Possessão Brasileira

Autor(a): Matheus P. Duarte


Volume 1

Capítulo 33: A Luz da Escuridão

Cresci em uma família rica, mas sem luxos.

Minha disciplina era rígida: estudava em um colégio renomado, depois fazia aula de música e aprendia inglês nos fins de semana.

Quando olhava as crianças brincando na rua, andando com seus pais, fazendo alguma outra coisa que não ser a melhor, me perguntava: por que tenho que ser diferente?

Demorei tempo demais para entender, era tudo uma questão de status. A filha de um advogado bem-sucedido e de uma mulher que nunca trabalhou porque seu pai era dono de terras não poderia ser nada se não um exemplo de sucesso. Aposto que até o casamento deles deve ter sido algo acordado entre meus avós.

Não tinha, nem gostava de requintes de glamour como minha mãe ou se quer possuía estômago para advogar em nome de pessoas repulsivas cuja única linguagem que falavam era a do dinheiro.

Odiava do fundo do meu coração aquela mentira em que vivia, de sorrir para as câmeras, de apertar mãos ou ser abraçada pelos amigos deles que na verdade tentavam aproveitar o embalo do sucesso de ambos e depois falavam mal na primeira oportunidade.

Apesar de tudo, tinha só um que me entedia, meu melhor amigo…

Senti um estalo quente na bochecha.

Quando virei, vi ele me olhando, então percebi que, como tantas vezes, teve audácia de me beijar.

— Sem vergonha… — falei limpando o beijo.

— É assim que homem cumprimenta mulher no Brasil…

— Algum de nós têm cara de brasileiro?

Lembro até hoje dele todo arrumadinho naquela festa. Tínhamos 10 ou 11 anos.

Como sempre estava emburrada num canto, enquanto meu pai e minha mãe conversavam com os colegas de trabalho. Por algum motivo, nesses encontros, só nós eramos da mesma idade.

— Não precisa se chatear só senti sua falta.

Ele sentou no banco ao meu lado, olhando para a multidão no salão.

— Também senti…

Um alívio imenso veio quando falei isto, mas, ao mesmo tempo, meu peito palpitava como se fosse sair pela boca e, por mais que tivesse me preparado, tinha certeza de que fiquei mais vermelha que o chá de morango que estava tomando.

Minhas palavras não eram só pensamentos de uma garotinha apaixonada, também eram uma confissão, para o garoto de quem era mais próxima do que minha própria família.

— Tá muito cansada?

— Não, só entediada mesmo.

— Então vamos brincar lá fora — falou andando de costas para a saída.

— Acho…

Não deu nem pra terminar de falar e ele já tinha corrido para o jardim. Nem um minuto depois o vi tropeçar sobre um canteiro.

Caminhei despreocupada, não era a primeira vez. A questão é que não vi nada sair detrás das folhagens.

Quando cheguei perto, gemia desesperado segurando o pé.

— Torceu?

— Não… Bati muito forte com o dedo… numa pedra.

Sem pensar duas vezes arranquei o calçado dele e vi dedo mindinho claramente fora do lugar.

O coitado quase entrou em pânico quando viu, gaguejou alguma coisa sobre pedir ajudar. Eu, por outro lado, fiquei intrigada e sequer ouvi.

Sem perder tempo, o coloquei no lugar com um puxão. Só se ouviu o estalo seco.

— Vai ficar bem — falei enrolando os dedos com a meia para ficar imóvel — Se apoia em mim, melhor não caminhar.

Passei o braço dele por cima do pescoço e sai para encontrar seus pais.

— Obrigado.

— Não precisa agradecer.

— Por que não vira médica?

Por um instante, aquela ideia fez muito sentido na minha cabeça, tanto que fiquei incrédula de não ter pensado antes.

— Será que posso?

— Vamos, sempre gostou dessas coisas. Agora pouco você nem piscou…

— Assim me faz parecer fria.

— Mas a recém tava bem vermelhinha pra alguém fria…

Por um segundo senti vontade de largar ele ali mesmo, porém, a vergonha me deixou receosa demais pra fazer isso.

— //— // —

No fim, foi menos difícil convencer meus pais do que esperava, a final era uma profissão também de status.

Me esforcei para terminar os estudos e entrar na faculdade de medicina. Tinha só uma coisa que me fez desacelerar, a oportunidade de fazê-lo ir junto.

Sempre marcávamos de nos encontrar na mesma biblioteca, longe dos olhares dos nossos pais.

Estudávamos no mesmo lugar, em turmas separadas. Como evitávamos contato lá por conta dos curiosos, esse era nosso momento juntos.

Era comum por ser um colégio rico de haver noivos entre os alunos. Acho que era isso que pensavam quando nos viam, apesar de não sermos, entretanto, o pensamento me deixava genuinamente feliz.

Ficava me esforçando pra tirar as melhores notas, e pra fazer ele tirar também.

— Faz de novo, errou metade.

— Poxa, minha cabeça tá doendo.

— A minha também…

O coitado tentava, mas era muito mais lento que eu, ainda sim, precisava fazê-lo seguir o mesmo ritmo.

— Então, você vai fazer mesmo medicina?

— Vou, e você decidiu? — respondi sem tirar o livro da mão.

— Engenharia de software…

Parei de ler na mesma hora quando ouvi aquilo.

— Sabia que gostava de computadores, mas não tanto assim.

— É que queria aprender a programar, imagina as coisas que dá pra inventar…

Enquanto se explicava, fiquei pensando que estaríamos estudando bem próximos, aliás, por mais presunçoso que fosse da minha parte, isso significaria passar mais tempo um com o outro, noutra cidade, em uma nova vida.

Ser livre, fazer as coisas do meu jeito, criar meu próprio futuro, não depender de meus pais, não prestar contas a ninguém exceto a mim mesma.

Tudo parecia um sonho…

Quando o dia chegou, jamais poderia imaginar que estava caminhando para outro tipo de escravidão…

— // — // —

Pelos primeiros messes, tudo parecia um sonho.

Meus pais alugaram um apartamento próximo a faculdade, tanto que poderia ir a pé.

Podia acordar a hora que quisesse, mas continuava levantado cedo para correr na praça, depois fazia uma rotina de exercícios com os equipamentos que tinha em casa.

Pode parecer estranho, mas o sentimento de não ter ninguém para observar se estava fazendo na perfeição os movimentos, ou com a ilusão de saberem uma forma melhor, fazia, pela primeira vez, eu sentir que aquela era minha vida de verdade.

A faculdade era em tempo integral, então não sobrava muito para mim mesma, mas gostava do que fazia e não é como se praticar o autocuidado fosse algo pelo que prezasse tanto, alias, não tinha nem redes sociais e justificava por estar ocupada, porém, a verdade é que quando menos maneiras deles controlarem minha vida tivessem, melhor.

O mais importante, todos os dias me encontrava com ele durante o intervalo. As vezes ia mais cedo só pra sentar a seu lado na cafeteria.

Falávamos de tudo, pela primeira vez sem ter que ser escondido. Eramos tão imersos em nosso próprio mundo que parecíamos duas pedras no meio de um rio de pessoas, indiferentes a tudo e todos.

Meus estudos iam melhor do que nunca.

O mais legal era estudar como tudo surgiu. Testes com seres humanos, cirurgias sem anestesia, com sangue de animais, tudo tentativa e erro, uma curiosidade que não sessava.

Nem quando ia dormir…

O lado sombrio é que muitas vezes a medicina não foi usada para curar, mas sim para aprender novas formas de matar, somente para divertir os cientistas ou para inflar o próprio ego.

Muitos passaram por meus olhos, alguns da Alemanha, japoneses, soviéticos, muito mais parecidos com açougueiros que mantiveram a curiosidade cruel de crianças que brincam com insetos.

De repente, os bisturis, pinças e serras começaram a ter um significado diferente para mim…

Comecei com ratos, sapos, os bichos que nos davam para estudar, foi quando uma voz começou a indagar sobre minha própria curiosidade.

E se tirar uma perna enquanto ainda está vivo? Por quanto tempo viveria sem o rim? Quanto tempo prende a respiração antes de se afogar?

Quando me dei conta, não pensava diferente de um monstro em um campo de extermínio.

Um dia estava lendo sobre o desenvolvimento de armas químicas e de como eram usadas em combate. O assunto me deixou tão envolvida, que passei uma noite pesquisando sobre o assunto.

Foi quando conheci o campo 731 e aquele de quem era a voz…

No dia seguinte, estava perdida demais pensando no que havia visto, nem percebi quando tocaram meu ombro.

— Satsuki, tudo bem com você?

Por um instante fiquei boquiaberta, sem entender o que estava acontecendo, até olhar para o relógio da sala.

Meu amigo de infância tinha vindo me chamar para almoçar, com sempre fazíamos.

— Tudo, só meio cansada… — falei recuperando o fôlego.

— Olha, você fica estudando demais, precisa diminuir de vez em quando.

— É… Desculpa.

— Agora vamos pra não perder a hora.

Enquanto caminhava pelos corredores, fiquei pensando no quão afastada de tudo estava, até mesmo dele.

Aquela curiosidade estava cobrando um preço, alto demais para mim pagar, ainda sim, as vozes não paravam, minha luta continuava até na hora de dormir, mas, como aprendi minha vida inteira, não podia me dar dor vencida, principalmente por ele.

Um dia, em mais um encontro no terraço para almoçar, vi tudo que me sustentava desmoronar.

— Satsuki, queria que soubesse. Eu estou namorando…

Aquelas palavras simplesmente não faziam sentido.

— Eu sei, somos amigos desde muito pequenos, você gosta de mim, mas a verdade é que nunca lhe disse sim porque não queria te magoar. Gosto de você como amiga…

Comecei a tremer, minha respiração ficou ofegante e um calor subiu no meu peito.

Ele percebeu, tentou me abraçar, mas só corri, desesperada, pra longe.

Fiquei o restante do dia trancada em meu apartamento, chorando. Quando minhas lágrimas secaram, comecei a pensar como seria minha viver dali pra frente.

Como uma criança vivendo em um mundo de fantasia, romantizei meu futuro da forma mais idiota possível.

Não havia mais com quem conversar, para quem podia contar meu segredos, para quem podia pedir ajuda…

No silêncio, as vozes ficaram mais altas.

Pobre garota, vitima da ingratidão dos outros…

Aquela voz foi mais nítida que nunca.

Não se preocupe, tenho a solução perfeita.

— Quem é você?!

Achei que me conhecesse, a final estava estudando sobre mim. Sou sua curiosidade…

— // — // —

— Sabe o que conversamos? Sobre como cortaria seus tendões para que não se mexesse, arrancaria a pele de seu rosto enquanto tentaria gritar de desespero, mas não conseguiria, pois já teria perfurado suas cordas vocais e claro, tudo na frente dela, quem quer que fosse…

Satsuki começou a tremer incontrolavelmente

— Passei o dia seguinte o seguindo, até se encontrar com ela. Quando os dois estavam sozinhos usei um pano encharcado de sonífero roubado do laboratório para desmaia-los — As lágrimas começaram a correr por seu rosto — E… E…

Tentou continuar, mas já não se encontrava em condições de fazê-lo.

Mutsuki a observou desabar em prantos, então lentamente passou as mãos por entre os braços dela e a puxou contra seu peito, ficando manchada, sem se importar.

O tempo passou, os grunhidos e soluços foram ficando cada vez mais espaçados, a tremedeira diminui.

— Você viveria por mim, Satsuki?

Ao ouvir isto, afastou a cabeça e a encarou com um quê de dúvida.

— Não iria ter quem me cobrasse pra levantar cedo, ninguém pra correr junto… Nunca contei, mas sempre admirei muito o seu jeito determinado, a maneira como não perde o foco, mesmo naquelas situações em que eu tinha vontade de sair correndo. Você iria fazer falta na minha vida, então, não me faz perder outra amiga…

— // — // —

O corredor no andar de cima estava movimentado, com vários sons de passos podendo ser ouvidos por trás da porta de madeira do banheiro.

Mutsukinha — falou uma voz abafada — Dá pra agilizar?

— Terminando de me escovar — respondeu abrindo a torneira.

Ela fez gargarejo, pegou uma escova e abriu a porta.

— Sai que tô apertada!

A pequena quase atropelou, batendo a porta com força atrás dela, que ficou observando a cena penteando o cabelo.

— Nossa, Yuudachi. Quando você começa a costurar só para quando não aguenta mais.

Mas o vestido tá ficando tão bonito! Estou louca pra usar ele quando formos ao shopping!

Enquanto a jovem coçava a cabeça, uma voz veio chamá-la

— Mutsuki, faz um favor?

Por um instante surgiu a figura de Kasumi por trás da entrada do quarto ao lado, a qual seguiu.

— O que precisa? — perguntou entrando.

— Me ajuda a colocar o sutiã? Meu ombro ainda tá um pouco machucado.

A garota prontamente se colocou atrás dela como pedido, observando a cicatriz que manchava seu belo semblante.

— Pronto, acho que está cicatrizando muito bem.

Kasumi olhou para ela e sorriu discretamente.

— Tem falado com seu irmão?

— Não, mas sinto saudades. Queria perguntar tanta coisa, sobre ele, sobre nossa antiga casa, nossos pais, porém, isso tudo parecem memórias distantes, como de outra vida.

— Sei bem como é…

Ambas ficaram pensativas, com a mais velha terminando de se vestir.

Quando estava prestes a ficar só, fez mais um pedido.

— O dia que se encontrar com de novo, diga que mandei lembranças.

— Pode deixar — disse com um sorriso esperançoso.

Ao continuar em direção as escadas, o cheiro de café se tornou bastante a partir dos degraus.

Na cozinha, Satsuki estava passando café em um bule de ferro preto, com Matheus sentado na mesa limpando seu revólver e o fuzil que usou outro dia com um pano embebido em óleo.

— Você deve gostar bastante de café.

— Sim, ajuda a manter o foco quando estou lendo — respondeu servindo uma xícara.

— Pragmática até pra servir uma xícara — deu breve pausa ao perceber a outra presença — Bom dia, guria!

— Bom dia pra vocês também. A propósito, cadê a Asashio?

— Está no jardim, por isso ela é quem tá passando o café — disse apontando com a cabeça — vamos ver se é bom.

— Grãos de torra media clara, com notas levemente frutadas de caramelo e acidez,baixa…

— É… Acho que tá bom mesmo… — falou um tanto boquiaberto.

— Já venho me servir — falou sorrindo para a amiga, antes deixá-los e ir para a porta da frente.

Logo ao lado, havia o som de madeira sendo cortada.

Vykhodila na bereg Katyusha, na vysokiy bereg na krutoy.

Cantarolando, estava a figura maternal da casa, usando um machado para fazer gravetos.

— Que música bonita…

— Olá, querida. Dormiu bem?

— Sim, me sinto ótima, vou até sair para correr depois. Está música que está cantando é uma marcha, certo?

— Sim, cantava bastante no treinamento.

— O que está fazendo?

— É para ajudar as flores que estragamos outro dia. Vou fazer uma armação para se agarrarem quando crescerem de novo.

— É, vi ele olhando bem chateado pra elas outro dia.

Enquanto conversavam, ouviu-se o barulho do portão da frente.

Uma mulher de feições americanas entrou carregando uma enorme bolsa verdade, trajando uniforme militar com saia, coturno feminino, boina e com cabelo ruivo preso. Seu corpo era esbelto, a cintura acentuada, as pernas finas, porém musculosas e o rosto arredondado.

A expressão que carregava era severa, virada fixamente para as duas.

What you have done with my husband´s flowers!? — esbravejou andando a passos largos em direção a elas.

— O que foi? — sussurou Mutsuki.

— Não entendi direito, mas é sobre as flores.

What are you doing here and who are you? — pergunta de forma impaciente

Slow down! Don´t enter without being invited! — falou Asashio de forma tão brava quanto ela.

Invited!? This is my home! — falou mais furiosa do que nunca

— Sua casa? — respondeu relaxando um pouco, com bastante estranheza.

Matheus veio de encontro àquela comoção, parando imediatamente ao ver as costas da invasora.

— Mary?!

Como mágica, toda sua postura agressiva desapareceu, virando quase em um salto para trás.

Math!

Eles correram eufóricos, se atirando de braços abertos um contra o outro.

As demais vieram de dentro da casa, parando para observar os dois a partir da entrada.

I missed you…

Também senti sua falta — respondeu em português.

Os dois afrouxaram o longo abraço apertado e se encararam, a felicidade estampada em seus rostos, logo antes de um beijo.

As garotas ficaram trocando olhares, buscando por respostas, mas o nenhuma havia como saber o que estava acontecendo.

— Senhoritas, deixem-me apresentar o grande amor da minha vida…

— // — // —

— Destruíram meus hibiscos, arranharam as paredes, ferraram a grama toda, me deram uma sova, estragaram minhas roupas com cinza e fuligem e isso que lhes dou casa, comida, roupa lavada e cama, enquanto tenho que dormir no sofá…

Asashio estava trazendo o café junto de Satsuki, com comida para servi-los na sala.

Mutsuki e Yuudachi sentaram uma ao lado da outra no sofá, enquanto Kasumi permanecia mais retirada, escorada na parede e ele e sua esposa ao lado da lareira, ela sentada na poltrona.

Mary olhou para elas com tamanhã severidade que começaram tentar disfarçar, mas só tornaram o seu incômodo ainda mais evidente.

— Entretanto, fico feliz de todas estarem bem… Passamos por muita coisa, vimos demais, nos tornamos amargurados de diversas formas…

Pausou quando a mulher agarrou sua mão que estava por cima do ombro dela.

— Não vou mentir, tenho dor nas costas de dormir no sofá, estou triste de ver meu gramado naquele estado, cuidar de vocês dá muito trabalho e tira meu sono — riu brevemente — Mas acredito ser o certo e só eu posso fazê-lo.

Parou para servir sua cuia de chimarrão e tomou um gole.

— Nossa luta não é só contra demônios, mas também contra nós mesmos. Fico feliz deste ser um fardo que não somos obrigados a carregar sozinhos. Agradeço a Deus por todas as dificuldades que passei, pois me levaram aqui hoje, agradeço a ele por fazer parte de suas vidas, agradeço a esposa que tenho, agradeço por meus amigos… E meu único arrependimento é não conseguir fazer mais…

Todas permaneceram em silêncio, até Mary quebrá-lo com a ranger da poltrona, quando foi abraçá-lo.

Yuudachi caminhou até eles e o envolveu com os braços, de olhos marejados. Depois seguiu Mutsuki e asashio, partilhando do abraço, quando a segunda chamou a distante Kasumi, faltando apenas Satsuki, a qual foi chamada por Matheus com a mão estendida.

Mesmo hesitante, por fim acabou cedendo, ficando debaixo do seu braço.

A paz durou algum tempo, pouco afetada pelo assovio do vento nas janelas.

— Muito bem, foi bom, mas vamos desgrudar, não quero todo mundo ficando sentimental — pausou enquanto se separavam — Também sou muito pouco homem pra tanta mulher.

Imediatamente recebeu um puxão de orelha de sua companheira.

Não precisa ficar assim, querida. Não tenho culpa de ser amado…

Sabe que vou te colocar para capinar o pátio, pintar a casa e te fazer correr tanto que não vai nem conseguir mais deixar o soldadinho em posição de sentido, né?

Mas aí não ficaria ruim pra você também?

Bom argumento…

Todas olharam com interesse a imensa intimidade entre os dois, apesar de falarem em uma mistura de português e inglês.

— Essa conversa me lembrou de tanto coisa — falou limpando o sorriso, olhando uma por uma — Por que não contamos de como nos conhecemos, Mary?

Ela o observou com desconfiança.

Não acho que seja uma boa ideia.

Nós soldados somos mais fortes quando compartilhamos sobre nós com nossos parceiros. Somos como uma família e estamos dispostos a morrer um pelo outro. Elas tem o direito de saber…

Ele recebeu a confirmação através de uma aceno com a cabeça.

Gurias, já viram que mudei meu tom e acredito que saibam o que isso significa.

Imediatamente reagiram, redobrando a atenção.

Sei muito sobre vocês, mas muito pouco sabem sobre mim, por isso, acho mais do que justo contar sobre minha possessão.

Mutsuki olhou como um soldado para essas palavras, Yuudachi vestiu uma expressão penosa, Satsuki ficou desconfiada, Asashio se espantou e Kasumi abriu um leve sorriso de malícia.

A história que vou contar não é sobre a vida que gostaria de viver, mas sobre a morte que queria ter…

 

De quando fui destinado a morrer…



 

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