Raifurori Brasileira

Autor(a): NekoYasha


Volume 4

Capítulo 210: Deusa-Elfa

Após longas duas horas de caminhada, finalmente avistaram uma vila cercada por um muro de madeira negra com pontas afiadas — isso indicava que os elfos nunca tiveram que lidar com alguém que chegou até ali, as armadilhas de Hyze eram simplesmente perfeitas. 

Os companheiros de Kurone e Edward possuíam cordas apertadas em volta das mãos, seria algo fácil de se livrar, mas o verdadeiro problema era os elfos poderosos espalhados por todo o local.

Shirone, andando com um pouco de dificuldade devido aos ferimentos, era encarado constantemente pelos outros de sua espécie. A surpresa de encontrar um elfo vivo fora da vila era nítido em seus semblantes.

Quem liderava todo o grupo era o elfo de armadura negra e expressão carrancuda, os principais alvos do seu olhar repreensivo eram Kurone e Edward.

“Não posso reclamar, tô parecendo um monstro mesmo… Nie, tá tudo bem aí dentro?”

[S-sim, apesar das rachaduras aumentarem constantemente, não há sinal do Vassalo da Morte por aqui, o que será que ele está aprontando? Uma armadilha para assumir o controle do seu corpo de repente?]

“Pois é, esse cara tem poder suficiente pra tomar o controle de mim sem problemas, o que será que ele vai aprontar? Ele tem cara de quem gosta de um show… Ah, ele tem a minha cara.”

As veias arroxeadas espalhavam-se cada vez mais pelo rosto meio afeminado de Kurone, quando isso pulsava, provocava um desconforto inexplicável em quem estava ao redor.

O Vassalo da Morte aproveitou enquanto o jovem lutava para agir sorrateiramente, isso explicava o motivo pelo qual o garoto usou as chamas negras sem dificuldades.

Ainda não havia dominado o Ápice da Mana, então sempre precisava da ajuda de seus itens, contudo a ajuda do poder das trevas parecia corromper o seu ser toda vez que o utilizava.

No fundo, estava feliz por ter finalmente chegado a Hyze. Não sabia como conseguiria conversar com a xamã, mas daria um jeito, pois ela era a pessoa com a probabilidade mais alta de saber de algo sobre o Vassalo da Morte.

Quando adentraram o interior da vila, o olhar de todos se voltou para o jovem com aquelas veias arroxeadas no rosto. O local parecia uma vila comum, a única diferença era que seus habitantes possuíam orelhas pontuadas.

— Levem os feridos para o curandeiro — ordenou o elfo de armadura negra. Entre os mais afetados pela batalha, estavam Ayshla e Law Zhen, além de William Zackarias e Shirone. A orc fêmea relutou em deixar o seu mestre, mas logo concordou, após ele fazer um sinal com a mão, e seguiu o grupo que a levaria ao curandeiro.

Os únicos tratados como pessoas potencialmente perigosas ali eram Kurone Nakano e Edward Soul Za, a aparência infantil de Dora dava-a um passe livre.

Berthran encarava todos ao redor com hostilidade, mas aguardava as ordens do seu mestre para agir. Apesar de estarem com as mãos atadas, as armas permaneciam com seus donos, e Kurone ainda tinha a vantagem de guardar suas Armas Lendárias no Inventário Interno.

— A senhora Hyze gostaria de conversar apenas com vocês três — o elfo falou ao parar por um instante. Os “três” mencionados eram Kurone, Edward e Lothus. — Levem os outros até a prisão e aguardem novas ordens.

O rosto de Eulides empalideceu quando escutou que iria para a prisão, ele definitivamente não lidava bem com esse tipo de situação.

Inari apenas estalou a língua e olhou para Kurone, o olhar era o de alguém que dizia “eu vou destruir tudo se eles tentarem alguma gracinha”.

Por mais que Eulides fosse fraco, ele ficaria na companhia de Inari, Dora e Berthran. Uma deusa, uma Besta Divina e um orc de nível sobre-humano, não havia com o que se preocupar.

Estranhamente, Dora estava muito quieta, a menina que conhecera na vila de Grain teria começado uma batalha ali há muito tempo, porém parecia que a inteligência dela aumentou   muito, gostaria de usar a Análise nela, mas os elfos podiam notar a coloração do olho mudando e considerar aquilo uma ameaça. 

Após mais aquela redução do número do grupo, o elfo de armadura negra finalmente começou a seguir na direção da sala onde encontraria a tão aguardada xamã Hyze — as casas da vila seguiam os modelos das ocas dos nativos da África.

A construção da xamã era a maior da vila, havia mais de dez elfos montando guarda em todos os lados e o movimento dos moradores comuns ali era limitado. Apesar do clima invernal da floresta próxima, não havia neve pelo chão pisado por Kurone.

Lothus olhava com curiosidade para todos os lados. Intimidação ou medo não eram vistos em seu rosto, talvez ela já tivesse passado pela mesma situação na última vez que visitou a vila com o seu irmão, o Asmodeus?

Se fosse apenas uma formalidade para os visitantes, então não precisariam se preocupar com uma batalha violenta, mas Kurone não conseguia pensar dessa maneira.

— Fiquem aqui, apenas nós quatro vamos entrar — disse o elfo aos outros que o escoltavam, a face deles eram severa e quase nunca mudava a expressão. — Venham comigo.

Naquele ponto, Edward também já estava bem à vontade com o cenário, mas o jovem evitava fazer contato visual. Ver aquele corpo, o corpo da 17º criança sequestrada na vila de Grain, fazia o seu sangue borbulhar e o ódio que nutria contra o marquês só aumentava, por isso focou no cenário.

O interior da construção era simples, tudo era um grande espaço aberto com o chão de terra batida, na verdade o local se parecia mais com um templo de adoração, e o alvo das orações e súplicas estava sentado sobre um pedestal de concreto.

[Kurone… ela…]

Na cabeça do jovem, a xamã Hyze era completamente diferente dessa elfa sentada sobre o pedestal e de olhos fechados. Sabia que essas criaturas preservavam a aparência jovem, mas Hyze existia desde a Era dos Deuses, ela devia realmente parecer tão jovem?

Até Shirone Nakano tinha cara de ser mais velho que a elfa, ela tinha feições de uma garota em seus dezesseis anos, ainda aguardando o desenvolvimento vindo pela puberdade. Os cabelos com um gradiente de preto e verde estavam soltos, caindo sobre seus ombros, e o seu corpo, provavelmente ainda repleto de curvas discretas, era oculto pelo manto marrom que vestia. 

Quando ela abriu os olhos, o amarelo brilhante fixou-se na figura de Kurone. Com dificuldade, a xamã Hyze ficou de pé e o elfo de armadura negra ao lado obrigou todos a se ajoelharem.

— Eu… sou Hyze… é um prazer revê-la… menina Lothus. — Apesar da aparência jovial, a maneira de falar deixava transparecer sua verdadeira idade, o seu semblante cansado e os olhos fixos em um ponto estático lhe passavam um ar depressivo. — Loright al Mare e Edward Soul Za, sabem o porquê de estarem aqui?...

Ah, então você sabe o meu nome?

— Não se dirija à xamã de maneira tão insolente, humano! — bravejou o elfo de armadura negra, sacando uma adaga curta, no entanto ele foi detido por um sinal da mão de Hyze e, com relutância, voltou a ficar ajoelhado.

— Eu conheço você muito mais do que você imagina… Vassalo da Morte… estive lhe observando desde que chegou neste mundo… nem mesmo sua companheira deusa lhe conhece tão bem quanto esta pessoa que está à sua frente.

Kurone não teve outra opção a não ser engolir em seco. Seu corpo ficou agitado ao escutar as palavras da elfa, ele subestimou os poderes de Hyze, alguém que viveu por tanto tempo certamente era poderoso, mas isso já era o nível de uma divindade.

— Sim… você pode pensar em mim como uma deusa, embora eu não tenha ascendido… Assim como Karllos Sophiette, que é conhecido como Deus-Homem, eu me encaixo em algo parecido.

— Uma Deusa-Elfa? — o jovem murmurou lançando um olhar sério. A probabilidade de Hyze ter conhecido Karllos Sophiette e outras figuras históricas, lendárias e até mitológicas eram altas.

— Você pode usar este termo… eu posso ver tudo… mas foco apenas no que afeta este mundo… por isto eu trouxe você e seu grupo aqui… Vassalo da Morte. — Ela voltou um olhar ameaçador ao seu interlocutor, e ele só pode repetir o ato de engolir em seco audivelmente.

— Então, por que você fez a gente passar por essas armadilhas na floresta?! Sabia que a Lothus podia ter morrido?

Hyze não respondeu, seus olhos ficaram fechados enquanto ela refletia e, após encontrar a resposta que buscava, falou sem hesitar:

— Eu… não sei mais como desativar as armadilhas. — Isso tirou um suspiro de todos os presentes. — Eu construí há muito tempo… quando era mais jovem… mas não tenho mais idade de entender circuitos mágicos tão complexos… então o mínimo que pude fazer foi esperar que vocês chegassem a uma posição favorável para mandar alguns elfos…

Kurone não poderia negar que estava irritado por aquela resposta que fazia a xamã parecer alguém irresponsável, porém, no fundo, ele estava aliviado por ela ser alguém amistosa.

— Mas agora que estamos aqui… podemos discutir sobre a sua execução… Vassalo da Morte — a Deusa-Elfa falou a sentença de expressão e tom de voz imutável, porém isso provocou calafrios anormais no jovem, até Annie soltou um gemido leve no fundo da sua mente.

Talvez tivesse se precipitado em seu julgamento. Como sempre, não podia confiar em pessoas desse mundo.



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