Raifurori Brasileira

Autor(a): NekoYasha


Volume 2

Capítulo 56: Delinquente X Falso Herói

"Toc toc."

— Ah, é o senhor, senhor Nakano. — O garotinho de orelhas peludas suspirou aliviado ao ver a figura conhecida na porta. — Não faça muito barulho, elas estão dormindo.

O garoto, Nui, estava entre duas camas, e, acima dessas camas, estavam os corpos de Amélia e Frederika, ambos dormindo tranquilamente. Os rostos de olhos fechados passavam uma impressão tranquila.

— Obrigado por todo o trabalho que fez.

Roof! Não precisa agradecer.

— Preciso sim. Não sei o que aconteceria com elas se não tivéssemos você. A Kawaii me contou que você é um dos médicos mais habilidosos de Eragon.

— Assim fico envergonhado. Roof! De qualquer forma, vou dormir. Tome. Quando sair do quarto, tranque a porta.

— S-sim…

Pelas olheiras pesadas, era perceptível o quanto o semi-humano precisava de um bom sono. Ele se esforçara muito por desconhecidos.

Era manhã do terceiro dia de Kurone em Eragon. Rory foi dormir tranquilamente após o encontro anormal com um dos supervisores. Após isso, não houve nada de incomum durante a noite.

Pelo horário do Japão, eram aproximadamente 7:00, mas como não tinha relógio, não podia afirmar com certeza. Era apenas sua intuição baseada na posição do sol.

Após entregar a chave, Nui saiu do quarto, deixando apenas o jovem e duas garotas sozinhas. Claro, Kurone não era nenhum tipo de pervertido que se aproveitaria de garotas dormindo, mas ele achava a situação desconfortável. A propósito, ele era inimigo mortal dos nojentos que abusavam de garotas dormindo ou em coma.

— Andou brigando enquanto eu dormia? — brincou Amélia, apontando para as ataduras do jovem.

A garota que devia estar dormindo se sentou na cama e olhou para o jovem. Era óbvio que estava se esforçando para se manter ali. Ela tinha que dormir para se recuperar, mas quando o garoto fez menção de repreendê-la…

— Obrigado. 

— Hã?

— Quando eu recuperei a consciência, o médico contou tudo que estava acontecendo detalhadamente… na verdade, ele não sabia que eu estava consciente.

A voz de Amélia estava fraca. A garota tentava forçar um sorriso, mas o corpo pesado não permitia. De qualquer forma, era um alívio ver que ela estava se recuperando. Se continuasse daquele jeito, a cocheira conseguiria participar do festival.

— Ela também deve estar muito agradecida. — A garota aprontou para sua companheira de quarto, Frederika.

A garotinha dormia tranquilamente. A "maldição" de Frederika se estendia até as roupas, por isso, ninguém conseguiu limpar o sangue dos trapos que ela usava. Enfim, não era nada preocupante. O coração do jovem se aqueceu. O pior passara e suas duas companheiras estavam bem.

Por falar em coração, o de Kurone esteve batendo de maneira anormal nos últimos dias. Ele acelerava quando o jovem pensava na possibilidade de perder um de seus companheiros e uma dor aguda percorria todo o seu ser. Normalmente acontecia quando o jovem pensava em Dora. Onde ela estava? O garoto se perguntava constantemente, mas devido aos últimos acontecimentos, acabou esquecendo-se dela.

— …Kurone…

— Desculpa, eu acabei me distraindo. É um mal-hábito meu. Pode falar.

— Meu corpo está doendo… quando voltarmos pra Andeavor, vou te ensinar como conduzir uma carruagem da maneira certa.

O jovem piscou algumas vezes para processar o que fora dito. Orcus também reclamou dos balanços e a má condução, mas o garoto deu de ombros. Porém, aquela crítica vinda de Amélia o deixou envergonhado. Ele tinha certeza que estava conduzindo bem e se amostraria mais tarde para a cocheira, mas seus planos foram destruídos. Definitivamente precisava melhorar!

— Seu rosto está vermelho… será que finalmente percebeu que está sozinho com uma garota frágil em um quarto escuro?

— N-não é nada disso! Pare de falar com essa voz sugestiva!

— … Ou não vai conseguir se segurar?

— Você não era assim! A Brain tá sendo uma má influência pra você!!!

— Pfff!

A dupla sorriu. Eles sorriram, esquecendo-se dos problemas. Aquele era um sorriso genuíno de Amélia, por mais que não tivesse a mesma intensidade de antes, devido à fraqueza. Era inacreditável. Para alguém que disse "esse é apenas um mundo passageiro. Não me apegarei a ninguém!", Kurone havia desenvolvido por Amélia os mesmos sentimentos que tinha por sua psicóloga, a senhorita Kanade.

Aquele momento tranquilo poderia durar para sempre — ou até Frederika acordar —, mas uma batida violenta interrompeu o diálogo dos pombinhos…

— VOCÊ!!!

Alguém arrombou a porta e adentrou o quarto, assustando os jovens e acordando Frederika de maneira rude. Esse alguém, dono de uma voz irritante familiar, era ninguém mais que Rhyan Gotjail, o herói narcisista.

— Porra! O que você tem na cabeça invadindo o quarto assim? Tá querendo levar outro soco? — gritou Kurone.

— Seu desgraçado! Eu sabia que aquela aberração estava emitindo um fedor muito forte pra uma pessoa só.

— Do que você tá falando?

— Todos que vieram com você são demônios, não são!? Por que alguém que diz ser um Santo está andando por aí com demônios?!

Havia rancor, ódio e tristeza nos gritos de Rhyan. Era um lado que ele não havia demonstrado até o momento e, sinceramente, Kurone queria não ter que brigar novamente.

— Por que está me ignorando?! EU sou uma piada para você? Como alguém, um humano, pode andar por aí paquerando com demônios? E ainda se diz Santo?!

— Eu não quero brigar de novo… é melhor você sair daqui…

— Prefere passar o tempo com suas putas demônios? Aquela baixinha de cabelos brancos é sua puta principal, não é!? Todos são pervertidos! Malditos! E você também! É tão fracassado que não conseguiu uma humana e escravizou demônios?! Ou você que é o escravo? Não importa! Eu vou matar todos agora! Hã? Não vai falar nada…?

— Peça desculpa…

— O quê?

— Peça desculpa agora. Você não conhece elas para falar dessa maneira. Não vou permitir que fala assim de nenhuma delas… Não! Não vou deixar que desvalorize alguém só por ser de outra raça! Por isso os mestiços que encontrei estão sem lar agora, por culpa de pessoas que pensam como você! Retire o que disse ou vou te matar!

Kurone afirmou com convicção, cerrando os punhos, e Rhyan franziu a sobrancelha. Até um tapado como ele podia sentir a hostilidade vinda do jovem com um manto branco. Ele fizera algo imperdoável e talvez nem mesmo um "me perdoe" acalmaria a fúria do garoto com o manto branco.

— Pedir desculpas? Não me faça rir! Se não recuar, EU vou te matar e torturar assim como vou fazer com essas aberrações! — Rhyan gritou, apontando para Frederika. A garotinha assustada se escondeu atrás de Kurone.

Onde estava a humanidade do ruivo arrogante? Ele ameaçou matar uma criança sem hesitar. Na verdade, Rhyan chegou a atirar em Frederika. O mundo não precisava de um "herói" como aquele. Kurone já vira criminosos mais nobres que aquele falso herói.

— Frederika, se esconda atrás da cama. Amélia, faça o mesmo.

As garotas nada disseram, apenas obedeceram. A voz do jovem estava firme. Amélia lembrou-se do acontecimento no julgamento ao escutar aquela voz.

Apesar de Kurone Nakano ser um jovem calmo, às vezes ele perdia o controle para uma fúria incontrolável. Foi assim na luta contra os orcs, em que ele atirou com vontade na horda se aproximando de Rory, e também na catedral, quando disparou impiedosamente no demônio fingindo ser a princesa. Amélia esteve dormindo, por isso perdeu também o acesso de fúria quando Frederika fora atingida por Rhyan. Quando ele perdia o controle, ninguém mais o segurava, como no Japão, quando quase matou o médico pervertido.

O garoto fez uma pose icônica de lutadores de boxe. Apesar de ser alguém acima da média, Kurone ainda beirava o rank F. Por mais que Rhyan tivesse aquela personalidade, não poderia baixar a guarda.

— É seu último aviso: peça desculpa!

— Está me desprezando mesmo, "Santo dos Demônios". EU não vou me desculpar com aberrações. Quando acabar com você, vou torturar cada uma delas! 

A última chance foi dada e o jovem arrogante a jogou fora. Kurone não teria piedade, por isso, ativou o Olho Sagrado silenciosamente… 

"Porra!" O garoto gritou internamente. O fluxo de mana no corpo do falso herói era anormal. Não era para menos, afinal ele era um reencarnado. Mesmo assim, aquilo não era motivo suficiente para o fazer recuar.

Mesmo diante dos delinquentes do bairro, de uma horda de orcs, da Besta Negra e do nobre imortal, ele não recuou. Kurone Nakano não recuava do campo de batalha enquanto houvesse pessoas preciosas a ser protegidas.

Foi por isso que ele se tornou um delinquente no fundamental. O sangue, suor e lágrimas que derramou para aprimorar o corpo não foram em vão. Com o [Aprimoramento Físico] e, em último caso, o soco envolto por mana, o jovem tinha chances reais de derrotar a verdadeira aberração daquele cômodo: Rhyan Gotjail.

— Venha com tudo, Santo dos Demônios!

— Ahhhhh!

O primeiro soco desferido foi em direção ao nariz. Era a regra número um dos lutadores de rua: fazer o inimigo sangrar para o intimidar. O golpe foi lento demais, porém aquele era o braço direito, Rhyan não tinha ciência que Kurone era canhoto e nem de que ele o atacaria com um soco no estômago, usando o braço direito como isca.

— Blergh!

Os pés do falso herói se desprenderam do chão por um segundo e, cambaleando, o corpo recostou na parede próxima à janela. O gosto de suco gástrico subiu, mas mal teve de engolir! O braço direito de Kurone foi ao encontro do seu rosto.

O corpo cambaleou novamente. Antes de se recompor, um chute acertou as costelas, fazendo um "crack" doentio e audível.

Kurone era impiedoso. Não havia técnica em seus golpes, apenas força bruta. Ele era definitivamente um lutador de rua, um delinquente qualquer espancando um adversário.

Rhyan esquivou por pouco de outro soco, porém, não percebeu o pé vindo em direção ao estômago. O jovem utilizou-se de um ponto cego para arremessar o falso herói…



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