Raifurori Brasileira

Autor(a): NekoYasha


Volume 2

Capítulo 92: Suserano E Vassalo

As pessoas começaram a correr desesperados pelo cenário mórbido, todos seguiam na mesma direção, provavelmente sabiam onde havia um esconderijo seguro.

— Vamos logo! — gritou Ryuu, irritado, para Kurone. — Não temos tempo a perder, essas criaturas são muito perigosas. — O homem fez menção de puxar o garoto pela mão e tirá-lo dali a força, no entanto, ele desvincilhou-se da investida e recuou alguns passos.

— Tem algo… — começou Kurone — tem algo me chamando… Não sei o que é, mas é como…

Ryuu olhou assombrado para o menino. Era fato que Kurone Nakano era uma existência irregular naquele plano, como Marcell disse, o mais provável era que aquelas criaturas foram atraídas por ele, então colocaria a multidão em perigo se os seguisse para o esconderijo.

— Deixe de besteira, garoto! Precisamos sair daqui agora, senão aquelas coisas irão nos matar! Escute, nós podemos…

— Não se preocupe, senhor Ryuu… — Kurone interrompeu com um sorriso amarelo — eu já matei um desses, não vou morrer tão fácil.

O jovem ignorou tanto a dor física quanto psicológica e correu em direção à horda de espectros atravessando o portão. Alguns tinham foices e outros não, mas nem precisavam de uma para matar o fraco Kurone, afinal ele não tinha mais o pacto com Annie, Dora ou Cecily.

Ao avistar o garoto aproximando-se rapidamente, um dos espectros flutuou em sua direção, era justo um Ceifador com foice. Em instantes, já estava em frente ao alvo.

— Porra! — exclamou ao ver a lâmina vindo de encontro com sua cabeça, porém não se acovardou e pensou em desviar.

— [Earth Wall]!

— [Wind Cut]!

Antes que pudesse ser aberto em duas bandas pela foice, uma muralha ergueu-se diante dos seus olhos e uma ventania violenta foi em direção ao Espiríto Ceifador. Por conta do tamanho, as criaturas tinham dificuldade em escapar das investidas.

Kurone virou a cabeça e viu a figura de Ryuu e Katherine em cima de uma das pedras pontiagudas. 

— Não seja idiota, garoto, vivo ou morto, nenhum Lolicon Slayer fica pra trás! — bravejou Ryuu em seu tom rude. — Não se preocupe, nós te daremos cobertura, mas se conseguir voltar mesmo… diga à loli que mandei um abraço. 

— Por favor, tome cuidado, Kurone — falou Katherine em seu tom gentil enquanto preparava mais um encantamento para atacar os espectros.  

— Pode deixar! — O garoto afirmou com determinação e voltou a correr. 

A magia não era restrita naquele plano, mas era um fator inútil para Kurone, afinal sua mínima compatibilidade com o fogo não funcionaria sem o auxílio de Annie, mas agora que estava mais são, sentia nojo de si mesmo por fazer um pacto com aquela mulher odiosa.

Porém, sentia falta do Aprimoramento Físico, aquela era a primeira vez após tanto tempo que ofegava após correr tão pouco, chutaria que todos seus atributos não eram maiores que 15.

O jovem foi obrigado a rolar pelo chão algumas vezes para esquivar dos ataques dos Ceifadores, as lâminas chegaram perto de o cortar diversas vezes, mas a atenção deles estava começando a ser desviada para os topos das pedras pontiagudas.

Algumas dezenas de Lolicons Slayers estavam de volta, disparando magias coloridas nos espectros, entre as pessoas estava a figura conhecida do supervisor. Tudo aconteceu muito rápido, mas Kurone queria conversar com ele por mais tempo.

O último encontro foi algo que ficou gravado em seu subconsciente, lembrava-se dele, Flugel e a garotinha em seus últimos momentos de vida. O pensamento fez a vontade de matar aquele Duque reacender em seu interior.

“Concentra!” Ignoraria tudo aquilo por enquanto e focaria no que quer que fosse lhe chamando no outro lado do portão. Se tivesse que chutar, diria que fora convocado para a sala de Cecily na primeira morte, então, se não estava morto, alguém o convocara ali de propósito.

Ele saltou em uma pedra enorme e a utilizou como trincheira. Estava próximo do portal, isso significava que o número de Ceifadores seria maior ali. Por sorte, mesmo flutuando, nenhum deles conseguia encontrá-lo no meio daqueles ataques dos Lolicons Slayers.

“Pensa! Pensa! Pensa… Ah!” Em meio aos pensamentos, encontrou algo perdido em sua mente. Podia ver perfeitamente os dois canos acinzentados presos na base de madeira. Sem demorar mais, ele fechou os olhos e focou na materialização da Boito .20.

— Vai servir… — murmurou ao ver a espingarda de cano cerrado que pertencera ao supervisor em suas mãos. Ele pôs a cabeça parcialmente para fora da pedra e visualizou três espectros próximos ao portão.

Pow! A atenção dos Ceifadores foi atraída para o local que recebeu o tiro da escopeta. Kurone aproveitou-se da brecha e correu com tudo em direção ao portal. Antes de atravessar totalmente a passagem, sentiu uma lâmina cortar suas costas. 

— Argh! — Deixou o grito escapar quando caiu de cara no chão. Sentiu um líquido frio escorrer por suas costas, mas ignorou aquilo e focou em se levantar o mais rápido possível.

Atravessou o portão vivo, levando apenas um rasgo enorme nas costas, porém isso significava que estava agora no ninho dos Ceifadores. Não demorou muito para ficar cercado pelos espectros.

O local onde estava não era muito diferente do anterior. Havia pedras pontiagudas e o cinza mórbido do piso anterior, todo cenário lembrava uma caverna, era algo bem próximo da visão de “Mundo das Trevas” de seu mundo, local onde acreditavam que os mortos iam após o fim da vida.

Pow! Ele investiu contra uma das criaturas à sua frente. Foi um ato inútil, considerando que estava cercado por mais de oito espectros. Era impossível matá-los apenas com uma escopetada medíocre.

Questionou-se como não sentiu medo quando viu aquele Espírito Ceifador na praça de Eragon. Certamente, estava louco, vaporizou a criatura como se ela não fosse nada.

— Deixem-no em paz! — ordenou uma voz calma e serena vinda de trás dos Ceifadores. Eles não pensaram duas vezes e se afastaram do jovem rapidamente, permitindo que ele visse o dono daquelas ordens.

Naquela acinzentada morada dos mortos, havia um trono edificado por pedras negras, no entanto, o que chamou a atenção de Kurone foi o ser ali acomodado casualmente com um sorriso amedrontador e olhos negros relaxados.

O ser estava sentado em uma posição confortável no trono cinza, os longos cabelos prateados contrastavam com os chifres curvilíneos adornado-lhe a cabeça. Uma larga echarpe escura cobria o corpo magro, mas quando se pôs de pé, foram revelados dois pares de asas negras.

Kurone engoliu seco perante a presença do ser de aparência demoníaca. Ele aproximava-se lentamente, olhando com hostilidade para os Ceifadores flutuando pelo ar macabro. Se fosse comparar aquele local com aquele inferno criado pelo imaginário de Dante, então estaria na presença do próprio Diabo.

Não teve reação no princípio, mas quando percebeu que sua vida corria risco, direcionou o cano cerrado da escopeta para a figura. Novamente, seria uma ação inútil, mas não podia ficar parado, afinal o “chamado” que sentia não vinha dele. Aquele ser demoníaco era apenas mais um obstáculo a ser superado até encontrar quem o invocou naquele lugar, o Hangar dos Mortos.

— Eu o aguardava, Kurone Nakano, meu querido vassalo. Sabia que conseguiria passar por essas bestas — ele disse apontando para os Ceifadores. Aquela cena lembrava Azazel van Elsie controlando o Espirito na batalha de Eragon, aparentemente eles eram subordinados a pessoas poderosas. — Enfim poderá cumprir a sua missão — completou com sua voz calma.

Kurone não baixou a guarda diante daquela presença tranquila, continuou com a arma mirada na cabeça do ser, pronto para disparar a qualquer momento. Estava assustado demais para falar, então ele prosseguiu:

— Não se preocupe, sou seu aliado. Na verdade, mais que isso… somos família! — gritou entusiasmado. — Pense comigo, se tu afirmas ser irmão da mulher que é mãe da minha mãe, então tu serias meu tio-avô, não?

— Quem diabos é você? — Kurone reuniu todas as forças para falar em tom firme. As palavras daquele ser não faziam sentido, mas sentia que ele se referia a Rory, assim como Elsie a chamava de “reencarnação de Astarte”. A garotinha tinha diversos nomes, mas sempre era mesma pessoa. 

— Quem sou eu…? — meditou um pouco antes de responder, recuou alguns passos e começou: — Sou aquele que caiu dos céus, o que detinha o título de Estrela da Manhã, o primogênito da alvorada! No entanto, hoje sou um anjo caído, fui atirado à terra dos mortos que eu mesmo construí.

— V-você mesmo construiu… — Kurone deixou o murmúrio escapar ao escutar aquelas palavras.

— Sim, em meus dias de glórias, edifiquei os cem andares do Hangar dos Mortos, mas no fim fui jogado nele. Como diriam os humanos: “Cavei minha própria cova.” — Ele fez uma pausa para respirar antes de concluir: — Bem-vindo ao nonagésimo nono andar do Hangar, Kurone Nakano, o Vassalo da Morte, eu sou Azrael, a própria morte, ou seja, teu lorde.

Ao escutar aquilo, o jovem arregalou os olhos. Quase apertou o gatilho para explodir a cabeça do anjo caído que falava besteiras. 

Repentinamente, aquilo tornou-se em um encontro entre suserano e vassalo, mesmo que o vassalo não tivesse ciência que era subordinado a um lorde demoníaco como aquele.



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