Possessão Brasileira

Autor(a): Matheus P. Duarte


Volume 1

Capítulo 26: Busca

Me atirei debaixo do chuveiro pra tentar me lavar. Quando terminei, peguei algumas mudas de roupa e fugi para onde o vento me levasse.

Kasumi olhava pela janela, melancólica, evitando ver Keishi.

No fim, por mais que as vozes parecessem serem de outra pessoa, no fundo sentia como se fossem minhas. Minha raiva, meu desejo de afogar o ressentimento do meu passado fez viver em mim aquele quem mais odeio.

Ele ficou quieto, esperando.

Pode olhar pra mim?

Muito hesitante, ela levantou o olhar, mordendo o canto da boca.

Por mais que tenha se mantido por alguns instantes, demorou pouco até não resistir.

Você se perturba com o que aconteceu?

O silêncio foi a resposta.

Mas você nos salvou.

Seus olhos voltaram a encontrar o rosto sério, mas sereno.

Não foi por vocês, foi pelo meu egoismo em querer destruir esses desgraçados. Foi pra saciar meu próprio ódio e isso não me faz melhor que nenhum deles…

Keishi levantou e puxou a cadeira para mais perto.

Porque escolheu ajudar a Kaori quando aquele traste arrancou as unhas dela?

As vozes… Não, a verdade é que não as escutei, mas sei muito bem o que disseram — A mulher virou-se para ele, lançando as palavras como uma confissão — Participe…

O irmão de sua amiga enrijeceu, incapaz de manter a serenidade.

Um mar de ódio brotou em mim, e por isso descontei nele, como se tentasse através disso matar o que está em mim.

Keishi deixou o tempo passar e respondeu.

Então, você venceu.

Kasumi abriu os olhos e tentou murmurar alguma coisa, mas desistiu.

Acredita em Deus?

Porquê acreditaria?

Aquele que tentar manter a sua vida, a perdera, mas quem escolher carregar a sua cruz e me seguir, invés de perdê-la, a encontrara. O versículo não é assim, mas essa é a melhor forma que encontrei de torná-lo mais compreensível.

Ele desviou o olhar para a lua que brilhava no céu noturno de forma a refletir.

Uma vez li um artigo onde Freud falava sobre um de seus alunos mais promissores, chamava-se Frankl. Depois de sobreviver a quatro campos de concentração, ele aperfeiçoou sua teoria sobre o sentido da vida. O que o fez superar algumas das piores condições de vida que um ser humano pode suportar foi a capacidade de transcender a si próprio, se dedicar tanto a algo a ponto de esquecer de si mesmo.

Voltou-se para encarar sua salvadora.

Você diz que foi por puro egoismo, mas não é verdade. O primeiro passo para se amar o bem é odiar o mal.

Ela ficou olhando para o chão, vendo seu tímido reflexo nos ferros na lateral do leito.

Acha que posso me tornar uma pessoa melhor seguindo esse caminho?

A mão dele veio tocar seu ombro, deixando-a trêmula, e respondeu em tom resoluto.

Por muitos sou tratado como o irmão de uma criminosa, talvez tão culpado quanto ela. É os odiando que consigo amá-la cada vez mais, então, posso dizer, com certeza. Você não precisa mudar para seguir um bom caminho, e sim o próprio é que irá mudá-la.

Kasumi encheu os olhos de lágrimas, mas não derramou uma única gota, preferindo se enrolar na mão que a tocava, enquanto ele fechava o outro braço ao seu redor.

Ao lado da entrada, Kaori observava a cena nas sombras, com um olhar triste e a mão direita apertada sobre o lado esquerdo do peito.

// — // —

Mutsuki estava estática, praticamente no mesmo lugar desde de que havia entrado no quarto.

Kasumi… Você gosta do meu irmão? — perguntou com uma voz penosa.

Ela enrijeceu os lábios com amargor e acenou com a cabeça.

Após alguns instantes em silêncio, seus olhos buscaram refúgio ao longo dos objetos a volta.

Quer dizer alguma coisa?

Acho que… Obrigada? Digo, por confiar em mim. Sei o quão difícil é falar dessas coisas, mas é tão bom depois que se abre com alguém.

Diz isso mesmo sabendo do meu passado?

Mutsuki olhou nos olhos dela e respondeu.

Você não é como eles, dá pra ver que está tentando mudar, que está se tornando uma pessoa melhor ela mordeu levemente os lábios, terminando com uma voz chorosa.

Por que está chorando?

Aquele sentimento amargo, as coisas que vi, tudo isso ainda me machuca. Você consegue falar do seu passado com tanta facilidade e, por mais que seja duro, não se deixa levar. Eu, por outro lado choro, até pelo que os outros passam. Gostaria de poder ser forte como você…

Seu olhar se tornou distante, desfocado.

Kasumi reagiu, recuando e se preparando para saltar da cama, porém, tudo acabou poucos instantes depois em um sorriso.

Mutsuki voltou si e voltou-se intrigada para sua colega.

Desculpa, não queria te assustar, é que as vezes fico um pouco tonta quando ele fala comigo, hahaha.

Aos poucos a tenção foi saindo de seus músculos, mas não a desconfiança.

Isso acontece com frequência?

Não muita. No começo, é claro, me importava bem mais, só que acabei acostumando. Hoje entendo, não havia outro jeito, e se não fosse por ele… cerrou os dentes levemente Dá pra dizer que sou grata. Mesmo agora, ele veio me animar.

Te animar?

Você não é fraca. Precisa ser muito forte pra aguentar tanta amargura sem perder a compaixão.

Kasumi olhou de um lado para outro, reflexiva.

É verdade… Asashio iria gostar de ouvir isso.

Asa… Mutsuki apontou o dedo contra o queixo e exclamou Esqueci completamente do jantar!

Seu corpo foi lançado quase como um vulto, batendo a porta do quarto com mais força que devia e descendo a escada aos tropeços.

Quando chegou a cozinha, o som de pratos veio logo antes de poder ver a silhueta de uma mulher.

Vestindo um sorriso com toda gentileza do mundo, falou no costumeiro som tom maternal.

Calma, guardei um pouco pra vocês.

Desculpa… Eu… tentou continuar, mas estava ofegante demais.

Não, querida, tudo bem. Achei melhor deixar vocês sozinhas.

A jovem ficou em silêncio, franzindo levemente o cenho, com um olhar preocupado.

Asashio espiou com o canto dos olhos e terminou de enxaguar o último prato antes de virar.

Não se preocupe, nem cheguei perto de lá. Apenas imaginei que precisavam de um tempo.

Ela caminhou e juntou suas mãos as dela, em um gesto de afeto

Quer me contar?

Bem… Fiquei feliz dela ter confiança em mim, de ter salvo meu irmão… disse olhando-a nos olhos.

Asahio vestiu uma expressão de pena.

Mutsuki…

Não balançou a cabeça Sei que pensaram que eu poderia me deixar levar pela emoção, e não estavam errados pausou levando uma mão a testa Não tenho sua maturidade, a inteligência da Yuudachi, a disciplina da Satsuki, nem a resiliência da Kasumi. No fim, sigo dependendo de vocês…

Querida, você passou por muito coisa, não pode se cobrar tanto. Você é muito mais forte do que acha, e… Sabe que não somos perfeitos.

Ela olhou em direção a sala de estar, chamando sua atenção.

Quando virou, duas figuras cobertas pela penumbra estavam sentadas sobre o sofá, Matheus com Yuudachi deitada no ombro.

A coitadinha pediu desculpas de novo pra ele e começou a chorar baixinho até pegar num sono. Satsuki está trancada de novo no quarto, só posso rezar que esteja bem. Me sinto impotente, porque não posso fazer nada, no máximo um prato de comida pra animá-las…

A jovem tentou murmurar alguma coisa, mas a próxima pergunta veio mais rápido, acompanhada de uma mudança visível no semblante de Asashio.

Como você lida com as vozes?

Eu… Converso com ele, de vez em quando.

As mãos se soltaram, como se todo o interesse anterior houvesse desaparecido e ela vestiu uma expressão um tanto irritadiça.

Conversa? constatou dando de costas, se aproximando da geladeira.

Bem, algumas vezes mais sinto que escuto, como se soubesse aquilo que vai me dizer e dai… É como se fosse uma lembrança distante.

Se sente bem fazendo isso? — falou retirando do congelador um pouco de gelo, apertando-o com bastante força.

No começo… — mordeu os lábios levemente antes de continuar — Era horrível, tudo porquê não entendia ele, por minha ingenuidade. Hoje me sinto dependente… As vezes só queria ser eu mesma e não depender tanto dos outros.

O punho de Asashio apartou consideravelmente, fazendo o gelo derreter e escorrer por entre os dedos. Em contraste a isso, os músculos em torno dos olhos ficaram relaxados, ao mesmo tempo que seus lábios formavam um riso com um quê de forçado.

Não tem nada de errado em seguir os exemplos que acha certo. Pode parecer mentira, mas sou muito mais dependente do que você imagina… Vá comer e leve um prato pra Kasumi.

O corpo de Mutsuki continuava rígido, com o olhar atento. Em contrapartida, balançou a cabeça e fez o que lhe foi pedido, enquanto Asashio desaparecia no breu do interior da casa.

// — // —

O corredor estava escuro, levemente iluminado pela luz azulada da lua.

Nos fundos, sentada de costas na porta, Asashio resmungava para si.

O som dos tiros se misturando com artilharia; Tão nostálgico quanto o de chuva antes de dormir.

Sua mão direita estava roxa e pingava algum líquido pela ponta dos dedos.

Era quando nos preparávamos, ansiávamos pelo que estava por se seguir. Alguns pela glória, outros pelo dinheiro, mas eu era diferente. Era como um esporte…

Aos poucos o ranger das madeiras começava a ser ouvido lentamente, vindo do andar de cima.

Ela olhou com os olhos de um caçador e rapidamente levantou, sem fazer ruido, caminhando um passo de cada vez.

Uma sombra vinha descendo pela escadaria com igual discrição, trajando uma calça e camisa social, cabelo penteado a aparentemente recém-lavado.

Asashio ficou a espreita, enquanto via sua silhueta se aproximar da entrada, obviamente fechada.

Negando a desistir, voltou-se em direção aos fundos, tendo seu rosto iluminando.

Satsuki… — suspirou, encolhendo ainda mais nas sombras.

A garota andou direto para a porta de trás, só para descobrir estar destrancada.

Com extremo cuidado, andou para fora da casa, mas continuou sendo seguida.

Sua colega a viu atravessar o pátio até a garagem ao fundo, apertando a mão roxa com força ao vê-la fazê-lo.

O portão seguia preso com correntes seguradas por um cadeado.

Do bolso, retirou um par de chaves e as colocou viradas uma contra a outra por dentro dele e começou a forçar, não demorando até partir.

As correntes foram postas sobre a grama cuidadosamente e ranger foi mínimo possível, pouco mais alto que os galhos das árvores nas proximidades.

Com uma lanterna em mãos, ficou alguns instantes observando os itens em volta, até o feixe parar ao lado da mesa com ferramentas.

Lentamente se aproximou e largou a luz sobre uma caixa de ferramentas, voltada para algumas cordas penduradas.

Ela pegou um banco próximo, subiu nele e jogou a corda acima das vigas no teto, então fez um laço e ficou encarando o círculo a sua frente que circundava seu pescoço, de mãos trêmulas como se estivesse segurando algo realmente pesado.

Um chute a fez perder o equilíbrio e cair.

Odeio covardes… falou Asashio depois de cuspir nos pés dela.

Então a levantou do chão pelos cabelos.

É fácil simplesmente fugir como uma cadela assustada.

O brilho outrora maternal em seus olhos não estava lá ou sequer resquícios.

Seu punho atingiu o estômago de sua colega três vezes seguidas, a empurrando contra a parede.

Satsuki encolheu e tentou puxar o ar para dentro dos pulmões, entretanto foi erguida pela gola da camisa.

Faz tempo que quero te bater desse jeito. Fica o dia todo no quarto, fechada que nem uma garotinha mimada, se cortando por sei lá que fetiches tem e agora quer dar um fim a própria miséria?

Asashio a arremessou por cima a mesa repleta de ferramentas, lançando-as pelo ar com um barulho estridente.

Vamos, porque não usa sua possessão?

O olhar de desgosto que tinha era desprovido de qualquer empatia, tomado apenas pela repulsa.

Vai continuar quieta? Nem mesmo vai se defender?

Caminhando em direção a ela, seguiu golpeando-a, primeiro no rosto, depois com o joelho no abdômen e, por fim, jogou sua cabeça contra uma viga ao lado.

Satsuki permaneceu imóvel, como uma marionete que teve as cordas cortadas.

Pelo visto vou precisar arrancar as palavras de você disse agarrando um alicate que havia voado para perto de onde estavam.

Sem reagir, a mão foi erguida e logo um dos dedos passou a repousar no meio da junção. O crack foi imediatamente seguido do barulho estridente de seu grito.

A jovem se contorceu violentamente no chão, mesmo a beira das lágrimas, sendo escarnecida pela risada crua de Asashio, que continuou a chutá-la.

Quando terminou, a mesma tossia entre soluços, com dificuldades para respirar.

De repente o som característico de uma arma sendo engatilhada surgiu atrás dela.

Isso não me soa muito maternal.

Estática, sem se virar, respondeu.

Não vai puxar o gatilho. É mole demais pra fazer o que precisa ser feito.

O dedo foi posto sobre o martelo do revólver, então desarmado e a arma posta de no coldre.

Indiferente a resposta inesperada, Asashio imediatamente partiu para cima dele, golpeando-o com o alicate.

Matheus aparou o ataque antes de ser atingido e os golpes que sucederam, evitando ser atingido no rosto, mas recebendo boa parte deles nos braços, pernas e estômago, sem alterar o olhar afiado, desprovido de qualquer sentimento se não a atenção extremamente apurada.

Visivelmente frustrada, escolheu usar as mão nuas para continuar, utilizando alguns golpes nas pernas para tentar derrubá-lo.

Em mais uma tentativa de acertá-lo, seu braço atravessou a lateral da cabeça, porém, o outro veio por trás formando uma pinça, com força suficiente para jogá-lo ao chão

Com os joelhos apertando as mãos, Asashio ficou parada sobre ele, encarando a expressão pouco alterada no decorrer da luta.

Ao menos revidou. Gente como você, que não tem coragem de sujar as mãos, me enoja.

O punho dela veio de encontro com a lateral da boca, arremessando a cabeça dele para o lado com contundência

Matheus tornou a virar os olhos de volta para ela, exatamente da mesma forma de antes, entretanto, abriu um sorriso e soltou uma risada discreta de escárnio.

Já vi prostitutas baterem mais forte que você.

Outro soco veio ainda mais intenso que os outros, seguido de uma sequência que conseguiu fazê-lo cuspir sangue.

Já acabou?

Asashio tentava controlar a respiração, mas cerrou os dentes ao ouvi-lo dizer o que disse.

Achei que odiasse gente fraca, então como vive consigo mesma? falou com sangue escorrendo dos lábios e de uma das pálpebras.

Ela começou a tremer aos poucos, olhando para as mãos levemente roxas.

O que foi que eu fiz?

Com essa idade e ainda não sabe? É só um daqueles dias falou sorrindo e continuou Depois que a raiva passa, depois que sacia sua vontade, chega um ponto em que ela te consome e no fim não resta nada se não o vazio… É nessas horas que algo precisa preenchê-lo.

Asashio saiu de cima dele e começou a chorar, sem alarde, apenas deixando as lágrimas escorrerem, quase como se não fossem suas.

Seu líder sentou contorcendo o rosto, com ela logo em seguida tirando um pano do bolso de trás da calça para limpá-lo, delicadamente.

Obrigado.

Não agradeça, fui eu quem fez isso.

Ele a observou, tanto o rosto que desviava o olhar quanto o resto de seu semblante, bem menos agressivo que antes.

Está pedindo desculpas por ela?

Não, já faz tanto tempo que não diferencio mais. Ambos somos eu.

Matheus a encarou mais um pouco, quando um barulho chamou-lhe a atenção.

Satsuki não estava em lugar algum, apenas o rastro de desordem da luta que ocorrerá lá, junto da corda balançando sob as vigas.

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