tratava de um instrumento de cordas.
“Por isso pensei que devíamos fazer o homem da máscara ouvir alguém tocar alaúde, mas na verdade, eu já tentei isso uma vez. Mandei chamar um tocador de alaúde da Residência Abutre e pedi que tocasse, mas o homem mascarado não reagiu.””
“Isso significa que ele provavelmente não tocava alaúde”, disse Jusetsu.
“Então por que ele teria se virado no banquete? Será que ele foi atraído pelo som da flauta, apesar de não tocá-la?”
Os dois refletiram sobre isso juntos. "Uma trupe de aves canoras..." Jusetsu sussurrou.
Ao ouvir aquele termo, Onkei lhe veio à mente. "...Eisei", ela chamou o eunuco.
“Sim, niangniang?” respondeu Eisei, embora com ceticismo. “O que você deseja de mim?”
“Onkei deve estar lá fora. Você pode chamar ele para mim?”
“Onkei?” Koshun perguntou em dúvida.
"Há algo que eu gostaria de lhe perguntar. Se houver alguma trupe de aves canoras envolvida, Onkei seria a pessoa certa para perguntar. Ele costumava ser membro de uma."
"Ele era mesmo?" perguntou Koshun, voltando-se para Eisei. Eisei, por sua vez, olhou para Jusetsu surpreso.
“Sim, ele era”, confirmou. “Você sabe muito sobre ele, não é, niangniang?”
“Ele mesmo me contou.”
“Ele contou? Ele não podia ter contado isso…”
"Será que foi errado da minha parte perguntar? Eu não contei para mais ninguém", disse ela.
“Não, não foi isso que eu quis dizer. Peço desculpas. Só fiquei surpreso.” Eisei então saiu apressado pela porta para chamar Onkei.
“Eunucos não gostam de falar sobre si mesmos”, explicou Koshun assim que Eisei se foi. “Onkei devia confiar muito em você.”
"Não sei quanto a isso", disse Jusetsu. Ao se lembrar da história dolorosa de Onkei e de como ele chorou, ela se calou. Onkei havia confiado seu coração a ela.
Imagino se algum dia conseguirei retribuir essa confiança, pensou Jusetsu. Eisei então retornou, trazendo Onkei consigo.
Jusetsu chamou Onkei para perto de si. "Quero te perguntar algo sobre os instrumentos que os músicos da trupe das aves canoras tocam."
"Sim?" disse Onkei. Ele se ajoelhou, mas Jusetsu o fez levantar novamente.
“São instrumentos especiais de algum tipo? São diferentes dos que os músicos da Residência Abutre tocam, por exemplo?”
Onkei pareceu pensar por alguns instantes. "De um modo geral, não."
“De um modo geral?”
“Não conheço todas as trupes, apenas a minha. Às vezes, as coisas variam muito dependendo da região. Quanto a mim, só conheço uma pessoa que usava um instrumento único.”
“Apenas uma?”
“Sim. Uma música da minha trupe tinha um alaúde incomum.”
“Um alaúde…”
Onkei e Jusetsu trocaram olhares. Uma tocadora de alaúde na trupe das aves canoras de Onkei. Jusetsu não disse nada, mas Onkei acenou levemente com a cabeça em sinal de concordância.
“Quem tocava era uma jovem garota. Seu alaúde era pequeno, o que facilitava o transporte com seus braços finos. Por isso, ela tocava lindamente. Devia ser consideravelmente menor que o normal. Geralmente, os alaúdes têm quatro cordas, mas o dela tinha cinco. A parte onde ficam as cravelhas, na parte superior do alaúde, costuma ser curvada para trás, mas no dela, era completamente reta. Aparentemente, o alaúde dela veio de uma pequena ilha no oeste — a Ilha Shicho, a oeste da Província de Do. É uma ilha de exilados. Ouvi dizer que o primeiro alaúde desse tipo foi feito por um exilado de uma terra estrangeira, mas não sei se é verdade... Dito isso, você vê alaúdes como o dela o tempo todo na Província de Do, mas nesta região, é raro. O que aquela moça tinha é o único que eu já vi.
“Koshun”, Jusetsu o chamou, mas ainda assim se virou para Onkei. “Havia algo de especial no alaúde que foi tocado no banquete dos mercadores?”
"Não sei", respondeu Koshun. "Mas... ouvi dizer que uma mulher estava tocando ele."
"O quê?" disse Jusetsu, finalmente se virando para olhá-lo.
“Aquela trupe de aves canoras é conhecida como ‘Ave Escarlate’, e seu líder se chama Sha. Eu verifiquei a identidade deles, então não há dúvidas sobre isso.”
Quando Jusetsu olhou para Onkei novamente, ficou estupefato. "Essa era a trupe das aves canoras da qual eu fazia parte."
“Então isso significa…” Aquela tocadora de alaúde era…
“O alaúde que estava sendo tocado no banquete tinha que ser aquele instrumento peculiar.”
“Então precisamos de um alaúde da Ilha de Shicho”, disse Koshun, cruzando os braços.
“Seria ideal se tivéssemos aquele membro específico daquela trupe das aves canoras, mas eles já deixaram a capital imperial.”
"O quê?" disse Jusetsu, deixando os ombros caírem em sinal de decepção.
“Mesmo assim… se aquele alaúde veio de uma terra estrangeira, isso nos dá uma pista – embora ainda não saibamos por que ele atrai a atenção do homem mascarado.”
"Haveria algum na Residência Abutre?"
“Não”, disse Koshun. “Mas há um no cofre do tesouro do Palácio Gyoko. Você quer ir ver?”
Jusetsu recusou. Aquele eunuco que trabalhava como guardião do cofre do tesouro, Ui, estaria lá, e Jusetsu não gostava dele. Estar perto dele era como estar diante de uma porta que não deveria ser aberta.
Koshun partiu logo em seguida, levando Eisei para casa para que ele pudesse verificar o alaúde.
Jusetsu olhou para Onkei, que estava ao seu lado. "Tenho certeza de que poderíamos descobrir mais sobre como estão as pessoas daquela trupe Ave Escarlate, se perguntássemos", disse ela.
Onkei balançou a cabeça imediatamente. "Não. Está tudo bem. Contanto que todos pareçam estar bem de saúde, é tudo o que importa", disse ele, soltando uma risadinha. "Depois que fui enviado ao palácio interno, fiquei preocupado que seus passes tivessem sido confiscados ou que não pudessem mais trabalhar, mas o Atendente Ei já teve a gentileza de verificar isso para mim. A última vez que ouvi falar, eles não estavam mais na capital imperial, mas conseguiam continuar se apresentando em segurança." Onkei baixou a voz para um sussurro: "Até mesmo Kiji."
“Kiji?” Jusetsu perguntou.
“A tocadora de alaúde”, explicou ele. “Aparentemente, ela tem a reputação de ser uma das maiores musicistas da região.”
“…Entendo.” Não lhe pareceu que ele tivesse qualquer intenção de vê-la novamente.
“Niangniang”, disse Jiujiu, aparecendo na porta da cozinha. “Gostaria que lhe servíssemos as ameixas que Sua Majestade gentilmente lhe ofereceu?”
“Ah, certo…” Jusetsu começou a responder, mas naquele mesmo instante, Ishiha espiou por trás de Jiujiu, segurando Shinshin. O jovem eunuco de alguma forma havia se tornado o cuidador de Shinshin. Essa ave misteriosa nunca foi de se apegar a pessoas, mas, estranhamente, parecia gostar bastante de Ishiha. Parecia que ele a estava levando para fora naquele momento.
“O Shinshin não andou te atacando de surpresa nem te bicando, andou, Ishiha?”
“De jeito nenhum. Está sendo um pássaro muito bem-comportado, niangniang.”
Bem-comportado? Jusetsu pensou. Ela estava bastante cética, mas Ishiha parecia estar falando sério.
Ishiha colocou Shinshin no chão e ficou parado, imóvel, olhando nervosamente na direção de Jusetsu. Ele deve querer ameixas, presumiu Jusetsu, fazendo um gesto para que ele se aproximasse.
“Fique à vontade para se servir”, disse ela.
“Hum, bem, na verdade, não é isso. Não, obrigado”, disse Ishiha, constrangido, enquanto se aproximava de Jusetsu.
“…Bem, então, vou me retirar.” Onkei ia sair, mas Jusetsu tentou impedi-lo.
“Coma algumas ameixas também”, disse ela.
“Não, eu…” ele começou a dizer, mas uma ordem era uma ordem, então ele decidiu obedecer ao comando dela.
“Veja bem…” disse Ishiha timidamente para Onkei, “acredito que foi você quem intercedeu por mim, permitindo que eu trabalhasse para a Consorte Corvo. Eu queria expressar minha gratidão, mas não tive muitas oportunidades de vê-lo — peço desculpas por isso. Muito obrigado.”
Sua fala ainda era instável, mas Ishiha falava educadamente, separando cuidadosamente cada palavra. Ao que tudo indicava, seu desejo de dizer aquilo a Onkei era a razão de seu nervosismo.
“Eu só fiz essa recomendação porque acreditei que beneficiaria niangniang… Não foi para você.” Onkei pareceu perplexo.
“Mesmo assim, você me ajudou muito. É por isso que estou lhe agradecendo.” Ishiha foi direto, mas isso deixou Onkei intrigado.
“É isso mesmo? Então está ótimo”, respondeu ele simplesmente.
Jiujiu trouxe uma tigela cheia de ameixas. Os pequenos pedaços de fruta eram tão suculentos que seus sabores intensos estavam prestes a explodir através de suas cascas vermelho-arroxeadas. Um aroma doce pairava no ar. Jusetsu deu uma ameixa para Onkei e outra para Ishiha antes de pegar uma para si. Ela se sentou no parapeito de sua janela de treliça e deu uma mordida.
No verão, tudo ao redor de Jusetsu era vibrante e repleto de vida. O som dos insetos era ensurdecedor — mesmo à noite — e seus cantos mascaravam a escuridão real. Quanto mais claro ficava o dia, mais tênue se tornava a sombra de Uren Niangniang. Esta era a estação do Soberano do Verão.
Jusetsu estava olhando pela janela, mas então se virou para Ishiha. "Ouvi dizer que o eunuco que era seu instrutor está doente. Você sabia disso?"
Ishiha, que estava dando uma grande mordida em sua ameixa, limpou a boca pegajosa. "Sim, eu sei. Mas não acho que seja uma doença propriamente dita."
"O que você quer dizer?"
“Meu shifu — quer dizer, aquele homem não é mais meu shifu — está assustado. Tudo o assusta. O som do vento, o som de passos, sombras — a lista é interminável.”
“Do que ele tem tanto medo?”
“De você, niangniang.”
Os olhos de Jusetsu se arregalaram ao ouvir a resposta de Ishiha. "De mim...?"
“Quando você veio em meu auxílio, disse a ele para não me bater mais com a vara — e que, se o fizesse, nada de bom resultaria disso. Você disse: ‘Agora eu sei o seu nome.’”
“Ah, sim.” Jusetsu o havia ameaçado. Ela ameaçou usar o nome dele para lançar uma maldição sobre ele. “…Você está mesmo dizendo que minha ameaça foi um pouco eficaz demais?”
“Eu acredito que sim. Ele ficou com muito medo desde então. Ele diz que viu um monstro nos seus olhos, niangniang.”
Jusetsu engoliu em seco, sem palavras. Um monstro? Nos meus olhos?
"Ishiha", Onkei repreendeu o menino, assustando-o.
“M-Me desculpe. Bem, eu só estou dizendo que ele se enganou, e é por isso que ele está assustado. Não há nenhum monstro nos olhos de Niangniang.”
Jusetsu apertou o próprio braço com força. O que aquele eunuco poderia ter visto? Um monstro…?
Ela permaneceu em silêncio. Lembrou-se do incidente em que quase perdeu o controle de si mesma — daquela vez em que Hyogetsu usou Jiujiu como peão e a feriu. Uma fúria e uma força incontroláveis tomaram conta de seu corpo, e ela não se sentia ela mesma.
O que, ou quem, estava controlando Jusetsu naqueles momentos?
De repente, Jusetsu sentiu um frio repentino, como se uma sombra estivesse se apoderando de seu coração.
Uma única gota de suor frio escorreu por suas costas.
Na noite seguinte, chegou um mensageiro de Koshun. Era Eisei. "Poderia, por favor, vir ao Palácio Goshi?", disse ele.
Aquele era um dos edifícios do palácio no pátio interno, onde o imperador morava. Jusetsu decidiu levar Onkei com ela. Jiujiu fez beicinho por ter sido deixada para trás, enquanto Ishiha tentava acalmá-la.
[Kessel: Tadinha!!! Leva a Jiujiu também, Juju! </3]
"Isso significa que realmente havia um alaúde no cofre?", perguntou Jusetsu.
Eisei não quis responder. "Guarde essa pergunta para meu mestre", disse ele secamente. Ele parecia estranhamente contrariado, mas parecia ser algo recorrente.
Eles atravessaram o Portão Ringai, que ligava o palácio interno ao pátio interno. Os guardas do portão observavam Jusetsu com expressões vazias. Com seu ruqun preto e peônias no penteado, era evidente que ela era a Consorte Corvo.
O Palácio Goshi era bastante compacto e ficava ainda mais perto do palácio interno do que o Palácio Gyoko. As telhas azuis do telhado brilhavam à luz do entardecer, e seus pilares laqueados de vermelho-vivo pareciam mais escuros nas sombras. As portas que davam para a passagem externa estavam todas escancaradas, deixando o som da música escapar de dentro. Jusetsu ouviu alguém tocando um instrumento de cordas — ela supôs que fosse um alaúde. O som suave e abafado do instrumento reverberava delicadamente pelo ar. Era tão suave quanto as ondulações causadas por gotas d'água caindo na superfície de um lago. Havia também um leve aroma de incenso no ar. Devia ser o aroma de madeira perfumada. Esse era o incenso favorito de Jusetsu — o que ela costumava queimar em casa.
Eles continuaram andando sobre as pedras que pavimentavam o caminho e subiram os degraus. Encontraram Koshun sentado em um divã dentro do palácio, ouvindo atentamente o músico tocar o alaúde. Os eunucos que o acompanhavam estavam de pé ao lado das portas, como estátuas de pedra. Quando Jusetsu apareceu, Koshun ergueu a mão para interromper o músico. O músico, sentado diagonalmente à sua frente, vestia um manto verde-acinzentado e segurava um alaúde de formato incomum. O instrumento era belíssimo — feito de casco de tartaruga com camadas incrustadas de madrepérola e decorado com um padrão floral.
“Este é o alaúde exótico que estava no cofre do tesouro”, disse Koshun, convidando Jusetsu a sentar-se ao seu lado. “É feito de sândalo vermelho com detalhes em casco de tartaruga e pérola de uma concha de caracol-turbante marmorizada. É menor que um alaúde comum e seu braço é completamente reto. Também possui cinco cordas.”
Este alaúde tinha todas as mesmas características daquele de que Onkei havia falado. Jusetsu olhou para ele e viu que ele estava virado para ela, assentindo com a cabeça.
“Tem o mesmo formato que o da Kiji. O dela, porém, não era tão luxuoso quanto esta peça refinada”, disse ele.
A caixa contendo a máscara havia sido colocada ao lado de Koshun. Ele abriu a tampa e a retirou mais uma vez.
“Dê uma olhada.”
Jusetsu tirou a máscara dele, estendeu-a e espiou pelos buracos dos olhos. Koshun ordenou ao músico que retomasse a tocar. Um timbre suave e abafado começou a ressoar por toda a sala.
Assustada com o que via, Jusetsu enrijeceu. O homem que ela conseguia ver através dos buracos para os olhos havia se virado. Suas bochechas estavam emaciadas e seus olhos, fundos. Sob suas pálpebras escuras e sombrias, seus olhos tinham um brilho penetrante. Seu rosto estava pálido e seus lábios estavam ligeiramente entreabertos, embora estivessem secos e sem cor.
Jusetsu desviou o olhar dos buracos e olhou para o alaúde. Como esperado, o som do instrumento parecia estar atraindo a atenção dele — mas por quê? Quando Jusetsu olhou novamente pelos buracos, o que viu a assustou. Havia outro par de olhos injetados de sangue bem à sua frente, encarando-a. Eles emitiam uma luz estranha. Pertenciam ao homem da máscara.
Jusetsu se viu desviando o rosto.
"Ele está te observando, não é?", disse Koshun impassivelmente. Jusetsu assentiu.
“Ele deve ser muito… apegado ao som deste alaúde.”
“Bem, sim.”
Koshun então interrompeu a música. "Vamos ouvir o que este músico tem a dizer."
Ele indicou o músico com o olhar. Era um homem de meia-idade, vestindo uma túnica verde-acinzentada. A maior parte de seus cabelos era grisalha e estava presa em um coque no alto da cabeça. Seu rosto fino e suas mãos eram ressecados e profundamente enrugados. Seus dedos, porém, eram elegantes. Eram longos e de formato belo — provavelmente porque ele tocava alaúde.
O nome do músico era Sakyu Yo. Ele explicou que estava na Residência Abutre desde os dezoito anos. Atualmente, porém, não comparecia a banquetes ou rituais, dedicando-se, em vez disso, ao treinamento de jovens músicos. Em nítido contraste com a suavidade de seu alaúde, a voz de Yo era abafada e ele falava hesitante.
"Outro dia... um jovem da Residência Abutre teve a honra de ser convidado por Sua Majestade para tocar alaúde para ele. Quando ouvi o que aquele homem tinha a dizer... percebi que o homem que assombrava a máscara poderia ser um conhecido meu. Hoje, um mensageiro chegou — ele veio chamar um de nós para tocar este alaúde que estou segurando agora — então contei a ele sobre minhas suspeitas."
“Quem era esse seu conhecido?”, eles perguntaram.
“Um homem da Residência Abutre, como eu. Tínhamos idades próximas e entramos para a Residência quase ao mesmo tempo. Ambos tocávamos alaúde, mas ele já era reconhecido como um músico talentoso. Seu instrumento preferido era o de cinco cordas.”
O nome daquele homem era Kitsupuku Shihitsu, e ele era originário da Ilha Shicho, uma pequena ilha a oeste. Era também nessa ilha que se fabricavam alaúdes de cinco cordas.
“Shihitsu era um homem de poucas palavras. Não socializava e parecia nunca se afastar muito do seu instrumento. Em certa medida, isso se devia ao fato de o alaúde de cinco cordas ser ainda mais difícil de afinar do que o de quatro cordas — a cravelha curva do de quatro cordas facilita a afinação, mesmo durante uma apresentação. O de cinco cordas é tocado com os dedos, enquanto o de quatro cordas é tocado com uma palheta, o que lhes confere qualidades sonoras diferentes. O alaúde de cinco cordas é difícil de tocar, e Shihitsu é o único músico que conheço que o dominou e conseguiu produzir os sons exatos que desejava. Quando tocava, seu alaúde produzia sons que ninguém mais conseguia reproduzir. O som de sua música penetrava profundamente na alma, fazendo você se sentir como se estivesse sendo envolvido por uma garoa fina.”
Yo olhou para o alaúde que segurava. Parecia mais que ele estava falando com o instrumento do que com Jusetsu.
“Em contraste com os sons ricos que produzia, Shihitsu era um homem sombrio e mal-humorado. Passava dias e noites dedicando-se silenciosamente ao aperfeiçoamento de sua arte, sem tempo para mais nada. Teria sido feliz em passar todas as suas horas acordado tocando alaúde. Eu invejava seus modos, mas, ao mesmo tempo, eles me assustavam. Assistir ele tocando me causava arrepios, às vezes. Era quase como se ele abrigasse um demônio dentro de si. Era como se tocar alaúde fosse sua própria razão de existir. Eu não sabia o que seria dele se não tivesse isso — e esse pensamento me assustava. No fim das contas, eu estava certo em ter medo.”
Yo parou de falar por um instante, parecendo cansado.
"Com isso, você quer dizer...?" Jusetsu perguntou, incentivando-o a continuar. Ela também percebeu que Yo não havia olhado para a máscara de pano.
“De qualquer forma, ele nunca fez amizade com as pessoas ao seu redor, então muitos de seus colegas o ignoravam. Parte dessa frieza vinha da inveja. Devido ao seu temperamento, ele sempre falhava em animar as pessoas nos banquetes. Por mais bela que fosse sua música, faltava-lhe calor humano… Não houve um incidente decisivo, propriamente dito, mas gradualmente, Shihitsu começou a ser convidado para tocar cada vez menos. Quanto mais raros os convites, mais sua música se sobressaía aos outros músicos quando ele aparecia em público — suas habilidades eram simplesmente excepcionais. Portanto, ele passou a ser evitado ainda mais. Sua performance excepcional se destacava demais e prejudicava o som geral do grupo. Sem espaço para mostrar seu talento, Shihitsu dedicou-se a aprimorar seu talento na Residência Abutre. O som do alaúde de Shihitsu ecoava incessantemente pelo local. Ele tocava constantemente, sem sequer descansar um minuto… Era de arrepiar”, disse Yo. Sua voz tremia ao relembrar os acontecimentos daquela época.
Jusetsu não disse nada — para não interromper sua história — e o deixou continuar.
“Eu me preocupava se ele estava comendo, dormindo e assim por diante, mas o mais insuportável era poder ouvi-lo tocar a qualquer hora do dia ou da noite. Era muito mais impressionante do que o resto dos músicos, e parecia um tormento implacável para nós. Alguns dos nossos colegas reclamaram, mas o som não parou. Um dia, cheguei ao meu limite e fui falar com ele. Ele havia passado o dia inteiro com seu alaúde e não tinha saído do quarto, nem uma vez sequer. Fazia muito tempo que eu não o via, então fiquei chocado com sua aparência. Suas bochechas estavam encovadas e de uma palidez doentia, e seu corpo estava horrivelmente magro. Seus olhos fundos, no entanto, tinham um brilho estranho, e suas mãos não paravam de dedilhar o alaúde. Tanto as cordas quanto o tampo estavam escuros. Estavam claramente manchados por algo — o sangue de Shihitsu. Tocar sem parar, como era de se esperar, havia machucado seus dedos. Mesmo quando sua pele descascou e Seus dedos estavam cobertos de sangue, mas ele continuou tocando como se nada tivesse acontecido. Chamei seu nome — "Shihitsu" — mas ele nem olhou para mim. Era como se apenas sua alma já tivesse atravessado o mar.. Peguei o alaúde de seus braços. Ele gritou e se atirou sobre mim. Levantou os punhos como um louco, e eu fiquei gravemente ferido — mas eu sabia que devolver o instrumento a ele seria a coisa errada a fazer. Se ele continuasse tocando, acabaria morrendo. Segurei o alaúde com todas as minhas forças. Eu não conseguia entender por que ele estava tão desesperado. Ele não era meu amigo nem nada, então eu não fazia ideia... Logo, nossos colegas ouviram a confusão e vieram. Conseguiram contê-lo. Ele estava tão descontrolado que o trancaram no quarto e levaram seu alaúde. "Devolvam meu alaúde!", Shihitsu gritava enquanto batia na porta, mas quando chegou a noite... Ele caiu e ficou em silêncio. Presumi que tivesse desistido. No dia seguinte, porém... nós o encontramos em seu quarto, enforcado."
[Kessel: Caraca. A Kouko Shirakawa (autora) cria umas histórias muito interessantes, não acham?]
Nesse ponto da história, Yo olhou para cima, mas não para nada em particular. Ele soltou um suspiro fraco e então começou a falar novamente.
“Fiquei com o alaúde ensanguentado do Shihitsu. Eu deveria tê-lo colocado no caixão dele, mas estava muito abalado na hora. Só me dei conta de que o tinha quando voltei para o meu quarto depois do funeral… Naquela noite, ouvi um alaúde de novo. Era o Shihitsu tocando. Era aquele som penetrante, semelhante à chuva, que ninguém mais conseguia fazer — mas não vinha do alaúde. Mesmo sendo baixinho, conseguíamos ouvi-lo de todos os cantos da Residência Abutre. Estávamos todos apavorados. Pensávamos que o Shihitsu ainda estivesse vagando por aí, sem conseguir atravessar o mar. Não conseguimos esperar até de manhã, então jogamos o alaúde dele no fogo do jardim. Nesse momento, o som parou. Todos os outros se sentiram aliviados, mas eu ainda estava nervoso. Ele provavelmente ainda guardava rancor de mim. Afinal, fui eu quem tirou o alaúde dele. Verifiquei o quarto dele novamente, porque tinha medo de que, se ele tivesse deixado alguma coisa para trás, pudesse voltar. Só havia alguns pertences dele. Um pincel, um tinteiro, uma túnica gasta e, por último, uma máscara de pano... Aquela que você tem aí.”
Pela primeira vez, Yo dirigiu o olhar para a máscara, mas imediatamente desviou o olhar novamente.
“Era mais rápido jogar os pertences dele fora do que queimá-los todos — não que se possa queimar tinteiros, de qualquer forma — então pedi à nossa empregada que se desfizesse deles em algum lugar bem longe. Depois disso, finalmente me senti em paz. Nem me passou pela cabeça que ainda pudessem estar por aí.”
Ele não sabia se a empregada a havia vendido em vez de se desfazer dela, ou se alguém a havia recolhido e vendido depois de ter sido jogada fora, mas a máscara de pano ainda existia.
“Ele nunca mais apareceu na Residência Abutre, e nunca mais o ouvimos tocar alaúde — mas parece que sua alma ainda não fez essa jornada pelo mar, não é?” A expressão de Yo era tensa. O homem estava apavorado. “Shihitsu deve querer seu alaúde de volta. Ele quer o instrumento que eu lhe tomei. Quando eu… o confisquei, não foi por preocupação com ele. Foi assim que justifiquei minhas ações, mas, na verdade, eu só queria acabar com o talento musical dele. Quando percebi que isso era possível, fiquei realmente encantado. Por isso, eu estava tão desesperado para não deixá-lo ir. Eu invejava o talento dele mais do que qualquer um dos nossos colegas. É minha culpa que ele não tenha conseguido atravessar o oceano.”
O rosto de Yo empalideceu enquanto ele admitia seus verdadeiros sentimentos. Sua voz soava tensa, como se um nó na garganta estivesse tentando sair de sua boca.
Jusetsu olhou para a máscara novamente. Ela sentiu como se pudesse ver os olhos penetrantes e brilhantes de Shihitsu mais uma vez, mesmo sem olhar através dela.
“…Suponho que você poderia chamá-lo de ‘demônio da música’. O homem era possuído pela música. Ele se apegou ainda mais a ela depois da morte. Se você não tivesse tirado o alaúde dele, ele provavelmente teria se transformado em um demônio enquanto ainda estava vivo. Nesse sentido, você poderia dizer que deu a Shihitsu a chance de morrer enquanto ele ainda era humano, talvez.”
Olhando para baixo, Yo balançou a cabeça. "Essa não era minha intenção quando peguei o alaúde dele."
"Não me importa quais eram suas intenções", retrucou Jusetsu. "Quer você tenha tido essa intenção ou não, você impediu Shihitsu de se transformar em um demônio."
Yo olhou para Jusetsu. "Entendo", disse ele simplesmente, assentindo com a cabeça. Jusetsu estendeu a máscara e a segurou diante dos olhos dela.
“Se devolvermos o alaúde ao homem depois de todo esse tempo, pode acontecer uma de duas coisas. Ou o apego dele desapareceria, ou ele se tornaria ainda mais fanático por ele — e, nesse caso, ele ainda poderia acabar se transformando em um demônio.”
Enquanto Jusetsu ponderava sobre o que fazer, ela olhou para o alaúde que Yo segurava.
“Koshun, haveria algum problema se queimássemos aquele alaúde?”
“Queimar…?” disse Koshun. Sua expressão facial não mudou — talvez porque não tivesse tido a chance — mas ele parecia perplexo. “Isso… seria de fato um problema. Um problema muito grande, na verdade.”
“Ah”, disse Jusetsu.
“Não posso simplesmente fazer o que bem entender com as coisas no cofre do tesouro. Elas não me pertencem.”
“Tudo bem”, disse Jusetsu. Então, ela se virou para Yo. “Há algum alaúde de cinco cordas na Residência Abutre?”
“No momento, não há nenhum tocador de alaúde de cinco cordas por lá, então acho que não… mas se eu procurar bem, talvez consiga encontrar um antigo por aí.”
“Se possível, um alaúde que ninguém tenha usado seria ideal. Dê uma olhada para mim.”
Koshun chamou Eisei e pediu que ele fosse até a Residência Bustard com Yo. A Residência Bustard ficava fora da propriedade imperial, então levaria algum tempo para ir e voltar. Koshun preparou chá e bolinhos de mel branco para Jusetsu. Koshun recostou-se no braço da poltrona enquanto observava a jovem devorar os doces.
“Você deve estar ciente, Koshun”, disse Jusetsu.
“Ciente de quê?”
“Não aceito pedidos de graça. As pessoas têm que me dar algo em troca.”
“…Parece que você aceitou o pedido de Ishiha de graça.”
Jusetsu parou de comer e lançou-lhe um olhar penetrante. "Está me dizendo que eu deveria obrigar uma criança a pagar?"
“Mas isso é injusto, não é?”
“As coisas não precisam ser justas. Foi minha decisão. Eu faço as regras.”
Surpreendentemente, Koshun caiu na gargalhada. "Entendi. Gostaria de poder dizer isso às pessoas quando me fazem perguntas também. Te invejo."
Jusetsu nunca tinha visto Koshun rir tanto a ponto de seus ombros se moverem. Até mesmo os eunucos que estavam perto das portas pareceram surpresos.
Mas então, Koshun apagou o sorriso do rosto. "...Deixa pra lá. Esquece que eu disse alguma coisa. É inapropriado da minha parte dizer que tenho inveja de você, considerando a posição em que você está."
Jusetsu encarou o rosto de Koshun. Ele é sério demais para o próprio bem, pensou ela. "Não sou tão sensível assim. Você deve dizer o que quiser. Se eu achar algo desagradável, avisarei."
“Não quero que você me ache desagradável”, disse ele.
Jusetsu ficou em silêncio, com uma enorme carranca no rosto. Ele era tão cansativo de lidar.
"Você se sentiu assim em relação a mim agora há pouco?", perguntou Koshun.
"Não. Eu só estava pensando em como você é cansativo."
"Isso é melhor do que 'desagradável'."
Será? Jusetsu pensou. Mesmo assim, interrogá-lo sobre isso também seria cansativo, então ela se conteve. Em vez disso, colocou mais um bolinho de mel branco na boca.
“Como você gostaria que eu lhe agradecesse desta vez? Com alguns petiscos? Ou talvez algumas frutas?”
“Pare de pensar que pode se safar de tudo contanto que me dê comida”, respondeu Jusetsu.
“Se precisar de mais alguma coisa, terei prazer em providenciar.”
“Não… há”, respondeu Jusetsu, mal-humorada. Isso fez Koshun rir um pouco.
Antes que percebessem, Yo e Eisei estavam de volta. O músico segurava um pequeno e antigo alaúde de cinco cordas.
“Algo assim seria aceitável?”
“Sim”, disse Jusetsu. “Toque para mim.”
Yo colocou o alaúde sobre os joelhos e tocou as cordas uma a uma, começando pelas de cima. Ele mexeu nas cravelhas para afiná-las e, em seguida, tocou uma pequena melodia para verificar novamente. Assim que terminou, pegou o instrumento de volta e começou a executar uma melodia fluida.
O som tinha uma qualidade encantadora. O som nítido e agudo era como uma brisa refrescante deslizando sobre pedras de calçamento. Era leve e agradável ao ouvido.
Jusetsu tirou a peônia do penteado e soprou suavemente em suas pétalas. Elas se transformaram em algo semelhante a um fino pó prateado e caíram sobre a superfície da máscara. Uma luz bruxuleante cintilou e se apagou ao tocar a máscara.
Diante da máscara, Jusetsu gritou seu nome: "Kitsupuku Shihitsu."
Inicialmente, não houve resposta. Após alguns instantes de espera, porém, ouviram uma voz rouca suspirando durante as pausas na execução do alaúde por Yo. De repente, um dedo branco surgiu por um dos buracos para os olhos. Yo jogou a cabeça para trás em choque, mas Jusetsu o instruiu com o olhar a não parar de tocar. O homem continuou, embora seu rosto parecesse tenso.
O dedo branco se moveu, seguido por uma mão torta. Era só pele e osso — como a mão de um idoso. Em seguida, veio um braço que lembrava uma árvore seca, seguido pela manga esfarrapada de uma túnica. A mão se moveu, sondando o ar. Então, um ombro deslizou para fora e o corpo de um homem começou a emergir, rastejando pelo buraco para os olhos, que parecia quase impossível de atravessar. Esse homem colocou as mãos sobre a mesa e começou a se erguer para fora da máscara. Seu rosto era pálido e magro, e seus lábios, secos e rachados. Seus olhos eram fundos e embaçados, mas eram a única parte dele que tinha um brilho estranho.
Ele olhou ao redor da sala, com os olhos arregalados.
Então, seu olhar se fixou para cima. Yo estremeceu, mas mordeu o lábio, fazendo o possível para conter um grito. O homem fantasmagórico tinha o olhar fixo no alaúde. Ele se contorceu pelo chão, caminhando em direção a ele. Yo claramente queria fugir, mas, sendo um profissional, naturalmente continuou tocando apesar do nervosismo. O fantasma pareceu ter sido seduzido pelo som da música e estendeu sua mão ossuda.
Por um instante, pareceu que ele ia alcançar as cordas, mas então começou a se desfazer em pó e desaparecer. Talvez ele não estivesse desaparecendo — não, ele estava sendo engolido pelo som do alaúde.
Conforme seu corpo se movia, ele foi desaparecendo e sendo engolido pelo som. Primeiro, seus braços se desintegraram em areia. Depois, seus ombros e seu rosto também. A areia brilhava como pó de prata. Suas pernas logo seguiram o mesmo caminho. Por fim, cada parte dele — até mesmo as pontas dos sapatos — havia desaparecido. Tudo o que restou foi um tênue brilho.
Jusetsu convenceu Yo a continuar se apresentando por mais um tempinho, e então ela levantou a mão para interrompê-lo.
"Já chega", disse ela. Levantou-se, pegando o alaúde das mãos dele e segurando também a máscara.
Jusetsu saiu pela passagem externa e desceu os degraus. O sol já havia se posto e um véu tênue de escuridão cobria a terra. Os botões da árvore-pagode plantada ao lado do palácio estavam obscurecidos pela escuridão e pareciam ter um tom preto-azulado. Jusetsu colocou o alaúde e a máscara perto da árvore e se afastou. Ao fazer isso, chamas vermelho-pálidas se elevaram do instrumento. Não eram intensas, mas suaves. Tremulavam levemente na escuridão azulada. O fogo delicadamente incinerou o alaúde e a máscara, que começaram a ser consumidos silenciosamente. Não havia o cheiro desagradável de queimado. Em vez disso, o ar se encheu com o aroma de flores perfumadas. O alaúde e a máscara tremulavam com um toque de branco dentro das chamas de vez em quando, enquanto eram destruídos. Pouco antes de os dois objetos queimarem completamente, Jusetsu ouviu cordas sendo tocadas — um som que persistiu mesmo depois que a chama se apagou.
A escuridão finalmente retornou.
Jusetsu voltou-se em direção ao palácio. Yo estava parado em frente às portas, imóvel.
“Acredito que Shihitsu já tenha atravessado o mar”, declarou ela.
Yo caiu de joelhos e fez uma profunda reverência, com as mãos à sua frente em sinal de deferência.
“O sol já se pôs completamente. Vou pedir para o Eisei te levar para casa”, disse Koshun, olhando para o céu. Yo já havia sido mandado de volta para a Residência Abutre.
“Não preciso dele. Eu tenho o Onkei.”
“É melhor ter dois guarda-costas do que um.”
“Você tem noção de com quem está falando…?” disse Jusetsu, atordoada. A noite pertencia à Consorte Corvo.
“Você não deve superestimar a sua própria força. Às vezes, você precisa se lembrar de que ainda é apenas uma garota de dezesseis anos.”
Jusetsu franziu a testa, mas Koshun a obrigou a sair com Eisei de qualquer maneira. Uma multidão de eunucos seguiu o imperador quando ele saiu.
Eisei acendeu seu castiçal, parou em frente a Jusetsu e começou a caminhar para frente.
Ele sempre atendia às ordens de Koshun com obediência inquestionável, mas mesmo assim não fazia nenhum esforço para esconder sua antipatia pela jovem. Ele parecia desagradado também nessa ocasião.
"Koshun está cansado?", perguntou Jusetsu a Eisei enquanto caminhava à frente dela pelo portão.
Eisei olhou para trás, para ela. "Meu mestre é um homem extremamente ocupado, então nunca há um momento em que ele não esteja cansado."
“Se ele está tão ocupado, por que vem até mim com esses pedidos?”
Eisei lançou um olhar penetrante para Jusetsu. Jusetsu percebeu que aquele homem era provavelmente a única pessoa que lhe dirigiria — à Consorte Corvo — um olhar tão feroz.
"Eu também gostaria de ter o privilégio de lhe perguntar isso", disse ele.
"Tenho certeza de que você poderia impedi-lo", disse Jusetsu.
"Eu jamais conseguiria cometer um ato tão irreverente."
“Isso não significa que você pode descontar sua irritação em mim.”
Eisei franziu a testa. “Não estou.”
Jusetsu queria perguntar por que ele estava fazendo aquela cara, mas não perguntou. "Só vá para casa. Onkei é o único guarda-costas de que preciso."
“Não posso desobedecer às ordens do meu mestre.”
Jusetsu já havia se calado. Ela sentia que eles não estavam em sintonia de forma alguma.
“…Até então, ele e eu tínhamos um foco em comum: a imperatriz viúva”, começou Eisei depois de caminharem um pouco mais, embora não estivesse claro por que ele havia escolhido mencionar isso. “Algo que estava adormecido durante esse tempo agora o aprisiona, já que a imperatriz viúva está morta.”
Jusetsu encarou as costas de Eisei. Era uma forma indireta de dizer as coisas, mas ela conseguia entender o que ele estava dizendo, até certo ponto.
“Aquilo que aflige o imperador tem sido mais ou menos o mesmo desde tempos imemoriais.”
Parentes externos — os amigos e parentes de suas consortes.
“A consorte principal no palácio interno atualmente é Kajo. Ela é neta do Grão-Chanceler, não é?” perguntou Jusetsu.
“O Grão-Chanceler Un tem sido um conselheiro próximo do meu mestre desde a época em que ele era príncipe herdeiro.”
“Certo. Então a família Un deve ser a mais poderosa atualmente”, disse Jusetsu. “Será que Koshun escolheu Kajo como uma de suas consortes para evitar a ira de sua família?”
“…O que te leva a dizer isso?”
"Já que ele não lhe dará um filho", comentou ela. Eisei não respondeu, mas também não negou.
Kajo ainda nutria sentimentos por seu falecido amado. Embora estivesse no palácio interno como consorte, ela e Koshun não eram um casal. Naturalmente, ter filhos estava fora de cogitação para eles. Em outras palavras, a família Un não teria seu príncipe herdeiro. Do ponto de vista dos parentes de Kajo, se tivessem um príncipe herdeiro em sua linhagem, Koshun esgotaria sua utilidade. Se sua presença se tornasse um obstáculo, ele poderia ser descartado. Independentemente de a família Un chegar a esse ponto, Koshun estava reprimindo sua tirania ao não ter um filho. E, ainda assim, por causa disso, ele também não podia se dar ao luxo de enfraquecer muito o poder deles. Os laços entre eles eram muito fortes, e eles também eram seus aliados.
Os nervos de Koshun deviam estar à flor da pele.
“…Ele não deveria ter tempo para se incomodar comigo”, sussurrou Jusetsu.
“Exatamente”, respondeu Eisei friamente. “Mas meu mestre é um cavalheiro sincero e bondoso. É por isso que ele não pode te deixar sozinha.”
Jusetsu quase podia ouvir a voz dentro de sua cabeça dizendo: "Eu gostaria que ele fizesse isso."
Eisei parou abruptamente e olhou para Jusetsu. Seus belos traços se destacavam à luz de velas. "Você também trará infortúnio ao meu mestre algum dia", disse ele.
O eunuco tinha um olhar sombrio e exasperado em seus olhos marcantes, juntamente com um de medo irreprimível.
Jusetsu olhou fixamente para eles. "...Koshun tem sorte de ter alguém como você ao seu lado", disse ela.
Eisei fechou a boca com as mãos e virou as costas para a jovem. Recomeçou a andar em silêncio, como se nunca tivessem conversado. A luz de seu castiçal tremeluzia à sua frente, iluminando-o em sua silhueta.
Ao chegarem ao Palácio Yamei, Eisei parou em frente aos degraus e convidou Jusetsu a entrar. Assim que Jusetsu subiu os degraus e parou em frente às portas, ela se virou. "Obrigada", disse ela a Eisei e Onkei.
Onkei os seguia furtivamente por trás, sem dizer uma palavra. Os dois homens se curvaram diante dela e não levantaram o olhar até que ela desaparecesse lá dentro.
“Onkei… Há algo que eu gostaria de discutir com você”, declarou Eisei, retornando pelo caminho que haviam percorrido após se certificar de que Jusetsu havia entrado no palácio.
Onkei, porém, não se moveu. "Vamos voltar para o pátio interno?", perguntou, parecendo um tanto perplexo. "Tenho que cumprir meus deveres de guarda aqui no Palácio Yamei."
Eisei ficou irritado. "Não se engane", disse ele. "Você não é um eunuco do Palácio Yamei. Você é o eunuco do nosso mestre."
"Eu sei", disse Onkei com um aceno de cabeça, como se isso fosse óbvio — mas Eisei franziu a testa.
Onkei talvez ainda não soubesse, mas o homem já estava a meio caminho de se tornar um dos eunucos de Jusetsu.
Essa era a causa do mau humor recente de Eisei. Antes que ele percebesse, Jusetsu havia conseguido reunir cada vez mais pessoas ao seu redor. Até mesmo Onkei — a pessoa que ele tratara com o máximo cuidado desde que ainda era um neófito e fora treinado para ser seu braço direito — havia se envolvido em tudo isso. Uma sensação de inquietação se espalhou por seu coração. Era como quando uma única gota de tinta cai na água — turva todo o copo.
“…Nesse caso, vamos conversar enquanto cuidamos do patrulhamento noturno.”
Eisei refez o caminho que haviam percorrido e virou-se em direção ao bosque de loureiros e rododendros que circundava o Palácio Yamei. Onkei o seguiu.
“Eu não te enviei ao Palácio Yamei para que você se aliasse à Consorte Corvo. Você sabe disso, não sabe?”
“Sim.”
Ele havia designado Onkei para ficar com a Consorte Corvo para que pudesse lhe fornecer relatórios detalhados sobre ela. Acima de tudo, seu trabalho era ser um espião.
A resposta de Onkei não foi nada hesitante, mas ele ainda tinha mais a acrescentar. "Você realmente precisa ser tão cauteloso?", perguntou ele. "Jusetsu está ajudando nosso mestre, não se vingando dele."
“…Isso não é motivo para ter medo?” Eisei sussurrou, baixo demais para Onkei ouvir.
O outro homem pareceu confuso, mas Eisei não disse mais nada.
Jusetsu ajudou Koshun dissipando a maldição da imperatriz viúva. Eisei também sabia que, apesar de sua atitude, ela era uma jovem bondosa e compassiva. Ele também reconhecia que ela era a pessoa com quem Koshun podia desfrutar de breves momentos de paz. Esses eram exatamente os motivos pelos quais ele tinha medo. Era um medo que ele não conseguia expressar em palavras. Ele temia que um dia isso se revelasse uma armadilha — uma armadilha de vingança — e que Koshun caísse nela.
A ideia o horrorizou.
“Atendente Ei”, chamou Onkei de repente, com a voz tensa. Ele estava paralisado.
"O que é isso..." Eisei começou a dizer, mas então ele também se viu surpreso.
Os dois estavam na floresta, com o luar brilhando através das árvores. O ambiente não era particularmente escuro, mas as sombras eram. Eles podiam sentir um cheiro vindo de mais fundo.
Os dois eunucos ficaram em silêncio, mas, ao trocarem olhares, perceberam um lampejo de cautela nos olhos um do outro. Controlaram a respiração e seguiram na direção de onde vinha o cheiro, tomando cuidado para não fazer barulho.
Quanto mais se aproximavam da fonte, mais forte ficava o cheiro. Era um odor metálico e rançoso.
Sangue.
Eisei e Onkei pararam. Haviam chegado a um local onde uma velha árvore apodreceu e caiu no chão, deixando uma lacuna onde antes estava. Lugares como esse podiam ser encontrados aqui e ali nas florestas e bosques. Com a remoção dos galhos e folhas que bloqueavam a luz solar, o sol podia entrar durante o dia e as árvores jovens prosperavam. Era assim que as florestas se renovavam.
Nessa hora da noite, porém, o luar brilhava sobre aquele lugar. Sua luz branca lançava um brilho sobre a árvore caída, apodrecida e coberta de musgo. A luz da lua lembrava uma lâmina afiada — era uma luz lúcida, cortante e impiedosa.
O luar iluminava uma pessoa caída perto da árvore derrubada. Era uma jovem vestida com um ruqun de dama da corte. Seus olhos vazios fitavam o céu, imóveis. Um de seus braços estava estendido, com os dedos rígidos e deformados. Tanto sua túnica quanto o chão abaixo dela estavam manchados de um vermelho escuro pelo sangue que jorrava de seu pescoço.
Algo havia mordido a garganta da jovem.
[Kessel: Muito legal ter uma ideia melhor das razões pelo qual o Eisei tem um pé atrás com a Juju. E o que diabos vai acontecer no próximo capítulo?!]
Entre em nosso servidor no Discord para conversar sobre essa obra, além de conhecer os nossos outros trabalhos: https://discord.gg/wJpSHfeyFS
Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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