Volume 5
Capítulo 150: Soberanos
Gael agarrou firmemente o cabo de sua espada, sentindo a resistência feroz que vinha da mandíbula de Emunn. Cada músculo de seu corpo tremia enquanto ele puxava a lâmina, lutando contra a força esmagadora do leão de fogo. A espada parecia presa, como se os dentes do enorme felino fossem garras de aço. Com um último esforço, ele conseguiu soltar a lâmina, arrancando-a com um som áspero. No instante em que o metal se separou dos dentes incandescentes, faíscas explodiram do contato, iluminando o ar ao redor, como pequenos fragmentos de fogo que dançavam no meio dos dois.
Gael avançou com a espada em mãos novamente, envolvida por chamas e rajadas de vento que circulavam ao redor da lâmina. Com um movimento veloz, ele desferiu o primeiro golpe em direção ao flanco de Emunn, mas o leão escapou com um salto preciso para trás. Silva girou rapidamente, impulsionando o fogo no segundo ataque, mas novamente o bestoj desviou com uma leveza impressionante. O terceiro golpe veio com o vento rugindo ao redor da espada, em um arco horizontal, mas Emunn se abaixou, evitando o corte mortal.
Frustrado, Gael reuniu toda a força e energia restante para o quarto ataque, um golpe direto e feroz, combinando as chamas e o vento em uma investida final. Mas Emunn, com uma precisão aterradora, se lançou contra a lâmina e, com um estalar de suas poderosas mandíbulas, travou os dentes ao redor da espada mais uma vez, imobilizando o ataque de Silva. O metal tremeu sob a pressão, e o garoto sentiu o impacto subir pelos seus braços.
Com os dentes cravados na lâmina, Emunn fez um movimento brusco, tentando esmagar a espada de Gael com a força de sua mandíbula. O metal rangeu sob a pressão, e faíscas saltaram do ponto de contato. A tensão entre os dois era palpável: o leão forçava seus dentes cada vez mais, determinado a partir a lâmina em pedaços, mas a espada, embora deformada e tremendo, resistia ao ataque.
Gael sentiu o peso do impasse se abater sobre ele. Cada músculo do seu ser que havia sido manifestado dentro do eixo estava exausto, e ele puxava a lâmina com todas as forças que lhe restavam, mas seu corpo já não respondia como antes. O suor escorria por sua testa, seus braços doíam com o esforço, e a espada continuava presa entre as garras afiadas dos dentes de Emunn.
Os olhos de Gael começaram a mudar novamente. O tom lilás que antes brilhava neles foi se transformando, ficando cada vez mais profundo, até se tornar um roxo escuro e intenso. Essa transformação nos olhos alterou toda a expressão do garoto. O suor que escorria por seu rosto desapareceu, e a tensão que marcava suas feições angustiadas deu lugar a uma calma imperturbável. Ele já não parecia mais o garoto exausto de antes; sua fisionomia serena transmitia uma confiança inesperada.
Ao sentir essa mudança inquietante em Gael, Emunn começou a rosnar com mais intensidade, seus olhos voltados para Silva, como se sentisse algo iminente vindo de dentro dele. As vibrações do rosnado reverberavam no ambiente e na espada, mas o garoto, agora tranquilo, não pareceu se intimidar. Ele ergueu o olhar, fitando o leão de fogo com uma frieza e, com a voz firme e pausada, proferiu as palavras:
— Valja āeksio ñuhe!
As palavras, estranhas e incompreensíveis para quem ouvisse, carregavam um peso que transcendia sua forma. Embora sem sentido aparente, tanto Gael quanto Emunn sabiam exatamente o que significavam:
— Saia da minha frente!
Assim que as palavras saíram da boca de Gael, Emunn reagiu imediatamente. O leão de fogo, que há pouco travava seus dentes com força na lâmina, abriu sua mandíbula, soltando a espada sem resistência. O som do metal finalmente livre ecoou no ar, enquanto a arma caía no chão com um baque surdo na grama.
Os olhos de Emunn, que antes brilhavam com ferocidade, agora demonstravam uma submissão silenciosa. Lentamente, o grande felino começou a recuar, suas patas flamejantes tocando o chão demarcando o lugar que deveria ir para ficar fora do caminho de Silva. A cada passo para trás, as chamas que envolviam seu corpo ondulavam suavemente, como se respeitassem a ordem de Gael.
Emunn continuou a se afastar, abrindo um caminho claro e direto para Gael em direção porta azul à frente.
Gael se aproximou da porta azul e disse:
— Briār!
Mais uma vez, Gael entendeu seu significado:
— Abra!
A porta então se abriu, mas antes de Gael entrar, Emunn disse:
— Você vai arriscar tudo entrando dessa maneira!
Gael apenas olhou para trás, dizendo:
— Nādrēbagon ziry vȳzir, sylut gōvīlaks ilu (Para salvar meus companheiros, vale a pena arriscar tudo!)
Gael passou pela porta, e ela se fechou logo após sua passagem. Quando o garoto se foi, Emunn recuperou o controle do próprio corpo, e foi nesse exato momento que ele ouviu uma voz:
— O protagonista desta história ficou mais ousado, não é mesmo? Nem parece mais o garoto sem graça que os leitores haviam apontado no começo desta light novel — a voz ria ao comentar, cutucando algo que não pertencia diretamente àquele mundo.
— O que Gael fez foi extremamente arriscado. Nós nunca ouvimos essa língua em todo o tempo que passamos com Rick. Será que é a pronúncia da Língua Antiga que se perdeu ao longo das eras? Porém o mais preocupante é que senti algo estranho nessa voz, e parecia ser nada bom.
— Mas existe um risco ainda maior do que esse — uma segunda voz se juntou à conversa.
— Sim — respondeu Emunn — eles virão atrás dele.
Em uma floresta distante de Elysium, uma garota com chamas ardendo em seus cabelos movia-se com agilidade impressionante. Ela saltava de galho em galho, usando cipós como se fossem cordas naturais, balançando e se impulsionando com destreza pelos troncos altos das árvores. A cada salto, as chamas de seu cabelo iluminavam brevemente o caminho entre as sombras densas da floresta, refletindo sua urgência.
O ponto de partida dessa corrida frenética era uma clareira oculta na floresta. No centro, erguia-se um altar ancestral, de onde nascia um rio. A água jorrava do altar, atravessando um vórtice esculpido na terra, descendo pela montanha até se encontrar com o mar.
Sobre o altar, uma lasca de pedra estava partida, sua rachadura irregular revelando que algo poderoso havia acontecido ali. Ao lado, um jarro de pedra jorrava água incessantemente, transbordando em uma corrente interminável que escorria pelas bordas como se fosse um milagre. No centro do altar, uma pira queimava intensamente com um fogo de tonalidade lilás, suas chamas brilhantes tremeluzindo de forma incomum, como se pulsassem com uma energia própria. Ainda no topo do pináculo, havia um cata-vento, uma bacia com água, um invólucro de vidro com uma rosa murcha e uma pequena lâmpada em pé; esses, não se via sinal algum de modificações.
Ao lado da garota de cabelos em chamas, uma sereia deslizava pelas águas cristalinas da cachoeira, descendo com graciosidade o fluxo impetuoso do rio que cortava a floresta. O corpo da sereia brilhava à luz do sol, refletindo tons de azul de sua cauda e verde das águas enquanto ela acompanhava a correnteza em direção ao coração da mata, onde o fluxo serpenteava cada vez mais rápido.
A garota, saltando entre as árvores, continuava a se mover com agilidade acima da vegetação densa, e, de sua posição elevada, já conseguia avistar o imponente salão do rei ao longe. Ele se erguia no meio da floresta, construído com pedras ancestrais, suas torres e colunas escondidas entre as copas das árvores gigantescas. As raízes e vinhas se entrelaçavam ao redor da estrutura, tornando-a parte viva daquele ambiente. O telhado, feito de folhas trançadas e musgos, brilhava suavemente com a luz que penetrava a densa cobertura da floresta, tornando o e o local era um marco imponente e quase místico no coração do reino.
Dentro do salão, a arquitetura impressionante revelava-se em sua totalidade. O espaço tinha sido esculpido aproveitando a parte oca da árvore colossal, com troncos grossos e retorcidos formando as paredes que se erguiam até o teto, onde galhos entrelaçados criavam uma cúpula natural. Tochas de fogo estavam posicionadas em nichos ao longo do espaço, suas chamas dançantes lançando sombras suaves nas superfícies de madeira e pedra, iluminando o local com uma luz cálida e oscilante.
No fundo, o trono elevado destacava-se com uma presença marcante. Feito de madeira robusta e antiga. O encosto do trono era coberto por peles de animais que faleceram com o tempo de vivência junto do rei, cuidadosamente estendidas e presas à estrutura de madeira, conferindo ao assento uma imponência selvagem e primitiva. As peles, de tons variados, mostravam sinais de desgaste pelo tempo, mas ainda mantinham a sua maciez e calor.
A garota de cabelos flamejantes desceu das árvores com agilidade, aterrissando suavemente no chão da floresta. Sem hesitar, ela disparou em direção ao grande salão. Ao se aproximar das imponentes portas de madeira, empurrou-as com força, abrindo-as de uma vez, fazendo as chamas das tochas oscilarem violentamente, enquanto entrava no local em uma corrida frenética.
Enquanto isso, a sereia que a acompanhava emergia das águas do rio. Suas caudas escamosas lentamente se transformavam em pernas humanas à medida que ela deixava a correnteza para trás. Com um movimento gracioso, a sereia assumiu a forma de uma mulher deslumbrante.
Dentro do salão, a voz poderosa da garota ecoou pelo ambiente. Ela gritou enquanto corria em direção ao centro:
— Rei Saci, Rei Saci! — Seu grito ecoou pelas paredes de madeira, atraindo de imediato a atenção de todos, que se voltaram para a figura determinada que quebrava a tranquilidade do grande salão.
A chegada repentina da garota atraiu a atenção de duas figuras que estavam conversando com o rei. O primeiro era um ser com a forma de lobo, mas com um corpo claramente humanoide. Ele permanecia de pé, com os braços cruzados sobre o peito. Sua pelagem cinzenta cobria seu corpo, densa e reluzente sob a luz das tochas, e ele vestia um macacão simples que parecia feito para suportar sua força robusta. Seus olhos, de um tom azul glacial, observavam a garota com frieza. Ele tinha, pelo menos, o dobro do tamanho da jovem de cabelos flamejantes.
Ao lado do lobo humanoide, o homem de físico impressionante vestia uma calça e camisa brancas, com uma longa capa que caía até a altura de suas pernas de mesma tonalidade. Seus braços estavam cruzados também, refletindo uma postura de calma e força. O cabelo, cortado baixo, era castanho, da mesma cor dos olhos atentos que observavam a entrada repentina da garota pelo salão. Sua pele morena reluzia sob a luz das tochas, e na cabeça, ele usava um chapéu panamá adornado com uma fita rosada.
Saci estava sentado em seu trono com uma postura relaxada, segurando o cachimbo na mão direita, de onde saíam pequenas nuvens de fumaça que flutuavam pelo ar. Seu gorro vermelho estava pendurado no encosto do trono, balançando levemente com a brisa quando a garota escancarou as portas do recinto. A barba volumosa e branca ocupava grande parte de seu rosto, enquanto seus cabelos, longos e presos em dreads da mesma tonalidade, desciam até os ombros, criando um contraste impressionante com sua pele negra. Seus olhos castanhos observavam o salão com atenção, e a coroa dourada em sua cabeça brilhava discretamente com crepitar das chamas no salão.
Até a garota entrar no recinto gritando pelo rei, ele estava com sua única perna batendo para cima e para baixo, ansioso pelas informações que recebia sobre os ataques das sombras nas demais dimensões. Mas, se aquela garota havia interrompido a reunião, era porque o que tinha a dizer era de suma importância:
— O que foi, Caipora? Qual é o motivo de todo esse alarde? O que está acontecendo? — questionou Saci ao ter a reunião com os dois à sua frente interrompida de forma brusca.
Caipora respirava fundo, o fogo em sua cabeça oscilando entre vermelho e o laranja a todo momento. Fazia muitos anos que não corria tão rápido assim:
— Vamos, Caipora! Fale o que aconteceu!
— Os sinais… os sinais estão prontos!
— Sinais? Que sinais?
Caipora caiu de joelhos no chão, com lágrimas escorrendo por seu rosto e soluçando de forma incontrolável. O rei, perplexo, trocou olhares confusos com os dois que estavam no salão, sem entender o que se passava. Nesse momento, a sereia que nadava silenciosamente no rio ao lado da garota surgiu no recinto. Ao passar pelas portas, todos os olhares se voltaram para ela. Não trazia mais a cauda característica de sua forma aquática; em vez disso, caminhava com duas pernas firmes, como se sempre tivesse sido humana.
Seu cabelo liso e negro caía pelos ombros, ainda úmido, revelando um brilho que refletia a luz das chamas. Sua pele morena parecia suave e brilhante, enquanto as íris dos seus olhos, profundamente negros, observavam a cena com uma seriedade quase impenetrável. No pescoço, ela usava um colar composto por centenas de finos fios que desciam até seu busto. Ao olhar mais de perto, podia-se ver que, nas pernas, ainda havia resquícios de sua forma anterior. Marcas de escamas cobriam suas coxas em tonalidade azulada, formando uma espécie de padrão que lembrava um short feito de pele marinha.
Sua presença era impressionante. Ela exalava uma beleza cativante, mas sua expressão não deixava dúvidas de que a situação era alarmante. Sua postura era firme, com os lábios cerrados, e os olhos transmitiam uma autoridade silenciosa chegando até o centro do salão.
Caipora, entre risos nervosos e lágrimas ainda escorrendo, conseguiu murmurar com a voz trêmula:
— Eu… eu não consigo… explicar… — ela chorava, mas, ao mesmo tempo, parecia rir de felicidade — Explique para o rei, Iara… por favor.
— O que está acontecendo, Iara? O que deu na Caipora? Ela normalmente é meio dramática e sentimental, mas eu nunca a vi nesse estado desde aquele dia… — Foi então que as peças começaram a se encaixar na cabeça de Saci — Não me diga que…
— Sim, aquilo que nós, Veremezys, mais esperamos por todas essas eras aconteceu — respondeu Iara, com Caipora chorando ainda mais — O Soberano da Terra, o Soberano da Água e o Soberano do Fogo estão no meio de nós novamente, assim como Elisha havia premeditado.
Fim do capítulo!
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